Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 7 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo VI

 

Perto da base dos Alpes, Gália Cisalpina

Ariadne acordou com dor de cabeça. Ao se espreguiçar, também sentiu um torcicolo. Suspirou. A noite de sono ruim não se devia apenas aos movimentos do bebê. Seu descanso foi perturbado por um pesadelo horroroso e que parecia não terminar, no qual ela não conseguia encontrar Spartacus em uma estrada decorada com um homem crucificado a cada quarenta passos. Foi um enorme alívio vê-lo respirando pesado ao seu lado. Ela observou os traços dele em um esforço para se esquecer das imagens terríveis do sonho. Deu certo. Passou a ponta do dedo sobre uma cicatriz clara que começava no nariz afilado dele e chegava à face esquerda. Tocou sua mandíbula quadrada e viril e o cabelo castanho, cortado bem rente à cabeça à moda militar romana. Ariadne admirava seu torso musculoso e definido quando ele de repente se mexeu, murmurando algo. O prazer foi interrompido de imediato.

A julgar pelo modo como havia se mexido a noite toda, ele também não dormira bem. Ela tentou imaginar o que causara tal inquietação. “Vou perguntar quando ele acordar.” Ela tinha desistido havia muito de tentar descansar. Apesar do cansaço, estava determinada a se animar. Aquele era o dia pelo qual esperara desde a fuga memorável do ludo em Cápua. Na época, era uma esperança impossível. Porém, apesar de todas as impossibilidades, os soldados de seu marido derrotaram todos os exércitos romanos enviados para lutar contra eles. Agora, Módena estava a cerca de trinta quilômetros para trás, e as legiões que a guarneceram se espalharam pelos quatro cantos. Não havia nenhuma tropa inimiga pronta para a batalha na região. No dia anterior, o exército rebelde havia cruzado a ponte sobre o rio Padus. O caminho deles ainda estava aberto.

Ariadne tinha que fartar os olhos na visão incrível mais uma vez. Soltou a porta de pano da barraca e olhou para fora. Por fim, um sorriso surgiu em seu rosto. Ela não podia acreditar. Acima dela, do oeste ao leste, em um muro enorme de pedra, estavam os Alpes. “Só o que temos que fazer é cruzar esses picos e estaremos livres. Para sempre”, pensou ela. Então, sentiu um nó de preocupação na garganta. Um velho ditado lhe ocorreu: “É grande o espaço entre o copo e a boca.”

“Não serei feliz até alcançarmos o outro lado das montanhas.”

— Está conferindo se eles ainda estão lá? — perguntou Spartacus atrás dela.

Ela espiou dentro da barraca.

— Você acordou.

— Sim. Eles desapareceram?

Ela deu um soco leve no braço dele.

— Você está me caçoando.

— Só um pouco. Também quero vê-los. — Ele afastou os cobertores e engatinhou até a entrada. Ficou calado por um momento. Então, disse: — Graças ao Cavaleiro. Não sonhei com eles. Realmente estamos fora do alcance dos legionários na Itália.

“Na Itália”, pensou ele, sério. “E na Trácia? Uma terra selvagem que a maioria dos meus soldados só conhece pelas histórias. Eles desejarão ir para lá... para enfrentar mais legiões? Ou se recusarão?” Se isso acontecesse, Spartacus sabia que não queria ser um general sem exército.

— Você vai adiante com seu plano de conversar com os homens?

— Claro. Este é um passo enorme que vamos dar. Preciso verificar se todos estão de acordo.

A mesma preocupação irritante que os dois vinham sentindo havia algum tempo, mas sobre a qual não falavam, surgiu. Ela não fora a única a ouvir as demonstrações de descontentamento perto das fogueiras.

— Você acha que alguns deles não concordam? — Ele não respondeu. — Quem? Castus ou Gannicus? — Spartacus suspirou. — O que foi?

Apesar da vontade de evitar conflitos com Ariadne, ele sempre soubera que teria que contar a ela. E teria que ser antes de ele abordar seus soldados. Ele devia isso a ela.

— Muitos homens não estão felizes com a ideia. Vem surgindo reclamações a respeito há algum tempo, mas piorou nas últimas noites. Talvez você não tenha notado, mas sempre ouço os comentários quando ando pelo acampamento.

— Mas...

— Não é surpresa alguma, Ariadne. A maioria deles nasceu aqui, em cativeiro. Eles nunca foram livres, como nós. Não sabem como é viver na própria terra, sem nenhum senhor. Até onde sabem, a Itália é uma terra farta para saques. É fértil, com muitas fazendas e latifúndios onde poderão obter o que querem. Por que a deixariam? Muitos dos que não nasceram na escravidão pensam o mesmo.

— Eles deveriam deixar a Itália para se livrarem dos malditos romanos! — disse ela, sentindo o rosto enrubescer de raiva.

— Mas a maioria acha que pode vencer qualquer exército. Por que não venceriam? — Os lábios dele se entortaram em uma careta. — Veja o que eles têm feito. Eu já disse a eles, muitas vezes, que os romanos nunca desistem, mas palavras representam pouco já que eles só conhecem a vitória.

— Deve haver um modo de convencê-los.

— No fim das contas, não posso obrigar o exército a me seguir. Há outros líderes que relutarão em atravessar os Alpes, homens que querem permanecer nesta terra que muito tem lhes dado.

— Você se refere a Castus e Gannicus. — Dessa vez, ela disse os nomes com raiva.

— Sim. Eles permaneceram comigo quando Crixus partiu, mas você sabe como eles são imprevisíveis, principalmente aquele merda do Castus. Ele nunca gostou de se submeter a mim. Vai tomar uma atitude, e aposto que Gannicus irá com ele. Uma boa parte do exército os seguirá. “E os idiotas nem sequer sabem sobre Lucullus. Se soubessem e contassem aos homens, a maioria partiria.”

— Se isso acontecer, o que você fará?

Eles se entreolharam em silêncio.

— Os trácios viriam comigo. E Carbo, Navio, os citas, claro. Diria que talvez de dez a quinze mil dos homens obedeceriam às minhas ordens. Quanto ao resto, não tenho certeza...

— Então, deixe-os! — gritou Ariadne. — Eles podem escolher o próprio destino! Ser morto em um mês, ou em um ano, por outro exército romano. — Ela percebeu a dor nos olhos dele. — Sei que eles são seus soldados, mas você não deve se deter por causa deles.

— Eu sei — disse ele com seriedade. — Mas tem mais coisa nisso.

Ela o encarou sem entender.

— É o que você tem escondido de mim?

Ele não respondeu.

— Quando Carbo e Navio estavam em Módena, ouviram notícias de Marcus Lucullus, o general romano que tem lutado na Ásia Menor. Ele derrotou os trácios comandados por Mitrídates e foi para a Trácia. Amplas áreas foram inutilizadas.

— Os romanos fizeram campanha contra as tribos trácias com interrupções, porém por mais de trinta anos. Até agora, eles nunca se deram o trabalho de realizar uma invasão de grande escala. Por que as coisas teriam mudado?

— Não sei, mas a campanha dele continua.

“Dionísio, não! Como isso pôde acontecer?” Ariadne sentiu vontade de gritar aos céus, contudo manteve a raiva e o medo sob controle.

— Sem dúvida, é mais um motivo para partir. Você poderia liderar a batalha lá.

— Isso pode interessar a mim e a você, talvez, mas não à maioria. Castus e Gannicus não se importam com a Trácia. Nem o resto deles.

— Os gauleses sabem?

Ela não conseguia parar de encará-lo.

— Não, graças ao Cavaleiro. Tampouco planejo contar a eles. Carbo e Navio sabem que não devem dizer nada a ninguém.

“Isso é um consolo”, pensou ela com amargura.

— Por que você não me contou isso antes?

— Não queria preocupá-la. Além disso, não havia motivo, até Longinus ser derrotado.

— Compreendo.

Apesar de estar irritada, Ariadne também se sentia contente por não ter sabido até então. Aproveitara suas fantasias, que acabavam de ser substituídas por uma onda de decepção amarga. Ela olhou para a luz forte do sol que entrava na barraca e, do lado de fora, a beleza dos Alpes. Estes pareciam muito mais distantes do que estavam minutos atrás.

— Ainda que cruzemos as montanhas, os romanos nos encontrarão na Trácia.

Ele franziu o cenho, concordando.

— Não demoraria muito até que notícias de nossa chegada fossem parar nos ouvidos de Lucullus. Ele desejaria nos encontrar; isso se o Senado não mandar um exército atrás de nós também.

— Você se esqueceu das outras tribos? Você planejou uni-las com um propósito. Liderar a batalha contra Roma. Eles se uniriam ao ver quantos homens seguem você.

— Pensei nisso por muito tempo. Você sabe como nosso povo é briguento. Não gostam de chamar nenhum homem de líder. A probabilidade de eles nos atacarem é a mesma de se unirem a nós. Seria uma tarefa bem-complicada unir mais de duas ou três tribos. Apenas um homem comandou todos os trácios, e não fez isso por muito tempo. — Ele soltou um suspiro longo e irritado. — Meu pai estava enganado. A Trácia não é uma terra que pode ser unida.

— Você poderia fazer isso — sugeriu ela.

— Talvez sim, talvez não. Mas é provável que eu tivesse que lutar para controlar pelo menos algumas das tribos, entregando a vantagem a Lucullus. Isso se alguém não me matasse primeiro. Aqui, por outro lado, já tenho um exército com mais de cinquenta mil soldados. Homens que não precisam ser convencidos a me seguir. Na Itália, também há uma fonte inesgotável de recrutas à nossa causa. Se eu ficar, até mesmo os causadores de problemas, como Castus, continuarão a seguir minhas ordens. Pelo menos por enquanto.

— Não acredito que você está dizendo isso!

Nesse instante, Spartacus discretamente tinha expressado a verdade que lhe ocorrera durante a longa escuridão da noite anterior. Os rumores de descontentamento em suas forças eram muito reais. Não se sabia ao certo se os homens cumpririam suas ameaças, porém ele tinha uma sensação ruim a respeito. “Não deixarei a maioria dos meus soldados para trás. Não para acabar onde comecei... na Trácia, com todos os homens contra mim e os romanos saqueando a terra como bem quiserem.”

— Você não quer abrir mão do comando de seu exército, isso sim.

Ela olhou para ele, que retribuiu o olhar.

— Não, não quero.

— Eu sabia! — gritou ela. — Você é orgulhoso demais.

— Se os homens partirem, irei. Se a maioria não for, então ficarei — respondeu ele, erguendo o queixo.

— E se eu decidir atravessar os Alpes sem você?

— Eu ficaria triste ao vê-la partir. Enviaria homens para protegê-la.

— Escolheria suas tropas e me deixaria? — Lágrimas, de tristeza, de raiva, encheram os olhos dela. — Sua esposa, que está gerando seu filho?

— Antes e acima de qualquer coisa, sou um soldado, Ariadne — resmungou ele. — Não um marido. Você sabe disso desde que nos conhecemos.

A alegria de Ariadne ao ver os Alpes desapareceu. Sentiu como se Dionísio e todas as outras divindades no panteão tivessem retirado a boa-vontade. De certo modo, ela perseverou.

— Você está falando como se fosse certo que os homens se recusarão a segui-lo nas montanhas. Pode estar enganado.

— Talvez.

Ariadne desanimou.

— Então, marchamos tudo isso para nada?

— Não foi para nada. Quando saímos de Turí, eu pretendia cruzar os Alpes. E ainda vou...

— Se o exército segui-lo — interrompeu ela, furiosa.

— Sim.

Seus olhos marejaram de novo.

Spartacus estendeu a mão para consolá-la, mas ela se retraiu como se o toque dele fosse venenoso. Ele recolheu a mão.

— Sou um líder. Um general. Cheguei à minha posição por mérito. Não desistirei de tudo nem entregarei meu poder a um rato de merda como Castus ou a um safado como Gannicus. — “Mesmo que isso magoe você”, pensou ele.

— Você disse anteriormente que as legiões de Roma eram como a Hidra. Para cada cabeça destruída, duas outras aparecem no lugar. Se você ficar aqui na Itália, eles reunirão ainda mais legiões contra você.

— Talvez. Mas Hércules derrotou Hidra. Talvez eu também possa fazê-lo — respondeu ele, com a voz tomada do orgulho do qual ela o acusara.

— Mas na Trácia você teria uma chance melhor...

— Na Trácia? — Spartacus riu, irritado. — Pelo que fiz, os romanos nunca me deixarão em paz. Enviarão suas legiões atrás de mim ainda que eu vá para o fim do mundo.

No fundo, Ariadne sabia que ele tinha razão. Se seu marido abandonasse os soldados secretamente e se encontrasse com ela em algum lugar distante, mesmo assim eles teriam uma vida perturbada por Roma. E era mais fácil o sol dançar no céu do que ele fazer isso. “A guerra é o destino dele. Sempre foi.” Ela não poderia mudar isso, assim como não poderia mudar a natureza dele. Percebeu com tristeza que tampouco queria isso. Ela o adorava como ele era. Corajoso. Forte. Carismático. Inteligente. Relaxado às vezes. E, acima de tudo, orgulhoso.

“Mas o que isso significava para ele?”, perguntou-se. “E para mim?”

Ele começou a se vestir.

— Eu disse a Egbeo e a Pulcher que queria os homens organizados depois que comessem. Você vai me ouvir falar?

— Sim — pegou-se ela dizendo.

— Vai ficar ou partir?

— Depende do que você disser.

Os dois se olharam.

— Sua resposta é ambígua. Vai me seguir?

— Ainda não decidi — respondeu ela, erguendo o queixo.

“Não sou o único orgulhoso”, pensou Spartacus.

— Compreendo.

Nenhum dos dois voltou a falar enquanto ele se preparava.

Ariadne se lembrou do sonho assustador. Seria aquele o destino que os deuses guardavam para ele?

Spartacus faria o melhor que pudesse para convencer os homens. Assim, ele e Ariadne com certeza ficariam juntos. Contudo, sua intuição indicava outra coisa em relação a seus soldados. Isso não diminuiu sua determinação. As tropas precisavam de um líder. Ele era esse líder — independentemente do caminho que eles escolhessem.

Spartacus havia ordenado a construção de uma plataforma elevada à beira do acampamento na noite anterior. Dez homens de todas as centúrias no exército deveriam se reunir na frente dele, onde facilmente poderiam ouvir o que dissesse. Os oficiais seniores de cada grupo também ficariam ali. O resto do comboio deveria se manter como se estivesse em marcha, atrás e dos dois lados dos soldados escolhidos. O plano de Spartacus era falar lenta e pausadamente, permitindo que os corredores do grupo central passassem exatamente o que ele dizia para os demais. Se conseguisse conquistar os homens reunidos, tinha chance de fazer o mesmo com todo o grupo. Entretanto, era só uma chance. Os rostos que ele viu a caminho do estrado não pareciam satisfeitos.

Ele endireitou os ombros. Aquele era o discurso mais importante que já fizera. Era bom que os estandartes de batalha tomados dos romanos estivessem expostos. A evidência de seu sucesso — seis águias de prata, as hastes de madeira exibindo a insígnia de mais de trinta comboios e duas dúzias de fasces, estava organizada atrás da plataforma. “São conquistas incríveis”, pensou ele com orgulho. Até mesmo um general como Aníbal teria ficado impressionado. Não haveria como não impressionar seus homens. Mas seria suficiente? Ele subiu os degraus, passou pelos trompetistas, que estavam prontos para chamar a atenção de todos. Seu humor piorou.

— Castus e Gannicus já estão aqui — murmurou ele a Ariadne, que estava um passo trás. — Veja.

Os gauleses estavam se movendo entre os soldados na frente do palco, conversando animadamente e dando tapinhas nos ombros dos homens. “Bastardos traiçoeiros.”

— Eles estão tentando diminuir minha importância.

A chance que ele tinha de convencer os homens estava desaparecendo diante de seus olhos. Disse a si mesmo que era apenas sua imaginação, mas o rugido que o recebeu quando ele apareceu estava mais contido do que o normal.

— SPAR-TA-CUS!

Ele ergueu o braço em agradecimento.

— Vejo vocês, meus bravos soldados!

Os homens reunidos gostaram disso. Assim como as tropas que conseguiram ouvir. Não houve necessidade de repetir adiante o que fora dito. Os gritos prosseguiram com enorme entusiasmo.

— SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS!

Armas batiam em escudos, aumentando o barulho. O som ergueu-se no céu azul-claro.

Spartacus percebeu a irritação dos gauleses e se sentiu satisfeito. “Eles me amam mais do que a vocês dois, idiotas arrogantes.” Ele sinalizou a plataforma. Enquanto os gauleses se viraram, o trácio caminhava de um lado para o outro, indicando os estandartes. Então, rosnou uma ordem aos trompetistas, que sopraram uma série curta, porém estridente de notas. Um silêncio logo se fez. Os homens estavam dispostos a ouvir a mensagem dele, independentemente de qual fosse.

— Estão vendo isto?! — gritou Spartacus. — Temos seis águias de prata! São seis legiões que derrotamos! Isso sem considerar todas as tropas romanas que derrubamos! Vocês são soldados corajosos, que enfrentaram legionários e saíram vitoriosos! — Ele deixou os homens mais próximos gritarem até ficarem roucos antes de continuar. — Três pretores. Um legado. Um procônsul. Dois cônsules. São os generais que vocês enfrentaram e venceram. É uma conquista incrível. Sintam orgulho de si mesmos... muito orgulho!

Ele viu a surpresa no rosto de Castus e de Gannicus. “Eles estão tentando entender por que estou inflando o ego deles.” Soldados do grupo central se afastaram, levando as notícias do que ele dissera. A mensagem foi recebida com enorme alegria pelo resto do exército.

Demorou muito para que os gritos diminuíssem, mas Spartacus esperou pacientemente, ignorando a presença de Castus e Gannicus próximos dali. Por fim, voltou a falar.

— Apesar de todos os nossos sucessos, não vencemos a guerra. Infelizmente, a República consegue aguentar mais do que batemos e ainda continuar de pé. Aníbal aniquilou quatro legiões em Trébia. Três legiões no Trasimeno. Oito legiões em Canas. Mas, apesar disso, no fim, ele foi derrotado. Por quê? Porque Roma nunca desiste. Seu povo é mais teimoso do que vocês imaginam. Eles não aceitam a derrota. O número de homens disponível é inesgotável. Ainda agora, novas legiões estão sendo recrutadas para substituir as que massacramos. Esperem seis meses ou um ano, e eles terão um exército mais forte do que aquele contra o qual lutamos, pronto para nos confrontar.

Spartacus viu olhares insatisfeitos sendo trocados, murmúrios passando de homem a homem. “Eles não gostam de ouvir isso.”

Ariadne também não gostou das palavras dele. “Ó, deuses do céu, por favor, permitam que eles concordem. Permita que eles deixem essa terra amaldiçoada para sempre.”

— Vocês sabem por que os chamei aqui hoje. Muitos meses atrás, eu disse a vocês que os levaria para fora da Itália. Longe de Roma e de suas malditas legiões. — Ele apontou para os Alpes. — Quando atravessarmos as montanhas, o que não é difícil nessa época do ano, seremos totalmente livres. Não só a liberdade para fazermos o que fazemos aqui, mas livres no sentido real da palavra!

Spartacus lançou um olhar para os dois gauleses. Castus torcia a boca com o rosto sério, e Gannicus parecia muito irritado. Naquele momento, Spartacus sentiu que eles sabiam sobre Lucullus. Não entendia exatamente como, mas eles já sabiam. E então percebeu o que os dois deviam estar dizendo aos homens quando ele chegou.

Ao observar os soldados mais próximos, percebeu que suas palavras de incentivo tiveram apenas um efeito parcial. Muitos homens ainda estavam insatisfeitos; faziam cara feia, franziam o cenho ou ouviam um companheiro cochichar em seu ouvido. Até mesmo a ameaça de mais legiões não se comparava à ideia de sair da Itália e de entrar em terras desconhecidas. Terras onde outras legiões esperavam por eles. Era isso. Ele precisava contar a suas tropas a respeito da ameaça romana à Trácia ou a tática ardilosa de Castus e Gannicus daria certo. Os soldados o considerariam um mentiroso e talvez não o seguissem a lugar nenhum. Spartacus sentiu uma amargura por ser forçado a revelar seu segredo, porém os deuses estavam cuidando dos próprios assuntos — como costumavam fazer. Ele só tinha que aceitar o que acontecera e fazer o melhor possível. Precisava retomar a iniciativa.

Ergueu a mão.

— Pelo menos, é o que eu desejaria. Recebi notícias da região de Módena que me deixaram muito preocupado. Isso fez com que eu reconsiderasse meus planos. Permaneceremos na Itália!

Um grito alto foi dado pelos homens mais próximos, e Ariadne sibilou irritada e surpresa.

Spartacus a ignorou e animou-se com o desânimo que tomou conta do rosto dos dois gauleses.

— O que o fez mudar de ideia? — gritou um soldado com um elmo de crina de cavalo.

— Parece que Lucullus, o general romano, atacou a Trácia. Sua campanha está em ação neste momento.

— Atacou a Trácia?! Por quê, em nome dos deuses, sairíamos daqui, então?! — gritou o soldado, direcionando a pergunta a todos ao seu redor. Eles riram alto.

Spartacus não respondeu. Observou as notícias sendo espalhadas por seu exército como o vento soprando um campo de trigo. Avançaram mais depressa do que qualquer uma de suas palavras sobre glória, vitória ou liberdade. O rosto de Castus agora estava roxo. Gannicus parecia não saber o que dizer. A reação deles provava que sua mudança de discurso tinha sido correta. Sentiu satisfação por ter tirado a pose deles. É claro que eles ainda poderiam se afastar, mas a vantagem estava com ele. Observou o exército e ouviu um grito cada vez mais alto de aprovação.

— Para onde você nos levaria, Spartacus? — gritou o soldado de elmo de crina.

Os homens ao redor dele se calaram.

Pelo canto do olho, Spartacus viu Castus dando um passo à frente, mas ele se virou e fez um gesto para os trompetistas.

Tan-tara-tara-tara. O barulho cobriu todo o som na plataforma. Castus ficou roxo de raiva, mas não podia fazer nada enquanto os instrumentos estivessem tocando. Assim que se silenciaram, Spartacus disse:

— Vocês querem saber para onde irei agora, meus soldados?

— SIM!

Para sua alegria, Pulcher começou a gritar:

— SPAR-TA-CUS!

A resposta foi dada de uma vez.

— SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS!

Castus tentou falar de novo, mas ninguém prestava atenção nele. O grito já se espalhava pelas tropas reunidas. Spartacus sorriu. “Como eu poderia deixá-los?” Ele fez um sinal aos músicos mais uma vez. O clamor dos homens diminuiu diante do som dos trompetes. Castus abriu a boca enquanto o som diminuía, porém Spartacus não aceitou.

— Eu os levaria ao sul de novo. Ao nosso velho solo pisado perto de Thurii, onde a terra é rica e fértil.

— E onde há muito o que saquear! — gritou o soldado.

— E mulheres para foder! — gritou outro.

— Isso! — Spartacus não gostava do modo como seus homens se comportavam às vezes, mas não tentava controlar todos os atos de indisciplina. As tropas encaravam mortes e estupros como parte de seu pagamento e, de certo modo, ele também. Se tentasse impedi-los de modo muito incisivo se voltariam contra ele. — No sul, continuaremos recrutando homens. Para treinarmos. Para nos armarmos. Para nos prepararmos para as legiões que virão atrás de nós.

— E vamos acabar com eles, como fizemos com as anteriores.

— Sim — concordou Spartacus, confiante. Por dentro, sua certeza não era tão forte. No entanto, escolhera seu caminho. Só podia seguir por ele agora, da melhor maneira que pudesse, com o máximo de homens que o acompanhasse. Uma parte dele já começava a se exultar ao pensar em derrotar mais exércitos romanos. — Podem marchar comigo para Thurii e para a vitória?

— SIM! — O soldado de elmo com crina de cavalo deu um soco no ar.

— SUL! SUL! — gritaram os homens mais próximos.

Dessa vez, os corredores não foram necessários. Todo mundo que ouviu o grito o repetiu, e a palavra se espalhou como fogo pelo comboio.

— SUL! SUL! — vociferavam os soldados, batendo os pés e as armas nos escudos.

Apesar de sua preocupação com o futuro, Spartacus se sentiu orgulhoso com aquele som.

— Seu trácio maldito. Você sempre tenta nos pegar, não é? — resmungou Castus ao subir na plataforma.

Ele se virou ao ouvir a voz de Castus.

— Tento? Acho que peguei.

Os lábios de Castus se entortaram numa careta quando ele deu um passo à frente.

— Você...

— Não na frente de meu exército — disse Gannicus. — Não agora.

Ofegante, Castus se calou.

— Quem lhes contou sobre Lucullus? — Spartacus exigiu saber com frieza.

— Não importa! — gritou Castus. — Você deveria ter dito aos homens que estava indo para a Trácia.

— Mudei de ideia.

“Tive que mudar”, pensou Spartacus.

Castus rangeu os dentes, porém manteve a mão longe da espada.

— Acredito que faremos companhia uns dos outros por mais um tempo, não é, Gannicus?

— Desfazer o exército agora só facilitaria as coisas para os romanos. Quando eles souberem que vamos em direção ao sul, pode ser que os cônsules unam forças. Eu não gostaria de enfrentar aquele exército com menos do que nosso poder total.

“Sempre sagaz”, pensou Spartacus.

— E depois disso?

— Encontraremos um momento adequado — respondeu Gannicus num tom dissimulado. Ergueu o dedo. — Mas se fizer outra gracinha como essa sobre Lucullus, partirei com todos os homens que quiserem me seguir.

— E eu também! — acrescentou Castus.

— Vocês podem fazer o que quiserem — rosnou Spartacus. “Vocês dão mais trabalho do que vantagem.” — Mas, até lá, lutaremos como um único exército?

Os gauleses se entreolharam e então assentiram.

— Sim — respondeu Gannicus. — Mas decidiremos toda estratégia juntos.

— Tudo bem. — “Vocês dois sabem que sou o melhor estrategista.” A mente de Spartacus foi tomada mais uma vez pela pergunta que o incomodava.

— Quem contou?

— É irritante não saber, certo? — perguntou Castus, rindo. Ele olhou para Gannicus. — Devemos dizer a ele?

— Não vejo motivo para não contarmos. Ele vai logo descobrir.

— Arnax — revelou Castus.

— Arnax? — “Claro.” — Ele também estava em Módena.

— Isso mesmo. Ele ouviu cada palavra que seus cães romanos escutaram. Não demorou muito a me contar. Um pouco de amizade, algumas refeições quentes. Uma ou duas moedas. Cantou como um passarinho. Um bom jovem.

— Compreendo — disse Spartacus num tom casual. Por dentro, fervia de ódio. Que erro idiota! Quando dissera a Carbo para não contar a ninguém, não pensou no garoto. Controlou a fúria com esforço.

— Se fosse você, tomaria mais cuidado a partir de agora — disse Castus.

Gannicus riu.

— Está me ameaçando?

— Eu? Ameaçar você? — O tom de Castus era de ironia.

— Saia daqui — mandou Spartacus. — Se não quiser lutar agora.

Castus riu e cuspiu.

— Vamos, Gannicus. Algo aqui não cheira bem. — Com as pernas rígidas, como cães machos se afastando de um rival, os gauleses desceram da plataforma.

Spartacus observou os dois se afastarem. Depois de Crixus deixar suas intenções bem claras, ele ficou aliviado ao vê-lo partir. Mas esperava que os outros dois e ele pudessem estabelecer algum tipo de relação de trabalho. Manter o exército unido por pelo menos mais alguns meses. Assim, Spartacus teria tempo suficiente para encontrar novos recrutas para substituir os homens que partiriam.

Percebeu que, depois de ter conseguido segurança, decidira voltar para a cova dos leões. Permanecer na Itália era uma provocação do pior tipo, maior até do que o munus que havia promovido. Os romanos nunca os deixariam em paz. Até onde Spartacus sabia, o Senado não havia apelado à paz em sua terra desde que perdera a guerra para os samitas havia mais de dois séculos atrás. Não fariam isso com um escravo.

Olhou para Ariadne, ainda pensando em qual seria a resposta dela.

— Eu não tive escolha. Vi que Castus e Gannicus sabiam sobre Lucullus. Maldito Arnax! É tudo culpa dele. Vai se arrepender em breve.

— O que você vai fazer com ele?

— Vou crucificar o maldito. É o que ele merece.

Ela o encarou com horror.

— Você não pode fazer isso.

— Não fosse por ele, o exército poderia ter feito o que pedi! Era o que você queria, certo?

— Talvez, mas não quer dizer que eu mataria uma criança por isso. Ainda mais uma criança que não sabia de nada. Ninguém disse a ele para não contar nada.

— Não importa — retrucou ele. — Homens ou garotos, ou estão comigo, ou contra mim.

Ariadne pensou no bebê em seu ventre e na juventude de Arnax. “Eles têm um pouco mais do que uma década de diferença”, pensou ela. E revoltou-se.

— Se fizer isso, corre o risco de despertar a ira dos deuses contra você e seu exército. Posso ver isso.

Ele a encarou por um momento. Ela não desviou o olhar, desafiando-o a rebater.

— Muito bem. Só vou dar uma boa surra nele.

Ariadne suspirou aliviada. Ele ainda não havia se tornado totalmente irracional.

— Se eu não tivesse mudado de rumo naquele momento, eles teriam me acusado de mentir — disse ele num tom conciliador.

— Eu sei.

— Este é meu exército, não deles. Não o entregarei a eles de jeito nenhum.

— Sei disso também.

Spartacus achou que a voz dela parecia menos irada do que antes, porém não teve certeza.

— A guerra está apenas começando. Será mais amarga e mais sangrenta do que qualquer outra coisa que tenha acontecido até aqui. — Ele queria pedir para que ela ficasse, mas seu orgulho não permitiria. — O que você vai fazer?

“Se eu ficar, nosso filho nascerá na Itália. O que acontecerá conosco, grande Dionísio?” O silêncio que se seguiu foi perturbador, mas Ariadne se manteve firme. Decidira aceitar Spartacus como ele era. Faria o melhor que pudesse da situação, ainda que não fosse o que ela queria.

— Você é meu marido. — Ela se colocou ao lado dele. — Não me separaria de você. Enfrentaremos o futuro juntos, como sempre fizemos.

— Fico contente.

Puxando-a para si, Spartacus observou o exército. O orgulho tomou conta dele de novo. O contingente de soldados de Roma podia ser enorme. A determinação destes podia ser infinita. As tarefas diante dele podiam ser comparadas àquelas enfrentadas por Hércules. Contudo, ele tinha mais de cinquenta mil soldados corajosos que o seguiriam até a entrada de Hades. Os gauleses partiriam, mas perdas em suas tropas poderiam ser substituídas. Mais escravos se uniam a eles todos os dias.

“Dê-me tempo, Grande Cavaleiro, e eu poderei formar um exército de cem mil homens ou mais. Isso fará os senadores tremerem na base. Principalmente se um dia chegarmos aos portões de Roma.”