Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 4 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo III

 

Duas semanas depois...

Gália Cisalpina, perto da cidade de Módena

O sol havia acabado de nascer, e Spartacus estava perto do perímetro de seu acampamento. Além dos sentinelas no lado leste, ele era o único homem à vista. Era um bom momento para ficar só, e ele aproveitava horas como aquela para reorganizar as ideias. Respirou fundo, sentindo o ar frio. O verão estava próximo, e a cada dia fazia mais calor. Ao meio-dia, a marcha se tornaria um arrastar desconfortável de pés. Não surpreendia o fato de o progresso do exército desde a derrota de Gellius estar mais lento do que o normal. Confiantes com os sucessos incríveis, seus homens tinham passado grande parte do tempo embriagados ou saqueando propriedades da região à procura de alimentos, mulheres e, claro, mais vinho. Ele não havia tentado impedi-los. Depois do que tinham conquistado, eles mereciam comemorar. Um líder que impedia seus homens de fazerem coisas assim se tornava pouco popular, e ele não podia correr esse risco, não com os Alpes cada vez mais próximos. Spartacus sabia que tinha agido bem ao colocar o exército em movimento cerca de uma semana antes. Eles haviam seguido em velocidade de lesma, de quase dez quilômetros por dia, desde então, o que era imensamente frustrante.

Entretanto, na melhor das condições, era difícil organizar cinquenta mil soldados e as bagagens que os acompanhavam. Havia muito ele desistira de tentar controlar as milhares de pessoas que se uniam ao comboio — mulheres, crianças, feridos, putas, comerciantes — e o tornavam absurdamente grande. A maldita coluna se estendia por mais de dez quilômetros. Ao viajar partindo do sul, ele mantivera os seguidores nas montanhas, onde era fácil evitar confrontos. Um dia antes, eles haviam deixado a proteção dos Apeninos e marchado até a planície do rio do poderoso Padus. Estavam agora permanentemente a céu aberto e vulneráveis a ataques. Eles podiam ter derrotado os dois cônsules, mas Spartacus aprendera ao longo dos anos a não baixar a guarda. Esquadrões de sua cavalaria viajavam em intervalos regulares pelos flancos da coluna. Outras unidades também tinham se espalhado pelo campo, localizando tropas inimigas. Até aquele momento, parecia que a guarnição de Módena estava firme atrás dos muros da cidade.

Spartacus subiu em uma rocha próxima e espiou ao norte. As nuvens não permitiram que ele visse os Alpes naquela manhã, mas lembrava com clareza de tê-los visto no horizonte distante ao descer dos Apeninos. A menos de 120 quilômetros, a influência da República Romana foi interrompida de modo ab-rupto. Ver aquilo deixara Ariadne mais feliz do que nunca; o efeito tinha sido parecido em Atheas, Taxacis e nos trácios sobreviventes. No entanto, a reação de todas as outras pessoas tinha sido mais contida. Gannicus sorrira, dizendo estar ansioso para trepar com uma gaulesa livre, mas Castus não disse quase nada. Preocupado com os primeiros sinais verdadeiros de ressentimento, Spartacus continuou caminhando pelo acampamento do exército todas as noites, com o rosto escondido por uma capa. Muitas das conversas que escutara não eram o que ele desejava ouvir. Sim, alguns falavam sobre deixar a Itália para sempre, mas também havia muita reclamação e resmungos.

“Por que ele quer ir embora? Temos tudo de que precisamos aqui. Cidades sem defesas. Comida. Vinho. Mulheres. Dinheiro. É tudo nosso!”

“Derrotamos cada maldita força que veio contra nós. O que temos a temer se ficarmos?”

“Os dois cônsules tiveram que fugir para se salvarem depois de acabarmos com suas legiões. Os romanos aprenderam a lição. Eles não se aproximarão de nós de novo sem cuidado.”

Contendo-se, Spartacus não desafiara os dissidentes. Não podia conversar com cada grupo do exército. “Eles não entendem os romanos. São escravos sem educação. O que sabem sobre história?” Pirro, que havia derrotado Roma mais de uma vez, e Aníbal, que quase massacrou todo o exército deles em um dia, e as tribos gaulesas que ameaçaram a Itália algumas vezes não significavam nada para a maioria. Contudo, ainda assim, um lado dele não conseguia parar de exaltar a grande confiança. “Por que eles desejariam partir? O que poderíamos fazer se fôssemos uma força de cem mil? Duzentos mil? Nesse caso, os romanos nos temeriam de verdade.”

Seus pensamentos se voltaram para a Trácia, e como queria livrá-la das legiões para sempre. “Os homens me ouvirão quando chegar o momento”, disse a si mesmo. “Eles me amam e confiam em mim. Nem todos seguirão para o norte, mas a maioria, sim.” Ele olhou para o céu. “Permita que seja assim, Grande Cavaleiro. Permita que a reverência deles por você e por Ariadne, sua serva fiel, continue existindo, ó Dionísio.”

Porém, no fundo, Spartacus desconfiava de que os romanos não o deixariam em paz se ele deixasse a Itália. Eles desejariam vingança pelas humilhações impostas por ele. E se eles o seguissem... como seria?

Ao ouvir alguém se aproximar, ele virou a cabeça.

— Carbo. Navio. Achei mesmo que fossem vocês.

“Meus romanos fiéis.” Ele observara o rosto deles de perto no munus por Crixus. Navio gostara de ver os legionários lutarem até a morte, o que, na opinião de Spartacus, provava sua lealdade. Carbo protestou sobre a luta e até foi falar com Caepio quando esta terminou. Spartacus vira o desdém do centurião a cinquenta passos, viu quando ele cuspiu aos pés de Carbo. Sentiu pena do jovem romano, mas também comemorou, já que a rejeição de Caepio ligaria Carbo a ele para sempre. Havia apenas três homens em quem Spartacus confiava para proteger Ariadne e seu filho ainda não nascido no caso de sua morte: Atheas, Taxacis e Carbo. Era um alívio saber que sua aliança permanecia forte.

— Está olhando para o norte? — Carbo se perguntava o porquê daquela reunião convocada pelo líder deles tão cedo.

— Para onde mais eu olharia? Os Alpes estão próximos. Chegaremos a eles entre uma semana a dez dias.

Ele estava feliz por nenhum homem parecer contrariado.

— Antes disso, temos que passar por Módena, certo?

— Sim, fica a um pouco mais de 15 quilômetros — observou Navio.

— Conte-me mais — ordenou Spartacus.

— É uma colônia romana na Via Aemilia, que vai de Ariminum na costa leste até Placentia, a quase cem quilômetros. Módena também é a base principal para o governador da província e para suas duas legiões.

— Procônsul Caio Cássio Longinus — disse Carbo. — Ele é de uma antiga e ilustre família. — Como Crassus, o saco de merda.

— Longinus foi cônsul ano passado, quando Glaber e os outros tolos foram enviados para nos destruir — explicou Spartacus. — Agora, ele já deve saber o que aconteceu com Lentulus e Gellius.

— Nesse momento, eu diria que ele está escondido nos muros de Módena, se cagando — disse Navio com uma risada. — Desejando ter mais do que duas legiões.

— Cuidado com a serpente encurralada — alertou Spartacus. — Subestimar um exército romano é pedir a própria destruição.

— Verdade — murmurou Navio. — Mas vamos cortá-los em pedacinhos mesmo assim.

— Os homens ainda não viram nenhum sinal de Longinus, nem de suas tropas. Isso provavelmente significa que ele tem mantido todos eles no acampamento. Contudo, a rota mais fácil para os Alpes nos obriga a passar por Módena. Quem sabe o que o procônsul pode ter planejado para nós? — Spartacus olhou para eles. — Quero ver o que vocês conseguem descobrir.

— O quê? Ir a Módena? — perguntou Carbo, surpreso.

— Sim, vocês são os únicos homens que podem sobreviver a isso. São romanos. Têm educação. Ninguém vai enfrentá-los.

“Poderíamos dormir em camas”, avaliou Carbo. Havia meses ele não fazia isso.

— Certo.

— Pode contar comigo — disse Navio.

— Quero que voltem em um dia. Se têm amor à vida, não se esqueçam de manter a boca fechada — alertou Spartacus. — Deixarei o exército descansar até vocês voltarem. Depois, seguiremos para o norte.

— Um dia — disse Carbo, pensando se teria tempo de redigir uma carta de despedida a seus pais. A ideia já lhe ocorrera antes, mas a situação impossibilitou sua concretização. Ele não tinha tinta, pena nem pergaminho, tampouco um modo de enviar a mensagem. Agora, com os Alpes tão próximos, a partida da Itália de repente lhe pareceu real. Permanente. No fórum de uma cidade como Módena, ele encontraria escribas que, por algumas moedas, escreveriam um bilhete para ele.

— É bastante tempo — disse Navio.

— Encontrem roupas bem puídas e sujas. Não usem seus cintos, claro, e não levem nenhuma arma, só a adaga — orientou Spartacus. — Levem apenas uma quantia pequena.

— Se alguém perguntar o que fazemos, o que devemos dizer?

— Que são agricultores. Isso explicará o bronzeado, os calos nas mãos. Vocês moram a quarenta quilômetros ao sul daqui, na base dos Apeninos. Assim como aconteceu com muitas outras pessoas, suas terras foram invadidas pelos homens de Spartacus e suas famílias foram mortas. Vocês chegaram a Módena para encontrar trabalho e proteção contra os rebeldes.

Parecia uma história plausível. Carbo e Navio se entreolharam e assentiram.

— Podem ir! Quanto antes partirem, mais cedo voltarão.

Para evitar serem atropelados por um mensageiro oficial que não dava sinal de que diminuiria o ritmo do cavalo, Carbo saiu da parte pavimentada da estrada. Olhou de soslaio para o cavaleiro quando este passou, em direção a Placentia. “Não é difícil adivinhar qual é a mensagem dele. Algo como ‘Envie todos os soldados disponíveis que tiver. Spartacus está nos portais’.” Essa era uma ideia agradável.

Ele e Navio haviam atravessado a região interiorana deserta para chegarem à movimentada Via Aemilia a alguns quilômetros a oeste de Módena, de modo que, quando chegassem, não parecesse que tivessem vindo do sul. Não era de se espantar o fato de a maior parte do tráfego pesado estar se afastando da ameaça do exército rebelde. Havia um grande número de viajantes seguindo em direção ao leste, e eles não chamariam atenção. Carbo, suspirando, pegou sua água.

— Pelos deuses, como está quente!

Tomou um gole e jogou o frasco de couro para Navio.

Seu amigo fez uma careta.

— Ainda bem que não estamos usando nossas cotas de malha e carregando espadas e escudos, não é?

— Pelo nome de Hades! Cale-se.

Carbo ficou aliviado com o barulho ensurdecedor feito pelo ranger das carroças que passavam.

— Ninguém pode me ouvir.

— Talvez agora, não. Mas, em Módena, as coisas serão diferentes, principalmente se formos a uma taverna.

— Se? — Navio riu. — Quando formos!

Carbo arregalou os olhos para Navio, porém com pouca seriedade. Eles haviam passado metade da viagem falando sobre encontrar uma hospedaria onde pudessem beber vinho decente, pedir boa comida, e não os alimentos queimados com os quais haviam se acostumado. “Talvez até houvesse alguma puta razoavelmente decente”, pensou Carbo. A última vez em que fizera sexo tinha sido com sua amada Chloris, que morreu. Houvera várias oportunidades, mas, ao contrário da maioria dos homens de Spartacus, ele não estava preparado para estuprar mulheres indefesas — apesar de já estar desesperado.

— Certo, certo. Mas faremos isso da minha maneira. Discreta e com cuidado. Não falaremos sobre nada além da terra e de nossas famílias mortas, e de Spartacus e seus homens serem uns desgraçados.

— Justo — concordou Navio. — Mas é só o que você vai me mandar fazer. Não vai escolher a puta que vou comer.

Ele jogou o frasco de água na cabeça de Carbo, dando risada, e formou um círculo com o dedo indicador e o polegar da mão direita. Com um olhar malicioso, ele enfiou e tirou o dedo indicador da outra mão na abertura.

— É isso o que quero. Com a mulher mais bonita que conseguir encontrar.

Carbo riu. Por um instante, a vida pareceu normal de novo.

Sua preocupação voltou depressa. Havia uma fila comprida esperando para entrar pelo portão principal de Módena, protegida por um grupo grande de legionários.

— Veja quantos filhos da puta. Vinte, no mínimo — disse ele enquanto os dois seguiam atrás de uma carroça puxada por um boi com pranchas recém-serradas. — Eles sabem que dominamos Thurii.

— Parece que sim.

Carbo se lembrava de todos os momentos da batalha em Thurii, no sudeste da Itália. Para lançar um ataque surpresa a Varinius, Spartacus fizera seus homens cercarem a cidade maldefendida como subterfúgio. No dia seguinte, deixando parte de seu exército do lado de fora, aparentemente sitiando Thurii, ele havia levado Varinius e seus soldados a uma armadilha mortal. Desde aquele dia, o respeito de Carbo por seu líder se tornara incontestável. A derrota dos romanos tinha sido total, e a humilhação, imensa.

Claramente, Longinus não permitiria que isso acontecesse a Módena nem a ele.

— Teremos que entrar confiantes.

Carbo ficou aliviado ao ver parte do nervosismo que sentia refletida no rosto de Navio.

— Se perguntarem, falaremos que nossas famílias foram assassinadas. Somos cidadãos romanos leais, pagamos nossos impostos e pedimos pouco em troca. Onde estavam os legionários para nos proteger quando Spartacus e seus selvagens atacaram nossas terras? E assim por diante.

— Certo.

No entanto, a tensão de Carbo aumentou quando eles se aproximaram dos muros, muito bem-protegidos por homens. Havia balistas em intervalos regulares ao longo das muralhas também. Ele os indicou com meneios de cabeça.

— Está vendo?

— Sim. Eles estão preparados para um cerco. Talvez Longinus esteja com medo de sair e lutar — disse Navio, brincando.

— Talvez. Mas ele fará isso, de qualquer modo.

— Terá que fazer — concordou Navio com seriedade. — Ou pelo resto de sua vida ele será conhecido como o general que deixou Spartacus escapar. Ele nunca comandaria nada mais do que um grupo de homens para lavar latrinas.

Era agradável pensar em um general romano supervisionando a lavagem de dejetos, porém, Carbo forçou a si mesmo a se concentrar no que viria em seguida. O homem magricela com o carrinho na frente deles estava discutindo furiosamente com os legionários que protegiam o portão.

— Vocês não entrarão com essa maldita carroça — reiterou o optio responsável, um indivíduo intrometido e de nariz achatado. — No futuro próximo, nenhuma troca de mercadorias poderá ser feita se não for ordem direta do procônsul.

Ele leu a lista que segurava com a mão direita.

— Não consigo ver nada aqui a respeito de pranchas.

— Elas foram encomendadas por ninguém menos que Purpurius!

— Purpurius? — bocejou o optio.

— É um mercador importante que mora perto do fórum.

— Nunca ouvi falar dele.

— Saiba que Purpurius é amigo do procônsul.

— Tenho certeza de que é — disse o optio num tom de dúvida. — Mas os produtos dele não estão na minha lista.

— Levei dois dias para chegar aqui — disse o homem.

— Não é problema meu. — Foi a resposta entediada. — Afaste sua carroça e vá embora. Está bloqueando a entrada.

— Eu...

O optio ergueu seu bastão de ponta de metal.

— Você é surdo?

Lançando olhares de raiva aos soldados e reclamando a respeito do que Purpurius faria quando soubesse o que tinha acontecido, o carregador desafortunado começou o trabalhoso procedimento de virar o boi. Carbo, Navio e as pessoas atrás deles saíram do caminho enquanto o homem se afastava dos muros e, ainda resmungando, voltava pelo caminho pelo qual viera.

— Andem! — ouviu-se uma voz.

O optio fazia um gesto para que eles se aproximassem.

— Nomes — pediu ele.

Eles já tinham decidido que usar seus nomes reais não causaria problemas e significaria que eles não teriam que ficar se lembrando do nome inventado.

— Paullus Carbo.

— Marcus Navio.

— Ocupação?

— Somos agricultores, senhor — respondeu Carbo.

O optio olhou para eles de cima a baixo.

— Não têm carroça nem sacos de legumes. O que vieram fazer aqui?

— Fomos expulsos de nossa terra — respondeu Carbo, com amargura.

— Ah. Por Spartacus e seus homens?

— Sim, senhor

Navio fez uma careta.

— Os desgraçados mataram nossas famílias. Levaram todas as nossas galinhas. Acabaram com o trigo novo nos campos.

— E nos deixaram sem nada — completou Carbo.

O optio fez uma careta em solidariedade.

— Vocês não foram os únicos. O mesmo aconteceu com milhares de outras pessoas. Por que vieram a Módena?

— Para procurar trabalho, senhor — respondeu Navio.

— Trabalho? Boa sorte. Este lugar está lotado de refugiados.

— Faremos qualquer coisa, senhor — implorou Carbo. — Por favor.

O optio coçou o nariz cheio de marcas.

— Haverá trabalho em breve, acredito. Quando Spartacus chegar, precisaremos de homens que carreguem rochas até as catapultas dos muros. Vocês acham que podem fazer isso o dia todo sem reclamar?

— Claro, senhor.

— Vocês parecem estar em boa forma. Não carregam armas além dessas adagas?

— Não, senhor.

Ele acenou aos dois ab-ruptamente.

— Podem ir, então. Entrem.

Murmurando agradecimentos, os amigos passaram sob o arco de pedra.

— Paullus? Você não tinha me dito — disse Navio, rindo.

Carbo sentiu o rosto esquentar.

— Não gosto desse nome, por isso nunca o uso.

— Paullus, meu filho! O jantar está servido. — O tom de Navio foi estridente, imitando a voz de uma mulher.

— Vá se ferrar! — disse Carbo, batendo no braço do companheiro.

A brincadeira de Navio fez Carbo se lembrar de seu antigo tutor, e, mesmo sem querer, ele riu, achando graça.

Navio levou um dedo aos lábios.

— Nós estamos tristes por nossas famílias... Paullus!

Eles se distraíram tanto tentando não rir que não viram os homens do optio atrás deles.

Depois de andarem um pouco na cidade, eles foram atraídos pelo delicioso cheiro de comida frita. Seguindo seu faro, eles encontraram um restaurante com as portas abertas em uma das primeiras ruas paralelas ao caminho principal. Ao verem que o local estava lotado de soldados de folga, eles decidiram comer ali. Ouvir conversas em lugares como aquele podia ser útil. Encontraram uma mesa vaga na parede dos fundos e se sentaram. Uma mulher meio suja e fedendo a perfume barato chegou e anotou os pedidos. Com três asses, eles conseguiram comprar duas tigelas bem-servidas de ensopado, com pão fresco e uma jarra de vinho misturado com água. Em meio a mastigadas, eles conversavam em voz baixa, enquanto ouviam as conversas ao redor.

Por fim, Navio empurrou o prato vazio e arrotou.

— Deuses, como eu precisava de uma refeição assim.

— Estava boa — concordou Carbo distraidamente.

— Longinus não se importa se somos um lutando contra cinco! — gritou um soldado irado na mesa ao lado. — O filho de uma puta precisa...

— Cala a boca, Felix — alertou o companheiro dele. — Não ligue para Longinus. Se um oficial ouvir você falando assim, você acabará em apuros.

— Não estou nem aí. — Felix bebeu seu vinho. — Estamos prestes a ser assassinados, de qualquer modo. Posso muito bem dar um último ataque antes do fim. Os colchões daqui não têm tantos percevejos quanto o meu.

O amigo riu.

— Pode ser, mas vinte açoitadas por insubordinação machucarão muito mais do que algumas picadas. E não farão com que você seja dispensado da luta. Todo homem que consegue erguer um escudo e uma lança tem que lutar, é obrigação. Os cirurgiões receberam a ordem de tirar todos os casos do hospital, menos os mais graves.

— Eu sei. Também soube do anúncio — resmungou Felix. — É que...

— Fecha a latrina — ordenou o amigo, servindo mais vinho. — Beba mais, pois pode ser uma de suas últimas chances.

Os dois legionários começaram a falar sobre o local aonde iriam em seguida.

— Você soube disso? — sussurrou Carbo. — Parece que Longinus vai lutar.

— Nenhum deles disse exatamente isso.

Navio tinha razão. O que eles tinham ouvido não era o bastante. Disfarçando a frustração, Carbo tomou mais um gole e olhou para as mesas mais próximas. À sua esquerda, quatro soldados estavam devorando um pernil assado. Mais à frente, um casal que parecia ser de comerciantes falava sobre negócios. À sua direita, havia uma dupla que eles tinham ouvido resmungar e uma mesa de três legionários bebendo vinho e conversando sobre um jogo de peças. Atrás de Navio, um jovem oficial e um trompetista se divertiam ao ver quanto um vira-lata magro saltava para pegar os restos de comida. A conversa dos que estavam mais afastados era inaudível.

Carbo disse a si mesmo para ser paciente.

No entanto, até terminarem de beber o vinho, não ouviram mais nada interessante.

— Hora de irmos — disse ele.

A tarde estava passando. Não demoraria muito para que escurecesse.

O sorriso que Navio deu em resposta foi enorme. Ele se inclinou na direção de Felix.

— Ei, amigo! Onde dois homens sedentos conseguiriam encontrar um local decente para beber? De preferência onde haja putas sem sífilis.

— Tentem a hospedaria duas ruas acima, à direita. Chamam de Bigorna de Vulcano. Não tem como errar. É lotado de soldados, o dia todo.

— É um bom lugar para se esbaldar — acrescentou o amigo do outro com uma piscadela.

— As mulheres de lá são de primeira. Mas são caras. — Felix os observou com os olhos vermelhos. — Duvido que tenham dinheiro para pagar uma mulher para os dois.

— Tem razão, amigo — disse Navio, levantando-se. — Mas nada nos impede de admirar a carne em exposição enquanto bebemos, não é?

— Verdade. É o que a maioria de nós faz aqui, a menos que seja dia de pagamento. Talvez nos encontremos mais tarde.

— Seria uma honra pagar uma bebida para vocês — disse Carbo, pensando exatamente o contrário. Ele assentiu um adeus simpático. Assim que se afastaram, ele disse a Navio: — Vamos procurar outro lugar.

Navio contraiu os lábios de modo arrependido.

— Seria um pouco perigoso, não?

— Ele disse que fica cheio de soldados! Outra hospedaria seria bem mais segura.

— Mas se pensarmos nas mulheres...

O tom de Navio era de desejo.

— Aquelas pelas quais não podemos pagar?

— Não podemos?

— Não — respondeu Carbo.

Com um olhar malicioso, Navio colocou a faixa de couro da sua bolsa ao redor do pescoço.

— Encontrei dois áureos em uma das casas que saqueamos há algum tempo. Até agora, não tivemos com o que gastá-los.

— Spartacus disse para não trazermos muito dinheiro — protestou Carbo.

— Eu sei, eu sei. Mas um homem tem suas necessidades, certo?

— O que você acha que um áureo comprará?

— O que não comprará? Você vai dar a trepada de sua vida ou não me chamo Marcus Navio!

Pensamentos cheios de luxúria tomaram a mente de Carbo. Então, ele se recompôs.

— Não na Bigorna de Vulcano — disse ele com firmeza. — Em outro lugar.

— Deve haver mais de um bom bordel na cidade — observou Navio dando de ombros. — Vamos procurar outra hospedaria para ver o que descobrimos. — Provavelmente haverá mais soldados de folga reclamando de Longinus.

Eles começaram a andar entre as pessoas.

Nenhum deles percebeu a pessoa que se embrenhou na sombra do outro lado do restaurante para segui-los.

Apesar do efeito inebriante do vinho, Carbo viu os rostos marcados e a aparência sofrida dos habitantes da cidade. Grupos de legionários andavam de um lado para o outro, guiados pelos gritos e cajados de seus oficiais. Ninguém parecia feliz, muito menos os comerciantes, que ficavam nas portas de seus estabelecimentos vazios, olhando para quem passava com cara feia. Havia mendigos por todos os lados, agachados na lama no canto da rua ou passando entre as pessoas, com as mãos sujas estendidas. “Spartacus é o responsável por isso”, pensou Carbo, chocado, porém orgulhoso. “Todos nós somos.”

A tentativa deles de ouvir as conversas acabou sendo mais difícil do que esperavam. Passando pelos caminhos, eles encontraram diversas hospedarias de tipos distintos. Havia soldados em todas elas, mas nos espaços apertados era difícil conseguir uma mesa próxima o bastante para ouvir as conversas. Os amigos tinham que ser discretos e, mais de uma vez, tiveram que se contentar em ficar de pé dentro do bar ou sentados do lado oposto ao dos homens cujas discussões e reclamações eles queriam ouvir. Em certa hora, quando conseguiram se sentar ao lado de um grupo de legionários, só o que ouviram foi que ninguém queria servir sob o domínio de Longinus, que dois dos homens tinham sífilis e que o próximo dia de pagamento seria em três meses. Quando Carbo olhou para o grupo por muito tempo, disseram a ele para cuidar da própria vida se não quisesse catar os próprios dentes no fundo da garganta. Navio e Carbo se afastaram logo em seguida.

Apesar de terem bebido só vinho misturado com água, tinham visitado muitos estabelecimentos, seus sentidos ficaram afetados pela bebida e a sensação de frustração e de raiva cresceu. A quinta taverna foi a pior de todas — um local feio localizado em um dos becos da cidade. Tinha uma mobília ruim, algumas putas velhas e o pior vinho que Carbo já experimentou. Ele cuspiu o primeiro gole e ficou sentado, observando o conteúdo de sua xícara como um profeta faria. Contudo, não encontrou inspiração. Quando um bêbado derrubou vinho nele, o jovem romano se controlou para não bater no infeliz. Satisfeito por ter conseguido se conter, ele teve que impedir Navio de bater em alguns legionários que desafiavam os outros clientes numa briga.

— Deixe para lá. Não procure problema.

Navio desviou o olhar dos soldados, que estavam sem camisa e caminhando em círculos, flexionando os bíceps e ameaçando acertar todo mundo.

— Eu poderia acabar com os dois — disse ele de modo truculento. — Ao mesmo tempo.

— Com certeza. — Carbo o acalmou. — Mas agora não é o momento. Lembre-se por que estamos aqui.

Navio olhou para ele com amargura.

— Mas não estamos tendo muita sorte, não é? A maldita Fortuna deve estar de mau humor.

— Nossa sorte mudará. Vamos encontrar outro lugar para beber. E lá ouviremos algo útil — disse Carbo com todo o entusiasmo que conseguiu demonstrar. — E acalme-se. Lembre-se onde estamos.

Navio resmungou, mas seguiu Carbo porta afora sem contra-argumentar.

Ao ver um templo dedicado a Fortuna, a deusa da sorte, Carbo direcionou seu amigo. Ele percebeu o olhar incrédulo de Navio.

— Pode ser que ela precise ser acalmada. Espere aqui. Não arranje problema.

Carbo comprou uma pequena oferta de uma vela votiva de um mago velho, entrou e pediu perdão à deusa pelas palavras de Navio, além de ajuda com a sua missão. Ele se sentiu melhor depois de fazer a oferta e depois se uniu ao amigo na busca por outra hospedaria com o entusiasmo renovado.

Eles não ouviram nada de interessante no local seguinte, nem no restaurante cheio onde comeram um prato de carne de porco frita. O ânimo de Carbo diminuiu como o de Navio. Eles permaneceram sentados, desanimados, observando mais tropas passarem.

— Poderíamos segui-los — sugeriu Carbo.

O olhar desanimado de Navio lhe disse o que ele já sabia.

— Ideia idiota.

Nada foi dito por um tempo.

— Não quero voltar sem nenhuma informação — disse Carbo, finalmente.

— Nem eu, mas o que mais podemos fazer?

Carbo pensou nos soldados com quem eles tinham conversado mais cedo. Seu estômago revirou quando considerou procurar a companhia de dois homens que, se descobrissem sua identidade, os matariam sem hesitar. Contudo, se eles estivessem embriagados de verdade, não descobririam nada — e podiam até revelar algo. A chance era pequena, mas Carbo não conseguiu pensar em mais nada.

— Podemos ir à Bigorna de Vulcano.

— Pensei que tivéssemos decidido que era perigosa demais.

— Consegue pensar em algo melhor?

Navio puxou o ar entre os dentes.

— Além de procurar um oficial e perguntar quais são os planos de Longinus, não — admitiu ele.

— Bem, então vamos. — Agora que havia pensado em uma solução possível, Carbo queria seguir em frente com ela. — Qualquer coisa é melhor do que passar em todas as espeluncas de Módena. Vamos acabar doentes se continuarmos.

— Verdade. — A expressão de Navio ganhou um toque de malícia. — Você se lembra das putas sobre as quais eles nos contaram? Elas são as melhores da cidade.

— Esqueça isso. Vamos ver se nossa sorte virou e conseguimos ouvir alguma coisa.

— E depois disso, uma boa trepada!

A ideia era interessante. O desejo não satisfeito de Carbo o atormentava noite e dia. Dizendo a si mesmo que comprar uma puta seria uma recompensa por descobrir o que Spartacus queria saber, ele saiu procurando a Bigorna do Vulcano.

Não foi difícil encontrar. Um prédio isolado de alvenaria e três andares com um quintal amplo cercado por estábulos, era uma construção maior do que a maioria. A frente do andar térreo era coberta por estuque, que tinha sido pintada de modo criativo com colunas gregas cobertas por vinhas. Na porta da frente, protegida por dois grandalhões, havia uma placa com um desenho do deus do fogo abaixado sobre sua bigorna, com o martelo na mão.

Eles chegaram à entrada. O barulho que emanava das frestas da janela — riso, cantos, e o som de vozes femininas — era ensurdecedor.

— Parece promissor, não? — disse Navio, rindo.

Apesar de Carbo imaginar muitas coisas, sentiu um arrepio. Eles estavam prestes a entrar na cova dos leões. Rangeu os dentes. A vergonha de dizer a Spartacus que ele havia fracassado seria pior do que arriscar seu pescoço. E, se eles fossem cuidadosos, as coisas sairiam como planejado.

O maior dos leões de chácara, um enorme homem sem um dos olhos, bloqueou a entrada.

— Posso ajudá-los?

Seu tom de voz não dava a impressão de que ele queria ser solícito.

— Gostaríamos de beber — disse Carbo com educação.

O homem fungou.

— É mesmo?

— Sim. E talvez conversar com algumas de suas moças mais jovens — acrescentou Navio.

O gigante riu.

— Vocês dois não têm dinheiro para pagar por uma de nossas garotas. Por que não dão o fora antes que eu e meu amigo quebremos seus pescoços?

— E as pernas — resmungou o amigo.

Carbo ficou em alerta. E começou a se afastar.

— Aonde você vai? — perguntou Navio.

— A uma hospedaria onde sejam menos exigentes em relação a seus clientes.

— Não precisa disso.

Navio enfiou a mão na bolsa. Carbo não teve tempo para reagir. O ouro brilhou nos dedos de seu amigo quando ele se aproximou do leão de chácara.

— Isto basta para você?

O rosto do gigante se abriu em um sorriso banguela.

— Perdoe meus maus modos, senhor. Vocês dois são muito bem-vindos à Bigorna do Vulcano. Como todos sabem, temos os melhores vinhos e as melhores mulheres de Módena.

Ele deu um passo para o lado e, com um floreio de seu braço gordo, pediu para que entrassem.

— Vamos.

De modo relutante, Carbo acompanhou o amigo.

— Agora, sim — disse Navio quando eles entraram.

O interior muito bem-decorado era iluminado por seis candelabros de bronze suspensos no teto. As mesas e os bancos eram feitos de madeira maciça, e a serragem no chão de concreto e azulejo era clara. Os clientes eram, na maioria, soldados, e entre eles havia vários oficiais.

O sorriso de Navio desapareceu e Carbo franziu o cenho.

— O que foi?

— Você sabe como os áureos são raros! Aqueles homens falarão sobre nós a noite toda.

— Relaxa — disse Navio num tom de confidência. — O que lhes importa como conseguimos nosso dinheiro? Vou fazer questão de dar uma gorjeta a eles na saída, pedir para que esqueçam que nos viram. Não queremos que nossas esposas descubram que estivemos aqui. Você sabe como é.

Ele piscou.

Carbo não se deu por satisfeito, mas, então, viu um quarteto de mulheres de pé em um plinto atrás do bar, e a razão e o compromisso com a missão desapareceram de sua mente. Elas eram mais lindas do que ele poderia sonhar. Sentiu o pênis endurecer ao perceber que por baixo dos roupões transparentes elas estavam nuas.

— Achei que você mudaria de ideia. — Navio bateu no peito dele, trazendo-o de volta à realidade. Ele lhe entregou uma moeda de ouro. — Pegue. Gaste-o com sabedoria. Vejo você mais tarde para bebermos alguma coisa. Podemos comparar os resultados.

Carbo pegou o áureo com firmeza.

— Aonde você vai?

— O que você acha? — respondeu Navio, assentindo na direção das prostitutas. — Temos a noite toda para descobrir o que precisamos.

Com o coração aos pulos, Carbo observou o amigo caminhar em direção ao bar, chamar a atenção de uma bela morena e fazer um gesto para ela. Quando ela se aproximou, as cabeças dos dois se aproximaram por um momento. “Tempo suficiente para que a beleza visse o áureo”, pensou Carbo. Quando olhou de novo, Navio estava subindo a escada, abraçado com a mulher. E não olhou para trás.

Um homem carregando duas jarras de vinho trombou com Carbo, fazendo com que ele desviasse o olhar das prostitutas. Por algum motivo ele pensou em seus pais. A carta! Se havia um momento bom para escrevê-la era agora. Ele voltaria em um piscar de olhos. Navio nem sequer saberia que tinha saído. Quando terminasse, poderia beber alguma coisa e ouvir as conversas ao seu redor. Com tantos soldados na hospedaria, seria impossível não obter informações úteis. Então, ele poderia decidir qual das mulheres escolheria. Animado com a ideia de completar a missão de Spartacus e também a sua, Carbo se encaminhou para a saída. Na noite que começava a cair, os dois homens na entrada da hospedaria conversavam com um soldado grande.

Ao perceberem a presença de Carbo, eles se viraram com sorrisos gentis.

— Já vai, senhor?

— Tenho algo rápido a fazer. Antes de beber demais e me esquecer, sabe? Onde fica o fórum?

— Por ali. — O gigante apontou em direção ao norte. — Todas as ruas que seguem naquela direção levam a ele.

— É muito longe?

— Não chega a quinhentos metros.

Assentindo para agradecer, Carbo se afastou.

O legionário esperou ele abrir certa distância para depois segui-lo.

O leão de chácara estava certo. Carbo encontrou o fórum com facilidade. Apesar de nunca ter estado na cidade, o espaço amplo e retangular era familiar. Como a maioria dos fóruns romanos, era o coração de Módena. Havia muitas barracas no espaço, vendendo de tudo, desde ferramentas, roupas, cerâmicas e panelas para fazer pão, além de carne e vegetais até amuletos para o amor. Era cercado por um número grande de templos — a Júpiter, a Minerva, a Juno e a Dióscuros, aos gêmeos Castor e Pollux —, além de construções do governo, como a corte e o escritório de contas. Havia também basílicas, mercados cobertos onde advogados, escribas, cirurgiões e farmacêuticos atendiam.

Carbo seguiu diretamente para elas. Entretano, seu ânimo diminuiu quando entrou. O que ele estava prestes a fazer era ainda mais arriscado do que entrar na Bigorna do Vulcano. Se o escriba percebesse que Carbo era um dos homens de Spartacus, ele seria preso na hora. Caminhou entre as barracas, ignorando ofertas a preço baixo para que lessem sua sorte, examinassem seus dentes ou escrevessem seu testamento naquele instante, para o caso de os deuses repentinamente o derrubarem. Ele viu uma pessoa sentada sob uma placa na qual se lia: ESCREVEMOS CARTAS. BOA LETRA. PREÇOS RAZOÁVEIS. Olhando para Carbo, o escriba assentiu para ele de modo simpático. Contente por não ter sido atacado verbalmente, como as outras pessoas fizeram com ele, Carbo retribuiu o cumprimento.

— Preciso escrever uma carta — disse ele, sentindo sua determinação diminuir.

— Esse é o meu trabalho.

— Não será longa. Apenas algumas linhas.

— Quatro asses.

— Tudo bem. Você também pode enviá-la?

— Vai custar mais. Para onde vai?

— Roma.

Ele franziu o cenho.

— A estrada para o sul não é segura no momento, como sabe.

— Por causa de Spartacus e seus homens?

Ele assentiu com raiva.

— Dizem que ele está avançando em direção a esta cidade. O procônsul sem dúvida agirá nos próximos dias. Suas duas legiões estão prontas para a batalha. Com a bênção de Júpiter, o maior e melhor, logo nos livraremos do assassino trácio e da escória que o acompanha.

— Vamos torcer para que isso aconteça — respondeu Carbo. — Mas pode enviá-la mesmo assim?

— Devo conseguir encontrar alguém. Vai custar mais, saiba disso.

— Quanto?

— Podemos dizer um denário.

Carbo fez uma careta, mas teria pagado muito mais se precisasse. Procurou na bolsa e entregou uma moeda de prata.

Depois de selecionar um pedaço pequeno de pergaminho, o escriba o colocou sobre a mesa manchada e prendeu os cantos com pedaços de aço. Enfiando a pena em um pote de tinta, ele olhou para Carbo, esperando.

— “Honrados pai e mãe, escrevo na esperança de que esta carta os encontre saudáveis e seguros.”

O escriba contraiu os lábios ao terminar a frase.

— Sim?

— “Só posso pedir perdão pela falta de notícias desde que saí de casa. Fui embora porque queria...” — Carbo fez uma pausa, pensando no que dizer — “...ajudar com os problemas financeiros da família a meu modo, e não como o pai desejava. Sei que isso me torna um filho indigno, mas não consegui tolerar a ideia de me tornar um advogado.”

— Não julgo você — disse o escriba, franzindo o cenho e olhando para a barraca à frente da sua, onde havia um homem alto de cabelo ensebado e uma atitude imperiosa. — Mentirosos e bandidos, muitos deles. — Ainda mais ciente da necessidade de escolher as palavras com cuidado, Carbo sorriu. — Continue.

— “Espero ainda poder ajudar no que diz respeito às obrigações do pai no futuro. No momento, entretanto, isso terá que esperar. Estou prestes a embarcar em uma jornada longa e perigosa, da qual posso não voltar.”

“Posso? Não voltarei.” Mas ele não podia dizer isso, ou o escriba ficaria muito curioso. Sua carta sem dúvida já era bem estranha só com aquilo que já tinha sido ditado.

— “Antes de terminar, quero dizer que rezo por vocês dois todos os dias. Que os deuses cuidem e protejam vocês. Com amor, de seu filho, Carbo.”

O escriba assinou a carta com um floreio.

— Está pensando em tentar a sorte fora daqui?

— Sim.

“Você nem imagina.”

— Com um mercador?

— Isso mesmo.

— Gália ou algum lugar ainda mais distante?

— Preciso encontrar um homem em Placentia que está seguindo para a Gália e depois para a Britânia — mentiu Carbo.

— Você é um homem mais corajoso do que eu — elogiou o escriba, dando de ombros. — Dizem que os mares ao redor de Britânia são tomados por monstros terríveis. Seus nativos vivem sob a influência maligna dos druidas. Os guerreiros deles lutam nus, comem a carne de seus inimigos e fazem copos com seus crânios. — Ele percebeu o horror de Carbo. — Claro que não quis dizer que você correrá perigo. Sem dúvida, estará em casa daqui a um ano, como um homem rico.

— Sem dúvida.

O pesar tomou conta de Carbo. Apesar da mentira sobre suas intenções, sua partida iminente não era o fim. Se ao menos ele pudesse aparecer na porta de seu tio e se despedir dos pais pessoalmente, em vez de enviar uma carta em código. “Dê-se por satisfeito. É o melhor que pode fazer.”

— A quem a carta deve ser enviada? — perguntou o escriba, dobrando o pergaminho em um quadrado.

Carbo abriu e fechou a boca. Quis dizer: “Jovian Carbo, na casa do advogado Alfenus Varus, que vive no monte Esquilino, em Roma”, mas a língua ficou presa no céu da boca. “O que estou fazendo? Isso é loucura.”

— E então? — Carbo não disse nada. — A carta não serve para nada sem um nome e um endereço.

— Esqueça. Mudei de ideia.

— Mudou de ideia?

— Sim — respondeu Carbo. — Minhas orações terão que bastar.

— É sempre difícil lidar com a família.

O tom de voz do escriba era solidário.

— Sim — concordou Carbo, resmungando. — Quero meu denário.

— Dê-me quatro asses e é seu. Preciso receber pelo tempo que gastei — disse o escriba, franzindo a testa.

Carbo procurou as moedas pequenas na bolsa e as entregou. O escriba devolveu o denário. Carbo assentiu em agradecimento e partiu. Tinha que se concentrar em sua missão e descobrir o que pudesse sobre os planos de Longinus. Depois disso, poderia se afogar nos pesares. De manhã, eles voltariam ao acampamento, onde Spartacus estaria esperando. Ele passou pela barraca de um boticário, percebendo vagamente um legionário que olhava os frascos e as loções expostos, sem notar que se tratava do mesmo homem que estava conversando com os brutamontes à porta da hospedaria. Ele também não viu o homem que se aproximou do escriba.

Quando chegou à Bigorna do Vulcano, já estava quase escuro. Ele foi levado para dentro com mais sorrisos melosos. Carbo analisou o salão, mas não viu sinal de Navio. Olhou para as mulheres atrás do bar. Uma mulher tentadora de cabelo escuro estava no lugar antes ocupado pela morena. Era ainda mais linda do que as outras, e Carbo sabia que a escolheria. No entanto, antes disso, tinha trabalho a fazer. Pediu um jarro de bebida, encontrou lugar no longo banco que se estendia por uma parede, que dava uma boa vista da porta e também da escada que levava ao andar de cima.

Olhares casuais lhe revelaram que os homens ao seu redor eram soldados. Carbo se sentiu tenso, porém, bebeu o vinho, disposto a conquistar a confiança necessária, e ouviu todas as palavras que conseguiu.

À sua esquerda, três oficiais jovens reclamavam sobre seu centurião.

— Ele só se importa com a organização — resmungou um deles, um tesserário de aparência jovem.

— Eu sei — concordou o signífero, que era cerca de uma década mais velho. — Essa merda tem hora e lugar, mas, quando estamos prestes a ter a luta de nossa vida, queremos nos concentrar em outras coisas.

— Entendo vocês, rapazes. — O optio era um homem alto com orelhas de abano. — Mas Bassus tem mais experiência do que vocês e eu podemos imaginar. Manter os homens concentrados em tarefas chatas, como conservar o kit brilhando, ajuda a não pensar em coisas mais preocupantes.

— Como em Spartacus e no maldito exército dele, você quer dizer — disse o tesserário.

— Exatamente.

— Espero, por Hades, que Longinus saiba o que está fazendo — murmurou o signífero. — Do contrário, estamos todos perdidos.

Carbo prestou mais atenção.

— Cale a boca — resmungou o optio. — Você sabe que não devemos falar sobre isso. — Ele olhou para os dois lados, e Carbo encheu o copo de novo.

“Fortuna, por favor, permita que eu ouça alguma coisa”, rezou Carbo.

Para sua decepção, os oficiais começaram a falar sobre as prostitutas em oferta. Carbo prestou atenção no grupo de legionários à sua direita, mas eles discutiam de quem era a vez de pedir a rodada seguinte. Parecia ser a vez de um soldado magro com cabelo castanho desgrenhado, apesar de ele negar, respondendo aos protestos e insultos de seus companheiros com um leve e divertido sorriso. O barulho causado pelos homens era tamanho que Carbo não conseguia ouvir o que as pessoas ao seu lado diziam. Ele queria encontrar outro ponto onde pudesse ouvir mais, porém sabia que seria estranho. Escolhera aquele lugar, agora precisaria ficar ali.

Chamou um atendente e pediu mais vinho e um prato de pão e queijo. A comida forraria seu estômago, para que a bebida não causasse grande estrago.

— Ora, ora, se não é nosso amigo do restaurante!

Carbo sentiu o coração parar quando olhou para a frente. Conseguiu sorrir.

— Você encontrou o local?

— Parece que sim — disse Felix, arrotando e sentando-se ao lado de Carbo.

— Onde está seu amigo? — perguntou Carbo.

— Gaius? Está pegando as bebidas. Sobrou para mim achar um assento. Pelos deuses, esse lugar está lotado! — Ele se inclinou na direção de Carbo, que sentiu seu hálito de vinho. — Seu amigo está passeando com as prostitutas?

— Sim.

Carbo olhou para a escada, que estava vazia. “Depressa, Navio!”

— Onde ele conseguiu o dinheiro?

Carbo pensou rápido.

— Reunimos o que tínhamos e fizemos apostas. Navio ganhou. Não foi uma quantia enorme, mas ele conseguiu convencer uma das mulheres. O cara tem lábia — mentiu ele, xingando baixinho por ter acabado com suas chances de transar, pelo menos enquanto Felix estivesse por perto. Agora, tinha que agir como se tivesse pouco dinheiro.

— Safado sortudo. Adoraria fazer o mesmo, mas dinheiro suficiente só aparece no dia do pagamento. Não que eu vá estar aqui da próxima vez que receber! — Ele fez uma careta para Carbo. — Uma luta importante vai acontecer.

— Eu sei. Tome um pouco do meu vinho enquanto espera.

Ele virou o resto de um copo usado que estava largado na mesa e o encheu até a boca.

— Tudo bem. — Felix tomou um gole demorado e estalou os lábios em sinal de satisfação. — Nada mal. Melhor do que o vinagre que estavam servindo no restaurante, não é?

— Não é difícil algo superar aquilo.

— É verdade. Meu nome é Felix. Qual é o seu?

— Carbo.

Eles assentiram um para o outro de modo simpático. “Isso é esquisito”, pensou Carbo. “Pode ser que eu tenha que matar esse homem nos próximos dias. Ou ele a mim.”

— Você parece bom para a luta. Por que não está nas legiões?

Ele deu de ombros.

— Vim de uma fazenda. Trabalhar a terra é o que sei fazer.

— Agricultura? Pode continuar. Chato demais para mim! Há coisas muito mais emocionantes no exército. — O rosto de Felix ficou mais sério. — Até surgirem os homens de Spartacus, claro.

— Longinus vai acabar com ele, não é?

— O procônsul não faz mágica! Ele só tem duas legiões. O trácio tem cinquenta mil homens. Temos muito pouco para o parâmetro de qualquer um.

Carbo fez uma careta forçada.

— É isso, então? Loginus será derrotado, como foram os cônsules?

Parecia que Felix não conseguia se conter.

— Apesar do que eu disse mais cedo, Longinus é um cara inteligente. Ele tem um plano. Que vai pegar aquele trácio filho da puta desprevenido.

— É? — perguntou Carbo, casualmente. Seu coração começou a bater forte.

Felix tocou a lateral do nariz.

— É só o básico.

— Claro. — Escondendo a fúria que sentia, Carbo se serviu de mais vinho.

— Você é um bom homem, Carbo, assim como eu. À sua saúde e à minha. À morte de Spartacus e à de todos os desgraçados que o seguem.

— Brindo a isso — murmurou Carbo.

Um vozerio na porta chamou a atenção deles. Um grupo de legionários com vestimenta de batalha completa havia entrado. Direcionados por um optio, eles estavam se separando em duplas e atravessando o salão, analisando os homens de todas as mesas.

Carbo sentiu o estômago revirar. “O que, em nome de Hades, eles querem?”

— É a maldita guarda — resmungou Felix.

— Por que eles estão aqui?

— Pelo motivo de sempre. Procurando soldados que estão fora sem permissão. — Ele viu o olhar confuso de Carbo e pegou uma pequena peça de madeira da bolsa. — Todos temos que ter isso para sair dos acampamentos. Quem é pego sem passa dez dias preso.

— Ah...

Contudo, o nervosismo de Carbo voltou assim que ele viu um legionário alto falando com o segurança na porta. Era o mesmo que estava do lado de fora quando ele foi ao fórum. Não devia ser coincidência. Carbo olhou para a escada. Ainda nem sinal de Navio. “Maldição!”

Um homem se aproximou deles.

— Gaius! Pensei que você havia se perdido. — Felix apontou Carbo. — Este é o cara que conhecemos mais cedo. O nome dele é Carbo.

Gaius rosnou desconfiado ao se sentar ao lado de Felix.

— Ei, vamos. Ele está dividindo o vinho dele comigo.

— Hum. Onde está o amigo dele?

— Trepando com uma das prostitutas.

Pelo canto do olho, Carbo viu dois legionários se aproximarem. O que fez seu coração quase saltar do peito, no entanto, foi ver o soldado alto passando entre as mesas lotadas, observando o rosto de cada homem. Em instantes, ele estaria diante deles. “Ele está me procurando.” Carbo estava prestes a se levantar quando um copo cheio de vinho foi colocado diante dele.

— Derrame isso na sua goela.

— Obrigado. — Carbo bebeu de uma vez.

— Pelas bolas de Júpiter, você está com sede! Tem certeza de que não quer fazer parte das legiões? Você se encaixaria muito bem.

Sorrindo, Felix encheu mais um copo.

Mais uma vez, Carbo tentou sair, porém seu prato de pão e queijo chegou. Manteve o atendente ali o máximo que pôde, demorando para encontrar as moedas certas e perguntando onde ficava o banheiro. Foi inútil, porque, assim que o atendente se foi, o legionário alto chegou.

— Está procurando no lugar errado, amigo — disse Felix, balançando sua permissão com truculência. — Todos temos um deste. Por que não volta para a sede da guarda e nos deixa em paz?

— Cale a sua boca, soldado.

Os olhos atentos não desviaram da rota pelos rostos nos bancos.

Carbo levou o copo de vinho à boca, torcendo para não ser reconhecido.

— Você. Olhe para mim.

“Merda.”

— Estou falando com você, rato de esgoto!

— Sai fora, idiota — disse Felix. — Ele é cidadão.

— Quero falar com ele.

— Por que não procura alguém do seu tamanho? — perguntou Felix, levantando-se.

— Não meta seu maldito nariz nisso.

— Ele é meu amigo, cretino. Deixe-o em paz.

Carbo percebeu que Felix se adiantou e empurrou o homem alto. O que ele deveria fazer?

— Seu maldito idiota! Estou de olho nele o dia todo. Ele e o amigo estão cheios de moedas de ouro. O que dois merdas estão fazendo com tanto dinheiro? Este ainda pediu para um escriba escrever uma carta a seus pais, dizendo que ele está partindo em uma longa jornada.

— É? — perguntou Felix de modo estúpido, olhando para Carbo, que morria de medo.

“O idiota deve ter visto Navio pegar um áureo e então passou a me seguir.” Ele não teve tempo para pensar em mais nada.

— São malditos espiões. Espiões de Spartacus.

Carbo se levantou. Jogou o vinho de seu copo na cara do legionário alto e em seguida virou a mesa entre eles. O soldado caiu, derrubando copos de outra mesa consigo. Olhando para o confuso Felix como se pedisse desculpa, Carbo correu em direção à escada. Não havia a menor chance de sair pela porta da frente, e ele não podia abandonar Navio.

— Peguem-no! É um espião!

Dois legionários apareceram na frente dele. Carbo saltou na mesa mais próxima, espalhando copos de vinho para todos os lados. Enquanto os homens ao redor das mesas gritavam de surpresa e raiva, ele pulou numa mais à frente e então voltou ao chão. Mais quatro passos, e ele estaria na escada. Alguém puxou a parte de trás de sua túnica. Carbo pegou a adaga, virou e acertou o soldado que o havia segurado. O sangue espirrou e seu atacante se afastou, gritando.

Carbo subiu a escada de dois em dois degraus. Olhou depressa para o salão abaixo, e seu coração bateu ainda mais depressa. Liderados pelo legionário alto, mais de dez soldados corriam atrás dele. Ele conseguiria entrar em um quarto à procura de Navio. Nada mais que isso.

Subiu os últimos degraus como um raio. À frente dele, o corredor tinha passagem para os dois lados. “Para qual lado? Esquerda.” Ele entrou ali, um corredor pouco iluminado por uma única lamparina a óleo. Cenas eróticas tinham sido pintadas nas paredes, mas Carbo não prestou atenção. Havia portas para os dois lados, pelo menos quatro delas. “Deuses, qual devo escolher?” Ouviu passos atrás dele. Fechou os olhos com força. “Fortuna, me ajude!” A primeira porta que Carbo viu quando abriu os olhos foi a segunda à esquerda. Ele se jogou contra ela com o ombro e a abriu, arrebentando-a.

Pelo menos uma vez, os deuses da sorte tinham atendido suas preces.

— O que... — gritou Navio, com as nádegas nuas entre as pernas da morena.

— Levante-se! Vamos! Eles nos descobriram!

— Eu...

O protesto de Navio foi interrompido quando este ouviu os homens subindo a escada. Saiu de cima da prostituta, que agora gritava, e pegou sua adaga.

Carbo olhou ao redor no quarto pequeno e se aproximou da abertura da janela.

— Venha!

Ele abriu as cortinas e, colocando a cabeça para fora, viu um telhado, parte do primeiro andar, pouco abaixo dali. Enfiou a adaga ensanguentada de novo na bainha. Passou uma perna pela abertura e se segurou na veneziana para passar a outra. Na mesma hora, pulou no telhado. Olhou para cima e ficou aliviado ao ver Navio de pernas nuas logo atrás dele. Com um baque, o amigo pousou ao seu lado, nu, porém segurando suas roupas. Carbo conteve a vontade de rir.

— Por qual caminho?

Gritos irados eram ouvidos vindos do quarto.

Carbo tentou pensar numa solução. Havia mais luz à esquerda, o que significava uma chance maior de ser a parte da frente da hospedaria. Não seria o melhor caminho.

— Por aqui!

Tomando o máximo de cuidado possível em uma superfície desigual no breu, ele correu pelo telhado. Ouviu um palavrão abafado atrás de si quando Navio bateu o dedo numa telha.

— Onde eles estão? — gritou alguém. — Peguem uma tocha!

Carbo tropeçou e quase caiu do telhado. A pouca luz foi suficiente para que ele visse um quintal, um carrinho e um tanque de água. “É o quintal da hospedaria.” Respirou fundo, pulou e caiu nas pedras. Meio sem fôlego, ele olhou para cima e não viu ninguém. “Graças aos deuses.” Navio pousou ao lado dele.

— O quê, por Hades, devemos fazer?

— Despistar esses desgraçados que estão bem atrás de nós! — sussurrou Carbo. — Caso contrário, estamos fritos.

Ao ver um espaço entre dois estábulos, ele se dirigiu para lá. Não fazia ideia aonde daria.

No fim, deram de cara com um monte de esterco, que estava protegido contra a parede.

Eles ouviram baques no quintal e perceberam que os legionários tinham chegado.

Não havia o que fazer. Segurando ao máximo a respiração, Carbo começou a escalar o monte de esterco. Em pouco tempo, ele estava afundado até os tornozelos e depois até os joelhos na massa fétida. Levado pelo desespero e pela respiração ofegante de Navio atrás dele, ele se esforçou até conseguir alcançar o topo do muro. Erguendo o corpo, deu uma rápida olhada para o que estava do outro lado antes de pular. Felizmente, não era longe do chão na viela estreita.

— Onde você está?

— Aqui, do outro lado — respondeu Carbo. — Se quiser viver, suba!

A cabeça de Navio apareceu, seguida por seu torso e uma perna.

— Estou coberto de merda.

— Esse é o menor de nossos problemas.

Navio se abaixou, e eles se agacharam por um momento, ouvindo com atenção. Gritos confusos vindos do quintal da hospedaria revelavam que a rota de fuga ainda não tinha sido descoberta — o que não duraria muito. Assim que alguém trouxesse luz, os legionários veriam as pegadas deles no monte de esterco. Eles tinham que agir e depressa. A viela onde estavam era formada pelos muros de duas construções grandes. “Quarteirões de casas simples ou grandes”, pensou Carbo.

— Que merda faremos agora? — perguntou Navio. — Eles espalharão os homens por todas as ruas ao redor da hospedaria. O primeiro que me vir vai saber quem sou.

Carbo percebeu o desespero na voz do amigo e tentou não se afetar. Desceu até a faixa de luz na saída da viela. Olhando para a direita e para a esquerda, soltou um suspiro. Dois grupos de legionários já estavam vindo dos dois lados. Alguns homens seguravam tochas, iluminando o caminho para seus companheiros espiarem todos os cantos.

Navio o encarou.

— Más notícias?

Carbo explicou o que tinha visto.

— O que fizemos para merecer isso?

— Pensamos com a cabeça de baixo e não com a de cima — respondeu Carbo.

— Você tem razão. Peço desculpa — murmurou Navio.

— Não é só sua culpa. Concordei com você.

— Ei! Por aqui! Acho que eles subiram por aqui — gritou alguém do outro lado do muro.

— Vamos matar o primeiro soldado — disse Carbo. — Vamos pegar sua espada e com sorte pegamos a do que vier depois. Pelo menos, morreremos como homens.

Navio assentiu.

Eles voltaram a subir a viela.

“Que jeito idiota de morrer”, pensou Carbo.

Então, para sua surpresa, uma porta na parede à sua esquerda se abriu. Um garoto com uma túnica lisa grande demais para o seu tamanho apareceu segurando um balde cheio de panos de cozinha.

A esperança encheu o peito de Carbo. Quando o escravo os viu e abriu a boca para gritar, Carbo a cobriu com a mão.

— Não dê um pio. Somos homens de Spartacus. Há legionários nos perseguindo. Pode nos ajudar?

— Me ajudem a subir, maldição! — gritou alguém do outro lado do muro. — Depressa!

O garoto olhou para o muro e para Carbo de novo.

— Morreremos se você não nos ajudar — sussurrou Carbo.

O garoto afastou a mão dele.

— Entrem.

Ele se embrenhou na escuridão de novo.

Carbo não raciocinou, apenas seguiu. Percebeu que Navio vinha atrás dele. O garoto passou e abriu a porta silenciosamente. Fez-se um clique quando ele escorregou a trava, e eles entraram e ficaram ali, no escuro, com a respiração ofegante. Escutando.

Baque.

— Já olhei.

— Consegue ver alguma coisa? — perguntou outra pessoa.

— Não há sinal dos malditos, não.

Um shhhiiii metálico foi ouvido quando uma espada foi puxada de sua bainha.

— Estou quase até a cintura de merda!

— Não me importo! Venha aqui!

Palavrões abafados e mais um baque.

O roçar da malha. Os passos de dois homens movendo-se com grande cuidado.

— Eles já estão longe.

— Você não tem como saber — disse o soldado que passou pelo muro primeiro. — Há uma porta aqui, vejam.

Carbo segurou a adaga com mais força.

— Está trancada por dentro — disse o segundo legionário de modo ácido. — Com certeza, eles seguiram para a rua. Um dos patrulhas vai pegá-los em breve.

— Esperamos que sim.

— Com o que você está preocupado? Eles não devem ter descoberto nada.

— De todo modo, não queremos que Spartacus saiba das nossas catapultas escondidas.

Carbo ouviu com o máximo de atenção.

O companheiro do soldado riu.

— Ele não vai saber. Os escravos seguirão pela estrada norte, nojentos como sempre, seguindo nossa isca. Levarão o maior susto quando forem atacados pelas balistas.

— Ah! E, ainda que alguns deles escapem para os Alpes, não serão bem-recebidos se seguirem para a Trácia — observou o primeiro homem, rindo. — Disseram que Marcus Lucullus acabou com as tropas trácias recentemente, tropas que lutavam com Mitrídates. De qualquer modo, agora ele está destruindo metade daquela área maldita.

As vozes dos legionários desapareceram conforme eles foram percorrendo a viela.

— Você ouviu isso? — sussurrou Carbo.

— Sim, incrível.

Eles ainda não estavam livres do perigo, porém Carbo não conseguia acreditar na sorte que tiveram.

Navio riu baixinho.

— Do que você está rindo?

— Alguns minutos atrás, eu estava trepando com a prostituta mais bonita que já vi. Agora, estou nu, coberto de merda e dentro de um depósito escuro, morrendo de frio. Mas não importa, por causa do que acabamos de escutar.

Carbo teve que morder a língua para não rir.

Apesar das notícias ruins sobre a Trácia, era bom estar vivo.