Vivendo com propósitos
6. Propósitos
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PROPÓSITOS
DEFININDO OS TERMOS
Metas, objetivos e propósitos são palavras entrelaçadas que, para a maioria
das pessoas, querem dizer exatamente a mesma coisa: pontos de chegada. Os
manuais de planejamento e de gestão multiplicam-se e, com eles, também
cresce o número de de nições possíveis para os termos. Na verdade, o mais
comum é que cada autor use as palavras de acordo com sua conceituação
particular: o que um chama de meta o outro chama de objetivo, e o que o
outro chama de propósito, aquele um chama de meta, e assim por diante, até
que ninguém se entende numa reunião porque todos estão usando as
mesmas palavras, mas com sentidos diversos. Tudo porque cada um leu um
manual diferente, e ninguém se preocupou em uni car a linguagem.
A coisa não poderia mesmo ser diferente. As de nições do Dicionário
Aurélio, por exemplo, ajudam, mas não esclarecem. Precisamos montar o
quebra-cabeça dos conceitos, e o melhor que temos a fazer é redigir nosso
próprio Aurélio: cada um escreve o seu dicionário e, depois, no meio das
conversas faz as adequações necessárias do tipo “ele está falando de objetivo,
mas pra mim isso é meta, tudo bem, já entendi, vamos em frente”. Fiz o meu
Aurélio particular e convido você a me acompanhar no raciocínio. Primeiro,
vamos ao Aurélio de verdade.
meta. [Do lat. meta.] S. f. 1. Poste, marco, cordel ou qualquer outro sinal que indica ou demarca o ponto nal das corridas (de pedestres, de cavalos, de regatas etc.): O jóquei levou o potro além da meta. 2. V. gol (1). 3. Baliza, barreira, marco, limite: as metas da pista. 4. Alvo, mira, objetivo: “E quando o leitor tem mais altas ambições, visa também seu ideal ponto de chegada ou sua meta negaceadora: a
loso a da literatura ou a discussão dos problemas gerais da literatura” (Fidelino
de Figueiredo, Um homem na sua Humanidade, p. 162) 5. Termo, limite, m: a meta do asteroide; a meta da vida. [Pl.: metas. Cf. meta (ê) e metas (ê), do v. meter.]
objetivo. [De objeto + -ivo.] Adj. 1. Relativo ao objeto. 2. Prático, positivo. 3. Filos. Diz-se do que é válido para todos, e não apenas para um indivíduo. 4. Diz-se de fenômeno natural que se determina conforme os critérios cientí cos vigentes. ~ V. complemento –, direito –, idealismo –, novação –a, pronome – e vertigem –a. • S. m. 5. Mat. No método interativo, o valor nal para o qual convergem progressivamente os resultados das sucessivas interações. 6. Objeto. propósito. [Do lat. propositu.] S. m. 1. Algo que se pretende fazer ou conseguir; intenção, intento, projeto. 2. Deliberação, determinação, decisão, resolução. 3. Modo sisudo; tino, prudência. 4. Relação, ligação. 5. Fim a que se visa. [Cf. prepósito.] A propósito. 1. A respeito. 2. Oportunamente, convenientemente. 3. V. por sinal. A propósito de. 1. Pelo fato de. 2. Com respeito a. De propósito. 1. Por querer; por acinte; intencionalmente, adrede. Fora de propósito. 1. Alheio ao assunto ou às circunstâncias presentes; despropositado.
nalidade. [De nal + (i)dade; lat. tard. nalitate, “desinência”, “terminação”.] S. f.
1. Fim a que se destina uma coisa; objetivo, alvo; destinação. 2. Causa nal, i.e., explicação intelectual dum fenômeno pelos acontecimentos que se lhe seguem, pelo m a que ele se destina. Finalidade externa. Filos. 1. A que tem por m um ser diferente daquele que (total ou parcialmente) é meio de realizar esse m. Finalidade imanente. Filos. 1. A que resulta da natureza e do desenvolvimento do próprio ser em que aparece. Finalidade interna. Filos. 1. A que tem por m o próprio ser cujas partes são consideradas como meios. Finalidade transcendente. Filos. 1. A que se realiza em um ser pela ação que sobre ele exerce outro ser visando ao m considerado.
Minhas de nições pessoais indicam que a meta está relacionada com
pontos mensuráveis de uma caminhada e dizem respeito a pontos de
chegada ou a paradas para avaliação. A meta é o lugar de nitivo ou
intermediário onde eu quero chegar. A meta responde à pergunta aonde? O
objetivo, por sua vez, está relacionado com o que se pretende caso a meta
seja alcançada. O objetivo justi ca a meta. O objetivo responde à pergunta
para quê? O propósito está relacionado com a motivação pela qual se busca
um objetivo. O propósito é aquilo de que estou imbuído ao me mover em alguma direção. O propósito está relacionado com a nalidade, e a nalidade
é algo intrínseco à natureza do próprio ser, que age em direção às suas metas
e objetivos. O propósito é a programação interior que me coloca em
movimento em certa direção. O propósito é a razão por que algo existe ou é
feito. O propósito responde à pergunta por quê?
Em síntese, o propósito é algo que vem de dentro, que faz parte da minha
natureza e identidade e que naturalmente me leva a buscar algumas coisas
em detrimento de outras. Para alcançar essas coisas que estou buscando
(objetivos), estabeleço alguns padrões de medida (metas), isto é, maneiras
de saber se estou chegando aonde quero chegar. Dando asas à imaginação,
podemos trilhar os caminhos de La Fontaine e imaginar que o Vento
perguntou ao Fogo a razão pela qual estava derretendo a ponta do cordão, e
ele respondeu que estava preocupado em não deixar o cordão des ar, mas,
no fundo, no fundo, gostava mesmo era de queimar. Derreter a ponta do
cordão era a meta. Evitar que o cordão des asse era o objetivo. Queimar era
o propósito, pois o fogo foi feito para queimar. Na moringa sobre a pia da
cozinha estava a Água, ouvindo a conversa entre o Vento e o Fogo. Naquele
instante, pensou: “Também tenho uma meta: ser bebida até o m da tarde, e
um objetivo: matar a sede de alguém, porque para isso existo, esse é o meu
propósito: sou Água, fui feita para molhar”.
ILUSÃO, FRUSTRAÇÃO E FELICIDADE
Conheço pessoas que têm meta, mas não têm objetivo nem propósito.
Tratam as metas como um m em si mesmo. Conseguem alcançar suas
metas, mas não sabem explicar a razão por que tanto se sacri caram.
Cruzam a linha de chegada com uma sensação de vazio e não se conformam
que o sucesso em atingir a meta não tenha repercutido em qualquer
mudança em sua vida ou num mínimo de realização. Essas pessoas,
geralmente, vivem de acumulação. Acumulam bens, mas nunca desfrutam
de suas posses. Acumulam romances, mas nunca se satisfazem afetivamente. São pessoas movidas pela conquista, e a conquista para elas é um m em si
mesmo. Jamais estão satisfeitas. É o que Schopenhauer resume ao a rmar
que “a vida oscila, pois, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do
sofrimento ao tédio”.l Sofrimento, porque há desejo sem posse, e tédio,
porque há posse sem desejo. Quem tem meta sem objetivo nem propósito
não é capaz de satisfazer-se com suas conquistas, porque as conquistas não
podem ser encaradas como ns em si mesmas.
Conheço também pessoas que têm objetivos e propósitos, mas que não
têm metas. Não conseguem sair do lugar, pois faltam os passos práticos na
direção de seus objetivos. Essas pessoas geralmente convivem com imensas
frustrações em razão de desejos não satisfeitos, mas, na verdade, não sabem
o que poderia trazer tal satisfação. Desejam conforto para a família, viver
um grande amor, ganhar dinheiro, obter reconhecimento entre os pares,
mas não conseguem identi car, ao certo, quais seriam as experiências que
resultariam na realização de tais objetivos. São pessoas que pensam de
maneira abstrata e que enxergam di culdade em tudo. Diferentemente dos
que vivem de acumulação, gente assim vive de ilusão. Têm sonhos sem trem
de pouso.
Há também os que têm metas e objetivos, mas não têm propósito. Esses
são os mais infelizes. Stephen Covey fala daqueles que subiram a escada do
sucesso e descobriram que a escada estava escorada na parede errada, mas
de fato, as pessoas que têm metas e objetivos, mas não têm propósito,
escoraram a escada em parede nenhuma. Sua peregrinação rumo aos
objetivos por meio das metas não encontra sustentação. Chegam lá, mas é
como se não tivessem chegado. Conseguiram alcançar a meta de comprar a
casa para realizar o objetivo de dar mais conforto para a família, mas se
esqueceram de perguntar se era mesmo o conforto o que traria a todos o
senso de plenitude. Essas pessoas não vivem nem de acumulação nem de
ilusão. Vivem de frustração. Cruzam a linha de chegada e caem no vazio, percebendo que a conquista da meta e a realização do objetivo não supriram
as fomes essenciais e reais anseios do coração.
Isso explica por que o mundo está cheio de gente infeliz sem saber por
que, ou, pior, gente infeliz que acredita ter tudo para ser feliz. Alcançaram
suas metas, mas isso não bastou. Concretizaram seus objetivos, mas isso não
satisfez. Realizaram seus desejos, mas isso de nada adiantou. A razão é
simples: a felicidade não é um lugar aonde se chega, mas sim um jeito como
se vai.
PROPÓSITOS
André Comte-Sponville explica que “virtude é poder, mas poder especí co.
A virtude do heléboro não é a da cicuta, a virtude da faca não é a da enxada,
a virtude do homem não é a do tigre ou da cobra. A virtude de um ser é o
que constitui seu valor, em outras palavras, sua excelência própria: a boa
faca é a que corta bem, o bom remédio é o que cura bem, o bom veneno é o
que mata bem”.2
E quanto ao ser humano, como se aplica esse conceito de virtude? Dessa
vez, Comte-Sponville socorre-se de Aristóteles, que disse que a virtude é
uma maneira de ser, adquirida e duradoura, é o que somos, porque assim
nos tornamos, pois “a virtude de um homem é o que o faz humano”. Mas, se
a virtude da faca é cortar, do remédio é curar e do veneno é matar, qual é,
pois, a virtude do ser humano? Creio, conforme venho tentando
demonstrar, que a virtude do ser humano é derivada de Deus, pois fomos
criados à imagem e semelhança de Deus.
Para que sejamos plenamente humanos, devemos nos render à nossa
natureza. Devemos concretizar as nalidades nela embutidas. Estamos
destinados a expressar o divino, a re etir o divino, a representar o divino, a
manifestar o divino em todo o Universo. Viver em alinhamento com a
imago Dei é nossa única opção de humanidade. Viver cumprindo as
nalidades segundo as quais fomos criados é o nosso desa o, ou seja, realizar os propósitos inerentes ao fato de sermos imagem e semelhança de
Deus.
“Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso;
viver não é preciso’. Quero para mim o espírito desta frase, transformada a
forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é
criar. Não conto gozar a minha vida, nem em gozá-la penso. Só quero torná-
la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a
lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para
isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez
mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de
engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.”
Assim Fernando Pessoa expressou o caminho por meio do qual pretendia
dar sentido à sua vida. Viver seria pouco. Era necessário criar. De fato, não
basta viver, no sentido de passar pela existência. É preciso concretizar as
nalidades que justi cam nossa existência. Conforme vimos no último
capítulo, a imago Dei no ser humano tem quatro dimensões básicas:
essencial, pessoal, relacional e criativa. Dessas dimensões, derivamos quatro
propósitos universais à luz dos quais todo ser humano deve viver:
transcender, crescer, conviver e construir.
Podemos parafrasear Fernando Pessoa: viver não é necessário, é preciso
transcender. A dimensão essencial da imago Dei faz dos seres humanos os
únicos capazes de uma interação de unidade com o divino. O propósito de
transcender implica experimentar a unidade entre o espírito humano e o
Espírito de Deus, estabelecer conexão, desenvolver um relacionamento
pessoal, afetivo e eterno. O estágio nal do propósito de transcender é a
participação na natureza divina. 3
Viver não é necessário, é preciso crescer. A dimensão pessoal da imago
Dei faz do ser humano o único a compartilhar dos atributos pessoais de
Deus: mente e razão, emoções e sentimentos, vontade e consciência,
autoconsciência e autodeterminação. O propósito de crescer implica desenvolver ao máximo todas as potencialidades e capacidades da plena
humanidade. O estágio nal do propósito de crescer é a conformação à
pessoa de Cristo: ser como Cristo.
Viver não é necessário, é preciso conviver. A dimensão relacional da
imago Dei faz do ser humano o único a compartilhar da unidade plural da
identidade divina: Deus é Três. O propósito de conviver implica desenvolver
plenamente vínculos de amor e de afeto. O estágio nal do propósito de
conviver é a unidade da raça humana, em que cada ser humano
compreende-se e experimenta-se como um entre pares: eu sou ele, e ele sou
eu.
Viver não é necessário, é preciso construir. A dimensão criativa da imago
Dei faz do ser humano o único a compartilhar com Deus o domínio sobre
todo o Universo criado. O propósito de construir implica cooperar com
Deus para colocar ordem no caos e para manter o caos em ordem. O estágio
nal do propósito de construir é a restauração da harmonia cósmica, em que
todas as coisas, nos céus, na Terra e debaixo da terra, serão reconciliadas sob
o governo de Deus, a saber, o Reino de Deus, em que a vontade de Deus é
feita assim na Terra como no céu.
NO TRIBUNAL DA CONSCIÊNCIA
Há um jeito de viver que resulta em experiência de plenitude. E esse jeito de
viver in depende das conquistas e circunstâncias. Esse jeito de viver é que
estou chamando de vivendo com propósitos: viver em alinhamento com
nossa identidade mais profunda, sabendo que nossa identidade mais
profunda é a imagem de Deus.
Uma das mais elevadas compreensões do cristianismo está registrada nas
palavras de C. S. Lewis, em seu Cristianismo puro e simples, o qual mostra
que toda tentativa de viver em desalinho com Deus é frustrada na origem.
Lewis diz que:
A felicidade que Deus destinou às suas criaturas superiores é a felicidade de estarem livre e voluntariamente unidas a ele e umas às outras, num êxtase de amor e alegria [...] Deus nos criou do mesmo modo como um homem inventa um motor. Ora, um automóvel feito para andar com gasolina não andará bem com nenhum outro combustível; e Deus projetou a máquina humana para andar à base dele mesmo. Ele é o combustível que o nosso espírito foi projetado para queimar, o alimento que fomos feitos para consumir; não há nenhum outro. É por esse motivo que não adianta pedir a Deus que nos deixe ser felizes à nossa maneira, sem termos de nos preocupar com “religião”. Deus não pode nos dar uma felicidade e uma paz independentes dele, simplesmente porque não existem.
Não há sucedâneos para ele.4
As expressões “queimar o combustível divino” e “consumir o alimento
divino” são apenas outra maneira de dizer que devemos viver de acordo com
a imago Dei.
Creio que, no último dia de nossa vida, antes de atravessarmos o rio
rumo à eternidade, passaremos pelo tribunal da consciência, em que nós
mesmos julgaremos a vida que tivemos. Seremos ao mesmo tempo réus e
juízes. Naquele dia, deveremos estabelecer o veredicto a respeito do sentido
da vida e concluir se valeu ou não a pena viver. Naquele dia, não fará a
menor diferença a casa onde moramos, o carro que dirigimos, as vezes que
visitamos a Europa, os diplomas que penduramos na parede, o número de
romances que tivemos ou as roupas que vestimos. Acredito que estaremos
diante de quatro perguntas, cada uma delas ligada à imagem de Deus e aos
propósitos pelos quais deveríamos ter vivido. São elas:
Onde está Deus?
Que tipo de gente eu me tornei?
Onde estão as pessoas que eu amo e que me amam?
Qual foi minha contribuição para o bem da raça humana?
Vivendo com propósitos é um caminho para que você comece a responder
a essas perguntas desde já. Tenho certeza de que sua vida fará sentido e você
estará no caminho em que é possível experimentar a plenitude da vida.
Quando essas respostas estiverem claras em sua mente e coração, e você
começar a viver de acordo com elas, a peregrinação existencial-espiritual
será uma aventura fascinante e compensadora. Mas Vivendo com propósitos
é apenas um mapa, um guia de viagem, um roteiro. Isso signi ca, pelo
menos, duas coisas. A primeira é que o mapa jamais substitui a realidade. O
mapa é apenas um registro limitado da leitura do peregrino, apenas as
anotações que o peregrino conseguiu fazer ao longo de sua jornada. Por
mais exato que o peregrino tente ser, o mapa sempre conterá equívocos e
imperfeições, pois a realidade é sempre maior do que o que o peregrino
consegue enxergar, e o que ele conseguiu enxergar é também maior do que o
que conseguiu registrar. A segunda observação, à luz dessa metáfora do
mapa, é que o estudo do mapa jamais substitui a peregrinação. Nenhum
peregrino contenta-se em conhecer mapas, pois o que todos desejam mesmo
é pisar o chão e descobrir novas trilhas que os peregrinos anteriores não
conseguiram perceber, ou por não as registrarem, ou porque não tiveram
coragem de registrá-las.
SÍNTESE
Imago Dei Derivações Propósitos Perguntas
Compartilhar a essência espiritual
Onde está
Essencial de Deus: Deus é espírito, poder Transcender
Deus?
pessoal incorpóreo
Pessoal de Deus: mente, sentimentos, gente eu me Crescer tornei? vontade, autoconsciência, Compartilhar os atributos pessoais Que tipo de
consciência Imago Dei Derivações Propósitos Perguntas
Onde estão
Compartilhar a natureza plural de as pessoas
Relacional Deus: Deus é Três, uma unidade Conviver que eu amo
entre iguais e que me
amam?
Qual foi
Compartilhar com Deus a minha
responsabilidade de ordenar o contribuição
Criativa Construir
caos e de exercer domínio sobre o para o bem
Universo da raça
humana?