Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 13 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo XII

 

Deixando Carbo e os citas do lado de fora, Spartacus entrou na barraca. Seus olhos se ajustaram depressa à pouca luz, e ele ficou feliz com o que viu. Alguém — Egbeo ou Pulcher, ele acreditava — se dedicara a decorá-la bem. Havia tapetes grossos no chão, algumas lamparinas grandes de bronze, dois baús escuros e uma mesa de cerejeira com cadeiras. No entanto, sua atenção foi direcionada à cama desarrumada encostada em uma parede e ao berço de madeira entalhado à mão do lado dela. Esticou o pescoço, mas não conseguiu ver o que havia dentro dele. Ariadne estava ao lado do berço, de costas para ele. Ela cantava baixinho.

Spartacus deu mais passos adiante, porém, não a interrompeu. A cena tranquila era tão diferente do que acabara de ver, do que acontecera desde sua partida para Roma, que precisou de uns segundos para voltar à normalidade. Para voltar para sua família. Porque, no tempo em que esteve ausente, era isso o que eles tinham se tornado.

Uma alegria intensa substituiu a fúria que sentira em relação aos gauleses. Ariadne estava bem, assim como seu filho. Maron. “Você nunca será esquecido, meu irmão.”

Ela parou de cantar. Inclinou-se sobre o berço e beijou suavemente a cabeça do bebê antes de se virar para Spartacus. Seu rosto estava impassível.

— Obrigada por não fazer barulho — disse ela num tom sério.

— Você me ouviu entrar.

— Sim. Ouvi você chegar há algum tempo... e então sair sem ver sua esposa e seu filho recém-nascido. Para conversar com Castus e Gannicus. — Precisou se esforçar para falar baixo. — Como pôde?

Ele deu um passo na direção dela.

— Ariadne, eu...

— Não — interrompeu ela, fervendo de ódio. — Não fale comigo! Veja Maron. Você lhe deve pelo menos isso.

Com a mandíbula contraída, Spartacus se aproximou do berço e espiou. O que viu fez seu ódio desaparecer no mesmo instante. A cabeça e o cabelo preto, o corpinho deitado de barriga para cima, envolvido em um cobertor. Ao lado do bebê, um bonequinho enrugado com um nariz de botão. Seu coração foi tomado por amor e orgulho.

— Ele é tão pequeno.

— Maron é grande para um menino, segundo a parteira. E ganhou bastante peso desde que nasceu.

Spartacus assentiu. Ele não sabia quase nada sobre bebês. Olhou fixamente para o filho, querendo tocá-lo, mas temeu acordá-lo ou fazer alguma besteira.

Ariadne leu sua mente.

— Por enquanto, apenas acaricie a cabeça dele ou as costas. Poderá segurá-lo quando ele acordar.

Mais calmo, o trácio acariciou a pele macia do rosto de Maron. Ao tocar o filho, sorriu e repetiu o carinho.

— Bem-vindo ao mundo, meu filho — sussurrou. — Que bom conhecê-lo, finalmente.

Maron se remexeu, assustando Spartacus, que afastou o braço.

— Está tudo bem, você não o acordou.

Spartacus voltou a pôr a mão dentro do berço.

— Ele tem o cabelo como o seu.

— E os seus olhos. Mas a parteira disse que eles podem mudar de cor.

— Não me importo. O importante é que ele está aqui, em segurança, e que você está bem.

— Você já viu que sim, que estamos bem. Então precisa partir de novo?

— Não, claro que não. — Ela contraiu os lábios, e Spartacus percebeu que ainda estava furiosa. — Maron é um bom nome. Eu não poderia ter pensado num melhor. Sem dúvida, meu irmão está cuidando dele do paraíso dos guerreiros. Deve estar muito orgulhoso. E meu pai também.

— Não foi nada.

— Não, isso significa muito, Ariadne. Para mim e também para os mortos. Obrigado.

Ela não respondeu.

Spartacus não queria que a briga continuasse. Ele queria uma folga dos conflitos pelo menos com sua família.

— Eu queria ter vindo ver vocês dois assim que cheguei. Como pode duvidar disso?

Ela olhou nos olhos dele de modo acusador.

— Você já preteriu a sua família antes, por causa do seu exército. Eu me forcei a aceitar isso... quer dizer, quase. Mas chegar e falar primeiro com aqueles porcos? Que tipo de homem é você?

Ele se sentiu ferido e irado com o comentário.

— Você não entende!

— Não, claro que não. Sou só uma mulher, certo? — Maron se remexeu, e ela franziu o cenho. — Afaste-se, ou vamos acordá-lo. Ele precisa dormir. Não dormiu à noite.

A preocupação de Spartacus superou a raiva que sentia.

— Ele está doente?

Ela o encarou com raiva.

— Não, só está com um pouco de cólica.

— Cólica? Como as dos cavalos?

— Sim, mas não tão séria. Todos os bebês têm cólica de vez em quando. A parteira preparou um chá de erva-doce hoje cedo que ajudou muito.

— Tomei um pouco disso quando tive gases... me fez peidar como um maldito garanhão! — Ela não riu da piada. Eles permaneceram em silêncio por um momento, e então ele tentou de novo. — Eu queria ver vocês dois, mas precisava resolver algo antes.

— O que poderia ser mais importante do que ver seu filho? — questionou ela. — Você queria se gabar pelo que fez ou descobriu?

A irritação dele saiu de controle.

— Cale-se, mulher, e deixe-me falar!

Ariadne contraiu os lábios, mas não retrucou.

— Contarei o que aconteceu em Roma mais tarde. É importante, porém não é o motivo pelo qual deixei de vir aqui primeiro.

— Não estou entendendo.

— Há duas noites, fomos atacados em nosso acampamento por um grupo de homens. Se Carbo não tivesse percebido a aproximação deles, nós dois poderíamos estar mortos.

Ariadne percebeu que ele estava sendo sincero. Imagens horrorosas lhe ocorreram. O remorso tomou seu peito por ser tão presunçosa.

— Como vocês escaparam?

— Correndo para nos salvarmos. — Ele mostrou os rasgos na túnica e os arranhões nos braços e nas pernas. — Mal comi e bebi desde o ocorrido. Não que me importe. Tudo o que queria era chegar aqui, primeiro ter a certeza de que vocês não tinham sido assassinados e, depois, confrontar Castus e Gannicus.

— Eles estão por trás disso? Como sabe que os assassinos não eram romanos?

— Um deles falou algo. Carbo disse que ele não era falante nativo de latim. Além disso, saímos de Roma sem dificuldade. Ninguém havia nos seguido.

— Então, se não foram os romanos — disse ela, franzindo o cenho —, só pode ser alguém que sabia aonde vocês tinham ido.

— Isso mesmo. E pode haver muitos homens no exército que não gostam de mim, contudo, Castus e Gannicus são os que desejam mais a minha morte.

Ao lembrar-se da visita que os gauleses tinham lhe feito, Ariadne estremeceu. Talvez ela tivesse tido mais sorte do que pensara.

— Você os matou?

— Não.

— Por que não? — questionou. — É o que eles merecem! Maron e eu teríamos sido os próximos.

— Provavelmente. — Ele começava a gostar de vê-la brava. Isso mostrava que ela ainda se importava com ele. — Entretanto, matá-los teria sido contraproducente. — Então ele lhe contou sobre os planos de Crassus e o que ouviram do soldado do mensageiro na estrada.

— Dez legiões... — disse Ariadne baixinho. Sentiu-se apática. — E você acha que eles chegarão aqui em três ou quatro meses.

— Agora você sabe por que não me livrei dos gauleses. Se eles partissem, não teríamos homens suficientes para derrotar os romanos, e nenhum general gostaria de iniciar uma batalha desse modo.

— Eu sei. Então o que você fez com Castus e Gannicus?

— Nós os surpreendemos. Os selvagens ficaram muito assustados quando me viram. A cara de Castus me disse tudo o que eu precisava saber. Ele e Gannicus mandaram aqueles homens.

— Cachorros malditos! — Os olhos de Ariadne estavam tomados de ódio, lembrando a Spartacus uma fera defendendo seu filhote. — Agora que sabem sobre as dez legiões, eles ficarão?

— Quem sabe? Vamos esperar que sim. Até conseguirmos recrutar e treinar mais homens, pelo menos.

“Vai ser uma corrida contra o tempo fazer isso enquanto tento mover o exército e organizar a ida à Sicília.”

Ela ainda não estava satisfeita.

— Como sabe que eles não tentarão de novo?

— Não sei. Mas eles sabem muito bem o que acontecerá se tentarem. A dor de Prometeu não será nada comparada ao que sofrerão.

— Gostaria de vê-los gritando — disse ela. — Eu até fincaria mais a faca.

— Que leoa, não? — Tocou o rosto dela, e a reação de Ariadne o surpreendeu. A frieza se desfez, e seus olhos marejaram.

— Graças aos deuses por Carbo — sussurrou. — Graças a eles por terem escondido vocês enquanto corriam e por trazê-los de volta em segurança.

Spartacus abriu os braços, e ela se aproximou. Ele a abraçou com força.

— Senti muito a sua falta. — Ariadne pensou na estrada pontuada por cruzes e se esforçou para afastar a imagem brutal. — Pensei que não voltaria.

— Não foi tão ruim — mentiu ele, feliz por ela não poder ver o rosto dele naquele momento. — Não foi como lutar uma batalha. E estou de novo aqui, com você e com Maron.

Ela olhou para ele, abrindo um sorriso.

— Então valeu a pena ter ido?

— Sem dúvida. Descobrimos sobre as legiões que estão sendo reunidas e quase matamos Crassus, o político que tem comandado os exércitos romanos. — Ele fez uma careta. — Se eu tivesse Atheas e Taxacis comigo ou uns dez gladiadores... Poderíamos ter acabado com ele com facilidade.

Ariadne ficou confusa.

— Conte para mim.

Ele contou tudo sobre o atentado, e ela balançou a cabeça numa mistura de surpresa e exasperação.

— E você diz que o que aconteceu não foi perigoso? Você tem uma vida abençoada, Spartacus.

Ele adotou uma postura séria.

— Eu sei, e agradeço ao Cavaleiro por isso todos os dias. Amanhã, oferecerei um carneiro a ele ou, melhor ainda, um touro.

— Então, o que faremos agora?

— Havia um mensageiro oficial na estrada na tarde antes de sermos atacados. Ele levava ordens a Messina, na Sicília. Houve duas grandes rebeliões de escravos naquela ilha nos últimos sessenta anos.

Ariadne sorriu diante do entusiasmo dele, porém, continuava sem entender.

— Vamos reunir navios de grãos e usá-los para transportar o exército para a Sicília. Quando souberem da nossa chegada, os escravos da ilha se unirão a meu grupo. As duas legiões de lá provavelmente não têm contra o que lutar há anos. Teremos tempo para formar um exército duas vezes maior do que este aqui antes de Roma reagir. Com um contingente assim sob a minha liderança, não importa quando a guerra for deflagrada.

Ariadne se recusou a se animar.

— Como você arranjará homens em número suficiente para ir a Sicília a fim de tomar os navios de grãos?

— Pagando a um capitão pirata seu peso em prata e ouro.

— Você tem uma resposta para tudo.

— Por enquanto, sim. Está convencida?

Mesmo com todo o seu tempo sendo ocupado por Maron, Ariadne vivia tomada pela preocupação com o futuro deles. E esse plano parecia factível. Ela fez uma oração em silêncio. “Dionísio, peço que nos ajude de novo, como já fez muitas vezes antes.”

— Parece bem melhor do que ficar sentado esperando as legiões chegarem.

— Também acho. Primeiro, precisarei descobrir onde ficam os melhores pontos para ancorarmos e em quais portos os oficiais fazem vista grossa para as embarcações piratas. — Spartacus fez uma careta, e então deu um sorriso confiante. — Os deuses nos ajudarão.

Ariadne assentiu.

— Quem você mandará?

— Carbo.

— Ele é um bom homem.

— Um dos melhores. Salvou minha vida, sabe? Se ele não tivesse ouvido...

Ariadne levou o dedo aos lábios dele.

— Pare, por favor. Todos os dias vivo sabendo que posso perdê-lo. Hoje, quero me alegrar por saber que você voltou para mim e para Maron. Que está vivo. — Ela afastou a mão e, ao erguer o rosto ao encontro do dele, beijou-o.

Spartacus teve um último pensamento coerente antes de a paixão dominá-lo.

“Obrigado, Grande Cavaleiro, por me guiar de volta ao meu exército, à minha esposa e ao meu filho.”

 

Seis semanas depois...

Em sua barraca, Crassus se preparava para a aparição do dia. Escravos suados estavam ao seu lado, fazendo o melhor que podiam para ignorar as moscas enquanto entregavam as roupas ao seu líder. A túnica vermelha de um general. O peitoral de bronze, uma couraça protuberante e polida. O elmo com a crista de crina vermelha. O cinto dourado com placas que protegiam sua virilha. O tecido vermelho ao redor de sua cintura. O gládio de cabo de marfim ornamentado. As botas que iam até as panturrilhas, com os dedos expostos.

“Pelos deuses, ainda bem que não tenho que vestir tudo isso todos os dias.” Crassus fez um gesto aos escravos, disposto a seguir em frente com sua tarefa, que era se apresentar às tropas. Para melhorar o ânimo. Para dizer como eles eram corajosos. Para que soubessem que estavam envolvidos em uma tarefa enviada pelos deuses: livrar a Itália e a República da destruição causada por Spartacus e seus escravos. “E, claro, para me tornar mais popular do que Pompei Magnus”, pensou Crassus.

Vestiu a túnica, tentando ignorar o modo como ela se grudou às costas suadas.

“Pompei! O jovem.” Crassus odiava o fato de o rival ter um nome mais conhecido pela sua habilidade marcial. Para ele, isso era totalmente injustificado. Pompei não fora o responsável por salvar a situação para Sulla em Porta Collina? Porém, para Crassus, Marius teria sido um ditador. O que Pompei fizera na guerra civil tinha sido reunir três legiões que obtiveram algumas vitórias sem importância para Sulla. Se o homem fosse um estrategista tão bom, por que demorara tanto para aniquilar a rebelião de Sertorius na Ibéria? E a vitória ainda não era definitiva. “Há muito eu já teria resolvido isso. Com Júpiter como testemunha, cuidarei de Spartacus assim, de forma rápida e definitiva.”

Um escravo o ajudou a vestir a proteção do peito. Outro se agachou ao lado dele para amarrar a faixa em sua cintura.

Era fim de tarde, e o som traçava um caminho rubro em direção ao horizonte. O exército tinha deixado Roma duas semanas antes, sete dias depois do que ele pretendera. Apesar disso, eles percorreram naquele período mais de trezentos quilômetros castigados pelo sol, sem sombra. Thurii, a base do exército rebelde, estava agora a menos de cem quilômetros. Quando sua pele pinicou por causa do calor, Crassus tentou se sentir grato pelo progresso memorável e pelo fato de o calor assustador daquele dia ter começado a diminuir. Contudo, era difícil. Ainda estava quente como um forno em sua barraca, e cavalgar por quase oito horas por dia era exaustivo. Ele estava contente por não ser um dos soldados comuns, que tinham marchado trinta quilômetros desde o amanhecer — vestindo armadura completa. Metade deles estava erguendo um acampamento temporário, enquanto o restante dos companheiros exaustos, porém agradecidos, observavam.

Quando tal tarefa fosse concluída, todos, com a exceção dos veteranos, passariam por um treinamento de duas horas antes de poderem descansar ou comer. Contudo, eles próprios tinham escolhido aquilo, pensou Crassus sem se abalar. Vinham repetindo tal rotina todas as tardes desde que tinham saído de Roma e a seguiriam todos os dias até a campanha terminar. Ele não diminuiria a pressão sobre os soldados novatos nem por um segundo. Só faria isso quando Spartacus estivesse morto.

Crassus ergueu um pé e depois o outro, permitindo que os escravos calçassem as botas dele. Mais suor escorreu pelas costas. “Mal posso esperar pela chegada do outono.” Sem dúvida, o período prolongado de calor fazia com que os agricultores agradecessem a Saturno, Ops, Ceres e Lactans pela generosidade, mas Crassus não se importava nem um pouco com a colheita. Ele queria que o clima quente terminasse logo. Estava cansado de ver seus oficiais reclamando dos homens que morriam todos os dias. “Casualidades pelo calor e pela falta de água não são o mesmo que as baixas em combate!”

Ainda assim, Crassus sabia que não podia ignorar tais perdas. Então, pedira a Caepio para organizar várias unidades especiais cuja tarefa específica era percorrer partes da enorme coluna que era seu exército — que cobria quase cinquenta quilômetros —, oferecendo assistência e água a quem precisasse. Desse modo, centenas de homens que teriam morrido sem essa ajuda continuariam a marchar para o sul, em direção ao alvo.

“O maldito trácio pulguento.” A lembrança de como Spartacus chegara tão perto de matá-lo estava sempre presente na mente de Crassus. Não fosse pela informação dada por seu espião, ele poderia estar morto agora. Saenius tinha feito bem em recrutar o homem. Com sorte, eles voltariam a receber informações. Crassus tinha muita confiança em sua capacidade de destruir o domínio de terror do trácio, com suas dez legiões. “Quando as legiões estiverem prontas, eles não vencerão a coragem romana”, pensou ele, confiante. A força romana. A disciplina romana. Entretanto, ele não era contra o uso de subterfúgios para resolver de vez a questão com muito mais rapidez.

— Proteção.

Uma peça justa de feltro lhe foi entregue. Crassus olhou confuso para ela e a vestiu. Esta faria com que ele transpirasse ainda mais do que um ferreiro ao moldar uma bigorna, porém ele estaria protegido contra ferimentos com a peça externa pesada de seu elmo.

— Não tenho o dia todo — reclamou ele, estalando os dedos.

O elmo de placas prateadas lhe foi entregue, e Crassus o admirou por um instante. Custara uma fortuna, porém valera a pena. Era uma obra de arte, com a crina do melhor garanhão da Itália, com partes esmaltadas protegendo o rosto. A parte da testa era decorada com desenhos lindos de Marte recebendo ofertas de grupos de oficiais e legionários. Crassus a vestiu com orgulho. “É adequado”, pensou ele, “para um general vitorioso.”

— Espada.

Um escravo se apressou com o gládio e passou a faixa sobre o ombro dele.

Crassus olhou no espelho de bronze de corpo inteiro para ter certeza de que o cabo da espada estava posicionado no lado esquerdo do quadril. Por fim, secou o rosto com um pano. Satisfeito com sua aparência, foi até a porta.

Os sentinelas do lado de fora o cumprimentaram quando ele saiu.

Ele ficou contente ao ver Caepio esperando diante da metade de um grupo de centuriões, alguns que foram designados para protegê-lo. Elmos e malhas reluziam sob o sol. Até mesmo as placas dos escudos foram polidas. Ao lado desse grupo, seu servo segurava as rédeas de um cavalo preparado.

— Atenção! — gritou o velho centurião.

Juntos, os soldados se endireitaram.

Crassus esboçou um sorriso. Poucas de suas tropas eram tão boas assim, porém, sob o comando de Caepio, as coisas melhoravam a cada dia.

— Centurião.

— Pronto para as rondas, senhor?

— Com certeza. — Ele olhou para o centurião com aprovação. Desde o começo, Caepio havia ganhado a confiança de Crassus. Apesar da idade, sua energia era ilimitada. Ele recrutava sem cansar, ajudava a treinar novos homens e oferecia conselhos práticos a quem precisasse, sempre que fosse necessário. Crassus agora o valorizava muito. Soldados como Caepio eram um tesouro raro. O comandante caminhou em direção ao cavalo e apoiou o pé nas mãos unidas do aio para montar o animal. — Creio que podemos começar pelo lado oeste e passar para o muro de defesa depois. Para tentarmos ver o máximo de tropas possível.

— Muito bem, senhor. — Caepio deu uma ordem. Vinte de seus homens e um optio trotaram e se colocaram em posição: quatro homens na frente e cinco atrás diante do comandante. — Em direção à entrada oeste. Marchem! — gritou ele. Os soldados partiram. Crassus bateu os pés nas ancas de seu cavalo; Caepio caminhou ao lado dele, e o resto dos soldados foi atrás.

O exército de Crassus era grande demais para formar o acampamento como uma unidade. Desde o começo, ele tinha dado a ordem para que suas legiões andassem em pares e, assim, cinco acampamentos temporários eram erguidos toda tarde, todos eles acomodando cerca de dez mil homens. Todos tinham exatamente o mesmo formato, o de um enorme retângulo com cantos arredondados, e os muros eram feitos com uma mistura de madeira e terra escavadas pelos legionários ao redor do perímetro. O fosso resultante servia como parte das defesas do acampamento. Em algum ponto dos quatro lados de cada acampamento, uma abertura era deixada para que os dois lados se sobrepusessem, criando algo parecido com uma entrada estreita que seria bloqueada com facilidade da noite para o dia e que poderia ser bem-protegida no caso de um ataque. Dois caminhos retos ligavam as entradas, que dividiam os amplos acampamentos em quatro partes. A sede dos acampamentos e as barracas dos comandantes ficavam localizadas na interseção desses caminhos. Ao redor deles, todos os comboios, centúrias e contubérnios tinham uma posição determinada, indicada pelos engenheiros todos os dias.

Havia pequenos grupos de soldados presentes nas áreas vazias ao redor dos aposentos de Crassus: um legionário de cada contubérnio e grupos de homens que cuidavam dos animais. Sob a supervisão de oficiais de menor escalão que berravam as ordens, eles descarregavam as barracas de centenas de mulas arredias, que não paravam de balançar o rabo. O fedor de estrume e as nuvens de moscas bastaram para que Crassus passasse por ali torcendo o nariz.

O caminho à frente, tomado por mais mulas e mensageiros que andavam de um lado para o outro, se abriu milagrosamente quando o oficial da frente anunciou a presença dele aos berros. Dos dois lados, soldados de rostos vermelhos e suados chamavam a atenção; optiones e tesserarii cumprimentavam; os escravos baixavam a cabeça. Crassus cumprimentou alguns dos oficiais e dos homens com acenos breves.

Para proteger os soldados de ataques, as fileiras de barracas terminavam a algumas centenas de passos antes do muro do lado oeste, que já tinha a altura de um homem alto. Estacas pontudas de madeira decoravam o lado externo das fortificações, formando uma paliçada de proteção. Ao longo da construção, os soldados se ocupavam batendo a terra com as ferramentas. Galhos foram dispostos para formar uma passarela e Crassus pôde ver as torres que adornariam os dois lados da entrada, que estavam sendo erguidos. Eles entraram. Uma brisa suave soprou em seu rosto corado, e ele balançou a cabeça de um lado para o outro, tentando conseguir algum alívio; estava assando dentro da armadura. A brisa, contudo, não fez grande diferença, e ele se irritou ainda mais.

Direcionou o cavalo para a esquerda, onde um grupo de legionários terminava o foço de defesa. Caepio gritou com os homens da frente, que se viraram e passaram a marchar mais depressa para passarem à frente do comandante.

A presença de Crassus foi logo percebida. A menos que ele parasse ou fizesse uma pergunta a um oficial, ninguém ousava interrompê-lo. As pessoas olhavam para ele de soslaio, e para onde ele olhava o ritmo de trabalho aumentava. Às vezes, ele achava divertido se demorar enquanto os legionários mantinham o ritmo frenético de trabalho. Ainda usando as malhas, espadas e adagas, eles estavam ofegantes, mas não ousavam desacelerar.

Ao ver uma parte da trincheira que havia caído, ele se aproximou. Um centurião forte cuidava do local, berrando com os homens que reparavam o muro. Crassus parou para observar. Caepio e seu grupo fizeram o mesmo. Concentrado em seu trabalho, o oficial não percebeu a presença deles.

— Mais rápido, seus filhos da puta preguiçosos! Se não quiserem meu cajado no rabo de cada um de vocês, é melhor que terminem essa seção antes de eu contar até quinhentos. Um. Dois. Três. — Ele riu quando os soldados, encharcados de suor, cobertos por uma camada de terra, passaram a cavar com energia renovada. — É assim que quero. Quatro. Cinco. Seis. — Olhou para cima, reconheceu Crassus e o saudou. — Senhor! — E então, ordenou aos homens: — Parem!

A maioria dos legionários obedeceu. Ainda assustados, alguns não perceberam a presença do comandante e continuaram cavando. Com a facilidade do hábito, o centurião bateu o cajado na parte de trás das pernas dos desobedientes mais próximos. Tac, tac, tac.

— PAREM, seus viados! O ilustre comandante Marcus Licinius Crassus nos deu a honra de sua visita! — Assustados, os rebeldes logo largaram as ferramentas. — Atenção! — gritou o centurião. Afundados na terra até a cintura, os homens obedeceram. Ele olhou para Crassus. — Nós nos sentimos honrados com sua presença, senhor. Não é, rapazes?

— SIM, SENHOR!

— Ritmo de trabalho louvável, centurião. Seus homens estão tão interessados em lutar contra Spartacus quanto estão em escavar a terra?

— Ou ainda mais interessados, senhor!

— Guardarei sua palavra. Com homens como os seus, a vitória será nossa!

Os soldados gritaram concordando, com a garganta seca.

Crassus assentiu, aprovando.

— Confio que, na primeira oportunidade, você e seus companheiros acabarão com os escravos.

— Claro que sim, senhor! — gritou um homem baixo com um sorriso banguela. — Pelo senhor e por Roma!

O centurião arregalou os olhos ao ver a ousadia do soldado, porém Crassus sorriu.

— Isso mesmo, soldado. É o que quero ouvir.

— Obrigado, senhor — respondeu o centurião com vontade. — Todos nós sentimos o mesmo.

— CRAS-SUS! — berrou alguém. O grito foi repetido pelo fosso.

Crassus aceitou a aclamação, assentindo.

— Se sua tarefa for concluída antes do prazo, todos os homens devem receber uma dose extra de aceto esta noite. Assim como você.

Todos sorriram. O comandante atravessou o perímetro oeste do acampamento, parando para interrogar oficiais, elogiar o trabalho de seus soldados e para fazer discursos curtos e motivacionais. Conforme avançava, ganhava coragem. O fervor dos legionários ficava evidente não só ali, mas também durante o dia, quando marchavam, e à noite, quando se sentavam do lado de fora de suas barracas, fofocando e bebendo. Crassus notava tal fervor no tom das canções cantadas por eles e nos seus rostos bronzeados. Seus homens queriam lutar. Como ele, queriam derrotar Spartacus. Apesar de se sentir como se estivesse em um forno o dia todo, o bom humor de Crassus voltou. A vitória seria dele.

Ao virar a cabeça do cavalo em direção ao campo aberto além do acampamento, algo chamou sua atenção. Crassus piscou, surpreso. Olhou de novo. Uma fúria intensa tomou conta dele, e ele olhou para os dois lados da trincheira.

— Quem está no comando aqui? — Não houve resposta imediata, e Crassus se enfureceu. — EU PERGUNTEI QUEM ESTÁ NO COMANDO AQUI, PORRA!

— Se-seria eu, senhor — respondeu um jovem centurião cujo cabelo castanho estava arrepiado por causa do suor.

Crassus aproximou o cavalo do oficial e quase o derrubou.

— Qual é o significado disso? — Ele fez um gesto para a direita.

— Significado do quê, senhor?

— Veja aquele merda ali. — Crassus apontou para um legionário.

Assustado, o homem ficou paralisado. Instintivamente, seus companheiros deram um passo para longe dele.

— Não vou chamá-lo de soldado, porque é óbvio que ele não é um soldado — vociferou Crassus. — Você não tinha visto que ele não está com a espada?

O centurião olhou. Seu rosto empalideceu quando viu o gládio na terra atrás do fosso.

— Não, senhor.

— E você se diz oficial? — questionou Crassus. — Ouçam, legionários! Desde sempre, soldados romanos trabalham armados para erguer seus acampamentos — gritou. — Fazem isso porque, no caso de uma necessidade, eles poderiam lutar a qualquer momento. Homens que desobedecem a essa ordem simples colocam suas vidas e as de seus companheiros em risco. — Ele pausou para deixar que suas palavras fossem aceitas. — Essa desobediência não pode e não será tolerada no meu exército! — Ele olhou fixamente para o legionário, cujo rosto estava pálido de medo. — Caepio!

— Senhor! — O centurião veterano apareceu à sua direita.

— Leve aquele homem diante de seus companheiros e execute-o.

Pela primeira vez, Crassus viu respeito de verdade nos olhos de Caepio. “Ótimo.”

Segurando o cabo de sua espada, o centurião partiu em direção ao fosso e parou diante do soldado culpado.

— Saia! — vociferou.

O homem saiu da trincheira aos tropeços. Ele se endireitou e lançou um olhar suplicante a Crassus.

— Sinto muito, senhor! Nunca fiz algo assim antes. Eu...

Crassus contraiu os lábios reprovando.

Caepio observava.

— Cale-se, seu imundo! Seu general não está interessado. — Ele deu um tapa no rosto do soldado com as costas da mão. — Ajoelhe-se!

Chorando, o homem obedeceu.

O gládio de Caepio já estava empunhado.

— Levante a cabeça!

Crassus olhou ao redor. Todos os homens à vista estavam prestando atenção à cena, e era exatamente isso o que ele pretendera.

Engolindo em seco, o soldado olhou para o céu, expondo o pescoço.

— Faça seu último pedido aos deuses, seu rato — disse Caepio, erguendo o braço direito para trás.

O homem fechou os olhos e seus lábios se moveram em uma oração silenciosa.

A lâmina de Caepio desceu com grande velocidade. Perfurou a parte oca da base do pescoço do soldado, rasgando a carne macia com facilidade. A morte foi instantânea. O gládio cortou as principais artérias acima do coração e parou na coluna da vítima.

O homem soltou um som horrível de engasgo e caiu imóvel como uma boneca.

Caepio puxou a espada e um jorro vermelho-escuro espirrou do corte. O centurião ergueu o pé direito e chutou o corpo para dentro do fosso, sujando os soldados mais próximos com o sangue.

— Lembrem-se, seus preguiçosos malditos, que qualquer homem pego desarmado daqui em diante receberá o mesmo castigo — gritou Caepio, limpando a lâmina na barra da túnica.

— Ou pior — acrescentou Crassus com um toque de maldade.

Fez-se um silêncio pesado, e ninguém teve coragem de rompê-lo... só foi ouvido um corvo que passou voando. Seu pio derrisório parecia zombar dos soldados posicionados.

— Você — chamou Crassus, olhando para o jovem centurião. — Qual é o seu nome?

— Lucius Varinius, senhor.

— Você é parente do pretor desonrado, certo? — quis saber Crassus.

— Ele era um primo distante, senhor — foi a resposta tensa.

— Compreendo. Há dois tolos na mesma família. Isso não surpreende. Entregue seu cajado a Caepio.

Com tristeza, Varinius obedeceu.

— Quebre-o! — ordenou Crassus.

Caepio quebrou o cajado de madeira no joelho e jogou os pedaços no chão.

— A partir de agora você voltará a ser um soldado comum — vociferou Crassus. — Considere-se sortudo por continuar vivo. Fique na linha de frente de toda batalha. Ali pode ser que você redima parte de sua honra.

— Sim, senhor. Obrigado, senhor — murmurou Varinius.

— Que seja uma lição para todos vocês. — Crassus lançou mais um olhar de desdém aos legionários que observavam antes de direcionar o cavalo para o outro lado e se afastar, com Caepio marchando ao seu lado.

— Isso nunca voltará a acontecer, senhor — disse o centurião.

— Você acha? — perguntou Crassus.

— Aquilo amedrontou todos os homens que testemunharam, senhor. Cada um deles contará aos companheiros, e assim a notícia se espalhará mais depressa do que merda saindo de um homem com cólera. O que, se não se importa que eu diga, senhor, é algo muito bom.

— Não me importo nem um pouco que diga, centurião — respondeu Crassus.