Spartacus: A Rebelião
Capítulo V
— Claro.
Carbo tentou entender por que seu líder estava sendo tão imprudente, porém não disse nada. Devolveu a flecha de ponta estreita para o saco de couro e pegou uma mais afiada.
— Tudo bem — disse Navio com um sorriso torto e fez o mesmo.
— O-o que vocês farão?
A voz de Arnax estava trêmula.
— Vamos até a beira do bosque ver o que está acontecendo. — Spartacus apontou para o chão. — Você vai ficar aqui, onde é seguro.
— Mas...
— Mas nada. Você é jovem demais para lutar. Os romanos, se é que os cavaleiros são romanos, acabariam com você num piscar de olhos.
— Você deve fazer o que Spartacus manda — ordenou Carbo, tentando acalmar os nervos do menino. — Pode se esconder facilmente aqui e observar tudo. Se o pior ocorrer, volte ao acampamento. Acha que consegue?
— Sim.
— Ótimo. Quando chegar lá, encontre Pulcher ou Egbeo e conte a eles o que aconteceu — ordenou Spartacus.
— Pulcher. Egbeo. Sim.
— Se eu morrer, eles devem liderar o exército. — “Ou quantos homens decidirem segui-los à exceção de Castus e Gannicus”, pensou ele com cinismo. — E Atheas e Taxacis devem cuidar de Ariadne. Vamos.
Pegando sua lança com Arnax, Spartacus partiu, seguido por Navio.
Carbo parou por tempo suficiente para dar um tapinha no braço do rapaz. “Que roubada arranjei para Arnax?”, pensou. Olhou para a nuvem de poeira, que havia aumentado. Agora, ele conseguia ver as formas nítidas dos cavaleiros, pelo menos 15 deles. Em que diabos estava se metendo? Seus batimentos cardíacos aceleraram quando iniciou a descida da ladeira.
Chegando ao fim primeiro, Spartacus se moveu ao longo das árvores, procurando o melhor ponto para observar a situação. Tomou o cuidado de se manter longe o suficiente para não ser percebido. Logo viu os fugitivos. Concluiu que com certeza eram escravos. Os três eram magros, estavam descalços e vestiam túnicas puídas. Os homens quase tinham chegado ao abrigo na mata, porém pareciam mais aterrorizados do que nunca. Isso porque os cavaleiros da frente — três romanos da cavalaria, usando malhas e capacetes de bronze, portando espadas compridas e afiadas — os tinham quase ao seu alcance. Atrás, muitos outros se aproximavam.
— Depressa — sussurrou ele a Navio e a Carbo.
Ao buscar o abrigo de um carvalho no fim do emaranhado das árvores, ele soltou a lança e fincou uma fileira de dardos na terra à sua frente. Ajeitando uma flecha no arco, Spartacus mirou o primeiro cavaleiro, um homem barbado e de cabelo comprido. Olhou para os dois lados. A alguns passos dali, Carbo e Navio também estavam prontos.
— Qual é a distância? — murmurou ele.
— De oitenta a cem passos, mais ou menos — respondeu Carbo.
Navio resmungou concordando.
Spartacus se afastou para se preparar.
— No três. Um. Dois. Três!
As flechas voaram. Duas acertaram o primeiro cavaleiro e o derrubaram do cavalo, e Spartacus comemorou em silêncio. Deveria ter dito qual era seu alvo. A última flecha, a de Carbo, acertou o pescoço do homem atrás do líder, que morreu antes mesmo de chegar ao chão. Os companheiros dos cavaleiros uivaram de ódio, mas não diminuíram a velocidade. Avançando, um deles atacou com toda a força o último dos três fugitivos. Um grito perturbador cortou o ar. Um jato de sangue espirrou das costas do escravo, e este caiu como uma marionete cujas cordas foram cortadas.
— Vamos! Vamos! — gritou Spartacus. Ele mirou e soltou mais uma flecha. — Atirem o mais depressa que puderem — rosnou ele. — Precisamos fazer os desgraçados acharem que somos muitos.
Psss! Psss! Psss! Os três lançaram as flechas o mais rápido que conseguiram.
Mais dois perseguidores caíram. Um corcel atingido no peito gritou de agonia, perturbando seu cavaleiro. O homem logo atrás não conseguiu reagir depressa e, com um baque forte, as montarias caíram. A alegria de Carbo diante da cena diminuiu quando um cavaleiro, aos gritos, atacou o segundo fugitivo, desferindo um golpe forte no lado direito de seu corpo. O escravo caiu e berrou, mas, de forma inacreditável, se levantou e voltou a correr. Carbo sentiu certa satisfação ao ver que sua flecha seguinte acertou o cavaleiro romano na virilha, abaixo da barra de sua malha. Psss! Psss! Mais duas flechas foram lançadas, derrubando mais dois perseguidores.
O escravo ferido observou as árvores. Ele já tinha visto as flechas e gritou algo ao companheiro. Eles logo mudaram de rumo, em direção a onde Spartacus e os outros estavam. Carbo olhou para o rosto do fugitivo, retorcido pelo esforço.
— Paccius? — sussurrou ele.
Não acreditou. Não podia ser o homem que fora o melhor escravo de sua família, que o ensinara a lutar! Então, o escravo quase caiu, e um dos romanos mais próximos gritou de alegria. Quando Carbo se deu conta, estava correndo para fora da cobertura das árvores. À vista de todos.
— O que está fazendo, seu tolo? — gritou Spartacus.
— Volte! — rosnou Navio. — Você vai morrer.
O gosto do medo era ácido na boca de Carbo, mas ele continuou correndo. Ajeitou uma flecha no arco.
— Estou indo, Paccius. Aguente!
Um cavaleiro se aproximou do fugitivo ferido, e Carbo praguejou. Não havia como ele atirar enquanto corria. Zip! Algo passou por ele, acertando o romano no peito. A ponta da flecha perfurou a malha, fazendo com que este perdesse o equilíbrio e tombasse para trás. Outra flecha passou, acertando um cavalo e o desequilibrando. Seu cavaleiro fez o que pôde para não ser derrubado, mas ainda assim estava fora de combate. Carbo sentiu uma onda de gratidão por Spartacus e Navio.
O primeiro escravo agora estava a apenas vinte passos de distância. Estava de boca aberta pelo esforço impossível de tentar correr mais do que os cavalos.
— Precisamos ajudar seu amigo — gritou Carbo, fazendo gestos sem parar. — Volte para ajudá-lo.
O escravo o olhou como se ele tivesse enlouquecido, mas obedeceu.
A situação piorou. Os romanos tinham se separado. Três vinham na direção dele pela esquerda, e quatro pela direita. Os outros miravam o escravo ferido e seu companheiro. Carbo se sentiu nauseado. O que havia feito? Não havia como disparar flechas em número suficiente para matar ou sequer ferir todos os oponentes. Ainda que derrubasse alguns, o resto acabaria com ele com facilidade. “Estou morto.” Ele recobrou a consciência de uma vez. “Pelo menos, você tentou salvar Paccius.”
Foi quando o escravo ferido olhou diretamente para ele. Carbo percebeu que, apesar de o fugitivo ser parecido com Paccius, ele tinha se enganado. “Vou morrer à toa.” Carbo respirou com dificuldade. Preparou-se para morrer. Os cavaleiros da esquerda estavam mais perto. Ele pegou uma flecha, posicionou-a no arco e a soltou com um movimento suave. Na mesma hora, o cavalo perdeu seu cavaleiro. Seu próximo golpe não acertou, e o terceiro passou raspando pelo capacete do soldado. Ainda assim, o romano titubeou um pouco. O escravo ferido, auxiliado por seu companheiro, mancou passando por Carbo em direção às árvores. Este lançou um olhar à direita e se assustou. Quatro cavaleiros vinham ao seu encontro. “Talvez os escravos cheguem à cobertura antes de eu morrer.” Era uma esperança boba, porém era tudo o que Carbo tinha quando mirou o cavalo da frente.
Psss! Psss!
Duas flechas passaram por ele. O cavaleiro da frente foi atingido na perna e gritou como louco. A outra não acertou o alvo. De qualquer modo, Carbo se animou. Lançou mais uma flecha, acertando o romano mais próximo, dessa vez no braço.
— Seu imbecil! — Spartacus surgiu à direita dele, abaixado. — Se quer viver, corra! Em vinte passos, pare, vire e atire uma flecha. Então, corra e faça tudo de novo.
Assustado e com esperança de sobreviver, Carbo obedeceu. Dez passos depois, ele viu Navio. O rosto do romano estava contorcido ao forçar a concentração. Ele mantinha flechas na mesma mão com que segurava o arco e as lançava com grande velocidade.
— Corra! — gritou ele. — Corra!
Os minutos seguintes passaram depressa. Carbo corria e atirava, atirava e corria. Não tinha tempo para ver se suas flechas tinham acertado os alvos. Só sabia que ainda havia inimigos atacando e que ele estava mais próximo da cobertura, enquanto Spartacus e Navio estavam mais expostos. Quando chegou perto das árvores, um local relativamente seguro, ele olhou ao redor. E não acreditou.
— Spartacus, cuidado!
Depois de cinquenta passos, Spartacus percebeu que havia cometido um grave erro ao tentar salvar Carbo. Tinha sido uma escolha inconsciente, motivada em parte por sua preocupação com o jovem romano e em parte pela raiva que o fizera ele próprio atacar os cavaleiros. Por um lado, ele queria provar que era mais corajoso do que Carbo, mas agora, com inimigos por todos os lados, percebeu que o Grande Cavaleiro o havia abandonado. Bons cavaleiros trabalhavam juntos, e ele não tinha tempo para atirar duas flechas. Quando acertasse um, o outro o cortaria pela metade. Navio estava ocupado com o próprio oponente, e a mira de Carbo deixava um pouco a desejar.
“Não era assim que eu queria morrer”, pensou o trácio.
Contudo, ele não se entregaria sem lutar. Decidiu qual romano acertar. O mais próximo. Ignorando o barulho das patas dos animais e os gritos de guerra dos romanos, Spartacus mirou o cavaleiro, que estava a menos de 15 passos. Dessa distância ele não erraria. Nem observou a flecha voar. Assim que ela deixou o arco, ele o soltou e se jogou no chão. A lâmina que o teria decapitado passou por cima. Ele ouviu um palavrão e rolou para a direita, longe do ponto onde acreditava que o cavalo do inimigo estaria. Pegou a sica, segurou-a com força e se sentiu um pouco melhor.
— Morra, seu filho da puta!
Levantou o braço e bloqueou o golpe da longa espada do romano, que vinha de cima. Faíscas voaram quando as duas peças de ferro se chocaram. Ele se afastou de novo, desesperado para se levantar. O cavaleiro recuou seu cavalo e, inclinando-se, atingiu a barriga de Spartacus com a ponta da arma. Com um movimento para o lado, o trácio impediu que ela o derrubasse. A ponta da arma rasgou a lateral de sua túnica e cortou a pele. Ele sentiu dor e gemeu. “Grande Cavaleiro, ajude-me!” Os companheiros de seu oponente logo se aproximariam dele.
— Hades está a sua espera! — gritou o romano.
Com a força vinda do desespero, Spartacus ficou de joelhos. Impediu outro ataque com um golpe forte que pegou o cavaleiro de surpresa. Antes que este pudesse descer a lâmina de novo, Spartacus se moveu e segurou o pé do inimigo com a mão esquerda. Com força, levantou a perna do romano e o desequilibrou. Com os braços balançando, o homem caiu do outro lado do cavalo.
Spartacus não teve tempo de saborear a pequena vitória. Três outros cavaleiros quase o alcançaram. Não fazia sentido correr. As árvores ainda estavam muito longe.
— Calma — disse ele para a montaria, segurando a crina do cavalo com a mão e equilibrando o punho direito e a sica sobre ele.
Subiu no animal a tempo de ver o cavaleiro mais próximo receber uma flecha na barriga. Assim, restaram dois romanos a cerca de quarenta passos dele. Spartacus ficou tenso quando eles avançaram, mas, para sua alegria, outra flecha quase acertou um de seus cavalos. Praguejando, eles controlaram os cavalos.
Spartacus não esperou para ver o que aconteceu em seguida. Chutou o romano que havia tirado do cavalo e voltou a derrubá-lo na terra. Então, segurou a cabeça do corcel e, batendo os pés nas laterais de seu corpo, o direcionou para as árvores. Navio lhe sorriu quando o líder alcançou a cobertura.
— Agarre a crina — ordenou Spartacus.
Navio nunca havia corrido com um cavalo ao lado antes, mas sabia dos escaramuçadores ibéricos que lutaram por Aníbal. Eles costumavam entrar em batalha dessa maneira. Aproximando-se, ele segurou os pelos grossos enquanto o animal avançava, ganhando velocidade.
Quando chegaram ao abrigo das árvores ilesos, Carbo lançou uma flecha. Gritou de prazer quando ela acertou as ancas de outro cavalo. O romano caiu quando o animal deu um coice de dor.
— Depressa! Protejam-se!
Olhando para trás, eles correram em direção às árvores. O cavalo se afastou sem rumo.
— Parem. Preparem mais flechas. — Ofegantes, eles olharam para os romanos, e cerca de cinco deles continuavam ilesos. Os cavaleiros não tentaram apear nem entrar na mata. — Se eles vierem aqui, perderão toda sua vantagem. Os filhos da puta já estão cansados! — disse Spartacus com muita alegria. Ele ainda estava vivo! Sobrevivera a uma situação muito desfavorável.
Carbo e Navio uivaram como lobos. Havia algo que Spartacus não poderia fazer? Cumprindo a ordem, eles lançaram mais flechas até os cavaleiros se afastarem ainda mais.
— Fique de olho neles — disse Spartacus a Navio. — Melhor checar os homens por quem quase morremos, não é? — vociferou ele a Carbo.
Eles trotaram até os dois fugitivos, que estavam um pouco além sob a liteira. O escravo ferido estava deitado de costas, gemendo.
Carbo fez uma careta ao se aproximar. A espada do romano o havia atingido acima do osso do quadril, abrindo o abdome como uma fruta madura. O sangue jorrava sem parar do corte vermelho do ferimento enorme. Boa parte das entranhas estava exposta. Tudo estava coberto por uma camada de terra porque o homem havia rolado no chão. Carbo fez uma careta de nojo.
— Sinto cheiro de merda.
— Eu também. — Foi a resposta séria de Spartacus.
“Então não tem jeito”, pensou Carbo. Ainda que vivesse até ser levado ao acampamento, ainda que os curandeiros fechassem o corte horroroso, o homem morreria. Ninguém sobrevivia quando as entranhas eram cortadas. Ninguém.
Eles se aproximaram do outro fugitivo, que tentava confortar o companheiro.
— Você conseguiu, Kineas. Muito bem.
Kineas gemeu.
— Água.
— Aqui.
Spartacus pegou o cantil de seu cinto de couro e o entregou.
O amigo de Kineas o ajudou a beber. Em vez de engolir a água, ele a inalou, o que fez com que começasse a tossir e um novo jorro de sangue saísse da ferida.
— O que eles estão fazendo? — perguntou Spartacus.
— Ainda estão montados nos cavalos, esperando — gritou Navio.
Os pelos do pescoço de Spartacus se eriçaram.
— Volte e veja o que está acontecendo. Não quero mais correr riscos à toa hoje — disse ele a Carbo. Ele se ajoelhou. — Como você se chama?
— Publipor — respondeu o escravo, que tinha cerca de trinta anos. Seu rosto magro era marcado pela fome, pelo sofrimento e pelo pesar.
— Não podemos fazer nada pelo seu amigo. Ele está morrendo — sussurrou Spartacus.
— Eu sei — disse Publipor com amargura.
Carbo se aproximou de Navio, que vigiava o grupo de cavaleiros. Eles tinham recuado cerca de cem passos, longe do alcance das flechas.
— Não estou gostando disso — revelou Navio. — Por que eles não apearam e vieram até aqui atrás de nós ou simplesmente foram embora? Será que tem outras tropas na região?
Carbo estreitou os olhos para enxergar através da nuvem de poeira que ainda pairava no ar atrás dos romanos. Não conseguiu ver nada. Mas Navio tinha razão. Algo estranho estava acontecendo.
— Spartacus?
— O que foi?
— Parece que eles estão esperando reforços.
Spartacus notou a preocupação no tom de voz de Carbo.
— Hora de irmos.
Os olhos de Kineas se abriram. Por um momento, eles vaguearam, sem foco, e então se fixaram em Publipor. Ele franziu a testa.
— Por que...?
— Calma — murmurou Publipor. — Não tente falar.
Kineas enfim percebeu a presença de Spartacus. Franziu a testa ainda mais e apontou um dedo a Publipor.
— Ele...
Uma nova onda de tosse tomou conta dele. Mais sangue jorrou da ferida e o pouco de cor que restava em suas faces magras desapareceu. Ele se deitou na terra e fechou os olhos.
Publipor suspirou alto.
— É difícil quando um companheiro morre — disse Spartacus baixinho. “Já presenciei isso muitas vezes.”
Os lábios de Publipor se entortaram em uma emoção incapaz de ser entendida.
— Temos que deixá-lo.
Os olhos de Kineas se abriram, e ele tentou se sentar.
— Eu não deveria...
O esforço foi demais para ele, que voltou a se deitar no chão coberto de sangue. Respirou com dificuldade mais uma vez e soltou o ar com um ronco. Publipor se inclinou sobre ele e ouviu seu último suspiro. Com delicadeza, fechou os olhos arregalados de Kineas.
Spartacus permitiu que ele sofresse o luto por um instante.
— Temos que ir.
Publipor ficou de pé e o encarou de modo estranho.
— Não gosto de pedir dinheiro a ninguém, mas estou sem nenhum. Kineas precisa de uma moeda para que o levem.
Spartacus procurou na bolsa que levava pendurada no pescoço e pegou um denário.
— Aqui está.
Publipor aceitou a moeda murmurando um agradecimento. Ele se inclinou, abriu a boca de Kineas e a colocou sobre a língua.
— Descanse em paz — disse ele com pesar.
Carbo e Navio se aproximaram.
— Há outra nuvem de poeira se aproximando — revelou Carbo.
— É mesmo? — perguntou Spartacus.
Carbo não viu o soco que acertou a lateral de sua cabeça. Estrelas tomaram sua visão, e ele caiu no chão. Um chute na barriga fez com que ele tivesse ânsia de vômito. Confuso e nauseado, ele encarou Spartacus.
— O quê, em nome de todos os deuses, você fez? Queria morrer?
Navio o encarou com os olhos arregalados, aumentado a pressão.
Carbo cuspiu.
— Não.
— O que foi, então? — A voz de Spartacus saiu forte.
— Eu, eu achei que um dos fugitivos fosse um dos escravos de minha família. Um homem que me é caro. Não pude ficar olhando de braços cruzados enquanto ele era abatido como um porco.
— E você estava certo? Era mesmo ele?
— Não — respondeu Carbo com desânimo.
— Ainda que estivesse certo, atacar daquele jeito foi a decisão errada. Você obedece às minhas ordens! Se eu não mandar, você não pode sair correndo como um maluco tentando se matar.
E ele deu mais um chute forte.
Carbo se encolheu, tentando se proteger. Nenhum outro golpe foi desferido.
— Olhe para mim!
Ele levantou a cabeça e encontrou o olhar firme de Spartacus.
— Se você fizer uma coisa tão idiota assim de novo — o trácio se inclinou, encostando um dedo no peito de Carbo para dar ênfase —, acerto você pelas costas. Só arrisco a vida por alguém uma vez. Você entendeu?
Carbo nunca tinha visto seu líder tão furioso.
— Sim.
— MAIS ALTO!
— SIM!
Sem dizer mais nada, Spartacus subiu o monte.
Carbo se levantou com dificuldade. Navio não o ajudou, e ele sabia que se não conseguisse acompanhá-los, seria deixado para trás. “Não mereço nada além disso”, pensou ele com tristeza. Sua burrice quase matara todos eles. Tinha sorte por Spartacus não tê-lo matado.
O ritmo de Spartacus era forte, mas ninguém reclamou. Só diminuiu o passo para esperar Arnax, porém correu por alguns quilômetros. Mesmo assim, a pausa foi suficiente para apurar se eram seguidos. “Já testei a paciência do Cavaleiro comigo o bastante para um dia.” Ele só parou ao ver as barracas do exército.
Publipor ficou boquiaberto ao vê-las.
— Vocês devem ser alguns dos homens de Spartacus.
Carbo conseguiu sorrir ao ouvir aquilo.
— Você não está errado.
— Como assim?
— Você está olhando para ele.
Carbo apontou seu líder.
— Vo-você é Spartacus?
— Sou.
— Que os deuses sejam louvados! — Publipor segurou as mãos do trácio como um súdito faz com um rei. — Devo minha vida a você e aos seus homens. Obrigado.
— Você deve agradecer a Carbo.
Spartacus abriu um sorriso amarelo.
Publipor olhou para Carbo.
— Como posso recompensá-lo?
— Entre para nosso exército. Jure lealdade a Spartacus — respondeu Carbo sem jeito.
Ele sabia que esse gesto não faria com que sua situação com o trácio melhorasse, porém queria mostrar que ainda era leal.
— Claro. É tudo que desejo.
— Vocês estavam tentando chegar ao meu exército? — perguntou Spartacus.
— Sim. Estávamos à procura dele havia quatro dias.
— Fizeram um bom trabalho afastando os cavaleiros por tanto tempo.
Publipor deu de ombros.
— Não, eles só apareceram hoje, cerca de cinco quilômetros atrás de nós. Nós nos escondemos da melhor maneira que conseguimos, porém eles viram nossas pegadas. Quando nos encontraram, a mata foi o nosso melhor esconderijo. Não tínhamos chance, mas então os deuses interviram para trazer você com seus homens. — Ele estava admirado. — Nunca vi nada igual como o ataque selvagem desferido por vocês para salvar a mim e a Kineas.
— Os deuses, sem dúvida, ajudaram — concordou Spartacus. “Atuar em combate como fiz hoje não só me mataria, como faria com que muitos homens fossem mortos, talvez até perdêssemos a batalha. Serei eternamente grato, Grande Cavaleiro. Não cometerei o mesmo erro de novo.” — Você quer se tornar um soldado?
— Sim. — Ele assentiu com a cabeça. — Eu me sentiria honrado em servi-lo.
— Ótimo. Você vem de longe?
— Percebo um sotaque do sul no seu jeito de falar — acrescentou Carbo.
— É mesmo? — admirou-se Publipor, surpreso. — Sou de Apúlia.
— Você viajou tanto quanto nós, ou até mais — observou Spartacus. — Seu senhor o trouxe aqui?
— Não. Eu estava com Publius, meu mestre, trabalhando, quando soube da presença do exército de Crixus na região. Fugi e me uni a eles, para ser livre. Foi onde encontrei Kineas e o outro fugitivo. Tudo correu bem por um tempo, até Gellius aparecer.
— Pelo Cavaleiro! Você esteve no monte Garganus?
— Sim.
— Nenhum outro sobrevivente nos alcançou até aqui. Fico feliz por tê-lo conosco. — Spartacus levou a mão ao ombro de Publipor, que abriu um sorriso. — O dia dessa batalha deve ter sido pesado.
Os olhos de Publipor se enevoaram de novo.
— Foi terrível.
— Mas você sobreviveu. Você fugiu?
— Não — respondeu Publipor com a voz impertubável. — Não fugi. Pelo menos não até Crixus ter sido morto, quando ficou claro que tudo estava perdido.
— Quero ouvir a história toda — disse Spartacus. — Mas não aqui.
Ele estava interessado em entender como, apesar de ter um exército maior, Crixus perdera a batalha. Será que Gellius o tinha manipulado? Só porque as forças de Spartacus tiraram proveito dele não significava que o cônsul não tivesse dirigido suas forças com habilidade. Os generais romanos eram famosos por seus recursos. “Devo tomar cuidado com Longinus. O menor erro pode nos levar à derrota amanhã. Mesmo tão perto de chegarmos à liberdade, podemos fracassar.”
A emoção de ter salvado Publipor, de ter sobrevivido quando parecia improvável, desapareceu.
Spartacus começou a pensar de novo sobre os Alpes. Vinha tentando evitar a questão, apesar de ela permanecer em sua mente como um pesadelo repetitivo. Sair para caçar tinha sido um modo de esquecer os problemas, ainda que por pouco tempo. “Não tente negar”, refletiu. “Pensando bem, não é certo que o exército me seguirá na saída da Itália. E, se eles não forem comigo, não sei se quero partir. A resposta me ocorrerá. O Cavaleiro mostrará o caminho.”
Pela primeira vez, sua oração pareceu vazia.
Alguns dias depois...
Roma
Crassus contraiu os lábios em desaprovação quando os litores de Longinus chegaram às enormes portas de bronze da Curia.
— O sujeito tem coragem de permitir que eles o precedam aqui — admitiu ele.
Um senador próximo dali ouviu a conversa.
— Como procônsul, Longinus tem direito a ter 11 guarda-costas.
— Sei muito bem quantos litores um procônsul pode ter — rebateu Crassus. — O que quero dizer é que ele está demonstrando muita ousadia ao aparecer aqui assim. Se os rumores forem verdadeiros, Longinus não apenas foi derrotado por Spartacus, foi destruído! Suas legiões foram quase aniquiladas, perderam ainda mais águias, e o homem teve a sorte de continuar vivo. Seria mais apropriado se ele entrasse aqui sem pompa nem cerimônia, mas sim com modéstia, pedindo perdão por seu fracasso.
O senador pensou em responder, mas a fúria de Crassus fez com que ele pensasse melhor. Ele deu as costas.
— É estranho que ele entre assim — comentou César, que estava próximo dali.
Crassus sorriu. Até então estava satisfeito com a decisão de emprestar os três milhões de denários a César. O novo aliado havia trazido grupos de senadores mais jovens para o seu lado e era proativo ao recrutar outros mais. Crassus voltou a prestar atenção aos litores. Seu rosto estava roxo.
— O desgraçado arrogante nem sequer mandou que eles tirassem os machados dos fasces!
Suas palavras causaram uma onda de choque pelos seiscentos senadores. Dentro dos limites sagrados de Roma, só os litores de um ditador podiam levar fasces, o que significava o direito de executar os que agiam de modo errado. Desrespeitar tal regra era um sacrilégio dos mais sérios.
— Um momento ruim para atrair tanto azar — disse César em voz alta.
Gnaeus Cornelius Lentulus Clodianus e Lucius Gellius, os dois cônsules, se esforçaram para ouvir os sussurros escandalizados, mas as cadeiras de pau-rosa no fundo da sala retangular foram posicionadas longe demais de seus colegas do Senado.
O litor-líder de Longinus raspou os fasces no chão de mármore.
Um silêncio desaprovador tomou conta do ambiente.
— Anuncio o procônsul da Gália Cisalpina, Gaius Cassius Longinus.
— Guardem sua posição, pois não permanecerão nela por muito tempo — disse Crassus, sem se esforçar para se manter calado.
Seus incentivadores, que agora eram mais de 150, deram risadinhas.
— Silêncio! — ordenou o litor, mas este já não tinha a autoridade de sempre.
A satisfação de Crassus aumentou. Ele ainda não tinha senadores em número suficiente para obter a maioria, mas a derrota de Longinus colocaria lenha na fogueira e, por todos os deuses, ele tiraria o máximo proveito da situação. Desde que as notícias sobre a mais recente vitória de Spartacus tinham chegado a Roma um dia e meio antes, Crassus passara cada segundo refletido sobre o que diria.
Mais alguns comentários foram feitos a respeito de Longinus. Crassus ficou contente ao perceber que eles vinham do outro lado, onde tradicionalmente ficava a facção de Pompei. Ouviu as frases “Uma desgraça” e “Mais uma mancha à honra da República”, e exultou. “Terei o controle das legiões, sei que terei”, pensou ele. “Tome cuidado”, disse seu lado cauteloso. “Deixe Longinus dar a cara a tapa.”
Lentulus, que era um homem comum com ralo cabelo castanho, conversou com seu litor-chefe, que deu uma ordem. De uma vez, seus companheiros pegaram seus fasces do chão.
Houve comoção. Quando os cônsules — até mesmo aqueles que tinham sido derrotados — exigiram silêncio, o obtiveram.
— Deixem o procônsul se aproximar — gritou o litor de Lentulus.
A formação dos guarda-costas se desfez, e Longinus deu um passo à frente. Ele era um homem de estatura média, com uma aparência séria. Por ser um general que estivera em campanha, ele vestia uma túnica vermelha. Um cinturão da mesma cor envolvia a parte inferior de sua proteção feita de bronze reluzente. Camadas de tecido de linho cobriam sua genitália, e ele usava um capacete grande com crista. Até mesmo as botas iam até o meio da panturrilha estavam polidas. Ele estava muito bem-arrumado, e, sob circunstâncias comuns, sua aparência teria rendido comentários de aprovação dos senadores. “Mas não hoje”, observou Crassus com animação. Em um sinal claro de que os colegas estavam insatisfeitos com sua conduta, Longinus percorreu a extensão da Curia em silêncio absoluto. Parou diante da cobertura baixa sob a qual os dois cônsules estavam sentados e os cumprimentou.
— Procônsul — saudou Lentulus.
Gellius inclinou a cabeça.
— Você voltou.
— Sim, cônsules — respondeu Longinus de modo seco. — Vim fazer meu relatório a respeito dos últimos acontecimentos no norte.
Crassus conteve sua reação explosiva. Ele não deve agir de modo precipitado.
Alguém fez isso por ele.
— Últimos acontecimentos? — gritou um senador a sua direita. — É assim que você chama a humilhação causada por um grupo de escravos?
Os homens reagiram concordando aos resmungos, e Longinus fechou a cara.
— Ordem! Exijo ordem! — gritou Lentulus.
Sua face estava vermelha. Crassus aproveitou a ira do cônsul. Lentulus tivera exatamente a mesma experiência nas mãos de Spartacus algum tempo antes. Assim como o insulto foi feito a Longinus, ele poderia ter sido direcionado a ele, Gellius. Não havia nada que Lentulus pudesse fazer para negar isso.
Um silêncio ressentido se fez mais uma vez.
— Por que os fasces de seus litores ainda estão decorados com machados, Longinus?! — gritou César. — Está tentando enfurecer ainda mais os deuses?
Longinus se surpreendeu com a intervenção do Pontifex Maximus.
— Eu...
Lentulus arregalou os olhos ao ver os litores de pé na entrada. Trocou um olhar de ira com Gellius.
— Qual é o sentido disso, procônsul?
— Foi um erro, nada mais. Viajamos a noite toda para chegar aqui. É claro que eu não pretendia irritar os deuses! — Ele se dirigiu aos litores: — Retirem os machados de uma vez! Sacrifícios de expiação devem ser feitos nos templos amplos. Cuidem para que sejam! — Seus guarda-costas saíram correndo da construção, e Longinus se voltou para os cônsules de novo. — Cumprirei minha própria penitência aos deuses assim que puder — disse ele de modo modesto. — Não acontecerá de novo.
— Certamente não — disse Crassus.
Outros comentários — irados e preocupados — tomaram o ambiente.
— Fale do seu relatório — ordenou Gellius.
— Como todo senador aqui sabe, tenho o comando de duas legiões. O escravo Spartacus lidera mais de cinquenta mil homens. Sabendo que esses homens tinham acabado de vencer — Longinus pigarreou enquanto ignorava os cônsules — outras forças romanas, decidi que minha melhor opção seria planejar um ataque-surpresa contra o exército dele durante sua marcha em direção aos Alpes. Por isso, escolhi uma posição adequada perto da estrada próxima a Módena. Mais de trinta balistas foram construídas e transportadas para lá em segredo. Meu plano era que as catapultas desferissem um ataque intenso aos escravos, de modo inesperado, causando caos, antes que minhas legiões vindas do norte avançassem em direção a eles.
— Algo me diz que as coisas não aconteceram exatamente desse modo — disse Crassus em voz baixa.
Ao lado dele, os lábios de César tremeram.
— Um bom plano — admitiu Gellius. — O que deu errado?
— De alguma forma, Spartacus soube do plano. Uma força intensa de escravos atacou os soldados que guardavam as balistas à noite. Eles pegaram meus homens desprevenidos. Os malditos estavam armados com machados e traziam barris de óleo. As catapultas que não foram incendiadas ficaram destruídas, reduzidas a pedacinhos. — Longinus suspirou. — O exército de Spartacus marchou em direção ao norte na manhã seguinte. Eu não podia deixar o maldito passar por Módena sem lutar, por isso levei meus homens para fora e os confrontei.
Alguns senadores resmungaram, solidário.
— Não foi por falta de coragem — disse um.
Crassus ficou feliz ao ver que os rostos que via ainda mostravam desaprovação.
— Continue — ordenou Lentulus.
— Minhas legiões agiram na clássica formação tríplex acies. Havia árvores à esquerda, que impediam o uso da cavalaria, por isso dispensei todos os cavalos à minha direita. O inimigo nos encontrou da mesma maneira. Spartacus aprendera a lutar como os romanos. Suas tropas são, na maior parte do tempo, bem-armadas e bem-disciplinadas.
Gritos de susto foram ouvidos.
“Eu disse a vocês, meses atrás, que não deveríamos subestimar Spartacus”, pensou Crassus. “Mas vocês não ouviram.” Em seu íntimo, ele se surpreendeu com a grandeza do sucesso do trácio, porém não admitiria isso a ninguém.
Longinus esperou até que todos voltassem a se calar.
— Os cavaleiros dele também foram bem-treinados. Estavam em maior número do que meus seiscentos gauleses. O quinto, pelo menos. Conforme o exército dele avançou, minha cavalaria recuou, permitindo que os cavaleiros inimigos aparecessem por trás de minhas legiões. Depois disso, a luta se intensificou. Apesar disso, meus soldados se mantiveram firmes por muito tempo. Mas no fim os ataques intensos na dianteira e pela retaguarda foram demais. — Longinus fez uma pausa para se recompor. — Meus homens se afastaram e fugiram.
— E suas águias? — quis saber Gellius.
Longinus ficou sério.
— Foram perdidas.
— As duas?
— Sim. Fiquei até o fim, tentando recuperar uma. Eu teria morrido no campo se não fosse um de meus centuriões, que, com seus homens, me removeram à força. Eu queria ter sido assassinado, mas também é minha obrigação reportar meus fracassos ao Senado. Fiz isso. Agora aguardo a sentença de meus colegas, seja qual for.
Longinus abaixou a cabeça.
Apesar de tudo, Crassus ficou impressionado com a performance do procônsul. “Ele é corajoso, tanto na batalha quanto aqui na arena conflituosa do Senado.” Crassus logo recobrou a frieza. “Ele é só mais um general que fracassou. A derrota dele me renderá mais apoio. Talvez hoje eu consiga agir, enfim.” Ele olhou ao redor e ficou irritado ao ver que as palavras de Longinus pareciam ter conquistado a simpatia de um bom número de senadores.
Os cônsules conversaram entre eles até que Lentulus ergueu a mão, pedindo silêncio.
— Agradecemos por você cumprir a obrigação de contar o que aconteceu. Apesar de a notícia de sua derrota e a perda de suas águias serem ruins, elas não surpreendem. — Ele olhou para Gellius. — Meu colega e eu fracassamos contra Spartacus.
— Sim, com certeza, fracassaram — gritou Crassus. — Assim como todos os tolos enviados por vocês antes disso. Vocês envergonham a República! — O coração dele acelerou na breve pausa que veio em seguida. Teria ido longe demais?
— Vergonha! Vocês dois são uma vergonha! — gritou César.
— Vergonha! — gritou outro senador.
O grito ganhou vida, aumentando de abrangência e volume até ecoar nas paredes da Curia.
— Vergonha! Vergonha! Vergonha!
A ira de Crassus não tinha limites. As notícias sobre as perdas anteriores de seus exércitos não haviam causado tanto descontentamento como as de agora. Com certeza as atuais lhe renderiam mais incentivadores.
O barulho demorou um pouco para diminuir. Quando abrandou, Longinus ainda estava em sua posição diante dos cônsules, com as costas eretas, cabeça abaixada, aceitando seu destino.
Talvez por ter derrotado Crixus, obtendo assim certa honra, Gellius foi o primeiro a falar.
— Longinus precisa pagar por seu fracasso. Qual castigo vocês aplicariam, senadores de Roma?
Fez-se um silêncio profundo.
Crassus ficou surpreso ao ver que estava indeciso. Outros que tinham fracassado, entre eles o miserável Varinius, tinham recebido a ordem de cometerem suicídio, apesar de, naturalmente, os dois cônsules terem escapado de tais sentenças. Contudo, nenhum deles tinha a estirpe de Longinus. Este pertencia a uma família ilustre, havia servido à República como senhor do estado, pretor e, no ano anterior, como cônsul. Por que ele sofreria o castigo máximo — a morte —, se homens inferiores a ele escaparam? O exílio seria uma alternativa melhor? Crassus observou Longinus. “Ele é um homem capaz. Não faria sentido ser morto pela própria espada.”
— Depois que ele se desculpar com os deuses, tirem a autoridade dele e o mandem pagar uma multa grande ao tesouro.
Uma pausa breve.
— Acho que seria um castigo adequado — concordou César em voz alta.
— Também acho — disse um dos incentivadores de Crassus.
Vários sons de concordância surgiram de seu grupo. Ninguém disse mais nada.
Crassus aproveitou o momento.
— Não é preciso que Longinus morra. Não quando outros que fracassaram fugiram de tal destino.
— Verdade!
O tom de César era ácido.
Crassus sorriu calmamente diante dos olhares dos cônsules. “Estamos apenas começando, idiotas.”
— Longinus deve ser afastado — gritou um senador do grupo de Pompei.
— Afastado! Afastado! Afastado! — gritaram os senadores em uníssono.
Irritado, Gellius balançou a mão.
— Tudo bem. Parece, Longinus, que seus companheiros desejam que você abra mão de seu posto de cônsul. E que pague uma multa.
Ele baixou ainda mais a cabeça.
— SIM!
— Você deve pagar uma multa ao tesouro de... — Ele conferiu com Lentulus —...quinhentos mil denários.
— Não se esqueça da penitência dele diante dos deuses — lembrou alguém.
Longinus levantou a cabeça.
— Será a primeira coisa que farei quando sair da Curia. Agradeço aos meus colegas senadores pela clemência. Continuarei servindo a República de todas as maneiras que puder.
Tirando o cinto vermelho, que representava seu status de general, ele o deixou cair aos pés dos cônsules. Saudou-os e, então, sem olhar para os lados, saiu da sala de modo orgulhoso.
Um suspiro audível foi ouvido entre os políticos ali reunidos.
— Então, passemos ao assunto importante do dia — sussurrou Crassus a César.
— Sobre o que fazer em relação a Spartacus?
— Exatamente. Os cônsules também devem pagar pelo fracasso de Longinus. As decisões ruins tomadas por ele são responsabilidade dos dois, já que são líderes da República.
— Você acha que este é o momento de agirmos?
“Agirmos”, pensou Crassus com certa satisfação. “César está, definitivamente, comigo.” Ele olhou ao redor, tentando avaliar o clima.
— Não sei ao certo. Vamos cercá-los por um tempo para ver o que acontece.
Fasces caíram no chão, interrompendo a conversa deles.
— As notícias de Longinus podem ter sido catastróficas, mas só reforçam nossa decisão. Roma não fica parada diante de uma derrota. — disse Lentulus com a voz confiante.
— O escravo Spartacus e seus seguidores devem ser vencidos e trazidos de uma vez por todas — acrescentou Gellius.
— Vencidos! — gritou alguém. — Roma deve ser vitoriosa!
— Vitoriosa! Vitoriosa! — gritaram os senadores.
Os cônsules se entreolharam satisfeitos. A onda de ira contra eles parecia estar se apaziguando.
— E quem exatamente liderará as legiões da República à vitória? — A pergunta de Crassus cortou o clamor como faca quente na manteiga. Fez-se silêncio. Ele olhou com desdém para os cônsules. — Vocês são os cônsules eleitos, os magistrados mais antigos na terra. Respeito sua posição, porém não pretendo mais apoiá-los nesta guerra. — Ele olhou ao redor, percebendo o choque dos senadores. — Sim, esta agora é uma guerra. Devemos apoiar dois homens que já foram derrotados por Spartacus? Que perderam nada menos do que quatro águias de prata juntos? Que fizeram Roma virar piada no Mediterrâneo? Digo que fazer isso seria arriscar a própria República.
— O que está sugerindo, Crassus? — gritou Lentulus. — Pretende tomar o poder para si, como Sulla fez?
De repente, Crassus sentiu o peso de centenas de pares de olhos sobre ele. Praguejou por dentro. Teria interpretado mal o humor dos senadores?
— Eu...
Lentulus não lhe deu tempo para terminar a frase.
— Você não se saiu bem com as proscrições de Sulla?
Todos riram. Crassus ficou olhando, havia perdido a iniciativa.
— Você já não é rico e ambicioso o suficiente? Não nos esqueçamos de como você ficou como um urubu sobre aqueles que foram pegos pelo “Caçador”. Suas riquezas são imensas, mas também estão manchadas de sangue — acusou Lentulus em voz alta.
— Todas as compras que fiz foram totalmente legais — declarou Crassus. Porém, era tarde demais. Ao seu redor, ele via a revolta no rosto dos companheiros. Até mesmo César tinha dado um passo para trás. — Eu disse que foram todas legais!
— Talvez tenham sido — observou Gellius —, mas você não nos viu em fila para comprar aquelas propriedades!
Tomado pela fúria, mas agora sem poder, Crassus mordeu o lábio.
Em uma atitude sábia, os cônsules se mantiveram calados, observando. Eles permitiram que a ira dos senadores contra Crassus dominasse o ambiente. E então Gellius, que tinha a melhor retórica, levantou-se da cadeira, deu dois passos à frente, até a beira da plataforma, e esperou.
O burburinho acabou.
— Lentulus e eu erramos, mas ainda somos cônsules eleitos de Roma. Não é verdade?
Todos resmungaram.
— E até pouco tempo atrás vínhamos realizando nossas tarefas de modo satisfatório para a maioria, certo?
— Sim — respondeu alguém.
Ninguém disse mais nada.
— Apesar de todos os nossos erros, temos qualidades romanas. É, de fato, um escândalo que Spartacus tenha derrotado tantos de nosso exército. Não vai acontecer de novo! Lentulus e eu unimos nossas legiões. Os reforços necessários por causa de nossos problemas foram recrutados. Os homens ainda guiados por Longinus devem ser trazidos para o sul para se unirem aos nossos, uma força combinada de mais de quatro legiões. Auxiliares estão sendo reunidos na Gália Cisalpina agora mesmo. Foram levadas notícias à Gália e à Ibéria de que precisamos de cavaleiros. Em questão de seis a oito semanas, teremos um exército de mais de trinta mil homens.
Crassus ainda não estava convencido.
— E se Spartacus tentar nos enfrentar antes disso?
— Vamos encontrá-lo onde escolhermos e o varreremos da face da terra. Juro por Júpiter, Minerva e Marte — declarou Gellius sob gritos de aprovação.
— E se, como alguns suspeitam, ele sair da Itália?
— Lentulus continuará aqui, para unir mais legiões e proteger a República. Posso surpreender o grupo de escravos por terra ou mar com nossos exércitos. Ele não chegará muito longe. Quando eu os encontrar, vou destruí-los completamente. Se, por acaso, Spartacus chegar à Trácia, posso me unir às forças de Lucullus ali. Com nossas forças somadas, podemos acabar com ele. De qualquer modo, teremos a vitória!
— Vitória! — gritaram os senadores. — Vitória!
Naquele momento, Crassus soube que sua chance tinha sido perdida. Contudo, não arquitetaria mais nenhuma armadilha por enquanto.
— Muito bem. Vocês derrotarão Spartacus juntos?
— Sim — declararam os cônsules.
— Que Júpiter seja sua testemunha — disse César, olhando diretamente para Gellius.
O sangue deste ferveu.
— Que ele me mate se falharmos!
Lentulus não pareceu gostar do fervor do colega, mas não podia fraquejar.
— Faço uma promessa a Jupiter Optimus Maximus de que seremos bem-sucedidos!
— Excelente! — disse Crassus com falso entusiasmo. — A República voltará a ser triunfante!
Os senadores estavam felizes. Comemoraram e assoviaram como uma multidão animada assistindo a um concurso de gladiadores.
Crassus se aproximou de César.
— Obrigado por ter falado — disse ele disfarçadamente. — Gellius caiu em sua cilada sem perceber.
César inclinou a cabeça, reconhecendo.
— Mas Lentulus sabe que foi manipulado. Parece que ele está engasgado.
— Não me importo! — sussurrou Crassus. — Se, por algum milagre, os tolos forem bem-sucedidos, o problema de Spartacus estará resolvido. Se fracassarem, não terão em que se apoiar. Nenhum general pode ser derrotado duas vezes e permanecer no poder, ainda mais depois de fazer um juramento diante de seiscentos homens.
— Foi uma atitude inteligente. Vocês contornaram bem a situação.
Crassus fez uma objeção educadamente, mas, por dentro, estava exultante. O que havia acontecido era, no mínimo, melhor do que se ele tivesse atingido seus objetivos naquele dia. As legiões na Itália estavam reduzidas, derrotadas e desmoralizadas. Controlá-las e tentar derrotar Spartacus seria correr o risco de causar um desastre.
Dessa maneira, todas as eventualidades estavam cobertas e agora ele teria tempo para planejar a melhor saída. “Uma coisa era certa”, pensou Crassus. A República precisava de mais soldados do que os que tinha em seu território. Pompei tinha um bom número de legiões na Ibéria. Assim como Lucullus, em Pontus. Se um deles fosse chamado para defender a República, não entregariam mais o comando de suas tropas a ninguém. Desejariam toda a glória. “A glória que deveria ser minha.” Crassus decidiu ir conversar com Caepio, o único sobrevivente do munus de Spartacus. Ele seria um bom ponto de engajamento para as legiões que Crassus formaria. Os homens se uniriam para servir sob o comando dele.
Crassus pensou na época em que lutara por Sulla. Muitos dos soldados que tinham lutado para o Caçador na guerra civil ainda estariam vivos, cuidando dos pequenos lotes de terra que lhes foram dados. Sulla soubera muito bem que nada fazia um veterano de vinte anos de serviço mais feliz do que receber exatamente o que lhe havia sido prometido no dia do alistamento. Crassus pensou em Pompei e fez uma careta. “Aquele safado é bom em honrar a saída de seus soldados, assim como Sulla.” Para dizer a verdade, ele não tinha se saído tão bem com seus legionários no passado, mas felizmente não havia muitos. Os de Sulla, por outro lado, eram milhares. “Eles se lembrarão de mim, o homem que venceu a batalha de Porta Collina, o homem que era o capitão leal de Sulla.” Um dito popular lhe ocorreu, e ele sorriu.
— Todo mundo que tem coração de soldado continua sendo um soldado, ainda que seu corpo envelheça — disse Crassus. — Eles também não recusarão os belos pagamentos que ofereço.
Era hora de encarregar Saenius de outra tarefa. Seu domo já havia feito muito para tentar recrutar espiões dentro do exército escravo, mas os progressos do dia significavam que havia muito mais a ser feito. Reunir novas legiões demandava tempo e, apesar de ele ainda não ter a jurisdição para isso, Crassus estava certo de que podia implementar os primeiros passos do processo demorado. Com um bom número de veteranos, ele teria um núcleo ao redor do qual formar um exército quando chegasse a hora.
Crassus tinha certeza de que os cônsules logo enfrentariam Spartacus em batalha. Nada do que ele tinha visto hoje lhe fazia pensar outra coisa senão que Lentulus e Gellius perderiam. Quando falhassem, ele aproveitaria a chance.
“Vamos nos encontrar de novo”, pensou Crassus. “Dessa vez, você aprenderá a lição que eu deveria ter lhe ensinado quando nos conhecemos. Nós, romanos, não temos semelhantes, e você não passa de um selvagem. Talvez um selvagem talentoso e inteligente, mas ainda assim selvagem. Quando seu exército enfim virar poeira e você estiver dando seu suspiro final, vai entender isso.”
“Estou ansioso à espera desse dia. Levarei o crédito por salvar a República, e as massas me amarão — por salvar a vida e a subsistência deles. Aquele arrivista, Pompei, pode esquecer, pois deixará de ser o homem mais popular de Roma. Em tavernas e lojas, em todas as esquinas, os cidadãos não falarão de mais ninguém além de Crassus. Com minha fama, ostentarei a mesma importância de homens como Sulla e Marius — para sempre.”