Spartacus: A Rebelião
Capítulo VIII
Respirando fundo, Ariadne se agachou e deixou a contração tomar conta de seu corpo.
— Isso mesmo — murmurou a parteira. — Agora, faça força.
Ariadne não conseguia pensar em nada, só obedecia. Com a mandíbula contraída e com gotas de suor se formando na testa, ela gemeu algo incompreensível. A dor era intensa, mas ela não se deixava dominar. “Eu a manterei sob controle.” Por fim, os músculos abdominais relaxaram e ela caiu de joelhos.
— Ótimo. Consigo ver a cabeça. Não vai demorar agora.
“Meu filho logo nascerá”, pensou Ariadne, satisfeita. Não se surpreendeu muito quando as dores começaram na ausência de Spartacus. Ela lhe dissera que o bebê não nasceria antes de seu retorno para facilitar a ida dele, porém, no fundo, sabia que o nascimento poderia acontecer bem mais cedo. No caso, o trabalho de parto começara na noite anterior. Ficou contente por naquela hora o exército estar acampado, em um local bom, perto do riacho na montanha.
Ela se agachou de novo. Uma de suas amigas permanecia diante dela de modo que Ariadne pudesse segurar suas mãos e se apoiar. Veio mais uma contração. O tempo entre as contrações era bem menor.
— Faça força — mandou a parteira. — Você tem que empurrar.
Ariadne gemeu.
— Ela... bem? — A voz de Atheas, de fora da barraca, estava tomada de preocupação.
— Sim, sim. Vá procurar o que fazer em outro lugar — ordenou a parteira.
Quando a dor diminuiu, Ariadne se lembrou de que, ao acordar Atheas, o guerreiro tatuado se mostrou preocupado de verdade. Apesar do desconforto, Ariadne sorriu. Um dos guerreiros mais ferozes que ela conhecia reduzido a uma sombra murmurante e estranha de si mesmo. “Assim são os homens.” Com calma, ela pedira a ele que chamasse a parteira, uma senhora que havia se unido ao grupo meses antes. Em seguida, Atheas levou a notícia a Castus e a Gannicus. Ariadne ainda se lembrava da surpresa do cita quando lhe contou que os gauleses tinham dito que o exército permaneceria parado até que o bebê nascesse sem argumentar ou discutir.
“É claro que eles disseram isso”, pensou ela. Se tivessem insistido para que o exército marchasse, ela estaria em risco. Um dia ou dois perdidos não faria grande diferença para o progresso deles e, apesar de ambos serem valentes, ela duvidava que qualquer um deles quisesse enfrentar a ira de Spartacus caso algo desse errado.
Seus músculos se contraíram de novo, e Ariadne sabia que era a hora. Começou a fazer força como nunca antes. A parteira, que estava atrás dela, deu-lhe um tapinha de incentivo.
— Vamos, não pare. Está quase lá.
Ariadne sentiu um líquido escorrer entre suas pernas e ouviu a parteira emitir uma leve exclamação de satisfação. Na mesma hora, a forte pressão na parte inferior de seu abdome diminuiu. Ela perdeu as forças, e, se não fosse a mulher segurando os braços dela, Ariadne teria caído. A ansiedade tomava conta dela.
— Você é mãe de um menino — disse a parteira com delicadeza. — Ele é saudável, graças aos deuses.
— Um menino. Eu sabia que era um menino. Mostre-o para mim.
— Erga a perna. — Ariadne obedeceu, e a parteira se movimentou por baixo dela, tomando o cuidado de não puxar o cordão.
Um monte pequeno de membros, vermelho e coberto de muco foi entregue a ela. Ariadne teve a sensação de que seu coração explodiria diante de tanta beleza.
— Oi, meu filho — sussurrou ela, envolvendo o bebê nos braços. — Seja bem-vindo, muito bem-vindo.
— Ajude-a a chegar ao colchão — disse a parteira.
Ariadne sentiu que mãos em suas costas a apoiaram com delicadeza enquanto ela dava poucos passos em direção à cama. Ela se deitou, segurando o bebê contra si. Um cobertor de lã especialmente preparado para a ocasião — o cobertor de seu filho — lhe foi entregue disposto sobre o peito dela. Ariadne acariciou a cabecinha do bebê, que era coberta por cabelo preto.
— Você é um menino bonito, assim como seu pai. Todas as meninas vão correr atrás de você.
— Como vai chamá-lo? — perguntou a parteira.
— Maron. Em homenagem ao irmão de Spartacus, que foi morto lutando contra os romanos.
A parteira assentiu, aprovando.
— É um nome forte.
Ariadne ouviu a amiga protestar e, então, alguém entrou na barraca. Ela levantou a cabeça e viu Atheas agachado à sua frente, uma expressão de respeito no rosto normalmente sério.
— Ele... menino?
Ariadne sorriu.
— Sim.
— Saudável?
Ela confirmou com a cabeça.
— O nome dele é Maron.
— É... bom. — Os dentes de Atheas brilharam no escuro. — Graças aos deuses. O Grande Cavaleiro, principalmente. Eu... vejo... que será.
— Obrigada — agradeceu Ariadne. Sua gratidão a Dionísio poderia esperar até mais tarde.
Sorrindo como um tolo, Atheas se afastou.
Ariadne fechou os olhos. Estava mais cansada do que nunca.
A parteira se aproximou.
— Beba isto. É um tônico. Há uma erva que vai ajudá-la no pós-parto e outras para que durma e recupere as energias. O bebê será alimentado enquanto você descansar.
Com a ajuda da parteira, Ariadne levou Maron ao peito. Ele o agarrou com vontade, e ela sorriu.
— Ele gosta da comida.
— Que bom — disse a parteira, olhando para ele com satisfação. — Vai crescer forte.
“Vai ficar ainda melhor quando Spartacus voltar”, pensou Ariadne, tentando ignorar a preocupação que vinha sentindo desde a partida dele. Não recebera nenhuma mensagem do deus sobre seu marido. Pelo menos, não teve o terrível pesadelo no qual não conseguia encontrar o corpo dele entre as centenas de homens crucificados.
“Vou vê-lo de novo. Devo vê-lo, porque ele tem que conhecer o filho.”
Ela olhou para Maron e abriu um sorriso.
— Seu pai ficará muito orgulhoso quando o ver.
O bebê sugou com mais força ainda, como que em resposta.
Depois de alguns minutos, o sono veio.
Quando saíram da estalagem, Carbo ficou surpreso ao ver a maltrapilha encostada na parede de uma construção à frente. Irritado, ele fingiu não notá-la, porém isso não a impediu de se aproximar.
— Está indo a algum lugar?
— Por que quer saber? — rebateu Carbo.
— Pensei que pudesse querer um guia.
— Não preciso. Cai fora.
Carbo desceu a Vicus Patricius, fingindo saber aonde estava indo.
A maltrapilha deu um salto para o lado, assoviando.
Carbo percebeu Spartacus sorrindo atrás dele.
— Pensei ter dito para que você saísse daqui!
— Sou uma cidadã livre — respondeu a garota. — Não pode me impedir de seguir por aqui também.
— Não posso? — O tom de Carbo era bravo.
— Não — foi a resposta corajosa.
Carbo apressou o passo, deixando a garota para trás. Sua velocidade fazia pouca diferença. Algumas centenas de passos depois, a Vicus Patricius se unia à esquerda à Via Labicana, e a pressão da multidão aumentou. Carbo parou de repente. A junção estava tomada por carroças, lixos e pessoas a pé.
— Andem, pessoal!
Um grupo de soldados liderado por um optio caminhava pela multidão e marchava na direção de Campos Elísios. Atrás deles havia um monte de escravos liderados por um homem de rosto sério que empunhava um açoite. De rostos magros, vestidos com trapos, acorrentados uns aos outros pelo pescoço, os escravos estavam sendo levados ao mercado. Também havia um cortejo fúnebre, e o corpo estava envolvido em lençóis de linho, levado em um colchão por seus parentes homens. Seguindo a antiga tradição, escravos carregavam tochas acesas. Na frente, um grupo de músicos tocava uma marcha triste sem parar, como se isso abrisse caminho entre a multidão. Carbo olhou ao redor, impotente e frustrado.
— Tem certeza de que não quer um guia? — disse a voz familiar.
Carbo se virou, como se quisesse olhar para a maltrapilha, mas também para questionar Spartacus. Ao ver o meneio de cabeça quase imperceptível do trácio, ele perguntou:
— Qual é o seu nome?
— Tertulla. Meu apelido é Tulla.
— Você tem quantas primaveras?
— Sete ou oito, eu acho.
— Você acha?
— Não sei ao certo. Vivo sozinha desde que me lembro.
— Não tem família?
Tulla lhe lançou um olhar desafiador.
— Não preciso de piedade, senhor. Eu vivo bem sozinha, está bem?
— Com certeza vive. — Apesar da coragem da menina, Carbo sentiu compaixão por ela. Era pequena, estava suja e subnutrida. — Onde mora?
Mais uma vez, o olhar desafiador.
— Clemens, o padeiro, me deixa dormir perto de seu forno, e eu, em troca, fico de olho na padaria. Olha, você quer ajuda ou não?
— Você não tem para onde ir? — perguntou Spartacus.
— Tenho, por acaso.
— Compreendo — disse Carbo. — Pode continuar.
De repente, ela mudou de atitude.
— Posso esperar.
Carbo coçou o queixo, deixando a menina esperando por um minuto.
— Onde fica o Fórum?
— A uns oitocentos metros. Talvez menos.
Era o que Carbo pensara.
— Um asse para nos levar até lá.
— Três.
— Como?
— Veja a multidão! — Tulla apontou. — Vai piorar a partir daqui. Todo mundo quer ouvir Crassus falar. É isso o que pretende fazer?
— Crassus? Não, só quero conhecer o lugar — mentiu Carbo descaradamente.
Tulla limpou uma das narinas e jogou os resíduos fora.
— Você escolheu um dia ruim para passear.
— Dou dois asses a você, e nada mais.
Tulla estendeu a mão suja.
— Quero pagamento adiantado.
Carbo procurou na bolsa e jogou uma moeda para cima, que foi pega depressa.
— É só um asse!
— Vai receber o outro quando chegarmos lá.
Tulla não pestanejou.
— Vai custar o mesmo para voltar a Campos Elísios. E é melhor voltar antes de escurecer, pode acreditar.
— Veja — disse Carbo num impulso. — Pode ser nossa guia durante toda a nossa visita. Vou pagar um denário pelos próximos três dias.
— Por dois dias.
— Tudo bem. — Na verdade, esse era o valor que Carbo pretendia pagar.
— Metade agora — exigiu Tulla.
— Só pode estar brincando! Você sumiria assim que chegássemos ao Fórum. — Carbo entregou um segundo asse. — Vou lhe dar outro hoje à noite.
— Tudo bem. Mas pode me comprar uma salsicha no caminho.
Pensando no próprio estômago que roncava, Carbo sorriu.
— Conhece um bom lugar para isso?
Tulla já tinha dado dez passos por um caminho.
— A melhor de Roma! Vamos!
Carbo encarou Spartacus.
— Muito bem. Ela será útil. Ainda mais se tivermos que fugir.
— Era o que eu estava pensando.
— Cuidado com o que a deixa ouvir — avisou Spartacus. — Ela nos entregaria em um piscar de olhos.
Carbo assentiu, sério.
— Vamos comer um pouco. Minha barriga acha que minha garganta foi cortada.
— A minha também. — Carbo correu atrás de Tulla, que tinha quase desaparecido.
A garota estava perto da barraca de comida. As salsichas com alho e ervas compradas por Carbo eram as melhores que ele já havia experimentado. Enfiadas num pão recém-assado comprado no padeiro ao lado, elas eram indescritivelmente deliciosas.
Depois da barraca de comida, Tulla os levou por um labirinto de caminhos estreitos. Eles passaram por vasos quebrados, móveis estragados e despejos de cenáculos próximos. O ar era fétido e, mais de uma vez, Carbo pisou no lodo.
— Estamos pisando em merda — disse ele de modo acusador à Tulla.
— Está em todo lugar. Cuidado por onde pisa — foi a resposta despreocupada. — É sempre assim por esses caminhos. Posso levá-los para a rua principal, se quiserem.
Carbo virou a cabeça.
— Não — murmurou Spartacus.
— Continue — disse Carbo com um suspiro.
— Estamos quase chegando — disse Tulla para consolá-lo. E, como esperava, logo ouviu a comoção de uma multidão enorme. Os batimentos cardíacos de Carbo se aceleraram enquanto Tulla os levava, triunfante, pelo espaço aberto. — Chegamos.
Carbo olhou para o monte íngreme de cume plano que se estendia acima do Fórum, além da multidão. Perto do topo, havia uma estátua imensa e pintada de Júpiter, barbado e imperioso. Ela havia sido posicionada para reger a cidade e era linda, assim como o templo de teto de ouro atrás dela. Carbo foi tomado pela reverência. Seus lábios se movimentavam em uma oração silenciosa.
— Impressionante, não? — disse Tulla. — Já vi camponeses de joelhos ao verem essa estátua.
A ira tomou conta de Spartacus com todo o espetáculo no Fórum, a estátua, os templos, o centro da República. Ele queria destruir tudo aquilo, mas era grande demais. Ele controlou a sensação cada vez maior de frustração e raiva. “Só posso torcer por alguma confusão.”
— Onde Crassus falará? — perguntou Carbo. — Nos degraus da Curia?
Tulla negou com a cabeça.
— Provavelmente da plataforma da Rostra.
Carbo percebeu que Spartacus estava confuso.
— É um pilar decorado com as proas de navios da Cartagena, não é? — perguntou ele.
— Algo assim — foi a resposta incerta.
— Foi construído depois da primeira guerra com a Cartagena — explicou Carbo com confiança, lembrando das aulas de história que teve com seu tutor quando era criança.
“Uma guerra travada, na maior parte, no mar. E que os romanos venceram apesar de não terem um exército marítimo”, pensou Spartacus, contrariado.
— É onde as Virgens Vestais vivem. — Tulla apontou para um templo circular, cujo teto era visível à esquerda. — Há muitos outros templos ao redor do Fórum. Há um para Castor e Pollux, um para...
— Sim, sim — interrompeu Carbo, percebendo a inquietação de Spartacus. — Vamos em frente, sim? Se tivermos que passar por essa multidão, levaremos o dia todo.
— Você não ouviu o que eu disse? É assim que será em todas as partes do Fórum. Metade de Roma quer ouvir Crassus contar como vai acabar com Spartacus. As lojas nos mercados provavelmente ficarão fechadas durante o discurso.
— Ah. — Carbo fingiu estar desapontado. — Ainda assim, acredito que podemos ouvir Crassus falar enquanto estivermos aqui.
Tulla o encarou.
— Você vai ter dificuldade para ouvir o que ele diz daqui.
— Pode nos levar mais perto?
— Claro! Vamos dar a volta pelas ruas de trás. — Ela seguiu com confiança pelo caminho de onde tinham vindo. — Vou levá-los à Rostra.
— Ótimo — disse Carbo, contente com o conhecimento de Tulla.
Dessa vez, a garota os levou por uma série de caminhos que cruzavam estradas que levavam ao Fórum. Era só caminhar depressa por alguns passos, passando por ruas cheias e caminhos estreitos. Por fim, eles chegaram à parte de trás de uma construção comprida e alta. De dentro dela, Carbo ouvia o barulho de muitas vozes competindo umas contra as outras.
— Isto é um mercado?
— Sim. E uma corte também. A Basílica Emília. É repleta de advogados, escribas e comerciantes. Até profetas, se quiser uma leitura.
— Não preciso disso — retrucou Carbo, entortando os lábios. — São todos mentirosos e charlatães.
— É o que Clemens diz. Ele não me deixa me aproximar deles. Até usou a vassoura para afastar o último que tentou chegar perto. O adivinho o amaldiçoou, mas Clemens só riu. Diz que os deuses cuidam de um homem digno.
— Um homem sábio, esse padeiro — observou Spartacus.
Tulla parecia contente. Ela os levou por mais vinte passos onde o caminho se abria para uma área maior.
— Esta é a lateral da Curia — disse ela, indicando a construção do outro lado.
Carbo olhou para o outro lado, para a parede de tijolos aparentes e a fileira de janelas de vidro visíveis sob o teto de telhas. A estrutura não era grande, mas ainda assim ele se surpreendeu e sentiu muito orgulho. Carbo se aproximou e tocou a parede de alvenaria. Era como se tocasse a história. Era onde o Senado havia se reunido por meio milênio.
Spartacus manteve o rosto inexpressivo, mas até mesmo ele ficou impressionado. “Então, é aqui que são tomadas as decisões.”
Gritos foram ouvidos à esquerda, chamando a atenção deles.
— RO-MA! RO-MA! RO-MA!
— Bem na hora — disse Tulla, sorrindo. — Aquele é Crassus.
O coração de Carbo acelerou. Olhou para Spartacus, cuja expressão se tornara mais séria.
— Leve-nos o mais perto que puder — pediu o romano à Tulla.
A rua estava cheia. Todo mundo seguia na mesma direção que eles, porém Tulla conseguia encontrar os espaços menores. Carbo tinha que se esforçar para acompanhá-la. Inevitavelmente, as pessoas por quem ele passava se irritavam e, mais de uma vez, ele ouviu palavrões direcionados a ele. As desculpas educadas de Carbo acalmavam muitos cidadãos. Aqueles que não se convenciam se deparavam com a cara séria de Spartacus. Ninguém quis discutir com o escravo forte de olhos penetrantes.
Depois de usarem muito os ombros e os cotovelos para abrir espaço, eles chegaram à parte dianteira da multidão, que estava posicionada ao redor da frente da Curia. Uma fileira de litores com fasces cruzados impedia as pessoas de se aproximarem da construção. Atrás dos guarda-costas, nos degraus da Curia, havia fileiras e mais fileiras de senadores, com as togas brancas brilhantes e expressões fortes, o que os destacava da grande maioria.
“Ainda assim, eles estão tão ansiosos quanto os outros para ouvir o homem da vez falar”, pensou Spartacus. “Não é de espantar. Até aqui, eles se comportaram como um monte de galinhas quando uma raposa entra no galinheiro. Precisam de um líder adequado, alguém que possa desempenhar o papel de general e também de político. Crassus é o homem que eles estão procurando?”
— Eu disse que traria você aqui. Está contente? — sussurrou Tulla com um sorriso travesso.
— Sim, muito bem. — Carbo olhou para as grandes portas de bronze da Curia. “Elas são enormes.” Em seguida, olhou para a esquerda, para um pilar de pedra decorado com âncoras e proas de bronze de navios, que terminava em uma plataforma simples de madeira e ficava acima da multidão numa altura equivalente a de dois homens. Era ocupada por alguns soldados com malha carregando estandartes e um oficial velho com malha, coberto de phalera. Havia doze legionários diante da plataforma, empunhando os escudos em frente ao corpo. Carbo franziu o cenho. Era bem incomum que os soldados se armassem por completo dentro dos limites de Roma. Em geral, apenas litores podiam portar armas dentro das muralhas da cidade. “Crassus deve estar exibindo sua força”, concluiu. Não pensou em dizer isso a Spartacus, que podia não conhecer a regra. Ao lado das tropas, os trompetistas esperavam com os instrumentos prontos.
— Crassus ainda não chegou.
— Não — respondeu Spartacus em voz baixa. — Mas veja quem está aqui.
— Quem?
— Caepio. Você se lembra dele?
O nome não era estranho para Carbo, e ele olhou de novo para o trio de soldados no pódio.
— Pelos deuses, você tem razão! — Era o centurião que sobrevivera ao munus sangrento promovido por Spartacus, responsável pela morte de vários companheiros dele. — O que ele está fazendo aqui?
— Imagino que Crassus o use a fim de conseguir apoio para suas novas legiões. Maldito esperto. — “Talvez eu devesse tê-lo matado também. Enviado minha mensagem ao Senado de modo diferente.” Spartacus riu. “Não, ele é um soldado corajoso que merecia sobreviver.” — Vai dar certo. Os homens adoram ouvir a história de alguém que sobreviveu apesar das impossibilidades.
“Crassus não é apenas um maldito que pega dinheiro dos outros. É astuto também”, pensou Carbo com inquietação. Olhou para a estátua no monte. “Júpiter, dê-me a chance de matá-lo hoje. Por favor.”
A multidão voltou a gritar.
— RO-MA! RO-MA! RO-MA!
O grito foi repetido pelas massas. O barulho era ensurdecedor e impressionante. Carbou concluiu que faltava apenas a batida metálica das espadas nos escudos para que parecesse um exército prestes a guerrear. A sensação era estranha. Ele se sentia em casa, mas, ainda assim, era um forasteiro. Ao pensar nisso, percebeu que, se alguém por perto descobrisse quem ele ou Spartacus eram, ajudaria a acabar com os dois. Percebeu também que se não gritasse, alguém podia notar. Olhou para o trácio e o viu gritar: “RO-MA! RO-MA!”
O respeito de Carbo por seu líder aumentou, e ele também gritou.
Tulla não parava de pular, gritando a plenos pulmões.
Um homem bonito, de ombros largos e de meia-idade subiu os degraus da plataforma e ficou à vista da multidão. O barulho desta aumentou ainda mais, e os três soldados pediram atenção. O recém-chegado agradeceu a eles com um cumprimento, e virou-se para o Fórum. Ergueu a mão e acenou, como para cumprimentar a multidão, que ficou em polvorosa.
Carbo olhou para Crassus com o rosto contorcido pela raiva. Ele não o via desde o dia em que o político visitara o ludo em Cápua. Naquela época, Carbo era um guerreiro iniciante. Agora, era um veterano de muitas batalhas. “Deixe-me chegar perto de você, seu arrombado fedorento. Com seu último suspiro, você vai me ouvir sussurrar o nome de meu pai.”
O grito cresceu.
— RO-MA! VIC-TOR! RO-MA! VIC-TOR!
Crassus repetiu o grito, o que aumentou a animação da multidão.
“Ele sabe como lidar com eles”, admitiu Spartacus. “Sem dúvida, o merda é um bom orador também.” Ele observou a dezena de soldados à vista e rezou para que Crassus partisse com apenas alguns deles. “Grande Cavaleiro, dê-me a chance de matá-lo. Peço que guie minha lâmina.”
Crassus ergueu os braços. No mesmo instante, os trompetistas tocaram e fez-se silêncio.
— Cidadãos de Roma, eu os cumprimento! — gritou Crassus. A resposta foi uma confusão de assovios e gritos. — Vocês vieram aqui hoje por um motivo.
— Não é para pedir dinheiro, com certeza! — ouviu-se a voz no meio da multidão.
O comentário foi recebido com risos.
Crassus sorriu.
— Porém, minhas riquezas não são mais o que eram, meu bom povo. Estou usando meu dinheiro para formar seis novas legiões. A cada semana que passa, centenas de milhares de denários são gastos com homens, provisões e equipamentos. Não me arrependo de nada, porque é pelo bem da República!
— CRAS-SUS! — gritou um homem perto de Carbo. Quem estava perto dele logo passou a repetir o grito, e a multidão fez o mesmo.
— São os homens de Crassus — sussurrou Spartacus no ouvido de Carbo. — Plantados na multidão.
“Rato de esgoto.” Carbo deixou os dedos acariciarem o cabo de osso de sua adaga. Na multidão, ninguém viu.
Mais uma vez, Crassus ergueu os braços. Os gritos diminuíram.
— Para ser sincero, eu me sinto honrado em oferecer toda a ajuda que posso à Roma. Daria as roupas do corpo, se fosse preciso. Devemos fazer o que podemos! Não é verdade?
— SIM!
— Devemos agir agora, porque a Itália sofre uma ameaça dentro de seu território, como não acontecia há mais de cem anos! Não é o malvado Pyrrhus dessa vez, nem Aníbal. — Crassus deixou a multidão gritar por alguns segundos. — Não, parece bem pior. Muito mais malvado. Estamos sendo ameaçados pela forma de vida mais inferior que existe: um escravo. Uma criatura que atende pelo nome de Spartacus.
O grito da multidão que veio em seguida não teve forma. Não houve palavras. Era pura ira, puro ódio, pura revolta.
“Seu filho da puta. Cortaria seu fígado fora e o daria aos urubus.” Spartacus sempre quis fazer isso e os insultos aumentaram ainda mais sua fúria. Contudo, só o que pôde fazer foi ficar ali, ouvindo. Jogou os ombros para trás, como se não fosse um escravo. “Estou bem aqui”, pensou ele com orgulho, “e você nem sabe”.
Carbo ignorou o fervor da multidão. “Imbecis. Spartacus é um grande homem. Com certeza, ele trata seus seguidores melhor do que Crassus trata seus devedores.”
— Desde que escapou do ludo em Cápua, Spartacus tem reunido um exército. É uma força formada pela escória da humanidade. Nela, há escravos com ódio de seus senhores e pastores que odiavam seus rebanhos. Todos os desgraçados que querem estuprar e roubar entraram para o grupo de Spartacus. Esse gladiador. Esse trácio. Juntos, eles atacaram inúmeras terras e propriedades da Itália. Incendiaram vilarejos e até saquearam cidades. Tudo é feito sem qualquer cuidado com a vida humana. Milhares de cidadãos foram massacrados! Inúmeras mulheres foram violentadas!
Mais uma vez, Crassus calou-se, deixando a multidão expressar sua indignação. Quando os gritos diminuíram, ele fez cara de triste.
— Infelizmente, não é só isso. Até agora, os homens que foram enviados para lidar com Spartacus fracassaram. Não eram jovens inexperientes. Eram pretores e núncios, homens que tinham se mostrado capazes de cumprir a tarefa. Caius Claudius Glaber. Publius Varinius. Lucius Cossinius. Lucius Furius. Ainda assim, todos sofreram nas mãos dos escravos. Depois desses contratempos, passamos a confiar em nossos cônsules. Sempre foi assim em Roma. Quando a República pede, o cônsul responde. Eles levam nossas legiões à vitória. — Crassus percebeu o grande suspiro que tomou a multidão, e continuou: — Mas não era para ser. Apesar de Lucius Gellius a príncipio ter tido sucesso contra uma pequena força de escravos, seu colega Gnaeus Cornelius Lentulus Clodianus sofreu uma derrota humilhante em seguida. Seus soldados fugiram do combate, deixando os estandartes e até as águias para trás. Os corpos dos mortos daquela batalha mal tinham esfriado quando as tropas de Gellius também foram derrotadas, assim como as de Lentulus. Outros milhares de legionários foram assassinados; mais estandartes e águias foram perdidos. Para aumentar a indignação, quatrocentos de nossos soldados foram forçados a lutar até a morte como parte de um munus para honrar os companheiros de Spartacus mortos. Sem dúvida, vocês ouviram essa história. Ao meu lado, está o único homem que sobreviveu. Este centurião valente, Caepio. — Ele fez um gesto ao oficial, que abaixou a cabeça quando a multidão comemorou. — Quando eu soube das péssimas notícias, pensei comigo mesmo que a vergonha de Roma não teria como ser maior.
“Ah, poderia, sim”, pensou Spartacus, com satisfação enquanto a multidão expressava sua fúria. Carbo observou os rostos irados ao seu redor. Ficou surpreso com tanto ódio. Ele percebeu a ironia: por um capricho do destino, ele poderia estar se sentindo da mesma maneira. Em vez disso, ele era um dos homens de Spartacus — independentemente do que acontecesse.
— Eu me enganei. Há algumas semanas, Gellius e Lentulus enfrentaram os escravos em Piceno. Lá, nem mesmo as forças combinadas dos dois bastaram para vencer Spartacus. Dezenas de outros estandartes, entre eles outras duas águias, foram conquistados pelo inimigo. Muitas esposas se tornaram viúvas. Muitas de nossas crianças ficaram sem pai. — Crassus abaixou a cabeça por um momento antes de observar a multidão. — Esse nível de desgraça, esse nível de humilhação não pode continuar. Pode?
— NÃÃÃÃOOO!
— Que bom que concordamos. — Ele lançou um olhar rápido e triunfante aos senadores, sabendo que Gellius e Lentulus estavam entre eles. — Eu não poderia deixar a República à mercê nesse momento de necessidade, então me dispus a me responsabilizar pela guerra. Na sabedoria deles, meus colegas políticos julgaram adequado me dar o poder do império proconsular.
— Você é a pessoa certa para o trabalho, Crassus! — gritou um homem de rosto vermelho perto de Carbo.
Gritos prolongados indicavam a felicidade da multidão com tal anúncio.
Crassus assentiu rapidamente.
— Vocês também querem que eu acabe com esse grupo de escravos? — Ele esperou alguns instantes. — Querem?
— SIM!
— Sou apenas um instrumento de sua vontade — disse Crassus com um sorriso modesto. — Quando minhas novas forças estiverem prontas, terei dez legiões para destruir Spartacus. Dizem que ele e sua escória passaram por Roma a caminho do sul. Os ratos costumam voltar para o mesmo buraco, por isso é possível que os escravos sigam para a área perto de Thurii, onde já passaram o inverno antes. Para onde forem, irei atrás deles. Quando se aproximarem, aniquilarei todos eles. Juro isso a Júpiter, o Maior e Melhor, que é minha testemunha. — Ele olhou para a enorme estátua como se confirmasse a promessa.
— MATE TODOS ELES! — gritou o homem de rosto vermelho.
— MATE! MATE! MATE! — entoou a multidão.
Spartacus respirou fundo e soltou o ar devagar. “Será uma luta até a morte, então.”
Tulla vociferou com o resto, porém, dessa vez, Carbo não conseguiu acompanhar. Olhou ao redor e foi confortado pelo olhar firme de Spartacus. “Ele terá um plano. Sempre tem.”
Com um gesto, Crassus fez os trompetes serem tocados de novo. Demorou um pouco, mas por fim uma calmaria tomou conta do Fórum.
— Cidadãos de Roma, gostaria que vocês ouvissem um homem mais experiente do que eu ou vocês. Um soldado que serviu a República por mais de trinta anos, que lutou em mais campanhas do que pode se lembrar. Seu corpo é coberto por cicatrizes de batalha, todas na parte da frente. As phaleras que cobrem seu peito são prova de sua coragem. Dou a vocês a coragem e a virtude romanas: Quintus Servilius Caepio!
Com um gesto expansivo, Crassus chamou o centurião para se colocar mais à frente.
Mais gritos irromperam, e os rostos daqueles que observavam estavam tomados por respeito.
Caepio não olhou para a frente ao avançar. “Não é do tipo que conquista a multidão”, deu-se conta Spartacus, lembrando da breve conversa entre eles no munus. Era um soldado, dizia o que pensava. Ele era exatamente do que Crassus precisava no momento. Este havia planejado tudo com cuidado, do começo ao fim.
— Agradeço Marcus Licinius Crassus — disse Caepio. — Povo de Roma, eu os saúdo!
Eles gritaram animados.
— Estou aqui hoje não muito longe de meus sessenta anos. Ainda porto minha armadura, sobretudo porque é mais fácil dormir com ela do que retirá-la. — Ele sorriu enquanto todos gritavam e assoviavam por causa da piada. — Para dizer a verdade, preferiria lutar numa guerra fora da Itália. Mas isso agora não é possível. Nosso povo precisa de ajuda! Nenhum homem decente deveria conseguir dormir à noite sabendo que tantos de nossos cidadãos estão sendo mortos ou forçados a abandonar suas propriedades incendiadas. Isso não pode continuar! Não podemos permitir que continue!
— RO-MA! RO-MA! — berrou a multidão.
— Os exércitos não aparecem num passe de mágica. Crassus precisa de voluntários, de vários. Para cada legião formada, quase cinco mil soldados fortes são necessários. Os cidadãos estão se reunindo pela República por toda a Itália, mas precisamos de milhares de outros. Há algum homem entre 17 e 35 anos aqui hoje?
Muitas vozes responderam.
— Ótimo — disse Caepio. — Imagino que não haja poucos veteranos de Sulla aqui também. Homens que prestaram serviço leal e que foram recompensados com dinheiro e um lote de terra ao serem dispensados. Estou certo?
— Está!
— Saudamos você, Quintus Servilius Caepio!
Gritos ressoaram por todo o Fórum.
— Que bom que vocês vieram aqui hoje, porque podem ajudar a República nesse momento de necessidade. Seus corpos podem estar velhos, mas os corações ainda são de soldados, não são? — Caepio sorriu diante dos gritos que seguiram seu comentário. — Imagino que muitos de vocês desejam sentir o peso de um gládio de novo. Que abririam mão de cuidar de suas terras por uma temporada ou duas para se dedicarem à proteção de um muro de defesa com seus camaradas mais uma vez. Que derramariam o próprio sangue para ver Spartacus e seu exército de ratos indo para Hades! Estou certo?
A multidão à esquerda de Carbo se movimentou e então se separou para que um grupo de veteranos pudesse seguir em direção ao pequeno espaço diante da plataforma.
— Estamos com você, Caepio — gritou o líder. — Todos nós!
Surgiu um coro de gritos — dois homens aqui, um ali, três mais adiante —, prometendo apoio.
— Muito bem, rapazes. Sulla teria orgulho de vocês — disse Caepio. Ele observou a multidão. — Como sabem, este não é o lugar para se unir ao exército. Quero que todos os voluntários se dirijam ao Campo de Marte. Vocês sabem onde fica! Os oficiais de recrutamento já estão lá, esperando que vocês se apresentem. Como um gesto de gratidão pela sua coragem, Crassus autorizou um adiantamento de dez denários a todo homem que se inscrever hoje.
Em resposta ao anúncio, houve muitos gritos e uma movimentação imediata em direção às ruas que levavam ao norte da cidade.
Aparentemente satisfeito, Caepio deu um passo para trás.
— Muito bem, centurião — disse Crassus. — Nosso trabalho, pelo menos em Roma, está feito.
“Mas o meu, não.” Spartacus observou Crassus com atenção. “O que ele vai fazer? Falar com alguns dos senadores? Esperar até o Fórum esvaziar?” Se seu alvo não se movimentasse logo, Spartacus e Carbo teriam que se afastar. A multidão ao redor deles já estava diminuindo. Em pouco tempo, os dois se destacariam.
— Aonde você quer ir agora? Ao Campo de Marte? É para onde eu iria se tivesse idade suficiente — disse Tulla, mexendo os braços como se marchasse —, e se fosse menino — completou.
— Lá, não — respondeu Carbo, que também observava Crassus. Sua mentira estava pronta. — Eu poderia me alistar, mas sou filho único. Preciso ajudar a tocar a fazenda.
— Isso não é desculpa — retrucou Tulla num tom de acusação.
Irritado, Carbo deu um tapinha na orelha dela.
— Cuidado com a boca! Minha vez no exército virá. Mas não agora.
Magoada, Tulla se afastou.
Carbo logo se abaixou como se fosse apertar as tiras de sua sandália.
— O que acha? — sussurrou. — Vamos nos mover?
Spartacus analisou a situação. Crassus conversava com Caepio. Não iria a nenhum lugar em breve.
— Vamos em direção à Basílica Emília. Ficamos na porta e vemos o que ele vai fazer.
— Estou com sede — disse Carbo, endireitando-se. Ele olhou para Tulla. — Tem algum lugar que venda vinho entre os postos dos advogados e escribas na basílica?
— Alguns — foi a resposta sentida. O rosto da garota mudou quando Carbo lançou três asses para cima.
— Vá comprar um copo de algo decente. Falerniano ou campaniano. Estaremos esperando perto da porta mais próxima à Curia.
— Sim, senhor! — Tulla se virou com as moedas muito bem-guardadas na mão suja.
— É melhor que você volte — ameaçou Carbo. — Quero o troco!
— Não se preocupe. Quero meus denários!
Com isso, Tulla sumiu entre a multidão.