Spartacus: A Rebelião
Capítulo XV
Carbo sentiu-se extasiado quando Spartacus lhe contou sobre a chegada de Heracleo. Sua confiança no pirata valera a pena, e seu líder ficaria contente pelo sucesso dele na missão. Eles escapariam das legiões de Crassus! Carbo tinha conversado com Navio, Publipor e Arnax sobre isso por horas. Navio já tinha estado na Sicília e conhecia bem a terra.
— Spartacus tomou uma boa decisão — declarara Navio na primeira noite. — Os latifúndios ali são imensos. A maioria tem centenas de escravos. Alguns, milhares. Mas grande parte desses cativos são uns malditos... sabem como os escravos de terra são. Quando a notícia de que chegamos se espalhar, eles virão até nós aos milhares.
Publipor piscara.
— Mais homens para você treinar.
— Ótimo. Quanto mais soldados tivermos, mais legionários poderemos matar — dissera Navio.
Carbo se retraíra, contudo não dissera nada: ele sabia que o apetite insaciável do amigo pelo sangue de homens de sua raça se devia à angústia por ter perdido o pai e o irmão nas mãos das tropas de Pompei. Até onde Navio sabia, a guerra só terminaria quando o Senado pegasse fogo e Spartacus tivesse destruído a República. Era um sonho impossível, avaliou Carbo, mas fazia de Navio o soldado perfeito. Ele, por outro lado, era movido pela lealdade a Spartacus. Lutaria contra quem o trácio combatsse e o seguiria para qualquer lado, porque acreditava nele. E o adorava.
Foi por isso que, no amanhecer do quarto dia depois da partida de Heracleo, Carbo se sentiu desanimado. Não ocorrera nenhuma tempestade, nenhuma intempérie que pudesse ter tirado a birreme de seu curso. Não houvera embarcações romanas para afastá-los nem impedi-los de ancorarem. Heracleo deveria ter mudado de ideia, pensou Carbo com pesar. O pirata não voltaria. Mais tarde naquela manhã, não se surpreendeu ao ser chamado à barraca de Spartacus. Sem dúvida, o líder queria questioná-lo de novo sobre o que fora combinado, ou talvez até quisesse puni-lo.
Atheas e Taxacis o cumprimentaram de modo amigável, mas o rosto do trácio estava sério.
— Mandou me chamar? — perguntou Carbo.
— Mandei.
Carbo se remexeu.
— É sobre Heracleo?
— De certo modo, sim.
— Sinto muito — desculpou-se Carbo. — Eu não deveria ter confiado nele. É tudo minha culpa.
Spartacus pegou um saco de couro, que jogou para Carbo.
— Uma catapulta romana atirou isso acima das barragens mais cedo. Dê uma olhada.
Ao ver a mancha vermelha no fundo do saco, o estômago de Carbo se revirou. Deu uma espiada rápida e ficou assustado ao ver os traços paralisados de Heracleo, ainda retorcidos em uma expressão de terror. Revoltado, irado e um pouco aliviado, Carbo soltou o saco.
— Eu queria ter certeza. Você também acha que é Heracleo?
— Sim — respondeu Carbo. — Então, os romanos o pegaram?
— É claro que sim — respondeu o trácio num tom seco.
Carbo sentiu vontade de gritar aos céus.
— Como? Os navios dele não valiam a pena...
— Imagino que Heracleo partiu no mar e teve o azar de ser surpreendido na praia por uma patrulha romana. Talvez eles o interrogaram; talvez encontraram seu dinheiro. De qualquer modo, descobriram os planos dele. Por qual outro motivo o matariam e cortariam sua cabeça? Não consigo pensar numa maneira melhor de Crassus dizer “Foda-se, Spartacus”. Você consegue?
— Não — murmurou ele.
— Uma pena não termos conseguido matá-lo em Roma, não é? — O trácio cerrou o punho direito por um momento. — Mas o que passou, passou. Temos que enfrentar o presente, e o fato de que não iremos para a Sicília. Deve haver homens de todas as profissões em meu exército... menos construtores de barcos! Parece que uns tolos tentaram construir jangadas ontem, mas, depois que alguns deles se afogaram, o resto desistiu. Assim, só sobra uma opção, até onde sei. A menos que você tenha uma ótima ideia.
Carbo balançou a cabeça em negativa.
— Anime-se, homem! Não dependia de você — gritou Spartacus, com os olhos brilhando. — E você acha que um maldito muro vai nos conter? Vamos acabar com ele. Concentre sua raiva nisso.
A tristeza de Carbo diminuiu um pouco.
— Quando vamos atacar?
— Amanhã ou depois de amanhã. Não há motivo para esperar. Os grãos não durarão mais do que uma semana, talvez duas, no máximo. Em Rhegium há mais comida dentro dos muros, mas não temos como chegar lá.
— Tudo isso graças a você. — Gannicus entrou correndo com os citas logo atrás. — Não é à toa que a comida está quase acabando. Só perdemos tempo aqui.
— Então, você soube da notícia — disse Spartacus.
— Só um boato. — Gannicus olhou para o saco aos pés de Carbo. — Essa é a prova, certo?
— Sim, é o capitão pirata que concordou em arranjar os navios.
— Como ele foi capturado?
— Não fazemos ideia. Mas não importa agora — respondeu Spartacus. — Precisamos falar sobre como sairemos daqui.
— Isso mesmo! — gritou Gannicus.
— Onde está Castus?
— Ele não virá.
— Por que não?
— Está furioso. Disse que não confiaria em si mesmo se visse você.
Spartacus estreitou os olhos.
— Seria mais do feitio daquele lixo vir correndo aqui com uma espada em punho.
Gannicus não disse nada e o trácio não provocou mais.
— Acredito, então, que vocês dois seguirão sozinhos a partir de agora?
— Sem dúvida!
— Ajudarão a romper as defesas romanas?
— Depende. Qual é o seu plano?
— O espinhaço é o único lugar por onde poderemos passar. Em qualquer outro ponto, teríamos que lutar contra nove legiões para chegar ao outro lado.
Gannicus levou a mão ao bigode, refletindo.
“Seu maldito”, pensou Carbo. “Você e Castus têm o lucro de poder esperar enquanto os homens de Spartacus enfrentam todas as adversidades.”
— Trarei um comboio de meus melhores homens — anunciou Gannicus depois de uns minutos. — E só.
— Agradeço. — Spartacus sabia que estava gastando saliva, mas tinha que perguntar. — E Castus?
— Ele não ajudará.
— Ele teve medo de dizer isso na minha cara?
Gannicus deu de ombros.
— Não sei. Ele não está para brincadeiras hoje.
— Não está para brincadeiras? Nem eu! — vociferou Spartacus. — É melhor que ele esteja armado e preparado da próxima vez que nos encontrarmos. Mas, se estiver de mau humor, é melhor ficar bem longe de mim.
— Direi isso a ele — retrucou Gannicus com um sorriso irônico.
— Você sabe onde é o espinhaço em que as defesas romanas estão?
Ele assentiu.
— Leve seus homens para lá antes da meia-noite. O restante deve seguir ao amanhecer. Quando estes chegarem ao topo, tudo estará acabado de um jeito ou de outro.
— Qual é seu plano?
— Subiremos assim que escurecer. Faremos um assalto frontal pelo centro...
— Você viu as defesas?
— Claro que vi! — respondeu Spartacus.
— Medidas desesperadas em momentos de desespero.
— Acho bom você seguir mesmo o plano, caso contrário acabará em Hades mais depressa do que pensa.
— Você acha que é o único estrategista nesse exército?
A raiva de Spartacus aumentou. Não se importava mais se Gannicus lutaria ao seu lado ou não.
— Talvez não, mas com certeza sou o melhor! Você e Castus não saberiam cercar um exército de homens cegos!
— Que Hades leve você! Pode fazer tudo sozinho e, quando se ferrar, estaremos lá para terminar o trabalho por você. — Gannicus cuspiu e foi embora.
— Então, acabou o fingimento — murmurou Spartacus. Ainda que sua tarefa no dia seguinte tivesse se tornado mais pesada, o rompimento era um alívio. Ele ficaria melhor sem os dois desgraçados. Era uma pena em relação aos seguidores deles, mas não havia como evitar. “Com a ajuda do Grande Cavaleiro, vou substitui-los assim que sairmos daqui.”
O dia seguinte seria um inferno, avaliou Carbo, com o estômago revirado. Era fácil imaginar o derramamento de sangue que haveria na tentativa de escalar um muro protegido por milhares de legionários armados com lanças e catapultas.
— Está pronto para isso?
Carbo olhou nos olhos de Spartacus.
— Sim — respondeu, calmo. Entre a chance de sobreviver e a certeza da morte, ele escolheria a primeira.
— Ótimo. Trinta e cinco comboios marcharão comigo hoje.
— E Ariadne e Maron?
— Você deve ficar aqui, com sua unidade.
— Não compreendo.
— Como antes, quero que você os proteja.
Carbo sentiu uma mistura de alívio e culpa.
— Mas eu...
— Isso é tão importante quanto estar na primeira fila durante o ataque — disse Spartacus baixinho. — Por favor.
Carbo engoliu em seco. Como poderia dizer não?
— Tudo bem.
— Quando atravessarmos e for seguro, enviarei um mensageiro. O resto do exército poderá marchar sob o comando de Egbeo. Vamos nos encontrar no lado mais distante do muro romano.
— Muito bem. — Carbo ficou feliz ao ver que sua voz parecia firme.
— Marcharemos ao entardecer, a partir do lado leste do acampamento. Diga a Navio para ficar de prontidão. — Spartacus lhe deu as costas.
Carbo estava prestes a se afastar quando se lembrou da cabeça de Heracleo.
— Posso levar isso? — perguntou, levantando o saco. — O pobre desgraçado merece ser enterrado, pelo menos por ter cumprido sua parte no acordo.
— Faça como quiser.
Carbo se afastou com seu troféu horrendo.
Ariadne acordou quando Spartacus voltou da barraca. Esgotada por ter passado a noite toda cuidando de Maron, ela dormiu a maior parte da manhã e perdeu a conversa de Spartacus com Carbo e Gannicus. A expressão séria do marido foi um balde de água fria para ela.
— O que foi?
— Os piratas não virão. — Ele a olhou em silêncio. Sem emoção.
Ariadne se sentiu enjoada. Perguntou-se de novo se deveria ter partido e se odiou por isso.
— Então, estamos presos?
— Presos? — Ele riu. — Estamos presos como um porco do mato em uma rede velha e puída.
Ariadne não vira as fortificações romanas no espinhaço, mas ouvira notícias a respeito.
— Muitos homens morrerão.
— Sim — retrucou Spartacus —, mas, em nome do Cavaleiro, isso não nos impedirá de atravessar. Nada nem ninguém vai nos impedir. E quanto a Castus e a Gannicus... que se fodam!
— Eles não vão ajudar?
Ele balançou a cabeça com raiva.
O coração de Ariadne se acelerou.
— Eles estiveram aqui?
— Gannicus, sim. Castus não teve coragem de vir me dizer o que pretendia fazer.
“Ele devia estar com muito medo de que eu tivesse lhe contado o que aconteceu”, pensou ela com alívio. Ariadne conhecia Spartacus muito bem. Se ele tivesse descoberto, nada o teria impedido de matar Castus. Ela adoraria ver o gaulês sangrando até a morte diante de sua barraca, mas a situação deles já era precária o bastante sem que provocassem os deuses ainda mais. Por algum motivo, Castus não deveria ser punido naquele momento.
Ariadne respirou fundo.
— Para onde iremos?
— Para o norte. — Ela o encarou com o rosto inexpressivo. — Estava pensando em Sâmnio, a leste de Cápua. As pessoas dali não têm amor por Roma. As fazendas são ricas também. Haverá muitos grãos para pegarmos.
— Crassus vai nos seguir.
— Sim, mas o filho da puta não consegue marchar tão rápido quanto nós. Quando ele nos alcançar, teremos milhares de novos recrutas. — Ele abriu um sorriso confiante e a beijou. — Eu começaria a espalhar a notícia. Há muito a ser organizado até a noite.
Disfarçando a preocupação da melhor maneira que pôde, Ariadne assentiu. Decidiu ficar ao lado de Spartacus e manter-se firme. “Grande Dionísio”, rezou ela, “cuide de todos nós.” Depois do modo como a serpente a havia salvado, a crença de Ariadne era ainda mais forte. Sentiu-se determinada. A morte de Heracleo não passara de um contratempo. Eles venceriam hoje e fugiriam do bloqueio de Crassus.
Zeuxis foi o primeiro a ver Marcion se aproximar da barraca deles com Arphocras logo atrás.
— Ei! Seus fodidos, vocês deveriam estar cozinhando! Já está quase na hora do jantar e ainda nem começaram.
Os outros murmuraram em acordo. Marcion olhou os companheiros ao se aproximar. Eles estavam ao redor da fogueira, cutucando as unhas com as adagas ou fingindo esfregar manchas de ferrugem de suas malhas. Ele não se surpreendeu. Desde que a esperança de navegar para a Sicília morrera, a moral de seus companheiros fora abalada, como a de todo mundo no exército. O mau humor havia aumentado desde que a ordem fora dada, havia menos de duas horas, de que o comboio deveria participar de um ataque às defesas romanas no espinhaço. Com o estresse aumentando, a rotina, sobretudo a das refeições, não deveria ser perturbada. “Espero que isso os anime.”
— Onde você esteve, em nome de Hades? — quis saber Zeuxis.
Marcion tirou o saco do ombro direito com um suspiro de satisfação.
— Assim é melhor.
— Engraçadinho, não? — queixou-se Zeuxis. — Vou arrancar esse sorriso do seu rosto se nosso jantar não ficar pronto na hora certa. Aposto que os outros rapazes também me ajudarão, certo?
— Com certeza! — rosnou Gaius. — Um homem precisa comer antes da batalha. Maldito seja o cozinheiro que não oferece uma... — ele abafou a palavra “última” com uma tosse abafada — refeição para seu contubérnio. — Um silêncio pesado se fez depois do que dissera.
— Pode ser que tenha só uma merda de mingau para comermos, mas queremos que ele esteja quente, e queremos agora. Depressa com isso! — completou Zeuxis.
Arphocras, que havia soltado o saco que carregava, jogou-o nas costas de novo com um movimento rápido. Ele se virou como se pretendesse se afastar.
— Muito fácil concluir que estamos enrolando, não é? — Olhou para Marcion. — Acho que devíamos guardar essa gororoba para nós. O que acham?
— Acho que você está certo. Vai durar pelo menos uma semana.
— Acalmem-se — pediu Zeuxis, de repente disposto. — O que vocês têm aí?
— Nada demais — respondeu Marcion. Todo mundo o encarava, enquanto ele procurava algo na bolsa. Com um floreio, ele pegou uma peça inteira de presunto. — Só isso.
O espanto que se fez era evidente. Viu-se o olhar invejoso de soldados de outras barracas. Gaius assoviou.
— Pelos deuses, onde você encontrou isso?
Marcion não respondeu. Só olhou para Arphocras, que pegou uma peça grande e redonda de queijo. Ele o segurou contra o corpo para que os soldados das outras barracas não vissem o que ele tinha na mão.
— Não há razão para irritar ainda mais nossos vizinhos— disse ele sorrindo.
— O que mais vocês têm? — perguntou Zeuxis com interesse, deixando de lado o mau humor.
— Um pote de garum e outro de azeitonas — respondeu Arphocras. — E Marcion tem um jarro de vinho.
— Vocês são dois mágicos — elogiou Gaius, sorrindo de orelha a orelha.
— Isso mesmo — concordou Zeuxis com um raro sorriso. Ele limpou a adaga. — Vão nos deixar morrer de fome olhando para toda essa comida?
Zeuxis não lhes havia agradecido, mas a melhora do humor dos companheiros era tão óbvia que Marcion não se importou. Ele pegou o vinho e colocou o presunto sobre o saco.
— Podem comer.
Todos entraram em ação. Em pouco tempo, os únicos sons ouvidos eram os de mastigação e de apreciação. O estômago de Marcion roncou, lembrando-o de que não comia havia horas. Mas não se importou. Tinha comida suficiente para todos. A vida ainda era boa, pensou ele. Amanhã seria outro dia.
A conversa parou enquanto oito soldados devoravam os alimentos trazidos por Marcion e Gaius. Não demorou muito para que a maior parte acabasse. Suspiros e arrotos de satisfação tomaram conta do ambiente, e os soldados aparentavam estar satisfeitos como havia muito não se sentiam.
Zeuxis fez um meneio de cabeça simpático a Marcion e Arphocras.
— Agradeço por isso. Podem preparar o jantar amanhã de novo, se quiser!
— Não pense que eu não sei que é sua vez de cozinhar amanhã, Zeuxis! — rebateu Marcion, causando risos nos companheiros.
— Certo, acabe com nosso sofrimento — pediu Gaius. — Onde conseguiram a comida?
Gaius olhou ao redor e ficou muito feliz ao perceber o interesse intenso no rosto dos companheiros.
— Estávamos vindo cozinhar quando vi uma patrulha voltando às suas barracas. Eles pareciam felizes, por isso permanecemos ali por um tempo para ver o porquê. Ficou óbvio que eles tinham encontrado uma fazenda que não tinha sido atacada antes e a saquearam. Naturalmente, o oficial deles pegou grande parte do espólio para si. Ele mandou seus homens colocarem as coisas na barraca dele enquanto ia relatar aos outros o que tinha visto.
— Ele deve ter deixado um guarda, não? — questionou Zeuxis num tom incrédulo.
— Deixou — respondeu Marcion com um sorriso. — Dois deles. Na frente de sua barraca.
Os companheiros se entreolharam animados.
— Arphocras ficou de guarda enquanto fiz um corte nos fundos e peguei tudo o que consegui carregar.
— Por Hades, que bom que você não foi pego — disse Zeuxis, assoviando. — Você seria morto!
— Olhe o que nós fazemos por vocês, seus miseráveis... — queixou-se Marcion. — Nada é bom o suficiente!
Enquanto riam e cortavam o silêncio da noite, quase puderam esquecer que no próximo amanhecer, eles enfrentariam a morte de novo. Quase, mas não por completo.
No pôr do sol do dia seguinte, Spartacus sofreu sua primeira derrota. Das 35 coortes que levou ao espinhaço, restaram apenas cinco mil sobreviventes. Mais do que o dobro desse número fora deixado sangrando, gritando e agonizando nas armadilhas letais representadas pelas defesas romanas.
O trácio percebeu que subestimara a capacidade do inimigo de construir fortificações e de defendê-las com determinação obstinada. Depois de organizar os últimos de seus homens, ele os afastou da carnificina, da lama vermelha e do chão repleto de corpos mutilados e de armas descartadas. O ar fedia a sangue, urina e fezes, e isso deixava um gosto amargo em sua boca. Os soldados romanos que os seguiam pelas árvores também. Uma última pedra foi lançada da balista, caindo na terra um pouco distante da retaguarda deles, não com o propósito de matar, mas para lhes lembrar a magnitude da derrota. Os rebeldes tinham perdido mais de dois terços de sua força, enquanto os romanos haviam sofrido não mais do que cem baixas.
Spartacus pigarreou e cuspiu na direção da pedra. O que, em nome do Cavaleiro, tinha dado errado? A marcha até o espinhaço ocorrera sem grandes incidentes, e o dia em si começara bem. Seus soldados estavam muito animados, rindo, fazendo brincadeiras e gabando-se sobre quantos legionários cada um mataria. Ao observá-los, ele sentiu muito orgulho e teve a certeza de que podiam vencer qualquer inimigo. Contudo, a realidade da luta foi muito diferente. Avaliando em retrospecto, as defesas romanas lhe lembravam o modo como os pescadores pegam uma quantidade enorme de atum — colocando sistemas complexos de redes no caminho da migração dos peixes. Pensar nisso fez com que ele parasse. Uma armadilha. Tinha sido uma armadilha. Crassus sabia que ele faria tal ataque. Sem dúvida, fora informado pelo mesmo espião que conseguiu frustrar a tentativa de assassinato do general.
Ele praguejou. Por que não previu que sua tática poderia ser descoberta? A resposta era simples. Ele só tinha visto uma saída, uma estrada ao norte, longe das dez legiões de Crassus. Deixou que seu desejo por aquele prêmio fizesse com que ele ignorasse os perigos das defesas romanas. Suas tropas seguiram seus desejos. Apesar de terem sofrido muitas perdas durante o primeiro ataque, eles não se opuseram quando receberam a ordem de avançar uma segunda vez. Houve menos gritos, menos entusiasmo, mas eles se lançaram no caminho de outro ataque inimigo. Spartacus já tinha visto o efeito de tamanho ataque concentrado quando lutou como auxiliar romano, mas nunca do lado do derrotado. Era impossível culpar seus soldados por fugirem. Só um maluco ou um deus continuaria marchando enquanto os companheiros eram mortos às centenas. Spartacus não fugiu, mas recuou. Não tinha opção. Alguns homens ficaram com ele; se ele não tivesse recuado, todos teriam sido mortos, e isso não favoreceria ninguém que não Crassus.
A mente de Spartacus estava tomada por imagens chocantes. Um soldado atingido por um tipo de catapulta na cabeça, que acabou arrebentada como uma fruta madura. Os homens a uma distância de dez passos ficaram cobertos por sangue e massa cefálica. Uma lança que acertou um soldado logo acima de sua cota de malha, fincando-se profundamente em sua cavidade peitoral. Espirrando sangue pela boca e gritando como um porco, o homem derrubou dois companheiros até alguém colocar fim ao seu sofrimento. Spartacus ainda podia ouvir o som de tiros batendo contra os escudos e os gritos dos soldados que sofriam com um osso quebrado na face. Ainda podia ver a expressão assustada no rosto do homem cujo olho — e, depois dele, o cérebro — foi atingido por um pedaço de aço do tamanho de um ovo. Reconheceu o infeliz como sendo um dos homens que conversavam dentro de uma barraca quando voltou de Roma, porém não se lembrava de seu nome.
Os romanos posicionaram muito bem suas catapultas, usando marcadores no chão para mostrar aos soldados onde mirar. Spartacus se espantou com a quantidade de peças de artilharia. Centenas de escravos deveriam ter sofrido muito para transportar as armas pesadas da costa até ali. A presença destas provava que Crassus não era apenas um político esperto. Era também um general sagaz. Saber disso deixou o trácio ainda mais receoso de tentar derrubar as defesas romanas no terreno plano perto do mar. Suas tropas podiam atravessar o bloqueio, mas ele duvidava que elas conseguiriam derrotar as nove legiões. Não sem pelo menos a ajuda dos soldados de Castus e Gannicus.
Spartacus trincou a mandíbula, frustrado. Teria sido melhor desfazer a parceria com os gauleses no último instante. Analisou as opções. Era pouco provável que os dois aceitassem uma nova abordagem. “Por que tentar?”, pensou ele com raiva, lembrando-se do atentado contra sua vida. Uma raiva antiga tomou conta dele de novo. “Que se fodam os dois! Farei isso sozinho.”
“Onde?”, pensou. Sua intuição logo deu a resposta: o espinhaço. Tinha que ser ali. Porém, se eles fracassassem mais uma vez, Crassus venceria a guerra. Sua fúria aumentou. Não deixaria isso acontecer. Contudo, não havia por que esperar. A cada dia que se passava, a moral de suas tropas caía ainda mais, e a chance de escapar diminuía. Já estavam sofrendo deserções — Carbo vira os homens partindo. O exército ficaria melhor sem aqueles covardes, avaliou Spartacus com raiva. Entretanto, ele precisava agir depressa, ou seu contingente diminuiria cada vez mais. E isso aconteceria antes de o maldito Pompei chegar da Ibéria. Ele não queria acreditar nos insultos que ouviria ao recuar, mas as vozes dos legionários estavam tão animadas que ele suspeitava de que era verdade: o Senado deveria ter ficado impaciente com Crassus. Pompei era o general que colocaria fim à rebelião de Sertorius. Antes disso, ele desempenhara um papel fundamental na guerra de Sulla para tomar o controle da República. Será que o azar do trácio nunca terminaria? Pompei era um tático capaz e suas legiões estavam endurecidas pelas batalhas. De acordo com Navio, ele tinha pelo menos seis delas. Spartacus ficou mais sério ao pensar em 16 legiões indo a campo contra seus homens.
Ao chegar no acampamento, foi conversar com Ariadne. Ela se assustou quando ele entrou na barraca. Surpreso, Spartacus olhou para os prórpios braços e para a cota de malha, que estavam manchados de sangue. Achou que seu rosto deveria estar sujo também.
— Está tudo bem, não estou ferido.
Ela correu até ele.
— Os homens estão dizendo que você foi lançado para longe do muro romano. Que milhares de nossos soldados foram mortos. É verdade?
Assentindo com seriedade, ele lhe contou o que ocorreu.
“Seria esse o começo do fim?”, perguntou-se Ariadne.
— O que você vai fazer agora?
— Vou andar de barraca em barraca, de acampamento em acampamento. Conversar com os homens. Fazer com que entendam que não podemos falhar amanhã.
— Você vai atacar logo?
— Sim. Tenho que atacar. — Ele percebeu a confusão no rosto dela. — Os romanos sabiam que íamos atacar. O espião deve ter contado a eles. Agir amanhã é a melhor maneira de impedir outra matança como a de hoje. E também há outros motivos pelos quais tenho que agir agora. Alguns homens já estão abandonando o exército. Mais alguns dias e a comida começará a acabar. Imagine o que acontecerá com o moral quando isso acontecer. — Ele tocou o rosto dela, e ficou feliz por Ariadne não se retrair ao sentir a pele grossa de seus dedos.
— E o espião?
Ele deu de ombros.
— Uma agulha em um palheiro enorme. Manteremos os olhos e os ouvidos abertos. Falaremos apenas com quem precisa saber sobre as decisões importantes.
— É tão frustrante. Gostaria que você pudesse fazer mais do que isso.
Ele deu de ombros de novo.
— Estou pensando em enviar uma mensagem a Crassus.
— Para dizer o quê?
— Para lhe pedir que me aceite em seu fides.
Ela o encarou como se Spartacus estivesse maluco.
— É a mesma coisa que se entregar! Por que pediria a Crassus para ser subordinado dele?
— Primeiro, isso o forçaria a me reconhecer como seu semelhante. Segundo, ele poderia se tornar meu aliado contra Pompei. Ele deve estar lívido diante da ideia de ver aquele caçador de glórias roubar seu poder. Imagine a força de seu exército se meus soldados fossem incorporados aos dele!
— Crassus nunca concordaria com algo assim. — O riso de Ariadne foi estridente. — Ele não deixaria nossos soldados partirem livres. Para ele, são apenas escravos!
— Eu sei, porém isso lhe mostraria, do modo mais incerto, que eu não o considero meu superior. Ele também detestaria que eu soubesse da irritação dele por Pompei ter sido chamado para o partido. Enfurecê-lo desse modo só pode ser algo bom.
— Eu preferiria fincar uma adaga entre as costelas do filho da puta. — Spartacus sorriu. Ele sempre adorou a atitude dela. — Quem você mandará?
— Um prisioneiro.
— Uma pena não podermos mandar um homem que pudesse matar Crassus.
— Ele nunca se aproximaria o bastante.
— E Carbo? Ele é romano. Poderia fingir ter desertado; poderia fingir ter uma informação útil para Crassus.
Ele a encarou com repreensão.
— Seria como lhe pedir para cometer suicídio. Ainda que eu estivesse preparado para pedir, o que não estou, Carbo tem outra tarefa, muito mais importante.
Ariadne estava prestes a perguntar quando se lembrou de ter arrancado a verdade de Atheas durante a batalha contra Lentulus. Sentiu vergonha por ter pedido a Spartacus para mandar Carbo, o mais leal de seus homens, para que morresse, sendo que a missão deste era proteger a ela e a Maron se as coisas dessem errado. Em seguida, ela ficou irada por pensar em desdobramentos tão ruins.
— Você precisa comer alguma coisa — disse ela, mudando de assunto. — E se limpar.
— Mais tarde.
— Parece exausto, por que não se deita? Até mesmo uma hora de sono ajudaria.
O sorriso dele estava tenso.
— Posso descansar quando morrer.
Os medos de Ariadne voltaram. Ela o abraçou com força.
— Não diga coisas assim — sussurrou ela. — Isso não vai acontecer.
Ele a abraçou forte.
— Ainda não! O Cavaleiro estava do meu lado hoje. Estará comigo amanhã também, quando eu me vingar.
Ariadne achou a fúria nos olhos dele muito assustadora. Quase fez com que ela se esquecesse de suas preocupações com a segurança dele.
— Pedirei ajuda a Dionísio.
O sorriso dele se alargou.
— Obrigado. Vamos precisar.
Spartacus estava mais cansado do que nunca. Seus músculos estavam doloridos, suas articulações estalavam com cada movimento, e ele sentia uma dor de cabeça pior do que qualquer ressaca. Ele passou metade da noite andando pelo acampamento, elogiando, conversando, injetando energia renovada em seus homens. Bebeu vinho com alguns, discutiu com outros e até brigou com alguns. Gritou, incentivou e ameaçou. Alertou os soldados sobre o que podiam esperar se não rompessem o bloqueio romano. Prometeu que lhes lideraria, como sempre, pela frente. Nada, absolutamente nada, o impediria de abrir caminho para seu exército. Eles — até mesmo os soldados que enfrentaram o inimigo no espinhaço, feridos e sangrando — gritaram até ficarem roucos. Foi para a cama satisfeito, sabendo que não havia mais nada a fazer. Ariadne estava acordada, mas o trácio não teve vontade de conversar. Depois de algumas horas de descanso, ele se levantaria de novo. Seriam pelo menos três horas de marcha até o muro romano, e ele queria que suas tropas estivessem organizadas antes do amanhecer. Havia muito a fazer antes do ataque. Despediu-se da mulher com um beijo e conversou com Egbeo e Carbo — ordenando que eles tomassem a retaguarda com sua esposa e seu filho. Depois partiu para encontrar seus oficiais seniores.
Pelo menos cinco horas tinham se passado desde então. Spartacus não costumava gostar de neblina, pois dificultava a visão do caminho e tornava a marcha muito mais penosa e a batalha, quase impossível. Mas o cobertor acinzentado que caiu sobre os montes íngremes enquanto o exército seguia em direção ao espinhaço foi uma bênção. Abafou o som do avanço e deu boa cobertura para que seus soldados se aproximassem do fosso romano com cargas de madeira. A névoa também encobriu a visão dos corpos dos soldados mortos na batalha anterior, fazendo com que os soldados de agora não tivessem a visão completa e terrível do campo de batalha. Para tentar aliviar ainda mais o horror, Spartacus ordenou que não olhassem para os lados enquanto marchavam.
Ele havia escolhido cinco pontos no muro como foco para o ataque. Em cada ponto, a trincheira deveria ser tomada, se possível, numa extensão de cem passos, para que uma coorte inteira tivesse espaço para atacar. Era inevitável que o som da aproximação deles alertasse os sentinelas inimigos: perto da base do muro, Spartacus ouviu as exclamações de susto, o chamado a um oficial e os desafios gritados. Como proteção contra o ataque de lanças, ele ordenara para que duas fileiras de soldados se postassem diante do fosso, com os escudos erguidos um sobre o outro. Os homens que tinham a tarefa de se aproximar com madeira se expunham no último minuto, quando lançavam suas cargas nas trincheiras.
Sua tática deu certo: depois que os oficiais romanos pediram várias saraivadas de lanças, apenas alguns dos homens de Spartacus foram feridos e nenhum morreu. Incentivado por tal sucesso, ele mandou que as mulas fossem levadas para a frente. Como suspeitou, os fossos não foram cheios nem pela metade com a madeira. Os gritos dos animais mais uma vez fizeram os inimigos confusos saírem correndo na muralha. Mais uma saraivada de lanças atingiu os escudos da primeira fileira, e depois algumas pedras foram lançadas das catapultas sobre o muro. Uma delas matou dois homens e uma mula. Entretanto, por causa da névoa, os romanos não conseguiam ver quase nada. Os oficiais inimigos tomaram a sensata decisão de poupar munição, o que permitiu aos rebeldes continuar com o processo de levar as mulas para a frente e matá-las. Os corpos dos animais nivelaram o chão em três dos pontos de ataque. Contudo, ainda havia uma diferença significativa no nível da terra nos últimos dois.
Spartacus não hesitou. A névoa começava a se dissipar. O amanhecer estava próximo. Ordenou que os soldados com escudos recuassem e que os prisioneiros fossem levados às duas fossas que ainda precisavam ser preenchidas. Poderiam ter usado os corpos de seus mortos do dia anterior, mas teria sido péssimo para o moral. Além disso, o trácio tinha um plano melhor.
Os homens correram para cumprir a ordem. Spartacus os observou. Nunca se interessou em fazer cativos, pois estes precisavam ser vigiados, alimentados e cuidados o tempo todo. Porém, de vez em quando, alguns eram feitos prisioneiros. Era o que tinha acontecido uma semana antes, quando uma patrulha romana enviada ao muro para atacar suas forças caíra em uma emboscada armada por Pulcher. Mais de cem legionários se entregaram. Por capricho, Spartacus tinha ordenado que as vidas deles fossem poupadas. Agora sentia-se contente por ter tomado tal decisão.
Não demorou muito para que a primeira fileira de vinte aparecesse, surgindo da névoa como uma fila de fantasmas. Doze soldados acompanhavam todos os movimentos dos cativos. Os punhos dos prisioneiros estavam amarrados atrás das costas, e uma corda comprida atada por um dos oficiais de Spartacus prendia cada um deles pelo pescoço. Muitos dos romanos tinham cortes e hematomas nos rostos, nos braços e nas pernas devido às quedas que sofreram durante a subida assustadora ao espinhaço. Eles pareciam aterrorizados. Não faziam ideia de onde estavam, mas não podia ser boa coisa. Spartacus não se deu ao trabalho de falar com eles. Para ele, eram tão descartáveis quanto as mulas.
— Alinhe-os diante do fosso.
Ao perceber o que lhes aguardava, os legionários começaram a implorar por sua vida.
Os homens de Spartacus ignoraram as súplicas. Com os punhos e as pontas das espadas, eles levaram os prisioneiros adiante.
Uma rajada de vento repentina deslocou um pouco a névoa, permitindo que os romanos vissem seus companheiros. Gritos de angústia foram ouvidos, porém, antes que os legionários pudessem reagir, a nuvem desceu mais uma vez. Spartacus e seus homens foram xingados, contudo não havia nada que os defensores pudessem fazer. Spartacus esboçou um sorriso. Além de enfurecer os homens na muralha, as execuções poriam medo no coração deles.
— Matem todos eles!
O chão, que já estava ensopado pelo sangue das mulas, foi encharcado de novo. Com esmero e selvageria, os soldados do trácio foram matando os cativos, que gritavam de medo. Alguns murmuravam preces aos seus deuses, e poucos praguejavam contra seus executores. Não fazia diferença. Com sons assustadores, os gládios cortavam a carne deles e ficavam com a lâmina vermelha depois de abrir peitos e barrigas. Alguns golpes bastavam para infligir ferimentos mortais. Os soldados de Spartacus puxaram as armas dos corpos atingidos e atacaram os últimos prisioneiros. Os romanos caíam de dois ou três no fosso, onde se debatiam e gemiam enquanto sangravam até o fim. Acabou depressa.
— Tragam o próximo lote! — ordenou o trácio.
— Spartacus, seu maldito — gritou alguém da muralha. — Pelos deuses, você sofrerá mil mortes pelo que está fazendo.
Gritos de concordância foram ouvidos.
— Vá foder sua mãe, se você tiver uma! — vociferou Spartacus. — Pelo menos, estamos dando a eles um fim breve.
Seus soldados berraram e comemoraram.
— É algo que você não terá ou meu nome não é Quintus Servillius Caepio!
Um alarme soou na mente de Spartacus.
— O que está fazendo aqui, velho?
— Nada demais. Polindo minha espada. Verificando se a legião que guiei até aqui ontem à noite está pronta para repelir seu ataque.
O coração de Spartacus bateu forte no peito. Será que o espião havia mandado notícias a Crassus ou Caepio estava apenas tentando assustar suas tropas? Ele observou os homens mais próximos e ficou irado ao ver os primeiros indícios de pânico em seus olhos.
— Você está mentindo, Caepio! Sei que está.
— Estou? Por que não sobe aqui e vê o que espera por vocês? — respondeu o centurião.
— Faremos isso. Depois que os fossos forem nivelados — anunciou o trácio em voz alta. O próximo grupo de prisioneiros apareceu. — Matem todos eles, depressa! — Ele caminhou até o segundo fosso, verificando se este também estava sendo preenchido, e avaliando o humor de seus soldados. Ficou furioso ao ver que as palavras de Caepio também os haviam afetado. Seu plano foi posto em prática: ordenou que um homem do último grupo de prisioneiros fosse poupado. O cativo final, tremendo de medo, foi forçado pelos citas a andar com Spartacus enquanto este voltava para a primeira de suas coortes, que aguardava a cerca de duzentos passos do muro — no limite externo do alcance das catapultas. Eles permaneceram em silêncio, três coortes de extensão, com seus centuriões nas fileiras da frente. Atrás deles, os soldados próximos uns dos outros se estendiam por mais de um quilômetro. Ele teria feito com que se espalhassem mais, porém, as árvores não permitiram.
A distância não tinha sido suficiente para abafar a voz de Caepio, notou Spartacus, contrariado. As coortes da frente também ouviram o que ele dissera. Ninguém bradava seu nome, ninguém batia as armas nos escudos. Aqueles que seguravam escadas pareciam mais desanimados. Poucos soldados olharam em seus olhos. Os oficiais que ele viu estavam de cenho franzido ou reprimindo seus homens.
A decisão firme tomou conta dele. Era hora de melhorar o moral das tropas com uma demonstração firme do que todos eles podiam esperar. Se não fizesse isso, o ataque estaria fadado ao fracasso antes mesmo de começar. Empunhou a sica e caminhou ao longo das coortes. Atheas e Taxacis o acompanharam, empurrando o prisioneiro que seguia diante deles.
— Qual é o meu nome? — gritou Spartacus.
— SPAR-TA-CUS! — gritou uma voz que ele reconheceu.
Assentiu brevemente a Marcion.
— Isso mesmo. Quero ouvir de novo!
— SPAR-TA-CUS! — Muitos outros homens se uniram a Marcion dessa vez.
Ele continuou caminhando, empunhando a espada em direção ao céu cinzento.
— De novo!
— SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS!
— Assim é melhor. — Lançou um sorriso contido aos soldados mais próximos. E seguiu de um lado para o outro até todas as coortes o virem. Voltou ao centro da linha. — Tragam a cruz! Agora!
Os homens se assustaram e olharam para ele, e o rosto do prisioneiro empalideceu de medo.
Ordens foram dadas; liderados por um oficial, seis soldados — entre eles, Marcion e Zeuxis — deixaram suas posições e correram para o lado. Voltaram logo. Marcion e dois companheiros levavam duas madeiras compridas e entalhadas que foram preparadas na noite anterior. O pedaço mais comprido tinha um gancho de ferro preso em uma ponta. Os outros levavam malhos, um conjunto de bases de madeira, cordas e sacos de pregos.
— Coloque-a a trinta passos — ordenou Spartacus. — Andem logo!
Seus homens se apressaram e chegaram a um ponto à frente dele. Amarrando várias cordas ao mais comprido dos dois pedaços de madeira, eles o colocaram de pé. As peças que serviam como degraus foram posicionadas próximas uma das outras, e dois soldados começaram a martelar a madeira no chão. Tum. Tum. Tum.
A boca do legionário se mexia, porém não emitia som, num terror silencioso.
Em pouco tempo, a peça vertical foi fincada numa profundidade comparada à do braço de um homem.
Spartacus fez um gesto ao prisioneiro.
— Tire as roupas dele. Levem-no e façam a crucificação.
— Sou um cidadão! Por favor! Vocês não podem fazer isso comigo! — gritou o romano enquanto sua túnica e as demais roupas eram arrancadas.
— Bobagem! Você é idêntico a todos os homens aqui! — vociferou Spartacus, com gotículas de saliva saindo dos lábios. — Você come, bebe, respira, dorme e caga como todos nós. Esse castigo não é diferente do que aquele que vocês aplicariam a nós. — Ele observou o rosto de seus homens. — Vocês estão me ouvindo? Isso é o que podem esperar se não invadirem a fortificação hoje.
Berrando a plenos pulmões, o legionário foi carregado até a cruz e forçado a apoiar o corpo no que seria a base desta. Um soldado se ajoelhou sobre um de seus braços, segurando-o para que seus pulsos e mãos fossem expostos. O oficial responsável olhou para Spartacus.
— Vamos logo!
Com a ordem dada, Zeuxis encostou um prego de ferro comprido no ponto onde os ossos do braço direito do legionário se encontravam com os do pulso. O prisioneiro começou a tagarelar sem parar com medo, rezando para todos os deuses do panteão. Zeuxis ergueu o malho e, sem hesitação, desceu-o com toda a força.
— Isso é por Gaius — disse ele. Um grito de dor indescritível cortou o ar, porém o malho continuou a ser batido. Marcion desviou o olhar, mas Zeuxis só parou quando o prego tinha atravessado a carne do legionário. Os gritos do cativo foram ainda mais altos quando o mesmo foi feito no braço esquerdo.
Spartacus observou seus homens e ficou satisfeito ao ver como eles pareciam chocados e revoltados. A mensagem precisava ser assimilada. Se não fosse, todos estariam perdidos. Gritos de ira foram ouvidos vindos do muro. O sangue dos romanos deveria estar fervendo, mas não havia como evitar isso.
Passando uma corda pelo gancho no topo da cruz, os soldados a prenderam dos dois lados e então ergueram o legionário crucificado até seus pés se afastarem do chão. Este gritou de desespero quando os braços sentiram o peso do corpo. Os degraus foram colocados na frente dele, e alguns pregos foram martelados em seus ombros, prendendo a cruz na madeira vertical.
Sem delongas, sua perna esquerda foi posicionada e o pé martelado à cruz. Ele se debateu sem parar com a perna livre, acertando o rosto de Zeuxis. Praguejando, este segurou o pé direito do homem e o prendeu com outro prego no calcanhar. Foi demais para o legionário.
— Mãe! Por favor, mãe! — gritou ele. — Mãe, me ajuda! — Urina começou a vazar, acertando Zeuxis, que deu um passo para trás com nojo, e seus companheiros riram. Até Marcion esboçou um sorriso.
Zeuxis pegou o malho de novo e se aproximou da cruz.
— Posso quebrar as pernas dele, senhor?
— Não, deixe-o — mandou Spartacus. — Quero o desgraçado vivo para que todos os homens o vejam quando passarem por aqui.
Com um olhar desapontado, Zeuxis se afastou. Marcion se perguntou se não teria sido melhor deixar que ele se vingasse. Ninguém merecia morrer com tamanha dor, nem mesmo um romano. Contudo, a decisão não lhe cabia, já que era apenas um soldado comum.
— Voltem ao seu lugar na fila — sussurrou o oficial.
Eles se apressaram em obedecer.
Spartacus deu as costas para o legionário crucificado e voltou a caminhar à frente das coortes.
— Vejam o sofrimento dele, seus vermes, e aprendam! Pode ser que a dor dure dois ou três dias, talvez até mais. É esta a morte que querem? Querem acabar implorando aos romanos para que quebrem suas pernas e assim possam morrer mais depressa?
Ninguém teve coragem de falar.
Spartacus aproximou o rosto ao do soldado mais próximo. Os elmos dos dois se chocaram.
— Responda ou, pelo Cavaleiro, farei a mesma coisa com você!
— NÃO, SENHOR!
Spartacus deu um passo para trás.
— Pelo menos um homem que sabe o que quer. E o resto? É este o fim que vocês querem?
— NÃO, SENHOR! — gritaram eles.
Ele deu cinquenta passos, encarando cada soldado pelo qual passava.
— Vocês têm certeza?
— SIM! — Foi a resposta.
E ele seguiu, desafiando qualquer homem a responder, a demonstrar incerteza.
— Certeza? Certeza?
— SIM!
— SPAR-TA-CUS! — gritou Marcion. Ele olhou para Zeuxis, que se uniu a ele.
Dessa vez, eles entoaram o nome com vontade.
Finalmente. Spartacus se aproximou e bateu a sica no escudo de um homem.
— Mais alto!
Os companheiros do soldado logo o copiaram. Assim como os homens de trás, e dos lados. Clash. Clash. Clash.
— SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS!
Em pouco tempo, o barulho se tornou ensurdecedor.
O trácio permitiu que eles gritassem por um tempo. Queria que todos os soldados do exército ouvissem o barulho, sentissem o sangue ecoar em seus ouvidos, sentissem a ira da batalha aumentar. Quando viu a confiança surgindo no rosto dos seus soldados, soube que era a hora. Um sinal, e os trompetistas tocaram seus instrumentos, um chamado estridente que ninguém conseguiria ignorar.
A fanfarra recebeu a resposta de batidas igualmente pesadas vindas de trás do muro.
Spartacus voltou à sua posição com os citas, que se posicionaram à sua direita e à sua esquerda. Atheas pegou a escada de alguém. Um escudo foi entregue a Spartacus; ele o apoiou no chão, contra o corpo. Olhou para os dois lados. Atheas e Taxacis abriram seus sorrisos irados de sempre; os homens mais à frente pareciam tensos, mas prontos.
— Quando eu mandar, andem mais depressa! Atentos! — Suas palavras ecoaram. Spartacus pegou o apito de latão do centurião, que ficava amarrado a um barbante ao redor do pescoço deste e o levou aos lábios.
Piiiiiiiiii! Spartacus soprou com força.
O som estridente se repetiu pelas coortes.
— AVANCEM! — Spartacus iniciou a marcha, de modo ritmado.
Dos dois lados, seus soldados o acompanharam. Ele analisou a muralha inimiga em sua extensão. Os lançamentos das catapultas começariam a qualquer momento. Assim como as balistas. Aos olhos dos romanos, quanto mais pedras fossem lançadas antes que ele e seus soldados chegassem ao muro, melhor.
Como esperava, ouviu o som familiar das alavancas sendo puxadas para trás e o baque de pedras sendo posicionadas. Em seguida, o som inconfundível das vozes dos oficiais, seguido por uma ordem dada aos berros.
— Ordem! Ergam os escudos! — gritou Spartacus. — Continuem avançando.
Ao redor dele, os soldados caminhavam ombro a ombro. Os da frente erguiam os escudos, para que a superfície curva os protegessem do rosto aos tornozelos. Os que estavam atrás erguiam os seus para proteger a cabeça. Apenas aqueles que carregavam escadas permaneciam sem proteção, já que precisavam das duas mãos para levar suas cargas difíceis de carregar.
Eles se aproximaram do legionário crucificado, cujas pernas estavam agora sujas de urina e fezes. Seus olhos estavam fechados, e ele gemia baixinho.
— Mããããeeee... — Ele continuava mudando de posição, deixando os braços ensanguentados sustentando o peso do corpo e, quando não aguentava mais, tentava se apoiar nos pés pregados. “Pobre desgraçado”, pensou Spartacus. “O legionário serviu seu propósito.” Pensou em cortar a barriga do homem ao passar, para acabar com seu sofrimento, mas não o fez. Suas tropas tinham que testemunhar o sofrimento de uma morte como aquela. Spartacus fez uma oração sincera. “Peço qualquer fim para mim, menos esse.” Com o rosto sério, ele seguiu em frente.
Os romanos permitiram que eles se aproximassem por mais dez passos. E então, de repente, o espaço entre os soldados de Spartacus e o muro foi tomado por tiros. Pedras do tamanho da cabeça de um homem. Lanças de ponta de metal do comprimento de um braço. Tiros menores do que ovos de galinha. Uuush. Vum. Vizz. Os rebeldes cobriram a distância com movimentos repentinos e assustados.
“Grande Cavaleiro, permita que Caepio esteja mentindo a respeito da legião. Permita que as perdas sejam poucas”, rezou Spartacus. “Temos que sair vitoriosos daqui.”
Com baques altos, as pedras caíram. O efeito foi devastador. Tudo o que era atingido, homem ou escudo, era derrubado, como se um deus o fizesse com suas próprias mãos. Os escudos eram quebrados ao meio, as costelas, despedaçadas, e membros e crânios, esmagados. A força das pedras era tamanha que com frequência o soldado de trás também era morto. Pregos e parafusos não eram menos letais — atravessavam escudos, malhas e carne com facilidade. Depois de acertarem o primeiro homem, os projéteis seguiam sua trajetória, ferindo outros de modo grave ou derrubando mais um escudo, forçando quem o levava a largá-lo.
O único consolo durante a travessia foi que os tiros de estilingues eram bem menos letais do que os outros ataques. Na maior parte do tempo, eles batiam nos escudos dos soldados como pedras de granizo durante uma tempestade. Às vezes, acertavam os espaços estreitos entre os escudos, fazendo os homens gritarem de dor quando suas cotas de malha eram atingidas. Os mais azarados eram atingidos no rosto, sofrendo com fraturas na face ou, se os tiros acertassem a testa, um golpe mortal.
— Fechem os espaços! — berrou Spartacus. Ele assoviou o apito de novo. Se eles fracassassem, os homens perderiam a coragem.
Passando por cima dos feridos e moribundos, eles seguiam em frente. Ele calculou que seriam uns cem passos até o muro. As árvores eram menos numerosas agora, expondo-os totalmente ao ataque inimigo. Os legionários que cuidavam das catapultas trabalhavam muito rápido. Mais tiros e pedras foram lançados. Em pouco tempo, lanças também seriam disparadas. Era agora ou nunca, pensou ele.
— Coorte à minha esquerda, cruzem no primeiro espaço sobre o fosso. Coorte à minha direita, peguem o terceiro. Minha coorte pega o do meio. ATAQUEM! — com a crença de que os oficiais que lideravam as unidades seguintes se lembrariam de avançar em direção aos dois últimos pontos de cruzamento, Spartacus começou a correr. Como sempre, contou os passos. Isso o ajudava a manter a concentração, a ignorar os gemidos dos homens derrubados, os palavrões ditos pelos soldados ao tropeçarem em um obstáculo inesperado, as orações feitas por aqueles que tentavam vencer o medo.
Oitenta. Uma saraivada de lanças os cobriu como se ensaiadas. Ao chegarem ao zênite, elas desceram zunindo, as pontas farpadas prometendo ferimentos ou morte a quem estivesse desprotegido. O trácio ergueu o escudo para proteger a cabeça e rezou para que um tiro de catapulta não o acertasse na barriga. Setenta. Havia um nó dolorido em seu estômago e um toque de medo no suor salgado que escorria em seu rosto, para dentro da boca aberta. Com um baque muito forte, um pilo bateu em seu escudo. A ponta farpada passou a um centímetro do elmo. Ele soltou o escudo inútil, praguejando. Cinquenta passos. “Corram. Corram. O escudo do Grande Cavaleiro está diante de mim, protegendo-me de todo mal.”
Quarenta passos até o muro. Havia brechas na linha dos dois lados, mas Spartacus não ordenou que fossem fechadas. Tudo se desenrolava depressa demais. O importante era chegar à base do muro romano e sair da chuva de projéteis. Eles teriam um tempo curto até que mais pedras voltassem a ser atiradas, mas esse tempo seria suficiente para encorajar seus homens a montarem as escadas.
Eles chegaram ao fosso nivelado. Por causa dos prisioneiros atirados ali por último, tinha a impressão que só havia cadáveres. Mas, se prestasse atenção, Spartacus veria que não estavam todos mortos. Aqui e ali, em meio aos homens ensanguentados e espalhados de qualquer modo, um braço e uma perna se mexiam, alguém gritava um pedido de ajuda ou que acabassem com seu sofrimento. Ainda que o trácio quisesse oferecer o golpe de misericórdia, não havia tempo. Em duas batidas do coração, ele teria pisado no “chão” macio e atravessado o solo da floresta de volta.
Vinte passos. Eles ultrapassaram o limite mais baixo do arco de tiros da catapulta. Os atiradores romanos redobraram os esforços. Muitos dos soldados de Spartacus largaram os escudos, facilitando o trabalho de seus inimigos. Os legionários também largavam suas proteções. A fileira dianteira de Spartacus, que tinha oitenta homens em sua extensão, estava abalada, porém firme.
— Preparem as escadas! — gritou ele, trotando. Sentiu que os citas o acompanhavam. Incentivados, os soldados dos dois lados seguiram em frente, berrando insultos para os defensores sobre a muralha. Dez passos. Cinco passos, e, então, Spartacus bateu nas estacas de madeira da estrutura. — Escada!
Atheas estava à sua direita, fincando as pernas da escada no chão. Depois, inclinou-se contra o muro, apoiando-a, e fez um gesto para que o trácio subisse.
Spartacus olhou para os escudos levados por seus homens. As coisas seriam muito piores na muralha sem eles, mas não havia como subir com segurança levando tamanho peso.
— Larguem os escudos! — gritou ele. — Peguem um do primeiro romano que matarem. Subam! Subam! Subam! — Mais e mais escadas foram apoiadas na barreira. Spartacus trincou os dentes e iniciou a subida. Aquela era a parte mais perigosa. Ele olhou com seriedade para as estacas pontudas que marcavam a parte superior da muralha. Era difícil subir usando apenas uma mão — na outra, ele levava a sica —, e fácil perder o equilíbrio nos degraus. Ainda mais perigosos eram os defensores que esperavam por ele. Já havia subido dois terços da escada quando um legionário surgiu acima, com um pedaço de pau forcado. Muito concentrado, ele o colocou contra a parte alta da escada de Spartacus e começou a empurrar.
“Merda!” A adrenalina correu pelas veias de Spartacus e ele subiu vários degraus. O peso de seu corpo dificultou as coisas para o romano. Praguejando, o legionário fincou os pés e usou toda a sua força. Spartacus sentiu que a escada começava a pender para trás. Subiu mais alguns degraus e atacou o inimigo com a sica. A lâmina escorregou pela malha do romano, sem lhe causar ferimentos. Mas, por um momento, o soldado se distraiu.
O trácio subiu mais um degrau. Dando uma rápida olhada para a direita, ele não viu defensores próximos o bastante para acertá-lo na axila. Então, atacou mais uma vez com a sica, que desceu cortando o legionário no pescoço. A lâmina curva quase o separou em dois. Seu torso se abriu, expondo músculos bem-torneados, o branco das costelas e o azul-arroxeado dos órgãos em pulsação. Spartacus foi coberto de sangue ao atravessar para uma base do outro lado. O corpo do romano caiu para trás, sujando de sangue todos os soldados abaixo.
O coração de Spartacus acelerou. Não havia mais do que cinco mil legionários. Caepio mentira; o espião não conseguiu enviar a notícia a Crassus. Depois do confronto da véspera, seu inimigo achou que os escravos tinham aprendido a lição. “Estava muito enganado.” Ao ver um escudo encostado na paliçada, ele o pegou. Teve tempo apenas para se virar e erguê-lo quando um legionário se aproximou pela direita. Com um tum pesado, os dois escudos se chocaram.
Spartacus avançou, mirando a lâmina no olho do romano, mas seu oponente percebeu a tempo. Faíscas voaram quando a sica bateu na borda de ferro do escudo. O legionário avançou com seu gládio e Spartacus se afastou, batendo as costas contra a muralha. Havia pouquíssimo espaço para manobras. O romano tinha toda a vantagem por estar no ataque. A cada golpe que dava, Spartacus se arriscava, pois podia cair no vão.
O trácio contraiu a mandíbula. Se não tomassem o muro, seu plano fracassaria. Posicionando o ombro esquerdo atrás do escudo, ele deu um passo. Clash. Clash. As espadas bateram nos escudos. Spartacus avançou com o escudo e, depois, com a sica. Um, dois. Um, dois. Empurrou o legionário. E mais dois. Trocaram golpes de novo até o romano pisar com o calcanhar em um pilo deixado largado no chão e tropeçar. Spartacus foi para cima dele como um gavião sobre a presa, empurrando-o, e o homem caiu sentado, gritando de espanto. A última coisa que viu foi a lâmina do trácio avançando em direção à sua boca aberta. O legionário morreu engasgado com a mistura de ferro e sangue.
Spartacus sentiu uma brisa em sua cabeça. O instinto fez com que ele se afastasse, o que o livrou de ser atingido no pescoço por um pilo. Ele conseguiu se safar ileso, por cima da paliçada. Olhou para baixo. Os soldados que lá estavam lançavam ataques na muralha, sem se importarem com a possibilidade de serem atingidos por seus próprios homens. A exultação tomou conta dele: aquilo era sinal de que os oficiais inimigos achavam que a luta na passagem estava perdida. Ele se inclinou sobre o muro. Viu pelo menos cinco escadas.
— Vamos! — vociferou aos seus soldados. — Sou eu, Spartacus! Os filhos da puta estão acuados!
Gritos animados foram sua resposta.
Ele se virou para a passagem e viu Taxacis sorridente ao seu lado. Atrás dele, a surgiu a cabeça de Atheas.
— Para que... lado? — perguntou Taxacis. — Esquerda ou direita?
À sua esquerda, havia um grupo de soldados inimigos e, no meio deles, o elmo com crina transversal vermelha de um centurião. Era Caepio. “Não conseguiremos passar por ali depressa o bastante.” Spartacus apontou para sua direita e para os degraus mais próximos.
— Ali! — Seis legionários bloquearam o caminho, mas, à frente deles, havia um vão de cerca de dez passos onde mais e mais rebeldes se espalhavam pela paliçada. Ele se lançou à frente. Os citas foram atrás. — Corram para as escadas! — gritou aos seus soldados. — Matem aqueles romanos malditos! ANDEM!
Eles se apressaram em obedecer.
Spartacus seguiu atrás deles. O resultado do ataque ainda precisava ser avaliado, porém, pelo menos, a sensação que ele sentia era boa.