Vigilância alimentar e nutricional e a rede de saúde

Inês Rugani R. de Castro · Capítulo 15 de 33

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Vigilância alimentar e nutricional e a rede de saúde

Situação nutricional de adultos

Entre os principais determinantes destes avanços globais no perfil nutricional da população infantil estão: queda da fecundidade, urbanização, redução da prevalência de pessoas abaixo da linha de pobreza absoluta, aumento das coberturas vacinai e de serviços de saneamento básico, ampliação da rede básica de assistência e das práticas de atenção primária à saúde, aumento da proporção alfabetizada e com escolaridade elementar na população (em especial as mulheres) e ampliação dos meios de comunicação de massa 86,89,112.

Além disto, parece ainda ser positivo o balanço econômico global do período 1975-1989, apesar da grave crise econômica deflagrada na década de 80, com aprofundamento da concentração de renda, aumento estupendo da inflação, deterioração dos níveis de renda da população e recrudescimento da pobreza absoluta.

Observe-se, portanto, que o que garantiu os avanços no estado nutricional da população infantil não foi a melhoria dos níveis de renda em si, mas a ampliação do entitlement, ou oportunidade de acesso, definida por Drèze & Sen (1989, p. 23) como "o conjunto de bens e serviços que podem ser adquiridos através do uso de vários canais legais de aquisição abertos para aquela pessoa" (tradução transcrita de Iunes & Monteiro, 1993, p.55).

É como se os ganhos da década de 70, principalmente nos cinco primeiros anos, tivessem uma inércia suficiente para se manterem ao longo do período recessivo que se seguiu. Nada garante, no entanto, que este perfil não se reverta, caso a deterioração dos níveis de renda se mantenha.

Vale lembrar que os avanços globais da população infantil se deram de forma heterogênea te/Nordeste versus Sul/Sudeste/Centro-Oeste). Isto reflete os investimentos também heterogêneos, nestas regiões, em termos de saneamento básico, cobertura vacinai e de serviços de saúde, entre outros.

Situação nutricional de adultos Para a análise do perfil nutricional de adultos, aqui assumidos como indivíduos com 18 anos e mais, será usado o índice de massa corporal (IMC), que é a razão entre a massa corporal (em quilogramas) e o quadrado da estatura (em metros). Embora apresente limitações, este ainda é o índice que, através de medidas antropométricas globais bastante difundidas, melhor reflete indiretamente a composição corporal de adultos 2.

As situações de baixo peso, normalidade, sobrepeso e obesidade foram definidas como sendo as seguintes faixas de IMC, respectivamente: <20; 20-24,9; 25-29,9 e = >3044.

Os resultados da PNSN3,43,44 indicam que a prevalência de baixo peso é semelhante, em torno de 16%, entre homens e mulheres

(Figura 16), concentrando-se nas faixas etárias extremas (Figura

17). O diferencial de renda, pouco relevante entre os jovens, intensifica-se a cada faixa etária, atingindo os valores mais altos entre os idosos. Ou seja, os indivíduos com 65 anos e mais, com renda mais baixa, apresentam prevalências superiores de baixo peso. Este diferencial também se faz presente entre as regiões geográficas e entre os meios rural e urbano, com frequências mais altas no Nordeste e no meio rural.

Figura 16 - Baixo peso, sobrepeso e obesidade em adultos por

gênero, PNSN, 1989. Desenhada a partir de dados obtidos em

Coitinho, Leão, Recine, & Sichieri (1993).

 

Figura 17 - Baixo peso em adultos (IMC<20) por gênero, PNSN,

1989. Desenhada a partir de dados obtidos em Coitinho, Leão,

Recine, & Sichieri (1991).

Em relação ao excesso de peso, os achados são bastante diferentes: 32% da população adulta apresentam sobrepeso ou obesidade: entre os homens, os percentuais estão em torno de

27%; entre as mulheres, 38% (Figura 16). De modo geral, as discrepâncias entre os gêneros, com maiores prevalências de sobrepeso e obesidade sistemáticas entre as mulheres, aparecem independentemente da renda e situação de moradia, sendo maior no meio rural e nas rendas mais baixas.

Estas prevalências aumentam até a faixa de 45 a 54 anos, quando então, nos homens, decrescem um pouco e, nas mulheres, mantêm-

se relativamente estáveis (Figura 18). Embora haja uma tendência semelhante em relação às faixas etárias nos diferentes níveis de renda, observa-se um importante gradiente entre os homens: 16% de excesso de peso nos mais pobres e 44% nos mais ricos. Entre as mulheres, um diferencial menos marcado: 31 e 41%, respectivamente.

 

Figura 18 - Excesso peso em adultos (IMC=> por gênero, PNSN,

1989. Desenhada a partir de dados obtidos em Coitinho, Leão,

Recine, & Sichieri (1991).

Todas as regiões geográficas apresentam prevalências importantes de sobrepeso e obesidade, variando de 24%, no Nordeste, a 38,7%, no Sul, havendo, também aqui, um claro gradiente entre elas. Em números absolutos, o Sudeste apresenta a pior situação: mais de 10 milhões de adultos apresentam excesso de peso, dos quais mais de 3 milhões são obesos. O Nordeste e o Sul, embora sejam os extremos no gradiente de frequência percentual, apresentam contingentes semelhantes, cerca de 5 milhões, nesta situação nutricional.

Quanto à situação de moradia, registram-se valores ligeiramente maiores no meio urbano para ambos os gêneros e todas as faixas de renda, exceto para as mulheres de renda mais alta. Nelas a tendência se inverte: as maiores prevalências ocorrem entre as do meio rural.

Comparando-se com países desenvolvidos, o Brasil apresenta menos excesso de peso e, curiosamente, maior prevalência de obesidade entre as mulheres, superando, por exemplo, o Canadá, o Reino Unido, a Holanda e a Austrália.

Complementando esta constatação, Anjos, Silva, Serrão & Silva (1992) observaram que mais de 50% das mulheres faveladas atendidas em determinado serviço de atenção primária à saúde apresentaram excesso de peso. Este se faz presente, em média, entre os 30 e 40 anos, enquanto, entre as norueguesas, este ocorre entre os 40 e 50 anos. Embora sejam pontuais, estes dados levantam um questionamento relevante para a análise da situação nutricional da população brasileira, qual seja o da precocidade do aparecimento do excesso de peso, ao menos entre as mulheres.

Em linhas gerais, tendo sido ajustada a estrutura etária de 1989 para aquela vigente em 1974, os resultados da PNSN, quando comparados aos do ENDEF, apontam para queda da prevalência de baixo peso e aumento do sobrepeso e obesidade para ambos os gêneros, mantendo-se semelhantes as frequências de indivíduos

com estado nutricional adequado (Figura 19). Estes achados são semelhantes aos de outros países da América Latina, nos quais o excesso de peso tem também aumentado153.