Vigilância alimentar e nutricional e a rede de saúde
Prefácio
O tempo verbal do SISVAN acha-se no particípio presente: é um instrumento que ainda está se fazendo, num processo construtivo elaborado mais a partir de conceitos que propriamente de usos validados interna e externamente pela experiência técnica, científica, política e administrativa. Sua história, de apenas vinte anos, alcançaria somente o limiar da maioridade formal de uma pessoa física, juridicamente autônoma para responder pelos próprios atos.
Pode parecer prematura, portanto, a resenha retrospectiva que Inês Rugani faz do SISVAN, numa abordagem meta-analítica, com o "agravante" de que a própria autora é também uma quase adolescente, com seus vinte e poucos anos de vida.
Na realidade, o estudo e a autora são exemplos ilustrativos e interativos de que não poderia existir um sistema métrico decimal para aferir, com a escala inelástica dos padrões, a compreensão dos fatos e processos mais recentes, face à própria aceleração que caracteriza os tempos modernos. Há muito mais densidade de eventos e de pensamentos nos vinte anos mais próximos do que no curso anterior de um século, face às mudanças "metamorfósicas" que marcam o ritmo exponencial dos fatos nos tempos atuais.
O SISVAN é um enorme desafio, tal o alcance de seu discurso, em busca de uma equidade que as Nações Unidas consideram desejável e possível: a superação das desigualdades retratadas no perfil epidemiológico das doenças relacionadas com a situação alimentar e nutricional. Na busca deste objetivo maior, o SISVAN assumiu conceitos, direções, perplexidades, propostas, limitações e responsabilidades variadas e às vezes conflitivas, como se depreende da excelente análise apresentada por Inês Rugani neste livro pioneiro que a Fiocruz em boa hora lança no mercado editorial, com todas as condições para se converter num marco historiográfico do SISVAN no Brasil e no mundo.
Mesmo sendo um livro para pensadores, trata-se de uma publicação de elevado alcance pragmático, na medida em que questiona e fornece elementos de decisão para os formuladores de políticas, planejadores e executores de programas e atividades de alimentação e nutrição, especialmente no contexto do setor saúde. Ainda com o risco de confessar sentimentos menores, é com uma sensação íntima (e aqui já explícita) de inveja que registro, como profissional em fim de carreira, o lançamento desta publicação que consolida a contribuição brasileira no campo ainda indefinido da vigilância alimentar e nutricional.
Valeu, Inês. Valeu pela equipe que você nomeia como atores da experiência pioneira da Escola Nacional de Saúde Pública. Valeu e vale pelos que fazem o SISVAN no Brasil e na América Latina, e que devem consultar este livro como uma referência obrigatória para se posicionar face às questões e desafios desta proposta inovadora e até revolucionária, que é a vigilância alimentar e nutricional.
Suas reflexões finais são antológicas, no sentido de se evitar o apriorismo "politicamente ingênuo, operacionalmente ambicioso, embora teoricamente elegante" mencionado pela ORALC/FAO, numa observação crítica sobre o modelo convencional da planificação nutricional na América Latina e até no mundo.
Malaquias Batista Filho