Spartacus: A Rebelião
Capítulo IX
Carbo caminhou em direção à porta mais próxima da basílica, acompanhado por Spartacus. Apoiando a mão na parede, o romano olhou ao redor como faria um homem que não pretende nada. Crassus ainda conversava com Caepio, apesar de ter descido alguns degraus.
— Quero alguns copos de vinho, não só um — disse Carbo em voz alta. — A diversão acabou. Depois disso, voltaremos a Campos Elísios.
— Sim, senhor — respondeu Spartacus.
— Quer ver o futuro, meu bom senhor?
Carbo se virou. Um homem de idade indeterminada e vestido com um roupão sujo estava diante dele. A touca de couro desgastada na cabeça e seu modo servil disseram o que ele já sabia.
— Você é um adivinho.
— Isso mesmo, senhor. Coloque um denário na palma de minha mão e eu verei o que os deuses guardam para o senhor.
“Dez legiões estão vindo atrás de mim.”
— Caia fora — ordenou Carbo de modo sucinto.
O adivinho começou a protestar, mas Spartacus deu um passo à frente.
— Você é surdo? Despeje suas mentiras em outro lugar ou vou enchê-lo de hematomas que você provavelmente não previu que teria.
Murmurando palavrões, o homem se afastou.
Carbo não acreditava em videntes, porém achou intrigante o homem aparecer depois do que ele acabara de ouvir, que o adivinho o tivesse escolhido dentre tantos outros. Ele fez um sinal contra o azar.
Spartacus tinha outras coisas em mente.
— Ele está vindo. Com apenas seis homens o protegendo — sussurrou, animado. — Caepio é um deles.
Carbo olhou. Com dois legionários na frente e quatro atrás, Crassus vinha na direção da multidão. Para sua surpresa, um dos soldados da frente era, de fato, o centurião veterano.
— Eles estão seguindo para a mesma rua de onde viemos. O que devemos fazer?
Spartacus sabia que seria muito difícil, mas estava decidido.
— Vamos segui-los.
“Não sei se vamos sobreviver, mas vale o risco”, pensou ele.
Carbo sentia o coração pular no peito. Ele esperava por aquilo, mas dois contra seis? Os legionários vestiam armadura completa enquanto os dois só levavam adagas. “Não posso recuar.” Ele assentiu para Spartacus, tenso.
— Como quer fazer?
— Vamos passar à frente dele. Entrar no caminho por onde Tulla nos trouxe. Atacar quando eles passarem. Cada um pega um soldado, os mais próximos de nós, e os derrubamos depressa. Então, você pega o primeiro legionário que conseguir. Vou matar Crassus. Você vai ter que segurar o resto que vier atrás de nós. Acha que pode fazer isso?
— Sim — respondeu Carbo com toda a confiança que conseguiu reunir. “Sou um homem morto. E o que mais importa se conseguimos?”
— Assim que eu matar Crassus, voltamos pelo caminho de onde viemos e nos embrenhamos nas ruas de trás. — Encarou Carbo. — Está claro?
Este passou a língua pelos lábios secos.
— Sim.
Spartacus percebeu a leve demora na resposta. Riu.
— Você quer matá-lo, não quer?
— Quero.
— Acha que pode matar um homem desarmado? Só teria que golpeá-lo, como faz com um porco. Sem pensar, sem hesitar.
Uma dúvida repentina tomou conta de Carbo. Seria capaz de assassinar Crassus a sangue-frio? Sempre pensou que sim, porém, agora que tinha a chance, não tinha mais tanta certeza. Ele desviou os olhos do trácio.
— Eu o mato — disse Spartacus.
Carbo pensou em seus pais tendo que sair da casa que fora de sua família por gerações. Sentiu a ira de sempre em seu estômago.
— Eu consigo — protestou.
— Não — respondeu Spartacus com a voz séria. — Essa é a única oportunidade que teremos. Não pode haver hesitação.
Furioso consigo mesmo, Carbo obedeceu.
— Vamos, caso contrário, eles passarão à nossa frente. Vamos torcer para que Tulla só volte depois que desaparecermos. A última coisa de que precisamos é que ela venha atrás de nós.
— Certo. Já cansei de esperar a pestinha — disse Carbo em voz alta, assumindo seu papel de senhor mais uma vez. — Vamos voltar para a estalagem. — Ele partiu, a menos de vinte passos à frente de Crassus e seus guarda-costas. Foi difícil não olhar para trás enquanto caminhava. O som das malhas dos legionários era audível. “Terei que me aproximar para acertar o soldado na garganta.” Sua ansiedade aumentou, e os dedos procuraram o cabo da adaga. “Júpiter, permita que minha mira seja certeira.”
Depois de terem assassinado dois dos legionários e, enquanto Spartacus estivesse matando Crassus, os companheiros deste se voltariam contra ele. Carbo não tinha tempo para pensar no que poderia acontecer depois disso. “Crassus vai morrer”, disse a si mesmo. Chegou à viela e entrou depressa nela.
Spartacus o seguiu. Já estava com a adaga em punho.
— Pronto?
Pegando a própria adaga, Carbo assentiu.
Spartacus espiou pela esquina da construção com muito cuidado. Então, deu um passo para trás e encarou Carbo.
— Eles estão a 15 passos. Você pega o legionário da frente por esse lado. Eu pego o seguinte. Aja assim que o alvo estiver ao nosso lado. Não espere que ele ou Crassus passem, caso contrário podem perceber o que está acontecendo.
— Sim.
Spartacus ficou com a parte mais difícil do plano, mas Carbo não discutiu. Moveu-se na frente do trácio o máximo que conseguiu sem ser visto e se encostou na parede fria.
— Eles estão a dez passos agora — sussurrou Spartacus. — Nove. Oito. Sete. Seis.
Carbo ergueu a adaga com a ponta para baixo, como tinha sido treinado para fazer. Assim, a segurava com mais força e era impossível que a arma lhe fosse tirada. Estreitou os olhos, observando o espaço diante de si: o mesmo que levava à rua. Sentia o sangue pulsando nos ouvidos, ouvia o pisar de caligas e o roçar da cota de malha. Ao fundo, sons da basílica e a voz de Spartacus.
— Cinco. Quatro. Três.
Carbo ficou tenso.
— Dois. Um. Agora.
A primeira coisa que Carbo viu foi a ponta de um escudo. Depois, um soldado vestido de cota de malha, com a cabeça coberta por um elmo com crina cor de bronze. Carbo avançou. Com a mão esquerda sobre a borda superior do escudo, ele o empurrou para baixo. O legionário distraído foi puxado para baixo e para o lado, expondo o pescoço. Erguendo a adaga, Carbo a enfiou no espaço ao lado do osso da clavícula. Percebeu que Spartacus partia para a frente à sua esquerda, viu os rostos confusos dos outros soldados virando em sua direção e a expressão de choque de Crassus. Um grito de agonia de sua vítima o trouxe de volta à realidade. Puxou a adaga, espirrando sangue pelo ar. Carbo esfaqueou o homem de novo para garantir e deixou que ele caísse.
— Devem ser eles! — gritou o segundo homem da frente, Caepio. — Protejam Crassus!
Naquela hora, Carbo não se atentou àquelas palavras, pois se concentrava em Caepio, que avançava para ele com uma faca em punho.
Felizmente, Caepio tropeçou. Seu escudo, que deveria ter batido no peito de Carbo, acertou a lateral do corpo de Crassus, que caiu para o lado.
— Mate-o, seu tolo! — gritou o político, afastando-se em direção ao muro da Curia.
Segurando o gládio, Caepio avançou.
Pelo canto do olho, Carbo viu dois corpos no chão e Spartacus partindo na direção de Crassus. “Os dois últimos legionários...”, berrou sua mente. “Onde estão eles, por Hades?” Não podia olhar ao redor, pois Caepio avançava depressa. Um: o escudo do centurião foi lançado em direção ao rosto de Carbo. Dois: em seguida, um ataque forte de sua espada. Ele desviou do primeiro e se afastou do segundo.
— Reconheço você! Você é o traidor com quem falei depois do munus. — Rosnando satisfeito, Caepio deu um passo à frente. — Está pronto para engasgar com o próprio sangue, seu verme?
Carbo não respondeu. Sem escudo, sua única defesa era se afastar. Isso fez com que se distanciasse ainda mais de Spartacus e do quinto e do sexto soldados, que não partiram para cima dele. Em vez disso, colocaram-se entre Crassus e o trácio, estes protegendo o romano com os escudos. Carbo praguejou. Com apenas uma adaga, Spartacus não conseguiria. Mas não havia nada que Carbo pudesse fazer para ajudar. Sempre que ele tentava ir em direção do Fórum, Caepio bloqueava o caminho. Ele olhou para trás. A uma distância segura, uma multidão de cidadãos chocados os observava. Ele disse outro palavrão. O mesmo acontecia mais à frente de onde Spartacus estava. O alarme fora dado. A qualquer momento, mais soldados viriam.
Spartacus também sabia disso. Ele tentou mais uma vez alcançar Crassus, atacando a lateral dos legionários que o protegiam. Conseguiu acertar o homem mais à esquerda na parte exposta do braço com o qual ele segurava o escudo. Ao fazer isso, Crassus praguejou e se encolheu contra a parede. “Se eu tivesse mais tempo”, pensou Spartacus, “seria diferente”. Ninguém aguentava o peso de um escudo por muito tempo depois de um ferimento daquele. Contudo, o outro soldado o atacou com vários golpes de escudo e espada, e o trácio teve que se afastar. Ao olhar depressa na direção do Fórum, percebeu que sua tentativa fora frustrada. Um grupo grande de legionários, acompanhado por homens com roupas de civis — alguns dos veteranos, sem dúvida —, subia a rua correndo.
Ele olhou fixamente para Crassus.
— Não será dessa vez, mas na próxima você não terá tanta sorte.
Crassus o encarou com os olhos arregalados.
— Eu deveria ter ordenado sua morte aquele dia.
— Sim, deveria, seu desgraçado. Um erro idiota, não é? — ironizou Spartacus, olhando para trás enquanto corria.
— Atrás dele! — gritou Crassus, empurrando os soldados pelas costas e gesticulando sem parar aos homens que se aproximavam. — É Spartacus! Um pedaço de ouro ao homem que me trouxer o cadáver dele!
Caepio estava muito ocupado com Carbo; não viu Spartacus se aproximando.
“Eu poderia matá-lo com facilidade.” No entanto, o trácio ainda se lembrava da dignidade com que o centurião havia se portado. Então, ele bateu com força no ombro de Caepio por trás, e este caiu longe. Spartacus saltou sobre ele.
— A fortuna está sorrindo para você hoje.
— Maldito seja, seu assassino traidor! — xingou Caepio. — Não me esquecerei disso!
— Nem eu. — “Que oportunidade desperdiçada”, pensou Spartacus, contrariado. “Crassus deveria estar dando o último suspiro.” Ele encarou Carbo. — Vamos!
Percorreram o caminho correndo. Nenhum dos dois percebeu a menina atrás deles, desviando dos soldados que os perseguiam. Ela levava um copo de vinho na mão.
Spartacus guiou Carbo pelo caminho. Correu pela viela mal-iluminada, passou por um velho que carregava uma galinha pelo pescoço, em direção a um cruzamento. Virou à esquerda sem olhar e prosseguiu, seguido por Carbo. Cinquenta passos depois, toparam com a bifurcação do caminho. Escolheu ir pela direita. Logo depois, praguejou ao pisar em um monte fedorento de dejeto pastoso.
— Um monte de merda. — Seus dentes brilharam na escuridão na direção de Carbo. — Eles não vão nos seguir por aqui. Se seguirem, pelo menos ficarão cobertos de merda, como nós.
Carbo olhou para trás, de onde tinham vindo. Não ouviu nenhum barulho de perseguição.
— Acho que os despistamos.
— Talvez. Eles procurarão por todas as ruas. Precisamos de um esconderijo.
— Não deveríamos sair da cidade?
— É tarde demais para isso. A primeira coisa que Crassus fará é mandar os soldados para todos os portões. Todo mundo que tentar sair será questionado, pelo menos até o fim do dia. Teremos mais chance se pudermos nos esconder até amanhã.
“E ainda assim será arriscado”, refletiu Spartacus. O risco valera a pena? Sim, porque, se tivessem conseguido matá-lo, os romanos estariam totalmente desestruturados.
— Podemos nos esconder aqui.
Spartacus indicou a janela estreita acima de onde estavam.
— Alguém vai nos ver e ligar os pontos. Será perigoso voltar para Campos Elísios, mas é nossa melhor opção.
Carbo também não gostava da ideia, porém não conseguiu pensar em uma opção. Olhou ao redor, tentando descobrir onde estavam.
— Você sabe qual é a direção?
— Não.
— Vamos tentar por aqui — disse Spartacus, dando um passo à frente.
— Se fizermos isso, vamos ficar ainda mais perdidos.
Carbo se virou e viu uma pessoa pequena correndo no escuro. Não conteve o sorriso. Era Tulla, ainda levando o copo de vinho.
— Você! — exclamou Spartacus. — Por que nos seguiu?
— Você não me pagou. — Tulla se calou quando Spartacus deu um passo em sua direção.
— Viu o que aconteceu? — perguntou o trácio.
— Si-sim — respondeu a garota, afastando-se. — É verdade que você é Spartacus?
O trácio deu um passo à frente e agarrou Tulla pela gola da túnica.
Carbo se assustou.
— É.
— Vo-você estava fingindo ser escravo? Por quê?
— Para descobrir o que está acontecendo aqui. Para descobrir o que Crassus planeja fazer.
— E, quando viu uma chance de matá-lo, você aproveitou.
— Isso mesmo.
— Você vai me matar agora? — Apesar de sua coragem, a voz de Tulla soou hesitante.
— Não costumo matar crianças, mas também não quero que os soldados nos encontrem. Não tem outra maneira. — Spartacus encostou a adaga na lateral do pescoço fino da garota.
Carbo viu o pano que cobria as pernas da menina escurecer — ela tinha urinado de medo.
— Spartacus, por favor!
O trácio não respondeu e manteve a adaga onde estava. Tulla olhou para Carbo e então para Spartacus de novo, mas não conseguia mais falar.
— Você se tornará pai em breve — argumentou Carbo.
— O que isso tem a ver? — quis saber Spartacus.
— Se você tiver uma filha, imagine quando ela tiver a idade de Tulla.
— Terei um filho, não uma filha — vociferou ele. — E ele não será um rato de esgoto.
A ponta da adaga se afundou na pele de Tulla, fazendo-a gritar de medo, e uma gota grande de sangue pingou no chão.
— Espere! Podemos negociar com ela.
Spartacus encarou Carbo em silêncio, porém ainda mantinha a adaga parada.
— Ofereça a ela um áureo para nos guiar até Campos Elísios — sugeriu Carbo. — Ela ficará lá conosco e, pela manhã, lhe daremos outra moeda de ouro para que nos leve a um dos portões menos movimentados.
Spartacus riu.
— Isso é o suficiente para se sustentar por um ano! Por que eu faria isso se posso simplesmente cortar a garganta dela e ficar com o dinheiro?
— Porque significaria mais uma vida salva. Ela é uma criança inocente.
— Inocente? Assim também eram as crianças nos vilarejos trácios que as porras dos romanos assassinaram alguns anos atrás!
Os músculos do braço de Spartacus se contraíram.
— Faça isso por mim, então — pediu Carbo, achando que podia estar indo longe demais. — Por favor.
Spartacus contraiu os lábios.
— Você ousa me questionar?
— Ela não vai nos enganar — retrucou Carbo. — Tenho certeza.
Spartacus usou a ponta da adaga para forçar o queixo de Tulla para cima.
— Está ouvindo isso? Carbo confia em você. Com a própria vida. — Ele lançou um olhar rápido a Carbo, que sentiu a boca secar. — Você é digna dessa confiança?
— Si-si-sim, senhor.
Ele a soltou, e Carbo respirou aliviado. “Graças aos deuses.”
O trácio procurou a bolsa que levava discretamente pendurada no pescoço.
— Pegue.
Tulla pegou a moeda e a virou várias vezes.
— Isso é só um denário!
— Isso mesmo. E isto — disse Spartacus, virando uma moeda de ouro entre os dedos — é um dos áureos que você vai receber. Se eu entregar essa moeda a você agora, pode nos enganar. E terei que matar Carbo aqui.
Tulla arregalou os olhos.
— É mais do que você vai ter em toda a sua maldita vida — disse Carbo com raiva, certo de que o dinheiro motivava a garota mais do que a vida dele.
Tulla esticou o braço para tentar pegar o áureo, mas Spartacus afastou a mão.
— Você receberá todo o pagamento se fizer o que eu mandar. Porém, se não fizer, sairei à sua procura e a matarei. Não de um modo bom, como pretendia fazer agora, e sim bem devagar.
O rosto de Tulla ficou pálido.
— Tudo bem. Você sabe que os deuses farão você cumprir sua promessa?
Carbo se sentiu aliviado ao ouvir as palavras dela. Se ela acreditava em promessas, não o trairia. Se traísse, ele tinha quase certeza de que o trácio o mataria. Apesar da confiança de Spartacus nele, Carbo já havia cometido dois erros.
— Sei — disse Spartacus solenemente.
Aquilo pareceu satisfazer a menina.
— Dois áureos no total, então.
— Isso. E pagaremos o restante quando você nos levar ao portão pela manhã.
— Juntamente com a quantia que combinamos pelo serviço de guia de vocês dois. — salientou Tulla com teimosia.
— Dá para acreditar nessa menina? — Spartacus riu. — Ela negociaria até com a morte!
Apesar do perigo no qual se colocara, Carbo sorriu.
Spartacus cuspiu na mão e a estendeu.
— Fechado.
— Fechado — concordou Tulla, aceitando o aperto de mão com seriedade.
Algum tempo depois, eles estavam em uma viela de onde podiam ver Campos Elísios. Tulla se movimentou para entrar na rua, mas Spartacus a puxou de volta.
— Espere, não sejamos precipitados.
Parados à sombra, eles observaram a estalagem. Várias mesas do lado de fora estavam ocupadas. Um homem calvo cochilava com a cabeça encostada na parede da frente; uma prostituta aparentemente entediada brincava com suas pulseiras; dois homens mais velhos conversavam amigavelmente a respeito de qual equipe de cavalos era a melhor da temporada. A inquietação de Carbo diminuiu um pouco. Não parecia haver motivos para alarde. Ele olhou para Spartacus.
— Ainda não.
Tulla revirou os olhos, mas também permaneceu onde estava.
Um garoto empurrando um carrinho passou, anunciando o suco de fruta fresco que vendia. Uma senhora passou na outra direção, dando ordens ao trio de escravos domésticos que seguia atrás dela, levando suas compras. Os cheiros deliciosos que vinham de uma padaria perto dali se misturavam com o de carvão queimado e de estrume dos chiqueiros atrás de um açougue. O gado fazia barulho. Ting. Ting. Ting. O som do metal com metal os alcançava. Um aleijado com muletas improvisadas passou com dificuldade.
Carbo começou a relaxar.
Ao lado dele, Tulla se remexia, impaciente.
— Você já acha que é seguro?
Spartacus fez que não com a cabeça.
— Mas está tudo nor...
Tramp. Tramp. Tramp.
Tulla arregalou os olhos. O suor escorreu pelas costas de Carbo e Spartacus espiou depressa.
— Soldados. Oito, nove, dez.
Em seguida, um grupo de legionários parou diante da estalagem. Um homem robusto saiu e se sentou com os dois senhores. Concentrado nos soldados, Spartacus não percebeu o homem assentir discretamente. Carbo viu, mas pensou não se tratar de nada além de um cumprimento. Seis entraram; um deles esperou do lado de fora.
“Spartacus tinha razão em ser cauteloso”, pensou Carbo, porém a situação deles era só um pouco menos desesperadora do que antes.
— Por Hades, o que faremos agora?
— Boa pergunta. — Spartacus começou a pensar. “Grande Cavaleiro, ajude-nos.”
— O que acha de irmos a um prostíbulo? — sugeriu Tulla. — Vocês poderiam ficar em um deles, passar a noite.
— Não — respondeu o trácio. — Lugares assim vivem de fofoca. Além disso, podem ser vasculhados. Pode acreditar, Crassus vai virar essa cidade de cabeça para baixo a fim de nos encontrar.
— Podemos tentar ir para a casa de meu tio e descobrir onde meus pais moram — sugeriu Carbo lentamente. — Se nós nos limparmos, pode dar certo.
Sua mente estava a toda. O que ele diria a Varus? Ao pai e a mãe?
— Que boa ideia. Se o pior acontecer, podemos mantê-los sob nosso poder até de manhã. — Spartacus encarou Carbo.
— Muito bem. — Carbo quase se arrependeu de sua oferta.
Não queria que seus pais tivessem como lembrança da última visita dele — pois com certeza seria a última — uma situação tão ruim. No entanto eles tinham que escapar.
Spartacus assentiu, satisfeito.
— Onde seu tio mora? — perguntou Tulla.
— No monte Esquilino. Não sei bem onde.
— Pode encontrar a casa dele? — perguntou Spartacus.
Tulla deu um suspiro longo.
— Claro. Talvez tenha que perguntar a algumas pessoas.
— Bem, o que estamos esperando?
Tulla fez uma careta para Spartacus e atravessou a viela.
Marcion havia bebido mais do que os companheiros, e a dor de cabeça do dia seguinte pesou na recusa do convite dos amigos para nadar no rio perto do acampamento. Contudo, eles não tinham se afastado muito quando o descanso de Marcion foi interrompido de novo pelo som de gritos. Irritado, ao espiar lá fora, ele descobriu algo que o fez vestir-se depressa. Ignorando a ressaca, ele correu do acampamento até o rio.
— Vocês souberam? — perguntou ele, animado, ao descer o morro, passando por outros soldados.
Havia muitos homens na água, tomando banho, lavando roupa, enchendo contêineres ou fazendo como seus colegas, brincando na água perto da barranca. Alguns olharam para a frente, mas nenhum dos companheiros de Marcion o ouviu.
— Ariadne deu à luz o bebê! — gritou.
Assim, conseguiu alguma atenção.
Arphocras, um dos companheiros mais próximos de Marcion, empurrava a cabeça de um amigo para dentro da água. O sol reluziu nas gotas de seu cabelo curto.
— O que você disse?
— Conte! — gritou um soldado que Marcion nunca tinha visto antes.
— Ariadne deu à luz um menino saudável!
Um sorriso torto surgiu no rosto de Arphocras.
— Um filho? Graças aos deuses. Que notícia maravilhosa. Vamos torcer para que Spartacus volte logo, certo?
— Ele voltará — sentenciou o soldado que havia falado primeiro.
Marcion assentiu. Ao contrário de muitos outros, sobretudo Zeuxis, ele ainda tinha certeza de que seu líder voltaria. Não sabia explicar o por quê, mas a notícia do nascimento de Maron aumentara sua convicção.
Os outros ainda brincavam uns com os outros.
— Ei! — gritou. — Tenho ótimas notícias!
Ninguém lhe deu atenção. Marcion não se surpreendeu. Durante as semanas que eles passaram marchando sob o sol quente de verão, poucos riachos perto das montanhas encontrados por eles tinham sido seguros o bastante para que pudessem entrar. Aquele era seguro, por isso atraía os soldados. Apesar de Marcion ser perturbado por se lavar com frequência, seus companheiros não podiam negar o prazer enorme de poder se lavar em água corrente.
Ele olhou para Arphocras, cuja vítima conseguiu escapar da brincadeira. Sua cabeça estivera submersa, por isso ele não sabia o que Marcion tinha dito. Com um rosnado triunfante, ele envolveu o pescoço de Arphocras e o puxou para baixo. A água espirrou quando os dois começaram a lutar.
Dez passos à frente, Gaius carregava Zeuxis nos ombros e estava de frente para outros dois companheiros, um sobre os ombros do outro. Gritando impropérios, Zeuxis e o outro homem que estava em cima se engalfinhavam, tentando jogar um ao outro na água. Não demorou muito para Zeuxis perder o equilíbrio e cair. Ele começou a se afastar, mas aproveitou a oportunidade para segurar seu oponente pelo braço e, gritando, derrubá-lo também.
A brincadeira fez Marcion se esquecer da notícia por um momento. Animado para participar, ele começou a se despir. Acabara de puxar a túnica pelos ombros quando um forte golpe o lançou à frente, e ele perdeu o equilíbrio. Um pouco depois, Marcion caiu no rio. Ele se debateu sem parar, tentando encontrar o fundo. Quando se endireitou, arrancou a túnica e tossiu já que engolira muita água.
— Quem fez isso? — vociferou. — Quem fez isso?
Ouviu risos e olhou para a barranca do rio.
— Seu maldito!
— A oportunidade era boa demais para perder — disse Antonius, outro de seus companheiros de barraca. — Você estava de pé aqui, gritando sem parar como o maldito Julius.
Marcion sorriu. Jogar o oficial disciplinador no rio era uma ideia interessante.
— Por que estava gritando? — perguntou uma voz grave.
— Zeuxis. Finalmente! — Ele desviou do ataque do homem calvo com destreza e o empurrou, satisfeito por ver que o colega de barraca, sempre tão argumentativo, cair de cara no rio.
— Ariadne deu à luz — intrometeu-se Arphocras.
Isso fez a maioria dos homens sorrirem, menos Zeuxis, molhado e irritado.
— Não quero mal ao bebê, mas essa é a última coisa de que precisamos.
— Não é uma surpresa. Ela estava grávida há nove meses! — disse Arphocras, e muitos riram.
— Não é isso que quis dizer — resmungou Zeuxis. — Castus e Gannicus não ficarão muito felizes com isso, certo?
— Quem se importa com que aqueles filhos da puta pensam? — perguntou Marcion. — Nós não nos importamos, isso é certo.
Ele ficou contente quando vários homens perto dele concordaram. Contudo, foi difícil ignorar que alguns soldados olhavam para ele com cara feia. O pior é que eles não eram gauleses. “A desarmonia está se espalhando”, pensou ele, descontente.
— Isso pode forçá-los a agir. Eles estão planejando algo desde que voltamos dos Alpes — disse Zeuxis. — Já cansei de ouvir o que eles prometem a nós em troca de lealdade. Liberdade a cada propriedade e fazenda que atacarmos. O direito de usar ferro e ouro como itens de permuta. Todos seremos ricos em breve, se Castus e Gannicus estiverem falando a verdade!
— Por que está dizendo isso? — perguntou Marcion, cansado das reclamações constantes de Zeuxis. — Sei que você acha que os gauleses contam mentiras.
— Não são mentiras, esse é o problema — respondeu Zeuxis com amargura. Ele passou a falar um pouco mais baixo. — É por isso que tantos homens ouvem o que eles dizem. Podem ter certeza: se Spartacus não voltar logo, haverá problemas. Problemas de verdade.
Os outros se entreolharam com preocupação.
— A situação não é tão ruim — disse Marcion, mas ele também havia ouvido os sussurros.
— Não é? — ironizou Zeuxis. — Um exército precisa de seu líder, e se ele se ausentar por muito tempo, outra pessoa tomará seu lugar. Não será Egbeo nem Pulcher. Eles não são fortes o bastante.
— Não queremos mudança. Ainda somos os homens de Spartacus, certo? — perguntou Marcion, encarando os companheiros.
A resposta foi um coro abafado de “sim”, mas Zeuxis não respondeu. Ficou olhando para Marcion.
— O único motivo pelo qual entrei para o exército de Spartacus foi para me livrar de meu maldito senhor. Pode ter sido diferente com vocês, porém muitos homens fizeram o mesmo. Foi bom aprender a lutar, sim, e a deixar os romanos provarem do próprio veneno. Spartacus nos liderava vitória atrás de vitória, por isso continuei a segui-lo. Podem dizer que me tornei leal a ele, sim. Mas agora ele está perdido e parece que não voltará. Ele nos deixou à mercê de dois gauleses selvagens! Ele não tem lealdade para conosco. De jeito nenhum ficarei muito mais tempo aqui.
— Não podemos deixar Castus e Gannicus tomarem o controle! — gritou Marcion.
— Como pretende detê-los? — questionou Zeuxis. — Você é um soldado comum, como eu. Como todos nós. O que podemos, eu e você, fazer contra homens como os gauleses? Eles têm milhares de seguidores! Milhares. Se desafiássemos Castus e Gannicus, seríamos comida de urubu, e você sabe disso.
Marcion olhou para os companheiros em busca de apoio, em vão. Ninguém mais concordava com a previsão sombria de Zeuxis, mas também não a questionava. Sentiu a tristeza tomar conta de si. O riso de alguns minutos atrás parecia ter ocorrido havia muito tempo.
“Onde você está, Spartacus?”
— Ajude-me, por favor.
Por um instante, Ariadne não conseguiu determinar onde estava, ou quem a chamava. Estava sozinha em uma rua de lajotas pretas de basalto. O sol brilhava no céu límpido. Ao olhar para cima, viu bandos de urubus. Sentiu a pele arrepiar. “Por que tantos urubus?”
— Socorro. Água.
Ariadne virou a cabeça e viu o homem pendurado em uma cruz simples de madeira à sua frente. Foi tomada pelo horror.
— Egbeo? — perguntou, incrédula.
— Ariadne. — A voz do trácio grandalhão estava rouca e seca. Bem mais fraca do que o normal. — Ajude-me.
Ela deu um passo à frente. A cruz era simples, uma ripa comprida de madeira com um pouco mais de um palmo de largura e outra ripa quase igual a cruzava por cima. Ela viu que poderia desenrolar a corda que prendia os pés de Egbeo na vertical, porém não tinha como retirar os grossos pregos de ferro enfiados nos punhos dele. Para impedir que os removessem, eles foram martelados ao contrário, com a cabeça enfiada na madeira, e as mãos de Egbeo, presas numa posição agonizante.
— Não posso ajudá-lo — disse ela. — Sinto muito.
— Sede. Água.
A impotência de Ariadne alcançou outro nível. Ela não tinha nenhum cantil de água. Olhou ao redor pela estrada e não viu nenhum poço, nenhuma construção. Só uma linha de cruzes ocupadas, estendendo-se até onde a vista alcançava.
— Quantos homens foram crucificados? — sussurrou ela, horrorizada. — Devem ter sido centenas.
— Milhares — respondeu Egbeo.
De repente, Ariadne entendeu por que estava ali. O terror embrulhou seu estômago.
— Spartacus... Onde está Spartacus?
Egbeo não respondeu.
— Onde está meu marido? — O desespero deixou sua voz estridente.
As marcas de expressão do rosto contorcido dele ficaram ainda mais profundas.
— Ele...
Uma mão chacoalhou seu ombro.
— Ariadne!
Assustada, ela abriu os olhos e viu a parteira agachada diante de si.
— Você estava tendo um pesadelo... — Ela foi interrompida por um gemido ao lado de Ariadne. — E acordou o bebê. Acho que ele está com fome.
— Sim, sim, claro. — Sem se esquecer das fortes imagens do sonho, Ariadne pegou Maron, cujo choro se tornava mais alto, no colo. “Não pode ser coincidência ter o mesmo sonho horroroso três vezes, pode?” Ela beijou a testa do filho. — Sinto muito por ter incomodado você, meu querido. Venha aqui.
Posicionando-o ao peito com a ajuda da parteira, ela se deitou de novo.
— Meu sonho foi horrível.
A senhora riu.
— São as ervas. Elas costumam trazer imagens bizarras e perturbadoras. As coisas que não queremos que aconteçam ou aquelas que tememos.
— As visões se tornam realidade?
— Às vezes, mas é quase impossível saber quais são reais e quais são falsas. Meu conselho é que você esqueça tudo isso. Tem coisas mais importantes a fazer do que pensar em pesadelos.
Ariadne assentiu. Seria o melhor a fazer. Ela se ocupou olhando para Maron e imaginando como ele seria quando crescesse. Herdaria os olhos penetrantes e cinzentos de Spartacus ou os dela, castanhos? Seria forte como o pai ou puxaria para a família dela, com um corpo mais magro? Logo começou a divagar. Inevitavelmente, pensou no sonho. Com Spartacus em Roma, sua reação natural ao pesadelo foi pensar o pior. “Como pode ser efeito das ervas se já tive a mesma visão antes? Será que Spartacus já está morto?” Ela respirou fundo. Nas vezes anteriores em que vira as fileiras de cruzes, não vira Egbeo ou conversara com ele. Sem dúvida, a presença do trácio no pesadelo significava que aquilo não podia acontecer no presente nem no futuro próximo, pois Egbeo estava vivo e bem, ali com o exército. Só podia significar que Spartacus não seria um dos homens crucificados.
A senhora tossiu, e Ariadne olhou para ela. “Talvez nada disso tenha sentido.” Sua tentativa de se acalmar não durou muito. Um sonho tão dramático não voltava a ocorrer se não tivesse um significado.
Maron se remexeu, e ela acariciou a parte de trás de sua cabeça.
— Calma, meu pequeno. Está tudo bem. Está tudo bem. — “Dionísio vai cuidar de nós, como sempre fez. Spartacus não era um dos homens que vi.”
Quando fechou os olhos e tentou descansar de novo, Ariadne foi assombrada por uma pergunta. Não conseguia esquecê-la.
O que Egbeo estava tentando lhe contar?
A caminho do Esquilino, Spartacus fizera Tulla comprar duas túnicas novas em uma loja simples de roupas em uma rua lateral. Depois de deixarem as roupas ensanguentadas em um monte de fezes e com as adagas limpas e embainhadas, o trio conseguiu andar pelas vias principais sem ser notado. Havia grupos de soldados por toda parte, mas eles prestavam pouca atenção aos transeuntes. Apesar disso, o coração de Carbo batia acelerado, porém ele seguia em frente como se apenas passeasse por Cápua. Spartacus tomava o cuidado de andar com a cabeça baixa. Ao encontrarem um restaurante de fachada pequena e aberta na base do monte, Carbo foi ao balcão pedir comida enquanto Tulla partia para procurar a casa de Varus. Os dois observavam os guardas que passavam, mas felizmente os soldados pareciam se interessar apenas pelas hospedarias e tavernas. Os dois ficaram felizes quando a menina voltou.
Tulla estava indiferente às preocupações deles.
— Fica duas ruas acima — disse ela. — Saberemos onde é quando virmos as almofadas bordadas nos bancos do lado de fora.
Carbo revirou os olhos.
— Do que ela está falando? — perguntou Spartacus.
— Há assentos fora das casas dos ricos para que seus clientes se sentem enquanto esperam ser recebidos. Meu tio sempre gostou de ostentar.
Tulla os levou pela rua, abrindo caminho pelo trânsito de pessoas. Virou à esquerda na fonte decorada com uma estátua dourada de Netuno e, então, virou na segunda à direita.
Carbo viu as almofadas e se lembrou de sua mãe falando sobre elas.
— É aqui.
Eles se aproximaram. Com exceção das decorações discretas nos bancos antes vazios, a casa de Alfenus Varus podia ser como todas as outras residências em Roma. Assim como as muitas outras residências dessa parte da cidade, a casa era afastada, uma construção retangular com um muro alto do lado de fora, cujas únicas peculiaridades eram uma porta grande e uma fileira de janelas pequenas de vidro. Isso, de fato, era raro. As palavras da mãe de Carbo ecoaram em sua mente: “Ele sempre tem que ter as coisas mais novas, por mais caras que sejam.” “Tolo.” Ele já não sentia vontade de rever o tio. Entretanto, pensar em seus pais o levava adiante. De algum modo, ele faria com que eles compreendessem o que havia acontecido.
Tulla se sentou no banco à esquerda da porta. Spartacus permaneceu de pé.
Carbo percebeu que os dois o observavam. Ajeitou a túnica e passou as mãos pelo cabelo. Então, aproximou-se e bateu o elefante de ferro que havia na porta. O som foi alto.
Ele esperou muito tempo e estava prestes a bater de novo quando uma persiana à altura de sua cabeça se abriu. Dois olhos o estudaram de modo suspeito.
— Pois não?
— Alfenus Varus está?
Ouviu-se um grunhir de insatisfação.
— Não para pessoas como você. — A persiana começava a se fechar.
Essa reação à sua aparência diferente era algo com que Carbo sabia lidar. Antigamente, ele teria se acuado. No entanto, deu um passo à frente.
— Acredito que descobrirá não ser o caso. Sou sobrinho dele.
A persiana parou de ser fechada.
— Quem é você?
— Paullus Carbo, sobrinho dele.
— Filho de Julia, irmã de Alfenus?
— Sim.
— Espere aqui.
Carbo estava prestes a perguntar se seus pais ainda moravam na casa, mas a persiana já tinha sido fechada. Ele ouviu passos e, então, o silêncio.
— Não foi exatamente a recepção mais calorosa — murmurou Spartacus.
— Alfenus acha que minha mãe não fez um bom casamento. Ele sempre nos considerou inferiores. Mas é um bom homem.
O protesto de Carbo foi automático e repetia as palavras do pai. Contudo, pela primeira vez na vida, sua reação pareceu falsa. Nas poucas vezes em que encontrara Varus, este tinha sido arrogante e prepotente. “Ainda bem que fugi da casa da família”, pensou Carbo. Caso contrário, seu pai o teria mandado viver sob os cuidados de Varus, para ser advogado.
Logo depois, ele ouviu alguém atravessar o corredor. Escutou o som metálico da trava sendo retirada, e a porta se abriu. Um homem de rosto enrugado e cabelo grisalho apareceu.
— Entre. — Ele olhou com má vontade para Spartacus e depois para Tulla. — Seu escravo e sua...
— Guia. — “Muito bem”, pensou Carbo, “nem precisei mentir para ele”.
— Compreendo. Eles podem permanecer do lado de fora.
Carbo lançou o que esperava ser um olhar de conforto a Spartacus, e entrou pela porta, que foi fechada de uma vez, deixando-o impaciente, mas ele endireitou os ombros. Não era hora para fraqueza.
— Deixe a adaga aqui. — O escravo indicou um espaço logo depois da entrada. Do lado de dentro, um homem grande estava sentado em um banquinho com um taco entre os joelhos. Ele parecia calmo, mas capaz de ferir alguém se fosse necessário. Carbo entregou a adaga sem protestar.
— Siga-me. — O escravo se afastou sem olhar para ver se ele obedeceria.
Eles foram diretamente para o tablino, onde uma estátua pintada e espalhafatosa de um golfinho decorava o implúvio. As cenas de um mito clássico que adornavam as paredes eram expostas de modo igualmente chamativo, e Carbo não gostou disso. Ele observou as máscaras de morte dos ancestrais de Varus enquanto passava pelo larário. Elas tinham a mesma expressão de gozo de que ele se lembrava de ter visto no tio, um olhar do tipo “Sou superior a você”. Recordou que se sentia intimidado quando criança. Agora, detestava aquilo. O jardim amplo e cheio de colunas era tão grande quanto Carbo poderia ter imaginado. Era exagerado: ninfas tímidas espiando atrás de arbustos decorados e grandes mosaicos no chão. Tudo indicava riqueza, mas não classe. Varus estava sentado em uma cadeira à sombra de um grande limoeiro. Havia uma taça fina e azul cheia de vinho à frente dele, em uma mesa com detalhes dourados. Atrás dele, um escravo usava uma folha de palmeira para ventilar o recinto. Seu tio já tinha sido belo, pensou Carbo, mas anos de boa vida pesavam em seu corpo com gordura e em uma barriga parecida com a de um porco. O nariz afilado era a única característica na qual Carbo via certa semelhança com sua mãe. Varus analisava um pergaminho meio enrolado, contraindo os lábios carnudos enquanto lia. Apesar de tê-los ouvido se aproximarem, não deu atenção imediatamente.
O escravo esperou. Carbo aguardava também, com a raiva fervendo dentro dele. Controlou-a com esforço. “Seja educado. Precisamos da ajuda dele.”
Depois de um tempo, Varus levantou a cabeça.
— Seu sobrinho, senhor.
O escravo deu alguns passos para trás.
Uma expressão bem-fingida de surpresa tomou o rosto gordo de Varus.
— É verdade? Você é mesmo Paullus Carbo?
— Sim, tio. Sou eu — respondeu Carbo do modo mais humilde que conseguiu.
— Acredito haver certa semelhança com sua mãe. — O tom de Varus era dúbio. As várias cicatrizes da varíola não lhe permitiam distinguir muito bem. — Você não é um homem muito belo, certo?
Carbo precisou se controlar muito para não atacá-lo e cerrou os punhos.
— É uma honra encontrá-lo, tio — disse ele, ignorando a pergunta.
A papada inflou e murchou em resposta.
— Há muito você foi dado por morto. Depois de um ano sem qualquer notícia sobre seu paradeiro, seus pais concluíram que você tinha morrido. E agora você volta sem avisar? Que tipo de filho faz isso?
— Eu pretendia mandar uma carta...
— Uma carta? Quando?
— Cerca de três meses atrás.
— Não chegou.
— Decidi não enviá-la.
— Você não tem muita consciência, não é? Nada mudou — recriminou Varus. — Sabia que depois que abandonou seus pais sem mandar notícia nenhuma eles adiaram a partida de Cápua por duas semanas? Eles ficaram muito angustiados procurando por você em toda parte. Mas você desapareceu, como se tivesse descido ao Hades. — Ele olhou fixamente para Carbo.
A culpa pesou na cabeça deste. “Eles não foram ao ludo. Não pensaram que eu pudesse me rebaixar tanto.”
— Deixei a cidade, fui para a costa. Trabalhei com um comerciante que vendia produtos para a Ásia Menor e para a Judeia.
Varus arregalou os olhos.
— Você fez isso quando podia estar estudando para ser advogado?
— Eu não queria essa profissão — respondeu Carbo, tenso. “Não queria viver aqui, com o senhor me dando ordens como se eu fosse um escravo.”
Varus fez um gesto de desdém.
— Você deveria ter obedecido aos desejos de seu pai e à minha recomendação. Assim, não teria ocorrido essa tristeza.
“É tudo culpa de Crassus. Se não fosse por ele, eu não teria fugido de casa, nem vindo aqui.” O fracasso no assassinato do político deixou Carbo ainda mais irritado.
— Quanto à sua pobre mãe, bem, ela só fez sofrer por você. Tenho certeza de que foi metade do motivo pelo qual a febre tomou conta dela tão depressa. — Ele adotou uma expressão de sofrimento que deixava clara sua falsidade. — Ah, sim, ela morreu.
O rosto do tio saiu de foco.
— Quando?
— Deixe-me ver... — disse Varus. — Há cerca de três meses, acho que foi isso.
Ainda que sua carta tivesse chegado, teria sido tarde demais. A tristeza de Carbo veio com força ainda maior.
— Foi uma febre, o senhor disse?
— Sim, sim. Apesar de eles terem drenado os pântanos, os ventos contaminados sopram pela cidade em diversas épocas. Ninguém está imune. Eu mesmo tive a sorte de sobreviver muitos anos atrás.
“Seu porco egoísta!”, pensou Carbo, furioso.
— A morte dela levou embora a vontade de viver de seu pai. Se ele soubesse que seu único filho estava vivo, talvez tivesse cuidado melhor de si mesmo. Mas...
“Não!”, gritou Carbo por dentro. “Grande Júpiter, não permita que isso esteja acontecendo!”
— Meu pai também está morto?
— Sim. Há menos de uma semana.
— Uma semana — repetiu Carbo como um tolo. “Sete dias.”
— Isso mesmo. Se você tivesse pensado em se desculpar um pouco antes, talvez ele o tivesse visto.
Carbo fechou os olhos.
— Uma doença o levou também?
— Não. Pedi que meu servo fosse sondar o que ocorreu. Parece que ele foi atacado, certa noite, diante da cenácula onde morava. De acordo com as testemunhas, foi um caso comum de assalto. Os trastes que o roubaram não sabiam que ele tinha dois asses, no máximo, ou não se importaram. Ele estava embriagado e sozinho. Eles o apunhalaram, o revistaram à procura de objetos de valor e então deixaram seu corpo jogado como se fosse um saco de lixo.
A morte de sua mãe deveria ter sido muito difícil para seu pai aguentar, pensou Carbo. Jovian provavelmente se sentiu abandonado no mundo depois da partida dela. Era compreensível que ele tivesse começado a beber.
— O senhor disse que ele morava em uma cenácula. Pensei que meus pais estivessem aqui com o senhor.
— Depois da morte de minha irmã, por mais trágica que tenha sido, todas as obrigações que eu tinha para com Jovian desapareceram. Ele partiu no dia seguinte ao enterro de Julia.
— Partiu ou o senhor pediu para que fosse embora?
— Eu pedi. Era o melhor para todos os envolvidos. — O sorriso de Varus era tão forçado quanto o de uma prostituta.
Carbo mal conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Então, minha mãe acabara de ser enterrada quando o senhor expulsou meu pai. Não tem coração?
Varus o encarou de um jeito ofendido.
— Ele tinha dinheiro para pagar um aluguel e para comer. Na época, trabalhava para um comerciante local.
— E isso tornou tudo aceitável, então?
— Como ousa usar esse tom comigo, seu moleque atrevido? — retrucou Varus. — Onde estava quando sua família precisou de você? Eu os recebi, dei a eles um teto e comida, ouvi suas histórias trágicas sem parar... não foi você quem fez isso.
Uma onda de culpa tomou conta de Carbo.
— Eu estava tentando juntar dinheiro para ajudar a pagar as dívidas de meu pai — murmurou. “Pelo menos, foi assim que começou.” Quando eles saíram do ludo, não houve oportunidades para isso, a não ser que ele roubasse, e Carbo não era ladrão. Spartacus também vetara o uso de ouro e prata em seu exército. Os únicos metais que podiam ser usados, segundo ele, eram o ferro e o bronze, para a confecção de armas. “Eu pretendia fazer muita coisa. Mas não fiz nada, e agora meus pais estão mortos.” Seus olhos se marejaram.
Varus não se deixou afetar.
— Está claro que você não teve muito sucesso. Olhe para você, vestido como um plebeu. — Ele entortou os lábios. — Gostaria de saber como conseguiu dinheiro para comprar um escravo.
O grande desdém do tio ajudou Carbo a engolir sua dor. Lidaria com ela depois. O que importava agora era ter um lugar seguro para se esconder até o dia seguinte. “Onde seria melhor do que aqui?”, pensou ele e até achou graça.
— Ele não é um escravo.
— Não? — Varus franziu o cenho. — O que ele é, então?
— Um amigo. — Carbo cobriu os passos que o separavam do tio com rapidez. Pegou uma taça pela haste e quebrou-a na beira da mesa. Quando Varus se assustou, ele se posicionou atrás da cadeira. Um empurrão fez o escravo cair com a folha de palmeira para trás. Carbo envolveu o pescoço de Varus com o braço, numa gravata. Segurando a taça quebrada como se fosse uma faca, ele a encostou na garganta do tio.
— Levante-se.
— O que está fazendo? — perguntou Varus, cuspindo ao se levantar. — Enlouqueceu de vez?
— Ainda não. Diga a seu servo para pegar o taco do bruto que está na entrada. Ele deve abrir a porta da frente e permitir que meus companheiros entrem. Meu amigo vai amarrar o bruto e então virá aqui com a garota.
— Você é maluco — acusou Varus.
— Talvez. — Carbo empurrou o vidro quebrado contra a pele do tio até que começasse a sangrar. O homem gritou de dor. — Ficarei mais do que contente enfiando isso até o fim. É só continuar falando.
— Vo-você ouviu o que ele disse — falou Varus ao servo, cujo rosto estava pálido. — Faça o que ele disse! Depressa!
O escravo grisalho se afastou.
— Po-posso me sentar? — perguntou Varus. — Estou me sentindo zonzo.
— Tudo bem. — Carbo soltou o tio, que escorregou, tremendo, na cadeira. — Não se mexa.
— Por que está fazendo isso?
— Cale-se.
— Carbo...
— Eu mandei calar essa boca gorda. Adoraria ver você sangrar até morrer, seu merda.
Carbo não parava de pensar nos pais e sentia o coração cheio de pesar e vergonha. Matar o tio poderia não apaziguar a dor, mas ajudaria.
Varus percebeu a ameaça na voz do sobrinho e obedeceu.
Não demorou para que o servo chegasse com Spartacus, sério, e com Tulla. O trácio sorriu ao ver Carbo.
— Amarrei o porteiro e tranquei a porta. Ninguém vai a lugar nenhum se eu não deixar. — Ele balançou um molho de chaves. — Não era essa a recepção que eu esperava.
— Nem eu — respondeu Carbo. — Mas meus pais morreram. Meu tio, Varus — ele fez um gesto com a taça quebrada —, é meu único parente vivo. Não que isso signifique que gosto dele, porque não gosto. Depois que minha mãe morreu alguns meses atrás, ele colocou meu pai na rua. Pesaroso, meu pai começou a beber. Foi assassinado uma semana atrás.
— Sinto muito — disse Spartacus. Este lançou a Varus um olhar impiedoso e voltou a olhar para Carbo. — Então, aqui é um bom lugar para ficarmos.
— Sim.
— Boa ideia.
— O senhor deve ser bem rico — disse Tulla, olhando para o tio de Carbo, muito surpresa.
Varus arregalou os olhos. A maltrapilha deu um passo para trás.
Carbo sabia que Tulla provavelmente tinha sido desprezada por homens como seu tio durante toda a vida. Cutucou Varus com a taça.
— Responda à garota. Com educação.
— Acredito que podemos dizer que sou rico, sim — respondeu Varus sério.
— Foi o que pensei — disse Tulla. Ela começou a andar pela casa, passando a mão por um canal de água que alimentava as plantas.
Carbo riu. A garota lhe dera uma ideia.
— Tem dinheiro na casa?
— Um pouco, talvez. Não muito. — Varus desviou o olhar enquanto falava.
— Está mentindo. — Carbo olhou para Spartacus. — Não está?
— Sem dúvida.
— Podemos usar o dinheiro, não?
— Ouro é sempre útil. — Spartacus estava mais preocupado em sair da cidade sem se ferir, mas viu que Carbo precisava fazer aquilo. Ele agiria da mesma maneira se encontrasse Kotys.
A ira de Carbo em relação a seu tio era grande. Ele segurou a mão de Varus e a puxou sobre a mesa. Ergueu a taça quebrada.
— Vou contar até três. Se não responder, vou prender sua mão gorda e maldita na mesa. Um.
A papada de Varus tremeu de medo.
— Dois.
— Certo, certo! Tem uma caixa embaixo de uma pedra solta no larário.
— Tulla!
Spartacus explicou o que ela deveria procurar, e a menina saiu correndo.
Carbo soltou a mão do tio, o que pareceu ter dado a Varus um pouco de coragem.
— Então, você veio aqui para me roubar e matar, é isso?
— Não ouviu? — perguntou Spartacus. — Precisamos de um lugar para ficar.
— Não compreendo.
— Eu queria passar a noite com meus pais — explicou Carbo. — Por isso vim à sua maldita casa.
— Entendo. Você não sabia que eles estavam mortos.
— Como saberia? — rebateu Carbo.
— Vejam! — O sorriso de Tulla se abriu de orelha a orelha. Nos braços, ela trazia uma pequena caixa de ferro. — Está cheia de moedas de ouro e joias!
— Vamos levar isso conosco — disse Spartacus, piscando para Carbo.
— Pegue tudo — gritou Varus. — Conseguirá pagar a melhor taverna de Roma.
O sorriso do trácio se desfez.
— Ficaremos aqui.
Varus abriu a boca para protestar, porém mudou de ideia.
— Quem é você? — perguntou.
— Sou Spartacus.
Varus encarou Carbo, que confirmou.
— Spar-Spartacus?
— Isso mesmo.
O rosto de Varus empalideceu ainda mais.
— Mas você deveria estar com seu exército, perto de Venúsia.
— Pelo visto, não estou.
— Por Júpiter do céu, vocês vão me torturar até a morte!
— É o que dizem que faço com meus prisioneiros?
Varus assentiu, temeroso.
— Coisas terríveis, terríveis.
— Acontece em todos os exércitos... até mesmo nos romanos — argumentou Carbo. — Spartacus tenta impedir.
— Não gaste saliva — disse Spartacus. — Ele não vai acreditar em você.
Vendo o medo e o ódio no rosto do tio, Carbo percebeu que o trácio estava certo. Naquele momento, uma parte dele quis enfiar a taça no coração de Varus. Contudo, havia algo mais importante que ele precisava fazer.
— Onde meus pais estão enterrados?
— Sua mãe está no túmulo da família Varus, e seu pai... — Varus passou a língua pelos lábios, desgostoso — está em uma cova comum no cemitério público.
— Seu nojento! — A ira de Carbo saiu do controle, e ele estapeou o rosto do tio. — Nem mesmo na morte você tratou meu pai com respeito!
Varus caiu gritando no chão, com sangue escorrendo entre os dedos.
— Poderia matar você aqui mesmo — gritou Carbo, puxando Varus pela parte da frente da túnica.
— Existe outra maneira.
A voz de Spartacus penetrou a fúria de Carbo.
— Existe?
— Você pode fazer com que ele jure erguer um túmulo decente para seus pais a fim de enterrá-los de novo.
Carbo percebeu a sabedoria nas palavras de Spartacus e gostou muito da ideia. Apesar do jeito bruto, o trácio se importava com ele. Deixou Varus, que gemia, cair de novo.
— Você ouviu isso?
— Um túmulo, sim, para seus pais. Será o mais bonito que eu puder construir...
— Não precisa ser o mais bonito. Só quero que sirva para o propósito.
— Juro, farei isso. Se eu não fizer, que Júpiter me mate.
— Se não fizer — vociferou Spartacus —, eu voltarei para fazer você comer suas bolas.
A papada de Varus tremeu de novo, e uma lágrima pesada escorreu pelo seu rosto.
— Entendi — sussurrou ele.
A ira de Carbo diminuiu um pouco. Pelo menos agora ele podia relaxar sabendo que os pais ficariam juntos em um túmulo decente. Com sorte, um dia ele poderia visitar o local.
Um dia.
Depois do que eles tinham ouvido mais cedo, essa parecia uma esperança distante.