Spartacus: A Rebelião
Capítulo X
Quando Ariadne acordou de novo, a posição da luz do sol na barraca mostrava que já era fim de tarde. O zunir das cigarras estava mais alto do que nunca, porém o calor do dia começara a abrandar. Ela olhou para Maron, que dormia sobre seu peito.
— Meu filho... — sussurrou.
Ao ouvir a voz dela, a parteira se aproximou depressa.
— Como está se sentindo?
— Cansada, mas bem.
A senhora ergueu o cobertor e checou entre as pernas dela.
— Ótimo. Está sangrando só um pouco. Pela manhã, vou levantá-la. — Ela sorriu, revelando fileiras de dentes marrons. — As notícias correm. Centenas de soldados já pediram para ver o filho de Spartacus. Atheas teve que colocar sentinelas para impedir que eles se aproximassem da barraca.
Ariadne prestou atenção aos sons. De fato pessoas conversavam baixo do lado de fora. Sentiu-se tomada de orgulho pela admiração dos soldados a seu líder.
— Quantos estão aí fora?
— Muitos.
— Não podemos deixá-los esperando. Pegue o bebê, para que eu possa me sentar.
— Você precisa descansar — disse a parteira, assustada.
— Posso fazer isso depois. Além disso, quero que eles o vejam.
Ela entregou o filho à senhora.
— Envolva-o nos panos, por favor.
Ariadne se sentou com cuidado. Pegou o espelho de bronze que estava ao lado da cama e o segurou enquanto penteava o cabelo e o prendia para trás. Encontrou o manto de lã vermelho e o jogou sobre os ombros. Ele esconderia a camisola e faria com que todos se lembrassem de que, além de esposa de Spartacus, ela também era uma profetisa. Pensou em pegar a serpente também, mas decidiu não fazer isso. Ver Maron impressionaria todos eles o suficiente.
— Estou pronta — disse ela, pegando o bebê.
— Tem certeza? Acabou de dar à luz. Não deve se cansar — repreendeu a parteira.
— Não ficarei muito tempo do lado de fora.
A senhora suspirou exasperada. E, assim, ergueu a porta da barraca.
Todos se agitaram.
Segurando Maron contra o peito, Ariadne saiu.
Um ahhhh alto soou entre o grande grupo de homens que estavam diante da barraca. Entre eles, Ariadne reconheceu Navio, Pulcher, Egbeo e muitos outros.
— Vocês vieram ver o filho de Spartacus? — perguntou ela.
— SIM! — gritaram eles.
Assustado, Maron despertou e começou a chorar.
Os homens trocaram sorrisos envergonhados.
— Calma — sussurrou Ariadne, confortando Maron. — Estes são os soldados de seu pai, que vieram dar a você as boas-vindas ao mundo. — Foi como se ele entendesse as palavras da mãe. Aquietou-se e começou a procurar o seio dela. — Daqui a pouco, homenzinho. — Ela avançou para que todos pudessem vê-lo. — Nosso filho é saudável e tem comido bastante.
Os homens riram, sorriram e deram tapas nas costas uns dos outros.
— Qual é o nome dele? — perguntou Egbeo.
— Maron.
Eles comemoraram.
— Em homenagem ao irmão de Spartacus, que morreu lutando contra os romanos?
— Sim.
— É um bom nome trácio. Um nome forte — declarou Egbeo.
— Recebam Maron, filho de Spartacus — gritou Ariadne, erguendo-o.
Isso fez com que eles gritassem até ficarem roucos.
Maron voltou a chorar e, ao ver o incômodo do bebê, os homens se calaram. Ariadne o confortou até que se acalmasse de novo.
— Que ele cresça forte e esperto como o pai — pediu um homem de barba escura.
— Tão bom com a espada e com a lança quanto Spartacus.
— E tão bonito quanto a mãe — disse alguém mais atrás.
Ariadne riu. Ali, divertindo-se com a adoração dos soldados do marido, foi fácil esquecer o pesadelo. No entanto, ela sabia que, quando entrasse na barraca, seus medos voltariam. Desde que regressaram dos Alpes, ela passou a se preocupar com o futuro. Eles não poderiam marchar pela Itália para sempre. Os romanos não permitiriam. Pensar o contrário seria muita ingenuidade. Porém, ainda assim, a maioria dos homens parecia acreditar nisso.
— Ariadne — cumprimentou uma voz familiar.
— Castus. — Ela não conseguiu disfarçar o desprazer. — E Gannicus — acrescentou com um pouco mais de delicadeza. Por dentro, seu estômago revirava. Nenhum dos dois desejaria o bem ao filho e herdeiro de Spartacus. Ela não duvidava de que eles fossem capazes de matar a criança. Ariadne ficou um pouco aliviada ao ver que Atheas e Taxacis, bem firmes, estavam logo atrás dos gauleses. — Vieram ver Maron?
— Viemos — respondeu Castus, sorrindo.
Ele se aproximou, e Ariadne precisou se forçar a permanecer parada. Castus olhou para o bebê.
— Ele é bonito. Que cresça saudável e forte.
— Assim como o pai — acrescentou Gannicus, com sinceridade. — E que os deuses cuidem dele.
— Obrigada — agradeceu Ariadne, ainda incomodada.
Castus começou a falar, mas Gannicus interveio.
— Não devemos ficar aqui. Ela está cansada.
— Foi bom vocês terem vindo. — Apesar da aparente boa vontade deles, Ariadne olhou para os dois com muita suspeita. Desde a discussão sobre a direção que o exército deveria tomar, ela evitara conversar com eles. Até onde sabia, eles tinham traído Spartacus. Não eram confiáveis. Apesar disso, apesar de as relações terem se tornado mais difíceis, Spartacus continuara a falar com eles. “Porque tenho que falar”, dissera-lhe várias vezes. “Caso contrário, a cisão virá antes do que espero.” “Quero saber agora.” Ela havia ouvido os boatos sobre a tentativa deles em fazer com que os soldados os seguissem. Deixou a cautela de lado. Eles não a atacariam nem fariam mal ao bebê, não com os citas atrás deles.
— Quando vocês partirão?
Castus corou.
— Já estamos indo.
— Não foi isso o que ela perguntou — observou Gannicus, estreitando os olhos. — Foi?
— Não.
— O que faz você ter tanta certeza de que partiremos? — questionou Castus.
— Até um cego viu como vocês ficaram irados quando Spartacus disse aos soldados que ele os guiaria para o sul de novo. Além disso, vocês disseram a ele que partiriam quando fosse o momento certo.
— Posso ter mudado de ideia — retrucou ele com um sorriso tranquilo.
— Mas não mudou.
Castus não negou, mas também não respondeu.
Ariadne se virou para Gannicus.
— Sei que vocês se separarão. Decidiram quando?
Gannicus se calou.
Ariadne se sentiu segura para se mostrar mais irritada.
— E então?
— Não decidi — admitiu Gannicus. — Veremos como ficam as coisas quando acamparmos perto de Thurii.
— Mas vocês vão embora?
— Sim. — Ele a encarou. — Spartacus é um grande líder, mas um homem não pode seguir outro durante toda a vida.
— Obrigada pela honestidade.
Ele sorriu, e ela lembrou por que sempre preferia ele ao instável Castus. Contudo, ela não confiava em nenhum dos dois. Sem a presença dos citas, ela teria se assustado.
— Quando pretendia me contar isso? — O tom de Castus era acusador.
— Na hora certa.
— O melhor seria unir forças. Andarmos juntos.
— Sim. Mas não vamos discutir isso aqui, está bem? — Gannicus olhou para Ariadne, sério. — Desejo que as bênçãos dos deuses recaiam sobre você e seu filho.
Ele estendeu o braço e abraçou Castus. Ainda resmungando, o gaulês de cabelo ruivo se deixou levar.
Ariadne observou os dois se afastarem. “Eles provavelmente partirão na primavera. Depois que o clima ruim passar.” Pensar nisso lhe deu alívio e um pouco de tristeza. Depois da incerteza, era melhor saber. Quando contasse a Spartacus, ele poderia fazer planos, cuidar da lealdade dos soldados, procurar ainda mais recrutas. Entretanto, eles ainda precisavam de um lugar para onde ir. Thurii ficava longe de Roma, mas não era uma fortaleza impenetrável ou inacessível. Para chegar a ela, os romanos só tinham que atravessar a Via Annia. “Onde seria melhor?”
Maron gemeu, distraindo-a. Ariadne entrou na barraca, pensativa. Tinha que haver algum lugar para onde eles pudessem ir. Ela pediria ao deus por orientação. Dionísio já a havia ajudado. Talvez ele viesse ao seu socorro de novo.
— Seu sem-vergonha! — disse Castus quando eles se distanciaram da multidão. — Você disse a ela quando partiria antes de me contar?
— Eu disse que veria como as coisas ficariam quando chegássemos a Thurii. Não disse quando eu partiria.
— Nem conversamos sobre isso! — rebateu Castus.
— Decidimos que não tomaríamos decisões definitivas até lá. Ou seja, isso quer dizer que partiríamos depois disso. — Gannicus não conteve o sarcasmo em sua voz.
— Não venha com mentiras, merda! — gritou Castus. — Pensei que fôssemos parceiros.
— E somos.
— Bem, se quiser a mim e a meus soldados como aliados, e eu aposto minha bola esquerda que tenho mais homens do que você... — Nesse momento, Castus encarou Gannicus — ... é melhor compartilhar mais informações no futuro.
Gannicus já tinha se cansado de Castus e de suas eternas ameaças. Ele empurrou o ruivo pelo peito.
— Vá se danar! Já disse que, se quiser ir sozinho, pode partir quando quiser. Vamos ver até onde você vai com apenas cinco ou seis mil homens! Será massacrado pela primeira legião romana que encontrar.
— É mesmo? — Castus empunhou a espada.
— Então, quer lutar comigo agora? — perguntou Gannicus, pegando sua arma.
— Não, quero cortar você em pedacinhos.
Gannicus sentiu a própria ira aumentar. Ele a controlou com esforço. Não temia enfrentar Castus, mas seria um esforço sem propósito que faria com que um deles ou os dois acabassem feridos ou mortos. Ele voltou a embainhar a espada.
— Que tolice.
Castus avançou.
— Não tem nada de tolo em arrancar sua cabeça inútil do pescoço — gritou, afastando o braço direito. — Mande meus cumprimentos a Hades.
— Você sabe que não sou covarde, Castus. Sabe também que sou tão bom quanto você com a espada. Antes de me matar, pense no que está fazendo. Você se lembra de nosso plano de controlar o exército todo? De ser como Brennus, o antigo líder?
Foi como se alguém tivesse jogado Castus numa piscina de água gelada. Seus olhos voltaram ao normal.
— Você ainda quer isso? — continuou Gannicus.
— Claro.
— Então, guarde sua maldita espada. Vamos conversar sobre como tornar realidade nossa ideia em vez de nos matarmos como dois guerreiros embriagados que brigam por uma mulher.
Abaixando o braço, Castus se inclinou para a frente.
— Podemos começar voltando para matar aquela cadela e o bebê dela também.
— Faria isso sem pestanejar, mas nunca nos aproximaríamos o suficiente. Não viu como os citas estavam de olho? Mesmo que conseguíssemos, eles nos matariam quando descobrissem.
Castus pareceu desapontado.
— Melhor fazer algo assim à noite, acredito. Em segredo.
— Vamos nos concentrar em outro objetivo. — Gannicus olhou ao redor. — Matar Spartacus. Quando ele sair de cena, será muito mais fácil lidar com o exército. Ariadne e o pestinha poderão ser despachados também.
— Egbeo e Pulcher também terão que ser mortos.
— Concordo.
— O que você tem em mente? Armar uma emboscada quando ele voltar para cá?
Gannicus piscou.
O sorriso de resposta de Castus foi maligno.
— Onde acha que eles o encontrarão?
— É um chute, eu sei, mas diria que ele e Carbo percorrerão o mesmo caminho de quando foram para Roma. Diretamente pela Via Annia.
— Você tem razão. Eles só precisam encontrar um bom local para espiar na estrada a alguma distância daqui. Podem fazer o trabalho à noite. — O sorriso de Castus desapareceu. — Não podemos mandar os gauleses, pois alguém pode vê-los e nos dedurar.
— Tenho um grupo de mestiços em mente. Você sabe como eles são.
Castus assentiu. Na população, era comum que escravos de diferentes origens tivessem filhos. Milhares dos soldados de Spartacus eram assim. Tais homens não tinham lealdade a nenhuma raça, como os gauleses, os trácios e os alemães tinham.
— São escravos, na maioria ex-pastores e coisas do tipo. Eles se reportam a mim, não a Spartacus, todos cortariam o pescoço da própria mãe em troca de um saco de dinheiro.
A suspeita tomou os olhos de Castus.
— Você não pode mandar só seus homens. Não para algo tão importante.
— Mande alguns dos seus também — retrucou Gannicus, erguendo as mãos. — Mas veja se eles são capazes de realizar a tarefa.
— Se cada um de nós escolher cinco, teremos um número suficiente. Nem mesmo Spartacus consegue matar dez homens.
— Ele não está sozinho, lembra?
— Você não pode estar preocupado com aquele rato de esgoto, o Carbo.
— Preocupado? Não. Mas ele sabe se virar numa luta. — Gannicus respirou fundo. — Dez homens devem bastar.
— É melhor que eles partam hoje à noite. Pelos deuses, como eu gostaria de ir pessoalmente. — Castus encarou Gannicus. — Para me assegurar de que o trabalho será bem-feito.
— Não.
— Por que não? Spartacus não contará nada depois. — Ele riu. — Nem o outro idiota.
— Aquele trácio tem mais vidas do que um gato. Pode ser que se salve. Imagine se ele escapar e vir você. Qual é a primeira coisa que ele faria?
— Certo, entendi. — Castus amarrou a cara. — Perderíamos qualquer chance de unir o exército sob nosso comando.
— Isso mesmo. Mas se enviarmos homens de confiança, que não sejam gauleses, haverá menos indícios que levem a nós se algo der errado. E, ainda que não dê certo, vamos encontrar outra oportunidade — explicou Gannicus. — Até mesmo o gato mais arisco acaba sem vidas, certo?
Na manhã seguinte, Carbo e Spartacus acordaram cedo. O cozinheiro de Varus preparou um café da manhã farto para os três, com pão, mel, castanhas e queijo. O restante dos escravos domésticos — dez ou mais — se reuniu na porta e nas janelas da cozinha e observou Spartacus com surpresa. Com pena deles, o trácio não disse nada. Todos pediram para ir com ele quando partisse, mas ele tivera que recusar. Precisava de escravos do campo e pastores fortes, homens acostumados às atividades ao ar livre e, se possível, à caça. Então, os escravos frustrados quiseram atacar Varus, o que ele também tivera que proibir.
— Se fizerem isso, vão acabar mortos — alertou ele.
Não era incomum que as autoridades executassem todos os escravos de uma casa cujo dono havia sido assassinado. Pela própria segurança dele e também para que não tentasse fugir, Varus, juntamente com seu servo e o porteiro, tinha sido trancado em uma sala para passar a noite.
Spartacus decidira prender os escravos da casa antes de sua partida. Assim, Varus não teria motivos para puni-los nem para causar alarde. O que ele ainda não tinha decidido era a melhor maneira de sair de Roma. Ao amanhecer, mandou Tulla espiar os portões mais próximos. Para alívio de Carbo e diversão de Spartacus — este acreditava que a garota cumpriria sua promessa —, ela voltou logo depois. Disse que todas as entradas estavam sendo muito vigiadas. Muitos dos que queriam deixar a cidade eram questionados. “Não é surpresa alguma”, pensou o trácio.
— Devemos nos separar — disse ele quando se sentaram no quintal, ouvindo as reclamações murmuradas da prisão de Varus. — Os homens procurarão dois homens, não um.
— E se você for pego? — perguntou Carbo.
— Se eu for pego, os deuses decidirão meu destino. — Ele deu de ombros. — É por isso que estou dando o ouro a você. Se eu for pego, você deve encontrar o exército. Assim que o bebê estiver forte o bastante para viajar, leve Ariadne para longe, como já combinamos. Os citas irão com você.
A lembrança da manhã anterior à batalha contra Lentulus e do que Spartacus lhe pedira estava gravada na mente de Carbo. Ele assentiu com tristeza, sentindo ainda mais a perda dos pais.
— E quanto a Navio? Egbeo? Pulcher? E o restante dos homens?
— Eles podem escolher seu destino. Não ficarei por aqui por muito tempo, mas, independentemente do que acontecer comigo, minha família ficará segura.
— Claro. Se esse dia chegar, e rezo aos deuses que não chegue, farei tudo o que estiver ao meu alcance para salvá-los.
Spartacus apertou o ombro dele.
— Sei que fará isso.
— E se eu for capturado? — perguntou Carbo para enfrentar seu medo. “Pelo menos, não sentiria mais a dor.”
— Seus companheiros e eu nunca nos esqueceremos de você. Faremos ofertas aos deuses e um banquete em sua homenagem. Nos próximos dois meses, devo enviar um homem para conferir o progresso do túmulo de seus pais. Se Varus não cumprir o combinado, ele perderá alguns dedos e será avisado de que, da próxima vez, serão as mãos. Isso o apressará.
Carbo sentiu um nó na garganta.
— Obrigado.
“Não chegaremos a esse ponto”, disse ele a si mesmo.
— Já chega de falar sobre coisas tristes — disse Spartacus. — Desde quando os soldados são capazes de descobrir disfarces? Nós dois passaremos. Se você cortar uma das melhores togas de Varus, pode agir como um jovem rico e nobre.
— Muito bem. O que você fará?
— Escolherei a opção mais simples.
Spartacus deixou o olhar vago e o lábio inferior mole. Um pouco de saliva escorreu por seu queixo. Ele emitiu um som que parecia o urro de um animal estressado e um homem com dor. Andou pelo quintal, curvando as costas e arrastando uma das pernas, sempre gemendo.
Carbo ficou surpreso. Tulla parecia assustada.
Spartacus se endireitou de súbito.
— Está convencido? — perguntou com um sorriso.
Os dois assentiram com a cabeça.
— Certo. Está tudo ajeitado, então. — Ele olhou para Tulla. — Aposto que as horas mais movimentadas são as primeiras do dia e a última antes do fechamento do portão.
— Isso mesmo.
— Não há motivo para esperarmos até o pôr do sol. Queremos nos distanciar o máximo possível da cidade. Vamos agora — disse Spartacus. Por dentro, ele não estava tão certo. Crassus não pouparia esforços para encontrá-lo. O político acharia que, se o trácio fosse capturado, a rebelião logo terminaria. “E teria razão.” Castus e Gannicus não eram generais. Navio era bom em estratégia, contudo, por ser romano, muitos não confiavam nele. Egbeo e Pulcher eram corajosos e capazes, mas não tinham o carisma necessário para manter unidas dezenas de milhares de homens. “Preciso ir. Grande Cavaleiro, cuide de mim. Dionísio, ajude-me a voltar para minha esposa, sua profetiza.” As orações ajudaram. Spartacus se sentiu calmo de novo.
— Tulla, você vai nos deixar antes do portão. Vou pagar agora. — Ele enfiou a mão na bolsa que levava pendurada no pescoço.
A garota ficou surpresa.
— Agora? Mas posso trair vocês!
— Acho que você não vai fazer isso, vai?
— Não.
— Eu sabia. Você é uma boa menina. — “Poupá-la foi a coisa certa a fazer”, pensou Spartacus.
O queixo da garota tremeu.
— Não quero que vocês partam.
— Sei que não quer, mas temos que ir — disse Spartacus num tom gentil. — Meu exército está me esperando. — “E minha esposa e meu filho.”
— Levem-me com vocês!
— Não posso.
— Por quê?
— Você não sabe lutar.
— Posso ser uma serva! Vou limpar e polir seu equipamento. Deve haver algo que eu possa fazer.
— Tulla, você tem um coração forte, mas é jovem demais. — Spartacus se abaixou para ficar da altura da menina. — Mas tem algo que pode fazer por mim aqui.
— É mesmo?
— Sim, quero que você fique perto da Curia, da basílica e das casas de banho. Você sabe, os locais onde os senadores costumam se reunir. Mantenha os ouvidos atentos e a boca fechada. Veja o que pode descobrir. Qualquer informação sobre Crassus ou suas legiões pode ser muito útil.
Os olhos de Tulla brilharam.
— Posso fazer isso!
— Conto com você. — Spartacus tocou o braço dela. — Enviarei mensagens a você de Campos Elísios, pedindo notícias todos os meses. Você pode contar tudo o que souber ao mensageiro.
— Pode deixar!
Carbo admirou a habilidade de Spartacus para fazer as pessoas confiarem nele. No dia anterior, ele quase havia matado a menina. Agora, ela comia na palma de sua mão. Não só isso: ele conseguiu restaurar a autoestima de Tulla. A partir de então, ela tinha um propósito. Foi isso que ele tinha feito também com Carbo, pedindo-o para jurar proteger Ariadne. Nas profundezas de seu pesar, saber disso dava forças ao romano.
Spartacus assentiu de forma encorajadora aos dois.
— Vamos andando.
A coragem de Carbo já havia desaparecido quando ele chegou a menos de trinta passos do portão. O trácio decidira ir antes dele. Os dois tinham combinado de se encontrar a quase um quilômetro depois de saírem da cidade, ao lado de um túmulo do qual os dois se lembravam. Carbo e Tulla — que ainda o acompanhava — viram quando Spartacus entrou na fila que tomava a rua em direção ao portão. Os dois sorriram ao ouvir as exclamações de nojo e ao ver as pessoas se afastando dele. A ideia de Spartacus de despejar sobre o corpo uma bacia de urina fora excelente. Os guardas, com o reforço de dez legionários com expressão séria, reclamaram assim que sentiram o cheiro. Quando Spartacus se chacoalhou diante deles, pingando, gemendo e coberto de urina, os guardas o expulsaram da cidade com os cabos de suas armas.
“Foi muito fácil”, pensou Carbo com inveja. “Grande Júpiter, que seja assim comigo também.” Sua oração não diminuiu sua preocupação nem o impulsionou adiante. Contudo, não poderia permanecer muito tempo ali, pois chamaria atenção. Jovens abastados não ficavam em esquinas. Algumas pessoas já o observavam, desconfiadas.
Depois que o trácio deixou a cidade, Carbo vira um homem — um estrangeiro, talvez grego ou dácio —, acusado de ser Spartacus. Protestando sua inocência num latim sofrível, o homem tinha sido derrubado ao chão com vários golpes, como uma galinha sendo depenada para a sopa, e foi levado para ser interrogado. Depois disso, Carbo esperava que a vigilância dos guardas relaxasse um pouco, mas não foi o que aconteceu. Os soldados continuaram questionando todos os homens com idade para serem guerreiros e rasgando as caixas das carroças cheias de mercadorias.
“Deuses do céu, encarar a morte na batalha é mais fácil do que passar por isso.”
— Boa sorte! — sussurrou Tulla de onde estava, encostada em um muro a dez passos dele.
Carbo assentiu, sério, e caminhou em direção à fila. Forçou-se a respirar fundo pelo nariz, contando os batimentos cardíacos ao soltar o ar. Depois de fazer isso várias vezes, sentiu-se mais calmo. Uma carroça puxada por dois touros surgiu atrás dele. Carbo se virou. Um dos animais o cheirou e então tentou lamber seu braço. Ele costumava gostar de quando o gado fazia isso, porém, naquele momento, retraiu-se para se afastar da língua comprida e lançou um olhar de raiva ao condutor, que o encarou.
— É o que touros fazem, certo? Não vai machucá-lo. Qualquer um que já tenha lidado com criações sabe disso. Maldita gente da cidade!
Carbo bufou e se virou.
E esperou por um tempo que mais parecia uma eternidade.
Quando se aproximou, ficou atento para ouvir o que os soldados diziam. A maioria das interpelações era curta.
— Nome?
— Julius Clodianus.
— Ocupação?
— Pedreiro.
— Aonde vai?
— A um novo túmulo a três quilômetros daqui.
O guarda riu.
— Não é o seu, certo?
— Não — respondeu o pedreiro, sério. — É de um advogado rico. Ele pediu que o mausoléu da família fosse ampliado antes de seu enterro. Novas pedras, chão de mármore, estátuas gregas caras; ele quer essas coisas. Dezenas de homens têm trabalhado na obra, já faz uma semana.
— Tentando levar tudo com ele, não é? Não vai dar certo. — O guarda fez um meneio de cabeça. — Pode ir.
O próximo homem era um marinheiro de licença que visitaria parentes do interior. Teve a passagem liberada com votos de boa sorte. A mulher seguinte era moradora de um vilarejo que estivera em Roma para pedir ajuda a Minerva no templo do monte Capitolino. Ela disse aos guardas que pedia que as bênçãos da deusa os cobrissem enquanto acenava e passava. Depois disso só faltavam duas pessoas antes dele. O suor escorria pelas costas de Carbo. Sua pele estava arrepiada. A toga de Varus tinha sido cortada, porém a lã ainda era pesada e muito quente para aquela época do ano. Ele deu um passo à frente e ouviu perguntas e respostas se misturarem.
— Próximo!
Carbo piscou. O homem a sua frente já estava sob o arco do portão.
— Vamos, jovem! Não temos o dia todo.
O segundo soldado riu.
— Sonhando com sua prostituta preferida?
A raiva de Carbo fez com que ele corasse ainda mais, e os legionários, achando que ele estava envergonhado, riram.
— O rapaz deveria estar fazendo isso mesmo — caçoou o primeiro homem. Ele se virou para Carbo. — Nome?
— Paullus Carbo — respondeu ele com orgulho. Pensara em mentir, mas não tinha motivo para isso.
O soldado percebeu seu sotaque.
— Você não é de Roma, é?
— Não. Sou de Cápua.
— Está aqui a trabalho ou a prazer? — Ele piscou para os companheiros.
Carbo franziu o cenho.
— Trabalho. — “Se você soubesse o que vim fazer aqui...” — Para meu pai.
— Está voltando para Cápua?
— Sim.
— A pé? Pessoas como você costumam usar animais ou uma liteira.
Felizmente, Carbo tinha pensado na resposta a essa pergunta. Abaixou a cabeça.
— Meu cavalo não está mais comigo.
— Foi roubado nos estábulos da estalagem, não foi?
— Não. Eu o apostei.
— Pelas tetas de Fortuna! E perdeu?
Mais risadas.
— Isso mesmo.
— Então, agora precisa voltar andando para Cápua?
Carbo assentiu, fazendo cara de tristeza, como a de um garoto.
O legionário fez uma careta.
— A distância é grande.
— E não sabemos? — acrescentou seu companheiro, rindo. — Temos que percorrer distâncias assim enquanto carregamos metade de nosso peso em equipamentos.
— Posso ir? — perguntou Carbo, ressentido.
— É, sim, pode ir — respondeu o soldado. — Tenha cuidado. Há muitos ladrões até Cápua.
— Se tiver muito azar, pode até encontrar Spartacus — disse o segundo homem. — Isto é, se ele...
— Cale-se! — ordenou o primeiro legionário.
Seu companheiro se virou, franzindo o cenho.
— Vá — mandou o legionário.
Agradecendo, Carbo saiu pelo portão. As palavras do soldado o fizeram recapitular o ataque a Crassus. Caepio havia gritado algo. O que tinha sido? “São eles!” Frustrado, Carbo não conseguiu se lembrar das palavras exatas. Então, se lembrou de outro fato estranho. Quando o guarda chegara a Campos Elísios, um homem havia saído da taverna e assentido ao oficial responsável. Teria sido algo além de uma conversa casual? Carbo não sabia ao certo. No entanto, ao ligar os dois acontecimentos com o comentário do soldado no portão, ficou muito desconfiado. Seria possível que Crassus soubesse da ida de Spartacus a Roma? Ele apertou o passo. Precisava contar logo tudo ao seu líder.
Havia um espião entre seus homens.
Não demorou muito para que Carbo chegasse ao túmulo. Encontrou Spartacus sentado à sombra de um cipreste logo ao lado.
O trácio ergueu a mão em cumprimento.
— Você parece estar com muito calor.
— Essa maldita toga — disse Carbo, secando a testa com as costas da mão. — Está muito quente para usar essa roupa.
— Mas ela o ajudou a sair de Roma, e pelo menos você não teve que tomar banho de urina.
Carbo sorriu.
— Verdade.
— Tulla ainda estava lá quando você partiu?
— Sim.
— Você fez bem quando a contratou. — Ele deu um tapinha no braço de Carbo.
Este engoliu em seco, lembrando-se da ameaça do seu líder, dizendo que o mataria se Tulla os traísse.
— Obrigado.
Spartacus se levantou.
— Vamos andar logo. Eu me lembro de um poço mais à frente na estrada. Poderemos nos lavar nele.
— Antes, tem algo que você precisa saber.
Spartacus estreitou os olhos.
— O que é? Conte-me conforme formos andando.
Rapidamente, Carbo lhe contou sobre suas suspeitas. Ao terminar, Spartacus se manteve calado por muito tempo. Carbo o observava com nervosismo, questionando-se se o trácio o considerava maluco.
— Interessante — disse Spartacus.
Carbo se sentiu aliviado. Seu líder acreditava nele.
— Devemos ter sido seguidos ao sair do acampamento. Poucas pessoas sabiam de nossa intenção, e não haveria tempo para enviar uma mensagem a Roma antes de nossa partida.
Carbo sentiu a boca seca ao pensar em outra possibilidade.
— Você acha que Castus ou Gannicus podem ter feito isso?
Spartacus franziu o cenho.
— Não tem como Gannicus nos trair desse jeito. Duvido que até Castus pudesse fazer isso. Ele me odeia e não choraria minha morte, mas ele odeia Roma tanto quanto eu.
— Quem foi então?
— Poderia ser qualquer um, Carbo. Em um exército de sessenta mil homens, nem todos estão felizes. Isso sem contar as mulheres e os agregados.
— Sim, mas trair você?
Spartacus deu um tapinha nas costas dele.
— Nem todos são leais como você.
— Bem, deveriam ser — murmurou Carbo, corando. — Temos que descobrir quem é.
— Isso seria como tentar encontrar uma agulha em um palheiro. — Spartacus deu de ombros. — Atheas e Taxacis me darão apoio. Assim como você. — “Só mais um inimigo para somar aos que já tenho.” Contudo, ele não precisava se preocupar com a morte durante alguns dias. A viagem ao sul deveria ser fácil; seria melhor que aproveitassem ao máximo. — Onde fica aquele poço? Não posso entrar no acampamento fedendo a mijo. Ninguém me respeitaria.
A tensão de Carbo diminuiu, e ele riu.
— Por causa do medo que senti ao passar pelo portão e do calor que sofri dentro dessa toga maldita, perdi meio rio Tibre em suor.
Spartacus se abaixou e respirou.
— Só consigo sentir cheiro de urina.
— Você é quem fedendo — acusou Carbo, rindo.
Ele nunca tinha visto Spartacus tão relaxado.
— Então, quanto antes chegarmos, melhor será, não é?
Carbo começou a andar com a energia renovada. Além do desejo de ver o túmulo de seus pais um dia, ele não tinha motivos para voltar à capital nem a Cápua, onde crescera. Estava com Spartacus. Sempre fora leal ao trácio, porém descobrir que os pais estavam mortos fortaleceu ainda mais o elo entre os dois. Também fez com que ele percebesse a importância dos companheiros em sua vida. Homens como Navio e Atheas, e até mesmo Arnax e Publipor, eram sua família agora. Pensar nisso tornava a tristeza mais fácil de suportar.
Alertado pelo servo, Crassus se virou no semicírculo de homens ao seu redor.
— Ah, Caepio! Bem-vindo! — cumprimentou ele, animado.
Fez um gesto para o centurião veterano, que estava na porta do tablino, esperando ser chamado.
Caepio entrou orgulhoso. O raio de sol que penetrava através de um quadrado no centro do teto reluziu nas phaleras de seu peito. Ele parou diante de Crassus e o saudou.
— Vim assim que recebi sua mensagem, senhor.
— Ótimo. Tudo bem desde ontem?
— Tudo bem. Obrigado, senhor. Como sabe, não me feri. Só lamento não ter conseguido matar Spartacus.
— Você fez um bom trabalho ao neutralizar o aliado dele. Se o trácio estivesse acompanhado por dois homens, as coisas poderiam ter terminado de outro jeito. Para mim, pelo menos!
— Graças aos deuses o senhor não foi ferido, mas eu estaria ainda mais feliz se tivesse fincado minha lâmina na barriga dele.
Crassus esboçou um sorriso.
— Veem a coragem desse homem? Ele é a virtude romana em pessoa. É assim que todos os soldados deveriam tentar ser.
Ouviu-se um murmúrio de homens concordando.
— Caepio, conheça alguns dos legados que comandarão minhas legiões. Este é Gnaeus Tremelius Scofra. — Um homem alto e magro abaixou a cabeça em resposta ao cumprimento do centurião. — Lucius Mummius Achaicus. — Um oficial atarracado com uma expressão séria recebeu o cumprimento de Caepio. — Quintus Marcius Rufus. — Um homem baixo de cabelo preto arrepiado sorriu. — Caius Pomptinus. — “Este com certeza é um homem da cavalaria”, constatou Caepio. Tinha pernas mais tortas do que um macaco. — Lucius Quinctius. — Mais velho do que o resto, ele foi o único a fazer reverência ao centurião. “Um cidadão de origem comum, como eu”, concluiu Caepio. — E por último, mas com certeza não menos importante, Júlio Cesar, um dos meus tribunas — apresentou Crassus.
— É uma honra conhecer o senhor. — Caepio fez uma saudação pela sexta vez. Como todos, ele ouvira a história sobre a captura de César e de sua prisão em Pharmacussa. Ali estava um homem muito corajoso. — Pronto para crucificar alguns escravos, como fez com aqueles piratas, senhor?
— Mais do que pronto, centurião.
O sorriso de Caepio lembrou a Crassus um lobo encurralado. Fora uma boa decisão recrutar o veterano. Às vezes, ele se perguntava se o centurião o aprovava — afinal, ele não era um soldado de carreira —, mas não se importava muito com isso. Caepio vira como Crassus queria destruir Spartacus — o que, depois de sua experiência no munus, era exatamente o que o soldado queria.
— Agora que as apresentações foram feitas, vamos ao que interessa. Chamei vocês aqui para um conselho de guerra. Sei que não esperavam nenhuma tarefa além de montar suas unidades pelos próximos dois meses, porém os acontecimentos de ontem mudaram tudo. Spartacus não pode me atacar em Roma e sair impune. Devemos reagir depressa!
— Vamos pegá-los desprevenidos, é o que devemos fazer! — gritou Caepio, concordando.
— O que está sugerindo, senhor? — perguntou Scrofa. — Aumentarmos o número de tropas nos portões?
— Não — respondeu Crassus, como se falasse com uma criança. — A esperança de capturarmos Spartacus saindo da cidade era pequena. Podemos dizer, com segurança, que o filho da puta já está bem longe a essa hora. — Ele encarou Mummius, sério.
— Meus soldados interrogaram todos os homens que consideraram suspeitos, senhor. Mais de cem foram detidos.
Crassus olhou para Caepio, que balançou a cabeça.
— Nenhum era Spartacus.
— Não, senhor, mas...
— Calado, Mummius. Você falhou! Se tivesse agido mais depressa, poderíamos estar interrogando Spartacus agora, e não planejando nossa campanha contra ele. — Crassus sabia que estava sendo duro demais com Mummius. Contudo, o homem precisava saber quem estava no controle. Ele e os outros tinham que receber uma mensagem clara desde o início.
Mummius se calou.
— Como sabem, eu pretendia passar o outono e o inverno formando novas legiões, e armando e treinando os homens. Agora, preciso mudar de estratégia. Radicalmente.
— O número de voluntários tem sido excepcional, senhor — concordou Quinctius. — E as oficinas também têm entregado equipamentos aos montes.
— Assim espero. Estou pagando o dobro do preço de mercado por cada item a todos os ferreiros num raio de duzentos quilômetros daqui! — Crassus ergueu a mão, silenciando os risos que foram dados. — Minha intenção é que o exército esteja pronto para marchar em um mês.
— Um mês? — repetiu Quinctius.
— Mas os homens não estarão prontos, senhor — argumentou Scrofa. — O treinamento básico leva pelo menos oito semanas.
— Sei disso — respondeu Crassus, sério. — O solo do sul de Roma é plano. Os recrutas podem treinar todos os dias depois de terminarmos a marcha. — Ignorando o espanto de seus oficiais, Crassus prosseguiu: — Até agora, Roma tem sido humilhada por Spartacus. Isso tem que acabar! Sem dúvida, os escravos acham que terão alguns meses tranquilos enquanto preparamos nossas forças. Bem, isso não vai acontecer. Vamos levar a guerra até eles de uma vez. Certo, Caepio?
— Isso mesmo, senhor.
— Sei que milhares de veteranos ouviram seu chamado e vieram, senhor, e que temos o que sobrou das legiões dos cônsules, cerca de 14 mil homens. Entretanto, mais da metade do exército é formada por novos recrutas — observou Scrofa. — Não seria mais inteligente esperarmos até eles receberem o treinamento completo para então atacarmos Spartacus?
— Quem é o comandante aqui? — vociferou Crassus. — Eu tomo as malditas decisões, não você. Nem nenhum de vocês. Está claro?
— Sim, senhor — murmurou Scrofa.
— Partimos em quatro semanas. A marcha até Thurii leva mais de um mês. São oito semanas no total. Com veteranos como Caepio do nosso lado, acredito que será tempo suficiente para treinar os homens.
— É tempo suficiente para que meus soldados estejam prontos, senhor — declarou Mummius com entusiasmo.
— Acredito que sim! Uma vez que você e Rufus comandam cada um uma legião antes liderada por um dos cônsules, vocês têm o menor número de recrutas inexperientes.
Mummius corou. Rufus também pareceu envergonhado.
— Minhas tropas estarão preparadas, e que Júpiter me proteja — disse Scrofa.
Os outros oficiais concordaram.
Crassus analisou os rostos deles. A determinação parecia sincera. Era um começo.
— Muito bem.
— Qual é seu plano para quando encontrarmos Spartacus, senhor? — perguntou Scrofa.
— É muito simples. Devemos localizá-lo como faríamos com um porco selvagem em uma caçada. Preparamos nossas legiões. Atacamos os homens dele com catapultas. Avançamos e matamos muitos deles. E pronto.
Ele lhes lançou um olhar desafiador. Foi Scrofa, quem ele já considerara um dos mais corajosos, a falar primeiro.
— O senhor acha mesmo que será tão simples?
— Sim, Scrofa, acho. Chegou a hora de varrer Spartacus e seus lixos da Itália. Qual é a melhor maneira de fazer isso senão em uma batalha direta? Sempre foi assim com as legiões incríveis de Roma.
Ele encarou Caepio, que concordou.
— Mas os homens que lutaram contra Spartacus aqui, senhor, eles... — hesitou Mummius.
— Todos nós sabemos que eles já fugiram antes — retrucou Crassus num tom suave. — E, se isso acontecer de novo, eles serão punidos com tanta severidade que nenhum deles pensará em repetir o feito.
No silêncio que se fez, os únicos sons audíveis eram os das vozes dos escravos que cuidavam das plantas no quintal do centro.
Crassus encarou cada um.
— Estou falando de dizimação.
Quinctius abriu e fechou a boca como um peixe fora d’água.
— Dizimação, senhores. Compreendem?
— Sim, senhor — foi a resposta perplexa.
— Essa prática não é usada há gerações, senhor — observou Scrofa.
— Mais motivos para retomá-la — argumentou Crassus. — Mais alguém?
Ninguém além de Caepio e César olharam nos olhos dele.
— Excelente. — Era bom ver seus oficiais tão horrorizados, pensou Crassus. A raiva ainda corria por suas veias ao pensar em como Spartacus quase conseguira matá-lo. — Fui sincero com cada palavra dita. Farei o que for preciso para derrotar aquele trácio filho da puta. O que for preciso.
“Juro, grande Júpiter, que não descansarei enquanto ele — ou eu — não estiver morto.”