Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 21 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Nota do autor

 

Parece que faz poucos meses que me sentei para escrever o que pensei ser um livro sobre Spartacus. Mais de um ano depois, me vejo tendo terminado um segundo romance, privado da presença de um homem a quem sempre admirei e que passei a estimar ainda mais. Durante esse tempo, vivi e respirei pouco mais do que coisas relacionadas a Spartacus, e fui até a Itália para conhecer os caminhos percorridos por ele. Chegar ao fim do segundo livro e da batalha final tornou-se algo que passei a temer, devido ao resultado conhecido. Escrever tais cenas foi uma experiência emocionante e também um dos meus melhores períodos escrevendo. Essas últimas 15 mil palavras foram elaboradas em cinco dias, em geral trabalhando mais de 12 horas em cada um deles. As palavras simplesmente fluíam de mim e, quando terminei, me senti mais esgotado do que nunca. Espero que a intensidade da minha experiência seja sentida ao longo do livro, sobretudo nos trechos finais.

Este volume é a continuação da história de Spartacus contada no primeiro livro. Tentei com muito esforço me ater aos fatos históricos conhecidos. Qualquer mudança notável está mencionada aqui e qualquer erro encontrado é meu. Infelizmente, apenas cerca de quatro mil palavras sobre Spartacus nos foram passadas ao longo do tempo. Como já disse antes, isso é frustrante, porém deixa muito espaço para a criação de uma história. Seria bom ter mais material histórico, só que isso não é possível.

Crixus e seus homens enfrentaram as legiões de Gellius no monte Gargano, onde hoje fica o promontório Gargano, e utilizei os detalhes que sabemos sobre a batalha final. Inventei os detalhes da amputação das mãos dele e a de seus homens por parte dos romanos. O terrível munus promovido por Spartacus e seus soldados ocorreu de fato, apesar de ter sido minha ideia permitir que um homem — Caepio, um personagem fictício — sobrevivesse. A missão de Carbo e Navio em Módena foi inventada, assim como o transcorrer, mas não o resultado, do embate contra Longinus. É verdade que um homem chamado Publipor guiou Spartacus e seus homens pelas montanhas do sul da Itália nos primeiros meses da rebelião, porém a minha versão dele só entra na história mais tarde. Acho bem plausível os romanos tentarem infiltrar espiões no exército escravo; isso poderia, como escrevi, justificar alguns dos fracassos de Spartacus.

A menos que um documento histórico seja desenterrado e dê voz a Spartacus, nunca saberemos de verdade por que ele marchou até os Alpes e depois voltou para o sul. Não é segredo que suas estratégias sejam assunto de muitos debates. O tema é muito bem abordado no excelente texto do professor Barry Strauss em The Spartacus War. Minha encarnação do trácio não queria desistir de seu exército; é improvável que ele soubesse das vitórias de Lucullus na Trácia, porém, na minha história, isso lhe deu um motivo para permanecer na Itália.

Não está claro como Crassus chegou ao comando dos exércitos da República, mas sua fortuna e influência teriam ajudado muito. Ele era conhecido como o homem mais rico de Roma e também um de seus políticos mais astuciosos. Foi minha decisão descrever o jovem Júlio César como um dos oficiais de Crassus — o que é uma sugestão razoável. Ele serviu como um dos 24 tribunas militares em 71 ou 72 a.C., e não há menção sobre ele ter se mudado — o que significa que ele pode ter sido alocado dentro da Itália. Devido à rebelião de escravos da época, é possível nesse caso que ele tenha servido no exército de Crassus. Não existe evidência que sugira que Spartacus tenha ido à capital ou tentado assassinar Crassus, porém, gostei de pensar que ele tentaria fazer isso e de imaginar “E se ele tivesse conseguido?”.

Estou cansado de receber e-mails de pessoas me dizendo que carroças não eram permitidas em Roma durante o dia, então vou explicar. Essa lei só foi criada quarenta anos depois dos eventos relatados neste livro. A velocidade com que Crassus organizou as legiões e marchou para o sul foi exagerada, mas não muito. O castigo aplicado a um soldado que largou sua espada para cavar uma trincheira não foi ordenado por Crassus, só que aconteceu de fato algumas gerações antes. A dizimação que descrevi ocorreu por meio de um comando específico de Crassus. Spartacus tentou recrutar piratas para levar alguns de seus homens à Sicília, um deles se chamava Heracleo. Inventei o que aconteceu com Heracleo e seus homens, pois não sabemos por que eles não cumpriram sua parte no acordo. É verdade que Crassus e seus homens encurralaram o exército rebelde na “ponta da bota” — discute-se muito como teria ocorrido, assim como fazem sobre construções antigas que não sobreviveram à passagem do tempo. Depois de percorrer a área, concordo com a sugestão de Barry Strauss de que o Melia, que corre de leste a oeste pela península a cerca de oitenta quilômetros ao norte da atual cidade de Reggio di Calabria (antiga Rhegium), foi o local das fortificações romanas. É claro que isso é apenas minha opinião!

O ataque fracassado dos escravos às defesas inimigas aconteceu de verdade. Eles sofreram muitas baixas, porém, incentivados pela crucificação de um prisioneiro romano, ordenada por Spartacus, conseguiram furar o bloqueio. Não há evidências de que os legionários capturados foram executados para encher os fossos, mas era comum os corpos de homens e animais serem usados para tal propósito. A rivalidade entre Spartacus, Castus e Gannicus ao longo da história é invenção minha, só que bem embasada, já que os dois gauleses se separaram do exército principal na época. Não se sabe o modo e o local exatos onde morreram, porém de fato foram salvos uma vez pela intervenção de Spartacus, como descrevi, apesar de terem sido derrotados lutando corajosamente logo depois. Dos 12.300 homens tidos como mortos pelos legionários de Crassus, apenas dois foram feridos nas costas. Dizem que Spartacus então foi para Brundisi e soube da chegada de Lucullus. O local de sua batalha final também não é exato; muitos acreditam ter sido o vale do rio Sele (historicamente, o Silarus), perto da moderna cidade de Oliveto Citra. Visitei o local e recomendo a todos conhecer essa região de Nápoles.

Até onde sei, não há provas do uso de apitos pelos oficiais romanos para dar ordens — trombetas e outros instrumentos eram usados para isso. No entanto, foram encontrados apitos por todo o Império, inclusive perto das fortalezas legionárias em Regensburg, na Alemanha. Para mim, faz sentido que Spartacus tivesse um desses em seu poder durante uma batalha. Um apito poderia ser muito útil para chamar a atenção de homens a poucos passos de distância.

Naquele dia importante na primavera de 71 a.C., Crassus mandou seus homens cavarem fossos; a reação de Spartacus foi mandar seus soldados atacarem. A batalha se desenrolou devagar. A atitude dramática de Spartacus ao sacrificar seu cavalo está registrada, assim como o combate difícil que veio em seguida. Dizem que Crassus permaneceu perto da luta e que Spartacus liderou pela dianteira, além de ter mirado com precisão a posição de seu inimigo. Apesar de ter matado dois centuriões, ele fracassou em sua tentativa de acabar com Crassus. Ferido, lutou até ele e os homens perto dele serem derrubados. Um dado importante é que seu corpo nunca foi encontrado (foi por isso que tive a ideia de fazer Spartacus tirar o elmo perto do fim, para que não pudesse ser identificado). Como costumava acontecer nos tempos antigos, a notícia da morte do líder fazia seu exército desertar e fugir. Eles foram expulsos do campo de modo minucioso; talvez cerca de dez mil homens tenham sido mortos, cerca de seis mil foram feitos prisioneiros. Muitos outros escaparam e foram perseguidos pelos legionários de Crassus. Dizem que todos foram levados como presos, só que isso não é verdade — a resistência ao governo de Roma persistiu na área próxima a Thurii durante mais de uma década.

Os seis mil homens crucificados sob as ordens de Crassus foram espalhados pela estrada de Cápua até Roma, como descrevi. Foi a maior crucificação conhecida, e podemos imaginar o horror da situação. Recentemente, fui a Roma, onde visitei os restos da antiga Via Appia, que ainda podem ser vistos às margens da cidade, ao sul. Há um trecho de quase dois quilômetros de extensão que está quase intacto. Nas pedras de pavimento com sulcos profundos causados pelos carros romanos, com campos dos dois lados e poucas pessoas ao redor, foi fácil e inquietante imaginar a cena. Sugiro a quem visitar Roma que reserve um tempo para conhecer esse lugar. Fica a uma viagem curta de ônibus do Circo Máximo, e é um oásis de calma depois do ritmo frenético do centro da cidade.

A satisfação de Crassus com sua vitória sobre Spartacus durou pouco. Pompei, seu arquirrival, agiu depressa e roubou os holofotes quando suas tropas massacraram um grupo de cinco mil sobreviventes do exército de Spartacus encontrado na Etrúria (onde hoje é a Toscana). Ele enviou uma carta ao Senado para dizer que “Crassus derrotou os escravos em batalha aberta, porém ele, Pompei, arrancou as raízes da guerra”. Para aumentar a frustração e a inveja de Crassus, Pompei foi considerado triunfante em suas explorações na Espanha. Assim como ocorreu com seu cocomandante, a mesma honra foi dada a Marcus Lucullus ao retornar de sua guerra contra Mitrídates. Então, quatro paradas foram realizadas em Roma em 71 a.C., porém a de Crassus foi apenas um ovatio, pois ele tinha vencido escravos, não homens livres. O general deve ter detestado ter que entrar na cidade a pé ou a cavalo, não numa charrete; por ter usado uma toga simples de magistrado e não roupas feitas com fios de ouro; por não ter tido um cetro. O som de flautas deve ter soado aos seus ouvidos em vez do toque de trombetas. Crassus deveria ter usado uma coroa de murta e não a de louro, mas se opôs a usá-la, pedindo ao Senado para abrir uma exceção — o que lhe foi concedido, talvez para permitir-lhe preservar parte de seu orgulho. Determinado a não ser superado por Pompei, ele pagou por festejos extensos em Roma e, seguindo o hábito dos generais que retornam vitoriosos, dedicou um décimo de sua fortuna a Hércules. Sua rivalidade com Pompei seguiu ao longo do ano seguinte, quando serviram juntos como cônsules. A amargura só foi deixada de lado no final do mandato de governo, quando, a pedido de outro político, eles fizeram um gesto público de reconciliação.

Na década seguinte, Crassus continuou a fortalecer sua posição na política, enquanto Pompei fez o mesmo ao assumir mais campanhas militares em nome da República. Os dois foram muito bem-sucedidos em suas áreas. A rivalidade parece nunca ter desaparecido por completo. A ascensão gradual da proeminência de César acabou levando os dois a acomodar uma terceira pessoa, formando o que ficou conhecido como o segundo triunvirato. Juntos, os três governaram Roma até Crassus partir para o Oriente em 55 a.C., com a intenção de vencer Pártia, uma região desértica ao leste da Síria e da Judeia. Como muitos sabem, não foi uma decisão sábia: na Batalha de Carras no verão de 53 a.C., Crassus, um de seus filhos e vinte mil legionários foram mortos. Quem se interessa pela história dessa campanha deveria ler The Defeat of Rome, de Gareth C. Sampson, ou outro livro meu, The Forgotten Legion.

Como escrevi no primeiro livro, a lista de referências sobre Spartacus é mais curta do que o normal devido à já mencionada falta de material comprovado. Além de meus textos históricos sobre Roma de sempre, as principais fontes que usei foram (de novo): The Spartacus War, de Barry Strauss; Spartacus and the Slave Wars: A Brief History with Documents, de Brent D. Shaw, que detalha todos os textos antigos que tratam do trácio; Spartacus and the Slave War 73-73 BC, um livro da editora Osprey, escrito por Nic Fields; The Thracians, de Chris Webber, também publicado pela Osprey, e o livro do mesmo autor, The Gods of Battle, que recomendo. O ótimo site Roman Army Talk também deve ser mencionado — é uma fonte ótima para descobrir tudo e qualquer coisa sobre o exército romano, e seus membros respondem muito rápido às dúvidas. Também existe um site incrível, o UNRV, que fala sobre tudo o que for romano, não apenas sobre o exército.

Há muitas e muitas pessoas a quem devo agradecer também. Rosie de Courcy, minha editora; Charlie Viney, meu agente; Nicola Taplin, Ruth Waldram, Amelia Harvell e Jen Doyle; Richard Ogle, Rob Waddington, Andrew Sauerwine, Jane Kirby, Monique Corless, Kasia Thompson, Dave Parrish, Richenda Todd e Steve Stone. Nos Estados Unidos, Keith Kahla, Jeanne-Marie Hudson e Jessica Preeg, todos da editora St. Martin’s Press. Obrigado! Sem vocês meu trabalho seria impossível. Como sempre, sou grato a Claire Wheller, minha fisioterapeuta de primeira classe, e a Arthur O’Connor, meu amigo e crítico. Valorizo a amizade e a ajuda de todos os recriadores que conheço, desde os legionários da Legio XX em Deva até todos da Ermine Street Guard, Legio II Augusta e outros espalhados pela Itália, pela Espanha e pelos Estados Unidos. A vocês, meus leitores, agradeço pelo apoio. Se não fossem vocês, não haveria para quem escrever. Seus e-mails e comentários no Facebook e no Twitter animam meus dias. Podem me procurar nessas redes sociais: @benkaneauthor. Por favor, entrem em meu site (benkane.net) quando quiserem; suas opiniões são sempre bem-vindas. Por fim, tenho que agradecer à minha maravilhosa esposa, Sair, e minhas duas lindas filhas, Ferdia e Pippa, a quem amo muito.