Spartacus: A Rebelião
Capítulo XIII
Perto da cidade de Croton, no mar Jônico
Carbo observou o promontório que se destacava no mar a quase um quilômetro dali. Acima dos muros de pedra da cidade, via-se os pilares enormes do santuário da deusa grega Hera Licinia. Croton agora era uma cidade-fantasma se comparada a sua época de esplendor há meio milênio atrás. Contudo, os habitantes que restavam ainda eram civilizados, pensou ele. Já o homem que ele espiava não podia ser mais diferente.
Depois de sete semanas infrutíferas percorrendo a costa, ele havia encontrado alguns piratas.
Carbo não sabia se deveria se sentir aliviado ou assustado: eles pareciam ainda mais impiedosos do que os gladiadores no ludo. De pele negra, morena ou clara, quase todos vestiam túnicas velhas e roupas simples. A quantidade de armas que cada homem carregava mais do que compensava a precariedade das roupas. Não havia ninguém sem uma ou duas adagas, além da espada no cinto. Havia lanças empulhadas perto de suas barracas e catapultas nos deques das duas embarcações de um mastro ancoradas na praia. Carbo se sentiu grato pela presença — a algumas centenas de passos atrás dele — da centúria de soldados que Spartacus insistira em levar com ele.
A baía pequena à sua frente era protegida do clima ruim por uma faixa ampla de areia que se pronunciava em direção ao mar a partir de um promontório rochoso à sua direita. Devia ser por isso que os piratas a tinham escolhido como ponto de ancoradouro. Deveria haver uns oitenta deles — quarenta por barco, pensou Carbo — espalhados, dormindo, cozinhando nas fogueiras ou lutando uns contra os outros. Todos pareciam ocupados. Havia cerca de trinta jovens de ambos os sexos na areia, com cordas nos pescoços. Várias mulheres eram estupradas por alguns piratas, enquanto outros observavam e comentavam.
Carbo avaliou as opções. Não conseguiria nada se fosse sozinho ou com poucos homens. Eles acabariam mortos ou capturados como escravos. Ele só conseguia pensar em marchas tranquilas e em perguntar sobre o líder dos renegados. Então rastejou de volta e desceu a lateral da grande duna que servira como esconderijo da praia. Ainda bem que os piratas de guarda estavam ocupados demais observando a violação de suas prisioneiras para perceber a presença do romano.
Logo depois, Carbo e seis homens desceram a duna e seguiram em direção à praia. Não fizeram qualquer esforço para ocultar a aproximação. O pânico reinou quando eles foram vistos. Os piratas correram para pegar suas armas, e os prisioneiros foram erguidos e levados aos barcos. Porém o que mais preocupou Carbo foi ver as catapultas sendo manuseadas. As peças leves de artilharia tinham o alcance de duzentos passos.
Ele ergueu as mãos e gritou em latim e em grego:
— Viemos em paz. PAZ!
Conforme eles avançaram pela planície, a confusão aumentou. Cerca de metade dos piratas se organizou em uma falange à frente dos barcos, enquanto o resto ajudava a empurrar as embarcações para a água. As catapultas foram direcionadas para Carbo e seus homens.
Ele xingou, pois tudo ocorreu como ele temia. Na cabeça dos piratas, a segurança estava no mar. Se eles conseguissem embarcar, Carbo não teria a mínima chance de fazer um acordo com eles.
Ouviu-se um baque forte, e ele sentiu o estômago revirar.
— Levantem os escudos!
Uma leve demora, e então as primeiras pedras das catapultas — pedaços do tamanho de metade da cabeça de um homem caíram, fazendo barulho na areia, a cerca de trinta passos à frente de sua formação.
— Pelas bolas de Júpiter! — Em pouco tempo, Carbo começaria a perder soldados. E por nada. — Parem! — Os soldados obedeceram. — Fiquem onde estão — ordenou Carbo. Ele soltou o escudo e tirou o cinturão, deixando a espada cair na areia.
— O que está fazendo? — perguntou seu optio, um gladiador forte.
— Mostrando a eles que não vim para matá-los. — Carbo deu um passo na direção dos piratas. Nem hesitou quando outras pedras foram lançadas. Dessa vez, elas eram maiores, porém caíram longe. — Se eu for morto, volte ao exército e conte a Spartacus o que aconteceu.
— Você está louco!
— Talvez esteja — retrucou Carbo, com o coração aos pulos. “Mas não voltarei de mãos vazias. Não depois de Spartacus ter confiado tanto em mim.” Ele ergueu as mãos, com as palmas para cima, e avançou. — VENHO EM PAZ! — Ele repetiu em grego e em latim, sem parar.
Mais uma saraivada de pedras veio voando, e ele escutou o baque nos escudos dos homens. Ouviu-se um grito de dor quando alguém foi atingido. Carbo começou a se irritar.
— Seus idiotas malditos. Não veem que não estamos atacando vocês? — murmurou, continuando a avançar. — PAZ! PAZ!
No minuto seguinte, para seu grande alívio, ele viu um homem baixo na falange gritando ordens para os que operavam as catapultas. Não foram lançadas mais pedras, e Carbo se aproximou um pouco. Ele ouviu xingamentos gritados em diversos idiomas. Apesar de algumas armas ainda estarem a postos, ninguém arremeçou uma lança nem o atacou. Ainda. Temeroso de se aproximar demais, ele parou a cerca de cinquenta passos dos piratas, mantendo as mãos levantadas.
Esperou.
O homem baixo surgiu dentre seus companheiros. Tinha a pele escura, mas não o suficiente para ser um núbio. Seus olhos marejados estavam num rosto calculista e cruel. Brincos dourados brilhavam em suas orelhas, e sua túnica tinha um corte diferente do de seus companheiros. Ele deu doze passos em direção a Carbo.
— Quem é você, maldição? — perguntou ele em um latim sofrível.
— Sou um dos soldados de Spartacus — respondeu Carbo o mais alto que conseguiu. Ficou contente quando um murmúrio de reconhecimento correu pelos piratas.
O homem baixo estava desconfiado.
— Spartacus? O gladiador que está enfrentando Roma?
— Ele mesmo. Você sempre recebe seus visitantes assim?
— Em geral os matamos sem pestanejar. — Ele sorriu, e seus homens riram. — Mas estou de bom humor hoje, então deixarei você e seus homens simplesmente se afastarem.
— Não, senhor! Vamos matá-lo! — berrou um homem grande, empunhando uma espada enferrujada.
Os outros concordaram.
O capitão piscou para Carbo.
— Não é uma má ideia. Me dê uma razão para não matá-lo.
Carbo resistiu à vontade de mandar seus soldados atacarem.
— Tenho uma proposta para vocês, do próprio Spartacus.
Os olhos dos homens se estreitaram.
— É mesmo?
— Sim. Meu nome é Carbo. Qual é o seu?
— Heracleo.
Se tivesse a chance, Heracleo o atacaria como um cão selvagem, mas ainda assim Carbo se sentiu motivado.
— Consegue encontrar barcos maiores do que esses?
Ele apontou os dois barcos fundos que estavam na água.
Ouviu-se uma risada.
— Claro que consigo. Tenho um lembus em outro ancoradouro. — Ele percebeu a confusão de Carbo e riu de novo. — Você saberia se fosse um liburniano. Tudo que os romanos admiram, eles copiam.
À exceção das trirremes, o conhecimento de Carbo sobre barcos era muito vago.
— Quantos homens essa embarcação leva?
— Sessenta remadores, e cerca de cinquenta escravos. Passageiros. — Ele se corrigiu ao perceber o ato falho.
— Preciso de embarcações maiores.
— Há outros capitães na região em birremes. Há até uma ou outra trirreme. Para que você precisa deles?
— Queremos ir à Sicília.
Ouviu-se um assovio longo e baixo.
— O exército todo?
— Não, só alguns milhares de homens.
— Por que tão poucos? Soube que o exército de Spartacus é enorme.
— Não é da sua conta.
— É da minha conta se estiver em meu barco — argumentou Heracleo.
A última coisa que Spartacus queria era que um pirata soubesse que ele planejava recuar. Carbo já tinha uma mentira na ponta da língua.
— Spartacus quer iniciar uma rebelião na Sicília.
— Ah... Para distrair os romanos?
— Algo assim — disse Carbo, tenso, como se estivesse irritado.
— Isso é uma boa ideia. Soube que ele é esperto, esse trácio. Vocês querem atravessar os estreitos, é isso?
— Isso mesmo.
— Quando?
— Quando puder levar os navios para lá.
O capitão manteve o olhar firme.
— Ele está com pressa. Quanto está disposto a pagar?
— Duzentos e cinquenta denários por homem. Digamos quinhentos mil no total.
Os piratas ficaram surpresos. Cada um de seus escravos valia entre duzentos e quatrocentos denários, mas só tinham trinta. Manter escravos era um trabalho lucrativo, porém também imprevisível e irregular. Aquela seria uma ótima aquisição.
— Um milhão e um quarto — propôs Heracleo sem pestanejar.
— Isso é um absurdo — respondeu Carbo, revoltado.
— Conseguir quatro ou cinco embarcações grandes o bastante para levar seus homens não será fácil. Terei que envolver os outros capitães. Além disso, há um exército romano com que se preocupar.
— Não me importo. Isso é demais!
O sorriso de Heracleo era maldoso.
— Spartacus precisa dos barcos mais do que eu preciso do dinheiro dele. Sei disso. É aceitar meu preço ou largar... a escolha é de vocês.
Franzindo o cenho, Carbo permaneceu em silêncio por vários minutos. A ganância de Heracleo já era esperada. Spartacus dissera que ele podia pagar até 2,5 milhões de denários, mas Carbo tinha que fingir, parecer contrariado.
Heracleo bocejou, contudo um bom número de seus homens parecia querer acabar com Carbo.
— Podemos pagar novecentos mil, não mais do que isso.
— É o que eu disse ou nada, seu filho da puta feioso!
Carbo corou. Havia muito tempo ele não era insultado por suas cicatrizes. Ficou sério.
— Se não houvesse tantos homens com você, eu abriria um novo cu no seu traseiro.
Heracleo ficou irritado.
— Seu abusado maldito! — Ele abriu a boca, mas Carbo o interrompeu.
— Você está dificultando as coisas. Um milhão e um quarto, e é só isso.
Heracleo logo mudou de atitude. Seus olhos brilharam com ganância.
— Você tem o dinheiro?
Carbo jogou a cabeça para trás e riu.
— Saqueamos cidades inteiras daqui aos Alpes há um ano ou mais!
— Claro, claro. — Heracleo conseguiu parecer desinteressado e também irritado.
— Em quanto tempo consegue levar os navios para a praia perto de Cila?
Ouvir o nome da fera mística que guardava os estreitos fez Heracleo contrair os lábios.
— Um mês. Seis semanas.
— Não pode ser antes?
Ele franziu o cenho.
— Farei o melhor que puder. Mas, antes disso, precisarei de um adiantamento. Eu estava pensando...
— Vinte e cinco mil denários hoje. Cento e vinte e cinco mil quando chegar com as embarcações, e o resto quando os últimos homens chegarem a Cila — disse Carbo. — Essa é a minha última proposta. É pegar ou largar.
Heracleo sorriu.
— Pode me pagar agora?
Carbo virou a cabeça.
— Optio! Traga o baú!
Heracleo murmurou algumas palavras e seus homens comemoraram.
Enquanto seis soldados se aproximavam, Carbo olhou para os piratas sorridentes. Nenhum deles era de confiança, porém, com a ajuda dos deuses, eles eram agora os aliados mais importantes que Spartacus já tivera. Carbo fez uma oração para Netuno, o deus do mar, e para Fortuna, a deusa da sorte, para que Heracleo mantivesse sua palavra no acordo.
Se esse plano desse errado, eles teriam que enfrentar dez legiões. Isso sem falar dos gauleses e do espião. Carbo franziu o cenho. Às vezes parecia que eles tinham tantos inimigos fora quanto dentro do exército. Esperava que Crassus não soubesse o que ele estava fazendo. Provavelmente não sabia. Quando tudo foi decidido e a ordem dada, Carbo pegou seus equipamentos e partiu. Como Spartacus ordenara, ele disse apenas a Navio aonde estava indo.
Nos montes que cercavam as ruínas de Forum Annii, Spartacus e um grupo de acompanhantes — entre eles, Marcion e seus companheiros — olhavam na direção de Via Annia, a estrada principal que ia de Cápua a Rhegium, a cidade mais ao sul da Itália. Depois do que ele e Carbo descobriram em Roma, era comum ver soldados inimigos por ali, mas isso ainda os surpreendia. Aquele grupo era grande em comparação ao que viram antes, e chegara mais rápido do que Spartacus esperava. Por terem ouvido notícias da aproximação no dia anterior, eles tinham esperado desde o amanhecer. O trácio observou com atenção. Seu trabalho com os auxiliares significava que ele conhecia a formação dos exércitos romanos em marcha.
Algumas horas depois de os grupos inimigos surgirem pela mata dos dois lados da estrada, a vanguarda apareceu, uma legião escolhida para liderar a coluna naquele dia. Depois deles, vieram os observadores, uma unidade formada por um homem de cada contubérnio no exército, cuja função era ajudar a montar o acampamento. Em seguida, os engenheiros, que retiravam qualquer obstáculo do caminho dos legionários, e então a bagagem dos oficiais seniores. O general no comando e seu corpo de infantaria e cavalaria foram facilmente localizados. Vários mensageiros partiam dessa posição e seguiam pelas margens, levando ordens a diversas partes do grupo. O comandante era seguido pelo resto dos cavalos. Grupos de mulas levando a artilharia desmantelada seguiam diante dos oficiais e de seu grupo. Em seguida, vinham as legiões, cada uma representada por um grupo grande de carregadores de estandarte na frente. Os agrupamentos de legionários em marcha ocupavam toda a estrada. Cada legião se espalhava por quase 1,5 quilômetro, mas pareciam seguir bem mais além. As próprias forças de Spartacus ocupavam um espaço parecido, mas ele e suas tropas nunca tinham visto as legiões de um ponto tão privilegiado. Era espantoso e causava medo mesmo nos melhores homens.
— Crassus está aqui — disse Spartacus bem baixinho, contente.
Já fazia mais de dois meses desde sua visita a Roma. Pelo menos, a espera tinha terminado.
— Tem certeza, senhor? — perguntou Marcion.
— Eu apostaria minha vida nisso. Já passaram cinco legiões até agora, e ainda não vimos todas. Crassus nunca deixaria um de seus subordinados liderar tantos soldados contra nós.
— Qual é seu plano, senhor?
Todos olharam para Spartacus.
— Todos os galpões dentro de trinta quilômetros foram esvaziados. Se colocássemos mais em nossas mulas, elas cairiam. Alcançamos nosso objetivo.
Seus homens riram. Gostavam de saber que tinham muitos alimentos.
— Só temos mais uma coisa a fazer antes de seguirmos para o sul: quero testar os soldados de Crassus. — Ele percebeu os olhares questionadores e levemente nervosos. Marcion era o único que parecia animado. — A maioria é recruta novo. Preciso ver como está a disciplina deles, para saber contra quem estamos lutando.
— Estamos lutando contra dez legiões, senhor — retrucou alguém insatisfeito mais ao fundo.
Marcion franziu o cenho. Como sempre, era Zeuxis.
— E, se eles forem soldados ruins, como os de Lentulus e os de Gellius, não temos nada com que nos preocupar. Mas, se não forem, precisaremos tratá-los com um pouco mais de respeito. — Ele lhes lançou um olhar de alerta. — Já disse antes: Roma não é um inimigo a ser menosprezado. Só porque vocês derrotaram suas tropas em várias ocasiões não quer dizer que sempre conseguirão. Aqueles legionários que veem podem ser muito diferentes em batalha.
Eles não gostaram de ouvir isso, mas Spartacus não se importou. A realidade brutal do que podiam enfrentar pelo resto da vida estava no vale logo abaixo. Se não fosse aquele exército, seria outro.
Havia muito mais, porém, o trácio não falou sobre isso. Para sua grande frustração, suas forças — incluindo os soldados que liderados por Castus e por Gannicus, que se mostravam cada vez mais hostis — agora só ultrapassavam as de Crassus em cerca de 15 mil homens. Se as novas legiões fossem covardes e ele escolhesse o campo de batalha certo poderia bastar. Contudo, apesar de não gostar de admitir, havia uma chance de que os soldados de Crassus lutassem de verdade. Se isso acontecesse, ele precisava de mais tropas do que tinha no momento.
Os dias de sua enorme superioridade numérica em relação aos exércitos romanos eram só uma lembrança; a grande quantidade de escravos em fuga que se uniu a eles, sempre constante desde a primeira vitória, havia quase desaparecido. As notícias das dez legiões de Crassus deviam ser parte do motivo. Ou talvez fosse porque todos os pastores e agricultores do sul com coragem já haviam se unido a ele? Só os deuses sabiam, pensou Spartacus com amargura.
Ele estava decidido. Enfrentaria Crassus agora se os romanos fossem acuados, mas, caso contrário, ele procuraria seguir para o sul, em direção à Sicília. Lá, pelo menos por um tempo, teria menos forças inimigas com as quais lidar. Haveria mais recrutas e equipamentos. Mais opções.
Ele piscou para Marcion.
— Não se preocupe, amigo, ainda lutaremos. Haverá a chance de atingirmos Crassus em cheio.
Ignorando a expressão contrariada de Zeuxis, Marcion sorriu. Com Spartacus como líder, o que poderia dar errado?
Dois dias depois...
Spartacus havia estado com Castus e Gannicus apenas duas vezes após confrontá-los. Os encontros tinham sido pouco amigáveis, porém não houve agressões abertas, nem ameaças de partirem. Enquanto ainda marchavam com os outros soldados, os gauleses e seus seguidores faziam o que queriam. Saques em propriedades e vilarejos. Ataques a cidades pequenas. A recusa de treinar todos os dias. Para todos os fins, eles já tinham se separado do exército principal. Contudo, enquanto estivessem fisicamente presentes, Spartacus acreditava que eles lutariam ao seu lado, se fosse preciso.
Certo dia, os dois chegaram à sua barraca ainda com a vestimenta usada na batalha travada mais cedo, com camisas de cotas de malha, elmos de bronze com crina e calças gaulesas. Eles já tinham trocado as espadas longas pelos gládios — achavam as lâminas menores mais fáceis e mais eficientes contra um muro de escudos.
Ao ouvir o desafio de Atheas, Spartacus apareceu para falar com eles. Ficou contente ao ver que eles não traziam um cortejo. Estavam ali para brigar.
— Querem vinho?
— Não — resmungou Castus.
— Gannicus?
— Diga o que tem que dizer e pronto.
— Certo. Sei que vocês participaram da luta mais cedo.
— Claro que sim. Não somos covardes — respondeu Castus.
— Nós dois somos corajosos, sabe? — reconheceu Spartacus num tom pacífico. — Mesmo assim, não foi fácil hoje. Aqueles legionários queriam lutar e eles foram duros na queda.
— Eles eram melhores do que os soldados que já enfrentamos — admitiu Gannicus a contragosto.
Castus fez cara feia, mas não discutiu, o que já significava algo.
— Imaginem se todas as dez legiões lutarem assim — disse Spartacus.
Eles o encararam com os olhos arregalados.
— Vamos lutar contra eles de qualquer modo — ponderou Castus. — E, se perdermos, pelo menos morreremos como homens.
— Vocês também sabem que vou enfrentá-los, se for preciso. — Eles assentiram ressentidos. — Mas temos uma alternativa. Levar o exército à Sicília.
Eles olharam para o trácio como se estivesse louco. Usando toda a sua paciência, Spartacus explicou seu plano.
— Carbo voltou? — perguntou Gannicus. — Ele encontrou um capitão disposto a ajudar?
— Ele ainda não voltou.
— Então, isso se baseia em nada — argumentou Castus. — Como saber se o maldito não fracassou? Poderíamos marchar até lá e descobrir que estamos encurralados como ratos em uma ratoeira.
— Além disso, estamos quase no outono — alertou Gannicus. — Haverá muitas fazendas para saquear.
— Carbo não vai nos decepcionar — retrucou Spartacus. Em seu íntimo, ele tinha menos certeza, mas sua fé no Grande Cavaleiro, a quem ele adorava todos os dias, era forte. — Quando chegarmos, haverá navios piratas esperando, para que atravessemos.
Gannicus sorriu, mas ainda assim Castus não estava satisfeito.
— Não gosto disso, parece errado.
— O que deveríamos fazer, então? — perguntou Spartacus. — Lutar em um campo que não escolhemos? Na Sicília, haveria a oportunidade de prosseguir com a guerra por tempo indefinido. Ou vocês têm outra ideia brilhante?
Castus corou com uma combinação de ira e embaraço, e Spartacus torcia para que não tivesse irritado muito o gaulês esquentadinho.
— Ainda teremos a chance de lutar contra Crassus, vocês sabem disso. Ele não vai nos deixar marchar até Rhegium. O filho da puta estará atrás de nós o tempo todo. Se Carbo não conseguiu fechar o acordo com os piratas, teremos uma batalha em breve.
— Vale o risco, Castus. Não quero enfrentar dez legiões enquanto a maioria do exército se espalha — ponderou Gannicus. — A Sicília é grande o bastante para fazermos o que queremos.
— Certo — disse Castus entredentes. — Mas essa é a última vez que seguiremos uma de suas sugestões. Vou partir assim que meus pés tocarem o solo siciliano.
— Eu também — avisou Gannicus, com intensidade.
— Ainda não chegamos na Sicília. Mais de um grupo de soldados inimigos tem nos observado. Crassus sabe onde estamos. Se ele puder nos atacar no caminho para o sul, não hesitará. Quem ficar no comando da retaguarda vai precisar estar pronto para enfrentar os ataques romanos todos os dias e, se as coisas derem errado, todos teremos que lutar. Vamos deixar nossas diferenças de lado uma última vez, pelo menos até sairmos daqui. Por hora, ainda somos um exército. — Isso era forçar mais do que o necessário, mas Spartacus devia estar certo. Ele ficou satisfeito e um pouco aliviado quando, depois de um tempo, os dois assentiram.
— Vamos partir amanhã.
Desde o primeiro contato com as tropas de Spartacus, Crassus se sentiu nervoso. Os confrontos tinham sido inconclusivos, porém isso não tinha importância. Relevante era o fato de que, ao contrário da grande maioria dos homens que tinham enfrentado os escravos, os legionários de Crassus não tinham fugido. Permaneceram firmes contra os assaltos, enviando uma mensagem firme ao inimigo. “As coisas são diferentes agora, Spartacus. Estou no comando.”
No dia seguinte ao enfrentamento, Crassus se sentiu ainda mais satisfeito. Em vez de tentar outro ataque, os escravos tinham se afastado — retirado — pela Via Annia. Soubera dos planos de Spartacus por meio de seu espião, mas não acreditou. Quando a informação provou-se verdadeira, ele a anunciou a todos os grupos do exército. Ainda podia ouvir os gritos. Sem demora, ele e oito legiões foram atrás do trácio. Duas legiões de Mummius, nas quais havia muitos veteranos das forças derrotadas de Lentulus e de Gellius, foram enviadas para amedrontar o inimigo. Mummius tinha ordens estritas de cercar os escravos. Sua missão era impedir que eles se afastassem de seus refúgios no sudeste.
Por uma semana não houve notícia. Crassus deu ordens; as legiões marcharam e ergueram outro acampamento. No oitavo dia, acompanhado pelo guarda-costas e com Caepio ao seu lado, Crassus cavalgava a cerca de três quilômetros diante da coluna. Passara a noite pensando. Spartacus parecia determinado a chegar ao ponto onde ficava o “dedão” da Itália. “Será que ele tem mesmo ilusões de escapar para a Sicília”?, perguntou-se com desdém. Essa era a suspeita do seu espião, apesar de o tolo não saber como poderia ser feito. “Talvez o trácio ache que pode nos deter nos estreitos enquanto seus homens tentam construir embarcações!” Isso nunca aconteceria. As forças de Crassus o seguiam de perto.
“Em pouco tempo”, pensou Crassus, exultante, “os escravos se veriam sem saída.” Depois de Consentia, que fica a cerca de cinquenta quilômetros ao sul de Thurii, eles entrariam em um trecho de terra estreito, o que facilitaria seu trabalho. Quando um bloqueio fosse erguido na península, as legiões deixariam Spartacus e seus seguidores sem recursos e assim os forçaria a ataques fadados ao fracasso contra suas fortificações. Crassus já imaginava o cerco em Numantia, que fora construída por Scipio Africanus sessenta anos antes, na Ibéria. O feito incrível da engenharia ainda era celebrado. Ele faria o mesmo. A campanha terminaria ali, perto da Sicília. “Com sorte, eu poderia voltar a Roma a tempo para a Saturnália. O público vai me amar!”
Crassus percebeu um cavaleiro vindo em sua direção.
— Mensagem para o senhor, enviada pelo meu decurião — gritou o mensageiro ao se aproximar. — Estamos seguindo pelas trilhas e vales ao leste.
— Diga.
O mensageiro virou o cavalo para se colocar ao lado de Crassus.
— Acabamos de encontrar alguns dos homens de Mummius, senhor.
Crassus franziu o cenho.
— Mensageiros, como você?
Uma breve hesitação.
— Não, senhor. Não eram mensageiros.
— Está tentando me confundir ou me irritar, homem? Pois está fazendo as duas coisas.
— Sinto muito, senhor, não é minha intenção. — O mensageiro engoliu em seco. — Parece que eles entraram em confronto com algumas das forças de Spartacus.
— Quando? — perguntou Crassus, respirando fundo. “Mummius vai pagar por isso!”
— Ontem, senhor.
— Esses homens eram feridos enviados de volta a Mummius, é isso?
— Não, senhor. Parece que eles foram mandados de volta pelas tropas de Spartacus.
Incrédulo, Crassus encarou Caepio, que não estava nada satisfeito, e olhou de modo acusador para o mensageiro.
— Repita.
— Eles foram retirados do campo, senhor. Direcionados, é o que alguns deles dizem.
— Direcionados — repetiu Caepio com evidente incredulidade.
— Pelos deuses, que parte de minhas ordens Mummius não entendeu? Ele não deveria ter enfrentado o inimigo! — berrou Crassus.
O mensageiro não ousou responder. Ficou olhando para as costas dos soldados à frente.
— Onde está Mummius? O tolo ainda está vivo?
— Os homens dele não sabem, senhor — murmurou o mensageiro. — Nós também não o vimos.
Crassus se esforçou para conter a raiva.
— Quantos covardes vocês viram?
— É difícil dizer, senhor. Eles estavam em grupos pequenos. Oitenta, talvez cem...
— Só isso?
— Havia mais homens os seguindo, mas meu decurião queria que o senhor soubesse logo sobre isso, senhor.
— Ele fez bem. E você também. Volte para a sua unidade e diga a seu oficial que ele deve enviar todos os homens de Mummius para a estrada. Eles devem encontrar o centurião Caepio, que os comandará a partir de agora.
Parecendo muito aliviado por não ser punido, o mensageiro repetiu as ordens de Crassus, palavra por palavra, fez uma saudação e partiu.
— O que deseja que eu faça com esses ratos, senhor? — perguntou Caepio.
— Pegue um grupo da legião da frente e use-o para cercá-los. Isole os primeiros quinhentos que se aproximarem. Cuide para que todos eles sigam com o resto da coluna. Lidarei com os cachorros quando chegarmos ao nosso acampamento.
— Muito bem, senhor. — Caepio pediu um cavalo. Montando com uma facilidade que não condizia com sua idade, ele partiu sem olhar para trás.
Sozinho com sua fúria, Crassus começou a planejar sua ação. Torcia para que Mummius tivesse sobrevivido, não porque se importasse com ele, mas porque queria puni-lo. Era muito raro um oficial sênior ser deposto de seu cargo, mas isso não deteria Crassus. Pensar em ir adiante e matá-lo era interessante; porém, arrependido, decidiu não fazer isso. O homem podia ser um idiota, mas vinha de boa linhagem. Setenta anos antes, o avô de Mummius saqueara a cidade grega de Corinto enquanto atuava como cônsul. A família ainda tinha boas ligações. Crassus recebera o comando supremo da campanha para derrotar Spartacus, mas, isso não significava que era inatingível. Alienar elementos dentro do Senado antes de seu triunfo não era uma boa ideia.
Seria suficiente humilhar Mummius derrotando-o na frente dos soldados dele e mandando-o humilhado para Roma. Mas esses soldados teriam que pagar por sua covardia. O castigo deles mostraria a todo legionário no exército que tal comportamento jamais seria tolerado.
Crassus contraiu os lábios, satisfeito.
Quando os acampamentos do dia foram erguidos, os soldados de Mummius estavam ao sol havia horas. Não comeram nem beberam. Os quinhentos homens que tinham sido os primeiros a chegar — um grupo praticamente intocado — ficaram virados para a entrada principal do acampamento de Crassus. Seus músculos tremiam pelo esforço de permanecerem em pé por tanto tempo, mas nenhum ousou reclamar. Todas as armas que ainda portavam foram confiscadas, e suas malhas estavam amontoadas em uma grande pilha ao lado. Um grupo de veteranos com espadas empunhadas tinha se posicionado ao redor deles, e vários centuriões, incluindo Caepio, patrulhavam o perímetro, golpeando quem relaxasse o mínimo que fosse. Os outros legionários infelizes, quase seis mil homens, estavam organizados em blocos à sua direita. Mummius estava na frente, sem nada protegendo sua cabeça e desarmado.
Crassus ordenou para que cem homens de cada legião testemunhassem o castigo que seria aplicado. Os soldados selecionados marcharam até ali quando a construção dos acampamentos do dia foi terminada. Colocaram-se diante das tropas de Mummius, formando o terceiro lado de um quadrado grande.
Informado de que a cena fora montada, Crassus deixou os legionários em formação no calor durante quase uma hora. Ele queria que todos os presentes — não apenas os legionários que tinham fugido da batalha — estivessem cansados, queimados pelo sol e desconfortáveis quando ele chegasse. Por fim, montado em seu melhor cavalo, um garanhão cinza, e acompanhado por seus principais oficiais, ele foi até a plataforma construída pelos engenheiros no último lado da praça, ao lado do muro do acampamento. Na frente dele, havia uma pilha grande de porretes de madeira, com as pontas cheias de pregos. Enquanto Crassus subia os degraus, os trompetistas tocaram uma fanfarra curta.
Crassus começou a falar assim que os músicos pararam.
— Todos vocês sabem por que estão aqui! Alguns homens, ou melhor, Mummius e seus “covardes”, devem ser castigados com severidade. Seus companheiros também podem esperar, pois serão disciplinados. O restante de vocês está presente para aprender que a covardia mostrada por esses ditos “soldados” não pode e não será tolerada. NUNCA. Vocês servem de testemunhas, para que todo homem do exército saiba o que aconteceu aqui hoje. — Ele esperou suas palavras serem transmitidas e viu com satisfação que os condenados se perguntavam qual seria seu destino.
— Lucius Mummius Achaicus, apresente-se!
Mummius marchou depressa e parou diante da plataforma. Fez uma reverência, mas evitou olhar nos olhos de Crassus.
— Senhor!
— Eu o mandei para assustar o exército inimigo. Você deveria evitar o confronto com as tropas de Spartacus, porém, quando teve a chance, as enfrentou, desobedecendo às minhas ordens. Certo?
— Certo, senhor — respondeu Mummius baixinho. — Algumas das tropas dele estavam atrás do grupo principal de...
— Silêncio! Além de desobedecer às minhas ordens, você caiu na armadilha de Spartacus. Quando a batalha começou, seus homens se mostraram os maiores covardes. Fugiram do inimigo aos milhares, deixando suas armas e estandartes para trás. Os primeiros soldados que apareceram aqui estavam desarmados. Gostaria de saber se eles lutaram ou se simplesmente fugiram quando os escravos avançaram, como já foi feito antes, com Gellius e Lentulus. — O tom de voz de Crassus era firme.
Mummius não disse nada.
— A maioria dos grupos que voltaram depois tinha sofrido grandes perdas. Isso não justifica o fato de terem fugido do campo de batalha, mas, pelo menos, mostra que não são de todo covardes — declarou Crassus. — Resolverei o caso deles mais tarde. Primeiro, devo lidar com você. Lucius Mummius Achaicus, legado. Ou melhor, ex-legado.
Mummius ergueu a cabeça. Seu abalo era perceptível, porém, não havia contrariedade em seu rosto.
— Tiro você de sua posição e de seu comando imediatamente — gritou Crassus. — Só a memória de seus gloriosos antepassados, que foram homens muito mais grandiosos do que você, me impediu de aplicar um castigo maior. Você deve voltar a Roma depressa, onde se apresentará ao Senado e explicará suas atitudes. Os senadores farão o que considerarem o mais adequado. — Ele arregalou os olhos para Mummius. — Minhas ordens foram claras dessa vez?
— Sim, senhor.
— Assim espero. Saia da minha frente!
De cabeça baixa, Mummius voltou à sua posição.
— Todos os homens, à exceção dos tremedores, devem sofrer uma multa de seis meses de pagamento. Receberão novas armas para substituir as que foram abandonadas ou perdidas. — Crassus notou o olhar de alívio dos soldados da frente. — Entretanto, primeiro, têm que jurar que nunca mais largarão sua espada ou lança. Jurarão isso pela sua vida. Quem se recusar será executado. — Encarou os legionários de novo. — Há alguém aqui que não queira fazer o juramento?
Ninguém se mexeu.
Crassus sorriu.
— Então, repitam depois de mim: ‘Eu, um soldado de Roma...”
Quando os homens posicionados terminaram o juramento, Crassus voltou a se dirigir aos soldados postados logo à frente dele.
— Se por acaso não sabem, seus filhos da puta, o termo “tremedor” é uma palavra espartana. Foi cunhado para descrever os piores homens, os soldados que não voltavam com seus escudos, mas sem eles. Além de terem feito isso, vocês foram os primeiros a fugir. Os primeiros a deixar seus companheiros à mercê do inimigo. Vocês são todos covardes. MALDITOS COVARDES! — Ele os observou, desafiando-os a o encararem. Ninguém o fez. — Só existe um castigo adequado para homens assim. A dizimação!
A palavra pairou no ar quente.
— Isso mesmo, seus viados! — vociferou Crassus. — Dizimação é o que vocês merecem.
O choque tomou os rostos daqueles que observavam; o terror contorceu o rosto dos condenados.
— Vocês devem marchar diante de mim em grupos de cinquenta. E um homem de cada dez deverá apanhar de seus companheiros até morrer. No total, cinquenta de vocês morrerão, e o resto será obrigado a colocar as barracas do lado de fora dos muros do acampamento até segunda ordem. Nesse período, receberão cevada para comer, como são alimentados os cavalos e as mulas. Cada um de vocês perderá o pagamento de um ano. E estejam certos que lutarão nas fileiras dianteiras nas próximas batalhas. — Crassus olhou para a direita e para a esquerda. — Caepio, onde está você?
— Bem aqui, senhor. — O velho centurião deu um passo à frente.
— Você deve supervisioná-los. Quem não estiver aplicando o castigo com entusiasmo suficiente deve sofrer o mesmo destino dos que estiverem sendo dizimados. Está claro?
— Sim, senhor.
— Comecem de uma vez.
Caepio se virou.
— Vocês ouviram o general! Reúnam-se em grupos de dez!
Arrastando os pés, os primeiros grupos caminharam na direção dele. Outros centuriões se empurraram em grupos de dez. Caepio pegou um saco, que chacoalhou com vigor.
— Aqui dentro, há nove pedras brancas e uma preta. Cada um de vocês deve pegar uma. Obviamente, o que pegar a preta vai morrer. — Ele abriu o saco. — O primeiro!
Pressionado por um centurião com um cajado de vinha, um soldado se aproximou de Caepio. Ele pegou uma pedra no saco. Era branca. Seu rosto foi tomado pelo alívio.
— Próximo! — berrou Caepio.
A segunda pedra era branca.
Assim como a terceira, a quarta e a quinta.
Mas a sexta era preta. O homem que a pegou soltou um gemido de angústia.
— Fique onde está! — vociferou Caepio. O soldado trêmulo obedeceu, e Caepio fez um gesto, indicando o monte de porretes. — O resto deve pegar um daqueles e voltar aqui. — Quando os nove retornaram, ele gritou: — Formem um círculo.
Assim que os legionários tomaram suas posições, Caepio empurrou o homem escolhido para dentro do círculo.
— Vamos logo com isso!
Ninguém se moveu, exceto o condenado, que caiu de joelhos e começou a rezar em voz alta.
— Cidadãos romanos não devem ser crucificados, mas isso não me impedirá de sentenciar cada um de vocês, seus imbecis! — vociferou Crassus, com as veias do pescoço inchadas. — Matem-no! AGORA!
Por um instante, ninguém reagiu. Então, um legionário grande deu um passo à frente. E mais um. Outros três se uniram a ele e, depressa, o restante os seguiu. Eles se aproximaram do companheiro condenado, que agora implorava por misericórdia. Ninguém respondeu, ninguém o encarava.
O legionário grande foi o primeiro a agir. Ao descer o porrete, o condenado ergueu o braço direito para se defender. Tum. O golpe forte quebrou os ossos do braço como se fossem gravetos, e os pregos na ponta do porrete traçaram linhas vermelhas por seu couro cabeludo. Gritando, ele caiu de costas.
— Ajude-me, Júpiter, por favor! Ajude-me!
Como uma matilha de lobos sobre a presa, os nove soldados o cercaram. Os porretes subiam e desciam em um ritmo terrível. Gotas de sangue respingavam, cobrindo braços e rostos dos agressores. Os gritos se tornaram um gemido, que logo foi silenciado. Contudo, os legionários continuaram batendo. Só quando Caepio mandou que parassem, eles deram um passo para trás, ofegantes. Uma mistura de horror e ira demente retorcia seus rostos. “Isso não me surpreende”, pensou Crassus. O companheiro deles mais lembrava um pedaço de carne. Os membros estavam dispostos em ângulos nada naturais, e seus traços estavam irreconhecíveis numa mistura de carne dilacerada, ossos fraturados e dentes expostos. Crassus gostou de ver pedaços de massa encefálica em vários porretes, o que era curiosamente satisfatório.
— Deixem o corpo onde está — ordenou. — Próximo!
Os soldados, atordoados, foram afastados e o próximo grupo de dez foi forçado a se adiantar. Cada um pegou uma pedra no saco. Quando chegou a hora de pegar um porrete e fazer o impensável, ninguém protestou. O limite foi ultrapassado pelo primeiro assassinato, e todos sabiam que, se resistissem, uma cruz os esperaria. Em pouco tempo, um cadáver ensanguentado apareceu ao lado do primeiro. Em seguida, um terceiro e um quarto. Conforme o número de mortos aumentava, Crassus ordenava que os corpos fossem empilhados como se fossem carniças.
E assim foi por mais de uma hora.
Quando o último homem apanhou até morrer, o silêncio pairou sobre as tropas posicionadas. Crassus olhou para os legionários, analisando o humor destes. Não viu ressentimento nem ira, apenas resignação, nojo e medo.
— Que esta seja uma lição para vocês e seus companheiros. — Ele apontou o monte de carne e ossos, e a piscina de sangue ao redor deles. — Espalhem a notícia. Este será o fim de quem fugir do inimigo!