Spartacus: A Rebelião
Capítulo XIV
Agora Spartacus já estava cansado de ver a grande ilha. A Sicília tomava o horizonte do lado oeste; o traço mais proeminente era o promontório formado pelo ponto de união das costas norte e leste da ilha. Perto dele ficava Charybdis, o famoso redemoinho que sugava navios e suas tripulações para mortes terríveis. A ilha ficava perto o bastante para que eles vissem alguns dos casarões nos pontos mais altos acima da praia. Além deles, havia montanhas íngremes que desapareciam em um borrão roxo-azulado ao alcançarem o céu. Elas o fizeram lembrar da Trácia. Sentiu um gosto amargo na boca. Faltava menos de dois quilômetros até a Sicília, porém, depois de mais de dois meses de espera, essa distância parecia ser tão longe quanto o caminho para a lua. Até mesmo os navios mercantes que navegavam a centenas de passos da costa eram inalcançáveis.
A princípio, o tempo passara tranquilamente. Graças à defesa da infantaria que ele espalhou pela península e à cavalaria que mantinha a estrada principal livre, as legiões de Crassus não fizeram qualquer esforço para atravessar sua força. Eles se ocuparam construindo muralhas e fossos que prendiam as tropas de Spartacus no istmo que circundava em direção à Sicília. Ele não gostara disso, contudo, havia o consolo de saber que Carbo fora bem-sucedido em sua missão. O anúncio de que várias embarcações piratas chegariam em breve foi um enorme incentivo. Quando seus dois mil homens atravessassem o estreito e tomassem as embarcações de grãos, poderiam iniciar a evacuação de seu exército. Com a bênção dos deuses, Crassus não suspeitaria de nada e só descobriria o plano quando fosse tarde demais.
Saber que não estava na iminência de uma batalha havia diminuído um pouco a tensão do trácio. A vida continuava como tinha sido no ano anterior em Thurii. Houvera restrição aos movimentos da tropa e às notícias dos oficiais que vinham monitorando as forças romanas. Horas na companhia de seus senhores, cuidando para que os alimentos fossem divididos igualmente, e dos ferreiros, cuidando para que todas as casas e fazendas da região fossem saqueadas e delas tirado tudo que fosse útil. Alguns de seus homens ainda não estavam muito bem-armados. A produção de armas não podia parar. Ele não tinha mais ligações com Castus e Gannicus, que acamparam com seus seguidores um pouco distantes do grupo principal. Em essência, o exército já tinha se separado. Mas isso não importava. Crassus não sabia da ruptura, e quando chegassem à Sicília ela se tornaria abstrata. Spartacus tentou não pensar na dupla problemática. Já gastara tempo demais pensando neles. Então, concentrou-se em suas noites, a parte preferida de seus dias, passadas com Ariadne e Maron, que crescia depressa.
Também teve oportunidades de caminhar pela costa, procurando o melhor local para embarcar quando os navios piratas chegassem. Fez isso sozinho na primeira vez e conseguiu escapar dos citas. Sorriu. A bronca que Ariadne dera neles em seu retorno garantiu que aquilo nunca mais acontecesse. Apesar de Castus e Gannicus parecerem estar honrando o trato, ele não descartava a possibilidade de tentarem matá-lo de novo. E gostava da companhia dos citas tatuados. Parecia que eles eram velhos amigos, apesar de Spartacus os conhecer havia menos de dois anos. Eram discretos, seguindo-o de longe e, assim, dando a impressão de que ele estava sozinho. Enquanto caminhava, pensava em todos os desdobramentos várias vezes. Se as coisas na Sicília ocorressem como ele queria, conseguiria defender a ilha do ataque romano em vez de só esperar que enviassem uma força expedicionária contra ele.
No entanto, conforme os dias se transformaram em semanas, ficou cada vez mais difícil deixar de se preocupar. O outono já havia passado. O inverno tinha chegado. Os frutos dos arbustos que cobriam as montanhas desapareceram. As fazendas da região havia muito tinham sido despojadas de todos os alimentos. Spartacus começou a se questionar se o capitão pirata havia enganado Carbo, pegado o dinheiro e fugido, para nunca mais voltar. Mas seu plano parecia bem plausível. Só um tolo ou maluco recusaria cinquenta vezes aquela quantidade de moedas para realizar uma tarefa simples. Isso era o que parecia manter os ânimos das tropas. Ele olhou para o sul, procurando um barco nas ondas. Pela milésima vez, não viu nada. Um bando de gaivotas sobrevoou a região no vento frio, e os gritos agudos pareciam gozar dele. Sentiu-se contrariado. Onde, pelo Grande Cavaleiro, estava Heracleo? Quanto tempo se levava para achar algumas embarcações e dar a volta na ponta da Itália?
Ele pensou mais uma vez em subir o monte até a caverna sagrada diante de Charybdis, para fazer outra oferenda a Cila, o monstro de seis cabeças e quase cinco metros que guardava os estreitos. Não. Duas vezes bastavam. Se os deuses achassem que ele estava desesperado, poderiam se tornar ainda mais caprichosos do que já eram.
Seu estômago roncou, e o trácio se deu conta de que não comia desde o amanhecer. Dera a ordem para que as porções fossem reduzidas, mas sessenta mil homens ainda comiam uma quantidade muito grande de pão todos os dias. A menos que Heracleo aparecesse nas próximas duas semanas, os grãos acabariam. Então, eles teriam que derrubar as fortificações de Crassus. Não era algo que ele gostaria de ser obrigado a fazer.
Virou-se para observar a terra atrás de si. Como boa parte da costa da região, só havia uma área estreita à margem do mar. Em alguns pontos, parecia ter meio ou um quilômetro de largura; porém, em outros, era um pouco mais do que uma faixa de areia. A maior parte era formada por montes íngremes, com topos cobertos por faias que em geral ficavam rodeadas por nuvens acinzentadas. Com os citas logo atrás de si, ele percorrera os picos mais altos, com a missão de inspecionar as legiões em ação. O bloqueio dos romanos foi feito em uma das partes mais estreitas da extensão, a 15 quilômetros ao norte. Graças ao terreno vertiginoso, havia pouca necessidade de os soldados de Crassus erguerem defesas em outros pontos que não na costa. Subidas perigosamente íngremes com vegetação, picos e rios caudalosos significavam que o interior só era adequado para veados, carneiros selvagens e lobos, a quem pertencia aquele território. No topo de uma cadeia, Spartacus havia localizado um ponto adequado para se mover para o norte — entretanto, Crassus também o localizara e poupara esforços na construção das defesas dali. Elas eram impressionantes. Os escravos tinham trabalhado para construir uma barreira em forma de V, coberta com pedras e da altura de dois homens. Estacas afiadas estavam fincadas na superfície externa do muro, e um fosso com buracos a cercava. Catapultas também podiam ser vistas nas muralhas, e muitos legionários trabalhavam dia e noite. Só restara uma abordagem, um caminho estreito que forçaria os rebeldes à ponta do V, onde poderiam ser atacados dos dois lados.
Observando de longe, Spartacus se surpreendeu. Se eles tivessem que furar o bloqueio, a perda de soldados seria enorme. Mas seria uma perda menor do que no caso de um ataque frontal na planície. Sete legiões estavam reunidas no lado oeste da região, perto de seu exército, e duas guardavam a costa leste. Não havia motivos para marchar até ali, esperando pegar as defesas inimigas desprevenidas. Os muitos soldados de Crassus passariam as notícias adiante. Em qualquer lugar ao qual ele levasse seus soldados, pensou Spartacus com seriedade, os romanos estariam à sua espera. Menos no espinhaço. Uma única legião mantinha aquela seção estreita.
Tentando esquecer as imagens sangrentas que surgiam em sua mente, ele olhou para o mar. A alguma distância dali, um golfinho saltou da água. Foi seguido por outro, e mais outro. Em pouco tempo, Spartacus contou oito. Sorriu com a brincadeira deles, com o claro prazer que sentiam ao nadar juntos. “Eles são livres de verdade.”
A princípio, a embarcação que apareceu além de onde os golfinhos estavam não foi notada.
Quando a viu, o coração de Spartacus se acelerou. Será que os deuses tinham atendido suas preces?
A voz gutural de Taxacis rompeu o silêncio.
— Um navio!
— Estou vendo... — disse Spartacus, mantendo a voz calma.
— É... um mercante? — perguntou Atheas.
— Teremos que esperar e ver — respondeu Spartacus. Ele se agachou. Talvez fosse por causa dos golfinhos, mas ele sentia que algo bom estava para acontecer.
Eles esperaram por muito tempo. Ninguém disse nada, porém o silêncio entre eles era confortável. Havia muito a ser observado. Atraídas pelo mesmo cardume de peixes que os golfinhos, centenas de gaivotas sobrevoavam e mergulhavam acima das ondas. Aves bem-sucedidas voavam triunfantes com um peixe no bico e piavam indignadas para qualquer companheiro que tentasse roubá-lo. Por fim, a embarcação se aproximou o bastante para que eles discernissem sua forma. Spartacus observou o veículo comprido e predador com alegria indisfarçável.
— Se aquilo é um mercante, meu nome é Marcus Licinius Crassus!
Atheas estreitou os olhos para ele.
— Não. Você... feio... como sempre.
Taxacis riu.
— Não é grande o bastante para uma trirreme — ponderou Spartacus. — Deve ser uma birreme.
O barco se aproximou da margem. Cada vez mais animados, eles esperaram até que ela ficasse paralela à posição deles. Como Spartacus supunha, havia dois conjuntos de remos, um acima do outro. O navio tinha uma proa pontuda e uma popa redonda, comum. Uma vela grande e retangular estava pendurada em um mastro central. O trácio contou por alto cerca de trinta a quarenta remadores de cada lado. Outros homens surgiram nas laterais. No entanto, o que chamou a atenção do trácio mais do que a tripulação foram as armas vistas ali.
— São catapultas no deque! — gritou, pulando. — Aqui! Aqui!
Os citas o imitaram e, no minuto seguinte, ficou claro que tinham sido vistos. Um comando aos gritos fez o barco parar. Os remos foram guardados e uma âncora foi jogada. Vários homens entraram no barquinho acoplado à embarcação.
Spartacus olhou para Atheas, que já levava os dedos à espada.
— Vamos com calma. Não queremos assustá-los. Você também, Taxacis.
Este assentiu, mas Atheas fingiu estar magoado, o que o deixou com uma expressão ainda mais séria.
— Eu... sempre calmo!
Pela primeira vez em semanas, Spartacus riu.
O barco a remo não demorou muito para chegar à praia. Assim que alcançou a parte rasa, três dos quatro homens armados em seu interior saltaram para fora. Liderados por um homem baixo de pele escura, eles chegaram à areia. Pararam a uma curta distância.
— Bom ver vocês — cumprimentou Spartacus de modo amigável.
— Bom ver vocês — respondeu o homem de pele escura com desconfiança. — Quem é você?
— Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta, meu amigo.
— Mas não é para mim que três catapultas estão miradas — retrucou o pirata.
Ele não se deu o trabalho de conferir.
— Como você perguntou primeiro, responderei. Sou Spartacus, o trácio. Você deve ter ouvido falar de mim.
O pirata perdeu um pouco a compostura.
— Como pode provar isso? — perguntou ele. — Metade dos salteadores da Itália diz o mesmo.
— Não preciso mostrar quem sou. Na baía ao lado, há um exército de sessenta mil homens. Pergunte a qualquer soldado quem é o líder deles.
O pirata mudou de atitude no mesmo instante.
— É uma honra conhecê-lo. Sou Heracleo. Seu mensageiro... Carbo, certo? Ele deve ter falado de mim. Nós nos encontramos perto de Croton há algum tempo.
— Ele falou. Você traria o máximo de barcos que conseguisse. Mas só trouxe um — observou Spartacus, sem demonstrar preocupação.
— Recrutar navios foi mais difícil do que pensei. O mercado em Delos está mais cheio do que nunca, e a maioria dos capitães está mais interessada em encontrar escravos para vender lá. Mas não tema, está tudo em ordem. — Heracleo abriu um sorriso. — Dois capitães que conheço atuam nessa região. Enviei uma mensagem a eles, organizando uma reunião ao norte daqui. Mais alguns dias e voltarei com pelo menos uma trirreme e outra birreme. Talvez até mais, se o recado for transmitido como espero.
Spartacus encarou Heracleo por vários segundos, porém o pirata não desviou o olhar. “O cachorro está dizendo a verdade ou então sabe mentir muito bem”, pensou.
— Eu esperava mais barcos, mas três devem bastar. Quantos soldados cabem em cada barco por vez?
— Para uma travessia como essa? — Heracleo fez um gesto distraído em direção à Sicília. — As birremes conseguem levar cinquenta, talvez sessenta por vez. As trirremes levam quase cem.
Spartacus fez um cálculo rápido de cabeça.
— Então, umas doze viagens devem bastar para levar meus homens para a Sicília.
— De fato, de fato — concordou Heracleo. Seus olhos eram gananciosos. — E o preço...
— Continua o mesmo — interrompeu Spartacus.
— Eu deveria receber 125 mil denários quando chegasse.
— Quando chegasse com barcos. Só vejo um.
Heracleo passou a língua pelos lábios.
— Os outros capitães podem precisar de uma prova de sua... boa-fé.
Spartacus não confiava no pirata, entretanto, o fato de ter aparecido era um bom indicador de que honraria sua parte no trato. O adiantamento seria uma maneira de agradá-lo. Gostando ou não, ele tinha muito mais a perder do que Heracleo.
— Você tem sido honesto até aqui. Como prova de minha estima, eu estaria disposto dar-lhe mais vinte mil denários. Que capitão não se sentiria motivado a ajudar se recebesse parte desse dinheiro?
Heracleo respirou fundo, ponderando. Depois, abriu um sorriso.
— Obrigado. Quando poderia...
— Espere aqui. Pedirei que alguns de meus homens tragam o dinheiro de uma vez. — Heracleo esfregou as mãos e Spartacus lhe lançou um olhar de alerta. — Se me enganar, caçarei você, ainda que demore o resto de meus dias. Entendeu?
— Voltarei. Você tem minha palavra. — Heracleo estendeu a mão.
Satisfeito, Spartacus aceitou o cumprimento.
— Dois dias até seu retorno?
— Dois, talvez três. Não mais do que isso.
— Ótimo. Estaremos esperando aqui.
Com Maron aos cuidados da parteira, Ariadne partiu pelo campo, levando o cesto com a cobra embaixo do braço. Nele ela também havia colocado com cuidado um jarro pequeno de vinho, um ramo de trigo e cachos de uva. Seis soldados — proteção dada a ela por Spartacus — a seguiam, mas sabiam muito bem que deveriam manter certa distância. Ela não sabia muito bem aonde ir, contudo, desde que ficasse sozinha, não se importava. Viver no meio de um exército enorme era como morar em uma cidade. Ariadne não gostava disso, nem ao menos havia se acostumado. As vilas na Trácia nas quais crescera não tinham mais do que alguns milhares de habitantes. Nem mesmo Kabyle, a única cidade, era grande. Ali, ela tinha rezado a seu deus no templo, mas também tinha acesso a locais selvagens. Lugares onde quase se sentia em outro mundo, onde a voz de Dionísio não era encoberta pelo som das pessoas.
Mais do que qualquer coisa, Ariadne queria orientação. Havia muito não sentia a certeza da vontade do deus em suas ações. O propósito de Spartacus parecia mais implacável do que nunca, mas isso não significava que ele não cometesse erros. Desde que ele retornara de Roma, os dois tinham feito as pazes, contudo havia uma leve distância entre eles que não existia antes. Spartacus pedia a opinião dela menos do que costumava fazer, e ela perguntava menos sobre seus planos.
Para ela, a raiz de tudo era o ressentimento que ainda sentia por ele ter escolhido seu exército, e não a ela e Maron. Ariadne sempre tentou negar isso, porém, como as ervas que crescem entre as pedras, esse sentimento sempre voltava. Ela queria orientação — não apenas sobre o melhor caminho a escolher para o exército, mas principalmente sobre o melhor para si. Deveria tentar resolver suas diferenças com Spartacus ou seria mais fácil fazer o impensável e se afastar?
Ariadne tropeçou quando sua sandália ficou presa sob uma pedra. Levantou o olhar e ficou surpresa ao perceber que havia deixado o acampamento para trás. Agora estava na base de uma ladeira rochosa que terminava na caverna de Cila. Uma imagem do monstro surgiu em sua mente, e ela estremeceu. Já tinha visto a entrada da caverna da praia. Era fácil demais imaginar cada um dos pescoços compridos de Cila esticando-se para pegar pescadores, marinheiros e golfinhos distraídos. Só um tolo olharia lá dentro para conferir se a lenda era verdadeira. Ariadne estava prestes a sair dali, mas parou. Não estava prestando atenção por onde andava. Seus pés a haviam levado até ali. Quem era ela para mudar de direção? Podia ter sido Dionísio quem a levara ali.
Ela começou a subir a ladeira.
— Aonde está indo? — disse um dos guardas, com a apreensão clara em sua voz.
— Aonde acha?
— Não é seguro ali. Por favor, volte.
Ariadne se divertiu.
— Está com medo?
— Nã-não, claro que não.
Ela observou os rostos deles. Ninguém estava feliz; a maioria parecia assustada.
— Fiquem aqui se quiserem.
— Mas Spartacus disse que você não deveria ficar sozinha.
— Sei o que ele disse. — Ariadne recomeçou a subida. Por causa do cesto pesado, ela se movimentava devagar.
O guarda tentou de novo:
— Ele não gostaria que você fosse à caverna.
— Sou dona de minhas vontades — retrucou Ariadne, sem olhar para trás. — Faço o que quero. Ninguém está impedindo você de me acompanhar.
Ela o ignorou. Depois de um tempo, olhou ao redor. Apenas um dos guardas, o homem com quem ela havia discutido, a seguia. O restante se reuniu na base do monte como carneiros assustados. Ela já esperava por isso. A superstição dominava as mentes da maioria dos homens. Se ela, uma sacerdotisa de Dionísio, tinha medo, os soldados comuns deveriam estar aterrorizados de entrar na caverna de um monstro lendário. Contraiu a mandíbula, forçou-se a respirar profundamente e a seguir em frente. A cada passo, se sentia mais confiante de que tinha de fazer aquilo.
A visão dos estreitos e da Sicília se tornava ainda mais impressionante conforme ela subia. A luz do sol reluzia na água, transformando-a em um espelho gigante, o que significava que ela não viu a birreme que se afastava da praia onde Spartacus estivera. Seus olhos observavam o sul, porém a névoa a impedia de ver o famoso vulcão, o monte Setna, cujas erupções eram atribuídas a um gigante assustador que vivia em seu interior. Em pouco tempo, disse a si mesma, ela teria a oportunidade de vê-lo com os próprios olhos.
Quando se deu conta, tinha chegado ao topo do promontório, que agora estava coberto pela vegetação rasteira. Havia uma trilha estreita. Ela não se surpreendeu quando o soldado solitário parou.
— Não vou me demorar — avisou-lhe, olhando para trás.
Ele assentiu com nervosismo.
O homem provavelmente estava preocupado perguntando-se o que Spartacus faria com ele depois, caso Cila não o comesse vivo. Contudo, não havia motivos para seu marido saber. Se ela não contasse, os guardas sem dúvida guardariam segredo.
Depois da vegetação o caminho fazia uma curva. Aqui e ali, ela viu marcas de sandálias na terra e se sensibilizou. Pessoas já tinham passado por ali antes, talvez para fazer oferendas em troca de uma travessia segura pelas águas. Tal suspeita foi confirmada quando ela chegou ao topo do penhasco e viu um altar improvisado feito de pedras. Jarros, lâmpadas votivas em miniaturas, moedas e pequenos bolos estavam dispostos diante dele. A alguns passos dali, um precipício estonteante dava vista para o mar azul profundo.
Ariadne tomou o cuidado de não se aproximar demais — uma rajada de vento poderia derrubá-la. Havia uma trilha perigosa e estreita que levava até a caverna em si, mas ela não pretendia descer até lá. Seria ir longe demais. Seria provocar os deuses, como se já não tivesse feito isso no passado. Não, onde estava era o local certo para procurar orientação.
Colocando o cesto no chão, ela se ajoelhou diante do templo. Primeiro, rezou para acalmar a criatura dona daquele território: “Grande Cila, peço seu perdão por me aproximar de seu lar. Faço isso com reverência e grande respeito.” Em seguida, abriu o cesto. De uma vez, a serpente ergueu a cabeça. Ariadne conversou com o animal, que lhe permitiu pegar o jarro, o trigo e as uvas. Ariadne estava tão ávida em apresentar os presentes que não fechou a tampa do cesto.
— Cila, ofereço a você vinho em reconhecimento de seu poder e de seu direito de caçar aqueles que passam desse limite. — Retirando a tampa, ela despejou a bebida no chão. O líquido vermelho molhou a terra, deixando uma mancha. — Aceite essa libação como um sinal de minha veneração. Também espero que não fique irado por eu falar com um deus aqui. — Abaixando o jarro, Ariadne fechou os olhos e esperou. Seus ouvidos foram tomados pelo assovio do vento, o grito ocasional de uma gaivota e, bem mais abaixo, as ondas se quebrando nas pedras na base do penhasco.
Minutos se passaram e não houve resposta. Nenhum monstro surgira para devorá-la; o chão não se abrira sob seus pés. O vinho fora aceito, concluiu. Ela esperava que isso também significasse que Cila não se opunha que ela pedisse ajuda a Dionísio em seu território. Abriu os olhos. Segurando o trigo numa mão e as uvas na outra, olhou para o céu.
— Dionísio, sempre serei sua serva humilde, mesmo quando não parecer. Ultimamente, não tenho passado muito tempo honrando o senhor. O fato de ter dado à luz não é desculpa. Imploro sua compreensão e seu perdão. Trago símbolos de minha devoção, objetos que sei que o senhor gosta. — Com muito cuidado, ela colocou o trigo e as uvas no chão.
Mais um silêncio respeitoso; nenhuma resposta.
Acreditando ser um sinal de que Dionísio estava generoso, Ariadne pegou o jarro pela segunda vez.
— Trago um pouco do vinho mais antigo. Aceite-o como prova de meu compromisso com o senhor.
Ela fechou os olhos e esperou por um sinal. Qualquer coisa que a ajudasse a decidir o que fazer. Deveria ir à Sicília com Spartacus? “Como se esse plano fosse dar certo”, pensou ela, amargurada. Desde o começo temeu o plano de recrutar piratas; porém, conforme o tempo foi passando sem nenhum sinal de uma embarcação, as dúvidas de Ariadne se intensificaram. Para sair daquele lugar, eles teriam que invadir os fortes de Crassus. E depois? Mais uma vez, ela se lembrou da estrada pontuada por cruzes. Seria esse o fim que aguardava Spartacus? Ela rezou para que não, mas a imagem assustadora não a abandonava. Perguntou-se se não seria melhor partir agora, antes que o mesmo ou coisa pior acontecesse a ela e a Maron. Os romanos não seriam misericordiosos com a esposa e o filho de Spartacus. Contudo, fugir seria trair seu marido. A culpa a dominava.
Tarde demais, ouviu um movimento atrás de si e tentou se levantar.
Um golpe forte em sua nuca a fez cair. Bateu forte no chão, com a testa chocando-se contra uma pedra da base do altar. Sua visão escureceu, e ela se esforçou para respirar. Alguém agarrou seu cabelo e a colocou de pé. Quando ela abriu a boca para pedir ajuda, uma mão a tampou.
— Tente gritar, sua puta, e jogo você do precipício — ameaçou o agressor. — Entendeu?
Aterrorizada e furiosa, Ariadne assentiu. “Por Hades, quem é?”
— Ninguém ouviria seu grito, de qualquer modo. Seu guarda é um homem morto. — A mão foi retirada, e ela foi jogada no chão. Viu o rosto malicioso de Castus com repulsa. — Procurar a ajuda de seu deus é ótimo, mas sozinha? Pensei que agora você fosse mais esperta. — Ele estendeu o braço e apertou os seios dela. — Ótimo. Estão maiores do que antes.
Ariadne sentiu o medo dentro de si. “Ele vai me estuprar e me atirar do penhasco.”
— Não esperava ver você aqui... — Ele bateu em sua cabeça. — Responda, sua vagabunda!
— Eu estava pedindo orientação ao meu deus. O-o que você veio fazer aqui? — respondeu ela, tentando ganhar tempo.
— Eu queria acalmar Cila. Se formos atravessar aquele trecho de água — fez um gesto em direção aos estreitos —, precisaremos de toda a ajuda possível.
Ariadne percebeu que ele estava aterrorizado — o que não era de se espantar. Como a maioria do exército, Castus nunca havia entrado em um barco.
— Você recebeu uma resposta?
Uma risada breve.
— Claro que não. — Ele tirou a faixa na qual levava a espada do ombro e a colocou de lado. Com as mãos, ele subiu o vestido dela até a cintura. — E quem se importa? Mesmo que eu morra, irei ao encontro de Netuno sabendo que fodi a esposa de Spartacus.
Ariadne tentou empurrá-lo. Ele riu e afastou as mãos dela. Ela chutou sem parar, mas Castus tinha mais do que o dobro de seu peso. Viu, horrorizada, quando ele abocanhou seus seios. Lembranças dolorosas do que seu pai e do que Phortis, de Cápua, lhe tinham feito surgiram depressa. Agora estava prestes a acontecer de novo. “Pense! Pense!” Sua cabeça rodava. De um lado, ela só conseguia ver o contorno da Sicília, que nunca alcançaria. Do outro, as oferendas deixadas diante do altar. Nada ao seu alcance afastaria Castus. A espada dele estava a vários passos dali.
Ele levou a mão à genitália dela, que sentiu a ereção pressionando sua coxa. Foi tomada por ondas de náusea misturadas com a dor em sua cabeça. Ariadne quis morrer. Queria que ele simplesmente a jogasse lá embaixo.
— A esposa de Spartacus... — disse ele, ofegante. — Quem diria que eu conseguiria fodê-la, não?
Foi como se um raio a atingisse. “A esposa de Spartacus. Sou essa pessoa. Não posso fugir disso.” Esse pensamento renovou sua vontade de viver. De sobreviver.
Castus parou para lamber os seios dela de novo. Observou-a, com o rosto tomado de desejo. Soprava seu hálito fétido sobre ela. Ariadne sentiu vontade de vomitar, porém se forçou a manter o olhar firme. Faria o possível para adiar o que estava prestes a acontecer.
— Você me deseja há muito tempo?
— Pelos deuses, sim! Que homem não desejaria? — perguntou ele, abaixando a calça. — Está pronta para um pau de tamanho decente, não a linguicinha com que está acostumada? Você provavelmente sempre me desejou.
Ele movimentou o quadril, tentando penetrá-la.
Ariadne não conseguiu mais olhar para ele. Virou a cabeça para a esquerda. “Deuses, permitam que isso termine logo.” Um breve movimento chamou sua atenção. Seu coração quase parou. A serpente! Ela saiu do cesto e rastejou até uma pedra grande na base do altar. Se ao menos conseguisse pegá-la!
Mas Fortuna interveio. Gemendo de irritação, Castus soltou o braço esquerdo dela. Cuspiu na própria mão e a levou à vagina de Ariadne.
— Você estará tão molhada quanto uma puta durante a Saturnália quando eu terminar — vociferou, movimentando-se mais uma vez.
Ariadne esticou o braço livre na direção da serpente. Nunca antes quisera tanto que algo desse certo. Nunca precisara disso mais do que agora.
A cabeça da serpente se moveu; sua língua forcada se estendeu na direção dos dedos de Ariadne.
O pênis de Castus tocou os grandes lábios dela, e Ariadne se retraiu. Ele riu.
A serpente se rastejou até a mão de Ariadne ao perceber os movimentos desta. “Isso!” Havia o risco de ela ser mordida caso se fizesse um movimento brusco, mas não se importou. Ergueu o braço; assustada, a serpente arqueou o pescoço e abriu a boca de modo ameaçador. Ariadne a mirou no pescoço de Castus.
O gaulês reagiu com uma velocidade sobrenatural — rapidez proveniente do desespero, de anos lutando como gladiador —, que o salvou de ser picado. Afastou-se de Ariadne, com a boca aberta, horrorizado. Ela rolou para longe e se levantou. Sussurrou algo para a serpente, que se acalmou um pouco. Ao se virar, viu Castus. Sentiu-se satisfeita. A beira do precipício estava a poucos passos atrás dele.
Segurando a serpente diante do corpo, ela avançou.
— Está pronto para morrer, seu imundo?
O rosto de Castus foi tomado pelo medo. Ele não tinha como fugir.
— Essa coisa pode me picar, mas levo você comigo, sua puta! Vamos jantar com Netuno esta noite!
Tentou segurar o braço dela, porém Ariadne aproximou a serpente do rosto dele, e Castus teve que se afastar. A sandália dele escorregou, seu pé pisou em falso e ele precisou se esforçar muito para não cair no precipício.
Ariadne estava começando a se divertir.
— Está gostando, seu maldito? Como prefere morrer: envenenado ou despencando nas rochas? — Ela deu mais um passo na direção dele. Irritado, o animal tentou fincar os dentes no braço do gaulês. Por algum milagre, Castus desviou. Ariadne não se importou. Não tinha como ele fugir. — Escolha!
Castus não respondeu. Simplesmente se preparou para o próximo ataque dela.
Ariadne nunca admitiria, mas ele era um homem corajoso. Porém, estava na hora de acabar com aquilo.
— Faça isso por Dionísio — sussurrou ela ao animal. Irritada, a serpente se remexeu. — Paciência. Sua presa está bem aqui.
Encarou Castus, esperando ver medo no rosto dele. O que ela percebeu foi algo muito diferente: ele tentava disfarçar o olhar de triunfo. Os olhos dele brilhavam. Ariadne sentiu um movimento atrás de si. O instinto fez com que ela se jogasse para a direita, na direção do altar. Enquanto tentava manter o equilíbrio, ouviu um palavrão abafado e viu um homem forte empunhando uma espada — um dos seguidores de Castus — pular até onde ela estivera. Com um grito desesperado, ele ultrapassou a ponta do precipício e caiu, desaparecendo de vista.
Quando ela se levantou, Castus já havia passado para um ponto seguro e agora mantinha a arma em riste. O pânico tomou conta de Ariadne, e ela se preparou para enfrentá-lo apenas com uma serpente. Para sua surpresa, ele se afastou.
— Sua puta louca!
Dando um passo em sua direção, ela deu uma risada estridente.
— Isso mesmo, seu merda, sou louca! Também sou uma das escolhidas de Dionísio!
Naquele momento, a serpente abriu a boca, revelando as presas letais.
O rosto de Castus ficou pálido. Murmurando uma oração, ele se afastou. Depois, virou-se e partiu.
Com o coração aos pulos, Ariadne esperou, mas ele não voltou. Então acalmou a serpente, colocou-a no cesto e o tampou. Com o vestido rasgado ajeitado da melhor maneira que conseguiu, ela despejou o resto do vinho no chão, agradecendo seu deus com ainda mais fervor do que antes. Longos minutos se passaram, e nada aconteceu — nenhuma visão, nenhuma palavra de sabedoria. Ariadne não sentia ódio, apenas uma grande gratidão por estar viva. Mais do que qualquer coisa, queria ver Spartacus.
Seu nome acionou uma lembrança. Castus a havia chamado de “esposa de Spartacus”. Ariadne sorriu.
Dionísio, afinal, havia lhe enviado uma mensagem. Duas mensagens, na verdade.
Primeiro, ela não ia a lugar nenhum. Ficar ao lado de Spartacus era o que importava — independente das consequências. Em segundo lugar, Castus não deveria ser ferido. Por justiça, ele deveria ter morrido quando estava à beira do precipício. O fato de isso não ter acontecido mostrava a ela que os deuses ainda o queriam vivo. Nem ela nem Spartacus deveriam intervir mais.
Para seu alívio, o soldado que a havia seguido não estava morto, como Castus dissera. Ele desmaiara com um golpe na cabeça e voltara a si quando ela o socorreu. Após decidir que Spartacus não deveria saber de nada, ela fez o homem jurar que guardaria segredo. Aquele ferimento teria sido causado por uma queda. O guarda ficou contente em concordar com a ordem. O temperamento temido de seu líder era bem-conhecido; o soldado que não cumprisse a tarefa de cuidar bem de Ariadne podia ter uma vida muito curta.
Os guardas que não subiram o monte ficaram muito aliviados quando os dois voltaram. Não demonstravam qualquer sinal de terem visto Castus, que provavelmente descera pelo lado mais afastado do promontório. Ariadne ignorou os olhares de esguelha por causa do vestido rasgado e o cabelo coberto de terra. Eles provavelmente achavam que ela havia se entregado à mania dos rituais num estado de transe apreciado pelas devotas de Dionísio.
Ao chegar à sua barraca, ela encontrou Maron dormindo no berço, com a velha parteira cochilando ao lado dele. Em silêncio, Ariadne trocou de roupa e penteou o cabelo. Lavou o rosto e aplicou um pouco de giz nele — isso esconderia o inchaço de sua testa. Depois do horror do que havia acontecido, era estranho voltar à normalidade. Bebeu um pouco de vinho para acalmar os nervos. Ninguém poderia saber sobre Castus, muito menos Spartacus.
Logo depois, ela se sobressaltou ao ver o marido na porta.
— Eles chegaram! — gritou ele.
Maron se remexeu, e os instintos de Ariadne vieram à tona.
— Shhhhiiii.
— Desculpe.
Ele se aproximou, sorrindo. Feliz por Maron ainda estar dormindo, ela olhou para Spartacus. Ele não notaria nada. Estava visivelmente feliz.
— Você não está falando dos romanos, certo? — sussurrou ela.
Ele a encarou, surpreso.
— Não! Conversei com o pirata que Carbo encontrou. Ele voltará daqui a alguns dias com dois ou três barcos. Com uma dezena de viagens, os homens serão levados para o outro lado. Se tudo der certo, podemos ter os navios de grãos aqui dentro de uma semana.
Ariadne se assustou.
— Uma semana — disse devagar.
— Maravilhoso, não? Crassus não tem nenhuma embarcação. O desgraçado não saberá o que está acontecendo, e poderemos partir! Quando ele reagir, teremos dominado a Sicília. — Ele a beijou nos lábios. — A primeira coisa que farei na ilha será montar um sistema de torres de observação ao longo da costa. Os romanos não conseguirão atracar na costa, pois vamos lançá-los de volta ao mar.
As preocupações de Ariadne desapareceram diante da crença forte nos olhos dele. Aquela tinha que ser uma mensagem dos deuses, pensou. De Dionísio, cuja serpente havia salvado sua vida. Os piratas voltariam. Eles escapariam para a Sicília. Seu coração pulou de alegria, e ela puxou o rosto dele para perto do dela.
— Sempre soube que você conseguiria — disse ela.
No dia seguinte...
Ao ouvir pessoas falando bem alto, Crassus levantou a cabeça e franziu o cenho. Ele tinha dado ordens específicas aos guardas para não ser perturbado. “Por todos os deuses, será que esses tolos não conseguem entender uma ordem sequer?”, pensou ele com irritação.
— Não me importo! Preciso falar com Crassus! — disse uma voz familiar. — Saia da minha frente, seu tolo, ou colocarei você para cavar trincheiras pelo resto da vida!
— É você, Caepio?
Crassus deixou de lado o pergaminho no qual registrava táticas militares e se levantou. Considerava o processo todo de escrever muito chato, porém, aquela campanha era uma oportunidade de ouro para ele documentar seus pensamentos. Ele cuidaria para que estes fossem publicados e ampliados mais tarde. Não demoraria muito para que todos os homens da Itália tomassem conhecimento dos métodos de especialista com os quais ele havia derrotado Spartacus.
O pano na entrada de seus aposentos estava puxado para trás e o centurião veterano entrou na sala ricamente decorada. Logo fez um cumprimento e percebeu o olhar frio e firme de Crassus. Sua presença irritou, mas não surpreendeu o líder.
— Espero que seja por um bom motivo.
— Acho que é, senhor — foi a resposta contida.
— Deixe-me adivinhar. Você capturou Spartacus.
O rosto marcado de Caepio exibiu um esboço de sorriso.
— Não é tão bom assim, senhor.
— Por quanto tempo vai me deixar na expectativa? Diga logo!
— Uma de nossas patrulhas encontrou um navio pirata ancorado em uma enseada a alguns quilômetros ao norte, senhor. A tripulação estava na praia, recarregando provisões e água. O centurião responsável ordenou um ataque. Nossos homens prenderam não apenas todos os piratas, como também retiveram a embarcação.
— Isso é muito bom, Caepio — elogiou Crassus entredentes. — Os piratas são o flagelo do Mediterrâneo. A perda em navios mercantes todos os anos está deixando Roma sem nada. Mas por que eu me importaria com isso agora? Temos um problema bem maior do que esse para nos preocuparmos com um navio cheio de lixo!
— Ao fazermos uma busca na embarcação, encontramos sacos de moedas, senhor — contou Caepio, muito paciente. — No total, eram mais de dez mil denários. O centurião perguntou ao capitão onde ele havia encontrado tal quantia. O filho da puta não foi direto, por isso o centurião mandou seus homens acenderem uma fogueira. Quando os pés dele foram enfiados no fogo, o pirata abriu o bico. — Ele fez uma pausa, observando Crassus para ver se havia sinais de interesse.
“Maldito”, pensou Crassus, agora curioso. Decidiu adotar um olhar mais casual.
— O espião não mencionou nada disso?
— Mencionou, senhor. — Caepio estava empolgado demais para dizer que, na época, seu general havia descartado a história do homem, acreditando ser pura fantasia.
— Continue — ordenou Crassus de modo brusco.
— Ele foi abordado, há algum tempo, por um dos homens de Spartacus. Um jovem romano, segundo ele. Isso me fez pensar no traidor do munus, sobre quem lhe contei. Aquele que estava com Spartacus quando o senhor foi atacado em Roma.
— Eu me lembro dele. — O interesse de Crassus aumentava cada vez mais. — Continue.
— O pirata recebeu mais de um milhão de denários para levar duzentas tropas de Spartacus para a Sicília. Ele teve que reunir o máximo de embarcações grandes que conseguiu e colocá-las no mar para poder levar os escravos.
Dessa vez, Crassus não escondeu o choque. O espião não estava mentindo, afinal.
— Por Júpiter, está falando sério?
— Sim, senhor. Poucos homens mentem quando a carne está derretendo dos ossos.
— Acho que sim — concordou Crassus. “Sicília... que esperto. Ele deve saber sobre as rebeliões de escravos ali.” — Mas por que tão poucos soldados? Há duas legiões na ilha. O que ele está planejando?
— Acho que ele pode ter pensado em tomar algumas embarcações, senhor. Spartacus é um maldito ousado, sabemos disso. Se ele soube do caos que reina naquele lugar, pode ter achado isso possível.
Crassus contraiu os lábios, concentrado. Gaius Verres, o governador da Sicília, era famoso por ser corrupto.
— Mesmo que Spartacus não saiba disso, ainda assim ele tentaria algo maluco. O que tem a perder? Então, o que o maldito pirata fazia na enseada?
— Esperava por dois capitães conhecidos, senhor. Em mais um dia, eles teriam chegado. Teriam partido e nem saberíamos. Agora, isso não acontecerá. Os outros piratas não compreenderão por que o amigo deles não apareceu, nem saberão da oferta de Spartacus.
— Excelente trabalho, Caepio! Excelente! — Crassus lançou um sorriso ao centurião. Seu dia acabara de melhorar, e muito. — E o capitão? Imagino que ele tenha morrido durante os interrogatórios?
— Sim, senhor. O centurião ordenou que toda a tripulação fosse crucificada, o navio, queimado e os prisioneiros, tomados como escravos. Trouxemos o dinheiro para ser colocado à sua disposição. Espero que seja satisfatório.
— Muito satisfatório — disse Crassus. — Cuide para que o centurião e seus soldados recebam uma boa recompensa.
Caepio assentiu, aprovando.
— Muito bem, senhor. Mais uma vez, peço desculpas por incomodá-lo.
Com o mau humor deixado de lado, Crassus acenou, perdoando Caepio.
— Mais alguma coisa, senhor?
— Sim. Já sabemos quanta comida os rebeldes têm?
— Pelo que soube do nosso homem no acampamento deles — e aqui, Caepio piscou —, eles tinham cerca de um mês de suprimentos. Isso foi há duas semanas.
— Minha nossa, ordenei que ele mandasse notícias com mais frequência!
— Agora é muito perigoso ele entrar em contato conosco, senhor. Em todos os cantos onde construímos fortificações, os homens de Spartacus parecem pulgas em um cão. Estão de vigia noite e dia.
Crassus se irritou, mas sabia que Caepio tinha razão.
— Se o tolo estava certo, os escravos têm 14 dias de comida. É uma boa notícia. Ainda que eles saqueiem todas as fazendas, não encontrarão o suficiente para aguentar por muito tempo.
— Isso mesmo, senhor. A terra ali é pobre. É melhor para cultivar oliveiras do que grãos. A maioria das propriedades terá estoque baixo.
— Então, é melhor nos prepararmos para um ataque em breve, certo?
“Spartacus, seus dias estão contados.”