Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 17 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo XVI

 

Apesar de sua riqueza, Crassus era um homem de gosto moderado. Uma de suas fraquezas era gostar de uma cama confortável. O colchão em seu quarto era de boa qualidade — pelos deuses, era bem denso —, mas ele o detestava. A princípio, quando tinham deixado Roma, ele parecia bom. Porém, agora, parecia mais duro do que um colchão de palha usado pelo mais pobre dos pobres. Por isso já estava de pé, uma hora antes do amanhecer. Mantinha o semblante fechado, deformando seu belo rosto. Aquela porcaria de colchão teria que servir por enquanto. Não havia como arranjar um melhor na região. Pelo que sabia, ninguém morava em Bruttium além de primitivos e ladrões. E Spartacus.

Crassus parou de pensar no colchão, mas ainda estava irritado. Estava cansado de tudo relacionado com aquele lugar maldito. Agora isso lhe dava vontade de rir, mas a verdade é que tinha ficado feliz por entrar em Bruttium quando chegara ali. Gostara da brisa do mar e de ter fugido do calor nojento enfrentado em Campânia e Lucânia. Ninguém podia negar que o interior selvagem e montanhoso era maravilhoso ou que as vistas da Sicília eram incríveis. No entanto, à medida que o outono se transformava em inverno, esses prazeres logo azedaram. Semanas de nuvens carregadas, ar úmido e chuva frequente o haviam exaurido.

Crassus desejava encerrar a campanha não só porque queria acabar com Spartacus, mas também para que pudesse voltar para casa. Na capital, ele poderia aproveitar o sol e a adulação do público romano, que o reverenciaria de modo justo. Seria o assunto das casas de banho e dos mercados, celebrado aonde fosse. Olhou para a carta que havia começado a escrever, e a leve melhora em seu humor desapareceu. Teria tempo para acabar o assunto antes que aquele arrogante de merda e fofoqueiro do Pompei chegasse? Assim que soube que a assembleia romana havia chamado seu maior rival da Iberia, Crassus não quis acreditar na notícia. Era um desaforo. “Plebeus de merda.”

Contudo, os senadores, insatisfeitos como deveriam estar com o retorno de um general tão importante como Mummius para a Itália com o que restou de suas legiões nas costas, aprovaram a ordem. “Isso não teria acontecido se eu estivesse ali”, pensou Crassus furioso. Porém, como todos os bajuladores, seus incentivadores no Senado não foram organizados nem fortes o bastante para impedir que o decreto fosse sancionado. “Eles são um monte de desgraçados pomposos e egoístas!” Será que eles e o resto não podiam simplesmente deixar um homem trabalhar direito? Ele estava no comando dos exércitos da República havia meses.

No maior confronto desde então, suas tropas provaram sua força vencendo os escravos. Sim, houvera o retorno inglorioso das legiões de Mummius, mas ele lidou com aquilo do modo mais vigoroso possível. A prática da dizimação não era usada havia mais de cem anos, e seu efeito foi drasticamente bem-sucedido. Depois disso, ele encurralou Spartacus e não lhe deu chance de escapar para a Sicília! Melhor ainda, seus soldados tinham, no dia anterior, frustrado a tentativa dos rebeldes de passar pelas fortificações no espinhaço. Caepio relatara a morte de mais de dez mil soldados inimigos, o que era um número considerável da força do trácio. O fim do conflito estava próximo.

Não que Spartacus admitisse! Ao lembrar do legionário imundo que fora levado até ele na noite anterior, Crassus sentiu o próprio rosto esquentar. Não quisera acreditar na história do soldado, porém, sem dúvida, este fora feito prisioneiro pelo inimigo.

— Como ele ousa? Como ousa pedir algo assim? Fides, para um selvagem como ele? — resmungou Crassus para o espelho de bronze que ficava a um lado de sua mesa. — Quanta audácia!

“Acalme-se”, pensou ele. Era exatamente isso o que aquele trácio maldito queria. O pedido tivera a intenção de irritá-lo — e o fez. Crassus respirou fundo, lembrando-se de que, com muito esforço, não havia ordenado a execução imediata do infeliz legionário que trouxera a mensagem. “Deixe passar, assim como deixou o soldado partir.” Após um minuto, ele se sentiu mais controlado.

Por um lado, com maldade, ele ficou pensando em como seria liderar uma força combinada de mais de cem mil homens contra Pompei, para ganhar o controle da Itália de uma vez por todas. A República era fraca, assim como a maioria dos senadores. Como ocorrera na época de Sulla, agora eles precisavam de um líder forte. Crassus sabia ser o homem certo para o trabalho. Nascera para isso. Infelizmente, aquele não era o momento. O povo romano nunca deixaria um exército de escravos controlar seu destino. Crassus entortou os lábios. Nunca poderia confiar em um homem como Spartacus — um trácio, um ex-gladiador. Seria até indigno de sua parte cogitar responder. O silêncio sepulcral mostraria ao trácio tudo o que ele queria dizer.

Crassus olhou para a campanha, e sua frustração aumentou. “Pompei...”, voltou a pensar no maldito e se conseguiria engendrar uma vitória total antes que o imbecil chegasse com suas legiões. Para acabar com a rebelião, ele precisaria forçar uma batalha com o exército de Spartacus dentro de poucos dias. Porém, taticamente, seria tolice fazer qualquer coisa que não esperar. Seus soldados estavam seguros atrás de suas defesas; lanças e munição para as catapultas foram reunidas perto do muro. As legiões tinham muitos grãos e carne; mantimentos frescos chegavam todos os dias pela Via Annii. Enquanto isso, os seguidores de Spartacus morriam de fome aos poucos no ambiente improdutivo que levava a cabo Caenys, o ponto mais ao sul da Itália. Era preciso apenas aguentar até Spartacus e seus soldados reunirem coragem suficiente para mais uma tentativa de romper o bloqueio. Enfraquecidos pela fome e desmoralizados pelo fracasso anterior, todos seriam mortos. O assunto poderia ser resolvido com um único golpe.

E se essa batalha não fosse travada em um mês ou mais? Pompei o alcançaria. Os mensageiros deste foram enviados dez dias antes. Praguejando, Crassus bateu sua stylus na mesa com tanta força que a ponta quebrou. Pompei poderia aparecer na frente de seu exército dentro das próximas seis a oito semanas.

“De jeito nenhum”, decidiu Crassus. Ele tinha que tomar uma atitude. Forçar os escravos para a batalha aberta. Entretanto, fazer isso não seria fácil. Spartacus era um general esperto, não um homem que costumava cometer erros. Por fim, o romano sorriu. Um ataque noturno poderia resolver. O grande ponto forte do trácio era sua cavalaria. Crassus tinha menos cavaleiros e, apesar de detestar admitir, os seus eram de qualidade inferior aos de seu inimigo. Uma coorte de legionários com o único objetivo de causar pânico e ferir os cavalos de Spartacus poderia ter sucesso. Seria bom usar o mesmo truque que o trácio aplicara contra as tropas de Glaber. Também sabia quais homens usar. Alguns dos soldados desgraçados de Mummius adorariam a chance de reaver sua honra. Eles não teriam que descer um penhasco com cordas feitas de vinhas, apenas atravessar sem serem vistos o caminho até onde os cavalos do inimigo estavam amarrados. Se cumprissem tal tarefa, uma batalha boa poderia ser esperada. Depois das baixas recentes, os escravos estariam temerosos; incentivados pela ameaça de dizimação, seus legionários estavam dispostos a lutar. Sem ter de enfrentar a cavalaria inimiga, seria fácil alcançar a vitória. Crassus já imaginava a cena. Pompei chegaria tarde demais.

A glória seria só dele.

Crassus voltou a olhar para a carta. Valia a pena terminar de escrevê-la? Ele quase a jogou no braseiro, para apagar até mesmo a ideia do que estava pedindo. Então, seu lado mais prudente assumiu o controle. A mensagem tinha que ser enviada. Quando chegasse a Roma e as medidas fossem tomadas, ele teria acabado com Spartacus como um homem que pisa um escorpião. Crassus voltou a colocar a carta sobre a mesa, alisou-a, pegou outro stylus e depois leu o que já havia escrito.

“Ao Senado de Roma. Eu, Marcus Licinius Crassus, comandante dos exércitos da República, envio cumprimentos leais.” Ele entortou os lábios. Se tivesse a chance, colocaria os nomes de mais de seis senadores em uma lista de proscrições. Porém, ele tinha que fingir respeitar a decisão deles de chamar Pompei. Continuou lendo:

Soube que o ilustre general Gnaeus Pompeius Magnus voltará com suas legiões

para a Itália, com a missão de me ajudar a frustrar o ataque de Spartacus.

Como sempre, obedeço às vontades do Senado. Desejo ter a honra de servir à

República ao lado de outro de seus servos fiéis.

Crassus praguejou baixo. Odiava cada palavra escrita, porém, tinha que manter a farsa. “Serei eu quem rirá por último.”

Enfiou a ponta do stylus no vidro ao lado de sua mão direita, balançou-o com delicadeza para tirar o excesso de tinta e se preparou para escrever. Seus lábios sorriram com a ironia. Pompei detestaria o que ele estava prestes a pedir assim como ele mesmo detestava a ideia de Pompei estar voltando para a Itália.

Apesar de, nos últimos dias, Spartacus ter sofrido um grande contratempo nas

mãos de minhas tropas, as ousadias realizadas por seus seguidores estão se

prolongando demais. Sua revolta deve ser contida com toda a pressa e sem

economia de esforços. Assim, peço ao Senado que envie para cá não apenas

Gnaeus Pompeius Magnus, mas também Marcus Terentius Varro Lucullus, o

governador da Macedônia. Seus êxitos recentes contra o trácio Bessi o destacam

como general. Suas habilidades e legiões experientes trariam um poder

imensurável às minhas forças e também às de Pompei. Spartacus e os vermes

que o seguem não terão para onde correr, não terão nenhuma latrina onde se

esconder. Diante da liderança dedicada de três dos servos mais aptos da

República, essa revolta vergonhosa logo não passará de uma lembrança distante

e desagradável. A honra agora manchada de Roma — e a fama que foi fruto da

inveja do Mediterrâneo — será restaurada.

Rogo aos deuses para que concordem com meu pedido. Tenham a certeza de

que enquanto aguardo humildemente uma resposta, a campanha contra

Spartacus segue com todo vigor e coragem que os melhores soldados de Roma

podem mostrar.

Com respeito filial, teu eterno servo,

Marcus Licinius Crassus

Releu a carta com atenção e ficou contente com o resultado. Suas palavras tinham a combinação certa de humildade, súplica e bajulação para conquistar a maioria dos senadores. Eles não resistiriam à ideia de trazer Lucullus de volta, assim como um homem com disenteria não poderia deixar de defecar. Quando Pompei descobrisse, ficaria irado. Entretanto, não poderia fazer nada a respeito.

Não que isso importasse, raciocinou Crassus com triunfo ao enrolar o pergaminho e selá-lo com cera. Antes que Pompei e Lucullus chegassem, ele teria acabado com a rebelião. Com um pouco de sorte, conseguiria convidar seus dois generais para o banquete da vitória, e o destaque seria a cabeça do trácio em uma bandeja de prata.

Uma tosse discreta o trouxe de volta ao presente. Crassus olhou por sobre os ombros. Um dos guardas estava na porta.

— Um centurião deseja vê-lo, senhor. Ele veio do espinhaço.

Um arrepio percorreu a espinha de Crassus.

— O que ele quer?

— Ele não disse, senhor. Só disse que foi enviado por Caepio — respondeu o soldado sem jeito. Ele jamais ousaria perguntar o que um oficial queria, e não diria isso a Crassus.

— Mande-o entrar. — “Deve ser Caepio pedindo cobertores de novo”, pensou ele, irritado.

O veterano já havia mencionado que seus soldados no espinhaço estavam sofrendo com as condições climáticas. Crassus pretendera fazer algo a respeito, mas se esqueceu. “Maldito Caepio por ser tão impaciente! Uma ou duas noites no frio fariam bem a seus homens. Faria com que ficassem mais espertos.”

Um centurião de meia-idade com nariz afilado e barba rala entrou. Aproximou-se da mesa e colocou-sr em posição:

— Senhor!

— Descansar. — Crassus notou os respingos de lama nas pernas do oficial e nas proteções na região íntima. Ele não viera falar sobre cobertores, refletiu surpreso. O homem chegara com pressa. — Veio a pedido de Caepio? Do espinhaço?

— Sim, senhor.

— E então? — perguntou Crassus. — Por que está aqui?

— Houve outro ataque, senhor.

O desdém tomou o rosto de Crassus.

— E como foi? Um exercício de fortalecimento da moral para os homens de Spartacus depois da humilhação de ontem? Uma de nossas patrulhas foi emboscada ou os fossos foram preenchidos por galhos incendiados de novo?

— É pior do que isso, senhor. — Os olhos do centurião o encararam, e então se desviaram.

— Explique-se, centurião — ordenou Crassus, sério. — Depressa.

— Começou antes do amanhecer, senhor. Primeiro, pensamos que seria apenas um ataque leve, algo que nos mantivesse atentos, mas logo ficou claro que se tratava de uma investida em grande escala.

“O espião não nos avisou sobre isso”, pensou Crassus.

— Mas já? Eles devem ter menos alimentos do que pensei. Ainda bem que mandei que mais armamentos fossem levados para lá depois de ontem, não?

Um sorriso forçado.

— Sim, senhor.

— O que foi, homem? Os fossos foram esvaziados ontem à noite, não foram?

— Sim, senhor, mas os homens de Spartacus os encheram em vários pontos.

— Eles precisariam cortar a floresta inteira para ter madeira suficiente. O que usaram?

— Mulas, senhor. Eles não tinham animais o bastante, por isso pegaram cem de nossos homens que foram feitos prisioneiros. Os pobres infelizes foram executados a sangue frio e seus corpos, jogados por cima dos cadáveres dos animais, como lixo. Foi tão ruim quanto no monte Esquilino, senhor — contou, referindo-se ao lugar longe de Roma onde os cadáveres de escravos e de criminosos eram descartados juntamente com o lixo doméstico e as carcaças de animais.

— Isso é monstruoso, mas Caepio não mandou você aqui para me relatar isso. O ataque deles veio logo depois?

— Gostaria que tivesse vindo, senhor, mas aquele selvagem do Spartacus quis deixar uma marca ainda maior. Ele manteve um dos prisioneiros vivos para crucificá-lo na frente de seus soldados. Os malditos adoraram.

— Esses escravos não têm limites? — Crassus estava furioso. — Então, eles atacaram depois disso?

— Sim, senhor. Com força e rapidez.

— Os homens da artilharia devem ter feito um caos. — Crassus ficou satisfeito quando o centurião concordou com a cabeça. — Aqueles lixos saíram correndo como fizeram ontem?

O outro desviou os olhos de novo.

— Não exatamente, senhor.

— “Não exatamente”? — repetiu Crassus.

O centurião endireitou os ombros.

— Eles devem ter perdido centenas de homens entre a artilharia, os estilingues e as lanças. Mas isso não pareceu fazer diferença, senhor. Estavam como feras descontroladas ou demônios do submundo.

As narinas de Crassus se abriram com fúria.

— O que está me dizendo, centurião? O muro foi derrubado?

— Não havia sido quando saí, senhor. Porém, as coisas não estavam nada boas. Caepio me enviou para informá-lo e para pedir mais reforços. — O centurião hesitou, pois não teve coragem de dizer a Crassus que ele próprio decidira não mandar mais soldados ao espinhaço depois do ataque do dia anterior. — Disse para avisar que vai tentar controlar a situação da melhor maneira que puder, senhor.

Crassus contraiu e relaxou a mandíbula. Conteve a fúria dentro de si, usando-a para alimentar seu ódio por Spartacus. Subestimou a determinação do trácio. Fora uma decisão razoável não mandar mais tropas ao espinhaço, disse a si mesmo. Não ouvira notícias do espião. Além disso, que inimigo faria um ataque tão ousado depois de uma derrota tão grande? “Somente Spartacus o faria”, argumentou seu lado crítico. Agora, ele não tinha como contra-atacar. Qualquer reforço enviado montanha acima chegaria tarde demais. A batalha teria sido vencida ou perdida, o muro mantido ou derrubado. Crassus, no fundo, sabia que o muro seria derrubado. Caepio, seu melhor oficial, provavelmente estaria entre os mortos. Pior ainda, suas chances de encerrar a campanha antes da chegada de Pompei haviam acabado de desaparecer. A carta pedindo a ajuda de Lucullus teria que ser enviada a Roma muito depressa. “Maldito Spartacus!”

Crassus pressionou as têmporas, pensando no que fazer. Decidiu seguir em frente.

— Ordene dois dos legados que organizem suas legiões e as levem ao espinhaço. Pode ser que ainda haja escravos tentando passar pelo muro.

— Sim, senhor. — O centurião não discutiu, o que mostrava a Crassus que ele também achava que Spartacus havia escapado. — Quais, senhor?

— Não me importa, porra! Os legados restantes devem fazer seus homens levantarem acampamento. Marcharemos assim que for possível.

— Aonde vamos, senhor?

— Aonde você acha? — gritou Crassus. — Atrás do maldito Spartacus, claro!

Quando os romanos se afastaram de uma parte extensa do muro, Spartacus fizera milhares de tropas cercá-los. Alguns dos soldados rebeldes tinham recebido a ordem de atear fogo às balistas enquanto o resto começava a abrir buracos no muro. Não demorou muito para que uma abertura ampla o bastante para a passagem de dez homens fosse feita.

Spartacus logo enviou um mensageiro a Egbeo, mandando que ele levasse sua coorte para a frente. Quando isso foi feito — e ele viu que Ariadne e Maron estavam seguros —, mandou o recado para que o resto do exército avançasse. Toda a operação foi muito organizada, estranhamente acompanhada pelo som da luta dos dois lados, onde os romanos em menor número recuavam cada vez mais.

A decisão de colocar o restante de seus soldados seguindo os da frente no ataque fora boa. Em pouco mais de duas horas, a grande maioria das forças havia atravessado o muro. Até mesmo Castus e Gannicus o fizeram, passando sem um aceno nem um meneio de cabeça para o trácio. Quando soube que os reforços romanos estavam subindo o espinhaço, apenas metade da cavalaria permanecia fora das fortificações inimigas. Praguejando, Spartacus ordenou que os animais que não atravessassem a tempo fossem libertados. Os cavaleiros eram mais importantes para ele do que os cavalos e corriam mais risco de serem capturados enquanto marchavam. Os vários seguidores — comerciantes, prostitutas, padres itinerantes e vendedores de todos os tipos que acompanharam as tropas durante meses — não vieram. Spartacus lhes ordenara, sob pena de morte, que ficassem para trás. O destino deles não o preocupava. Era hora de agir depressa.

Deixando cinco mil homens sob o comando de Pulcher e Navio para manter a passagem aberta para os retardatários, Spartacus mandou o exército partir. Eles tomaram o caminho ao topo da montanha que serpeava a trilha de Bruttium para chegarem a Via Annia cerca de oitenta quilômetros ao norte. A princípio, tinha sido compreensível que Castus e Gannicus tivessem feito o mesmo. Havia legiões nas duas planícies costeiras, mas nenhum naquela altitude. Depois de três dias, a paciência de Spartacus havia acabado.

Ele percorrera o campo todas as noites, avaliando o humor dos soldados, e vira muitos gauleses conversando com soldados perto das fogueiras. Eles partiam ao vê-lo se aproximar, porém Spartacus sabia que eles voltavam quando ele se afastava. Por mais que tentasse, não conseguia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. As intenções de Castus e Gannicus eram óbvias. O moral aumentou com a fuga audaciosa, mas as lembranças do fato de os piratas não terem aparecido e da derrota sofrida no muro ainda eram recentes. Os homens também estavam insatisfeitos por terem ainda menos alimentos à sua disposição. Até que renovassem os estoques de grãos, Spartacus ordenara que todos recebessem um terço da ração diária normal.

— Aqueles malditos gauleses são como urubus em cima da carniça — disse ele a Ariadne. — Querem angariar o máximo de soldados antes de se separarem de nós.

— Você não pode impedi-los.

— Ah, sim, eu posso! Levarei uma coorte até a barraca deles e vou matar os dois! É o que eu deveria ter feito há muito tempo.

Ariadne se irritou.

— Você acha que os seguidores deles aceitariam isso? Você deixaria o exército todo em conflito. Crassus ficaria exultante ao saber que você fez o serviço por ele. — Spartacus arregalou os olhos, porém ela estava determinada a continuar. — Você quer manter homens que são tão facilmente persuadidos a partir?

— Acho que não — admitiu.

— Então por que se importa se os seguidores de Gannicus e Castus falarem com os fracos? — Ele não respondeu, o que a encorajou. — Sabemos agora que os soldados de Crassus estão com receio de nos atacar. Não tem sido ruim ter os gauleses por perto enquanto as legiões estão a poucos quilômetros de nós.

— Então não devo fazer nada enquanto eles espalham seu veneno?

— Eu não disse isso. Você precisa ser visto pelo máximo de tropas possível. Os homens adoram ver seu líder entre eles. Suas palavras lhes dão coragem. Você sabe disso tão bem quanto eu.

Pensativo, Spartacus olhou para o fogo. Ele sabia que Ariadne tinha razão; no entanto, isso não diminuiu a ira que sentia pelos gauleses. Depois de tudo o que fizera, era assim que retribuíam? Queria crucificar os dois, quebrar as pernas deles em vários pedaços, ficar diante deles enquanto chorassem chamando pelas mães e implorando por uma morte rápida, como o legionário no espinhaço. Mas ele não faria isso. Qualquer satisfação imediata advinda dessa atitude acabaria ao ver o benefício dado a Crassus.

“Como se aquele desgraçado precisasse de mais benefício dado de mão beijada”, pensou ele, sério. O custo da última tinha sido alto. Quase mil homens mortos e talvez o dobro desse número de feridos. Isso somado às 11 mil vidas perdidas durante o primeiro ataque fracassado. Cerca de metade dos cavalos e quase a mesma quantidade de mulas foram deixados para trás. Dos sessenta mil soldados que planejava transportar de navio para a Sicília, cerca de 46 mil aptos ainda estavam ali. Sem mencionar Castus e Gannicus. Eles não permaneceriam por muito tempo. Assim que chegassem às terras fartas de Campânia e Samnio, iriam embora, avaliou Spartacus.

Não haveria mais batalhas remediadas a partir de agora, se ele pudesse evitar. Os soldados de Crassus eram mais numerosos do que os dele agora. A diferença ficaria ainda maior quando Pompei chegasse. Spartacus conhecia bem a máquina de guerra romana, e uma lição, que ele aprendera durante o tempo que passou servindo, se destacava ainda mais em sua mente. Para ter uma chance de vitória contra as legiões, era imperativo contar com um número superior de tropas. Igualdade de forças não bastava. Se seu povo, os trácios guerreiros, não derrotaram Roma assim, aqueles que já tinham sido escravos também não conseguiriam. Spartacus fez uma careta. Detestava ter que pensar assim, porém era a verdade nua e crua. Poucos homens agiam como ele, um guerreiro experiente. Navio, assim como alguns de seus soldados que nasceram livres e os que lutaram por sua sobrevivência, era um deles.

Esperar que o resto do exército fizesse isso diante de um inimigo tão implacável seria colocar tudo a perder. Ele tinha que trabalhar para fortalecer seus soldados, e isso não incluía encarar os legionários em igualdade de contingente. Mais uma vez, eles teriam que agir como latrones. Teriam que se esconder na mata, entre as árvores da floresta que formavam a base da Itália. Dali, ele mandaria a notícia de que homens durões — escravos do campo ou pastores — estavam sendo recrutados. Com a ajuda do Grande Cavaleiro, ele poderia reconstruir seu exército. Até a hora de encarar Crassus de novo.

Spartacus no fundo sabia que isso aconteceria um dia. Crassus e ele tinham se tornado inimigos mortais. A luta continuaria até que um deles morresse. Tentou se manter concentrado nesse fato, mas era difícil não pensar que, se Crassus o derrotasse e o matasse, a rebelião acabaria, enquanto que, se o romano morresse, a guerra contra Roma apenas entraria em outra fase. Não pela primeira vez, Spartacus comparou a República a Hydra. Cada uma das várias cabeças daquela criatura exalava veneno e, se uma fosse cortada, duas cresciam no lugar. Era assim com todas as malditas legiões destruídas pelos seus soldados. Contudo, a Hydra não era invencível: apenas uma de suas cabeças era imortal. Seu fim chegara quando o herói Hércules cauterizou os cepos de cada cabeça cortada por ele, impedindo-as de crescer e, assim, pôde encontrar a cabeça que de fato precisava eliminar. “Qual é a cabeça invencível de Roma?”, perguntou-se Spartacus. E como ele poderia cortá-la? “Diante do Grande Cavaleiro, juro que nunca deixarei de procurá-la enquanto estiver vivo.”

Spartacus mal vira Carbo e Navio desde a última batalha. Só sabia que eles não tinham sido feridos. Desejando companhia e curioso para saber o que eles achavam da atual conjuntura, foi até a barraca deles naquela noite. Não encontrou sinal dos romanos. “Não é tão tarde”, pensou ele. “Será que já dormiram?”

— Carbo? Navio?

— Quem é? — A voz de Carbo veio de uma distância curta. Parecia irritado.

— Spartacus. — Um instante de espera, e a aba de uma barraca próxima foi aberta. Carbo espiou. — Por que você está aí? — perguntou o trácio.

Carbo ficou sério.

— Publipor. Ele foi ferido na luta no espinhaço. A princípio, não parecia nada sério, mas infeccionou. O pobre infeliz decaiu rápido desde então. O cirurgião se ofereceu para amputar o braço dele, porém ele está fraco demais para sobreviver à operação. Acho que ele não aguentará mais do que um ou dois dias.

“Mais um homem bom perdido.” Spartacus passou por Carbo e entrou na barraca. O cheiro de carne podre e de urina em seu interior estava forte. Ele pigarreou e se aproximou do monte de cobertores sobre os quais Publipor estava, vestindo apenas a roupa de baixo. Navio, que estava sentado ao lado dele, olhou para Spartacus e tentou sorrir.

— Ele ficaria feliz em vê-lo, senhor.

“Carbo tinha razão”, pensou Spartacus com pesar. A aparência de Publipor era péssima. Suas olheiras eram profundas, a testa estava molhada de suor, as costelas eram evidentes sob a pele. O ferimento de seu braço estava coberto com bandagens que pouco detinham o líquido marrom-esverdeado que escorria nos cobertores.

— Ele está consciente?

— De vez em quando — respondeu Navio. — Na maior parte do tempo, não.

Spartacus se agachou e segurou a mão do outro braço de Publipor.

— Sinto muito por vê-lo nesse estado.

Publipor abriu os olhos. Olhou ao redor da barraca, sem fixar a visão, e logo viu Spartacus. Uma expressão estranha tomou seu rosto pálido.

— Você!

— Sim — disse Spartacus delicadamente. — Posso fazer alguma coisa por você?

Um gemido de dor.

— A minha família?

Spartacus encarou Carbo, que disse a palavra “febre” sem emitir som.

— Isso não está em meu poder. Mas posso lhe dar um pouco de vinho, se quiser. Um pedaço de presunto. — Ele piscou. — Até uma mulher, se estiver interessado.

— Vá para o Hades.

Spartacus acenou para Navio e Carbo se afastarem.

— Você está com febre, Publipor. Pedirei ao cirurgião que faça algo que ajude. — Ele se levantou e se virou para sair.

— A febre não me fez dizer isso, seu filho da puta.

Spartacus contraiu os lábios.

— Certo. Então por que está me insultando?

— Porque você é o responsável pela morte da minha família. — Sua voz falhou. — Minha esposa. Meus lindos filhos.

— Pensei que eles tivessem morrido de cólera — disse Carbo, confuso.

— Não. — Uma tosse fraca, e ele se endireitou. — Eles foram assassinados em Forum Annii.

Spartacus franziu o cenho.

— Por que não disse que veio de lá?

Foi como se Publipor não tivesse ouvido.

— Que os deuses me perdoem, eu estava caçando nas montanhas. Voltei quando a matança tinha terminado. — Lágrimas desceram por seu rosto barbado. — Voltei e os encontrei na casa de meu senhor, todos mortos. Dilacerados!

— Publipor, sinto muito pelo que aconteceu com sua família — desculpou-se Spartacus. — Fiz o máximo que pude para evitar que atrocidades acontecessem, você tem que acreditar nisso.

— Você não fez o suficiente! — Gotas de saliva voaram da boca do doente. — Meus filhos tinham três, cinco e oito anos. Eram inocentes! Indefesos!

— Isso é terrível — reconheceu Spartacus, porém seu rosto ficou sério. — Então, você entrou para o meu exército para se vingar, é isso?

Um meio-sorriso.

— Mais ou menos.

— Você teve algo a ver com a tentativa dos gauleses de me matar?

— Aquilo? Não. Eu não sabia de nada. Meu senhor é outro.

Spartacus foi tomado pela suspeita. Viu a mesma dúvida no rosto de Carbo e de Navio.

— E quem ele seria?

— Marcus Licinius Crassus.

A ira fervente tomou conta de Spartacus. Num instante, ele encostou a adaga no rosto de Publipor.

— Conte tudo.

— Você não pode me assustar. Estou morrendo.

A risada de Spartacus foi cruel.

— Gostaria que cinco homens puxassem a corda que está amarrada ao seu pulso ferido? — Publipor hesitou. — Diga o que aconteceu e eu lhe darei uma morte rápida.

Ele assentiu brevemente.

— Meses depois do massacre, eu ainda estava vivendo nas ruínas de Forum Annii. Não tinha motivos para ir a outro lugar. Um dia, um homem apareceu espiando. Começou a me fazer perguntas e, quando lhe contei minha história, ele me ofereceu dinheiro e a chance de me vingar de você. Explicou que seu senhor era Crassus, que queria um informante no exército de Spartacus. Eu só tinha que me tornar um de seus soldados, e descobrir tudo o que pudesse.

— Você estava sendo caçado pela cavalaria romana quando encontramos você! — gritou Carbo.

— Aquilo foi encenação. Meus companheiros deveriam ser mortos para deixar a coisa toda mais autêntica. Foi um erro Kineas ter sobrevivido. — Um sorriso. — Ele quase entregou a história.

Spartacus relembrou a luta na mata e o modo como Kineas tentara falar algo antes de morrer. Tudo fazia sentido agora.

— Foi você quem contou a Crassus que eu estava em Roma.

Um meneio de cabeça orgulhoso.

— Conversei com um fazendeiro rico perto do campo. Ele mandou a notícia à capital.

— O que mais você fez?

— Contei a Crassus quando você marcharia para o muro e sobre os piratas. Mas ele não acreditou no que eu disse. A melhor coisa que fiz foi contar que você atacaria o espinhaço.

— Seu rato nojento — vociferou Spartacus. — Milhares de seus companheiros morreram ali.

— Eles nunca foram meus companheiros! Eram malditos assassinos da pior espécie. Gostaria que cada um deles morresse. Inclusive você! — Publipor abriu a boca para desferir mais insultos, porém o som não saiu. Ele hesitou um pouco e olhou para a adaga de Spartacus, que estava enfiada em seu peito até o cabo.

— É mais do que você merece, seu traidor de merda. — Spartacus girou a lâmina de um lado para o outro e então a puxou. Com os olhos já vidrados, Publipor ficou imóvel. O sangue começou a molhar os cobertores.

Spartacus olhou para ele sem emoção. Arrependeu-se de ter saído para caçar naquele dia. Gostaria de nunca ter conhecido Publipor. De nunca ter confiado nele. No entanto, era tarde demais para isso. Tarde demais para muitas coisas.

— Pelo menos, sabemos quem era o espião — disse ele, sério.

— Eu devia ter imaginado — disse Carbo com raiva.

— Como? Era impossível. Poderia haver um grupo de outros como ele no exército, com motivos diferentes e com o mesmo desejo de me prejudicar. É por isso que confio em poucos homens, como vocês dois. — Spartacus se levantou e saiu.

— O que devemos fazer com ele? — quis saber Carbo.

— Deixe-o lá fora para os lobos. Ele não deve ter tratamento melhor do que aqueles que morreram no espinhaço.

O exército desfalcado ficou duas semanas em marcha, indo de Bruttium para Lucânia. Spartacus pretendia chegar a Campânia, uma das regiões mais férteis da Itália e berço da rebelião. Disposto a enfrentar Crassus, ele levou seus homens com mais vigor do que antes; sem o peso de bagagens ou os mantimentos e livres dos seguidores extras, eles conseguiram cobrir quarenta quilômetros por dia. Spartacus tomou para si um garanhão branco, um dos maiores cavalos da cavalaria. Cavalgar de um lado para o outro da coluna era o modo mais fácil de encorajar seus homens. Ao perceber o que ele estava fazendo, os soldados de Castus e Gannicus acompanharam o ritmo intenso. A tática do trácio funcionou. Em pouco tempo, seus soldados espalhavam o boato que as legiões estavam a mais de 48 quilômetros de distância e marchando mais devagar.

Spartacus se animou e deu aos homens um dia de folga. Antes de ir a Samnio, ele esperava conseguir novos recrutas para sua causa. Iniciou o processo enviando grupos aos maiores latifúndios, com a missão não só de arranjar grãos e mantimentos, mas de chamar os escravos que encontrassem ali para o exército. Mais de 250 homens se uniram a eles nas duas primeiras propriedades; depois de algumas semanas, o trácio tinha certeza de que esse número chegaria aos milhares. Navio os colocaria em forma em pouco tempo. Só precisavam evitar o confronto com as legiões de Crassus até os novos recrutas serem treinados — nas montanhas de Samnio isso não seria muito difícil. A primavera havia chegado e, com ela, um clima mais agradável. Nos dias que se seguiram, começariam a brotar plantas, grãos e frutas da terra. Eles não teriam que depender apenas de saques a propriedades e fazendas.

Quando recebeu a notícia de que Castus e Gannicus estavam partindo, Spartacus se sentiu estranhamente surpreso. Como um homem que aprende a conviver com seus piolhos, ele havia se acostumado com os gauleses e seus seguidores em meio a seu exército. Porém, era difícil não se sentir satisfeito, como um homem que tira a túnica infestada e veste uma limpa. Disposto a ver a partida com os próprios olhos, ele levou Carbo, os citas e cem soldados consigo. Mesmo naquele último estágio, não havia motivo para tentar um ataque. Ariadne insistiu para ir — carregava o cesto com a serpente, então Spartacus não se incomodou. O deus deveria ter falado com ela.

Ele encontrou a dupla problemática organizando as tropas fora do acampamento. Era difícil contabilizar quantos homens os seguiam, mas Spartacus imaginava serem dez mil. Cinco águias e quase trinta estandartes romanos formavam o orgulho daqueles homens, os símbolos de suas conquistas até então. Spartacus não se preocupou com a perda dos emblemas romanos e ficou contente por ver que havia poucos cavaleiros entre eles.

— Veio se certificar de que estamos partindo? — provocou Castus.

— Achei que tivessem decidido ficar — respondeu Spartacus. — Já faz um tempo que meus homens romperam o bloqueio.

Castus entortou os lábios.

— Nossos soldados teriam feito aquilo com a mesma facilidade com que os seus fizeram. Já que você mais uma vez queria levar a glória, não vimos razão para discutir. — Ele piscou para Gannicus, que sorriu.

Spartacus sentiu a raiva crescer. Tinha sido uma atitude sagaz dos gauleses. Sua tropa sofreu todas as perdas, enquanto as deles se mantiveram intocadas. Soltou o ar devagar. “Deixe-os partir.”

— Para onde irão?

— Quem sabe? — respondeu Gannicus, dando de ombros. — Onde a fartura seja maior.

— Onde pudermos encontrar as mulheres mais belas — acrescentou Castus.

Os homens comemoraram.

“Animais.” Spartacus não insistiu. Ainda que soubessem, os gauleses não contariam a ele.

— Cuidado com seus passos. Por serem mais fracos, Crassus os atacará primeiro.

— Vai se foder! — vociferou Castus. — Temos quase 13 mil soldados conosco!

Era um número maior do que Spartacus esperara, entretanto, ele tomou o cuidado de não demostrar seu descontentamento.

— Vocês têm o mesmo número de tropas que 2,5 legiões, mas quase não têm cavalos. Infelizmente, Crassus tem o quádruplo de homens e muita cavalaria. Para mim, as suas chances não são muito boas. — Ele ficou satisfeito com as expressões contrariadas de alguns rostos que viu.

Castus reagiu com raiva, porém Gannicus falou primeiro.

— Não somos idiotas, Spartacus. Crassus não nos encontrará com facilidade e tampouco nos derrotará.

Eles se entreolharam.

— Se vocês não tivessem se mostrado tão traiçoeiros, eu lhes desejaria sorte. Na verdade, ficarei contente se as coisas derem errado.

— A recíproca é verdadeira — devolveu Castus. — Verei você no Hades qualquer dia desses.

Antes que Spartacus pudesse responder, Ariadne deu um passo à frente, com a serpente na mão direita. Castus empalideceu. Apesar de estar longe dela, deu um passo para trás.

— Até agora, você conseguiu se safar do pagamento por seus crimes, Castus — disse ela em voz alta. — Os deuses assim quiseram. Não pense que terá proteção para sempre.

— Crimes? Saia daqui, mulher. Despeje suas mentiras em outro lugar! — gritou Castus, porém sua voz estava um tom mais alto do que o normal.

— Prevejo que você terá um fim violento.

— Rá! Não há nada de errado nisso! — resmungou Castus. — Alguns dos homens dele gritaram, concordando. Gannicus até riu. — É isso o que todo guerreiro quer.

— E será em breve — anunciou Ariadne. — Questão de dias. E virá das mãos dos romanos.

Gannicus desdenhou, entretanto, a confiança de Castus desapareceu de repente.

— Está mentindo!

Ariadne ergueu a serpente. O gesto foi recebido com um Ahhh respeitoso.

— Esta é a criatura sagrada de Dionísio, e sou uma de suas sacerdotisas. Não minto sobre essas coisas. É melhor torcer para que sobre alguém para enterrar seu cadáver, Castus! Caso contrário, sua alma atormentada estará fadada a vagar na terra para sempre.

— Esse tipo de tolice supersticiosa não me assusta, sua puta idiota.

Ariadne ficou satisfeita. Castus não conseguia disfarçar o fato de ter ficado abalado. A maioria dos homens próximos parecia contrariada, incluindo Gannicus.

— A menos que queira ir para o Hades agora mesmo, é melhor ter cuidado com o que fala, seu boqueteiro — vociferou Spartacus.

Certo de que Castus não o enfrentaria, ele deu alguns passos à frente.

— Você tem merda no lugar do cérebro. Seriam cem contra um! — ameaçou Castus.

— Isso não me impediria de matar você e de sentir um enorme prazer ao fazê-lo — retrucou Spartacus. Ariadne tocou o braço dele, que se afastou. — É só dizer mais uma merda para resolvermos isso de uma vez.

Castus encarou Spartacus por um instante, mas desviou o olhar.

— Hora de irmos — anunciou.

“Covarde!”, pensou Spartacus. “Sabe que eu o mataria.” Um lado dele, o que gostava de desafios, queria que o gaulês o tivesse encarado, mas ele também sabia que isso causaria um derramamento de sangue inútil — e talvez até a sua morte. Seria uma maneira estúpida de morrer.

— Se já pararam de brigar — disse Gannicus com acidez —, gostaria de saber se já estamos prontos.

— Sim, sim! — Castus deu uma ordem a seus oficiais e se afastou.

Gannicus não o seguiu de imediato. Olhou para Spartacus e lhe lançou um olhar de respeito, como se dissesse: “Em outras circunstâncias, as coisas poderiam ter sido diferentes.” Depois, também se afastou.

Os ombros de Spartacus relaxaram um pouco.

— Que eles matem milhares de legionários por onde passarem. E que Crassus nunca os pegue — rezou ele baixinho. Olhou para Ariadne. — Em quantos dias ele morrerá?

— Não sei bem.

— Mas você disse...

— Eu sei o que disse — retrucou ela. — Isso não quer dizer que eu vi. Tenho certeza de que ele morrerá em uma questão de dias. Um dia. Cem dias, mil dias, o que importa? Eu não disse o número.

— O deus mandou uma mensagem de verdade?

Ela o encarou. A raiva que sentia de Castus enfim havia passado do limite.

— Às vezes, é bom deixar os homens acharem que os deuses decidiram seu caminho. Como quando você disse aos soldados que iriam marchar para os Alpes, e eu disse ser essa a vontade de Dionísio.

— Você inventou aquilo?

— Claro que sim. Não diga que achou que eu estivesse falando sério. Provavelmente você não perguntou porque achou mais adequado sua missão ter algum apoio divino.

Ele se mostrou surpreso e depois irado.

— E sua interpretação do meu sonho com a serpente... você inventou aquilo também?

— Não — respondeu ela, arrependida por ter se exaltado. — Eu nunca mentiria sobre algo tão sério.

Ele a encarou. Ficou aliviado por não ver sinal de mentira. Provavelmente ele teria feito o mesmo, mas acreditar que sua missão tinha aprovação divina ajudara a fortalecer suas próprias convicções. Esperava que as mentiras dela não tivessem enfurecido os deuses. Essa possibilidade era um peso que ele não precisa ter nos ombros.

Uma dúvida lhe ocorreu.

— Você tem visto algo sobre o meu futuro ultimamente?

A imagem de Egbeo na cruz surgiu na mente de Ariadne. Ela já tivera o pesadelo várias vezes — felizmente, não nas últimas semanas. Spartacus não aparecia nele, o que não significava que ele estaria seguro se aquele horror acontecesse. Ela deveria lhe contar? Sua intuição respondeu na hora: não. Precisou de todo o seu autocontrole para encará-lo.

— Nada, infelizmente — mentiu.

Seu sorriso confiante fez com que ela se sentisse aliviada.

— Ótimo. Não tenho certeza se quero saber o que os deuses reservam para mim. Melhor trilhar meu caminho por mim mesmo do que estar sempre com medo de ver o que pode acontecer.

— Mas você faz isso sempre!

Ele sorriu.

— Acho que sim. E você me ama por isso, não?

Ele a puxou para si, e Ariadne não resistiu. Ele estava certo, pensou ela, sentindo seu corpo contra o dela. Apesar de seus erros, ela o amava. Era por isso que permaneceria ao seu lado, independentemente do que acontecesse.