Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 13 de 28

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Vivendo com propósitos

10. Modelo

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MODELO

 

ANTROPOLOGIA

Devo confessar uma falha grave. Talvez imperdoável, dependendo do seu

grau de exigência. Fiz o que pude, mas não consegui chegar a uma

conclusão. Não sei lhe dizer se o ser humano é composto de corpo, alma e

espírito, ou apenas de corpo e alma, ou de corpo e espírito. Não consegui me

posicionar em termos de nitivos entre dicotomia e tricotomia, como dizem

os teólogos. Imagino que você pode ser um dos que carão frustrados, mas,

por favor, perdoe-me.

Já passei por várias fases. Já acreditei em homem = corpo + alma +

espírito. O corpo, a energia biológica; a alma, a sede dos pensamentos,

sentimentos e vontade; e o espírito, a energia vital divina. Mas não consegui

conciliar isso com minha convicção a respeito de Deus, que tem

sentimentos, pensamentos e vontade, mas não tem alma, pois é Espírito.

Imaginei tratar o espírito humano como “energia divina”, mas Deus é uma

pessoa e não uma energia. O espírito é dotado de pessoalidade e, nesse caso,

o ser humano teria, dentro de si, duas pessoas: uma na alma e outra no

espírito. Alguns inclusive conseguem essa proeza antropológica: dizem que

o ser humano tem sentimentos da alma e sentimentos do espírito,

pensamentos da alma e pensamentos do espírito, vontades da alma e

vontades do espírito. Fazem do ser humano um monstro de, no mínimo,

duas cabeças.

Já imaginei também que o ser humano longe de Deus teria apenas corpo

e alma e que a partir do “novo nascimento”l receberia o espírito, isto é, o

Espírito. Mas o apóstolo Paulo disse que o Espírito conversa com o nosso

espírito, 2 e, nesse caso, não pude deixar de considerar que um é o espírito

humano e outro o Espírito de Deus. Pensei, então, que o espírito humano

poderia estar morto e que viesse a receber vida – vitalidade a partir do novo

nascimento. Mas, ainda que estivesse morto, seria um espírito e, depois que

ganhasse vida, passaria a competir com a alma, ou o quê? Cheguei a avaliar

a possibilidade de alma e espírito serem termos sinônimos, o que seria uma

boa saída. Mas, então, o apóstolo Paulo disse que devemos dedicar a Deus

tanto o corpo quanto a alma e também o espírito.3 Acho isso grego demais.

Muito parecido com Platão e Aristóteles, mas está na Bíblia e tenho de

encontrar uma gaveta para colocar essa coisa. Acredito que esse arranjo de

Paulo é uma coisa mais didática do que descritiva. A Bíblia também diz que

devemos amar a Deus de toda a alma, de todo o coração, de todo o

entendimento, de toda a força,4 e nem por isso está dizendo que o ser

humano é constituído de alma-conhecimento-coração-entendimento-força.

 

GREGO DEMAIS

A de nição do conjunto de dotações que constituem a natureza humana e

que distingue o humano do não humano ocupa muitas páginas de discussão

entre os teólogos e lósofos cristãos. A evolução do pensamento losó co

pode ser compreendida a partir dos pré-socráticos, como Demócrito e

Heráclito, chamados de naturalistas, que procuravam respostas para a

natureza ou o fundamento último das coisas. Sócrates (470-399 a.C.), por

sua vez, procurava respostas para a natureza ou para a realidade última do

homem. Propôs que “o homem é a sua alma” – psyché: a sede racional,

inteligente e eticamente operante; a consciência e a personalidade intelectual

e moral. Dizia que uma coisa é o instrumento que se usa e a outra é o sujeito

que usa o instrumento. O homem usa seu corpo como instrumento, e, nesse

caso, quando alguém pergunta “o que é o homem?”, a resposta não pode ser

“o corpo”, mas sim aquilo que usa o corpo, a saber, a psyché – “a alma”.

Platão, cujo verdadeiro nome era Aristocles (427-347 a.C.), discípulo de

Sócrates, seguiu na mesma trilha. Platão estabelecia uma diferença entre o

mundo das ideias e o mundo dos sentidos, o que implicava a distinção entre

a alma do homem e seu corpo. Disse que a natureza do homem é racional, e,

por consequência, na razão – mundo das ideias – realiza sua humanidade.

Essa natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento,

mas um obstáculo – de onde surge o dualismo corpo-alma, matéria-espírito

que vai in uenciar toda a loso a posterior. Aristóteles (384-322 a.C.)

também joga lenha nessa fogueira e, apesar das conhecidas divergências

com seu mestre Platão, dedica boas páginas à alma, que de niu como

princípio vital de todo organismo, e dividiu-a em três tipos: a alma

vegetativa, comum a todos os seres vivos; a alma sensitiva, compartilhada

pelos animais; e a alma racional, exclusiva do ser humano.

Nesse contexto losó co são escritas as páginas do Novo Testamento,

especialmente a teologia do apóstolo Paulo, que determina a antropologia

cristã. Na tradição cristã, essa discussão é extensa, e os chamados Santos,

Agostinho (354-430 d.C.), platônico, e Tomás de Aquino (1227-1274 d.C.),

aristotélico, têm lugar de destaque no palanque. Os dois, apesar de suas

distinções, realimentam a concepção de corpo e alma como entidades

distintas. Aquino chega a a rmar que a vida inicia quando a alma se une ao

corpo, dando a entender que a alma está em algum lugar à espera do corpo

em que vai encarnar. Agostinho, em sua obra a Cidade de Deus, faz oposição

entre sensível e inteligível, alma e corpo, espírito e matéria, bem e mal, ser e

não ser. Em outras palavras, a tradição cristã interpretou os escritos

apostólicos à luz da loso a grega, e esse foi o grande equívoco. Em vez de

usarem o Antigo Testamento e o pensamento judaico como pano de fundo

para sua compreensão do Novo Testamento, usaram os lósofos gregos.

Deveriam ter usado óculos da grife Moisés, Isaías, Jeremias, mas usaram

marcas mais populares e acessíveis no mercado: Sócrates, Platão e Aristóteles. Como disse Joshua Heschel, “os profetas estão ausentes quando

os lósofos se pronunciam”. 5

 

JUDAICO-CRISTÃO

Os autores do Novo Testamento utilizaram os mesmos termos dos lósofos

gregos para indicar o corpo, a alma e o espírito, porém com o sentido e o

pano de fundo do judaísmo vetero-testamentário, que apresenta o ser

humano como um todo indivisível.

 

O Novo Testamento também reconhece a distinção entre corpo e alma, ou melhor, entre homem interior e homem exterior. Porém, essa distinção não signi ca oposição, como se o homem interior fosse naturalmente bom e o exterior mal. Os dois são essencialmente complementares um ao outro, ambos foram criados bons por Deus. O homem interior sem o exterior não possui existência independente verdadeira. Tem necessidade do corpo. A diferença com respeito à alma grega é evidente: a alma grega sobrevive sem o corpo e somente sem o corpo pode alcançar seu pleno desenvolvimento. Nada disso ocorre na Bíblia. O corpo, segundo a concepção bíblica, tem necessidade, por sua vez, do

homem interior.6

 

A Bíblia não enxerga o homem como corpo, alma e espírito, mas sim

como pessoa. Wheeler Robinson diz que “a ideia hebraica de personalidade é

um corpo vivente e não uma alma encarnada. O hebraico não possui uma

palavra explícita para corpo: nunca se precisou dela, já que o corpo era o

homem”. Millard Erickson, em sua teologia sistemática, propõe que:

 

no Novo Testamento aparece a terminologia de corpo/alma, mas ela não pode ser associada à ideia de existência encarnada e desencarnada. A Escritura parece retratar os homens como seres unitários. Raramente menciona-se a natureza espiritual deles independentemente ou à parte do corpo. A Escritura indica que há um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, mas esse estado intermediário (i.e., imaterial ou desencarnado) é um estado claramente

incompleto ou anormal, pois na ressurreição a pessoa receberá um corpo novo. Na concepção da unidade condicional, nosso estado normal é um ser unitário materializado. Podemos pensar que cada ser humano é um composto unitário de um elemento material e outro, imaterial. O elemento espiritual e o físico nem sempre são distinguíveis, pois não há con ito entre a natureza material e imaterial. O composto pode ser dissociado (como o cloreto e o sódio no composto sal): a dissociação ocorre na morte. Mas na ressurreição é formado um novo composto, com a parte imaterial voltando a ser inseparavelmente ligada ao corpo. Isso faz lembrar o ditado que cou popularizado pela teologia da missão

integral: “corpo sem espírito é defunto; espírito sem corpo é fantasma”.7

 

Em síntese, não faz o menor sentido tratar o ser humano como

constituído de corpo, alma e espírito senão para efeitos didáticos. Mas o fato

é que tal efeito didático gera mais confusão do que esclarecimento, pois

reforça a noção grega de que o ser humano possui partes divisíveis e

estanques, nas quais o que acontece com uma não afeta a outra, o que é um

grande equívoco em relação ao ensino da Bíblia Sagrada.

 

O ERRO DE DESCARTES

A compreensão do ser humano como uma unidade indivisível corpo/alma é

mais coerente com as últimas conclusões cientí cas a respeito das relações

matéria-não matéria no ser humano. 8 Antonio Damásio discute as bases do

cartesianismo na formação da antropologia ocidental e suas in uências na

neurociência. René Descartes (1596-1650), com sua famosa proposição

“Penso, logo existo”, quer dizer que “eu soube que era uma substância cuja

essência integral é pensar, que não havia necessidade de um lugar para a

existência dessa substância e que ela não depende de algo material; então,

esse ‘eu’, quer dizer, a alma, por meio da qual sou o que sou, distingue-se

completamente do corpo e é ainda mais fácil de conhecer do que esse

último; e, ainda que não houvesse corpo, a alma não deixaria de ser o que é”.

Damásio denuncia que exatamente aí está seu erro: “a separação abissal

entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, in nitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, de um

lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensões e

intangível, de outro; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral, e o

sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir

independentemente do corpo. Especi camente: a separação das operações

mais re nadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do

organismo biológico, para o outro”.9

Toda essa volta para chegar a a rmações simples. A dimensão pessoal da

imago Dei é a unidade indivisível das partes constitutivas do ser humano, a

saber, as dimensões material e imaterial.

 

A BÍBLIA TEM RAZÃO

Nephesh, ruah e adamah. Essas são as três palavras hebraicas com as quais o

livro do Gênesis narra a criação do ser humano: “formou o Senhor Deus ao

homem do pó da terra (adamah) e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida

(ruah) 10 , e o homem passou a ser alma vivente (nephesh) ” Com essa

simplicidade a Bíblia insere o ser humano nas duas esferas da realidade:

material e imaterial; física e espiritual; imanente e transcendente. Minha

equação nal cou a seguinte: “pó da terra + fôlego de vida = alma vivente”.

Em outras palavras, o complexo mente-sentimentos-vontade, que em Deus é

atributo do Espírito, no ser humano ganha mais uma dimensão, a saber,

corpo, e essa soma entre os atributos do espírito mais um corpo físico é o

que a Bíblia chama de homem, ser humano, isto é, alma vivente. Alma é,

portanto, o conjunto corpo e espírito, sendo que corpo e espírito são

inseparáveis.

Mais uma vez, perdoe-me a simplicidade, mas não me interessa se corpo,

alma e espírito são três partes distintas, cada uma com seus atributos. Em

termos práticos, o fato é que o ser humano jamais conseguirá a experiência

de plenitude negligenciando qualquer uma das suas duas dimensões: pó da

terra ou fôlego de vida. Por esse motivo, gosto da máxima: “corpo sem espírito é defunto, e espírito sem corpo é fantasma”. Não sou defunto, nem

fantasma. Sou alma vivente, em que espírito e corpo são indissociáveis. Nem

o corpo é a prisão do espírito, porque o ideal de Deus nunca foi que eu me

libertasse de meu corpo. Ele não criou espíritos vocacionados a desencarnar.

Tampouco criou corpos vocacionados a se absolutizar. O que Deus criou foi

a alma vivente, isto é, a unidade inseparável corpo-espírito. Em outras

palavras, se há apenas espírito, não há ser humano, e se há apenas corpo,

também não há ser humano. O ser humano só existe quando existe a

unidade corpo-espírito. Isso é o que ensina a tradição judaico-cristã.

O que chamamos alma é o produto desse complexo corpo e espírito.

Aqueles que dizem que a alma é a sede dos pensamentos, sentimentos e

vontade esquecem que esses são atributos do espírito, pois Deus é Espírito,

não tem alma, mas tem pensamentos, sentimentos e vontade, já que é uma

pessoa – a Pessoa. A alma, no ser humano, determina a identidade singular

de cada pessoa, que não existe à parte de sua herança genética e que inclui

tanto fatores determinantes da aparência física quanto registros

psicoemocionais. Talvez seja essa uma das grandes diferenças entre a

tradição de espiritualidade judaico-cristã e as demais espiritualidades. Todas

as outras veem o corpo como obstáculo, prisão da alma, e apregoam que a

plenitude da vida é possível apenas ao desencarnado. A espiritualidade

judaico-cristã crê no corpo físico como imprescindível à existência humana.

O Credo dos Apóstolos, que tem sua origem nas con ssões batismais dos

cristãos do primeiro século, resume o que é imprescindível à fé cristã:

 

Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do céu e da Terra. Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi cruci cado, morto e sepultado; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.

Note que os eventos fundamentais da tradição de espiritualidade cristã

são corpóreos: encarnação, morte e ressurreição de Jesus e a promessa da

ressurreição do corpo de todo aquele que crê.

 

TENSÃO

Quer ver como funciona? Você deve ser igual a mim. Convive com uma

dupla aspiração e uma quase insolúvel tensão. Ao mesmo tempo em que

aspira à transcendência, está igualmente suscetível aos apelos da imanência:

o céu, mas não consegue abrir mão das boas coisas da Terra. Eu sei que você

é assim também. Busca a experiência de êxtase espiritual, mas não rejeita

uma manga-rosa, o cheiro de alecrim, o aroma do café tomando a casa pela

manhã, um banho de cachoeira, uma caminhada na beira da praia sentindo

a água gelada entre conchas e pedrinhas que massageiam os pés ao pôr do

sol, o barulho das ondas, a brisa fresca e leve, o cheiro de maresia.

Durante muito tempo, sentia-me culpado quando percebia momentos

em que estava muito mais interessado numa bacia de pipoca do que num

retiro para oração e meditação. Mas já me livrei desse peso. Robinson

Cavalcanti, bispo anglicano, disse que um bom número de pessoas deseja ser

anjo e outros tantos desejam ser bicho. Alguns querem apenas a dimensão

espiritual, enquanto outros, apenas a dimensão animal. Poucos são os que

desejam ser gente. Crescer para ser gente signi ca aprender a transitar entre

o pó da terra e o fôlego da vida, numa valsa que entrelaça os dois.

 

DUAS VIAGENS

Fui almoçar com dois amigos. Conversamos a respeito de valores e de

prioridades. A certa altura, um deles, com muita simplicidade, resumiu de

maneira extraordinária a proposta existencial cristã. Disse que queria

explicar isso para o lho pequeno e o fez da seguinte maneira: “Meu lho, no mundo você vai encontrar coisas que a gente pega e coisas que gente não

pega. As mais importantes são as que a gente não pega”.

Ele tem razão. Não podemos, não devemos e não precisamos viver

independentemente das coisas que a gente pega, pois somos pó da terra e

estamos imersos na contingência do universo material. Mas podemos e

devemos escolher dar primazia às coisas que a gente não pega, pois somos

fôlego de vida, e, portanto, vocacionados à transcendência.

Creio que foi isso o que Jesus quis dizer ao ensinar que seus discípulos

não deveriam andar ansiosos quanto ao que comer, o que beber, ou ao que

vestir, mas deveriam buscar em primeiro lugar o Reino de Deus.11 Henri

Nouwen explicou o sentido dessas palavras dizendo:

 

É importante que compreendamos que Jesus não quer que abandonemos nosso mundo multifacetado. Ele deseja que vivamos nele, mas rmemente enraizados no centro de todas as coisas. Jesus não fala em mudança de atividades, em mudança de contatos, nem sequer em mudança de ritmos, mas em mudança de coração. O que conta é onde colocamos o nosso coração. Jesus nos pede que o coloquemos no centro, onde todas as coisas se encaixam no lugar certo. Que centro é esse? Jesus o denomina Reino de Deus, o Reino do seu Pai. Somente quando compreendermos as palavras de Jesus como um chamado urgente para darmos prioridade à vida do Espírito de Deus é que conseguiremos ver. melhor o que está em jogo. Um coração voltado para o Reino do Pai é também um coração voltado para a vida espiritual. Voltar os nossos corações para o Reino signi ca, portanto, fazer da vida do Espírito, dentro e entre nós, o centro de tudo o que

pensamos, dizemos ou fazemos.12

 

Crescer signi ca viver, nos limites do corpo, cada vez mais a maior

densidade alcançável das possibilidades e potencialidades emocionais,

mentais e volitivas, a partir da transcendência: a conexão e interação com o

Espírito divino.

 

MODELO

Por essa razão, o cristianismo a rma que Jesus de Nazaré é o protótipo do

Novo Homem, sendo ele mesmo o Homem Novo, em que céus e Terra, pó

da terra e fôlego da vida coexistiram em harmonia plena e perfeita.