Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 18 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo XVII

 

Uma semana depois...

Nordeste de Lucânia, perto da cidade de Pesto

Seguido por seus oficiais seniores e um grupo de legionários, Crassus foi observar o campo de batalha. O local ficava a cerca de oito quilômetros pelo território adentro, em uma planície abaixo de uma série de montes que se estendia ao leste até se unir aos Apeninos. A terra estava tomada por milhares de corpos ensanguentados, dilacerados, mutilados. A maneira como os mortos estavam organizados era perturbadora. Crassus caminhou lentamente por onde estivera a frente da posição inimiga. Ali jaziam as vítimas das lanças. Milhares de pedaços de aço ou argila assada também cobriam o chão, trabalho dos atiradores com estilingues, que espalharam uma chuva de pedras de fogo a trezentos passos dali. A essa distância, os tiros da arma causaram poucas baixas. Já a artilharia fez uma matança terrível. Era uma visão horrível, pensou Crassus, tomando o cuidado de não pisar o sangue com suas botas de couro vermelhas. Não havia modo digno de descrever os homens cujas entranhas foram espalhadas a um braço de distância ou cuja carne foi transformada numa massa derretida e vermelha com o impacto de uma pedra grande.

— Interessante, não? — Ele fez um gesto em direção a um soldado inimigo decapitado. O corpo estava caído como um boneco de ventríloquo com as cordas cortadas, um meio círculo vermelho manchando a terra ao redor do pescoço cortado. Não havia sinal da cabeça.

— O quê, senhor? — perguntou Lucius Quinctius, o oficial responsável pela cavalaria.

Naquele dia, Crassus respeitava o oficial; então, em vez de repreendê-lo, sorriu.

— Normalmente, um ferimento assim faria os selvagens indisciplinados fugirem. Mas não foi o que aconteceu aqui.

— Foi incomum, senhor. Uma prova da determinação deles.

— De fato. E você pode falar sobre determinação, Quinctius. Demonstrou muita habilidade ao enganar Spartacus mais cedo. Se seu cavaleiro não o levasse a achar que você queria lutar, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente. Foi bem irritante ontem, com a chegada dele quando eu estava prestes a acabar com esses escravos.

— É uma grande honra ouvir isso, senhor — disse Quinctius, muito orgulhoso. — Distrair Spartacus com uma luta enquanto o senhor atacava os soldados dele foi o mínimo que eu poderia fazer. — Ele não mencionou o que aconteceu a Mummius e seus homens. No mínimo, a lembrança do destino deles foi o seu maior incentivador.

— Para que lado ele foi? — quis saber Crassus. Havia dias ele não recebia notícias do espião. O tolo fugiu ou morreu. Era algo irritante, porém de pouca importância. O homem servira ao seu propósito.

— Para o norte, senhor. — O sorriso de Quinctius foi sagaz. — Eles não foram muito longe. Pedi a alguns de meus homens para segui-los.

— Fico feliz em saber disso. — “Com sorte, pode ser que eu o derrote antes de Pompei chegar.”

— Esse grupo se separou da força principal de Spartacus, senhor. Então por que ele veio em seu auxílio duas vezes? — perguntou Quintus Marcius Rufus.

“Tolo infeliz.” Crassus lhe lançou um olhar autoritário.

— Não é tão estranho. Se você tirasse um quarto de minha força, resultaria num aumento do número de meus inimigos. Nessa situação, eu faria tudo ao meu alcance para reavê-lo, ainda que o considerasse um filho da puta inútil.

Alguns dos outros disfarçaram o sorriso, porém Rufus corou, a mesma cor do seu cabelo ruivo. Ele sabia que não deveria dizer mais nada. Para Crassus era indiferente que o ocorrido no dia anterior não tivesse sido sua culpa. O motivo principal da fuga do inimigo fora o fato de Spartacus ter arquitetado um ataque surpresa e levado as legiões para longe de seus ex-seguidores. No entanto, Crassus não admitiria isso. Tampouco permitiria que Rufus se esquecesse de seu “erro” depressa. O ruivo teria que suportar o gosto amargo até que o general voltasse sua atenção para outra coisa.

Felizmente para Rufus, Crassus estava mais interessado no triunfo de hoje e nas mortes que este causara. Eles continuaram caminhando, perturbando os corvos que pulavam de um cadáver para o outro, pegando os olhos dos mortos. Apesar da forte brisa do mar, um gemido baixo ainda podia ser ouvido — o som daqueles ainda vivos e fracos demais para se moverem. Alguns dos oficiais observavam os homens com nojo, contudo, Crassus seguia em frente, alheio a tudo aquilo.

— Depois das catapultas e balistas, vêm os pilos — explicou ele.

As lanças de seus soldados derrubaram menos escravos do que a artilharia. Era fácil ver onde a primeira saraivada havia caído. Nesse ponto, o chão estava coberto por escudos espalhados, mas não muitos corpos. A segunda saraivada caiu a cerca de trinta passos. Um bom número de escravos não tinha mais cotas de malhas — como era comum, muitos foram para a batalha vestindo apenas uma calça. Alguns foram nus, levando apenas as armas. Por isso as baixas tinham sido muito maiores. Até mesmo o menor tiro de estilingue podia perfurar o crânio de um homem se acertasse o ponto certo.

Crassus parou perto de um escravo morto atingido por nada menos do que três lanças. Apontou para o pilo atravessado na coxa da vítima quee o prendera na terra.

— Esta deve ter sido acertada primeira.

— O coitado deveria saber o que viria depois — murmurou Quinctius, olhando para o céu. — Mas não há sinal de que eles tenham tentado fugir, senhor. Continuaram avançando em boa ordem.

— Pelo menos isso — admitiu Crassus. — Em menor número, sem artilharia nem cavalos, eles não fugiram da luta. Mesmo quando o combate passou para o corpo a corpo.

Eles foram até o local onde ocorrera a batalha principal. Logo quase não dava mais para ver o chão, repleto de cadáveres. Mais carniceiros, tanto animais como humanos, estavam por ali. Os urubus sobrevoavam, desajeitados, sozinhos ou em duplas, mirando aqueles cujas barrigas ou nádegas estavam à mostra. Ao rasgarem essas partes macias com os bicos fortes, eles disputavam pelos intestinos à mostra. Camponeses de todas as idades andavam entre os mortos, catando bolsas e joias, até cortando dedos para pegar anéis. Tomaram o cuidado de se manter bem longe do grupo grande e bem-armado.

Crassus não estava interessado nos vivos. Seu objetivo ali era glorificar o feito de seus legionários. Sentiu imensa satisfação ao ver que quase nenhum dos corpos era romano. Até aquele momento, só vira talvez uns doze. “A vitória aqui não foi apenas decisiva”, pensou ele, triunfante. “Foi total! Um exemplo incrível de como as legiões e podem vencer uma batalha. Prova da eficiência, da disciplina e da capacidade de matar dos escudos e gládios.”

Até onde a vista alcançava, havia corpos sem pernas ou braços, com as entranhas à mostra, ou com ferimentos na parte inferior das pernas ou nos tornozelos — alvos fáceis em homens sem escudos —, e na barriga e no peito. Aqueles que morreram do modo mais fácil, avaliou Crassus, foram os que tiveram a garganta cortada na manobra que agora era ensinada a todos os novos recrutas. De boca aberta, olhos inexpressivos, eles estavam ali; os cortes abertos sob o queixo eram prova do bom treinamento de seus legionários. Crassus podia ouvir os centuriões repetindo sem parar: “Bata o escudo na cara de seu oponente. Quando ele for para trás, acerte o merda no pescoço. Gire a lâmina para garantir e a puxe. Bom trabalho. Mais um morto.”

Por fim, começou a ver os cadáveres romanos. Era inevitável, pensou. Nenhum exército pode ficar cara a cara com o inimigo, trocando golpes, sem sofrer perdas. No entanto, seus soldados não fugiram como muitos de seus companheiros tinham feito nos dois anos anteriores. Crassus sabia disso pela evidência à sua frente e por ter visto a batalha toda de um ponto privilegiado nas ladeiras do monte Camalatrum, o primeiro dos picos ao leste. Foi uma visão incrível ver os montes de escravos avançando em suas coortes regimentadas. Suas fileiras foram derrubadas por tiros e pedras da artilharia e, em seguida, por projéteis de estilingue e lanças, mas os ataques dos recrutas não foram ouvidos. O barulho feito por tais investidas acertavam as fileiras de escravos e reverberava pelo ar como um trovão. Contudo, os ataques dos escravos não causaram muitos danos. Só bateram no muro-escudo como as ondas se chocam contra as rochas.

— Perdemos quantos legionários?

— Um pouco mais de trezentos, senhor — respondeu Rufus rapidamente.

— Feridos?

— Duzentos homens e 15 oficiais nunca mais voltarão a lutar, senhor. O dobro desse número sofreu ferimentos leves.

— E o número de inimigos mortos? — Crassus já sabia a resposta, mas queria ouvir de novo.

— Arredondando, algo em torno de 12 mil, senhor — informou Rufus com grande satisfação.

— Então, o inimigo perdeu cerca de quarenta homens para cada um dos nossos... ou minha matemática já está enferrujada.

— Seria isso, senhor.

Ele olhou ao redor, sorrindo.

— Podemos enfrentar perdas assim, não? Ainda mais quando cinco águias e mais de 24 estandartes são resgatadas no processo.

Seus oficiais murmuraram, concordando.

“Posso perder bem mais homens do que isso”, refletiu Crassus, “desde que seja antes de os outros chegarem aqui.” Ele não recebera notícia recente do progresso de Lucullus partindo da Trácia em direção à Itália, porém o homem chegaria por volta dos próximos dois meses. A menos que os deuses tivessem lhe feito um favor enorme, as legiões de Pompei chegariam em questão de semanas. “Maldito seja!” O tempo era essencial. Spartacus tinha que ser aniquilado, e rápido.

— Foram feitos muitos prisioneiros?

— Três ou quatro filas, senhor — respondeu Rufus. — Talvez o triplo desse número tenha fugido.

— Solte-os.

Rufus arregalou os olhos.

— Senhor?

— Você me ouviu! Eles devem ser soltos.

— Não compreendo, senhor. São vermes que não merecem nada que não cricificação. Alguns deles podem voltar ao grupo de Spartacus.

— É exatamente o que quero, tolo. Alguns escravos a mais ou a menos no grupo contra o qual lutarmos não significam nada para mim. Quero que Spartacus saiba dessa derrota o mais rápido possível.

— Uma atitude sagaz, senhor — elogiou Quinctius com gentileza; atrás dele, Rufus corou de novo.

Crassus olhou para o norte. Não era dado a ficar sempre pedindo coisas aos deuses, porém, às vezes, parecia ser o certo a se fazer. “Grande Júpiter e Todo-poderoso Marte, peço ajuda para encontrar Spartacus. Logo.”

Spartacus permaneceu do lado de fora da barraca com um cobertor sobre os ombros. Era seu momento preferido do dia, logo depois da aurora. Ao leste, o céu estava marcado por um tom cor-de-rosa vívido pelo sol que nascia. Pouca fumaça subia das fogueiras que não tinham se apagado durante a noite. Era tarde o bastante para estarem acesas, mas cedo o suficiente para a maioria dos homens ainda não ter acordado. A distância, uma mula zurrava baixinho a uma de suas companheiras. À exceção disso, o acampamento enorme estava silencioso.

Ele só pensava em uma coisa: Crassus e suas legiões. Não gostava de se afastar do inimigo, não sem uma batalha, pois isso era o que os derrotados faziam. De novo, ele desejou que a tentativa de matar Crassus tivesse dado certo. O homem estava se tornando um estrategista razoável. Três dias antes, o trácio ficou encantado quando sua chegada frustrou a emboscada planejada pelo romano às forças de Castus e Gannicus. Contudo, a reação do inimigo no dia seguinte acabou com sua alegria.

Uma finta ousada feita pelos cavaleiros de Crassus — uma série de ataques seguida por recuos — enganou os primeiros comandantes da cavalaria de Spartacus e até ele mesmo, levando-os a pensar que Crassus queria lutar contra eles e contra os gauleses ao mesmo tempo. Eles perseguiram os cavaleiros romanos com pressa por alguns quilômetros. Mas tudo não passara de uma artimanha, arquitetada para que a força total de Crassus pudesse ser usada contra Castus e Gannicus. Quando Spartacus percebeu a jogada, já era tarde demais para pensar em voltar com seu exército. “Escolha o campo onde lutar; não permita que ele seja escolhido para você”, era a velha máxima, e ele se agarrava a ela com fervor religioso. Pigarreou e cuspiu. Cerca de quarenta mil legionários contra 13 mil escravos? Uma batalha tão desigual só poderia ter um resultado.

Sua suposição se confirmara na noite anterior, quando algumas dezenas de sobreviventes voltaram ao seu acampamento. Eles foram levados diretamente até o trácio, ensanguentados e surrados. Spartacus ouviu a história triste dos lábios rachados. “Muitos gauleses morreram”, pensou ele com amargura. “Lutaram até o fim.”

— Mas de que isso adianta? — murmurou para si mesmo. — Estão todos mortos. Se os tolos tivessem ficado comigo, ainda estariam vivos. — “E meu exército não teria sido reduzido em um quarto.”

A essa hora, todo o exército já deveria saber da arrasadora vitória romana. A notícia chocante teria sido passada de barraca a barraca mais rápido do que a praga e teria um efeito profundo na moral dos homens. O mesmo aconteceria com os legionários de Crassus, mas ao contrário. Os rebeldes agora evitariam confrontar os romanos, e com um bom motivo. Apesar de as chances não serem tão ruins contra ele e seus soldados como foram para os gauleses, Spartacus ainda estava receoso de travar uma batalha aberta contra Crassus. Se tivesse que acontecer, o campo deveria ser o certo. Caso contrário, poderia simplesmente desistir.

Havia outros problemas também. A proximidade de Crassus e a necessidade de manter o exército rebelde em movimento significavam que escravos estavam vindo para se unirem a eles. E havia Pompei. Em quanto tempo ele adicionaria suas legiões à guerra? “Um mês, no mínimo”, pensou ele com pesar. “Três meses, no máximo.” Não era muito tempo; dava apenas para recrutar e treinar dez mil homens, não o quintuplo desse número. Com um exército com 16 legiões, os romanos os derrubariam com facilidade. “Não importa aonde iremos. Eles nos encontrarão.”

— Não consegue dormir?

Ele olhou para a frente, surpreso.

— Carbo. Estou só aproveitando o silêncio. O que está fazendo aqui?

— Dormi mal essa noite, então decidi caçar. E queria saber se quer vir comigo.

Um sorriso fraco.

— Outro dia, talvez.

Carbo observou seu líder e desviou o olhar em seguida.

— Não consigo parar de pensar no que vai acontecer quando Pompei chegar.

“É por isso que ele está aqui”, pensou Spartacus.

— As coisas vão piorar muito, é o que vai acontecer.

— Talvez devêssemos lutar contra Crassus agora, antes de Pompei chegar, não? — sugeriu Carbo.

— Talvez tenhamos que fazer isso — foi a resposta séria. — Mas precisamos de um campo de batalha que nos favoreça, e não vi muitos deles nos últimos dias. Um local estreito é essencial, onde Crassus não possa usar sua superioridade numérica para nos cercar. Ou um bom local para uma emboscada.

Carbo não sabia como contar o que pensara a noite toda, então simplesmente disse tudo de uma vez. Spartacus podia considerá-lo louco, porém ele tinha que tentar.

— Já pensou em Brindisi?

— A cidade no sudeste?

— Sim. Pelo que sei, ela não é bem-protegida. Não há motivos para ser. Poderíamos tomá-la com facilidade.

Spartacus franziu o cenho.

— Por que faríamos isso? Crassus nos cercaria ali, como fez no topo.

— Ela é o maior porto da Itália. Não sei quantos barcos há no ancoradouro, mas devem ser muitos. Com certeza, seriam embarcações em número suficiente para carregar alguns milhares de homens. De Brindisi, Ilíria não fica longe, nem mesmo a Grécia.

Spartacus começou a pensar. Os Alpes ficavam longe demais, e seus homens já tinham ido para lá, entretanto, não esperava por aquela opção. Refletiu por um momento.

— Qual é a distância até Brindisi?

— Não sei ao certo. Talvez mais de trezentos quilômetros, talvez um pouco menos? É descendo a Via Appia, que fica a meio dia de marcha daqui. Poderíamos chegar em dez dias.

Ariadne interrompeu a conversa.

— Chegar aonde em dez dias?

Spartacus levou um dedo aos lábios e fez um gesto para que ela se aproximasse. Explicou-lhe o que estavam conversando.

Seu rosto se iluminou.

— Acha que conseguiríamos?

— Não vejo por que não.

— Mas e Crassus? — questionou ela. — Sua cavalaria está nos seguindo sem parar.

— Ele conhece todos os nossos movimentos — admitiu Spartacus. — O maldito nos seguirá como um cachorro atrás de uma cadela no cio se suspeitar do que estamos fazendo. — Os olhos dele brilharam. — Teríamos que agir depressa. Tomar a cidade no primeiro ataque.

— Eu poderia ir na frente com Navio, para ver se consigo subornar um guarda de um dos portões — sugeriu Carbo. — Se isso não der certo, podemos descer com cordas pelo muro à noite para um ataque.

— Você é um bom homem, Carbo.

Ariadne concordou, e Carbo corou, orgulhoso. Olhou para seu líder, com o coração aos pulos. O que Spartacus decidiria?

— Muito bem, seguiremos para o sudeste. — Ariadne deu um grito de alegria, e Spartacus ergueu um dedo em alerta. — Entretanto, se encontrarmos um lugar bom pelo caminho, vou parar. Essa ideia pode não resultar em nada, e as legiões de Pompei chegarão logo. Derrotar Crassus antes de eles unirem forças reduziria muito o número de oponentes e também nos daria mais tempo para chegar a Brindisi e possivelmente sair daqui com todo o exército, não apenas parte dele. — Deu um tapa no ombro de Carbo. — Obrigado.

Carbo sorriu. Era arriscado, porém pelo menos havia uma maneira de escapar daquela situação.

Dois dias depois, o trácio começou a achar que, afinal, sua sorte estava melhorando. Eles chegaram a Via Appia sem incidentes, acamparam durante a primeira noite em um vale dividido em dois por um rio caudaloso. Na tarde do dia seguinte, ele recebeu a notícia de que os cavalos romanos que os seguiam estavam se aproximando cada vez mais da retaguarda. Spartacus aproveitara a oportunidade para atacar o inimigo de novo. Enviou a cavalaria para os montes repletos de vegetação que se estendiam no lado direito, e chegou à parte de trás do exército. Cerca de uma hora depois, ouviu uma única trombeta da linha de árvores um pouco atrás dos cavaleiros romanos. Era o sinal para que as coortes mais afastadas se virassem e apresentassem armas.

Enquanto a cavalaria inimiga agia, usando seu melhor plano contra os soldados na retaguarda, os cavaleiros de Spartacus surgiram das árvores. A emboscada foi um sucesso. Loucos por vingança pelo que havia acontecido aos gauleses, os soldados do trácio lutaram como demônios. Os romanos sofreram muitas perdas. Entre os feridos, estava um dos comandantes que tivera sorte de escapar com vida. “Crassus verá que ainda estou na guerra”, pensou Spartacus, satisfeito. Desde então, não viu nenhum soldado ou cavaleiro inimigo. As legiões ainda os seguiam, mas a uma distância segura.

Ele sorriu. Não havia como Crassus saber de sua intenção de chegar a Brindisi. Carbo e Navio partiram a cavalo ao entardecer dois dias antes, levando dois cavalos cada. Como os animais extras atrairiam uma atenção indesejada — em geral, só mensageiros oficiais ou a cavalaria viajavam assim —, eles partiram enquanto ainda estava escuro e se esconderam durante o dia. Com sorte, Spartacus teria notícias dentro de duas semanas.

Enquanto isso, ele levaria o exército para o sul — não muito rápido, para evitar as suspeitas de Crassus, mas num ritmo mais calmo. Isso, por sua vez, significava que, se por acaso ocorresse uma batalha, seus soldados estariam mais descansados do que se estivessem marchando pesado. Os homens de Spartacus não faziam ideia de sua intenção. Contou a Egbeo, a Pulcher e a alguns outros de seus oficiais seniores, porém o restante achava que eles estavam em busca de mais mantimentos. Spartacus não queria uma reação parecida com aquela de quando sugeriu atravessar os Alpes. Para que seu plano tivesse chance de dar certo, o exército tinha que fazer exatamente o que ele queria.

Se um confronto com Crassus fosse evitado até Carbo e Navio voltarem, ele contaria a seus homens. Não haveria menção às glórias anteriores, apenas grande ênfase nas 16 legiões que logo teriam que enfrentar. Se isso não fizesse os cachorros saírem da Itália, avaliou Spartacus, nada faria.

Entretanto, se surgisse uma oportunidade de lutar contra Crassus, ele só falaria de Brindisi depois. Assim como nos Alpes, uma vitória recente poderia dificultar a persuasão dos soldados. Spartacus estimava que a maioria seria razoável. Serem derrotados pelos legionários por dois meses tinha dado um indício claro do que poderia lhes acontecer. Ele também não pretendia terminar sua luta contra Roma — longe disso. A guerra continuaria em Ilíria e, depois, na Trácia. Seu lar.

Desde que vira a reação das tropas à primeira derrota no espinhaço, ele passou a sentir falta da Trácia e de seu povo. Aquele grande contratempo — o primeiro deles — foi suficiente para diminuir a confiança da maioria de seus homens. Sim, antes eles procuraram Spartacus aos milhares, mas não nos últimos tempos, raciocinou ele com amargura. Sim, venceram mais um embate contra os romanos, porém não nasceram para a guerra como ele e seu povo. Spartacus ainda sentia grande lealdade por eles, entretanto as tribos trácias eram mais acostumadas a lutar contra Roma. Apesar de muitos serem subjugados, as chamas de sua ira em relação aos invasores estrangeiros ainda eram fortes. Ele queria intensificar essa ira mais uma vez. A independência de seu povo seria um obstáculo para uni-los. Contudo, seria pior do que ter de lidar com homens como Castus e Gannicus?

O prospecto agora parecia melhor do que enfrentar exércitos romanos ainda maiores. Se ele partisse, a República ainda desejaria se vingar, mas Spartacus duvidava que eles enviariam 16 legiões atrás dele. Algumas, talvez, com as quais poderia lidar.

Mais dois dias se passaram sem nenhuma mudança. O exército de Spartacus marchou em direção ao sudeste sem problemas; os romanos não tentaram se aproximar mais das forças — o que para Spartacus significava que Crassus não tinha descoberto o plano de ir para Brindisi. Contudo, a mudança de terreno logo forçaria Spartacus a seguir por um lado ou outro. A Via Appia se afastava da sombra dos Apeninos, abrindo um caminho pelo interior que logo levaria para perto da costa leste. Para sua frustração, demoraria pelo menos uma semana para Carbo e Navio voltarem. Spartacus não gostava disso, porém teria que tomar a decisão de continuar seguindo para o sudeste ou voltar antes do retorno dos dois.

Para ajudá-lo a decidir, o trácio cavalgou com o garanhão até a vanguarda do exército, para espiar a terra. Atheas e Taxacis cavalgaram ao seu lado, mantendo o ritmo sem pestanejar. Aqueles dois tatuados sabiam montar — e que cita não sabia? —, porém desde a batalha no espinhaço eles contavam com pouquíssimos animais.

As fazendas ali não eram tão grandes quanto os latifúndios de Campânia e Lucânia, contudo impressionavam mesmo assim. Terrenos amplos se estendiam pelas bases das montanhas, com um solo plano tomado por inúmeras oliveiras. Mais árvores subiam em direção à estrada, e sua folhagem verde-acinzentada característica escondia o chão. Spartacus ficou feliz por ter escoltas patrulhando à frente do exército, pois era muito mais fácil armar uma emboscada entre a rede densa de árvores.

Uvas e grãos também eram cultivados em abundância, mas as fileiras de vinhas e os campos abertos de trigo em lento crescimento não ofereciam cobertura para as tropas inimigas. Havia poucos vilarejos na área; a maioria das pessoas vivia em fazendas. Spartacus colocou seus soldados para checar casas e construções atrás de utensílios e, sobretudo, de comida. Todos os rebanhos de carneiros, bodes e gado tinham que ser reunidos e levados com o exército. Até mesmo as galinhas tinham que ser trazidas. Nada deveria ficar para trás; qualquer resistência deveria ser respondida com força letal.

Spartacus não sentiu remorso nenhum pelos fazendeiros cujos meios de subsistência arrasava e cujas vidas ameaçava com a fome. Tampouco se preocupou com os indivíduos teimosos que se recusavam a abandonar suas propriedades e que morriam enquanto suas esposas e filhas sofriam estupros coletivos. Antes, ele se esforçava para minimizar as atrocidades, porém não dessa vez. Roma estava pronta para destruí-lo, então ele a castigava junto com seu povo o máximo possível. Além disso, o que seus homens faziam não passava de uma amostra das mesmas vilanias sofridas pelos pais, filhos e irmãos. Aquilo era uma forma de compensação.

Quando o sol atingiu seu zênite no céu, já fazia um calor agradável. Cotovias sobrevoavam a região, e a canção cadenciada oferecia um bom descanso do som de patas batendo na pedra da estrada e o ritmo mais pesado de sandálias. Homens entoavam versos e mais versos de músicas de palavreado chulo a respeito dos hábitos carnais de uma jovem na ilha de Lesbos ou dos hábitos da esposa ninfomaníaca de um comerciante. Sem prestar muita atenção à cantoria, o trácio se perguntava se deveria guardar um pedaço de queijo no bolso ou comê-lo quando viu, através da névoa que tomava a estrada, dois cavaleiros. Havia uma nuvem de poeira atrás deles, evidência de que cavalgavam com muita rapidez.

O oficial da cavalaria que o acompanhava os viu na mesma hora.

— Quem em Hades poderia ser, senhor?

— Boa pergunta. — A notícia da aproximação de seu exército eliminara todo o tráfico da Via Appia. Só um ou outro escravo caminhava por ali, com a intenção de se unir a eles. Porém, escravos não costumavam montar. Também não seriam enviados romanos. Os malditos não tinham tentado negociar com ele antes. Por que começariam agora? — Acho que são Carbo e Navio — disse ele, franzindo o cenho.

Ao perceber o tom de ira na voz de Spartacus, o oficial resolveu ficar calado.

A tensão do trácio aumentou à medida que grupos de seus soldados se aproximaram. Ele se controlou para não galopar até os dois, pois, se o fizesse, pareceria assustado. Quem mais poderia ser? Sua mente buscou todas as possibilidades para explicar o retorno antecipado. A menos que os cavalos dos dois tivessem criado asas, não teria dado tempo para irem a Brindisi e voltarem. Poderiam ter sido encurralados por ladrões e perdido os cavalos extras?

Por fim, Spartacus avançou com seu garanhão, afastando-se das fileiras de cavaleiros. Queria ser o único a ouvir o que os dois tinham a contar. Só os citas se mantiveram ao lado dele. De perto, não havia como não perceber a expressão desanimada de Carbo e de Navio ou ignorar o suor cobrindo os flancos de seus animais. Spartacus sentiu o estômago revirar, mas sorriu ao cumprimentá-los.

— Pelos deuses, os seus cavalos devem ser parentes de Pégaso! Isso ou Brindisi não é tão longe quanto acharam.

Carbo e Navio trocaram um rápido olhar.

— Não chegamos a Brindisi — revelou Carbo.

— Por que não? — Apesar de querer gritar, Spartacus manteve o tom calmo.

— Há duas noites, escondemos nossos cavalos em meio a oliveiras e fomos a uma hospedaria próxima para beber um pouco de vinho — contou Navio, olhando com culpa para Spartacus. — Sei que você nos disse para evitar lugares públicos, mas estávamos morrendo de sede.

— Vocês parecem ter criado o maldito hábito de desobedecer minhas ordens — repreendeu Spartacus. — É melhor que tenham algo bom a dizer.

— Não é bom, senhor. É péssimo — retrucou Navio.

Spartacus se sentiu muito mal.

— Diga.

— Havia um mensageiro oficial hospedado lá. O imbecil estava contando a todos que foi mandado para encontrar Crassus a qualquer custo. — Carbo hesitou.

— Por quê?

— Lucullus foi chamado da Trácia — respondeu Carbo baixinho. — Ele já levou as legiões pelas montanhas para Epirus. Uma frota de navios foi enviada para encontrá-lo.

Parecia que o tempo havia parado. Spartacus percebeu que o cavalo se mexia, que o sol esquentava seu rosto, que as cotovias piavam no céu. Nunca poderia imaginar que o motivo da volta antecipada deles seria uma notícia péssima como aquela.

— Quantos soldados?

— Depende se Lucullus trouxer seu exército inteiro ou não. Ele tem seis legiões, duas das quais já chegaram. O mensageiro parecia acreditar que ele deixaria uma para trás para guarnecer áreas da Trácia.

Cinco outras legiões contra as quais lutar. Cinco.

— Quando o resto chegará?

— Ele não sabia ao certo. Parece que duas das legiões estão muito mais próximas do que o resto. Eles navegarão dentro de sete a dez dias. A última embarcará dentro de um mês, aproximadamente.

Spartacus sentiu vontade de xingar todos os deuses do panteão. Aquela era a peça mais cruel que alguém já havia lhe pregado. O que fizera para merecer aquilo? Rangendo os dentes, controlou a fúria. Era tolice insultar os deuses, mesmo que estes tivessem causado aquela situação. Com sorte, ele conseguiria tê-los ao seu lado de novo e precisava de toda a ajuda que conseguisse.

— Vocês mataram o mensageiro?

— Íamos mata-lo — respondeu Navio —, mas isso não parecia fazer sentido. Ele disse que era um de quatro. Eles foram enviados em separado, para garantir que Crassus receberia a notícia.

— E, se por acaso fôssemos descobertos, você não teria sabido de tudo isso — acrescentou Carbo.

“Que se danem as consequências. Eu teria matado o mensageiro de qualquer modo.” Spartacus respirou fundo e soltou o ar. Era apenas sua fúria falando mais alto. Olhou para o leste, em direção ao mar, imaginando que podia ver a luz do sol nas águas e uma frota de navios ancorando. Afastando tal imagem dos pensamentos, voltou a olhar para Carbo e Navio.

— Pode ser que Crassus já tenha recebido a notícia. Se não, deve recebê-la hoje ou amanhã, no máximo.

Eles assentiram com tristeza.

— Agora já não há motivos para irmos a Brindisi. Por saber dos reforços a caminho, ele nos alcançaria com o dobro de velocidade e então lutaria em campo aberto. Ainda que conseguíssemos levá-lo para a estrada na costa, ele nos atacaria o tempo todo. Poderíamos chegar com ele nos perseguindo, mas seríamos recebidos por duas ou até quatro das legiões de Lucullus. Ser pego entre a cruz e a espada não é bom.

Carbo e Navio se entreolharam. Eles tinham discutido sobre isso desde que partiram.

— O que podemos fazer? — perguntou Carbo.

— Só há uma opção — respondeu Spartacus. — Nós nos virarmos e seguirmos para as montanhas de novo. Temos que encontrar um local adequado para lutar contra Crassus e depressa. Com ele derrotado, podemos tentar chegar a Brindisi de novo e arrasar Lucullus no caminho até lá.

Com exceção da derrota no espinhaço, pensou Carbo, Spartacus sempre os havia guiado para a vitória, apesar dos riscos que se apresentavam. Por que as coisas seriam diferentes agora?

— E Pompei? — quis saber Navio.

— Teremos que abaixar a cabeça para ele. Para o nosso bem, é provável que Crassus queira lutar sem a ajuda de Pompei. Algo que sei sobre o filho da puta é que ele é arrogante. Vai querer a glória toda só para si. Sim, vai se reunir com os outros generais em algum momento, terá que fazer isso. Porém, se pudermos nos manter dois passos à frente deles, estaremos bem. — Ele os olhou à procura de sinais de derrota. Não viu nenhum. Havia sinal de medo nos olhos de Carbo, o que Spartacus já esperava, entretanto, o jovem romano assentiu com firmeza. Navio parecia disposto como nunca, o que também não o surpreendeu. Este só queria vingar a morte de sua família. Era uma luta que nunca terminaria até Navio ou todos os romanos que viviam sob o governo da República morrerem — o trácio tentou imaginar o que aconteceria antes.

E imaginou o mesmo a respeito de si mesmo.