Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 3 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo II

 

Quando a noite caiu, as ordens de Spartacus já tinham sido cumpridas. Usando pedaços de madeiras, carroças romanas apreendidas e equipamento abandonado, uma fogueira enorme fora acesa à beira do acampamento do exército. As chamas se erguiam altas no céu noturno, irradiando um forte calor que criava uma barreira, afastando o ar frio da montanha. Rebanhos de carneiro e gado do campo abandonados por Gellius tinham sido mortos e despedaçados. Lanças serviam de espetos improvisados para assar pedaços sangrentos de carne na fogueira. Os pescoços das garrafas tinham sido quebrados para facilitar o acesso ao vinho nelas contido. Por todos os lados, os homens bebiam, riam, brindavam. Alguns dançavam embriagados ao som das batidas de tambores e apitos e liras. Os sons dos diferentes instrumentos se misturavam em uma cacofonia confusa, mas ninguém se importava. Era hora de comemorar. Eles tinham sobrevivido a mais uma batalha, derrotado o segundo cônsul romano, que fugiu com o exército. Os soldados de Spartacus se sentiam como os heróis conquistadores da lenda, e o líder deles era o maior de todos. Gritos espontâneos entoando seu nome não cessavam. Sempre que ele surgia, os homens lhe ofereciam bebida, davam tapinhas em suas costas e juravam lealdade eterna.

Carbo também ouvira os boatos. Não acreditou muito neles. Nervoso, ele estava com Navio, um homem atarracado de maçãs do rosto altas e olhos de cores diferentes. “É estranho”, pensou Carbo, ao observar os milhares de ex-escravos. “Eles são meus companheiros, mas estou com outro romano.” De umas seis raças distintas, os homens tinham tamanhos e formas diversas. Gladiadores de rostos sérios, pastores claros e trabalhadores de pele bronzeada. Gauleses de cabelo comprido, alemães fortes e trácios tatuados. Suas armas ainda estavam ensanguentadas da batalha travada contra o exército de Gellius. Vestidos com cotas de malha romanas e placas de metal para proteção do peito, com túnicas simples ou até de peito nu, eles formavam uma visão temerosa e ameaçadora.

— Ele vai mesmo fazer isso?

— Pode ter certeza.

— É bárbaro.

Navio lhe lançou um olhar torto.

— Brutal ou não, é a justiça, na opinião de Spartacus e de seus homens.

— Ele tem que sacrificar tantos homens?

— É uma prática comum dezenas de gladiadores lutarem em uma missão e depois comemorarem a morte de uma pessoa. Você sabe disso. Hoje Spartacus está homenageando a memória de milhares de companheiros. Não surpreende ele ter escolhido tantos legionários.

— Você não se importa? — questionou Carbo, meneando a cabeça na direção dos quatrocentos prisioneiros ali perto. Os homens de Spartacus os cercavam em três lados, empunhando espadas. O quarto lado permanecia aberto em direção à fogueira. Ali, uma pilha de espadas havia sido disposta. — Eles são nosso povo.

— Contra o qual você lutou hoje. Que você matou.

— Foi diferente. Foi uma batalha. Isso...

— Eu odeio tudo que a República representa, lembra? — Navio o interrompeu. — Meu pai e meu irmão mais novo morreram lutando contra homens como esses. Por mim, eles podem ir para Hades.

Carbo se calou diante da fúria do outro. Navio e sua família tinham seguido Quintus Sertorius, um incentivador de Marius. Depois da morte deste, o Senado proscreveu Sertorius. Traído, Navio lutou por Sertorius contra a República por muitos anos, mas, por fim, sua sorte na Ibéria acabou. Contudo, Carbo acreditava que uma coisa era derrubar o próprio rei em uma batalha, numa situação de matar ou morrer. Outra totalmente diferente era fazer com que os prisioneiros lutassem uns contra os outros até a morte. A ideia o revoltava. Ele resolveu falar com Spartacus.

Não tardou para que o líder aparecesse, acompanhado por Ariadne, Castus e Gannicus. Atrás dele, vinham soldados carregando quatro águias prateadas e um grande número de estandartes. Havia até vários conjuntos de fasces, peças cerimoniais carregadas por guarda-costas do magistrado e os símbolos da justiça romana. Um forte grito foi ouvido quando o trácio parou ao lado do monte de armas. Apesar de sua raiva, Carbo ficou maravilhado ao ver seu líder com os troféus de batalha.

Não era de se estranhar que os olhos aterrorizados dos prisioneiros tenham se concentrado em Spartacus. Eles sabiam quem ele era, ainda que não o reconhecessem. O trácio era famoso e tido como um monstro pela República, um homem imoral, que desafiava todas as normas da sociedade. E ali estava ele, uma figura de cabelo raspado com armadura romana, braços musculosos e a lâmina da espada cobertos pelo sangue dos adversários. Comum, sob muitos aspectos. Mas, ainda assim, tudo nele, desde o rosto inexpressivo aos punhos cerrados, inspirava medo e ameaça de morte.

— SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS! — gritavam os escravos.

O trácio ergueu os braços agradecendo o clamor de seus homens.

Castus lançou um olhar amargo a Gannicus, que foi retribuído. Ninguém notou.

Ignorando o pedido de Navio para que esperasse, Carbo se aproximou de seu líder.

— Podemos conversar?

— Agora? — A voz de Spartacus era séria. Fria.

— Sim.

— Seja breve.

— É verdade que todos esses homens, menos um, morrerão lutando uns contra os outros?

Spartacus o encarou.

— Sim.

— Então é verdade! — disse Gannicus.

— Algum problema? — resmungou Castus, tocando a lâmina da espada com o dedo.

Carbo permaneceu onde estava.

— Eles merecem coisa melhor.

— Merecem? Por quê? — De repente, Spartacus estava bem diante dele. — É assim que gladiadores de todos os cantos da Itália morrem todos os dias, para a diversão de seus cidadãos. Muitos, senão a maioria desses lutadores, não cometeram crime nenhum. — Spartacus percebeu que os gauleses concordavam. — O que estamos prestes a ver é só uma inversão de papéis.

Era difícil negar a lógica, mas ainda assim Carbo se sentia contrariado.

— Eu...

— Chega! — vociferou Spartacus, e Carbo abaixou a cabeça. Se dissesse mais alguma coisa, colocaria em risco sua amizade com o trácio, sem falar que poderia ser atacado por um dos gauleses. Observou, ressentido, seu líder levantar as mãos e o silêncio recair sobre eles. — Não chamei vocês aqui para parabenizá-los por suas ações na batalha contra Gellius hoje. Todos vocês sabem como admiro sua coragem e lealdade.

Spartacus permitiu que seus seguidores comemorassem e então continuou:

— Estamos aqui por um motivo diferente. Um motivo triste. Soubemos da morte de Crixus e de dois terços de seus homens. Eles pereceram em uma batalha amarga contra Gellius no monte Garganus, há cerca de um mês.

Os ex-escravos que observavam emitiram um suspiro alto.

“Eles escolheram o próprio destino”, refletiu Carbo. “Foram com Crixus, o desgraçado.”

— Assim como honramos nossos mortos, devemos honrar Crixus e seus guerreiros derrotados. Peçam aos deuses para que não se esqueçam deles, para que permitam a todos eles adentrar no Elísio. Existe maneira melhor de fazer isso que não celebrando nossa vitória? — Quando ouviu um uivo animalesco de seus seguidores, Spartacus apontou a pilha de gládio. — Cada prisioneiro deve pegar uma espada. Formem duplas e deem a volta no fogo até receberem a ordem para parar. Quando eu mandar, vocês lutarão em pares até a morte. Os sobreviventes enfrentarão uns aos outros, e assim por diante, até restar apenas um homem.

Os gritos ensurdecedores dados em resposta às ordens de Spartacus abafaram a reação de choque dos romanos. Dezenas de homens se movimentaram entre eles, cortando as cordas que os amarravam. Nenhum dos prisioneiros deu um passo sequer. Spartacus meneou a cabeça e os guardas começaram a cutucar os legionários com as espadas. Alguns sangraram, o que causou zombarias e vaias sobre os cativos. Aquilo era melhor do que os ex-escravos podiam sequer sonhar.

Ainda assim, nenhum romano se mexeu para pegar um gládio.

Carbo sentiu um orgulho perverso diante do que via. “Eles não perderam totalmente a coragem.”

— Armem-se! — gritou Spartacus. — Contarei até três.

Um oficial com um capacete romano de um centurião passou à frente da multidão de prisioneiros. O cabelo grisalho, a aparência abatida e as várias condecorações costuradas a seu peito revelavam a extensão de sua carreira — e de sua coragem.

— E se nos recusarmos?

— Serão crucificados, um a um. — Spartacus falou alto para que todos escutassem. — Bem aqui, para os outros poderem ver.

— Os cidadãos não podem ser... — O rosto do centurião corou, e sua voz falhou ao perceber que a alternativa tinha sido muito bem-escolhida por Spartacus. Os romanos tinham a opção de uma morte desonrosa, porém redentora na espada, ou o destino mais degradante possível para um cidadão. O centurião refletiu por um instante, e então deu um passo à frente para pegar um gládio. Endireitando-se, olhou para Spartacus. Cerca de dez passos e seis homens os separavam.

O trácio sorriu, e os nós de seus dedos empalideceram com a pressão no cabo da sica.

— Se quiser, há uma terceira opção. Eu acabaria com a sua vida depressa, mas não posso garantir que meus homens fariam o mesmo.

— Se me der meia chance, corto as bolas dele e faço com que ele as coma — rosnou Castus. — E isso só para começar.

Outros homens gritaram o que gostariam de fazer com o centurião e com todos os seus companheiros. Carbo tentou endurecer o coração diante dos destinos sugeridos aos prisioneiros, mas não conseguiu. Aqueles soldados eram seus inimigos, mas não mereciam ser forçados a matar uns aos outros, muito menos ser torturados até a morte. Contudo, ele não podia dizer nada. A paciência de Spartacus já estava esgotada.

Spartacus ainda encarava o centurião.

— E então?

O oficial abaixou a cabeça e deu um passo para o lado.

— Próximo — chamou o trácio.

Intimidados ainda mais pelo retraimento do centurião, os legionários, com tristeza, deram um passo à frente e foram pegar uma espada.

Spartacus fez um pedido a Dionísio e ao Grande Cavaleiro: “Permitam que o sangue destes romanos seja uma oferta adequada a vocês dois, ó, Grandes Senhores. Permitam que Crixus e seus homens façam uma passagem rápida ao paraíso do guerreiro.” Era o que o gaulês merecia. Apesar de seus erros, Crixus fora um forte guerreiro.

Ariadne não gostava de pensar no que estava prestes a acontecer, mas era impossível negar a magnitude dessa oferta aos deuses. Poucas divindades permaneceriam insensíveis diante de tal presente. E, se esse fato ajudasse Spartacus e ela a saírem da Itália para sempre, ela estava preparada a aceitá-lo.

Em pouco tempo, duzentas duplas de legionários estavam ao redor da fogueira, um homem de frente para o outro. Alguns, como o centurião, permaneciam de pé, orgulhosos, com os ombros para trás, porém, a maioria rezava a seus deuses. Alguns até choravam.

Assustados com a inversão de papéis, os soldados de Spartacus mais uma vez fizeram silêncio.

Spartacus fez um breve discurso fúnebre sobre Crixus. Eles se lembrariam dele por sua liderança, sua maneira clara de falar e por sua valentia. Seus homens também seriam lembrados pelos esforços corajosos. As palavras foram recebidas com muitos gritos. Em seguida, ele se dirigiu aos romanos.

— Vocês aprenderam hoje, no campo de batalha, que todo homem aqui é seu semelhante, ou até melhor! Agora, aprenderão isso de outra maneira. Todos vocês já viram gladiadores lutando e morrendo para homenagear os mortos. Vocês provavelmente nunca pensaram que esses homens foram forçados a agir de tal forma. Esta noite, vocês têm essa chance, porque nós, escravos, observaremos vocês fazerem a mesma coisa. — Spartacus observou os rostos aterrorizados perto dele, demorando o olhar no centurião. — É uma morte honrada a se escolher e muito mais digna do que a crucificação. Por isso, meus cumprimentos. Que seja uma boa morte! — Ele ergueu a sica e a manteve no alto por um instante, e logo a abaixou. — Comecem!

Enquanto os prisioneiros se preparavam para atacar uns aos outros, um grito foi ouvido da multidão que observava. Foi o mesmo grito sedento por sangue que Spartacus ouvira ao lutar na arena. Ele desejou que todo homem no Senado estivesse prestes a lutar um contra o outro diante dele, e não os quatrocentos legionários.

Carbo não quis assistir à matança, entretanto, por estar ao lado de Spartacus, era o que tinha de fazer. Se fechasse os olhos, corria o risco de ser acusado de sensibilidade, no mínimo — e, na pior das hipóteses, de covardia. Apesar de seu receio, em pouco tempo ele ficou envolvido com a situação. O bater de metal com metal, os gemidos de esforço e os gritos inevitáveis de dor eram fascinantes. Muitos dos legionários escolheram morrer depressa, deixando os oponentes acertarem seus corpos com a espada ou deceparem suas cabeças. Carbo não se surpreendeu. Por que se dariam ao trabalho de tentar vencer uma luta se a vitória traria um novo combate, e outros mais em seguida? O que o espantou foi o nível de ferocidade com que alguns dos prisioneiros atacavam seus companheiros. O desejo de viver era grande o bastante para que eles assassinassem um dos seus sem hesitar. Cobertos de sangue, permaneciam de pé com a respiração ofegante e aguardavam o término das outras lutas.

Carbo notou que o centurião que havia se dirigido a Spartacus era um dos duzentos “vencedores”. Talvez devido ao rosto gentil, o oficial mais velho lembrava a Carbo seu pai, Jovian. Isso tocou seu coração. Ele não via a família havia mais de um ano, desde que fugira de casa. Uma casa que havia sido tomada por Crassus, o homem a quem o pai devia uma fortuna. Assim que ele fugira, Jovian e a mãe de Carbo foram para Roma e lá eles se lançaram à misericórdia de um parente abastado. Por orgulho, Carbo não acompanhou os pais. Sabia que eles podiam estar mortos. “Assim como o centurião estará, em breve.”

Quando as primeiras lutas terminaram, Spartacus ordenou que seus homens arrastassem os corpos dali.

— Quem ainda estiver respirando, terá a garganta cortada. Amontoem os cadáveres ali. Enquanto isso, o resto de vocês, cachorros, pode continuar! — Suas palavras foram recebidas com um grito coletivo forte. Carbo ficou enojado. Sentiu-se aliviado ao ver que Spartacus o ignorava.

Um pouco depois, mais cem corpos estavam espalhados sobre poças de sangue. Cem romanos sobraram, e o centurião estava entre eles. Em pouco tempo, o número foi reduzido a cinquenta e depois, a 25.

— Você luta bem — gritou Spartacus para o centurião. — Fique de fora enquanto os outros 24 lutam.

O oficial obedeceu, inexpressivo.

Os 12 homens que sobreviveram à luta anterior estavam exaustos. E ainda assim lutaram entre si.

Os seis legionários que sobreviveram à rodada brutal seguinte estavam ainda mais cansados que mal conseguiam segurar os gládios. Porém, não havia tempo para descanso.

— Continuem lutando! — gritou Spartacus.

Quem hesitava era ameaçado e empurrado pelos guardas.

Quando restaram apenas três legionários, Spartacus ordenou que o centurião voltasse a participar dos combates. Por ter enfrentado três homens a menos do que seu oponente, não surpreendeu que o oficial experiente o tenha despachado com facilidade, além de vencer a luta final. Ele parou com a cabeça baixa diante do corpo de sua última vítima e moveu os lábios em uma oração silenciosa.

Os gritos que acompanhavam os combates sangrentos foram diminuindo. Um silêncio estranho tomou os milhares de homens reunidos ali. Carbo sentiu um arrepio. Olhou para a escuridão, quase esperando ver Charon, o balseiro, ou até o próprio Hades, o deus do submundo, chegando para levar a grande pilha de legionários mortos.

— Como você se chama? — perguntou Spartacus.

O centurião olhou para a frente com os olhos tomados pelo horror.

— Gnaeus Servilius Caepio.

— Você é veterano.

— Servi durante trinta anos. Minhas primeiras campanhas foram com Marius, contra os teutões e os cimbros. Acho que você não os conhece.

— Na verdade, conheço. Você parece surpreso, mas lutei por Roma por muitos anos. Devo conhecer todas as campanhas desde as Forcas Caudinas.

Caepio ergueu as sobrancelhas.

— Diziam que você servia nas legiões. Pensei ser mero boato.

— É verdade.

— Roma é sua inimiga. Por que você fez isso?

— Para aprender como vocês fazem, para poder derrotá-los. Parece, até agora, que fui um bom aluno.

Seus homens gritaram em aprovação. Ariadne foi tomada pelo orgulho.

Caepio arregalou os olhos e murmurou algo.

— O que disse? — perguntou Spartacus.

— Disse que vocês ainda não enfrentaram as legiões veteranas da Ásia Menor ou da Ibéria. Eles os derrotariam.

— É mesmo?

O tom de Spartacus foi suave. Mortal. A ira gélida tomou conta dele de novo, em parte porque as palavras do centurião tinham certa verdade. Muitos dos soldados a quem eles tinham enfrentado haviam sido recém-recrutados.

— É isso mesmo.

Caepio cuspiu no chão. As tropas de Spartacus se movimentaram, e ele fez um gesto obsceno em sua direção. A reação, um brado de ira, rompeu o silêncio. Dezenas de homens pegaram suas armas e caminharam ao encontro dele.

— Esperem! — vociferou Spartacus, que olhou para Caepio. — Meus soldados matarão você.

— Isso não me surpreende! A escória não honra suas promessas. — Caepio largou a espada e ergueu as mãos. — Deixe-os fazer o que querem. Não importa. Sou um desgraçado pelo que fiz aqui hoje.

— Pode ser que seja. Mas antes que morra, tenho uma tarefa para você. Uma mensagem que você deve levar a seus senhores no Senado.

— Quer que eu leve a notícia desse munus infame.

— Isso mesmo.

— Farei isso.

— Imaginei que faria — disse Castus com ironia.

— Não devido a suas ameaças. Não temo a morte — disse Caepio, e o orgulho voltou a sua voz. — Aceito a tarefa porque é meu dever contar a Roma o quanto vocês, selvagens, afundaram. Devo contar sobre a barbaridade que você forçou meus companheiros e eu infligirmos uns aos outros.

Suas palavras foram recebidas com um rugido.

— Não somos selvagens! — gritou Gannicus. — O que aconteceu aqui não é diferente do modo como os romanos tratam os escravos.

— Escravos — repetiu Caepio. — Não homens livres.

— Roma vive de modo dúbio — disse Spartacus, seco. — Durante a guerra contra Hannibal, quando a necessidade era grande, Roma libertou escravos em número suficiente para criar duas novas legiões. Foram libertados para que lutassem pela República. Esses homens provaram que eram como qualquer cidadão.

— Não posso negar isso, mas também sei como meus líderes reagirão quando souberem desse munus. Não tem a ver com as atitudes certas ou erradas de quem é escravo ou não, de quem luta e de quem não o faz. Tem a ver com humilhar Roma, e foi isso o que você fez ao derrotar os dois cônsules, pegar suas águias de prata e, enfim, ostentá-las. Não estou certo? — Caepio olhou nos olhos de Spartacus.

— Está — admitiu o trácio, e seus homens gritaram em aprovação.

— Isso não será esquecido, posso prometer.

Spartacus ergueu a mão, contendo Castus, que parecia prestes a atacar Caepio.

— Ótimo. Porque era essa a minha intenção! Diga a eles que Spartacus, o trácio, e seus homens podem lutar tão bem quanto qualquer um de seus legionários, e ao derrotarmos os exércitos consulares, provamos isso duas vezes. — Agora, Spartacus flagrou o olhar amargo que Castus lançara a Gannicus. — Diga ao Senado que não sou o único general aqui. Esses homens, Gannicus e Castus — disse ele, apontando os dois — desempenharam papéis essenciais nas derrotas de Lentulus e Gellius. É melhor Roma cuidar de sua segurança! O próximo exército enviado por ela contra nós sofrerá uma derrota ainda maior. Mais águias se perderão.

Spartacus ficou satisfeito ao ver sorrisos largos no rosto dos gauleses. O que dissera sobre eles era mentira — nenhum dos dois era tão tático quanto ele —, mas milhares de homens se miravam neles como líderes. Ele precisava garantir seu apoio.

— Transmitirei ao Senado tudo o que você disse. Posso ir?

— Pode. Deem a ele alimento suficiente para que chegue a Roma! E deve ir sem armas — ordenou Spartacus.

— E os corpos de meus companheiros?

— Espera que eu diga que eles ficarão a céu aberto para as aves carniceiras, certo?

— Sim.

— Eles morreram como homens corajosos, por isso serão enterrados com honrarias. Dou minha palavra. Mas não posso dizer o mesmo sobre os soldados mortos no campo. Muitos deles eram covardes.

Caepio ficou sério, porém não discutiu.

— Rezo aos deuses para que esta não seja a última vez que nos encontramos.

— Não serei misericordioso da próxima vez.

— Nem eu.

— Então, estamos entendidos.

Spartacus observou Caepio se afastar. “Outro homem valente”, pensou. E que também dissera a verdade. Roma não permitiria que tamanha humilhação ficasse impune. No entanto, fazia sentido atravessar os Alpes e ir além do alcance das legiões. Uma dúvida lhe ocorreu. “E se o Senado enviar exércitos atrás de nós? Eles sabem onde fica a Trácia.” Afastou a ideia inquietante. “Isso nunca vai acontecer.” No fundo, Spartacus sabia que a possibilidade existia. Roma não perdoaria ou, como Caepio dissera, não esqueceria tantas derrotas.

Mal sabia ele que Ariadne tinha pensamentos parecidos. “Quando Hannibal Barca foi forçado a deixar Cartago, foi perseguido pelo resto da vida pelos agentes romanos.” Ela cerrou os punhos. “Pare. Dionísio, permita que escapemos da Itália, eu imploro. Cuide de nós sempre e nos mantenha seguros.”

Carbo também observava o centurião. Então, quase sem perceber o que fazia, começou a segui-lo. Ao ouvir a movimentação, o centurião se virou.

— Calma. Não vou apunhalá-lo pelas costas.

Caepio pareceu ainda mais desconfiado.

— O que você quer?

De repente, Carbo se sentiu envergonhado. De perto, Caepio não se parecia em nada com seu pai.

— Eu... eu só queria dizer que você é um homem corajoso.

— Você é romano? — Caepio demonstrou toda a sua indignação na voz.

— Sim.

— O quê, em nome do sagrado Júpiter, você está fazendo com esse grupo? Não tem orgulho?

— Claro que tenho.

Carbo ficou furioso ao sentir o rosto corar.

— Você me enoja.

O centurião começou a se afastar.

— Ei! Eu não teria feito vocês lutarem uns contra os outros desse jeito.

Caepio se virou de novo. O desdém em seu rosto era claro.

— É mesmo? Mas, ainda assim, decidiu se aliar a uma corja de escravos estupradores. Escória que destruiu cidades e aldeias por toda a Itália, que massacrou milhares de cidadãos inocentes e legionários corajosos. Para mim, você é um latro do pior tipo. — Ele vociferou e cuspiu aos pés de Carbo. — Isso é por ser um traidor de seus semelhantes.

Carbo sentiu a raiva tomar conta dele.

— Suma daqui, antes que eu acabe com você!

Caepio não se deu ao trabalho de responder. Afastou-se, murmurando insultos.

“É assim que é. Não há como voltar agora. Nunca mais. Por que pensei que seria possível?” Fora ingenuidade sua se aproximar de Caepio, mas ele queria expressar seu respeito a ele. Não se preparara para o nível do escárnio do centurião. No entanto, uma sensação estranha — seria satisfação? — o tomou. “Sou um traidor, afinal. Os escravos se tornaram minha família. E Spartacus é meu líder.” Apesar de saber que nunca mais veria os pais, a emoção foi estranhamente reconfortante.

Gannicus tomou um longo gole da pequena garrafa. Uniu os lábios com satisfação.

— É um bom vinho envelhecido, ou não sei avaliar.

Castus ergueu uma das pernas e peidou, fazendo barulho.

— Você não sabe avaliar! Acha que é um vinho de qualidade porque o pegou na barraca de Gellius. — Ele se abaixou, rindo, para desviar do vaso de argila, que caiu alguns passos além de onde ele estava, perto da fogueira. Ele se inclinou para a frente e a pegou antes de seu conteúdo vazar. — Sabe que tenho razão. Dez denários dizem que você cresceu a base de urina com sabor de vinagre, aguada. Como eu, como qualquer escravo que já existiu. O melhor que podíamos esperar a cada ano eram os restos da bebida do senhor na Vinalia Rustica. Como podemos saber o que é bom e o que não é?

Gannicus abriu um sorriso amargo de concordância; o rosto redondo menos jovial do que o normal.

— Na maior parte do tempo, não consigo diferenciar um falerniano de urina de burro, mas uma coisa é certa: toda gota tirada dos romanos tem gosto de néctar! — Castus bebeu da garrafa e a jogou para trás. — Para ser sincero, isso tem um ótimo sabor.

A expressão irritada de Gannicus se atenuou.

— Eu lhe disse.

— Olhe para nós! Nós, que éramos escravos, gladiadores, os mais baixos dos baixos, vivendo como reis! — Castus fez um gesto envolvendo a grande tenda romana que ele insistira que seus homens levassem do acampamento de Gellius, e os estandartes brilhantes fincados na terra à frente dele. — Se aquele maldito Gellius não fosse tão esquelético, eu também estaria usando a armadura dele!

Gannicus riu.

— É algo importante pegar a placa peitoral de um cônsul romano, não é? Ainda que não sirva!

— Queria tê-la pegado de um cadáver — rosnou Castus. — Da próxima vez, o cão não terá a mesma sorte.

— Se ele tiver coragem de voltar.

Eles se sentaram e saborearam as lembranças de sua vitória — fruto, em grande parte, de sua coragem.

— Foi um bom espetáculo o que Spartacus fez mais cedo — disse Castus com uma voz relutante.

— Verdade. Os homens adoraram.

— Ele sabe lidar muito bem com eles. — Castus não tentou esconder a inveja. Gannicus sabia como o outro se sentia em relação ao trácio. Assim como alguns guerreiros, todos gauleses, que estavam por perto. — Foi-se o tempo em que ser corajoso na batalha e capaz de beber mais do que qualquer um era suficiente, não?

— Isso e conseguir uma mulher com quem trepar a noite toda — concordou Gannicus. — É por isso que você e eu estamos onde estamos. E nos demos bem! Milhares de homens são leais a nós.

— Mas não tantos quanto os devotados a Spartacus — respondeu Castus. — Você o viu lutar hoje? Ele é destemido e habilidoso. O safado é um bom general também. Enganar Lentulus para que ele guiasse seu exército até o fracasso foi um golpe de mestre. Não surpreende que eles o amem. — Seu rosto corado se retorceu com a amargura do homem consciente de sua inferioridade.

— O que não gosto é do modo como ele espera que queiramos o mesmo. Ele costumava pedir nossa opinião. Agora simplesmente faz o que quer — observou Gannicus, reclamando.

— Isso deve funcionar com puxa-sacos como Egbeo e Pulcher, mas não conosco. Os gauleses têm orgulho!

O ressentimento os manteve em silêncio por um tempo. A lenha no fogo estalava ao ser tomada pelas chamas. O barulho da comemoração dos soldados tomou a noite escura estrelada, onde a inveja deles desapareceu no silêncio profundo.

— Não sei se você está certo — disse Gannicus, levando a mão ao bigode.

— Em relação a quê?

— Em relação a quanto os homens gostam de Spartacus. Eles o adoram enquanto ele os guia por vitória após vitória e quando ele permite que saqueiem propriedades e latifúndios sem ressalvas. Mas, quando tiverem que atravessar uma longa cadeia de montanhas para sair da Itália, acho que a maioria deles vai mudar de ideia de repente.

— Eles sabem que é para onde estamos indo. Spartacus lhes disse em Thurii.

— Existe uma grande diferença entre “saber” algo e entender, Castus. Os homens só tiveram que pensar em marchar desde então, além de estuprar e saquear todos os lugares por onde passaram. Lutar contra os exércitos consulares, e derrotá-los, fez com que não refletissem muitas coisas. Arrisco dizer que, até pouco tempo, a cada dez homens, nenhum pensou em sair da Itália a sério. As queixas que têm acontecido são muito reais.

Os olhos marejados de Castus foram tomados pela esperança. Ele se inclinou para a frente de modo conspiratório.

— Já falamos sobre isso. A maioria vai mesmo se recusar a fazer o que ele pede?

— É exatamente isso o que acho.

— Espero que você esteja certo, por Taranis! Gostaria muito de ver isso.

— Eu também, porque o dia em que ele anunciar que o exército deve marchar para os Alpes é quando agiremos. Enquanto isso, esperamos, observamos e ouvimos.

Rapidamente, o humor de Castus mudou.

— Estamos de mãos atadas em relação a isso desde que saímos do maldito ludo! Tenho tudo bem-preparado para partir sozinho. Muitos homens me seguirão!

— Faça o que quiser — disse Gannicus, sem dar importância. — Você é seu mestre. Mas, antes de agir, pense no prêmio que está sendo oferecido. Imagine liderar quarenta, até cinquenta mil homens em batalha. Seríamos como os líderes gauleses do passado. Como Brennus, que saqueou Roma. Dizem que o chão tremia quando seus homens lutavam. Imagine isso! Os romanos se cagariam de medo. — Ele se recostou e deixou Castus refletir sobre aquilo.

— Certo, certo. Vamos esperar um pouco mais. Usar esse tempo para convencer mais homens, está bem?

— Exatamente. — Gannicus manteve a expressão neutra, mas por dentro estava feliz. Se convencesse Castus a se unir a ele, teria muito mais chances de fazer a maioria do exército deixar Spartacus. E, quando isso acontecesse, ele seria o líder dos dois. Castus não era tolo, mas sua impulsividade sempre lhe causava problemas. Também fazia com que ele fosse relativamente fácil de manipular, o que era bom para Gannicus. Ele tirou o lacre de outra garrafa. — Enquanto isso, vamos nos embebedar!

— Boa ideia.

— Vamos beber para que Spartacus perca o controle do exército.

— Melhor ainda: que ele acabe do lado errado da lâmina romana!

— Isso — concordou Gannicus. — Ele fez o trabalho muito bem no começo, mas o poder subiu à cabeça dele.

Eles se entreolharam com intensidade, percebendo que pensavam a mesma coisa.

Um momento se passou. Castus olhou ao redor, para ver se ninguém os ouvia.

— Você acha que é possível? Aqueles citas parecem dois cães malucos. Sem falar no homem em si. É letal com uma arma. Ou com as mãos. Você se lembra de como ele quase matou Crixus, que era forte como um touro?

— Ele não é tão perigoso quando está dormindo. Ou quando está cagando — murmurou Gannicus. — Onde existe vontade, existe possibilidade, certo? Só temos que esperar a oportunidade certa. — Ele lançou a Castus um olhar sério. — Você está do meu lado?

— Pode apostar que sim!

— Não fale sobre isso com ninguém. Precisa ficar só entre nós.

— Você acha que sou idiota? Meus lábios estão cerrados. Pelo menos, sobre esse assunto. — Ele pegou a garrafa. — Você vai me deixar morrer de sede?

Sorrindo satisfeito, Gannicus entregou o vinho a ele. “Spartacus”, pensou ele, “sua estrela começou a se apagar. Já era tempo.”

Marcion cresceu em uma propriedade em Bruttium. Era de origem grega, de estatura mediana, tinha a pele amarelada do pai e cabelo preto. Como os pais dele eram escravos, foi natural que o senhor de Marcion o treinasse como escriba quando este teve idade suficiente. Demonstrava natural proficiência para o trabalho e também se divertia com ele. Infelizmente, sua vida toda foi transformada um ano antes, quando seu senhor morreu, deixando como único herdeiro um jovem dissoluto sem qualquer noção de cultura.

Uma das primeiras atitudes do jovem foi forçar muitos dos escravos domésticos a trabalhar nos campos da propriedade, onde eles “seriam mais produtivos”. Marcion sabia da vida difícil e da disciplina brutal infligidas aos cativos do campo, porém nunca as vivera pessoalmente. Depois de algumas semanas, ele já estava cansado. O exército de Spartacus havia se estabelecido perto de Thurii havia alguns meses. Boatos a respeito de como tinha sido fácil entrar para o bando dele eram constantes entre os escravos descontentes. Na noite escura de outono, Marcion fugiu para os montes. Só levou três dias para chegar ao exército rebelde. Um oficial com cara séria observou sua pele morena de agricultor e os calos nas mãos, e o deixou passar.

Marcion havia completado o treinamento inicial muito tempo antes. Lutou nas batalhas contra Lentulus e Gellius, o que fez dele um veterano. No entanto, aos olhos dos gladiadores originais que tinham fugido do ludo com Spartacus ou dos homens que tinham lutado nas batalhas iniciais contra homens como Publius Varinius em Thurii, Marcion e seus companheiros não passavam de recrutas molengas. Ele já estava cansado dos insultos, feitos sempre que o centurião os treinava. Os mais antigos só gostavam de permanecer por perto para fazer comentários sarcásticos. Marcion tinha dificuldade para marchar, mas pelo menos estava cercado por seus homens, pelo grupo recrutado mais recentemente. Os resmungos de Zeuxis recomeçaram na fileira da frente, fazendo com que Marcion se lembrasse de que as coisas não eram só flores. O homem careca era mais velho do que ele e havia chegado uma semana antes dele. Zeuxis tinha a voz mais alta no contubernium, o que o fazia achar que tinha o direito de mandar em todos. Na maior parte do tempo, os outros soldados na barraca de oito ocupantes deixavam que ele fizesse isso. Marcion não tinha pendor para dar ordens.

— Não fazemos nada além de marchar, porra!

— Cale-se — pediu Gaius, um homem de ombros largos que vivia para lutar e agora marchava ao lado de Marcion. — Procure não pensar nisso. Chegaremos mais cedo desse modo.

Zeuxis o ignorou.

— Thurii fica a quantas centenas de quilômetros daqui?

— Soube que são quase cinco — disse Arphocras, o integrante com o qual Marcion tinha mais afinidade.

— É só isso? Parece que estamos a meio caminho de Hades.

Arphocras piscou para Marcion.

— Não se preocupe, Zeuxis, não estamos muito longe dos Alpes.

— Os Alpes! Vai ser muito difícil atravessá-los?

— Será verão quando chegarmos lá. A viagem não vai ser muito diferente do que já passamos nos Apeninos — respondeu Marcion, repetindo o que ouvira o centurião dizer.

— Como se você soubesse, grego — vociferou Zeuxis. — Você é como o resto de nós. Nunca saiu de Bruttium até Spartacus nos levar de lá.

Os outros riram, e Marcion corou de raiva.

— Isso foi explicado por Spartacus, não por mim!

— Você tem falado com ele?

Mais risos. Marcion se calou. Tentaria se vingar de Zeuxis mais tarde.

— Spartacus... o incrível. Hã! Se tivermos sorte, pode ser que ele passe pela nossa posição uma vez por dia ou a cada dois, e só — reclamou Zeuxis. — No resto do tempo, ficaremos presos na coluna, sem ter ideia do que está acontecendo. Vamos seguir os homens à nossa frente como malditas formigas. Não é à toa que demoramos três horas para sair do acampamento toda manhã, o que significa que somos sempre os últimos soldados a chegar ao campo novo todo dia. — Incentivado pelos acenos de cabeça e murmúrios dos outros, ele prosseguiu: — Conseguir comida demora, ainda mais pegar vinho. Quanto ao equipamento sobressalente...

Marcion desistiu de se manter calado. Tudo que Zeuxis dissera era verdade, porém era parte da vida quando se atuava em um exército tão grande. Eles não tinham como mudar isso, assim como não podiam forçar o sol a nascer no oeste e a se pôr no leste.

— Esqueça isso, está bem?

— Vou falar, se quiser. Os homens estão interessados no que tenho a dizer — retrucou Zeuxis olhando para trás.

— Não, não estão. Só não conseguem vencer esse maldito monólogo.

Risos foram ouvidos, e Zeuxis fez cara feia. Ele se virou, quase acertando Gaius com a madeira com que levava seus equipamentos.

— Seu maldito engraçadinho!

Gaius o puxou com força para trás.

— Por que não faz o que Marcion pediu, hein? Dá um tempo. Aproveite a paisagem. Observe o céu azul. Cante uma canção conosco, até. Qualquer coisa, mas pare de falar!

Marcion sorriu quando todo mundo à vista concordou em voz alta.

Franzindo o cenho, Zeuxis obedeceu.

— Obrigado — disse Marcion a Gaius.

— Tudo bem. Ele não vai ficar calado por muito tempo.

— Ninguém fica — disse Marcion, olhando ao redor. — É melhor aproveitarmos o momento.

Gaius respirou fundo e começou a cantar.

Ao reconhecer a canção, Marcion e os outros se juntaram a ele, animados.

Os quilômetros passavam mais depressa quando se pensava em vinho, mulheres e música.

 

Dez dias depois...

Roma

Marcus Licinius Crassus estava cansado e faminto. Ao ver sua casa a distância, suspirou aliviado. Em pouco tempo ele estaria em casa. Passara o dia inteiro no Senado, ouvindo e participando do debate interminável a respeito da construção de novas cloacas no monte Aventino. “Os tolos dão prioridade a tantas bobagens sem falar sobre o que importa de fato”, pensou ele, sorrindo da própria reflexão. Era incrível. Apesar da derrota recente dos dois cônsules pelo renegado Spartacus, as necessidades de saneamento dos pobres eram vistas como uma questão de urgência.

No entanto, Crassus não tinha a menor dúvida sobre qual assunto era prioridade. Spartacus. O homem e sua classe de escravos haviam se tornado uma pedra no sapato da República. Lentulus, o primeiro cônsul a ser derrotado, havia se apresentado aos senadores algumas semanas antes. Sua tentativa de explicar as atitudes tomadas não foram muito boas, mas, depois de uma reprimenda severa, ele permaneceu no comando do que restou de seu exército. Gellius, seu colega, aparecera na capital alguns dias antes. Assim como Lentulus, ele era um homem decidido e não tinha o apoio de uma grande parte do Senado. Assim como o colega, Gellius sofrera baixas consideráveis nas mãos de Spartacus, além de ter perdido as duas águias de suas legiões. Contudo, não foi isso o que fez com que os senadores o responsabilizassem. Havia sido a presença de Caepio, a única vítima sobrevivente da humilhação e da matança envolvendo quatrocentos prisioneiros romanos.

Crassus contraiu os lábios ao se lembrar do que Caepio dissera. Poucos homens na República podiam exigir mais respeito do que ele, um centurião com trinta anos de serviço leal nas costas. Todos na Curia prestaram atenção enquanto ele falava. As manifestações no prédio quando ele terminou tinham sido maiores do que qualquer uma já vista por Crassus. Ele não se afetou menos por isso. Pensar nos escravos num munus, forçando os legionários romanos — cidadãos — a lutar até a morte era absurdo. Imperdoável. Tinha que haver vingança, e depressa. A fúria e a frustração de Crassus aumentaram ainda mais, pois naquele momento, a vingança parecia improvável. Corriam boatos de que Spartacus levava seus homens para o norte, para os Alpes. Apenas Gaius Cassius Longinus, o procônsul da Gália Cisalpina, que comandava duas legiões, estava em seu caminho, e era difícil imaginar que ele pudesse ser bem-sucedido quando seus superiores tinham fracassado. Se Longinus fosse derrotado, Roma descobriria se Spartacus de fato estava pensando o impensável: ele deixaria a Itália?

Mesmo que Lentulus ou Gellius tivessem a chance de lutar contra Spartacus de novo, Crassus acreditava que nenhum cônsul seria capaz de acabar com o exército escravo. Os dois, principalmente Gellius, pareciam acovardados pela reação furiosa dos senadores. “Foram apenas trezentos políticos irados — não cinquenta mil escravos armados.” Apesar de os dois terem entrado para as forças, para Crassus, eles não tinham a iniciativa — e a coragem — de acabar com a insurreição de modo rápido e definitivo. Ele havia convencido alguns de seus senadores parceiros a concordar com seu ponto de vista, de que a mudança era necessária. Mas fazer com que eles concordassem com qualquer outra coisa além era outra história. As tradições do alto-comando que existiam havia mais de meio milênio eram muito firmes. Durante os 12 meses de atuação, os dois cônsules foram os dois magistrados mais velhos da República e seus governantes. Era compreensível que a posição deles fosse venerada. Ninguém nunca os havia destronado nem os forçado a permitir que outra pessoa guiasse seus exércitos durante seu período de atuação. Sem se deixar abater, Crassus já havia expressado tudo isso duas vezes. Em ambas, suas sugestões tinham sido descartadas.

“Tolos. Eles se arrependerão dessa decisão. Longinus vai fracassar. Se forem mandados atrás dele, Lentulus e Gellius falharão.” Crassus sabia disso muito bem. De todos os políticos de Roma, ele, sozinho, havia encontrado Spartacus e percebido seu mérito. Conhecera o gladiador trácio por acaso, em uma visita a Cápua um ano antes. Crassus havia pagado por um combate mortal no ludo dali. Apesar de ter sido ferido logo no começo, Spartacus havia superado seu habilidoso oponente. Intrigado pelo trácio, Crassus conversou com ele depois. Na época, ele considerou a atitude confiante do escravo pura arrogância. Desde então, depois de várias derrotas romanas, percebeu seu erro. O homem não era só um lutador valente e talentoso. Tinha carisma, habilidade e liderança. “Desde Hannibal ninguém ameaçava a República dessa forma”, pensou Crassus. “E os dois tolos que devem ajudar são Lentulus e Gellius, cujo plano é encontrar Spartacus e confrontá-lo em batalha de novo. Por que sou o único a ver que eles não vencerão?”

“Preciso fazer alguma coisa.”

E ele sabia exatamente o que faria. Poderia levar meses, mas ele conquistaria o Senado. Muitos políticos lhe deviam favores, dinheiro ou as duas coisas. Ele só precisava de mais alguns aliados influentes. Com a ajuda deles, Crassus poderia obter a maioria no Senado. Os cônsules seriam forçados a abrir mão do comando de suas legiões para outra pessoa. “A mim”, pensou ele com alegria. “Eu, Crassus, liderarei as legiões atrás de Spartacus, onde quer que ele esteja. Salvarei a República. Os plebeus me amarão!”

Seu grupo parou e seus escravos se abaixaram. Crassus esperou enquanto um deles batia à porta da frente, exigindo que seu mestre entrasse. Não apareceu o grandalhão que ele esperava ver, mas Saenius, seu secretário efeminado. Aliviado, Crassus ergueu as sobrancelhas.

— Você voltou. Não pensei que o veria tão cedo.

— Meus negócios no sul demoraram menos do que pensei. — Saenius foi para a rua, fazendo uma deferência para que o mestre entrasse.

— Bom saber. — Crassus tomou o cuidado de pisar primeiro com o pé direito.

Sua barriga roncou quando o cheiro do alho frito chegou até suas narinas, vindo da cozinha. No entanto, ele poderia comer mais tarde. Semanas antes, ele havia mandado Saenius em uma missão. — Conte-me o que descobriu.

Saenius olhou para cima e para baixo no corredor. Dois escravos se aproximavam.

Crassus não queria que ninguém ouvisse.

— Mais tarde.

Saenius relaxou.

— Não sou a única surpresa para você hoje. Você tem uma visita.

— Quem?

— O Pontifex Maximus.

Crassus se espantou.

— Gaius Julius Caesar?

— O próprio.

— O que, em nome de todos os deuses, a “Rainha da Bitínia” quer comigo?

— Ele não disse. — Saenius riu. Todo mundo em Roma conhecia os boatos. Desde a estada de César, alguns anos antes, na corte de Nicomedes, o velho rei da Bitínia, ele vinha sendo perturbado pelo boato de que se tornara íntimo de seu anfitrião. — Ele não está usando roupas roxas e finas. Tampouco está deitado em um sofá dourado enquanto espera sua chegada.

Pensar naquilo fez Crassus sorrir.

— César pode ter feito isso com Nicomedes, mas acho que sabe que não deve tentar comigo.

César era o sacerdote de mais alto nível em Roma. Apesar de seu posto ter muita importância, ser membro do ministério religioso era também um degrau para os jovens nobres com uma carreira promissora na política. César já era um dos astros em ascensão em tal cenário. “Não será apenas uma visita social, com certeza.”

Eles entraram no átrio, na grande sala espaçosa que levava à entrada. Cenas lindamente pintadas decoravam as paredes de gesso: a exposição dos bebês Rômulo e Remo às margens do rio Tibre, a consagração de Reia Silvia como Virgem e fundadora da antiga cidade de Alba Longa. As máscaras de morte dos ancestrais de Crassus adornavam a parede dos fundos, nas quais também ficava o larário, uma alcova reservada como templo aos deuses domésticos. Crassus abaixou a cabeça em respeito enquanto passava.

— Onde ele está, então?

— Você não quer trocar de roupa ou comer algo antes?

— Vamos, Saenius. — Crassus riu. — É melhor vê-lo de uma vez. — Ele tirou um pouco de poeira imaginária da parte da frente da toga ainda imaculada. — César pode ser um janota, mas minha aparição será o suficiente.

— Claro. Ele está esperando na sala de recepção perto do pátio.

Era seu escritório mais imponente, decorado uma semana antes. Impressionava. Feliz com a sagacidade de Saenius, Crassus seguiu o assistente pelo tablino, a câmara ampla que levava ao jardim com colunas. Sob o pórtico, eles margearam as fileiras de vinhas e limoeiros, e as estátuas gregas dispostas com esmero. Saenius bateu na porta aberta da primeira sala a qual chegaram.

— Marcus Licinius Crassus.

Crassus entrou, sorrindo, para receber o homem magro e sem barba sentado ali.

— Pontifex! Eu me sinto honrado por sua presença.

Ele fez uma breve reverência, o suficiente para mostrar respeito, porén não o bastante para indicar qualquer inferioridade real.

— Crassus — disse César, de pé, retribuindo a reverência. Como sempre, seu roupão vermelho-escuro bem-cortado quase não estava amassado. — É ótimo vê-lo.

Crassus disfarçou a alegria que sentiu ao ver a deferência demonstrada. Conexões familiares podiam ter rendido a César a posição como pontífice, mas ele não precisava se levantar por Crassus. Aquilo mostrava que ele reconhecia a sua importância. Não foi tão surpreendente. “Afinal, sou mais rico, mais poderoso e mais bem-relacionado.” O que Crassus não gostou de admitir foi que tinha pouco da disposição de César.

Poucos homens — além de Pompeu — conseguiam o amor das pessoas como César conseguira. Poucos conquistavam uma corona civica, o maior prêmio de Roma pela coragem, aos 19 anos. Poucos escolhiam se tornar um defensor das cortes e processar Dolabella, um ex-cônsul, aos 23. Poucos ganhavam notoriedade como amante das esposas de muitos homens. No entanto, a história preferida da plebe a respeito de César — Crassus já a ouvira ser contada, certa vez, numa esquina e outras centenas de vezes — era a de sua captura e prisão por piratas na ilha de Pharmacussa, na costa da Ásia Menor. Crassus detestava a história. César rira da

exigência feita pelos piratas de receber vinte talentos1 de prata, dizendo que deveriam pedir cinquenta em vez de vinte. Além disso, dissera repetidas vezes que, quando fosse libertado, crucificaria todos eles. Algumas semanas depois, quando a quantidade maior tinha sido paga, César fora solto. Apesar de ser um civil, ele convencera os provincianos que haviam pagado seu resgate a lhe dar o comando de diversas embarcações. Cumprindo sua palavra, ele prendeu os piratas e, logo depois, crucificou cada um deles. Essa demonstração de coragem romana, ou masculinidade, dera a César bastante respeito por parte do público romano. Crassus desejava tal reconhecimento. Ele sorriu a seu convidado. “Idiota.”

— Quer vinho?

— Obrigado, é uma boa pedida.

— Minha garganta também está seca.

Crassus olhou para Saenius, mas o latim já estava saindo pela porta.

— Um dia longo no Senado?

— Sim. Horas de conversa inútil.

César arqueou as sobrancelhas.

— Estão planejando novas cloacas para o monte Aventino — explicou Crassus.

— Compreendo. Parece ser uma sugestão razoável.

— Parece mesmo, mas nunca é tão fácil no Senado, certo? Porém, você não veio aqui para falar de higiene.

— Não.

César se calou enquanto Saenius entrava com uma jarra de vinho.

— Pode falar à vontade. Meu assistente trabalha para mim há mais de vinte anos. Confio nele como se fosse meu filho.

— Muito bem — concordou César, com óbvia relutância. — Tenho certeza de que sabe que o custo de vida na capital, para se manter as aparências num escritório, é muito alto.

“Eu sabia”, pensou Crassus. “Ele está aqui para pedir um empréstimo. Não é o que todos fazem?”

— Sim, é. O entretenimento público de qualquer tipo pode ser bem caro.

— Vários amigos mencionaram que você consegue ser bastante flexível ao proteger mais... fundos.

— Já emprestei dinheiro em algumas ocasiões. — Crassus fez uma pausa, saboreando seu poder. — É por isso que está aqui?

César hesitou por um instante.

— Para ser direto, sim.

— Compreendo. — Crassus deixou um pouco de vinho na boca, deliciando-se com o sabor e com a expressão estranha de César. — De quanto precisa?

— Três milhões de denários.

Saenius ficou surpreso, porém conteve-se e logo disfarçou tossindo. “O rapaz tem coragem”, pensou Crassus. “Foi direto ao ponto.”

— É uma soma grande.

César endireitou os ombros e os ergueu de modo eloquente.

— Quero realizar um munus nos próximos meses. Só isso me custaria quinhentos mil, no mínimo. E, então, há os custos de gerenciar uma casa...

— Você não precisa justificar seus gastos para mim. Como, exatamente, você me pagaria?

— Com o espólio que conseguirei na campanha.

— Campanha? — perguntou Crassus, franzindo o cenho. — Onde? Em Pontus?

— Talvez. Ou em outro lugar — respondeu César com a confiança de sempre.

Crassus refletiu por um momento. Roma estava sempre em guerra. César sem dúvida encontraria um conflito no qual lutar, se quisesse, mas não havia garantia de que ele voltaria com tamanha riqueza. “Não é por isso que empresto dinheiro aos homens, certo? É para tê-los em meu poder. Para que, quando precisar de um favor, ter a certeza de que o receberei.” Ele sorriu. César já era popular com muitos senadores. Tê-lo como devedor seria vantajoso.

— Tudo bem.

A postura de César de desfez, mostrando o jovem que ele, de fato, era.

— Você me emprestará essa quantia?

— Claro — disse Crassus de modo expansivo. — Como já deve saber, minha taxa de juros é razoável. Cinco denários a cada centena, cobrados anualmente. Saenius pode pedir ao meu escriba para que cuide da papelada. O pergaminho garantindo o dinheiro será entregue em sua casa amanhã cedo.

— Obrigado. — César sorriu. — Oferecerei um boi a Júpiter como gratidão, posteriormente.

— Há uma pequena condição.

— Compreendo.

— Concordará com ela?

— Tenho que concordar?

— Se quiser o dinheiro, sim.

O sorriso de César diminuiu um pouco.

— Desde que não me peça para matar minha mãe, acredito que serei capaz de ajudar.

Crassus escondeu sua alegria. “Ele mordeu a isca!”

— Você provavelmente já sabe que, nos últimos dias, perdi a paciência com seus cônsules, Lentulus e Gellius.

— Sim — respondeu César, apreensivo.

— Eu disse “perdi a paciência”? Isso é pouco. Para ser sincero, Lentulus é um idiota. Ele entrou em uma emboscada que um cego teria visto. Levar seu exército por uma área estreita sem checar a altura primeiro?!

César coçou o nariz longo e aquilino, refletindo se deveria mencionar o fato de um sinal de “tudo limpo” aparentemente ter sido dado. Pensando bem, era claro que os homens de Lentulus seriam mortos, permitindo que um dos homens de Spartacus desse o sinal que enganou o cônsul, dando-lhe uma sensação falsa de segurança. Ele decidiu não dizer nada.

— Uma decisão complicada.

— E Gellius? Ele não passa de um velho que achou que vencer uma batalha contra uma multidão desorganizada de escravos liderada por um selvagem garantiria a ele uma vitória sobre Spartacus.

— Palavras fortes.

— Talvez sejam, mas são verdadeiras.

Crassus ergueu o queixo de modo ameaçador.

— Até agora, eu não disse isso em público, mas concordo com você — admitiu César.

Incentivado, Crassus prosseguiu.

— Os pretores que partiram antes dos cônsules não se salvam. Glaber, Varinius e Cossinius são magistrados de alto escalão. O núncio apostólico Furius foi outro idiota!

— Você poderia ter feito melhor.

Crassus parou, olhando para César com desconfiança.

— Você acha?

— Como o homem cuja vitória em uma batalha desesperada na Porta Collina salvou Sulla, sem dúvida, você teria resolvido tudo.

— Com a ajuda dos deuses, talvez — disse Crassus com modéstia.

Ele não admitiria que tais pensamentos não saíam de sua cabeça. No entanto, na realidade, as coisas não eram tão simples. O erro cometido por Glaber, de não ter mantido sentinelas em número suficiente, poderia ter acontecido com qualquer um. Quem, em sã consciência, poderia ter imaginado que cerca de setenta gladiadores fariam um ataque noturno a três mil homens? Se o relato de Furius a respeito do ocorrido fosse verdade, ele também tinha sido emboscado. Assim como Cossinius, pego nu enquanto tomava banho em uma piscina. Varinius tinha feito análises muito ruins, e a última delas culminou em sua derrota total para Spartacus, na cidade de Thurii. Crassus se lembrou de que, no retorno de Varinius para Roma, o pretor desgraçado lhe pedira ajuda. Naturalmente, ele recusara. “Varinius destruiu a si mesmo”, pensou Crassus com raiva. Aliar-se a tamanho fracasso teria sido o equivalente a um suicídio político. Ele fora decente com Varinius — não se oferecera para emprestar o dinheiro à família do pretor a taxas mais baixas do que o normal depois da morte dele?

— Mas não fui escolhido pelo Senado — respondeu Crassus.

— Você não se candidatou.

— Por que eu pediria para liderar soldados contra uma confusão de gladiadores em fuga? — Crassus não conseguiu esconder a frustração. — Além disso, Glaber não passaria o trabalho a mais ninguém.

— Isso é verdade — observou César com calma. — Mas agora isso se tornou algo muito pior. Estamos falando de uma rebelião em grande escala.

— Sim, estamos! E os dois cônsules fracassaram. Fizeram a República fracassar. Consegue imaginar o que estão dizendo sobre Roma em Pontus? Na Ibéria? Devemos ser a chacota do Mediterrâneo. Um exército de escravos atravessa a Itália, acabando com todas as tropas enviadas? É um total escândalo! Agora, dependemos do procônsul da Gália Cisalpina para ter sucesso onde ninguém mais conseguiu. Mas, com duas legiões, não invejo Gaius Cassius Longinus. É uma tarefa impossível.

— Bastante.

— Assim, pretendo conseguir o apoio da maioria dos senadores da Curia. Quando fizer isso, forçarei os cônsules a desistir ou, mais provavelmente, a entregar o comando de suas legiões a mim.

Apesar da magnitude do que ouvia, César ergueu as sobrancelhas só um pouco.

— Pompeu Magnus não vai gostar disso. — Um leve sorriso tomou seus lábios. — Mas isso é bom. Ele adora o poder.

— O bravateiro está ocupado com a Ibéria, de todo modo. Ele pode ter derrotado Perperna, mas há muitas tribos que ainda querem lutar contra Roma.

— Como sempre. Se você tiver sucesso, o que fará depois?

— Criarei mais legiões, além das quatro consulares, antes de levar a guerra a Spartacus. De modo agressivo. Se ele ainda estiver na Itália, melhor ainda. Se já tiver partido, vou persegui-lo por terra ou mar. Não descansarei enquanto não arrastar seu grupo na lama e enquanto a mancha na honra da República não for retirada em definitivo. — Crassus olhou para César. — Você se unirá a mim? — César não respondeu de imediato, o que enfureceu Crassus. — Se não se unir, não há motivos para eu emprestar o dinheiro — reiterou ele de modo direto.

— Seria uma honra ajudar.

— Excelente. Saenius, peça ao escriba para fazer o acordo comum de crédito. De três milhões de denários. — Crassus serviu mais vinho para os dois. — A uma amizade duradoura.

César repetiu o brinde, e os dois beberam.

— Tenho outro pedido a fazer — disse César logo depois.

“O que mais ele pode querer?”

— É mesmo?

— Quando estiver no controle das legiões, eu gostaria muito de ser um de seus tribunos.

O ego de Crassus inflou.

— Seria uma boa oportunidade para você adquirir experiência militar.

— Você aceita?

— Qualquer homem que tenha conquistado a corona civica é bem-vindo a meu grupo.

Crassus ergueu a taça num brinde.

Fez-se um silêncio mais amigável. No pátio, misturavam-se o som da voz de Saenius ditando os termos do empréstimo e o do escriba anotando.

Crassus pensou no fim do dia com certa satisfação. Mal havia criado o plano para obter o controle das legiões da Itália quando César apareceu. Ao angariar o apoio dele, também havia recrutado um membro valioso para sua equipe. E nem ouvira as notícias de Saenius ainda.

 

1 Talento: unidade de medida equivalente a 34kg. [N.T.]