Vivendo com propósitos
18. Talento
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TALENTO
TRABALHO
Cláudio Arrau (1903-1991), famoso pianista chileno, comemorou seus 70
anos com uma exaustiva tournée pela Europa. Durante uma entrevista, um
repórter perguntou se um homem com 70 anos não deveria trabalhar
menos. A resposta foi brilhante: “Meu lho, quanto mais eu gosto do que
faço menos eu chamo de trabalho”.
Contei essa história para um amigo que, amante de histórias, emendou
outra, acontecida com ele mesmo. Com graves problemas no coração, foi
acompanhado pela esposa à consulta com o cardiologista. Como toda
esposa cuidadosa, dona Marina encareceu ao médico que recomendasse ao
marido trabalhar menos: “Esse homem ainda vai morrer de trabalhar,
doutor”, o médico perguntou: “O senhor gosta do que faz?”, ao que recebeu
como resposta um entusiasmado “sim”. E o médico encerrou: “Então, que
tranquila, minha senhora, ninguém morre de fazer o que gosta, morre é de
fazer o que não gosta”.
Confúcio disse a mesma coisa: “Escolha um trabalho que você ame e não
terá de trabalhar um único dia em sua vida”. Imagino que muitos lósofos e
mestres de espiritualidade chegaram à mesma conclusão, pois se trata de
uma sabedoria universal, além de uma experiência que todo mundo
conhece. Quantas vezes você já não ouviu um comentário do tipo “Fulano é
que tem sorte, faz o que gosta e ainda ganha dinheiro”? Lembro-me bem do
tempo em que eu vivia com o meu nariz en ado no alambrado de São
Januário observando o treino do Vasco da Gama antes e depois de minhas
sessões de natação. O cheiro de café torrado que vinha da torrefação ao lado do estádio era o pano de fundo para as viagens da minha imaginação. Eu,
menino, sonhava com o dia em que poderia acordar e ir jogar bola que nem
aqueles caras que eu observava com inveja. Imagina, jogar bola o dia inteiro
e ganhar dinheiro com isso. Que escola, que nada. Um campinho verdinho
daquele. Bola de capotão o dia inteiro. Que maravilha! Era um sonho. Meu
time do coração era o Flamengo, mas até o Vasco serviria.
Agora observo meu lho com o nariz en ado na televisão, morrendo de
inveja do Kaká, do Robinho, do Diego, os craques do momento, todos
adolescentes, mas já campeões, ricos e famosos. Que jogam bola todo dia.
Que maravilha. Imagino o que se passa na cabecinha dele quando a mãe
pergunta a respeito da lição de matemática ou eu mando desligar a televisão
com aquela conversa de pai “primeiro a obrigação, depois a diversão”. Eis aí
a charada. Transformar obrigação em diversão. Ainda sonho com isso. E
espero ensinar meus lhos e o lho de um montão de gente a ter o mesmo
sonho. Perdi a ilusão infantil de ser jogador de futebol. Mas não perdi o
sonho. Meu sonho é fazer algo signi cativo, ganhar dinheiro e ter prazer,
tudo ao mesmo tempo.
Viver com o propósito de construir, dando vazão ao gênio criativo
inoculado em nós pela imago Dei, implica trabalho, muito trabalho. Mas a
boa notícia é que esse é um caminho de autorrealização e de felicidade,
desde que experienciado da maneira correta.
TALENTO
No início da década de 1980, eu estudava no Escritório Brasileiro de Artes,
às margens do Estádio do Pacaembu e aos pés dos irmãos Zélio e Ziraldo.
Aquele era um mundo encantado. Logo na entrada, havia um pôster gigante
assinado pelo Ziraldo: o Batman sentado num vaso sanitário, rolo de papel
higiênico nas mãos, fazendo as coisas próprias de todos os mortais. Eu
achava maravilhoso. Uma tremenda desconstruída no ideal do super-herói. Éramos uns poucos diletantes e uma meia dúzia de entusiasmados artistas
que nutriam o sonho de uma carreira bem-sucedida e rentável.
Minha memória registra poucas coisas, mas jamais me esqueci daquela
noite em que todos, compenetrados, transformávamos nossa criatividade
em cartoons, caricaturas e charges. Papel e crayons esparramados sobre as
mesas e, como não poderia deixar de ser, muitos risos. De repente, por trás
de mim, quase à altura da minha nuca, ouvi a voz suave do Zélio
endereçando uma pergunta ao sujeito sentado à minha frente: “Já tentou
violino, meu lho?”.
Silêncio absoluto. Todos os lápis utuando a três centímetros dos couché.
Cara de “por que você fez isso comigo?” do camarada sentado à minha
frente. Até que o Zélio explicou: “Para você dar certo na vida, precisa de
trabalho, talento e estrela. Com talento e trabalho você vai longe. Com
talento e estrela também. Mas com trabalho e estrela você será sempre
medíocre”.
Ponto nal. Não me lembro se o sujeito voltou. Eu não teria voltado.
Teria saído em busca do meu talento.
A sabedoria convencional diz que, para dar certo na vida, você precisa de
inteligência, formação acadêmica e experiência em seu ramo de atividade.
Mas os consultores atuais concordam com o Zélio de vinte anos atrás: o fator
determinante do sucesso é o talento.
Marcus Buckingham e Curt Coffman analisaram uma pesquisa feita pela
Gallup Organization com 80 mil executivos e escreveram suas conclusões
num livro interessante desde o título: 1 Primeiro quebre todas as regras. Eles
de nem talento como “um padrão recorrente de pensamento, sentimento ou
comportamento que pode ser aplicado de maneira produtiva”. Geralmente,
quando pensamos em talento, lembramos de capacidades extraordinárias
como as de Pelé, Michael Jordan, Mozart, Beethoven e Albert Einstein. Mas
o fato é que todos nós possuímos um padrão recorrente para agir e reagir. A
memória fotográ ca, o sentido de direção, o raciocínio matemático e o senso estético são exemplos de padrões de pensamento, de sentimento e de
comportamento.
Para simpli car as coisas, talento é o que você faz “com o pé nas costas”,
como se diz no popular. Talento é como escrever com a mão certa. Quando
você escreve com a mão trocada, o esforço e o desconforto são maiores, e o
resultado provavelmente não é do seu agrado. Talento é algo que você faz
naturalmente, como por exemplo minha cunhada, que tem a invejável
capacidade de fazer todo mundo se sentir especial e amado, ou minha
esposa, que é capaz de servir qualquer pessoa como se estivesse servindo seu
lho ou sua lha. Fazer conta de cabeça, enxergar uma casa linda num
terreno baldio, tocar instrumentos de ouvido, cozinhar, conversar, ouvir,
escrever, consolar. En m, talento é aquilo que você acha fácil e todo mundo
acha difícil.
Buckingham e Coffman dizem que “você tem um ltro, um modo
característico de reagir ao mundo que o cerca. Todos nós temos. Seu ltro
lhe diz que estímulos notar e quais ignorar; quais deles amar e quais odiar.
Ele cria suas motivações inatas. Você é competitivo, altruísta ou guiado pelo
ego? Ele de ne seu modo de pensar. Você é disciplinado ou adota o laissez-
faire, raciocina de maneira prática ou estratégica? Ele forja suas atitudes
prevalecentes – você é otimista ou cínico, calmo ou ansioso, empático ou
frio? Ele cria em você todos os seus padrões distintos de pensamento,
sentimento e comportamento. Com efeito, seu ltro é a fonte de seus
talentos”. Ao contrário daquela máxima “desenvolva seus pontos fracos”, o
conceito de talento nos coloca diante de “uma importante descoberta: todo
papel, desempenhado com excelência, exige determinados padrões
recorrentes de pensamento, sentimento ou comportamento. Isso signi ca
que grandes enfermeiras têm talento. O mesmo ocorre com grandes
caminhoneiros e grandes professores, grandes zeladores e grandes
comissárias de bordo”. Em resumo, a palavra de ordem é “esqueça seus
pontos fracos e desenvolva seus pontos fortes”.
INTELIGÊNCIAS
Todo mundo é bom em alguma coisa. O conceito de talento acaba de vez
com a burrice, pois todo mundo tem um tipo de inteligência. Daniel
Goleman 2 cunhou o termo inteligência emocional, e hoje já se fala em
inteligência espiritual. Howard Gardner 3 foi o mais popular teórico do
assunto e classi cou as inteligências em sete categorias.
A inteligência linguística é aquela da sua tia que fala pelos cotovelos, do
seu sobrinho que é bom pra caramba em redação e do seu amigo que
aprende idiomas com uma facilidade que dá até raiva. O seu Manoel que faz
conta de cabeça e deixa o lápis pendurado na orelha só pra manter o tipo
tem a inteligência lógico-matemática. Isso me faz lembrar da história da
padaria da esquina da minha casa, que foi vendida para um português que
botou preço só de perguntar quantos pãezinhos e litros de leite eram
vendidos por dia. A inteligência musical é a do seu primo que toca violão
sem nunca ter estudado e da sua vizinha que acredita que vai tirar a sorte
grande num programa de calouros, e só não tira porque não tenta, porque
todo mundo gosta quando ela canta.
O Garrincha, por exemplo, que tinha as pernas mais tortas do mundo,
deixava tortos todos os seus marcadores, carinhosamente apelidados de
João, e mostrava que em terra de Pelé não tem inteligência corporal-
cinestésica que que de pé. Essa mesma inteligência faz sua lha aprender
todas as danças da moda, enquanto você não consegue nem entender o que
quer dizer dois-pra-lá-dois-pra-cá. Quando você observa um camarada
procurando alguma coisa no estacionamento do shopping, isso é um
exemplo típico de falta de inteligência espacial, e o que sumiu foi o carro
dele. Aquele seu cunhado que enxergou uma casa maravilhosa no terreno
inclinado, que você sempre desdenhou, perto do sítio do seu pai, também
tem essa inteligência.
A inteligência interpessoal é a cara do seu avô, que sempre esteve rodeado
de amigos e todos falam dele com saudades sem estar mentindo. É a mesma
inteligência do seu irmão, que estudou muito menos que você, mas conhece
todo mundo e todo mundo gosta dele, tem um papo maravilhoso e sabe
vender como ninguém – puxou o avô. “Freud explica” é a frase preferida dos
que têm a inteligência intrapessoal e vivem no mundo da Lua, uma Lua que
mora dentro deles, provavelmente como aquele seu amigo caladão que, de
vez em quando, solta uma pérola que deixa todo mundo admirado.
Depois que o conceito de inteligências múltiplas cou popularizado,
começaram a aparecer inteligências de todos os lados: intuitiva, analítica,
prática, ecológica, mística e assim vai, numa lista sem m, como sem m é a
inteligência humana. Tenho simpatia pela inteligência espiritual, que me
explicaram dizendo que é própria das pessoas que conseguem discernir as
verdades universais e esclarecer a respeito do sentido da vida e signi cado
da existência, além de transitar com leveza pelas práticas religiosas e de se
dedicar a questões e causas chamadas sagradas.
Imagino quando as crianças descobrirem esse negócio. Entregarão seus
boletins com notas vermelhas e dirão: “É que eu não tenho essa inteligência
aí, pai”. E elas estarão certas. E eu vou querer ver qual vai ser a inteligência
que o pai vai ter de ter para dobrar o prodígio.
Peter Drucker disse que a maioria de nós é excelente em uma ou duas
coisas, acima da média em mais uma ou duas, e medíocre no resto, isto é,
possui um desempenho que qualquer pessoa com um mínimo de esforço e
esclarecimento alcançaria. Em se tratando de inteligências múltiplas, ou
talentos, ninguém, ou quase ninguém, é mono. Cada um de nós possui um
mix de inteligências – um pool de talentos, que, uma vez combinados, podem
resultar em contribuição signi cativa para o bem comum. Na linguagem do
apóstolo Paulo, o Espírito de Deus manifesta-se por meio de todos, ou,
como pre ro, Deus dá a cada um uma prova da presença do Espírito Santo.4
PARADIGMAS
Depois que aprendi essas coisas foi que enxerguei a diferença entre
ocupação, emprego, carreira e vocação. Claro, você pode ter suas próprias
de nições e encontrar outras tantas nos dicionários e manuais. Mas peço
que tenha paciência comigo e, pelo menos por enquanto, aceite minhas
de nições para que a gente se entenda.
Ocupação é o que a gente faz apenas por dinheiro. Ocupação é o que você
faz porque precisa levar comida para casa. Ocupação é qualquer atividade
que você desenvolve em troca de remuneração, mesmo que tal atividade não
tenha nada a ver com seu gosto pessoal ou talento. Ocupação é vender limão
na esquina, mesmo que você seja engenheiro formado. Ocupação é costurar
no ateliê de sua vizinha, mesmo que você seja economista com pós-
graduação na Inglaterra. Ocupação é atuar como frentista de posto de
gasolina ou ascensorista nos prédios velhos do centro urbano, mesmo que
você já tenha sido um empresário bem-sucedido. Ocupação é fabricar
tendas, mesmo sendo apóstolo, como Paulo de Tarso no Novo Testamento 5.
Ocupação é prestar todo e qualquer serviço digno, ainda que incompatível
com sua preferência, formação ou talento, quando você não tem alternativa
honesta para levar para casa o pão de cada dia ou não possa mais esperar
aquela oportunidade que combina melhor com você.
Emprego é o ambiente em que alugamos nossas competências,
conhecimentos, experiências e talentos. No emprego, cooperamos para que
o empregador alcance seus objetivos em troca de uma remuneração que nos
permite correr atrás dos nossos objetivos após o expediente. Isso explica o
sujeito que trabalha como caixa de banco, mas que se dedica
voluntariamente a um projeto de apoio a crianças especiais, ou aquela
senhora que é vendedora de produtos de beleza, mas que gosta mesmo é de
fazer docinhos e salgadinhos para as festas dos ns de semana do seu bairro.
Ela vive dizendo ao marido que seu sonho é ter uma cozinha maior e que,
no dia que isso acontecer, ela para de vender cosméticos e ca o tempo todo cozinhando, o que os vizinhos e os parentes vão adorar. Ela é uma boa
vendedora de produtos de beleza, assim como é boa vendedora de docinhos
e salgadinhos. Mas o que ela prefere mesmo é cozinhar.
Carreira é o desenvolvimento de uma atividade compatível com nosso
talento, num contexto cujos objetivos estão alinhados com os nossos
próprios objetivos. Carreira é o que faz a professora que, após o expediente,
passa horas na biblioteca ou o médico que, ao chegar em casa, espera todo
mundo dormir para mergulhar na internet em busca de informações que
possam ajudar no diagnóstico daquele paciente cujo caso foi discutido pela
manhã no hospital. Caso você pergunte para aquela senhora dos docinhos e
salgadinhos se ela quer parar de vender cosméticos, a resposta será sim. Isso
quer dizer que vender cosméticos é para ela um emprego. Mas se você
perguntar para aquele médico se ele quer deixar suas atividades no hospital,
ele vai dizer que não. Isso signi ca que ele tem uma carreira. Ocupação é a
atividade independente do talento. Emprego é a atividade que envolve o
talento, mas que é feita em troca de remuneração. Carreira é o talento
exercido independentemente de remuneração.
Mas e a vocação? Vocação é o que você é, independentemente do que faz.
Imagine uma mulher de pouco mais de quarenta anos que sai logo cedo para
trabalhar. Ao sair do elevador, ela cumprimenta sorridente as faxineiras do
edifício onde mora, sabe o nome das pessoas que estão no ponto de ônibus
todo dia no mesmo horário, conversa com o zelador do prédio onde
trabalha, leva a receita do bolo que prometeu para a mulher do caixa do
supermercado onde, na volta para casa, compra algumas coisas para o jantar
e, quando entra em casa, parece que abriram uma janela de cara para o sol.
Isso é vocação: um talento exercido todo o tempo, em todo lugar, a serviço
de todo mundo. Por tudo isso é que a vocação é uma extensão do que você é,
e não apenas o que você faz.
Um dos meus amigos tem o que chamamos de memória de elefante. Ele
recorda facilmente datas, horários, conversas e tudo relacionado. Suas narrativas são ricas em detalhes. Chega ao absurdo de se lembrar do dia e da
hora que liguei, das palavras literais que usei, da pergunta que ele me fez e
como a respondi, e das decisões que tomamos juntos. Sabe o que ele faz na
vida? É médico. Tenho certeza de que ele não olha para seus pacientes com
aquela cara de “você é quem mesmo?”, ou “que exame mesmo eu pedi para o
senhor?”, ou “qual foi a última vez que a senhora esteve aqui?”. Eis um
“padrão de pensamento, sentimento e comportamento”, isto é, um talento
que afeta radicalmente a atividade pro ssional.
Você pode ter uma ocupação, um emprego e uma carreira sem exercer
sua vocação. Veja, por exemplo, alguém que escolheu a carreira de professor.
Mas que tipo de professor? Seu “padrão recorrente de pensamento,
sentimento e comportamento” está voltado para as ideias ou para as
pessoas? Seu talento é explicar, conceituar, estimular a aprendizagem ou
descobrir e desenvolver talentos? Seus alunos adquirem o “gosto pela leitura
e se apaixonam pelos livros ou passam a valorizar os relacionamentos e o
contexto da aprendizagem? Sua classe é rigorosamente disciplinada ou um
ambiente descontraído de camaradagem e mutualidade? En m, a carreira é
de professor, e o emprego é numa escola municipal na periferia da cidade. E
a vocação, qual é? Enquanto não for descoberta, as peças não estarão
encaixadas. Até que o pool de talentos seja identi cado, tanto a carreira
quanto o emprego estão sub judice. Quem não sabe ao certo quem é, não
sabe ao certo o que deve fazer nem como deve fazer.
VIRADA
Na Avenida Paulista, em São Paulo, existiu durante muitos anos uma
lanchonete chamada O engenheiro que virou suco. Provavelmente motivado
pelas di culdades para arrumar um emprego, aquele sujeito resolveu dar um
pontapé em seu diploma de engenharia e ganhar a vida fazendo algo que
não tinha nada a ver com sua especialização acadêmica. Alguns seguem essa
trilha em resposta às di culdades no competitivo mercado de trabalho, mas acredito que muita gente poderia fazer o mesmo caminho: reinventar a
carreira e a atividade pro ssional.
Cliff Hakim é um consultor que se dedica a atuar como orientador
pessoal daqueles que desejam uma renovação de sua vida para que consigam
expressar o melhor de seus talentos. Em 1994, publicou We are all self-
employed (Todos trabalhamos por conta própria), e por meio de sua
consultoria, Rethinking Work®, vem desenvolvendo o conceito de
“autoemprego”, ou o que chama de self-employed attitude, o que quer dizer
que, em última instância, querendo ou não, você é seu chefe. “Pessoas bem-
sucedidas”, a rma, “precisarão trabalhar em dois empregos: um que emita
um contracheque e outro em que gerenciem suas próprias carreiras”. Para
isso, precisam desenvolver a “atitude de autônomo”, quer estejam
trabalhando para os outros, quer abrindo um negócio para si mesmas.
O tempo do paternalismo acabou. A conversa de que “minha empresa
não me dá oportunidade de crescer” ou “neste meu emprego não consigo
desenvolver o melhor do meu potencial” deve ser substituída por uma
atitude pró-ativa, em que você toma nas mãos a responsabilidade pelo seu
futuro pro ssional. De acordo com H. Jackson Brown, autor de A Father’s
Book of Wisdom [Livro de sabedoria dos pais], “o maior erro que você pode
cometer é acreditar que trabalha para outra pessoa”.
Num mundo em constante mudança, em que o emprego é cada vez mais
escasso e o diploma de um curso superior deixou de ser um vale de garantia
para uma boa oportunidade pro ssional, o melhor que se tem a fazer é
transformar talento em negócio ou produto. Quem ainda acredita na
máxima “estude pra valer, tire boas notas, consiga um diploma e você terá
um bom emprego” está ultrapassado. O padrão do emprego para toda a vida
serve apenas aos detentores do poder social e econômico, interessados em
manter seus “empregados”. O novo paradigma não considera mais a tríade
ocupação-emprego-carreira, mas sim a força da vocação baseada em
talentos.
As razões são simples. O paradigma ocupação-emprego-carreira trata de
atividades técnicas, enquanto a vocação trata de expressão pessoal. O
paradigma ocupação-emprego-carreira cabe dentro de um expediente e se
encaixa na atividade pro ssional, enquanto a vocação é vivida 24 horas e
abrange a vida inteira. O paradigma ocupação-emprego-carreira diz respeito
ao que você faz, enquanto a vocação diz respeito ao que você é.
Essas peculiaridades dos paradigmas ocupação-emprego-carreira-
vocação esclarecem a questão do sentido e signi cado da atividade
pro ssional e suas implicações para a realização pessoal. O propósito de
construir é derivado da imago Dei, e isso quer dizer que podemos contribuir
para um mundo melhor porque existe um pouco de Deus em cada um de
nós. Aristóteles disse que “onde as necessidades do mundo e suas
habilidades se cruzam, aí está a sua vocação”. Usando o mesmo raciocínio,
acredito que onde você é mais parecido com Deus, aí está sua vocação. Em
outras palavras, sua vocação é a maneira como Deus se expressa por meio de
você. Isso reforça o fato de que a vocação é uma expressão de sua identidade
mais profunda como pessoa singular criada à imago Dei.
O propósito de construir não está baseado na tríade ocupação-emprego-
carreira, mas sim na vocação. O ideal é que você consiga alinhar ocupação-
emprego-carreira com sua vocação, isto é, ter como fonte de receita
nanceira uma atividade pro ssional onde você expressa o melhor do seu
per l pessoal e seus talentos únicos. Mas isso é para poucos. O que você não
pode fazer é negligenciar sua vocação.
SENTIDO DO TRABALHO
Todos desejamos encontrar um signi cado mais profundo em nossas
atividades pro ssionais. As recompensas nanceiras já não são as únicas, e
para muitas pessoas, já nem são as mais importantes pagas de seu trabalho.
Tanto é verdade que para a pergunta “se você tivesse bastante dinheiro, para
viver confortavelmente o resto da sua vida sem trabalhar, o que faria em relação ao seu trabalho?”, a maioria esmagadora; das pessoas responderia
“trabalharia mesmo assim”.
Uma recente pesquisa 6 mostra que o sentido no trabalho depende de seis
características combinadas. Em primeiro lugar, o trabalho deve ser feito de
maneira e ciente e gerar resultados, pois ninguém gosta de plantar sem
colher. Depois, deve ser intrinsecamente satisfatório, isto é, corresponder à
personalidade, valores e talentos das pessoas, ou, em outras palavras, a
pessoa tem de gostar do que faz. Um terceiro fator é que o trabalho tem de
ser moralmente aceitável e socialmente responsável, o que signi ca dar uma
contribuição à sociedade e cooperar com os mais nobres ideais humanos.
Uma quarta característica do trabalho com sentido é que ele deve ser uma
fonte de experiências de relações satisfatórias, e nesse sentido o trabalho
aproxima pessoas e cria parcerias existenciais. A quinta característica diz
respeito às garantias de segurança e autonomia, pois com o trabalho
“ganhamos a vida”: dinheiro para viver, respeito, admiração e acima de tudo
a dignidade. Finalmente, a sexta característica de um trabalho com sentido é
que ele nos mantém ocupados, enche nossa agenda, organiza nosso tempo –
dias, meses, anos – estrutura e organiza a vida diária e a história pessoal.
Além dessas seis características, creio que o sentido do trabalho está
associado a dois outros fatores. Primeiro, com as possibilidades de
autodesenvolvimento ou, como bem disse Vinicius de Moraes, “o operário
faz a coisa e a coisa faz o operário”.
Mas acredito que a característica mais essencial do sentido no trabalho é
o senso de missão. A maioria das pessoas realizadas em sua atividade
pro ssional acredita não apenas que faz o que Deus lhes deu para fazer,
como também no fato de que os frutos de tal atividade estão associados a
valores intangíveis. A dimensão religiosa-espiritual da atividade pro ssional
está bem retratada no Gladiador, de Ridley Scott. Maximus, o personagem
de Russell Crowe, ao convocar seus soldados para a batalha, associa duas
guras imprescindíveis ao trabalho que contém signi cado: o céu e a eternidade. Ele diz para sua tropa per lada algo mais ou menos assim: “Caso
algum dos senhores se perceba cavalgando em uma serena campina no mais
belo pôr do sol, não se assuste, você morreu e está no Elíseos”. Em seguida,
a rma categoricamente: “O que fazemos aqui ecoa na eternidade –
evidentemente reforçando a convicção de que aquele que morre fazendo o
que deve ser feito não morre em vão”.
NARIZ
Estou de volta àquele alambrado do campo de futebol. Lá estão os mesmos
atletas que eu invejava. Agora têm outros nomes. Mas vestem os mesmos
uniformes e seguem na mesma trilha dos antigos. Eu não os invejo mais.
Não seria capaz de viver nessa ciranda de rotinas a que deve se submeter um
atleta ou pro ssional dos esportes de alto rendimento. Dietas, exercícios,
treinamentos, compromissos sociais, contato com a imprensa, assédios,
desgastes físicos e emocionais, lesões, incertezas, cobranças constantes de
todos os lados. Deus me livre! Eu que não queria bater um pênalti numa
nal de Copa do Mundo.
Engana-se aquele que acredita que quem faz o que gosta para ganhar a
vida só faz o que gosta. Todo mundo que faz o que gosta tem de fazer um
monte de coisa que não gosta para poder continuar fazendo o que gosta.
SÍNTESE
Quem deseja ser produtivo, e caz e realizado precisa descobrir seus talentos
e desenvolvê-los para que sejam exercidos sempre que houver oportunidade.
Felizes aqueles que conseguem casar sua atividade pro ssional com seus
talentos. Felizes aqueles que conseguem exercer seus talentos
independentemente de suas atividades pro ssionais. Felizes aqueles que
exercem seus talentos em casa, no trabalho, entre amigos ou com qualquer
pessoa que possa ser bene ciada por eles. Felizes aqueles que exercem seus
talentos em troca de dinheiro, independentemente de qualquer remuneração, e até mesmo pondo dinheiro do bolso para poder fazer o que
sabem. Esses são os que encontraram sua vocação.
Construir é cooperar com Deus para colocar ordem no caos. Todo ser
humano é dotado de talentos, de múltiplas inteligências, para essa
cooperação com Deus. Enquanto construímos, expressamos nosso potencial
criativo, nossos recursos interiores, nossas habilidades, conhecimentos e
experiências, colhemos o fruto do nosso trabalho. Os tesouros acompanham
o trabalho. E melhores tesouros têm aqueles que trabalham à luz dos
talentos. Trabalho, tesouro e talento. Eis o triângulo que sustenta a vocação.
Eis a síntese do propósito de construir.