Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 5 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo IV

 

A sorte dos amigos persistiu. Depois que ficou claro que os legionários tinham partido para sempre, os dois permitiram que Arnax, o garoto de pele pálida que os havia salvado, acendesse uma lamparina a óleo. A chama tremeluzente havia revelado uma sala lúgubre cheia de arbustos, panos de limpeza, baldes e uma pia cheia de peças de cerâmica. Foi o esconderijo perfeito. Poucas pessoas — até mesmo escravos — escolhiam entrar em uma área de serviço, a menos que fossem obrigadas. Enquanto Carbo interrogava Arnax, Navio conseguiu se livrar da maior parte do esterco e enfim pegou sua faca.

Em pouco tempo, eles entenderam que Arnax pertencia a um homem velho que vivia sozinho com alguns escravos. Desde que mantivesse o chão, a cozinha e o quintal limpos, o escravo podia fazer o que quisesse. Essa descoberta permitiu que os dois descansassem um pouco. Eles se animaram assim que o garoto voltou com uma túnica e um par de sandálias para Navio, além de alimento e água do poço da casa.

Eles tinham se preparado para sair por volta da meia-noite. Não foi necessário se esforçarem muito para convencerem Arnax a se unir a eles.

— Os soldados não nos encontrarão e, quando clarear, eles vão refazer o caminho — alertou Carbo. — Vai ser fácil ver onde escalamos o muro. Dois pares de pegadas marcadas com fezes levarão a essa porta. Quando eles chegarem para falar com seu senhor, só haverá uma pessoa a culpar. Você.

Com isso, o rosto magro de Arnax empalideceu.

— Venha conosco — convidou Carbo. — Você será livre como qualquer outra pessoa no exército. Um rapaz esperto como você será de grande valia.

— Só tenho 11 anos.

— Não importa. Os cozinheiros, os ferreiros e os varredores que cuidam dos cavalos e da cavalaria sempre precisam de ajuda. — Carbo viu a decepção que surgiu nos olhos escuros de Arnax. — Ou você pode manter nossos equipamentos em ordem e cozinhar.

— Posso fazer isso!

E assim ele foi convencido.

Pegando um pedaço da corda da área de serviço, o trio partiu pela cidade, agradecendo pela cobertura total das nuvens, que reduzia a luz na rua, deixando-a quase totalmente na escuridão. Os amigos, então, se sentiram ainda mais gratos pela presença de Arnax. Ele tinha um senso de direção apurado e os guiara até o muro ao sul, evitando várias patrulhas. Depois de terem visto os sentinelas andando pelo terreno e de calcularem a frequência com que passavam, foi bem simples subir, prender a corda em um pilar nas muralhas e descer até o foço na base da parede.

Dali, teve início uma longa, porém satisfatória caminhada até o acampamento, que eles alcançaram logo antes de amanhecer. Os olhos de Arnax se arregalaram ao ver o número de homens e barracas, e Carbo deu um tapinha em seu braço.

— Entende por que há uma sensação de pânico tomando Módena?

Os dois levaram Arnax para sua barraca e deram instruções para que ele preparasse o desjejum. Partiram à procura de Spartacus logo depois. Cansados de serem punidos, os dois relutaram em confessar tudo que havia acontecido. Se tivessem que explicar o cheiro fétido que ainda emanava de Navio, eles diriam que ele se embriagara a ponto de cair num monte de esterco enquanto passavam pelas ruas escuras. Carbo tivera de puxá-lo.

Encontraram Spartacus sentado em sua barraca, conversando com Castus e Gannicus. Atheas e Taxacis estavam por perto como sempre, como dois cães de guarda.

Castus fez uma careta quando eles se aproximaram.

— Nossa! Alguém está fedendo à merda de cavalo.

Gannicus sorriu diante do embaraço de Navio. Até Spartacus sorriu.

— O quê, em nome do Grande Cavaleiro, aconteceu com vocês?

— Onde estiveram? — quis saber Castus.

“Eles não sabem sobre nossa missão”, pensou Carbo. “Spartacus quer mostrar a eles que é muito esperto.”

— Módena — respondeu Navio.

Castus fez cara de desconfiado e lançou um olhar a Gannicus, que também não se mostrou muito contente.

— O quê, por Hades, nossos dois romanos estavam fazendo lá, Spartacus?

— Caindo em montes de esterco. O que mais?

O rosto de Castus ficou vermelho.

— Não tente ser engraçadinho comigo.

— Por que não fomos informados? — vociferou Gannicus.

— Tenho que contar tudo a vocês? — retrucou Spartacus.

— Você costumava nos contar o que planejava...

— Vocês estão aqui agora — disse Spartacus de modo sucinto. — Eles estavam obtendo informações. Podem ouvir o que eles têm a dizer em primeira mão. Não basta?

Castus parecia querer retrucar, mas Gannicus, que se mostrava irado como Carbo nunca vira, pousou a mão em seu braço. Arregalando os olhos, Castus se calou.

— A missão de vocês não saiu como o planejado, certo? Não me lembro de ter mandado vocês se jogarem em merda de cavalo.

— Tivemos alguns problemas, senhor — respondeu Navio, sem jeito. — Spartacus arqueou as sobrancelhas. — Nós, bem... — hesitou Navio. — Bebemos um pouco. Acabei caindo num monte de esterco. Carbo me tirou de lá.

Os gauleses riram.

“Até que isso não é uma mentira...” Carbo se sentiu aliviado, mas não por muito tempo. “Ainda.”

— Não há nada de errado nisso, desde que vocês tenham feito o que mandei. — A voz de Spartacus já não estava mais descontraída. — Descobriram alguma coisa?

— Descobrimos — respondeu Carbo, disposto a seguir em frente. — Longinus planeja um ataque surpresa conforme sairmos da cidade. Parece que há uma região de campo escondido acessível pela estrada ao norte. É onde as balistas estarão. — Ele não sabia bem por quê, mas Carbo preferiu não revelar o que os legionários haviam dito sobre a recente vitória romana sobre os trácios. Ficou contente por Navio também não ter contado.

— Malditos romanos! Desgraçados — resmungou Castus.

Gannicus concordou em voz alta.

— Você sabe onde fica o ponto? — perguntou Spartacus.

— Não.

— Ou quantas catapultas há?

Carbo negou com a cabeça e se desculpou.

Spartacus passou um dedo pelos lábios, pensando.

— É uma estratégia inteligente. Longinus pode ter vinte balistas, ou mais, se ele planeja isso há um tempo. Uma boa oficina pode produzir uma máquina em poucos dias. Naturalmente, os homens da artilharia já terão pensado nisso. — Ele se virou para os gauleses. — Imaginem a carnificina que, por exemplo, 24 catapultas causariam. Eles poderiam lançar seis salvas antes que os soldados pudessem reagir.

— E aí as legiões atacariam — observou Gannicus.

— Sim. Vocês descobriram mais alguma coisa, Carbo?

— Não — respondeu ele sem jeito.

— Não importa. Esse será o plano de Longinus, com certeza. Mas agora podemos levá-lo ao fracasso.

O olhar de Spartacus ficou distante.

No entanto, Castus não estava satisfeito.

— Por que não descobriram mais?

“Não foi você quem arriscou a vida para descobrir”, pensou Carbo, furioso. Contudo, disse:

— Porque os soldados que falaram sobre isso se afastaram.

— Então, por que vocês não os seguiram? — devolveru ele na mesma hora.

— Não conseguimos — respondeu Navio com um olhar irritado.

— Vocês estavam tão bêbados assim? Por isso você caiu em um monte de merda? — perguntou Castus.

— Isso importa? — questionou Spartacus. — Eles nunca conseguiriam ouvir mais do que fragmentos de conversas, de qualquer modo. Se dessem sinais de sua intenção, não estariam aqui agora. O fato de terem voltado em segurança com notícias a respeito do plano de Longinus basta.

— Se você diz — devolveu Castus. — Mas eu não acho. Tem mais coisa escondida aí. O que acha, Gannicus?

— Pois é. Os dois estão tão assustados quanto o amante pego pelo marido da mulher.

— Não confia neles?

— Não — respondeu Castus. — São romanos.

Spartacus ficou mais sério.

— Isso já aconteceu antes. Esses dois homens provaram sua lealdade muitas vezes!

— Dizem que sangue é mais denso do que água. Sempre concordei com isso — argumentou Castus.

“Por isso eu não confiaria em você de jeito nenhum, seu gaulês de merda”, pensou Spartacus.

— Acredito que devemos arrancar isso deles — disse Castus com ódio.

Em vez de defender seus homens, o trácio encarou Gannicus.

— Você concorda?

— Eles estão escondendo alguma coisa. Isso está claro como água. Como os líderes — Gannicus enfatizou a última palavra — desse exército, temos o direito de saber tudo, e fazer o que for necessário para isso.

“Agora não é o momento para uma briga. Temos uma batalha pela frente.” Spartacus se aproximou dos amigos.

— Que merda aconteceu?

Eles não disseram nada.

— Por todos os deuses! A menos que queiram que Castus, Gannicus e os homens deles ensinem uma lição da qual vocês nunca se esquecerão, falem!

Chocado, Carbo olhou para Navio, que deu de ombros.

— Havia soldados em todos os cantos da cidade, mas nenhum deles disse muita coisa. Ficou óbvio que eles tinham recebido a ordem de não falarem nada. Tivemos pouca sorte no restaurante, então fomos a diversas tavernas. Não ouvimos nada, então decidimos ir a uma hospedaria cuja clientela é formada sobretudo por soldados — Carbo sentiu o rosto arder —, onde supostamente havia boas putas.

Spartacus ergueu as sobrancelhas, porém disfarçou o riso. Atheas e Taxacis riram do embaraço de Carbo, mas os dois gauleses não ficaram nada contentes.

— Vocês foram enviados a Módena em uma missão de inteligência, só que estavam mais interessados em esvaziar os sacos. Inacreditável — vociferou Castus.

— E então? — quis saber Spartacus.

— Navio subiu com uma prostituta.

— Como você pagou pelo serviço?

A pergunta foi feita em voz baixa, mas a ameaça de Spartacus ficou clara.

— Eu tinha alguns áureos — respondeu Navio, sem jeito.

— Apesar de eu ter mandado vocês levarem pouco dinheiro.

— Sim.

Spartacus contraiu os lábios.

— Você é corajoso. Continue — ordenou ele a Carbo.

Era hora de admitir sua tolice. Carbo sentiu um enjoo.

— Fui ao fórum.

— Para quê?

— Para encontrar um escriba.

— Um escriba?

Spartacus arregalou os olhos.

— Sim. Eu ditei uma carta para meus pais em Roma.

Os gauleses riram sem acreditar.

— Você é imbecil?! — gritou Spartacus.

— Se alguém tivesse desconfiado de algo, só teria que ler o bilhete para saber quem você é — vociferou Castus. — Essa sua maldita cabeça romana precisa ser cortada!

— Não enviei a carta — explicou Carbo rapidamente. Retraindo-se diante da expressão feroz de Spartacus, continuou: — Mas alguém deve ter me visto porque, logo depois de eu retornar à hospedaria, um grupo de soldados vasculhou o lugar. Fui reconhecido, mas consegui fugir. Fortuna me guiou até a porta certa.

— Você merecia que eles tivessem pegado você — murmurou Castus.

“Mas aí você não saberia sobre as catapultas escondidas”, pensou Carbo com fúria. Ele teve o bom senso de guardar o comentário para si.

— Pulamos pela janela e fomos parar no quintal da hospedaria. Corri para um espaço entre os prédios, mas ele levava a um monte de esterco do estábulo. Não havia escolha além de escalar o monte e espiar pelo muro. Navio estava nu. — Ele ignorou as risadas dos gauleses. — E afundou no esterco enquanto tentava escalá-lo.

— Você estava se esbaldando, quando ele chegou — disse Castus com um sorriso irônico.

— É, eu estava bem ocupado, sim — retrucou Navio, com cara brava e muito desconfortável.

Castus e Gannicus riram. Os citas gargalharam. Até mesmo Spartacus riu.

— Mas você conseguiu escapar.

O tom de Gannicus parecia um pouco mais simpático, o que animou Carbo. Um pouco de humilhação era melhor do que mais acusações de traição.

— Sim. Pulamos o muro e chegamos numa viela. Olhei para a saída, porém a rua estava cheia de soldados. Pensei que seria o fim, mas os deuses interviram de novo. A porta de uma casa se abriu e um escravo saiu. Eu me identifiquei e pedi ajuda. Ele nos deixou entrar e trancou a porta. — Carbo sorriu ao se lembrar. — Logo depois, alguns legionários apareceram na viela e passaram por onde estávamos.

— Foi quando ouvimos sobre a emboscada de Longinus — acrescentou Navio.

— Tínhamos cumprido nossa tarefa. Esperamos até ficar tarde e, então, guiados pelo garoto, escalamos os muros. Foi fácil voltar para cá — explicou Carbo.

— Vocês são dois idiotas — repreendeu Spartacus.

Os gauleses repetiram as palavras dele.

Sabendo que estavam fora de perigo, os amigos baixaram a cabeça.

— Mas... se não tivessem feito o que fizeram, não teriam ouvido esse comentário importante. Não é Castus? Gannicus?

— Os deuses agem de modos estranhos — admitiu Gannicus.

— Satisfeito, Castus?

— Não. Sempre tentando encobrir o rabo de seus homens, não é? Por que faz isso? É incrível que os imbecis tenham conseguido voltar vivos.

— Mas voltaram, e com informações úteis — salientou Spartacus.

— Acho que sim — disse Castus, meio contrariado.

— Da próxima vez que planejar uma missão secreta — avisou Gannicus —, quero saber com antecedência, certo? Ou estamos todos liderando este maldito exército, ou não.

— De acordo — mentiu Spartacus. Ele não tinha nenhuma intenção de contar aos gauleses todos os seus planos, contudo precisava do apoio deles na batalha que se aproximava. — Da próxima vez, com certeza contarei a vocês.

Castus soltou um resmungo e, com ele, deixou clara toda a sua suspeita. Gannicus parecia um pouco mais satisfeito, mas isso seria o máximo que eles conseguiriam.

Spartacus olhou para Carbo e Navio.

— Da próxima vez que eu lhes der uma ordem, quero que a obedeçam ao pé da letra. Nada de levar moedas de ouro, só trocados. Nada de escrever cartas aos seus pais. — Ele lançou a Carbo um olhar especialmente repreensivo. — Nunca vi uma estupidez tão grande na vida. O único motivo pelo qual não mando os citas castigarem vocês é devido ao histórico de vocês. Se fizerem mais uma besteira, vocês dois acabarão como petiscos de urubus. ENTENDERAM?

— Sim — murmuraram em uníssono.

— Lembrem-se bem disso.

Eles se levantaram, cientes dos olhos predadores dos citas sobre eles e do olhar irado dos gauleses.

Spartacus desviou o olhar deles.

— Uma parte da cavalaria deve ser mandada para inspecionar o caminho além de Módena — anunciou. — Se virem algo suspeito, eles marcarão a posição, mas ignorem. Deixem os romanos acharem que não sabemos o segredinho deles. Podemos mandar mais homens quando escurecer.

— Quando o local for encontrado, destruímos as catapultas!

O rosto de Castus era puro ódio.

— Sem dúvida é o que faremos — rosnou Gannicus. — E Castus e eu tomaremos a dianteira.

Spartacus percebeu quão grande era o ódio deles e se perguntou se deveria ter lhes contado a respeito da missão de Carbo e Navio. Teria feito diferença?

— Era isso que eu estava prestes a sugerir.

— Ótimo, porque faremos isso de qualquer maneira — rebateu Gannicus, fazendo uma careta quando Castus rosnou em concordância. — Precisamos só de mil homens com baldes de óleo e algumas tochas para transformar a artilharia de Longinus em montes de cinza.

— Ótimo. — Spartacus sorriu de modo incentivador. “Vou adoçá-los por enquanto.” — Quando as balistas estiverem fora do caminho, teremos que lidar com apenas duas legiões. O caminho dos dois lados da estrada é plano. Não importará onde nós os enfrentarmos.

— Mal posso esperar — vociferou Castus. — Vamos matar os malditos.

— Com a ajuda do Grande Cavaleiro, é exatamente o que faremos — disse Spartacus com satisfação. Ele não disse nada sobre os Alpes. Um assunto tão controverso irritaria Castus e Gannicus de novo. Ele deixou para depois. — Podemos falar sobre os detalhes quando a cavalaria voltar.

— Ótimo — disse Castus. Ele olhou para Carbo. — Qual era o nome do rapaz que salvou vocês?

— Arnax. — “Para que você quer saber?”

Castus resmungou. E então, conversando animadamente com Gannicus sobre como eles destruiriam as forças de Longinus, partiu.

Distraído, Spartacus começou a atiçar o fogo com um graveto. Foi um sinal claro de que não estava mais lhes dando atenção.

— Preciso tomar banho — disse Navio em voz baixa. — E o desjejum está esperando. Você vem?

— Ainda não — respondeu Carbo. Ele disse o nome “Lucullus” sem emitir som, e Navio assentiu, mostrando que compreendia.

— Até mais.

Carbo encontrou Spartacus o encarando com expressão confusa quando voltou.

— Havia mais alguma coisa?

— Havia, sim.

Spartacus fez uma cara feia.

— Como pôde desobedecer a minha ordem? Atheas! Taxacis!

— Não é nada disso — disse Carbo, com o coração acelerado.

Spartacus deixou os citas se aproximarem de Carbo e ergueu a mão.

— Então, o que é?

Carbo secou o suor que cobria sua testa. “Deuses, por que não fizemos o que ele mandou?”

— Os romanos suspeitam que deixaremos a Itália.

— Isso não surpreende, dado o caminho que tomamos até aqui — observou Spartacus com seriedade. — Por que está dizendo isso?

Carbo conferiu se os gauleses estavam longe. Os citas tinham a confiança de Spartacus, por isso a presença deles não importava.

— Eles disseram que Marcus Lucullus havia derrotado tropas trácias que vinham lutando por Mitrídates. Agora, ele está seguindo com sua campanha Trácia adentro.

Spartacus cuspiu.

— Você ouviu exatamente isso?

— Sim.

— O que mais eles disseram?

— Nada mais. Sinto muito.

Spartacus o observou por muito tempo.

— Obrigado. Você fez bem em não revelar isso aos gauleses. Por que fez isso?

— Não sei bem — respondeu Carbo, pensativo. Ele se lembrou da animosidade dos gauleses. — Talvez porque desconfiasse de que eles usariam isso como uma desculpa para não deixar a Itália.

— Você é astuto. Às vezes, eu me pergunto se eles já estão planejando isso, mas notícias como essa fariam com que se decidissem de vez.

— Você partirá mesmo assim?

— Claro. Com todos os homens que me seguirem — respondeu Spartacus com uma confiança que não tinha certeza se era genuína. — Faz sentido partir. Três derrotas de grande escala não significam nada para os romanos. Eles têm um poço sem fundo de homens para preencher suas legiões. Pelo menos, na Trácia, eu estaria em meu próprio território, entre meu povo. Não vai demorar muito para reunirmos todos eles e iniciarmos outra revolta. — “Que assim seja, Grande Cavaleiro.”

Carbo assentiu, sentindo-se tranquilizado. Apesar da reprimenda que acabara de receber, suas lembranças de como Spartacus o salvara no ludo e de como intervira para salvar Chloris não saíam de sua mente. Ele seguiria o trácio para qualquer lugar. Para o inferno. Para a Trácia. Não importava.

— Vá fazer suas coisas. Coma alguma coisa e descanse. Você merece.

Carbo sorriu ao perceber a mudança no tom de voz de seu líder.

— Se eu não participar do ataque às balistas, posso sair para caçar hoje à tarde?

— Pode. Mais uma coisa.

— Sim?

— Não diga nada a ninguém sobre Lucullus. Mande Navio ficar de boca fechada também — alertou Spartacus. — Se falarem algo, vocês morrem, entendeu?

— Sim — disse Carbo, e seu coração voltou a acelerar.

Ele se afastou, sem perceber que havia aumentado as preocupações de Spartacus.

Mandando Atheas chamar seus comandantes da cavalaria, Spartacus permaneceu sentado em silêncio por um tempo. Ariadne não estava na barraca deles. Por isso, ele se sentiu contente. Queria refletir sobre a notícia chocante antes de conversar com ela. Não havia como saber se a história sobre a vitória de Lucullus era verdade, porém ele tinha que considerar que sim. Por que um legionário inventaria algo assim? Os trácios já tinham sido derrotados por Roma. “É só um contratempo; nós, trácios, já derrotamos os malditos muitas vezes, e de forma humilhante”, pensou ele, lembrando com satisfação da vitória incrível de sua tribo sobre Appius Claudius Pulcher, o procônsul da Macedônia, cinco anos antes. Contudo, no fundo, Spartacus sabia que a tarefa que assumiria quando chegassem à Trácia havia acabado de se tornar muito mais difícil. Seria possível? “Não pense assim!”

— Você está com os pensamentos em outro mundo. Não costumo chegar tão perto sem que você perceba.

A voz de Ariadne o trouxe de volta à realidade. Ele sorriu, escondendo as notícias sobre Lucullus. — Foi uma boa ideia mandar Carbo e Navio a Módena.

Ariadne ficou tensa.

— Eles voltaram?

— Sim. Longinus armou uma cilada na estrada ao norte. Suas balistas estão escondidas, mas organizadas de modo que poderiam lançar saraivadas no exército quando este passar. Uma emboscada perfeita.

— Malditos romanos — praguejou Ariadne com raiva. — O que vocês farão?

— Marcar a localização exata da artilharia. Depois, os gauleses a destruirão esta noite. — Ele percebeu a expressão de surpresa de Ariadne. — Eles ficaram chocados por eu enviar espiões a Módena sem lhes contar. Dar essa missão a eles foi um modo de colocá-los do nosso lado, mas eles farão um bom trabalho. Gannicus, especialmente, é um cão feroz. Vamos marchar pela manhã, para pegar Longinus antes que ele possa reagir.

— Ele tem apenas duas legiões. — Ariadne queria ouvir o número baixo de novo. — Temos mais de cinquenta mil homens.

— Isso mesmo, meu amor. Venceremos, não tema.

— Eu sei. — Inconscientemente, ela levou a mão à barriga. — Nosso filho vai nascer fora da Itália.

Ele a abraçou para afastar a incerteza que surgira de novo em sua mente.

— Mal posso esperar para pegá-lo no colo.

Ela o olhou com carinho e percebeu algo em sua expressão.

— O que está escondendo de mim? — Ele não respondeu. — Spartacus? O que foi?

Ele olhou para ela.

— Não vou contar agora. Preciso pensar.

Ela sentiu o estômago revirar de medo.

— Tem outro exército romano por perto?

— Não é isso. — Ela o observou à procura de uma pista. — Deixe para lá, Ariadne. Você descobrirá no momento certo.

Ela não gostava do fato de ele esconder algo dela, mas não insistiu. Não era o momento de cultivar a discórdia. Havia balistas a destruir e, depois disso, mais um exército romano para derrotar. Ela olhou para o norte, em direção aos Alpes. “Quando estivermos aos pés dele, tudo ficará mais claro. Seguiremos ao leste.” Ela não queria pensar em nenhuma outra possibilidade. Essa esperança a havia incentivado nos meses desde a saída do ludo. Ainda assim, a reticência de Spartacus plantara uma semente de dúvida em sua mente.

Ariadne decidiu buscar o auxílio de Dionísio. Não era da natureza de nenhuma divindade atender pedidos diretamente, porém, às vezes, isso acontecia. Ela se animou ao se lembrar da época em que ficaram presos no topo do Vesúvio, cercados por três mil legionários. No momento de maior necessidade, Dionísio havia mostrado a Spartacus as vinhas selvagens que podiam ser usadas para fazer cordas. Talvez ele ajudasse de novo. Apesar de a situação deles não ser tão desesperadora como aquela, Ariadne precisava da tranquilidade que a indicação divina daria. Uma calma bem-vinda tomou conta dela.

Durou alguns instantes. E então, Ariadne logo pensou no munus promovido por Spartacus. Tinha sido sangrento demais? Como se isso não fosse preocupação suficiente, ela pensou no momento em Thurii quando mentira a respeito do desejo do deus. Ela havia contado a todo o exército que Dionísio havia enviado a ela um sonho no qual eles viajariam para o leste sob sua proteção, para terras que não tinham sido conquistadas por Roma. Ariadne não havia admitido sua mentira a ninguém, nem mesmo ao marido. “Fiz isso por bons motivos”, desculpou-se ela. Para impedir que Crixus tentasse matar Spartacus. Para convencer as tropas dissidentes e impedir que elas se dividissem em muitos grupos. Seu demônio interno respondeu de uma vez: “Não importa por que você fez. Para satisfazer a seu próprio propósito, você fingiu conversar com uma voz divina. Isso mostra um profundo desrespeito pelo deus.”

A culpa dela aumentou imensuravelmente.

— Devo rezar — disse ela com a voz séria.

— Boa ideia.

Contrariado, Spartacus a observou se afastar.

No início da tarde, a cavalaria enviada por ele atrás das catapultas retornou. Eles tinham localizado o ponto mais provável para as balistas serem escondidas. A cerca de nove quilômetros do acampamento havia uma abertura atrás de uma rampa leve protegida pelos dois lados por uma série de árvores. Seus cavaleiros tinham visto pessoas se movimentando no bosque, porém, conforme a ordem recebida, eles não tinham investigado além. Para manter o máximo de segredo, Spartacus mandou que não contassem nada aos companheiros.

Gannicus e Castus haviam escolhido mil de seus melhores homens para a missão. Além de barris de azeitonas e tochas, eles tinham munido suas tropas com todas as armas que conseguiram encontrar. Os dois gauleses, Spartacus e o oficial da cavalaria que havia liderado a patrulha discutiram enquanto o sol se punha. Ainda faltava muito tempo para os soldados escolhidos partirem em sua missão. Para impedir que eles fossem vistos pelas patrulhas romanas, a força só sairia quando escurecesse.

Spartacus ficou animado. As perspectivas pareciam boas. No calor do momento, ele decidiu se unir a Carbo. Caçar era algo que sempre gostara de fazer, mas houvera pouco tempo, um tempo precioso, para que pudesse fazer isso nos últimos meses. Ele ignorou a quantidade de tarefas que precisavam ser cumpridas, e que era um pouco ríspido sair do acampamento sem os guardas. Seria bom para ele, decidiu, esquecer Longinus, Castus e Gannicus, e os malditos Alpes por algumas horas. “Nada vai acontecer. O Cavaleiro vai cuidar de mim, como sempre faz.”

— Ajeite-se! — vociferou Julius, próximo ao rosto de Marcion. — Só porque quase acabamos as tarefas do dia, só porque derrotamos os romanos nas duas vezes em que vocês lutaram contra eles, não quer dizer que podem relaxar. Treinamento é treinamento, e vai continuar assim até eu mandar!

A boca de Marcion se retorceu enquanto ele se concentrava. Ergueu o escudo e avançou em direção a Gaius, seu colega de barraca. Ele queria que Julius desaparecesse e fosse irritar um dos outros soldados de sua unidade, mas havia poucas chances de isso acontecer. O centurião deles os deixava quando estava satisfeito.

Ele olhou para os dois lados. Além de sua centúria, o resto da tropa também estava ocupado. Mais além, muitas centenas de homens eram forçados por seus oficiais a correr, a lutar, como ele, com armas cobertas, e a atacar outros grupos em formação. Gritos e ordens misturados com o claque-claque de espadas batendo em escudos e o tump mais profundo de escudos em contato uns com os outros. A distância, ele conseguiu ver a cavalaria avançando em massa, movimentando-se em arcos harmoniosos e mortais. “É o mesmo de sempre”, pensou ele, desanimado. “Se não estamos marchando ou lutando, estamos treinando.”

— Mexa-se! — gritou Julius.

Marcion espiou por cima do escudo ao avançar. Gaius estava a cerca de dez passos. Marcion só conseguia ver os olhos e os pés de seus amigos. O escudo que Gaius levava protegia quase todo o seu corpo, deixando poucas partes vulneráveis, assim como o de Marcion protegia o dele. Este ainda sabia o que fazer. Avançou, esperando pegar Gaius desprevenido. Usou toda a sua força, batendo o escudo no de Gaius. Apesar de este ter se preparado, o impacto o empurrou para trás, e ele não conseguiu desviar da lâmina de Marcion, que escorregou pela beirada do escudo de ferro.

— Vá se foder! — xingou ele.

— Você está morto — disse Marcion com um sorriso.

— Você não vai me pegar desse jeito de novo — jurou Gaius.

— Que bom — foi a resposta de Julius, sarcástica. — Se fosse para valer, você estaria engasgando agora, um último suspiro. Treinem mais uma vez.

As palavras mal tinham escapado dos lábios do centurião quando Gaius se lançou no espaço que os separava. Dessa vez, foi Marcion quem recuou, caindo de bunda com o escudo em cima dele. Sem fôlego devido à queda, ele não pôde fazer nada para impedir que Gaius largasse o escudo e fingisse atingir seu pescoço.

Gaius riu.

— Assim você vai aprender a não fazer mais isso, seu cachorro.

Ele se afastou, permitindo que Marcion se levantasse.

— Bem melhor, Gaius — declarou Julius. Ele lançou um olhar ríspido a Marcion. — Não tão bom quanto você pensa, certo? — Magoado, Marcion teve o bom senso de não responder. — Certo, isso basta por hoje. — falou mais alto Julius. — DISPENSADOS! Mesmo horário amanhã, seus montes de merda!

Com um suspiro de alívio, Marcion tirou a cobertura de couro do gládio e o enfiou na bainha de novo. Ele conferiu para ver se o centurião estava longe.

— Julius é muito irritante, mas ele tem razão. Temos que nos manter preparados, certo?

Gaius resmungou e cuspiu.

— Sim, isso mesmo. Um homem precisa da Fortuna ao seu lado sempre que vai para uma batalha. Até mesmo o melhor soldado pode acabar olhando para as próprias entranhas, ou pior. Você se lembra de Hirtius?

— Claro.

Marcion fez uma careta. Hirtius tinha sido um de seus colegas de barraca. Um homem atarracado, incrivelmente forte. Contudo isso não o impediu de levar um pilo perdido no olho durante a batalha contra as legiões de Gellius. Seus gritos ensurdecedores duraram até Zeuxis ter tido a piedade de cortar sua garganta.

— Quem vai cozinhar hoje? — disse uma voz grave e conhecida.

— Sua vez, Zeuxis! — gritou Gaius, indignado.

— É? — Zeuxis secou a camada de suor da testa e olhou para Gaius, que se virou, resmungando.

— Você sabe muito bem de quem é a vez!

— Não olha para mim! — disse Marcion quando Zeuxis virou a cabeça. — Prefiro comer sua comida sem gosto do que ter que cozinhar.

— Eu também — declarou Arphocras, o colega de Zeuxis. — Você é muito idiota! A cada oito dias é a mesma coisa.

Zeuxis deu de ombros.

— Não tenho culpa se minha memória não é mais a mesma.

— Que bom que lembramos por você, não é? — devolveu Marcion.

Apesar da provocação de Gaius, o humor de Marcion estava melhorando. Aquela era a melhor parte do dia para ele. O treinamento havia terminado. As horas mais quentes tinham passado, mas o pôr do sol ainda demoraria. Depois que tirasse a terra de seus equipamentos, talvez sobrasse tempo para encher um balde com água do rio e se lavar. A maioria dos seus colegas de barraca não se importava com isso, porém o amor pelos pequenos luxos com os quais crescera não desaparecia. Depois de um treino pesado, o que ele mais gostava era de se limpar. No entanto, era melhor partir sozinho. Se Zeuxis percebesse, não permitiria. O desejo de se banhar sempre não significava que ele gostava de outros homens, pensou com raiva, mas, sim, que tinha cultura. Zeuxis era o primitivo, não ele. Ele sorriu.

Sua maneira horrorosa de cozinhar era prova disso.

Carbo se mantivera ocupado o dia todo. Depois de comer uma tigela cheia de mingau de cevada e mel preparado por Arnax, ele dormiu por horas. Então, como teria feito normalmente, procurou a tropa da qual era o segundo em comando. Seu oficial mais velho era Egbeo, um trácio enorme que era um dos seguidores mais dedicados de Spartacus e em quem Carbo aprendera a confiar como consequência. Encontrou Egbeo treinando os homens.

— Vocês podem achar que os cães romanos estão com medo de nós agora, mas não é verdade! Não se pode subestimá-los — disse o trácio, como costumava fazer. — Vocês ainda precisam treinar uns com os outros. Têm que ter a certeza de que quando a ordem for dada, todos os homens ao seu redor farão exatamente o que você dizer. Que eles avançarão. Que se unirão. Que lançarão seus dardos. Que atacarão o inimigo. Que ajudarão a formar uma barreira. Até que recuarão!

Carbo sorriu com as risadas causadas pelo comentário dele e, incentivado pelo discurso de Egbeo, sentiu-se determinado. No entanto, quando o treino acabou e ele passou um tempo conversando com seus homens, percebeu quão grave era a situação. Lembrou-se de sua ideia de sair para caçar e, quando Navio voltou do treinamento de sua tropa, sugeriu que eles fossem juntos.

— Vamos. Será melhor do que ter que ver os homens de Gannicus se vangloriando antes de saírem.

— Verdade — concordou Navio, fazendo uma careta. Apesar de terem que manter sigilo sobre o que fariam, as tropas de Gannicus não estavam cumprindo as ordens muito bem. — O que você quer caçar?

— Aceito o que conseguirmos encontrar. Um porco selvagem. Um veado. Uma ave para um ensopado.

— Posso ir junto?

O rosto bem-disposto de Arnax fez Carbo sorrir: ele estava se afeiçoando ao garoto.

— Tudo bem. Provavelmente não encontraremos patrulhas romanas.

Arnax pareceu desanimado.

— Como pode ter certeza?

Carbo riu, de forma familiar.

— Porque eles estão assustados demais para se aproximarem de meu exército.

Arnax arregalou os olhos.

— Ah — disse ele baixinho.

— Spartacus! — Carbo observou as armas de caça de seu líder. — Você veio se unir a nós?

— Há meses não saio para caçar.

— Se você tem certeza — disse Carbo, pensando no que poderia acontecer se eles encontrassen uma patrulha romana.

— Tenho. — “Ariadne está preocupada à toa.”

O tom de Spartacus não deixou espaço para discussão. Navio sorriu.

— Mais um arco aumenta nossa chance de ter sucesso.

Spartacus assentiu para Arnax, que pareceu ainda mais assustado.

— Então, esse é o garoto que o ajudou em Módena?

— Ele mesmo — respondeu Carbo.

— Você fez certo em ajudar meus homens, garoto. Como é seu nome?

— Ar-Arnax, senhor.

— Um nome forte. — Arnax não disse nada. — Eu não mordo.

Arnax olhou para Carbo, que abriu um sorriso encorajador.

— Obrigado, senhor — disse ele.

Spartacus inclinou a cabeça.

— O que foi? Você ouviu coisas terríveis a meu respeito?

— Si-si-sim, senhor.

— O que disseram? — Ele não respondeu. — Conte-me — mandou Spartacus.

Mais uma vez, Arnax olhou para Carbo, que disse:

— Conte a ele.

— Pelo que contam, o senhor come bebês.

Spartacus entortou os lábios.

— É mesmo?

— Si-sim.

— Quem disse isso?

— Meu senhor. As pessoas no fórum — murmurou Arnax.

— Ele não é mais seu senhor. Você é livre agora. — A expressão de medo de Arnax diminuiu um pouco. — Posso dizer também que sou um homem comum, como Carbo e Navio. Não como criancinhas, nem solto fogo pelo nariz. Como falei antes, agradeço por ter salvo esses dois. Você é bem-vindo aqui. — Arnax não disse nada, e o trácio franziu o cenho: — Ainda não está satisfeito?

Para o choque de Carbo, Arnax disse:

— Você matou todos aqueles legionários. Aqueles que tiveram que lutar uns contra os outros até a morte.

— Arnax! — sussurrou Carbo.

Spartacus ergueu as sobrancelhas.

— Espirituoso ele, não?

A coragem momentânea de Arnax o deixou, e ele abaixou a cabeça.

— Você sabe por que o munus foi feito?

— Para honrar a morte de alguém rico ou famoso — respondeu Arnax.

— Isso mesmo — disse Spartacus. — Hoje em dia, claro, eles são realizados sempre que um nobre todo-poderoso quer impressionar as massas. Os homens lutam e às vezes morrem nesses munus, certo? Escravos que não têm escolha. — Arnax assentiu. — Meu munus foi feito para marcar a morte de milhares de meus ex-companheiros numa batalha. Para mim, isso é muito mais válido do que a diversão oferecida às populações das cidades da Itália a cada um ou dois meses. Tive todo o direito de fazer o que fiz. — Ele olhou para Arnax com intensidade. — Entendeu?

No silêncio que se seguiu, Carbo se surpreendeu ao concordar com Spartacus. O munus o havia irritado muito na época, mas havia meses ele vinha treinando e lutando ao lado de ex-escravos. Eram seus companheiros, nos quais ele confiava. Se era aceitável forçar homens como eles a lutar como gladiadores, não era absurdo fazer o mesmo com prisioneiros romanos. Ele observou Arnax, satisfeito, espantado e um pouco preocupado pelo modo como o garoto enfrentou Spartacus. “Concorde com ele.”

— Sim — respondeu o garoto por fim.

— Esse é um guerreiro de verdade, Carbo. Acho que entendo agora por que um garoto tão jovem salvou sua vida, colocando a própria em risco. Ele será um bom soldado um dia, desde que aprenda a controlar a língua.

— Ele aprenderá — assegurou Carbo.

— Você já caçou? — perguntou Spartacus.

— Não.

— Esta pode ser sua primeira vez. Pegamos arcos e flechas para veados e aves, e isto para o caso de encontrarmos um porco selvagem. — Ele lhe entregou sua pesada arma de caça. — Você pode levar esta.

Arnax sorriu.

— Aonde vamos?

— Carbo? — perguntou Spartacus.

— Há muitas trilhas na mata em direção ao norte do acampamento. Pensei que ali seria um bom ponto de partida.

— Se quisermos matar alguma coisa, é melhor seguirmos adiante, não? — Navio bateu na sua malha de rede. — Ajude-me a tirar isso — disse ele a Arnax.

Com o auxílio de Spartacus, Carbo também tirou a sua cota de malha. Ainda que fizesse sentido deixar a pesada proteção no acampamento, ele se sentia nu sem ela. Contudo, falar sobre a carne que eles assariam na fogueira aquela noite logo o livrou de suas preocupações.

Os quatro seguiram por entre as barracas até a beira do amplo acampamento. Apesar de Spartacus manter a cabeça baixa, seus homens o incentivaram a cada passo. Depois de mais de um quilômetro, as cenas e os sons do enorme exército foram deixados para trás, e, por fim eles se viram sozinhos, distantes da confusão do acampamento. Era um bom dia de primavera, e o calor foi muito bem-vindo depois de longos meses de inverno. Carbo se sentiu satisfeito por estar usando apenas uma túnica.

Ele liderou o pequeno grupo depressa pelo campo que descia em direção ao norte. Este era coberto por grama baixa e montes de sálvia e junípero aromáticos. Carbo observou o local em busca de um veado ou um javali, porém só viu trilhas de pequenos animais, como a lebre assustada que surgiu dentre um arbusto verde-escuro e o capim alto. Havia muitas aves ali. Vários pássaros pretos com marcas vermelhas ao redor dos olhos e caudas impressionantes apareciam na vegetação conforme eles avançavam. Pareciam bons para se comer, mas ao olhar rapidamente para Navio e Spartacus, Carbo percebeu que estes queriam aves maiores.

Ele ignorou os corvos que piavam para eles de um carvalho. A distância, Carbo escutou os pios de um pica-pau, uma ave consagrada a Marte, o deus da guerra. Ele logo fez uma oração. “Dê-nos uma boa caçada, ó Grande.” Eles continuaram andando, entrando no abrigo da mata. A poeira flutuava lentamente sob a luz do sol que penetrava pelos galhos de pés de louro, de morango, e pinheiros. Era pacífico. Carbo pensou no bosque que ficava perto dali, com centenas de soldados romanos e suas balistas, e sentiu a pele formigar. Passou a ver um legionário atrás de toda árvore e se arrependeu de ter tirado a malha. O chamado de Navio o assustou.

— Psssiu!

Carbo olhou. Dez passos a sua esquerda, Spartacus apontava o chão. Ele se aproximou. Aos pés deles, havia marcas grandes de pata com duas fendas características.

— Veado vermelho. Grande.

— É um macho — disse Navio com animação.

— É o que parece — concordou Spartacus.

Carbo logo olhou para as árvores à frente deles. Claro que não viu nada. As marcas estavam frescas, mas o veado estava a certa distância.

Depois de seguirem as pegadas por um tempo, sua desconfiança se confirmou.

— Está vendo isso? — Carbo mostrou a Arnax. — Sabemos se tratar de um veado macho porque as marcas das patas traseiras estão mais para dentro do que as da frente. Isso acontece porque o peito dele é bem mais amplo do que as patas traseiras.

— Onde ele está?

Os olhos de Arnax estavam cheios de interesse e alegria.

Spartacus se abaixou e levou os dedos à marca mais próxima.

— Não está muito próximo. Mas a terra ainda está um pouco úmida. Ele passou por aqui hoje. Provavelmente pela manhã.

Arnax ergueu a lança da mão direita.

— Vamos encontrá-lo?

Carbo sorriu com o entusiasmo do garoto.

— Como saber? Talvez tenhamos que seguir as marcas para ver. Agora é a hora de rezar à Diana pedindo ajuda. — Com uma alça de couro, ele passou a lança pelas costas. Então, escorregou uma flecha com a ponta fina e a ajeitou no arco.

— Isso não vai derrubar um veado — brincou Navio.

— Podemos encontrar outra lebre ou um dos pássaros pretos — retrucou Carbo, na defensiva.

— É sempre bom estar pronto — disse Spartacus, escolhendo uma flecha para seu arco. — Para o que ou quem encontraremos.

Carbo se sentiu satisfeito. Enquanto o exército escravo saía do sul, ele havia passado muito tempo com Atheas. O cita nunca se locomovia desarmado.

Algum tempo depois, no entanto, sua inquietação foi substituída pela frustração. Ele não tinha visto legionários fantasmas e não havia caça que valesse a pena abater. De modo irritante, as pegadas do veado saíam de uma descida rochosa que levava ao barranco do riacho caudaloso. Os três se espalharam por ali, procurando sinais de onde o animal podia ter saído e seguido em direção à água, mas não tiveram sorte.

— A maldita criatura deve ter criado asas e voado — reclamou Navio, franzindo o cenho.

Arnax olhou depressa para o céu e então abaixou a cabeça, envergonhado.

Carbo escondeu o sorriso. Ele se esquecera de como as crianças podiam ser inocentes.

— Não vamos desistir.

— Quero continuar — concordou Spartacus, que aproveitava a sensação de estar com os companheiros, em busca de nada mais que um veado.

Não havia homens pedindo equipamento, não havia novos recrutas precisando de instrução, não havia cavalos a serem cuidados nem oficiais pedindo orientação. Havia muito tempo ele não se sentia relaxado.

— Veja!

A animação na voz de Arnax chamou a atenção de todos. O olhar de Spartacus acompanhou o do garoto, que apontava para baixo, pela abertura nas árvores no chão mais adiante.

— Aquilo não é um veado — disse o trácio.

Ele observou os três homens que corriam em direção à mata.

— Eles estão sendo perseguidos — disse Carbo. Atrás dos fugitivos havia uma nuvem de poeira. Ele sentiu um aperto no estômago. — Cavaleiros. — Eles estavam longe demais para estimar o número, mas a nuvem de poeira era grande e se aproximava depressa dos homens que fugiam.

— Desertores romanos? — sugeriu Navio.

— Estão mais para escravos fugidios — disse Spartacus.

Carbo e Navio se entreolharam, pensando no que podiam fazer. O mais seguro seria voltar ao acampamento. Com certeza, o líder deles pensaria o mesmo.

— Aqueles homens podem estar vindo para se unir a nós — alertou Navio.

“Todo mundo no acampamento — Ariadne, os citas, Pulcher e Egbeo — preferiria se esconder entre as árvores. Até mesmo Castus e Gannicus dariam o alerta para que se afastassem dessa situação. Contudo, quem são eles para me dizer o que fazer? Decido os riscos que assumo — por mais insanos que sejam.” Spartacus sorriu.

— Faz um tempo que não me arrisco. Vou descer por ali. Vocês me acompanham?