Spartacus: A Rebelião
Capítulo I
Um mês depois…
Nos Apeninos, a nordeste de Pisa
Spartacus olhou para a formação plana das legiões de Gellius e depois voltou a observar as suas. Apesar de estar a uns cem passos do centro das primeiras fileiras, ele podia sentir a confiança de seus homens. Ela surgia da postura e da forma como suas linhas avançavam e recuavam. Suas armas batiam em seus escudos, desafiando os romanos. Eles estavam loucos, até desesperados, para iniciar o combate. “É uma mudança incrível.” Até pouco tempo atrás, seus seguidores — a vasta maioria deles ex-escravos — nunca tinham estado em uma batalha em grande escala. Sim, eles tinham derrotado as forças de três pretores, mas esses confrontos tinham sido vencidos por meio de subterfúgios. Eles nunca tinham encarado um grande exército romano em terreno aberto, muito menos uma das duas legiões comandadas por um cônsul. Dois meses antes, tudo isso mudara quando eles fizeram uma emboscada ao cônsul Lentulus em um desfiladeiro ao sul da posição atual.
Graças a tal sucessão de vitórias, a maioria de seus homens agora estava tão bem-equipada quanto os legionários. Ele estava cheio de orgulho. “Veja até onde eles chegaram.” Ele se lembrou do dia, um ano e meio atrás, quando foi traído em sua própria vila na Trácia e vendido como escravo, quando seu destino parecia ser a morte em uma arena de gladiadores italianos. “Até onde eu cheguei. Um guerreiro trácio que lutou por Roma, mas que agora lidera um exército de ex-escravos contra ela.” Era irônico...
Aproximando-se de seus soldados, Spartacus viu um homem de ombros largos cujo rosto agradável fora estragado por uma cicatriz púrpura no lado esquerdo. “Um dos primeiros escravos que se juntou a nós depois que escapamos do ludo.”
— Eu o vejo, Aventianus! Que esperança têm os romanos hoje, o que você acha?
Aventianus sorriu.
— Menos chance que a de nevar no Hades, senhor.
— É o que quero ouvir.
Spartacus havia muito tinha desistido de mandar seus homens pararem de chamá-lo de senhor. Não adiantava. Ele olhou os rostos dos que estavam mais próximos dele.
— Aventianus está certo, homens? Ou Gellius vai nos perseguir enquanto fugimos de volta para casa com os rabos entre as pernas?
— Não temos casas! — gritou Pulcher, o principal armeiro de Spartacus e um de seus oficiais seniores. Seu comentário foi respondido com uma explosão de gargalhadas. Ele esperou até que o barulho cessasse. — Mas temos algo muito melhor do que tetos sobre nossas cabeças. Algo que ninguém pode roubar. Nossa liberdade!
— Liber-dade! Liber-dade! Liber-dade! — gritaram os homens, batendo os pés no chão e as armas contra os escudos.
Isso criou um ritmo ensurdecedor e estimulante. O clamor se espalhou pelas hordas de Spartacus. A maioria dos soldados estava muito longe para saber o motivo do tumulto, porém isso não importava. Logo o som tornou qualquer discurso impossível.
— Liber-dade! Liber-dade! Liber-dade!
Saboreando os gritos de quase cinquenta mil homens e o fato de que ele era o líder, Spartacus os encorajava levantando os braços. O tumulto aumentaria ainda mais o moral deles e criaria desconforto em muitas barrigas romanas. Ele não duvidava de que uma comichão de medo correria pelas costas enrugadas de Gellius. O cônsul tinha 62 anos, e todos sabiam que tinha pouca experiência em batalha.
— Vamos esmagar esses desgraçados até ficarem em pedacinhos! — berrou Pulcher quando os gritos diminuíram. — Da mesma maneira que fizemos com Lentulus e seu bando!
Bem nesse momento, os homens que segurando o par de águias de prata levantaram suas estacas. Mais gritos irromperam.
Spartacus ergueu as mãos, e caiu o silêncio.
— Há mais dois desses para derrotar hoje! — Ele apontou sua sica, uma espada trácia encurvada, para as forças de Gellius, onde a luz brilhante do sol refletia nas armas de metal da sua legião. — Quem quer me ajudar a derrotá-los? Quem quer a glória de dizer que tomou uma águia romana em batalha e, ao fazer isso, envergonhou toda uma legião?
— Eu! — gritou Aventianus e uma multidão de vozes.
— Têm certeza?
— TEMOOOOS! — gritaram eles em resposta.
— É melhor que tenham mesmo. Olhe para o tamanho deles.
Spartacus girou sua espada primeiro para a esquerda, depois para a direita. Dos dois lados de seu exército, era possível ver centenas de homens em cavalos montanheses.
— É melhor que tenham certeza — repetiu ele. — Se não formos cuidadosos, a cavalaria poderá chegar lá antes de nós.
Parte de Spartacus queria estar com eles. Ele tinha sido cavaleiro desde os 16 anos; também tinha ajudado a treinar os cavaleiros, mas sabia que sua presença no centro das hostes era vital. Se os soldados a pé falhassem, seria uma derrota total. Apesar de a tarefa de seus cavaleiros ser enorme, estes eram o quádruplo dos cavaleiros romanos. Mesmo se por alguma infelicidade eles não conseguissem aniquilar a cavalaria inimiga, sua infantaria ainda podia ganhar a batalha.
— Vocês vão deixar que isso aconteça?
— Nunca! — rosnou Pulcher, as veias saltando do pescoço.
— Não se eu puder evitar! — gritou Aventianus, movendo seu pilo para a frente e para trás.
— Eu também!
Carbo, que era romano, ainda estava surpreso pela paixão que sentia quando o trácio falava. Há cerca de um ano atrás, ele tinha entrado na escola de gladiadores em Cápua em uma tentativa louca de pagar as dívidas enormes de sua família. Em seu desespero, ele tentou primeiro se unir ao exército, mas foi rejeitado por ser muito jovem. Para seu espanto, foi aceito pelo lanista — um cidadão que contratava homens para lutar como gladiadores —, como um auctoratus depois que sua coragem fora testada ao lutar contra Spartacus em uma disputa com armas de madeira.
A vida no ludo havia sido incrivelmente dura, e não só por causa do treinamento. Um homem sozinho, especialmente um novato, tinha poucas chances de sobreviver. Se Spartacus não o houvesse protegido, a carreira de Carbo no ludo teria sido curta. Quando tiveram a chance de escapar pouco depois, ele seguiu seu protetor. Depois, quando precisou tomar a inimaginável decisão entre deixar o grupo de escravos e gladiadores, ou ficar para lutar contra seus próprios compatriotas, optou por ficar. Ele não tinha opção.
Nos meses seguintes, as ações de Spartacus haviam garantido a lealdade de Carbo — e até o amor. O trácio cuidava dele. Gostava dele. Isso era mais do que seu próprio povo tinha se disposto a fazer. A consciência desse fato amargo havia tornado a ideia de lutar contra seu próprio povo mais aceitável, porém, lá no fundo Carbo ainda sentia um pouco de culpa. Ele olhava para as linhas de Gellius pressionando a mandíbula. Falou para si mesmo que aquele era apenas outro exército que devia ser varrido do mapa. Atrás deles estavam os Alpes. O plano de Spartacus era liderá-los pelas montanhas, longe da influência da República. Ali, todo inimigo que encontrassem seria estrangeiro. E, era preciso admitir, mais fáceis de matar.
Antes disso, eles tinham que derrotar Gellius. Pensou em Crassus, o homem que arruinou sua família e destruiu sua vida. O ódio tomou conta de Carbo, um sentimento que crescia por saber que nunca poderia se vingar do homem mais rico de Roma. Em vez disso, Carbo tentou imaginar que todos os homens na sua frente estavam relacionados com o político desonesto. Isso ajudava.
Seu olhar se virou para a figura compacta de Spartacus, vestido com uma cota de malhas polidas, porta-espadas dourado e um magnífico capacete frígio. Para surpresa de Carbo, os olhos cinza penetrantes do trácio o observavam. Spartacus fez um breve aceno, como se dissesse “Estou feliz por você estar aqui”.
Carbo levantou os ombros. “Vou fazer o que for preciso hoje.”
Spartacus avaliava o humor de seus homens. O que ele viu o agradou. Organizados em centúrias e tropas, treinados e armados como o inimigo, eles estavam prontos. Ele estava pronto. Aqui havia uma nova chance de derramar o sangue romano. Para vingar ainda mais Maron, seu irmão morto ao lutar contra as legiões — as legiões que tinham destruído sua terra natal, a Trácia. “Eu ainda posso vê-la de novo. Gellius e seus homens são o único obstáculo no caminho.” Ele deu um meio-sorriso. Kotys, o rei malévolo da tribo de Spartacus, os Medo, e o responsável por sua escravidão, tomaria um choque quando ele voltasse. “Mal posso esperar para vê-lo.” Spartacus colocou nos lábios o apito de latão que estava pendurado por um fio ao redor do pescoço. Quando assoprou, indicando o avanço, os trombetistas avisaram todo o exército.
Seu plano era simples. Ele tinha organizado seus soldados em duas linhas profundas separadas por uns trinta passos. Castus — o gladiador gaulês que o ajudara em sua fuga; um homem baixo, determinado e com um temperamento tão ardente quanto seu cabelo vermelho — era o líder da ala esquerda. Gannicus, outro gaulês do ludo, comandava a direita; ele era tão obstinado quanto o primeiro, porém, era mais equilibrado, e Spartacus tinha mais coisas em comum com ele. Ao seu sinal, todos eles avançariam em um grande bloco e, depois de jogar seus dardos, enfrentariam os romanos corpo a corpo. Se as coisas saíssem bem, o número superior e o moral alto dos rebeldes logo permitiriam que dominassem as legiões de Gellius. Enquanto isso, a cavalaria derrotaria os cavalos inimigos e poderia atacar os legionários pela retaguarda. A derrota dos romanos seria total; suas perdas, muito maiores do que em qualquer um dos encontros anteriores.
No final do dia, Roma teria aprendido outra lição. “Grande Cavaleiro, garanta que seja assim. Cuide de todos nós nas próximas horas”, rezou Spartacus. “Dionísio, empreste-nos a força de suas mênades.” Enquanto o deus-herói trácio era seu principal guia na vida, ele também tinha aprendido a reverenciar a deidade associada ao vinho, à embriaguez e à obsessão religiosa, que era adorado por sua esposa, Ariadne. Seu incrível sonho, no qual uma cobra venenosa se enrolava ao redor de seu pescoço, o marcara como um seguidor de Dionísio. “Que sempre seja assim.”
Ele encheu os pulmões e se preparou para apitar.
Tan-tara-tara-tara fez a bucinae romana.
Spartacus segurou o fôlego, esperando que as legiões avançassem.
As trombetas do inimigo tocaram de novo, porém, nada aconteceu.
“Que diabos Gellius está fazendo?”
Para seu espanto, um cavaleiro surgiu de uma abertura no centro da linha romana. Nenhum legionário se moveu enquanto ele cavalgava direto ao encontro de Spartacus.
Os homens de Spartacus estavam com tanta vontade de iniciar o combate que poucos notaram.
— Vamos destruí-los! — berrou Pulcher, sendo seguido por gritos de aprovação.
— Fiquem onde estão! — ordenou Spartacus. — Gellius tem algo a dizer. Um mensageiro se aproxima.
— E daí? — gritou alguém das fileiras. — É hora de matar!
— Vocês terão essa oportunidade. Mas quero saber do que se trata.
Spartacus direcionou um olhar gélido a seus homens.
— O primeiro tonto que mover um músculo ou soltar um dardo vai ter que se ver comigo. Está claro?
— Sim — veio a resposta em voz baixa.
— Não ouvi!
— SIM!
Spartacus observou a aproximação do cavaleiro. “Não estou gostando disso.” Felizmente, ele não tinha muito tempo para pensar. Menos de quatrocentos metros separavam os dois exércitos. Quando o romano chegou perto, diminuiu a velocidade do cavalo, de uma linda cor castanha. Ele parecia estar desarmado. Spartacus notou sua couraça de bronze polido, o capacete escarlate e a postura confiante. Era um oficial sênior, provavelmente um tribuno, um dos seis homens experientes que auxiliavam o cônsul no comando de cada legião.
— Essa distância já é suficiente — disse Spartacus quando o enviado estava a vinte passos dele.
Levantando a mão direita em um gesto pacífico, o romano avançou vários passos.
— Não confie no bastardo! — gritou Aventianus.
O romano sorriu.
Spartacus levantou sua sica de forma ameaçadora.
— Chegue mais perto e eu o enviarei a Hades.
Não houve nenhuma resposta, mas o romano enfim puxou as rédeas com força.
— Sou Sextus Baculus, tribuno da Terceira Legião. E você é?
Seu tom não poderia ser mais condescendente.
— Você sabe quem eu sou. Se não souber, é um saco mais cheio de merda do que parece.
Os homens de Spartacus riram com deleite.
O rosto de Baculus ficou vermelho e ele engoliu uma resposta brava.
— Fui mandado por Lucius Gellius, cônsul de Roma. Eu...
— Nós vimos seu colega Lentulus faz algumas semanas — interrompeu Spartacus. — Você ficou sabendo desse pequeno encontro?
Mais risadas divertidas irromperam. As orelhas do cavalo de Baculus se viraram para trás e depois para todos os lados. O tribuno recobrou o controle ao lançar uma praga baixinho.
— Você e essa ralé pagarão caro por esse dia — soltou ele.
— Jura?
— Não estou aqui para conversar com escravos...
— Escravos? — Spartacus virou a cabeça para os lados. — Não estou vendo nenhum escravo aqui. Só homens livres.
O grito que irrompeu nesse momento foi três vezes mais alto do que os anteriores.
— Ouça-me, trácio selvagem — disse Baculus. Ele levantou a mão esquerda, que esteve o tempo todo abaixada. Levando o braço para trás, jogou uma bolsa de couro para Spartacus. — Um presente de Lucius Gellius e Quintus Arrius, seu promagistrado — gritou, enquanto a bolsa voava pelos ares.
Spartacus não gostou do barulho que a bolsa fez ao cair a seus pés, ou o fraco fedor que alcançou seu nariz. Não fez nenhum movimento para pegá-la. Tinha uma ideia do que ela continha. Vários de seus patrulheiros haviam desaparecido nas semanas anteriores; ele presumiu que tinham sido capturados pelos romanos. “Qual é este, eu me pergunto? Pobre coitado. Não deve ter tido uma morte fácil.”
— Vamos lá, dê uma olhada. — Baculus sorriu. — Nós guardamos com sal especialmente para você.
“Então não é um patrulheiro. Agora sei quem é.”
— Você não tem nada mais a dizer?
— Posso esperar.
— Seu idiota arrogante.
A sacola não estava amarrada, então Spartacus a suspendeu. Não ficou surpreso de que a primeira coisa a cair ter sido uma cabeça decapitada, mas não esperava a mão do homem que se seguiu. Agarrou o cabelo loiro manchado de sangue e sentiu um aperto no estômago. Ele rolou a cabeça que estava parcialmente putrefata, com grãos de sal grudados no globo ocular, os lábios cinzentos e o corte avermelhado no pescoço. Os traços antes belos estavam irreconhecíveis, porém, era Crixus. Não havia dúvidas. A enorme cicatriz no nariz do homem era prova suficiente. O próprio Spartacus havia feito aquela ferida. A luta entre eles tinha sido inevitável desde o primeiro encontro, quando sentiram aversão um pelo outro. Mas, mesmo assim, ele sentiu pena por ver Crixus morto.
Depois de Spartacus ter derrotado Crixus na tal luta, o gaulês e seus seguidores se uniram a seu grupo. Tiveram um papel importante na fuga do ludo. Um guerreiro perigoso e agressivo, Crixus tinha sido um problema para Spartacus, questionando sua liderança e sempre tentando ganhar o apoio de Castus e Gannicus. Crixus havia se separado do exército principal depois de uma batalha em Thurii na qual tinham vencido o pretor Publius Varinius. Cerca de vinte ou trinta mil homens tinham partido com ele. Spartacus ouvira rumores de seu progresso através do centro da Itália, mas eles não tiveram mais contato. Até agora. O medonho troféu não era um bom presságio para o destino dos homens que seguiam Crixus, mas Spartacus manteve o rosto impassível.
— Ele não merecia ser tratado assim.
— Não? — indagou Baculus. — Crixus. — Ele sorriu com as reações chocadas dos homens de Spartacus. — Sim, é ele. Crixus não era nada mais do que um escravo assassino que mutilava soldados romanos sem nenhum motivo. Ele merecia tudo que foi feito com ele e muito mais.
Spartacus se lembrava de como Crixus tinha mandado que as mãos de mais de vinte legionários em Thurii fossem amputadas. Ele não concordou com o que aconteceu, mas não havia se surpreendido com o ato do gaulês. “Os romanos não perdoariam — nem esqueceriam — isso.”
— Você fez isso com o cadáver dele! Crixus nunca teria sido aprisionado vivo — gritou ele. Sua vontade era matar Baculus no ato, para evitar que ele entregasse a mensagem, mas o homem era um enviado, e corajoso também. Era preciso ser valente para vir até seu exército sozinho e desarmado.
— Crixus foi para o Hades sabendo que mais de dois terços da ralé que o seguiu em seu levante tinham morrido com ele — anunciou Baculus e ergueu a voz. — Vocês estão me ouvindo, seus bastardos? Crixus está morto! MORTO! Assim como a maioria de seus quinze mil seguidores! Um em cada dez dos prisioneiros que fizemos teve a mão direita cortada. Tenham certeza de que tais destinos esperam por todos vocês aqui hoje!
Depois de ouvir o nome “Crixus”, Carbo ficou surdo ao resto das ameaças de Baculus. Seu mundo simplesmente se fechou ao redor dele. “Crixus está morto? Agradeço a Júpiter. Agradeço a Dionísio!” Essa tinha sido uma de suas orações mais fervorosas; uma que ele achou que nunca seria respondida. Durante o saque a uma cidade chamada Forum Annii, alguns meses antes, Crixus e dois de seus comparsas estupraram Chloris, a mulher de Carbo. Spartacus o ajudou a salvá-la, mas ela morreu em virtude das feridas, algumas horas depois. Inflamado pela dor, Carbo tinha partido para matar Crixus, mas Spartacus pediu que ele jurasse não fazer isso. Na época, o gaulês ainda era o líder vital de parte do exército escravo. Foi um pedido que Carbo acatou, relutante.
No entanto, quando Crixus anunciou que partiria, liberando-o assim de sua promessa, Carbo não fez nada — porque o gaulês o teria trucidado. Dizer a si mesmo que Chloris teria preferido que ele vivesse havia funcionado até agora, mas ao olhar a cabeça apodrecida de Crixus, Carbo sabia que simplesmente tivera medo de morrer. No entanto, a imensa satisfação que agora sentia superava quaisquer preocupações sobre se morreria na batalha seguinte. “O bastardo morreu sabendo que tinha fracassado — isso é o que importa.”
Spartacus podia sentir, sem olhar, o nível de desânimo que a cabeça de Crixus e as notícias de Baculus tinham causado entre seus homens. Ele levantou a sica e avançou em direção ao tribuno.
— Foda-se. Diga a Gellius que vou matá-lo! E você também.
— Estaremos prontos. Assim como nossas legiões — respondeu decidido Baculus. Ele levou a mão à boca. — Meus homens estão loucos para lutar! Eles matarão milhares de vocês, escravos!
Spartacus disparou e deu um golpe muito forte com a lateral de sua espada no corcel de Baculus, que avançou tão repentinamente que o tribuno quase caiu da sela. Xingando, este agarrou as rédeas e conseguiu controlá-lo. Spartacus o ameaçou com a sica. Com os olhos cravados nele, Baculus virou sua montaria para as próprias fileiras.
— Agradeça por eu honrar sua posição! — gritou Spartacus.
Com as costas eretas, Baculus cavalgou em silêncio e não olhou para trás.
Spartacus cuspiu no chão. “Espero que não sejam tão corajosos quanto ele.” Tirando Baculus da mente, ele se virou para seus homens. O medo estava estampado em muitos rostos. A maioria parecia menos confiante. Um silêncio desconfortável tinha substituído o grito estridente e o bater de armas. Eram essas mudanças de humor que poderiam levar à derrota em uma batalha, Spartacus já tinha visto isso antes. “Preciso agir e rápido.” Inclinando-se, pegou a cabeça mutilada de Crixus e a mostrou aos soldados.
— Todo mundo sabe que Crixus e eu não nos dávamos bem.
— Isso para dizer o mínimo! — gritou Pulcher.
Todos riram.
“Ótimo.”
— Apesar de não sermos amigos, eu respeitava a sua coragem e liderança. Respeitava os homens que escolheram partir com ele. Ver isto — ele levantou bem alto a cabeça de Crixus — e saber o que aconteceu com nossos camaradas me deixa bravo. Muito bravo!
Um urro retumbante e inarticulado foi a resposta a suas palavras.
— Vocês querem vingança por Crixus? Vingança para nossos irmãos de armas?
— SIM! — berraram eles em resposta.
— VIN-GAN-ÇA! — Spartacus virou a sica e a apontou para as legiões. — VIN-GAN-ÇA!
— VIN-GAN-ÇA!
Deixou que eles expressassem sua fúria pelo tempo de vinte batidas do coração. Então, feliz de que a coragem deles continuasse, apitou com toda a força. O som não chegou muito longe, mas os trombetistas bem-treinados o observavam. Uma série de notas de seus instrumentos colocou um fim ab-rupto aos gritos.
Spartacus enfiou a cabeça de Crixus de volta à sacola. Se ele deixasse os restos onde estavam, nunca mais os encontraria. O gaulês — ou pelo menos o que restava dele — merecia um enterro decente. Amarrou a pesada sacola no cinto e pediu ao Grande Cavaleiro que ela não o atrapalhasse na batalha que viria. Com isso, retomou seu lugar na primeira fileira. Sorrindo, Aventianus entregou seu escudo e lança. Carbo, junto com Navio, o veterano romano recrutado por este para a causa, assentiu mostrando estar pronto. Taxacis, um dos dois citas que, sem que fosse necessário pedir, tinham se tornado seus guarda-costas, mostrou os dentes em um rosnado silencioso.
— Avancem! — gritou Spartacus. — Mantenham-se em linha com seus camaradas! Mantenham os espaços entre as fileiras!
Eles avançaram de forma uníssona, milhares de pés pisoteando a grama baixa. Nas alas, a cavalaria de Spartacus bradava e gritava, forçando seus cavalos a trotar.
— Os cavaleiros de Gellius vão se mijar ao verem quantos somos! — berrou Spartacus.
Seus homens mais próximos concordaram, mas, no mesmo instante, a bucinae romana foi tocada. Os legionários estavam avançando.
— Preparem-se, homens. Dardos a postos. Vamos atirar a trinta passos, não mais.
Spartacus sentiu o apertão habitual no estômago. Ele sempre sentia a mesma mistura de emoções antes de cada batalha travada. Um traço traidor do medo de não sobreviver. A emoção inspiradora de marchar lado a lado com seus camaradas. O orgulho de que estes eram homens que morreriam por ele sem vacilar — assim como ele faria. Spartacus honrava o odor de suor e couro oleosos, as orações mudas e os pedidos aos deuses, o som de dardos batendo nos escudos. Agradeceu ao Grande Cavaleiro por outra oportunidade de poder atacar as forças de Roma, que tinham de súbito enviado seus exércitos à Trácia, onde derrotaram a maioria das tribos, destruído inumeráveis vilas e matado seu povo aos milhares.
Antes de ser traído e vendido como escravo, o plano de Spartacus fora unir o disperso grupo de trácios e expulsar as legiões de suas terras para sempre. No ludo, tais ideias tinham sido nada mais do que fantasias, mas a vida mudou no dia em que ele e 72 outros escravos conquistaram o caminho para a liberdade. O coração de Spartacus batia forte, apreensivo. Ele tinha provado que quase tudo era possível. Depois que os soldados de Gellius fossem derrotados, a estrada para os Alpes estaria liberada.
Ele olhou a linha de legionários se aproximando, agora podendo distinguir os rostos de cada homem.
— Cinquenta passos. Não se antecipem! Esperem a minha ordem.
Vários dardos foram arremessados das fileiras romanas. Seguiram-se mais alguns. Os gritos enraivecidos dos centuriões mandando que seus soldados parassem de atirar eram ouvidos enquanto as lanças golpeavam a terra entre os dois exércitos. Spartacus riu. Apenas um punhado de seus homens respondeu lançando seus próprios dardos.
— Veem isso? Os cães romanos estão nervosos!
Gritos alegres subiram de suas tropas.
Tramp, tramp, tramp.
O suor escorreu pela testa de Carbo, chegando aos olhos. Ele piscou, focando o olhar em um legionário logo à sua frente. O soldado era jovem — mais ou menos da idade dele, na verdade — e seu rosto liso estampava uma expressão de medo. Carbo endureceu o coração. “Ele escolheu seu lado. Eu escolhi o meu. Os deuses decidirão qual de nós sobreviverá.” Carbo firmou o braço direito, garantindo o equilíbrio de seu dardo. Mirou no legionário.
— Quarenta passos! — berrou Spartacus. — Aguentem firmes! — Ele escolheu seu alvo, o centurião mais próximo na primeira fileira romana. Se por alguma sorte o oficial caísse, a resistência naquela seção da fila vacilaria ou até desmoronaria. Ele franziu a testa. Por que os legionários ainda não tinham lançado suas lanças? “Gellius deve ter ordenado que seus soldados só agissem no último instante. Uma tática arriscada.”
Trinta e cinco passos. Cada vez mais animado, Spartacus contou os últimos cinco passos e depois gritou:
— Três fileiras da frente, atirem!
Jogando o braço direito para trás, ele arremessou o dardo em direção ao céu azul. Centenas de lanças se juntaram, formando um denso e rápido enxame que enegreceu brevemente o ar entre os exércitos antes de descer em uma chuva letal de metal pontiagudo. Os oficiais romanos gritaram para seus homens, ordenando que levantassem os escudos. Spartacus sorriu com satisfação enquanto assistia. Lentos. Eles eram muito lentos. Os dardos de seus homens caíram, fazendo com que muitos escudo se tornassem inúteis e também enfiando-se fundo na carne de legionários que não tinham obedecido as ordens rápido o bastante. Era raro que ataques de dardos fossem tão eficientes. “Aproveite a oportunidade.”
— Atirem a segunda lança! — ordenou ele. No instante que tais dardos tinham sido jogados, ele berrou: — Três primeiras fileiras, fiquem de joelhos! — Olhou para os lados, e ficou contente ao ver que os oficiais mais próximos copiavam seu comando. Os trombetistas logo repetiram a ordem por todas as filas. — Fileiras quatro, cinco e seis, preparem os dardos! Ao meu comando. ATAQUEM!
Uma terceira chuva de lanças saiu formando um arco lento. Pela direita e pela esquerda, outros incontáveis projéteis se juntaram. Spartacus não conseguiu ver nenhum dardo romano sendo atirado em resposta. Os legionários estavam bastante desordenados. Com sorte, sua cavalaria estava causando o caos nos flancos. Com a esperança queimando dentro de si, ele ordenou uma quarta salva.
— De pé! Saquem as espadas! Aproximem-se!
Tranquilos, seus homens nas primeiras fileiras se moveram para ficar ombro a ombro. Eles batiam seus escudos uns contra os outros enquanto os soldados nas filas subsequentes corriam para ficar bem atrás, usando as scuta para fortalecer a fila.
No instante em que ficaram prontos, Spartacus gritou:
— ATAQUEM!
Com um grito forte, eles começaram a correr na direção dos romanos. Um dardo ocasional veio voando até eles, mas não houve uma resposta organizada. Spartacus tinha visto sua lança acertar o centurião no peito, jogando-o para trás e acertando o escudo do homem atrás dele. Não tinha ideia de onde seu segundo dardo fora parar, mas não importava. O essencial era acertar os romanos o mais forte possível. Logo cobriram os últimos passos. Para Spartacus era fundamental não perder tempo. Ele estava entre seus camaradas e os soldados romanos. Tentava não perder o passo, queria matar ou anular seus oponentes o mais rápido que pudesse. Às vezes, a bolsa com a cabeça e a mão de Crixus balançava e ameaçava desequilibrá-lo, mas Spartacus aprendeu a antecipar seus movimentos. O peso alimentava sua raiva, seu ódio por Roma. “Crixus e seus homens devem ser vingados.”
Ele prosseguiu no combate. Atacar com o escudo e ver o inimigo jogar a cabeça para trás por reflexo. Enfiar sua espada na garganta dele. Levantar o escudo para evitar o jorro de sangue quente que sai ao puxar a sica. Verificar à esquerda e à direita para ter certeza de que seus companheiros estão todos bem. Procurar um novo alvo. Golpeá-lo na barriga. Ver como ele se contorce em agonia. Firmar-se com o escudo. Rasgar com a espada. Pisar a massa do que tinha sido um homem. Berrar como um maníaco. Defender-se do ataque frenético de um legionário com o escudo. Passar sua lâmina por cima do escudo do outro, acertando direto na boca dele. Ouvir o grito abafado e curto de agonia. Sentir o ferro raspar os ossos dos pescoços romanos. Ver a luz em seus olhos se apagar como um lampião assoprado. Avançar. Matar outro soldado. Pisar seu cadáver. Procurar outro inimigo para matar. E outro.
E continuar assim, sem parar.
De repente, não havia mais legionários diante dele.
Spartacus fez uma carranca. Seu desejo de sangue não estava nem perto de ser saciado. Percebeu que alguém gritava em seu ouvido. Confuso, ele se virou e reconheceu o nariz achatado de Taxacis.
— Hã?
— Romanos... fugindo.
A visão avermelhada de Spartacus foi recuperada.
— Estão fugindo?
Taxacis riu.
— Estão. Olhe!
Dessa vez, o que Spartacus viu fez sentido. Todo o centro da linha de Gellius tinha se virado e fugia do campo de batalha. Centenas de legionários estavam caídos ao redor deles, mortos, agonizando ou gritando por causa de suas feridas. Havia muitas armas e escudos espalhados. O cônsul tinha desaparecido. No entanto, aqui e ali, pequenos grupos de romanos continuavam lutando. Em geral estavam defendendo um estandarte, mas tais esforços heroicos faziam pouca diferença para as hordas dos soldados de Spartacus que os cercavam. De ambos os lados, as legiões seguiam firmes, mas não por muito mais tempo, ele previu. Seus cavaleiros já podiam ser vistos por trás das posições romanas, o que significava que a cavalaria inimiga já tinha sido derrotada. Os flancos de Gellius não aguentariam uma carga vinda por trás. Nenhuma tropa no mundo conseguiria fazer isso.
— Nós vencemos — falou ele lentamente. — De novo.
— Graças a você!
Taxacis deu um tapa em suas costas. Spartacus percebeu a admiração em seus olhos.
— Você não é apenas... um bom general. Também é um excelente... guerreiro. Os romanos acharam que... tinha chegado um demônio. — Com um sorriso bem largo, ele levantou o punho no ar. — SPAR-TA-CUS!
Todo homem por perto seguiu o refrão.
— SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS!
A euforia de Spartacus diminuiu um pouco quando ele se lembrou dos que tinham morrido para que tal momento acontecesse. Seuthes e Getas, irmãos de armas trácios. Oenomaus, o alemão carismático que foi o primeiro a apoiar o plano de Spartacus de escapar do ludo. Centenas de homens cujos nomes ele sequer sabia. “Eu sempre vou honrá-los.” Olhou para a bolsa suspensa em sua cintura. “Inclusive você.”
— Não devemos esquecer Crixus, e todos os seus seguidores que morreram.
— Crixus era um... cretino — resmungou Taxacis —, mas ele era... um cretino corajoso.
— Sim, ele era — concordou Spartacus. Ele olhou para o grupo mais próximo de legionários, que tinham largado as armas e tentavam se render. Poucos estavam conseguindo. Ele não costumava se importar com isso, mas teve uma inspiração. — Deixem que vivam! — gritou ele. — Juntem os homens que desejam se render e tragam-nos para nosso campo.
Taxacis o encarou, confuso.
— Vocês entenderão mais tarde.
Spartacus não falou mais nada. Ainda não tinha o plano todo traçado em sua mente.
Desde que Spartacus liderou seu exército para fora do vasto acampamento aquela manhã, Ariadne se manteve ocupada. Primeiro, ela sacrificou um galo a Dionísio, prometendo ao deus a oferta posterior de um bom touro se o marido voltasse ileso — e vitorioso — da batalha. Ela não tinha feito nenhuma tentativa de entrar no estado de transe que às vezes lhe permitia comungar com Dionísio. Anos como sacerdotisa a ensinaram que nunca deveria esperar uma visão quando se tratava de algo muito importante. O deus que ela seguia era ainda mais volúvel do que as outras deidades. A melhor estratégia quando ela lhe fazia pedidos era ocupar sua mente com outras questões.
Não havia nenhuma chance de assistir à batalha. Não era surpreendente que Spartacus tivesse proibido isso, e a presença constante de Atheas, o outro cita, significava que qualquer tentativa de desobedecê-lo seria perda de tempo ou inútil. Contudo, ela não conseguia ficar esperando, preocupada e se lamentando, como algumas das outras mulheres faziam. “Eu posso estar grávida, mas isso não significa que não possa ser útil.” Manter-se ocupada a ajudava a ignorar o ocasional som distante de trombetas carregado pelo ar.
Ela só tinha quatro meses de gravidez. Até agora, Ariadne havia conseguido esconder sua barriga redonda e os seios maiores com vestidos mais largos e se banhando longe da vista das outras. No entanto, devido aos recentes olhares que estava recebendo, ela sabia que não demoraria muito para a notícia de que estava esperando um filho de Spartacus se espalhar. Isso se seu cabelo negro lustroso e a pele oleosa já não tivessem entregado sua gravidez. Havia outros sinais também. Ela tinha notado no espelho de bronze que seu rosto em formato de coração tinha ficado mais suave e mais atrativo. “Desfrute isso enquanto durar”, pensou ela.
Sentiu uma alegria intensa enquanto imaginava um bebê forte, com seu marido sorrindo para os dois. Tal sensação foi instantaneamente substituída por um terror conhecido. E se sua interpretação do sonho de Spartacus estivesse equivocada? E ele estivesse destinado a morrer em batalha contra os romanos? Seria hoje? “Pare de pensar assim. Ele vai vencer. Vamos cruzar os Alpes enquanto ainda for verão. Sair de uma vez da Itália.” Sentiu-se mais feliz com esse pensamento. Poucas tribos ousariam impedir a passagem de seu exército — mesmo que este estivesse exausto —, e eles conseguiriam avançar para a Trácia. “Mal posso esperar para ver a cara de Kotys”, pensou, vingativa. “Ele vai pagar pelo que fez conosco. Assim como Polles, o campeão do rei.”
— Pare de sonhar acordada — falou para si mesma. — Não provoque o destino.
Atheas, que arrumava uma pilha de ataduras, levantou a cabeça.
— O quê?
— Nada. — “De acordo com a vontade dos deuses, minhas esperanças se realizarão.” Ariadne contou os rolos de linho empilhados a seus pés. Eles serviriam para envolver as feridas terríveis que logo seriam vistas.
— Quinhentos. Não é suficiente.
Seu olhar se voltou para o grupo de mulheres que rasgavam lençóis, túnicas e vestidos de vários tamanhos. Para seu alívio, a quantidade de roupas aos pés delas ainda era razoável.
— Mais rápido. Podemos precisar de todos eles.
Ela não ficou surpresa quando as mulheres baixaram as cabeças e a conversa murchou, transformando-se em um ocasional sussurro. Como esposa de Spartacus, ela era respeitada, mas o fato de ser sacerdotisa de Dionísio aproximara ainda mais seu status ao dele. Os escravos tinham uma estima especial pelo deus. “Sou parte da razão pela qual Spartacus tem tantos seguidores”, refletiu ela, com orgulho. “Que isso persista por muito tempo.”
Tirando de sua mente tudo que não fosse relacionado ao preparo para receber os feridos, Ariadne embarcou em uma patrulha pela área do hospital, posicionada na extremidade do acampamento mais próxima do campo de batalha. Ela verificou que os cirurgiões e os carregadores estavam prontos, que havia muito suprimento de vinho para os feridos e ordenou que outras cinquenta camas fossem montadas. Todo o processo não demorou tanto quando ela teria desejado. Quando terminou, suas preocupações voltaram. Ela olhou para o sol, que estava no ponto mais alto do céu.
— Eles partiram há quatro horas.
— Isso não é... muito tempo — pronunciou Atheas, tentando sem sucesso parecer seguro.
Ariadne suspirou.
— Parece uma eternidade.
— A batalha poderia... durar... dia todo.
Ela vasculhou a mente pensando em algo para fazer, uma tarefa que evitaria que agonizasse imaginando os piores resultados possíveis para Spartacus e seus homens.
Tan-tara-tara. Ariadne pulou. O som da trombeta estava perto. Não mais do que uns quinhentos metros de distância. O medo correu por suas veias.
— São os...
— Romanos? — completou Atheas.
— Isso.
— Não... tenho certeza. — Ele inclinou a cabeça e apurou os ouvidos.
Tan-tara-tara. Tan-tara-tara. As trombetas estavam um pouco mais perto agora, permitindo que Ariadne percebesse as explosões irregulares e as notas meio desafinadas. Seu coração acelerou com alegria, e ela quase não ouviu Atheas falar que “os trombeteiros romanos... tocam melhor”. “Então eles ganharam! Que ele esteja vivo, Dionísio. Por favor.” Ariadne não correu para encontrar os soldados que voltavam como fizera depois da batalha contra Lentulus. Em vez disso, caminhou o mais calmamente que pôde até o começo da trilha que Spartacus e seus homens usaram aquela manhã. Atheas a seguiu de perto. A dupla era seguida por quase todo mundo — uma multidão composta de mulheres. Orações proferidas em voz alta pelo retorno seguro de seus homens enchiam o ar.
A única concessão de Ariadne a sua agitação interna era apertar o punho, sem que ninguém visse. O rosto tatuado de Atheas, como sempre, estava impassível.
Quando a multidão alegre de soldados fez a curva e ela viu Spartacus entre eles, sem nenhum ferimento, os joelhos de Ariadne cederam de alívio. Sentiu gratidão pela mão de Atheas, que agarrou seu braço até que ela recuperasse as forças.
— Eles conseguiram de novo.
— Ele é... um grande líder.
Ariadne deixou as mulheres correrem até seus homens, esperando que Spartacus viesse ao seu encontro. Taxacis, que estava com ele, gritou satisfeito para Atheas em sua voz gutural. Carbo acenou para Ariadne, que estava tão feliz que quase se esqueceu de responder.
Sem que fosse preciso pedir, os homens de Spartacus se afastaram, permitindo que os dois tivessem certa privacidade. Eles cantavam o nome dele ao passar, e Ariadne percebia a grande admiração que sentiam por seu líder. Spartacus carregava seu capacete debaixo do braço e, como seus soldados, estava sujo dos pés à cabeça. Isso lhe dava uma aura de invencibilidade, segundo ela. De alguma forma, entre a loucura e a destruição da batalha, ele não só tinha matado seus inimigos, como também liderara seus homens à vitória e sobrevivera. Por trás do vermelho cobrindo seu rosto, seus olhos cinzentos ainda brilhavam. Entretanto, havia uma fúria reluzente neles que impedia que Ariadne se jogasse em seus braços como gostaria.
— Vocês venceram.
— Vencemos, graças ao Grande Cavaleiro. Foram pegos desprevenidos por nossos ataques de dardos e não conseguiram se recuperar da nossa investida inicial. O centro deles caiu. Nossa cavalaria arrasou com seus cavalos e depois atacou os flancos deles por trás. Foi uma vitória total.
— Você não parece tão feliz. Gellius escapou?
— Claro. Correu como um rato escapando de um navio afundando. Mas não me preocupo com ele. — Spartacus bateu na sacola pendurada na cintura. — É isto, e o que significa.
Ariadne sentiu o cheiro de carne apodrecida, e seu estômago embrulhou.
— O que é isso?
— O que restou de Crixus — respondeu. — A cabeça e a mão direita.
Ariadne foi tomada pelo horror.
— Como?...
— Antes do início da batalha, um tribuno bastardo e convencido veio até mim e jogou a bolsa na minha frente. Gellius queria que nossos homens entrassem em pânico e conseguiu. No entanto, eu os convenci. Alimentei o ódio deles. Ofereci vingança por aqueles que tinham caído.
— Foram muitos?
— Mais da metade do exército de Crixus. — Os olhos de Spartacus perderam o foco. — Tantas vidas perdidas em vão.
Ela se sentiu grata por Spartacus estar vivo.
— Eles partiram por vontade própria.
Foi como se ele não a tivesse ouvido.
— Quero fazer um funeral em memória deles esta noite. Haverá uma enorme fogueira, e antes disso devemos ver nosso próprio munus. — Ele percebeu o olhar confuso dela. — Mas os homens que vão participar não serão escravos ou gladiadores. Em vez disso, serão homens livres. Cidadãos romanos. Acho que Crixus teria gostado que fosse assim. Meus soldados sem dúvida gostarão. Uma oferta dessa magnitude agradará o Grande Cavaleiro e Dionísio. Deve garantir que nosso caminho para o norte permanecerá aberto.
— Eles lutarão até a morte?
Ele soltou uma risada nervosa.
— Vão! Achei que quatrocentos seria um bom número. Eles podem lutar em pares. Os duzentos que sobreviverem às primeiras lutas se enfrentarão, então os cem restantes combaterão, e assim por diante, até que sobre um único homem. Este pode levar a notícia para Roma.
Ariadne ficou um pouco chocada. Nunca tinha visto Spartacus tão brutal.
— Você tem certeza?
— Nunca tive tanta certeza. Isso mostrará a esses malditos em Roma que nós, escravos, podemos fazer o que quisermos. Que somos, em todos os sentidos, iguais a eles.
— Eles não pensarão isso. Apenas nos verão como selvagens.
— Que pensem o que quiserem — respondeu ele ab-ruptamente. O ódio quente da batalha tinha sido substituído por uma fúria fria e impiedosa. Era um sentimento que o dominava às vezes. Como quando Maron, seu irmão, morreu em meio a berros de agonia, com o corpo tomado pelo veneno de uma ferida no estômago. Como quando Getas, um de seus amigos mais antigos, colocou-se diante de uma lâmina destinada a ele, Spartacus. E, mais recentemente, como ocorrera pouco antes da batalha contra o cônsul Lentulus. Ele respirou fundo, saboreando a raiva gelada. Nesse exato momento, Spartacus teria matado todo romano existente. “Essa é a única forma de ensiná-los a me respeitar”, pensou. “Temendo-me. O munus será um começo.”
— A humilhação vai deixar os romanos enfurecidos. Eles juntarão suas legiões e virão atrás de você mais uma vez.
— Já teremos partido há muito tempo — afirmou ele.
“Graças a todos os deuses.” Ariadne tinha se preocupado que esse sucesso recente o fizesse mudar de ideia sobre partir da Itália. “Com sorte, meu filho nascerá na Gália ou até na Ilíria.” Ela se agarrava a essa esperança.