Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 19 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo XVIII

 

Parte alta do vale Silarus, norte de Paestum

Os oficiais seniores de Spartacus começaram a se organizar fora das barracas quando o céu ainda estava cheio de estrelas. Ao ouvir os murmúrios, o trácio se remexeu ao lado do berço, mas nada fez além disso. Era difícil deixar seu filho, que dormia. Com o cabelo despenteado, lindo e com o polegar na boca, Maron era a imagem da inocência. “Que ele permaneça assim por muito tempo”, pediu Spartacus. “Antes que a vida o mude, que o endureça.” Beijou os primeiros dois dedos da mão direita e os deslizou pela testa da criança. “Durma bem, meu filho. Verei você mais tarde.”

Ele já estava vestido. Túnica, proteção peitoral, malha, sandálias com pregos. Faixa sobre o ombro, sica na bainha do lado esquerdo. Um cinto de couro com uma adaga embainhada. Procurou embaixo do banco ao lado da cama e pegou seu elmo frígio.

— Você pretendia partir sem se despedir?

Ele olhou surpreso para Ariadne.

— Pensei que estivesse dormindo.

Ela riu de desdém.

— Passei a noite rezando. Olhando para o teto. Ou para você. — Na verdade, ela dormiu por um tempo, porém mais uma vez sua cabeça fora tomada pela imagem de homens crucificados. Ela não mencionaria isso agora, nem nunca. Tudo era apenas fruto da sua imaginação. “Permita que não passe disso, Dionísio.”

— Para mim? — Ele parecia ter achado graça.

— Por que não? Você é um homem bonito. — Ela estendeu o braço para passar o dedo pelo contorno do rosto dele. — Achei isso desde a primeira vez que o vi. Quando você me salvou dos homens de Kotys.

— Isso parece ter acontecido há uma vida. — Percebia-se um toque de nostalgia em sua voz. — Porém, consigo me lembrar de quando a conheci como se tivesse sido ontem. Você era linda. E ainda é — disse ele, sorrindo.

— Não vá embora assim — pediu ela, tentando não deixar a emoção transparecer em sua voz.

— Voltarei quando terminar de falar com os oficiais.

Ela assentiu, contente por a semiescuridão esconder as lágrimas que marejavam seus olhos.

Com o elmo embaixo do braço e carregando o escudo, Spartacus saiu da barraca. Sentia o velho embrulho no estômago. Assim como nas vezes em que saiu do túnel para a arena de gladiadores. Em vez de um único oponente, dessa vez ele encontrou Pulcher, Egbeo, Navio e Carbo a sua espera. Os quatro estavam vestidos para o combate. Com a respiração visível no ar frio, eles se movimentavam sem parar, numa tentativa de se aquecerem. Em vez de fileiras de assentos repletos de espectadores, havia o contorno escuro de uma montanha atrás deles.

Depois de quase uma semana marchando para o norte e para o oeste, e sabendo que Crassus os seguia, Spartacus ficou feliz ao encontrar aquele vale. Este era ladeado por montanhas. A leste, o platô nu atrás dele, e a oeste, um contorno de altura similar, só que com picos mais ondulantes. Na base do vale havia um rio, o Silarus, que corria em direção ao oeste para a planície costeira de Campânia. A terra ali era fértil. Viam-se casas de fazenda em meio a oliveiras e campos. Naquele lado do rio, havia um bom espaço aberto dedicado apenas ao cultivo do trigo. Foi o que chamou a atenção do trácio enquanto ele espiava o terreno do topo do maciço, dois dias antes. Não havia terreno plano — Spartacus estimava que tinha quase três quilômetros de extensão. Era o suficiente para suas tropas lutarem sem dar às legiões de Crassus espaço para cercá-los. Tal local prejudicava sua cavalaria, porém, não havia como evitar. O tempo não estava a favor deles, então aquele campo de batalha teria que servir.

Eles não estavam ali havia muito tempo — seriam 12 horas? —, quando os romanos os encontraram. Demorara mais uma noite e um dia para as legiões aparecerem. Elas vieram da direção oposta à do exército rebelde: subiram o vale vindas do oeste, uma coluna serpeante que demorou cinco horas para chegar. Ficou claro desde o começo que Crassus queria lutar. Em vez de usar o Silarus como barreira natural, primeiro sua cavalaria e depois os legionários vadearam o rio. Montaram acampamento na barranca, à beira do campo aberto que levava às barracas dos soldados de Spartacus. O movimento de provocação bloqueou todas as rotas de recuo, menos a leste. Os romanos não atacaram, porém lançaram o desafio mais direto possível.

Spartacus murmurou um cumprimento aos seus oficiais, que responderam com meneios de cabeça tensos. Ele já tinha decidido que Egbeo comandaria o flanco esquerdo e Pulcher, o direito. Navio estaria com ele, no centro. Carbo permaneceria com Ariadne e Maron, como nas batalhas anteriores.

— Os sentinelas viram algo durante a noite?

Ele ordenara que piquetes fossem montados muito além de suas filas para o caso de Crassus tentar alguma coisa.

— Nada até agora, senhor — respondeu Pulcher.

Spartacus olhou fixamente para o ferreiro.

— O que eles viram?

— Está muito escuro para enxergar, senhor. Mas ouviram o som de escavações.

— Onde?

— No campo diante dos lados do acampamento de Crassus, senhor.

— Os malditos devem estar cavando trincheiras para impedir os ataques de nossa cavalaria.

— Foi o que eu pensei, senhor — concordou Pulcher, franzindo o cenho.

— Nesse caso, só há uma coisa a se fazer. — Eles olharam para o trácio, em silêncio. — Atacar agora. Perturbar os soldados que estão cavando. Com a ajuda do Cavaleiro, eles terão que abandonar as trincheiras sem terminá-las. Egbeo, você pode se responsabilizar pelo flanco esquerdo?

O rosto marcado do trácio se abriu em um sorriso.

— Será um prazer!

— Pulcher, você fica com o direito.

— Claro.

— Quantos homens levaremos? — quis saber Egbeo.

— Seis coortes para cada flanco devem bastar. Se forem com mais, pode ser que eles não ouçam suas ordens. Levem alguns trompetistas junto para garantir. Afastem os romanos para longe de suas trincheiras. Quando fizerem isso, afastem-se. O restante do exército estará pronto até lá. Antes de irem, lembrem-se de instruírem seus oficiais para preparar os soldados. Por último, mandem os comandantes da cavalaria até mim. O que estão esperando?

Com sorrisos amplos, os dois se afastaram.

— Onde o senhor quer que fiquemos? — perguntou Navio.

— Vocês devem ficar comigo, no centro.

Navio sorriu.

— Será uma honra.

Spartacus os encarou.

— Vocês são meus soldados mais leais.

O estômago de Carbo embrulhou. Ele suspeitava o que Spartacus diria.

— Quero que você fique para trás, para proteger Ariadne e Maron. Hoje será mais difícil e mais desesperador do que qualquer batalha que já enfrentamos. Se as coisas derem errado...

— Deixe outra pessoa! — interrompeu Carbo. — Não farei isso. Não dessa vez! — Ao lado dele, Navio ficou tenso e surpreso.

Spartacus estreitou os olhos.

— Eu poderia lhe ordenar isso.

— Mas não vai — retrucou Carbo, enraivecido.

— E por que não vou?

— Porque Crassus é o homem que acabou com a minha família. É por causa dele que meus pais tiveram que ir para a casa de Varus. É o culpado pela morte deles! Essa é a primeira chance, desde Roma, que terei de matá-lo. Pode ser minha única oportunidade, e você não vai tirar isso de mim. — Carbo encarou Spartacus, temeroso, mas muito certo do que tinha feito.

Os olhos preocupados de Navio passaram de um para o outro.

— Ora, ora — começou Spartacus. — O franguinho finalmente está empinando a crista!

Carbo contraiu a mandíbula e se preparou para a resposta, castigo ou até mesmo a dispensa que seria aplicada pelo trácio.

— Muito bem, você pode lutar. Quem sou eu para atrapalhar a necessidade de vingança de um homem? Só peço que, em vez de se posicionar com Egbeo e sua coorte, fique comigo e Navio no centro. Pode fazer isso?

Carbo sentiu a garganta seca pela emoção repentina.

— Se-seria uma honra.

Um breve sorriso.

— Ótimo. Melhor começar a chamar os soldados, não? Quero todo o exército pronto para lutar dentro de duas horas.

— Sim, senhor! — Surpreso com a facilidade com que Spartacus havia cedido, Carbo se afastou depressa. Além de obedecer às ordens de seu líder, era essencial dizer a Arnax o que fazer se eles fossem derrotados. Navio o acompanhou, abrindo caminho entre as fileiras longas de barracas.

Spartacus os observou partir. Olhou para o céu a leste, que clareava depressa.

O dia tinha chegado. Ele chamou a atenção de Atheas e de Taxacis.

— Sem Carbo aqui, pensei em pedir a você, Taxacis, para proteger Ariadne com Atheas se as coisas derem errado. Eu ficaria mais tranquilo com vocês ao lado dela, porém acho que chamariam atenção demais.

Taxacis fez um bico e apontou para as tatuagens em seu rosto e nos braços.

— Estas... são percebidas.

— E não seria bom para Ariadne e o bebê. Quanto menos atenção, melhor. Pedirei a outra pessoa. — “Aventianus, o escravo com a cicatriz no rosto”, pensou Spartacus. Ele parecia um homem decente, confiável.

— Eu não... querer perder a luta, mesmo — murmurou Taxacis.

— Ótimo! Primeiro, encontre um homem chamado Aventianus... acho que ele está na coorte de Navio. Traga-o aqui. — Abaixando o elmo e a espada, Spartacus entrou de novo na barraca.

— O que decidiu? — perguntou Ariadne num sussurro. Ela estava de pé e vestida.

— Você está linda. — Mesmo à luz fraca, ele percebeu que ela corou. — É verdade!

As emoções de Ariadne estavam divididas entre o terror de nunca mais vê-lo e o orgulho que sentia pelo que ele estava prestes a fazer.

— Vamos. Conte-me seu plano.

Spartacus lhe contou sobre as trincheiras romanas.

— Minha esperança é a de que possamos tirar os malditos dali. Se Egbeo e Pulcher conseguirem isso, a cavalaria terá serventia. Enquanto a principal parte do exército estiver se preparando, eles podem avançar e depois recuar, como nuvens de pernilongos, perturbando os legionários, impedindo-os de conseguirem uma formação adequada. Assustando-os um pouco.

— Então, vocês avançarão?

Ele assentiu.

— Nosso primeiro ataque será o mais importante. Quase sempre é assim. Com a ajuda do Cavaleiro, vamos penetrar a formação deles. A cavalaria cuidará dos flancos, e espero pressionar os desgraçados até ficarem de costas para o rio. Então nós entramos, e a matança começará. — Ele sorriu para ela. — Voltarei antes de escurecer.

Ariadne forçou um sorriso, contudo tinha vontade de chorar. Nunca pensou que encontraria um homem a quem amasse e, então, conheceu Spartacus. Agora, depois de tudo pelo que passaram, aquele podia ser o fim. Mesmo sentindo um forte pesar, ela perguntou:

— E se você não voltar?

Ele a encarou sem hesitar.

— Se isso acontecer, terei morrido no campo de batalha. Todos os ferimentos que sofrerei serão no rosto.

Enfim, um soluço escapou dos lábios dela, que se lançou nos braços abertos do marido.

— Não quero que você vá.

— Tenho que ir, Ariadne. Você sabe disso. Essa é a batalha mais importante de minha vida. Meus soldados precisam de mim.

Ariadne sentiu vontade de gritar: “Seus soldados, sempre seus malditos soldados!” Em vez disso, perguntou:

— E Maron e eu?

Não havia mais o que fazer. Não adiantaria.

Fez-se um longo silêncio entre eles. Permaneceram de pé, abraçados, aproveitando o calor de seus corpos, o ritmo da respiração um do outro.

“Grande Cavaleiro”, rezou Spartacus. “Peço que cuide de Ariadne e de meu filho, principalmente se eu fracassar hoje. Dionísio, cuide dessa mulher, sua sacerdotisa leal, e de seu bebê, que aprenderá a servi-lo.”

Ariadne rezou com fervor e de modo similar. De repente, ela sentiu os braços de Spartacus relaxarem. Assustada, puxou o rosto dele para o dela e o beijou.

— Volte para mim.

Ele sorriu do modo mais delicado que ela já tinha visto.

— Se eu puder, voltarei, juro. Atheas e um homem chamado Aventianus cuidarão de você. Se nos dermos mal, eles devem levar você e Maron a um local seguro. Há sacos de moeda embaixo de minhas roupas, o suficiente para mantê-los por anos, se você for comedida.

Ela assentiu, sem conseguir falar.

Ele se aproximou do berço e pegou Maron, que se remexeu, abriu os olhos e se espreguiçou. Envolvendo-o em seus braços, Spartacus balançou o filho de um lado para o outro por vários minutos. Maron logo se acalmou.

— Cresça forte e saudável. Respeite sua mãe e minha memória. Lembre-se de que Roma é sua inimiga — sussurrou Spartacus. — Saiba que sempre olharei por você.

Ele entregou a criança a Ariadne. Lágrimas rolavam dos olhos fechados dela quando ele os abraçou. Ariadne não os abriu quando Spartacus se afastou, pois não queria vê-lo partir. Encostou o rosto no pescoço de Maron, sentindo o cheiro do bebê.

— Adeus, esposa. — despediu-se Spartacus antes de sair.

O pânico tomou conta de Ariadne. Na eventualidade assustadora de ele não voltar, ela não queria que a última lembrança dele fosse a de seus olhos fechados. Nem que a sua fosse a de não ter olhado para ele uma última vez. Abriu os olhos e secou as lágrimas.

— Adeus, marido. Verei você quando isso terminar.

Ele sorriu.

— Verá, sim.

Então, ele se foi.

As lágrimas de Ariadne rolaram descontroladamente. A sacerdotisa dona de si que a maioria das pessoas conhecia não estava mais ali. Em seu lugar, havia uma mulher que acabara de enviar o marido para a batalha, talvez pela última vez. Apesar de Maron estar em seus braços, ela nunca se sentira tão sozinha.

O sol tinha surgido por trás da montanha e banhava o vale quando as tropas de Spartacus ficaram a postos. Ele as organizou em duas fileiras fortes, mais de trinta coortes de extensão, e não as formações triplas romanas que os legionários de Crassus adotaram a quinhentos passos do outro lado. Seu ataque, uma aposta, exigia a força máxima que seus homens poderiam investir. Assim, ele colocou os melhores soldados — os que tinham malhas, escudos romanos e armas — no centro com ele. Era onde a luta seria mais dura, sangrenta e mortal.

Atrás dessas oito coortes, um pouco mais da metade dos homens estava muito bem-armada. Do resto, poucos tinham elmos. Alguns possuíam escudos; outros, cotas de malhas. Estes portavam espadas, lanças e até machados. Spartacus esperava que a falta de equipamento fosse compensada pela bravura. Egbeo e Pulcher escolheriam os melhores deles, disso ele tinha certeza. Nos flancos, sua cavalaria, centenas de montarias, estava a espera. Eles não pareciam muito assustadores, mas Spartacus vira o que tinham feito aos romanos em várias ocasiões.

Normalmente, ele amaldiçoaria o fato de ter restado menos da metade de sua força original de cavaleiros. Hoje, isso era irrelevante, já que não havia espaço dos dois lados para mais cavaleiros. O papel de sua cavalaria seria vital; ele dera instruções detalhadas aos oficiais responsáveis sobre o que fazer. Queria que eles agissem como os cavaleiros numidianos de Aníbal, cuja tática de atacar e recuar levou os inimigos a romper fileiras, expondo-os ao perigo. Se sua cavalaria conseguisse reproduzir tal tática, mesmo que por pouco tempo, Egbeo e Pulcher aumentariam a vantagem ao máximo, o que, por sua vez, elevaria a possibilidade de os flancos romanos serem derrotados. Se isso acontecesse, as legiões de Crassus cairiam.

Enquanto supervisionava os homens, o trácio manteve um pouco de sua atenção voltada ao esforço nas trincheiras inimigas e no que os soldados de Crassus estavam fazendo. Até então, as legiões não avançavam. Como ele, o general romano estava apenas organizando as forças para o caso de a batalha propriamente dita começar. Em seguida, Spartacus deu atenção total às batidas nos flancos. Os dois confrontos se desenrolavam um pouco longe, o que não lhe permitia ver o que estava acontecendo. Entretanto, ficou claro que nem Egbeo nem Pulcher conseguiram afastar os romanos por uma grande distância — ou talvez por nenhuma. Os soldados em combate avançavam e recuavam, acompanhados pelo costumeiro bater de armas e berros.

— Que merda está acontecendo ali?

— Os romanos trouxeram catapultas, senhor — explicou Navio. — Ouça.

Spartacus apurou os ouvidos. Depois de um instante, discerniu o baque familiar que sinalizava o lançamento de tiros e pedras. O barulho vinha das posições de Egbeo e de Pulcher. Torceu para que Crassus não tivesse muitas máquinas mortais. De repente, viu uma grande formação de tropas de Crassus marchando em direção ao flanco esquerdo do inimigo. Então, uma força parecida de romanos se moveu na direção do flanco direito. Crassus estava reforçando os homens nas trincheiras, não ordenando que recuassem. A decisão de Spartacus tinha sido copiada pelo outro.

— Vamos avançar. Agora.

— O exército todo? — perguntou Carbo, nervoso.

— Sim. — Apontou para a descida. — Veja aquelas coortes. Precisamos agir agora ou as tropas de Egbeo e de Pulcher serão massacradas. — Olhou para Carbo e Navio. — Estão prontos? — Os dois assentiram com seriedade. — Egbeo e Pulcher ficarão ocupados demais com a nova investida do inimigo. Outra pessoa precisa liderar os homens deles lá para baixo. Navio, quero que tome a dianteira do flanco esquerdo.

Navio assentiu e trocou um rápido olhar com Carbo antes de se afastar.

Spartacus chamou um mensageiro.

— O centurião mais velho do flanco direito deve assumir o comando ali. A ordem para avançar virá em breve. — O soldado fez que sim com a cabeça e saiu correndo. — Tragam o cavalo! — gritou Spartacus.

Um soldado que esperava pela ordem avançou, conduzindo o garanhão.

Fazendo um gesto, o trácio caminhou por trinta passos à frente das tropas.

“Pelos deuses, como ele parece imponente”, pensou Carbo. O elmo de Spartacus reluzia ao sol, chamando a atenção de todos. Sua malha fora polida até brilhar como prata, e do lado esquerdo do quadril estava a sica, a lâmina que os havia levado à vitória tantas vezes antes.

Spartacus uniu as mãos ao redor dos lábios.

— Estão vendo esse animal lindo?

Os homens assentiram, confusos.

— Nós o vemos! — gritou alguém. — E gostaríamos de ter um desses.

Isso fez surgirem algumas risadas.

— Na Trácia, um cavalo branco é tido como uma montaria adequada para um rei. Eles devem ser honrados, tratados com respeito. É por isso que escolhi montá-lo. Ele me serviu bem, porém, hoje, vou usá-lo para outro propósito. Ele deve ser sacrificado aos deuses! Para pedir a eles uma vitória a qualquer custo.

O choque entre as tropas era perceptível. Tal sacrifício seria um rito muito forte. Os homens cochichavam uns aos outros, e as palavras começaram a se espalhar.

Spartacus sorriu. Aquele era seu objetivo.

— Em vez de entrar na batalha cavalgando, lutarei ao lado de vocês, meus irmãos, no muro de escudos. Levarei todos os golpes que vocês sofrerão. Sangrarei e matarei romanos com vocês. Ficarei com vocês até o fim, ainda que meu escudo seja partido e minha lâmina, quebrada!

O juramento fez Carbo estremecer. Ele se emocionou como nunca antes. Os homens ao redor dele eram seus companheiros, por quem morreria, assim como eles morreriam por ele. Olhou para os dois lados, vendo a emoção nos rostos dos outros.

Pegando a adaga, Spartacus se aproximou do cavalo. Ao reconhecê-lo, ele relinchou e mordiscou seu braço.

— Muito corajoso. Agradeço a você pelo seu serviço leal. Peço mais uma coisa. Este será seu momento mais sublime, e lhe dou uma passagem rápida para ficar ao lado do Grande Cavaleiro. Lá, você será recebido com grande honra. — Ao soldado, ele sussurrou: — Puxe a cabeça dele. — Com Spartacus acariciando seu ombro, o cavalo deixou o soldado esticar seu pescoço.

— Grande Cavaleiro, isso é para o senhor. Em troca, peço a vitória.

Spartacus posicionou a adaga embaixo do queixo do cavalo. Com um movimento rápido, puxou-a para si. A lâmina afiada abriu um corte profundo na carne do animal, dilacerando as duas veias jugulares e liberando uma enxurrada de sangue. Ele se remexeu, com o líquido vermelho jorrando da abertura em seu pescoço. Spartacus se inclinou contra ele com toda a força, acariciando seu ombro com a mão livre.

— Calma, corajoso, calma. O Cavaleiro o aguarda.

Os joelhos do animal fraquejaram, e este caiu no chão como uma pedra. Mais sangue jorrou, criando uma enorme piscina ao redor de suas patas dianteiras. Uma de suas patas traseiras deu um coice para o lado. Chutou diversas vezes, como louco, e parou. Spartacus se abaixou e enfiou a adaga mais uma vez no pescoço do cavalo. Dessa vez, rompeu uma artéria. O sangue vermelho vivo espirrou em sua mão. Ele continuou a sussurrar para alentá-lo. O peito amplo subiu e desceu com a respiração, subiu e desceu, cada vez mais devagar. Por fim, parou.

Spartacus deixou a mão parada sobre o garanhão por um tempo, honrando sua vida e sua morte. Então, enfiando a mão no sangue, passou uma camada dele pelo rosto. Depois de limpar a lâmina, a embainhou. Quando se virou para encarar as tropas, viu que todos o observavam. Nas coortes mais distantes, os homens saíram da posição para ver o que estava acontecendo.

— Meus soldados! A oferenda aos deuses foi feita. Meu cavalo morreu bem e sem protestar. O sacrifício foi aceito!

Eles gritaram em aprovação ao ouvirem aquilo. Batiam as armas nos escudos.

Com a sica na mão, Spartacus deu alguns passos à frente.

— Hoje, teremos... VITÓRIA... OU MORTE!

Uma breve hesitação.

— VITÓRIA... OU MORTE! — vociferou Carbo, acompanhado por Taxacis.

— VITÓRIA... OU MORTE! VITÓRIA... OU MORTE!

Deixando o canto dos soldados envolvê-lo, Spartacus voltou para o seu lugar na fila, entre Carbo e Taxacis. Sem demora, sinalizou para os trompetistas e para os cavaleiros que levariam a ordem de avançar à cavalaria nos flancos.

As notas estridentes dos instrumentos se sobrepuseram o barulho com facilidade. Ainda aos gritos, os soldados foram levados à frente por seus oficiais. Primeiro, caminharam. Seriam cerca de quinhentos passos até as linhas romanas. Não havia motivo para se esgotarem. Precisariam de toda a sua energia para vencer a batalha que viria.

Carbo sentiu a bile queimando a garganta. “Dê-nos a vitória, e me dê a chance de matar Crassus”, implorou ele. “Não me importo de morrer depois disso.” Quando terminou, olhou para Taxacis, à sua direita depois de Spartacus. O cita lhe lançou um sorriso. Carbo retribuiu. Não poderia pedir um lugar melhor. Spartacus e Taxacis eram guerreiros mortais. À sua esquerda, um homem de peito amplo com queixo bem másculo. Carbo o reconheceu vagamente, mas não sabia bem de que situação. Estava muito orgulhoso por estar ali e, pela primeira vez na vida, sentiu-se em casa de verdade.

— Continuem andando — gritou Spartacus. — Mantenham a linha!

Quando passaram pelo cavalo morto, mais de um soldado imitou o líder trácio, manchando o rosto com seu sangue. Carbo não fez isso — o Cavaleiro não era seu deus —, entretanto, entendia a atitude dos homens. Em uma situação como aquela, qualquer coisa que pudesse ajudar alguém a sobreviver era útil. Tinham percorrido a distância de cem passos. Os romanos avançavam ao encontro deles. Carbo observou Spartacus, que analisava as linhas inimigas. Voltou então sua atenção para elas e acabou vendo um homem de capa vermelha sobre um cavalo, indo de um lado para o outro atrás das coortes centrais.

— Lá está Crassus, o boqueteiro!

— Ele mesmo — concordou Spartacus, franzindo o cenho. — Estamos bem onde queríamos: de frente para ele.

Tramp, tramp, tramp. Carbo calculou a distância. Mais cem passos, e ele poderia diferenciar os oficiais romanos dos soldados comuns. Nunca tinha visto tantos elmos de crista invertida na fileira da frente. Era uma medida reservada para as situações mais desesperadoras. Crassus também estava apostando tudo naquela jogada. O suor escorreu pelas costas de Carbo, dificultando que ele pegasse o pilo — teria sorte se estivesse vivo quando a noite caísse.

— É isso, rapazes — gritou Spartacus. — Fiquem juntos!

— SPAR-TA-CUS! — gritou o homem à esquerda de Carbo, que batia o pilo na borda de metal do escudo. — SPAR-TA-CUS!

Inevitavelmente, o grito foi ouvido ao redor deles. Carbo vociferou a plenos pulmões, porém o barulho era tamanho que não conseguiu ouvir a própria voz. Era como se ele estivesse interpretando em uma peça, porém, em vez de uma plateia, ele tinha um muro de legionários indo ao seu encontro. Com exceção dos toques das trombetas, os soldados de Crassus ficaram em silêncio. Era uma tática romana comum, usada para causar medo nos inimigos. Ainda não tinha surtido efeito, pensou Carbo, com o coração aos pulos, pois o barulho dos soldados rebeldes ainda era ensurdecedor.

Eles continuaram marchando, pisando o trigo. Como ainda desciam a ladeira, Carbo teve uma boa visão do solo ao seu redor. Pela visão periférica, viu a cavalaria avançando como uma mancha escura na paisagem. Com sorte, as trincheiras romanas não seriam compridas o bastante para impedir a tomada dos flancos inimigos. Carbo não conseguiu identificar a posição de Navio, mas fez uma oração pelo amigo, e por todos eles. “Traga-nos a vitória, grande Júpiter, grande Marte. Deixe-me chegar até Crassus. Mais uma chance é só o que peço.”

Restavam duzentos passos até as linhas inimigas. Carbo se acostumou às rotinas da batalha e olhou para a área acima dos legionários. Haveria peças de artilharia para acertá-los ou o inimigo estaria ocupado com a luta nos flancos? Esperava que fosse a segunda situação.

Talvez duas batidas de coração depois, uma saraivada de dardos surgiu. Carbo sentiu medo. Já tinha visto a carnificina que eles podiam causar. Ao redor dele, mais de um homem gritou de pavor. O ritmo do avanço desacelerou, e eles pararam.

— Ordem de proteger! Todas as fileiras, menos a da frente, erguer escudos! — gritou Spartacus.

Eles treinaram como fazer aquilo mil vezes. Com um som alto, os escudos daqueles atrás de Carbo subiram, formando uma cobertura gigante, o famoso testudo romano. Ele e os homens da primeira fileira uniram os escudos, formando uma parede quase sólida à frente. Foi uma boa proteção contra porjéteis mais leves, como lanças, porém, como todo mundo sabia, não podia impedir os maiores, como os que desciam na direção deles com uma velocidade assustadora.

— FIRMES! — vociferou Spartacus. — FIRMES, RAPAZES!

Outros oficiais gritaram a mesma instrução.

Carbo não olhou para cima. Se seria atingido por um dardo de ponta farpada, não queria sofrer por antecipação. Seu coração batia acelerado. O soldado à sua esquerda murmurava a mesma oração sem parar. Um homem perto dele vomitou. Carbo começou a contar suas respirações. Uma. Duas. Três. “Deuses do céu, mais devagar.” Ele se forçou a soltar o ar da maneira mais lenta que pôde.

Crash. Crash. Crash. Crash. Crash. Com um barulho semelhante ao de trovões, os tiros chegaram. Carbo fechou os olhos. Lançados por uma catapulta de torção, acionada por dois legionários empurrando uma barra, os dardos possuíam enorme poder de penetração. Batiam nos escudos como uma faca quente no queijo, atingindo e matando os infelizes por trás deles. Ossos de braços foram despedaçados; crânios, abertos; e peitos, rasgados. Gritos de agonia indicavam os lugares onde os soldados foram apenas feridos. Os mortos simplesmente caíam no chão.

Carbo piscou. Ainda estava vivo e sem ferimentos — assim como Spartacus e o homem à sua esquerda. Eles trocaram um olhar de alívio.

— Abaixar escudos. Avancem com o dobro da velocidade! — gritou o trácio.

Carbo não precisou de incentivo. Quanto mais rápido se aproximassem dos romanos, menos projéteis cairiam sobre eles. O risco de morrer com um golpe de lâmina parecia mais interessante do que ter o cérebro transformado em purê ou o peito aberto por um dardo. Com o braço esquerdo baixo, ele seguiu em frente. Em pouco tempo, viriam as lanças. E, então, um ataque final.

Cento e cinquenta passos. Ainda assim, os romanos permaneciam em silêncio. Carbo não gostou nem um pouco disso.

Mais uma saraivada, dessa vez de pedras, caiu sobre as linhas rebeldes. Ele ficou hipnotizado pela trajetória delas. Por um lado, queria avançar, sair da chuva mortal se pudesse. Por outro, queria largar o escudo e o pilo e fugir. Só que não podia fazer isso. Spartacus estava ao seu lado, dependia dele. E Crassus, o causador da morte de seus pais, estava atrás de uma parede de legionários. Ele concentrou a atenção nas fileiras romanas perto dele. Só conseguia ver seus olhos, espiando por cima da borda dos escudos, e as lanças, que já apontavam para o céu, prontas para a ordem de lançar. Carbo percebeu, de repente, que precisava urinar. Mais do que qualquer coisa, precisava urinar. Engoliu em seco, ignorando a vontade.

Tamp. Crash. Bang. As pedras aterrissavam, perfurando escudos, quebrando as costelas dos homens e parando seus corações.

Carbo lançou um olhar para seu líder, que parecia indiferente. Admirava a coragem daquele homem, o mais próximo de um deus que ele já tinha visto. Será que Spartacus sentia medo de alguma coisa?

— Aprontar lanças! — Spartacus afastou o braço esquerdo. — Quando eu mandar!

Carbo estreitou os olhos para observar as fileiras inimigas, que estavam a cerca de noventa passos dali. Longe demais para um lance certeiro. Viu os oficiais romanos os estudando, esperando até eles se aproximarem. “Malditos.”

Spartacus fazia o mesmo. Seus lábios se moviam enquanto ele contava a distância. Oitenta. Setenta. Sessenta. Os pilos dos legionários voaram.

“Droga”, pensou Carbo. “Dê a ordem!”

— Mirar curto! SOLTAR!

Carbo ergueu a lança em um arco baixo e curvo. Tentou acompanhar seu progresso, porém ela se uniu a muitas outras. Observou fascinado enquanto elas seguiam na direção dos romanos.

— Ergam os escudos! — gritou Spartacus pela segunda vez.

As lanças causaram bem menos consternação do que a barragem da artilharia. Caíram, transformando muitos escudos em montes inúteis de madeira e ferindo e matando poucos homens. Atrás de si, Carbo ouviu dois soldados apostando para ver qual seria atingido primeiro. Sentiu o companheiro ao lado cutucar suas costelas com o cotovelo.

— Os homens fazem graça de cada coisa maluca, não?

Os lábios secos de Carbo se racharam quando ele sorriu.

— Eu me chamo Zeuxis. E você?

— Carbo. Eu conheço você?

Um sorriso amargo.

— Talvez. Você estava com Spartacus quando ele me derrubou numa fogueira.

O riso de Carbo foi abafado pelo berro de Spartacus.

— Quem tiver uma segunda lança, ATIRAR!

Metade do número de pilos lançados na primeira vez voou. No mesmo instante, um número bem maior de lanças romanas aterrissaram.

— Erguer escudos, empunhar espadas! AVANÇAR, MAIS RÁPIDO!

Abaixando a cabeça em uma tentativa vã de diminuir a área passível de ser atingida, Carbo começou a correr. Seu mundo se estreitou. Só conseguia ver os romanos logo à sua frente. Crassus, até mesmo a fileira de estandartes acima das fileiras, tinha desaparecido. Ele estava ciente da presença de Zeuxis à sua esquerda, de Spartacus à sua direita, do escudo em uma mão e do gládio na outra. E só.

Um pouco mais de trinta passos separava os dois lados.

Os legionários empunharam as espadas. Por fim, emitiram um grito e avançaram.

Carbo e todos os homens ao redor dele responderam com um grito estridente. Ouviu Spartacus gritar algo ininteligível em trácio. Deu uma rápida olhada para os lados. Surpreendeu-se. Nunca vira um líder tão bravo. As veias no pescoço de Spartacus estavam inchadas. Seu rosto estava muito vermelho e os olhos, inexpressivos. Os olhos de um matador. Carbo nunca se sentira tão feliz por estar do mesmo lado que aquele homem.

Voltou a olhar para a frente. Vinte e cinco passos. Sentiu o grito irromper de sua garganta e não se conteve. Deveria estar parecendo um louco, o que era bom. O objetivo antes de qualquer ataque é causar o máximo de medo possível nos oponentes.

Os dois lados se aproximaram numa velocidade assustadora. Vinte passos. Quinze.

Carbo se concentrou nos desenhos marcados nos escudos que vinham ao seu encontro. A maioria era da cor vermelha com uma linha rodopiante amarela decorando os cantos, porém os mais chamativos tinham raios desenhados. Os olhos acima dos escudos eram calculistas, o elmo, marcado. “Veteranos”, pensou Carbo, sentindo o medo aumentar. E eles seguiam diretamente um em direção ao outro.

Os últimos passos foram dados num borrão. Carbo fez o melhor que pôde para, quando os atacar, mover o ombro esquerdo. Claro que seu oponente fez a mesma coisa. Os escudos se chocaram com uma força imensa. Os dois homens deram um passo para trás, recuperaram suas posições e golpearam com as espadas. Carbo se encolheu atrás do escudo primeiro, o que permitiu ao legionário completar o golpe, enquanto Carbo erguia o braço direito inutilmente. Consciente de que havia exposto sua axila, ele em desespero puxou a espada para baixo. Ao tentar espiar por cima da borda do escudo, recebeu uma nova investida do inimigo. Praguejando, Carbo se escondeu de novo. Avançou com o escudo, desejando pegar o outro sem equilíbrio. Foi uma esperança vã. O escudo do legionário parecia um muro.

Carbo não desistiu do ataque. Bateu o escudo no do outro, desferindo ao mesmo tempo um golpe da espada. Era o que Paccius lhe ensinara. Um, dois. Um, dois. A reação do legionário foi fazer exatamente o mesmo. Carbo percebeu que seu inimigo era mais forte e mais habilidoso do que ele. Parecia que o legionário também sabia disso. Os olhos deste brilharam quando voltou a atacar.

A vontade de urinar de Carbo tornou-se muito forte. “É assim que vou morrer?”, perguntou-se. “Coberto pelo meu próprio mijo?” Ele mudou de tática, batendo o gládio nos pés do oponente. Seu esforço não deu certo. O legionário bloqueou o golpe inclinando a parte de baixo do escudo; seu oponente então atacou com a espada, o que quase arrancou o olho esquerdo de Carbo. Ouviu-se um arranhar metálico quando a lâmina de ferro raspou no elmo. Ao longe, ouviu o legionário rosnar em triunfo. “É isso”, pensou ele. “Agora, o maldito vai me derrubar e acabar comigo.”

Mas o que veio em seguida foi um som esquisito de engasgo.

Com dificuldade, Carbo svoltou sua atenção mais uma vez para o legionário. Para sua surpresa, a sica de Spartacus estava enfiada na garganta do homem. O sangue manchara seu rosto; o gosto metálico chegou à sua língua. Carbo virou a cabeça.

— Vamos, rapaz! Recomponha-se! — gritou o trácio.

Carbo assentiu, ainda um pouco confuso.

— Olhe para a frente! — ordenou Spartacus.

Carbo obedeceu. Os espaços nas fileiras dos inimigos já tinham sido preenchidos pelos romanos que vinham. Seu próximo oponente estava a quatro passos e se aproximava depressa. Carbo permitiu que ele viesse, forçando o homem sobre o corpo do companheiro. Enquanto o legionário vinha, Carbo o atacou com toda a sua força.

O soldado recuou apoiado nos calcanhares, e a espada de Carbo afundou em seu rosto do lado esquerdo, cortando as câmaras nasais e saindo do outro lado da mandíbula. Um som estridente fez os ouvidos de Carbo doerem, e ele balançou a cabeça numa tentativa de afastar o barulho. Então, percebeu que era o grito do legionário. Ele nunca ouvira alguém fazer tanto estardalhaço. Com um puxão, ele liberou a lâmina. O homem caiu, ainda berrando como um porco selvagem.

Carbo feriu o soldado que veio em seguida, cortando um de seus pés até o osso. Gritando de dor, o homem se afastou, sem conseguir lutar. A pressão era forte demais para todos, então Carbo usou esse intervalo para ajudar Zeuxis a despachar um oponente. Dois legionários se enfiaram no espaço do homem caído. Um se virou para acertar Carbo; o outro partiu para cima de Zeuxis. A luta foi tão demorada quanto o primeiro esforço de Carbo, porém, guiado pela adrenalina e sabendo que Spartacus salvara sua vida, ele conseguiu agir melhor. O fato de Carbo demorar a derrubar seu oponente era prova da habilidade deste. O legionário caiu de joelhos, e o ferimento em sua garganta era mais largo do que sua boca escancarada. O sangue jorrava das duas aberturas, cobrindo o chão entre eles com mais uma onda vermelha.

Ninguém tomou o espaço vazio diante de Carbo. Ele não compreendeu até o piiiii dos apitos chegarem aos seus ouvidos. A linha romana recuou um passo e depois outro. Ele ficou tenso, preparando-se para avançar.

— Para trás! — vociferou Spartacus. Ele bateu a lateral do seu escudo no de Carbo. — Dez passos, nada mais!

Ao obedecer, Carbo sentiu o suor empapando suas vestes. A proteção de feltro por baixo de seu elmo estava ensopada. Gotas escorriam pela testa, seguindo para dentro de seus olhos, fazendo-os arder. Ele passou uma mão ensanguentada pelo rosto.

— Vocês foram muito bem, rapazes. Hora de respirar! — gritou Spartacus. — Ajudem os feridos a se afastar das linhas. Se tiverem água, bebam. Divida-a com seus companheiros. Façam o óbvio. Aqueles que tiveram armas e equipamentos quebrados, peguem os dos mortos e feridos. Limpem a área ao redor dos pés para não tropeçarem quando a briga recomeçar. Confiram o resto das coisas. Vejam se as tiras das sandálias não estão soltas. — Ele saiu da formação e andou pelas filas à esquerda, murmurando incentivos aos soldados.

A menos de vinte passos, os romanos faziam o mesmo. Carbo se sentiu estranho por estar tão perto de homens a quem ele tentara matar havia apenas uns minutos atrás e com quem logo retomaria as hostilidades. Seria melhor aproveitar a oportunidade. Fincou o gládio na terra à sua frente e descansou um pouco, apoiando-se no escudo encostado no chão. Aliviar-se seria muito bom. Em seguida, ele puxou a parte de baixo da malha e se livrou da peça. De uma vez, sua urina formou um arco amarelo. Carbo achou que nunca pararia de urinar. Nunca sentira tamanho alívio. Pelas risadas e suspiros de satisfação que ele ouviu, muitos dos outros homens sentiam o mesmo. Ao terminar, percebeu que estava sedento.

— Aqui está.

Zeuxis lhe entregou um pequeno recipiente de argila com tampa. Carbo o levou aos lábios e tomou um gole. A água estava morna e rançosa, mas era mais saborosa do que qualquer outra coisa que já tinha tomado.

— Obrigado — agradeceu ele, devolvendo-o.

Zeuxis resmungou. Tomou um gole grande e o passou o recipiente ao soldado à esquerda. Voltou a se inclinar na direção de Carbo.

— Nunca pensei que ficaria tão perto de Spartacus durante uma batalha, isso eu posso lhe dizer.

— Ele é um ótimo guerreiro, não é?

— É como ver um deus tomar o campo. — O encanto na voz de Zeuxis era palpável.

— Eu seria um homem morto se não fosse por ele. — Carbo soltou o prendedor do queixo e tirou o elmo. Deixou-o cair.

— Vi uma parte daquela luta. Desculpe não ter ajudado. Eu estava meio enrolado.

— Tudo bem. — Carbo tirou a proteção e a torceu. Muito suor escorreu entre seus dedos. Uma brisa suave soprou no seu cabelo encharcado. A sensação foi ótima, porém ele teve que recolocar a proteção e o elmo, prendendo a tira. — Você está no exército há muito tempo?

— Eu entrei antes da batalha contra Lentulus. Marcion — e ele fez um gesto de cabeça para o homem à sua esquerda — apareceu na mesma época. Assim como nosso contubérnio. E você?

— Eu era do ludo de Spartacus.

Zeuxis ficou boquiaberto.

— É mesmo? — Carbo assentiu. — Então, você participou do ataque ao acampamento de Glaber? E da luta no vilarejo quando Cossinius foi pego nu?

— Eu estava lá. — Carbo sorriu.

— Escute isso, Marcion! — Ele murmurou algumas palavras ao amigo, que olhou surpreso para Carbo. — Aquela foi uma época boa, não? — perguntou Zeuxis. — Vencíamos todas as lutas.

Carbo forçou um sorriso.

— Com a ajuda dos deuses, esta pode ser mais uma vitória.

Zeuxis desviou o olhar.

— Vamos torcer para que seja.

Spartacus voltou correndo para sua posição.

— PRONTOS, RAPAZES?

— SIM! — gritou Carbo, como se sua voz fosse a de centenas de homens. Puxou o gládio, pegou o escudo e observou as linhas inimigas. Os legionários tomavam posição, e ele ouviu os oficiais romanos berrarem para que se preparassem para avançar.

— Vamos pegá-los de jeito, certo? — disse Spartacus a Carbo.

— Claro! — Seu coração acelerou de novo.

— Pelo que dá para ver, o flanco esquerdo parece estar firme, mas não tenho ideia de como estão as coisas à direita, nem como a cavalaria se saiu. Para termos certeza da vitória, temos que nos dar bem por aqui.

A pressão aumentou.

— Farei o meu melhor.

— Sei que fará. — Spartacus abriu um sorriso, e a dedicação de Carbo cresceu ainda mais. — PRONTOS? ATACAR! — vociferou o trácio.

Correram na direção dos romanos, que davam um brado de guerra e iam ao seu encontro. Carbo estava mais preparado para a luta dessa vez. Seus olhos se estreitaram ao perceber que o homem que se aproximava dele mancava. Já estava ferido: uma fraqueza a explorar. Quando os escudos bateram uns contra os outros e os dois começaram a empurrar, Carbo mirou na sandália do oponente. Ouviu um berro quando a ponta da espada atingiu os dedos do pé esquerdo do inimigo. Foi um ferimento pequeno, porém doloroso o bastante para fazer o legionário baixar um pouco a guarda. Carbo ergueu o gládio e o atacou, passando pela lateral do escudo do homem. Depois do que pareceram segundos, viu que atingira os anéis de ferro da malha do oponente. O legionário caiu de frente, a boca aberta numa expressão de choque. Carbo girou a lâmina como tinha aprendido e a puxou.

— Júpiterrrrrr, isso dói! — gritou o legionário. Soltou o escudo e levou a mão à abertura sangrenta em sua malha.

Carbo golpeou com o escudo, derrubando o oponente sobre o soldado que vinha logo atrás.

— AVANCEM! — berrou Spartacus.

Ouvindo a própria pulsação, Carbo avançou dois passos. E mais um. Apesar dos protestos do homem atrás dele, o legionário ferido tombou para trás. Carbo olhou de um lado para o outro. Zeuxis estava à sua esquerda; Spartacus, à sua direita; e, à frente dele, estava Taxacis. Mais à frente, os companheiros deles também pareciam ganhar território. Seu coração acelerou. Ele deu mais um passo.

— AVANCEM! — gritou Spartacus mais uma vez.

Passo a passo, eles iam conquistando as posições dos romanos, que continuavam a recuar uns vinte passos. Carbo teve esperança de que os inimigos desistissem — o que não aconteceu. Sua atenção foi atraída por dois centuriões na fila da frente, perto dele. Estes gritavam como loucos, ameaçando seus homens com as punições mais terríveis caso não mantivessem a formação. A tática deles estava funcionando. Os legionários diminuíram o ritmo e firmaram-se em suas posições.

— Quando acertarmos os filhos da puta, quero todos os centuriões mortos! Despedaçados em mil! Vocês me ouviram? — berrou Spartacus. Os soldados mais próximos gritaram concordando. — Se fizermos isso, eles fugirão. — Carbo ouviu seu líder dizer. — ATACAR!

Eles correram na direção do inimigo, mas dessa vez os romanos não vieram. Carbo se consolou com esse fato: os oficiais do outro lado não confiavam em seus homens para atacar — o que significava que estavam preocupados.

Carbo viu que seu próximo oponente seria um centurião e prendeu a respiração. As lutas anteriores não seriam nada comparadas a essa. Os centuriões eram veteranos com pelo menos vinte anos de serviço, homens corajosos que lideravam pelo exemplo, que não viam obstáculos para ganhar uma luta. Ele vencera a primeira onda de pânico por saber que, se decidisse se entregar a ela, seria morto. O centurião o encarava e berrava insultos a plenos pulmões. Bloqueando o som da melhor maneira que pôde, Carbo tentou descobrir algum detalhe que o ajudasse a derrotá-lo. Não viu nada além da crina tingida de vermelho do elmo de seu oponente e os olhos impiedosos por baixo da parte de ferro. A morte estava à espreita.

Três passos à frente, ela se aproximou de Carbo. O centurião era um homem baixo — o que significava que era muito mais pesado. Implorando para que sua ideia desse certo, ele se abaixou o máximo que pôde atrás da borda do escudo. Aproximando o braço esquerdo do corpo, ele diminuiu um pouco o ritmo antes de jogar todo o peso do corpo para a frente com seu escudo. Bateu no centurião com tanta força que o romano foi lançado vários passos para trás. Então, Carbo levantou a cabeça, preparando-se para desferir o golpe final. Mas se surpreendeu: incrivelmente, o centurião manteve o equilíbrio e esperava sua chance. Carbo teve tempo suficiente apenas para ver a lâmina do outro avançar em direção ao seu rosto.

“Estou morto.”

Ouviu um baque alto e hesitou.

O gládio sumiu. Ele olhou de novo. O centurião fora derrubado de costas por Spartacus, que havia jogado o corpo de lado com o escudo. Inclinando-se sobre o oficial, o trácio cortou sua garganta. Gritos desanimados foram dados pelos legionários que tinham testemunhado tudo — estes deram um ou dois passos para trás. Spartacus logo retomou sua posição, abrindo um sorriso para Carbo.

— Afaste os filhos da puta! — gritou ele.

Carbo recuou um passo. Olhou para a espada, que tremia como uma folha. “Acorde!”, disse a si mesmo. “Você ainda está vivo. A batalha não acabou.” Preparando-se para mais matança, levantou a cabeça. O centurião foi substituído por um legionário de aparência furiosa. Uns cinco passos os separavam.

— Vou cortar sua cabeça e cagar no seu pescoço! — gritou o romano.

Atrás das fileiras de soldados inimigos, Carbo viu uma capa vermelha. Era Crassus, descendo do cavalo. Carregadores de estandartes estavam ao redor dele, incluindo um com uma águia de prata. Carbo não acreditou no que viu. “Ele está preocupado o suficiente para permanecer aqui.”

— Spartacus! É a nossa chance!

No minuto seguinte, ouviu-se um grito de reconhecimento.

— ATACAR! ATACAR!

Carbo voltou a observar o legionário. Uma ira fria tomou conta dele. Só queria alcançar Crassus.

— Estou indo atrás de você, seu merda!

Houve uma comoção quando ele avançou. Eram os homens das fileiras de trás, percebeu Carbo emocionado. Atacou o legionário e o despachou com algumas punhaladas no rosto. Atrás dele, veio um homem barrigudo que dizia obscenidades a cada golpe do gládio. Carbo teve pouca dificuldade em desviar dos golpes potentes, porém maldirecionados, e logo a pressão dos rebeldes que vinham atrás tornou-se tão grande que ele foi jogado contra o legionário. Nenhum deles pôde usar a espada.

— Escravo nojento! — xingou o soldado. — Você está morto! Morto!

— Vá se foder! — Carbo soltou o gládio, que caiu no chão entre os corpos deles. Com um esforço, ele se virou para a esquerda e empunhou a adaga. Levantando o braço com muito cuidado, atacou. O pânico tomou os olhos do legionário e mais palavrões foram ditos, porém, nada pôde fazer para impedir que Carbo enfiasse a lâmina em seu pescoço. Carbo apunhalou várias vezes só para garantir. Sangue se espalhou pelo seu braço, rosto e a parte da frente do escudo. Ele não se importou.

— Crassus, vou pegar você! — gritou, cuspindo saliva.

Entretanto, ele não conseguiu se mover — nem para a frente nem para trás. Na verdade, a pressão dos dois lados começava a ficar desconfortável. O legionário que praguejava caiu para a frente; agora, ficava em pé graças ao escudo de Carbo. O sangue saía do ferimento no pescoço do romano, cobrindo a mão e o braço esquerdo de Carbo. Ele não podia fazer nada em relação àquilo. Estava feliz por os romanos da segunda fila não tentarem alcançá-lo. Eles deveriam estar tão pressionados quanto ele e seus companheiros.

— Pelos deuses, o que faremos agora? — vociferou Zeuxis.

A névoa vermelha diminuiu um pouco. Carbo olhou para Zeuxis, que também tinha matado um romano.

— Estamos presos!

Zeuxis arregalou os olhos.

— Você é um gênio, não?

Lutando contra a vontade maluca de sorrir, Carbo olhou para a direita. Como era de se esperar, Spartacus tinha matado o homem com quem lutara. Estava ajudando Taxacis a vencer seu oponente. Carbo esperou.

— O que devemos fazer agora?

Spartacus virou a cabeça. O rosto e o elmo dele estavam cobertos de sangue, e a loucura parecia imperar em seus olhos. Carbo teve dificuldade em continuar olhando para ele.

— Temos que recuar alguns passos. Crassus vai tentar nos desgastar. — Carbo percebeu que seus músculos imploravam por descanso. — Voltem! — gritou Spartacus. — Recuem dez passos! Só dez! Passem a ordem adiante!

Carbo se inclinou na direção de Zeuxis.

— Diga para seu amigo espalhar a ordem. Devemos recuar dez passos, não mais que isso.

Zeuxis assentiu e obedeceu. Spartacus fazia o mesmo à direita de Carbo. Em pouco tempo, o ar foi tomado pelas ordens berradas. Quando os homens das filas de trás ouviram, começaram a se afastar. Sentindo que a pressão em seu peito diminuía, Carbo respirou fundo. Pegou o gládio e deu mais alguns passos para longe do legionário barrigudo. O corpo deste caiu de joelhos. Um pouco depois, caiu de cara. Carbo ficou tenso, preparando-se para um ataque inimigo que não aconteceu.

Na mesma posição com Zeuxis e Spartacus, ele deu mais seis, sete, oito passos para trás.

— PAREM! — gritou o trácio.

Todos obedeceram.

Carbo viu Spartacus olhando para os romanos, que não fizeram nada. Eles também deveriam estar contentes com a pausa, pensou ele.

— Afastem-se mais dez passos!

Carbo encarou Spartacus, assustado.

— Por quê? — sussurrou.

— Preciso ver o que está acontecendo nos flancos. É a única maneira que tenho de ver.

A ordem foi repassada de novo. Contando com cuidado, eles recuaram. Ainda assim, os romanos permaneceram parados nada. Carbo olhou de um lado para o outro na fileira. Só viu homens tirando corpos do caminho, cuspindo ou bebendo água. Alguns legionários gritavam insultos, contudo, a maioria ignorava. Era um alívio.

Spartacus percorreu o espaço entre os exércitos. Olhou de um lado para o outro por alguns minutos. Um pilo foi lançado na direção dele, depois outro, porém ele os ignorou. Ele estava na ponta do pé para ter uma visão melhor até que veio um terceiro pilo e ele teve que desviar para não ser atingido.

— Eles o reconheceram — murmurou Carbo. Dava para ver as lanças sendo levadas à frente. O gosto do medo era ácido em sua boca. O carisma extraordinário de Spartacus era o que mantinha o centro unido. Se ele caísse, os soldados rebeldes estariam perdidos.

— O que ele está fazendo, por Hades? — gritou Zeuxis.

Carbo explicou.

— Um pouco arriscado, não?

— Talvez, mas não tem outro jeito. — Ao mesmo tempo que defendia as atitudes de seu líder, Carbo sentia vontade de gritar para que ele voltasse a se proteger.

Logo seu desejo se realizou. Dando as costas para as linhas romanas, Spartacus voltou para sua posição. Duas lanças o seguiram, e uma delas foi parar perto de seus pés. Ele não deu a mínima e esboçou um sorriso.

— Isso é o melhor que eles podem fazer? — gritou, virando-se para fazer um gesto obsceno aos romanos.

Gritos foram dados ao redor de Carbo, e muitas mãos se ergueram, imitando o sinal de Spartacus.

Fazendo o mesmo gesto, Carbo sorriu. Não conseguiu se conter.

— Fodam-se todos vocês! — gritou.

Spartacus se posicionou ao lado dele.

Carbo se virou com o rosto iluminado. As palavras de Spartacus foram como um golpe muito forte.

— As coisas não estão boas com Pulcher à direita. Os romanos devem ter trazido todas as suas catapultas. Os filhos da puta estão forçando as nossas fileiras a recuar. Os soldados ali estão começando a fugir.

Carbo xingou. Se os soldados da retaguarda fugissem, os da frente fariam o mesmo. Se isso acontecesse, o flanco esquerdo do inimigo poderia se virar para atingir o centro — a posição deles. Um abismo acabava de se abrir aos pés deles.

— E a esquerda?

— Está bem, graças a Navio. Só que não consigo ver a maldita cavalaria em lugar nenhum. Dos dois lados, receio que os fossos sejam fundos demais para eles, que não conseguiram se posicionar atrás do inimigo. Nós teríamos ouvido ou visto algo se eles tivessem se posicionado.

A esperança de Carbo esmoreceu. Observou o rosto de Spartacus à procura de um sinal de esperança.

— O que podemos fazer?

Um sorriso feroz e implacável.

— Imagino que temos tempo para mais um lançar de dados antes de o flanco esquerdo sucumbir. Você vem?

Naquele instante Carbo soube que morreria. Controlou a vontade de vomitar.

— Estou com você.

Os olhos de Spartacus se acalmaram.

— Nunca pensei em dizer isso, mas sinto orgulho por estar ao lado de um romano e lutar junto com ele.

Carbo se emocionou. Sem conseguir falar, apenas assentiu.

Spartacus jogou a cabeça para trás.

— Meus soldados, ouçam! — De algum modo, em meio ao barulho da luta do outro lado, os homens mais próximos se viraram. — Peço mais um esforço. Mais um ataque! Crassus está ali, à nossa frente. Vocês estão vendo o maldito, com uma capa vermelha, atrás dos legionários? — Silêncio por um momento enquanto os homens procuravam o inimigo, e então gritos. — Vamos matar Crassus agora mesmo. Acabar com a batalha de modo marcante. Vocês estão comigo?

— SIM!

— VOCÊS ESTÃO COMIGO? — Spartacus começou a bater a sica no escudo.

— SIIIIMMMM! — Carbo acompanhou os outros.

— ENTÃO, ATAQUEM! — Spartacus correu tão depressa que pegou Carbo e o homem do outro lado de surpresa. Estava cinco passadas à frente quando eles o seguiram. Carbo se apressou para alcançá-lo. À esquerda, ele percebeu a presença de Zeuxis. Sabia, em seu íntimo, que os outros também o acompanhariam. Todo homem que ouvira aquele grito responderia. Dariam a vida para estar com Spartacus enquanto este se engalfinhava com os romanos em uma luta assustadora e mortal. A expressão “Vitória ou morte” nunca tinha sido tão verdadeira.

Ele alcançou o trácio. E o ouviu murmurar:

— Grande Cavaleiro, cuide de mim. Proteja-me. Ajude-me a matar Crassus.

A oração fez a espinha de Carbo formigar. Ele sentiu a presença dos deuses. “Que eles estejam do nosso lado.”

Dez passadas até as linhas romanas. Carbo viu Crassus. Seu coração bateu com esperança. Os legionários à frente dele não iam além de seis fileiras. Eles podiam conseguir! Cinco passos. Achando que tinha sido atingido na barriga, Carbo deu um grito estridente. O homem à frente dele se retraiu — como ele queria. Deu os últimos dois passos sem enxergar, atacando o soldado com toda a ira acumulada que sentia por Crassus. Sentiu o impacto quando Zeuxis e Spartacus atacaram seus componentes. Ainda gritando como um louco, Carbo enfiou o gládio no espaço entre os dois escudos diante dele. Sua lâmina encontrou resistência, mas então deslizou fundo em algo. Um grito, e o legionário de frente para Spartacus soltou a espada. Surpreso, Carbo olhou para o próprio oponente, que, mostrando os dentes, tentava acertá-lo na barriga pelo lado. Tarde demais, Carbo puxou o braço direito para trás para voltar a atacar.

Quando o gládio de Zeuxis deslizou para acertar o romano na garganta, ele gritou de alívio.

— Obrigado.

Zeuxis piscou para ele.

— É só fazer o mesmo por mim se puder.

— Farei.

— VAMOS! VAMOS! VAMOS! — gritou Spartacus.

Depois de derrubarem a primeira fila de inimigos, eles passaram para a seguinte. Batendo com os escudos, atacando com as espadas, gritando como animais. O sangue se espalhou pelo ar, cobriu o rosto deles, espalhou-se pelo chão. Gritos de triunfo misturados a berros de dor e os gorgolejos de homens se afogando no próprio sangue. Avançaram mais dois passos difíceis. Alguns passos à esquerda, Carbo viu um legionário perder um braço com um corte de espada; assustado, ergueu o cepo, molhando os companheiros com o líquido rubro. Como se tivesse acabado de perceber o que acontecera, soltou um gemido inarticulado. Os soldados de Spartacus que viram a cena riram e gritaram. O homem não só era inútil agora, como também era um perigo para seus companheiros. Não demorou muito para um legionário acertar o pescoço do infeliz por trás e pisar seu corpo para preencher o espaço.

Carbo percebeu que Spartacus lutava contra outro centurião. Já o próximo oponente de Carbo era um legionário habilidoso que antecipava todos os seus movimentos. Por longos minutos, eles bateram os escudos um contra o outro e tentavam atacar sem sucesso. A garganta de Carbo estava tão seca que o impossibilitava de gritar. Seu braço se movia como se tivesse vida própria — soco, golpe, soco, golpe —, porém ele começou a ter a sensação de que não estava mais dentro do próprio corpo. No fundo de sua mente, uma voz gritava para ele voltar à realidade ou acabaria morto, só que Carbo não conseguia obedecer.

Para sua surpresa, o legionário olhou para a esquerda. Um momento de susto, um instante brevíssimo de hesitação. Carbo não sabia o que havia causado a distração, mas aproveitou a chance, enfiando o gládio na boca aberta do soldado com tanta força que ela atravessou até a nuca. Gotas de sangue e pedaços de dentes quebrados voaram. Com um som horrível de engasgo, o legionário saiu de vista. Carbo olhou primeiro para o lado esquerdo. Zeuxis ainda estava ali. Depois dele, Marcion. E então uma olhada para a direita. Uma exultação assustadora tomou conta dele. O centurião tinha caído, gritando. Eles tinham avançado mais uma fileira.

Um ruído abafado ao seu lado acabou com sua alegria como uma vela apagada de repente. Ele virou a cabeça. Com uma careta, Spartacus o encarou. O sangue escorria de um corte em sua testa.

— O desgraçado me acertou, Carbo.

— É só um ferimento superficial!

— Não isso. No meu braço.

O tempo parou. Carbo queria chorar, mas não tinha lágrimas.

— Consegue lutar?

— Por um tempo.

Um grito chamou Carbo de volta para a briga. Dessa vez, um optio o atacava. “Vou matar você também, seu filho da puta!” Então, viu mais legionários surgindo atrás das fileiras ao fundo e desanimou. Havia agora pelo menos oito fileiras de homens entre eles e Crassus. Ainda que Spartacus não tivesse sido ferido, eles provavelmente não conseguiriam chegar até ele. Naquela conjuntura, não tinham chance. Bateu no escudo do optio com o seu.

— Precisamos recuar! — disse a Spartacus.

— Nunca! Ainda podemos matar aquele filho da puta do Crassus!

Carbo frustrou um golpe de gládio ao levantar o escudo. Em resposta, avançou sua lâmina; ao se afastar, olhou de novo. Crassus agora parecia tão distante quanto a lua. Até mesmo tentar era querer o impossível. Mas não deixaria Spartacus. Nunca. Uma loucura estranha o dominou.

— CRASSUS! CRASSUS! — Ele viu o elmo decorado se virar; viu a expressão arrogante que conhecera em Roma. O ódio tomou seu corpo. — Estamos indo pegar você! — Carbo sentiu grande satisfação ao ver um toque de medo no rosto do general.

Uma batida. O escudo do optio acertou o dele. Carbo foi empurrado para trás; e se esforçou para não cair.

— Acha que pode matar nosso general? — vociferou o optio. — Vai ter que passar por mim primeiro.

Gritando de ódio, Carbo continuou atacando. Sua velocidade pegou o oficial de surpresa e ele cortou o rosto do romano — um ferimento leve, porém doloroso. Incentivado pelo acerto, seguiu em frente.

— Você é maluco — disse o optio. — Não sabe admitir que perdeu?

— Vá tomar no cu!

— Dê uma olhada ao redor, seu tolo! Você está quase sozinho.

O fundo da garganta de Carbo foi tomado por um gosto ácido. O optio deu um passo para trás, como se o convidasse a checar a veracidade de suas palavras. À primeira vista, tudo parecia bem. Taxacis ainda estava do outro lado de Spartacus. Carbo viu os outros soldados além. Então, virou a cabeça para a esquerda. O horror tomou conta dele. Zeuxis ainda estava de pé, contudo, o corte profundo em seu pescoço contava uma história brutal. Marcion estava ali, abaixando-se para evitar os golpes de um legionário barbado, e só. Olhou um pouco mais atrás. “Não, por favor, não.” Talvez quarenta ou cinquenta homens ainda estivessem atrás deles. O resto se afastava, alguns mais devagar, lutando contra os romanos que avançavam, mas, a maioria fugia. Escudos e espadas abandonados já cobriam o chão. O desespero tomou conta de Carbo. O sonho tinha acabado.

— Convencido? — O optio deu um passo à frente com o gládio.

Carbo se virou de volta, porém protegeu-se tarde demais.

Com uma velocidade incrível, a sica de Spartacus veio pela direita. Acertou o optio no pescoço, decapitando-o com facilidade. Carbo nunca tinha visto uma fonte de sangue tão forte. Jorrou num jato vermelho na altura dos olhos quando a cabeça, com elmo e tudo, caiu graciosamente para o lado. O corpo do optio deu mais um passo à frente antes de cair, espasmando, no chão. Os legionários mais próximos se afastaram horrorizados, oferecendo seu respeito momentâneo ao companheiro.

“Mesmo com um ferimento grave, ele é ainda mais habilidoso do que eu”, pensou Carbo, surpreso.

— Ajude-me a tirar meu elmo. — pediu o trácio.

Ele não compreendeu.

— O quê?

— Faça o que estou pedindo!

Carbo segurou o gládio embaixo do braço esquerdo e então se inclinou para a frente e mexeu na faixa do queixo. Logo depois, esta se soltou. Spartacus tirou o elmo, que caiu no chão.

— Por que fez isso?

— Vá, saia daqui. Vá embora. Acabou. — O rosto de Spartacus estava um pouco empalidecido, porém sua voz ainda era forte.

Enjoado, Carbo entendeu. “Ele o tirou para não ser reconhecido depois de morto.”

— Vou ficar bem aqui!

— Encontre Ariadne. Proteja ela e o bebê. Leve-os daqui com Atheas, antes que a loucura comece.

— Mas e você?

Uma risada forte.

— Não vou a lugar nenhum. O Cavaleiro está à minha espera.

— Nem eu! — Taxacis nunca tinha falado de modo tão intenso.

A mente de Carbo deu voltas como nunca antes. Ele sabia o caos que decaía sobre os campos de batalha quando um lado começava a fugir. Era quando a maioria das mortes ocorria. Homens desarmados em pânico eram os alvos mais fáceis — à exceção de mulheres e bebês. Mesmo com Aventianus e o cita para protegê-los, eles teriam pouca chance de sobreviver. Encarou Spartacus, dividido entre a necessidade de permanecer leal e o desejo de honrar o pedido de seu líder.

— Eu...

— Por favor. Peço como amigo. — Os olhos de Spartacus não desgrudaram dos dele.

Com a garganta fechada pela emoção, Carbo assentiu.

— Vá ou será tarde demais. — Spartacus o empurrou de leve com o escudo.

Carbo obedeceu, afastando-se como um bêbado. As lágrimas que não tinham vindo antes enfim escorreram, dificultando sua visão. Ele as afastou de qualquer jeito, sabendo que, se não tomasse cuidado, tropeçaria em um cadáver. Ao redor dele, os soldados gritavam, choravam, fugiam. A sensação de pânico era pesada. Em momentos como aquele, os homens perdiam toda a razão. Se ele se abaixasse, seria esmagado na terra sanguinolenta. Carbo não se importava consigo, porém tinha que salvar Ariadne e Maron. Tinha dado sua palavra.

Segurando a espada e o escudo com força, começou a correr. A cada passo, a vergonha o dilacerava como várias facas afiadas. Ele tinha abandonado Spartacus, que salvara sua vida tantas vezes. Deixara-o para trás para morrer.

Carbo correu e não olhou para trás.