Vivendo com propósitos
14. Alianças
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ALIANÇAS
PREMISSAS
Deus não basta para a felicidade humana. Pessoas precisam de Deus.
Pessoas precisam de pessoas. São dois lados da mesma moeda. “Pessoas
precisam de pessoas para serem pessoas”, como bem disse Augustine
Shutte.1 Não poderia ser diferente. Um Deus plural, que é perfeito na
perfeita unidade entre iguais, ao criar um ser à sua imagem e semelhança,
deveria criar um ser cuja perfeição fosse possível, somente e
necessariamente, numa unidade entre iguais. E Deus não é igual ao homem.
Por essa razão, Deus não é su ciente para a plena realização humana.
Acredito piamente que sua vida será tão saudável quanto saudáveis forem
as pessoas com quem você se relaciona. Mas não basta estar rodeado das
pessoas certas, é necessário conviver da maneira certa. Isso quer dizer que
algumas pessoas podem ser instrumentos de vida para você, mas apenas se
você souber absorver sua in uência positiva, enquanto outras podem ser
instrumentos de morte, mas também apenas se você permitir que elas
despejem sobre você seu potencial destrutivo. Por esse motivo, acredito
também que sua vida será tão saudável quanto saudáveis forem seus
relacionamentos com as pessoas com quem você convive.
Toda pessoa é uma ilha. Nenhuma pessoa é uma ilha. Qual é a a rmação
verdadeira? Talvez estejamos novamente diante de duas verdades
aparentemente excludentes, porém complementares – paradoxo.
Toda pessoa é uma ilha porque a individualidade implica dimensões da
alma que ninguém é capaz de compreender, dores que ninguém é capaz de
suportar, lágrimas que não podem ser partilhadas, angústias para as quais não há empatia possível. O coração de cada ser humano é um solo sagrado
que muito poucas pessoas têm permissão de pisar e que pouquíssimas
conseguem fazê-lo. Nesse sentido, cada um de nós está fadado a uma
dimensão de solidão, o que, na verdade, é o espaço existencial particular e
necessário sem o qual seria impossível a construção de uma identidade
singular.
Também é verdadeiro que a construção dessa identidade não é abstrata,
mas acontece na dinâmica das interações que se processam desde o ventre
materno e em boa dose é determinada pela bagagem genética, o que explica
o fato de você ser tão parecido com seu avô. Nesse sentido, ninguém é uma
ilha, pois estamos todos, consciente ou inconscientemente, sob in uências
as mais diversas. Incidem sobre nós os raios de luz e as sombras tanto
daquelas pessoas de quem deliberadamente resolvemos nos aproximar e que
amamos explicitamente, com quem resolvemos partilhar nossa peregrinação
pela existência quanto daquelas que nos esbarram sem nossa permissão,
partilham de nossos espaços sem que as tivéssemos convidado e invadem
nossa intimidade não poucas vezes sem nos darmos conta.
Por exemplo, em que proporção sua autoimagem é afetada pelas estrelas
do show biz? Quem disse que você tem de emagrecer? Por que você corta o
cabelo desse jeito ou por que está cursando arquitetura? Até que ponto você
pensa o que pensa porque decidiu pensar, ou pensa o que pensa porque é
brasileiro e não alemão? Tem certeza de que se meteu nessa prestação
porque concluiu que era a melhor coisa a fazer, ou seria o caso de ter sido
induzido a viver do jeito que a classe média vive?
Já percebeu como, num casal que experimenta uma parceria bem-
sucedida, os cônjuges vão cando cada vez mais parecidos um com o outro?
Não é verdade que, inconscientemente, imitamos as pessoas que
admiramos? Alguma vez já tomou uma decisão que não lhe parecia ser a
mais razoável somente para agradar uma pessoa querida? Em algum
momento, já se viu arrastado a determinada situação de consequências funestas e absolutamente previsíveis porque teve constrangimento de
desapontar um amigo ou amiga? Já conviveu com pessoas de personalidade
tão forte que acabou percebendo sua própria individualidade sendo
ameaçada? En m, já fez o que não queria fazer ou deixou de fazer algo que
queria fazer por causa de pessoas que não mereciam tal sacrifício?
Um fenômeno interessante que observo na terceira idade é a viúva que
oresce depois da morte do marido. Chora uma semana e depois se mete na
primeira excursão que aparece. Passou a vida inteira sem dançar, carregou
durante anos a frustração de não usar maquiagem e sempre morreu de
vontade de se vestir de maneira extravagante, e agora que o “véio” se foi,
ninguém segura essa vovó. Também co impressionado com as variações de
personalidade que a todos acomete em função do grupo do momento.
Quem nunca teve a experiência de encontrar um sujeito sabidamente mau
caráter e ter de admitir que, pessoalmente, é alguém legal? Você não tem um
amigo que lá fora é um leão e dentro de casa é um gatinho? E aquela sua
amiga que em família é uma, na vida pro ssional é outra e na presença do
marido é outra completamente diferente? Você também não é assim, uma
mescla de muitos “eus” competindo pela primazia? Saberia qual das
identidades é a verdadeira? Aliás, será que existe um “eu” verdadeiro ou
todos os “eus” são verdadeiros, cada um de acordo com seu horizonte de
relações? Não seria uma qualidade, essa capacidade de adequação aos
diferentes contextos de relacionamentos? Ou seria uma disfunção de
personalidade, como em Zelig, o “homem-camaleão” de Woody Allen?
En m, quantos “eus” existem dentro de cada um de nós? Qual deles tem a
primazia? Qual deles é deliberado, isto é, existe porque escolhemos que
exista?
O fato é que um é o dia em que nascemos, outro o dia em que
escolhemos o que queremos ser. Como disse o senhor Geraldo Pedrosa de
Araújo Dias, todo mundo tem de viver seu dia de Disparada, isto é, não
podemos car para sempre como boi na boiada, há de chegar o dia de nossa montaria, de nos tornarmos cavaleiros, pois assim deseja o dono da boiada
cujo vaqueiro morreu. (Para você que não conhece Geraldo Vandré,
recomendo uma visita à TV Excelsior da década de 1960 e seus
maravilhosos Festivais de MPB. Para você que sabe do que estou falando,
recomendo a mesma coisa. Garanto que vai chorar.)
Perdoe a digressão nostálgica. O que quero dizer é que, na rede das
relações em que todo mundo quer que a gente seja alguma coisa e em que
nós lutamos para vir a ser o que devemos ser, uma das atitudes mais
importantes a tomar é mapear os relacionamentos: quem são as pessoas que
exercem in uência direta sobre a nossa vida e como podemos nos relacionar
com elas. Creio que estamos imersos numa rede de pelo menos cinco tipos
ou dimensões de relacionamentos.
GRUPOS
Fazemos parte de pequenos grupos de pessoas com quem repartimos nosso
espaço natural, deliberada ou compulsoriamente. Por exemplo, não
escolhemos nossa rede familiar. Você não decide quem será seu pai, sua mãe
ou seus primos e cunhados. Mas deverá aprender a conviver com eles o resto
da vida. O grupo familiar é um grupo natural, isto é, você não escolhe;
quando se dá conta, já está lá, dividindo o quarto com duas outras crianças
que não necessariamente escolheria como amiguinhas, e, nesse caso, o
melhor a fazer é simplesmente aceitar e celebrar.
Por outro lado, podemos escolher o cônjuge e os amigos. O meio-termo
está na rede de relações pro ssionais, que podemos escolher, mas com que
em geral somos convidados a conviver, independentemente de empatia ou
simpatia. Evidentemente, caso não goste dos seus colegas de trabalho, pode
pedir demissão e procurar emprego em outro lugar. Você não é obrigado a
suportar um ambiente pro ssional. Mas a verdade é que a maioria de nós
tem de se sujeitar a conviver com pessoas que não teríamos escolhido inserir
em nossa intimidade, até porque, provavelmente, em qualquer emprego que você arrumar elas estarão lá, elas, as pessoas que você não faria questão que
estivessem. Nesse caso, é melhor construir uma convivência saudável no
lugar onde a gente está do que procurar um lugar cuja convivência seja
saudável.
Cada grupo exige um tipo de comportamento. E cada pessoa que faz
parte do grupo exige um tipo de relacionamento. Não podemos tratar nossa
rede de clientes com a mesma transparência com que tratamos nossa rede de
amigos, e não podemos tratar nossa rede de amigos com a mesma
intensidade com que tratamos nossa família nuclear. Mesmo na rede de
amigos, há aqueles em quem con amos mais e aqueles com quem nos
abrimos aos poucos. Os primos podem apenas gravitar a nosso redor ou
podem participar de nossa intimidade. O certo é saber quem é quem e como
devemos nos relacionar com cada um. Precisamos aprender a preservar as
fronteiras de nossa intimidade, a guardar assuntos reservados, a tratar cada
pessoa e a nos comportar em cada ambiente de acordo com a situação.
A palavra-chave dessa relação com os diferentes grupos com quem
interagimos é fronteiras. Devemos zelar pelas fronteiras da nossa intimidade.
As fronteiras podem ser de três tipos: rígidas, porosas e elásticas.
As fronteiras rígidas são aquelas de quem diz “roupa suja se lava em casa”
e leva à risca essa convicção; ninguém sabe o que acontece e não tem como
participar da intimidade dessas pessoas.
As fronteiras porosas são aquelas de quem tem sua intimidade
completamente devassada e sua vida são, como no ditado popular, “a casa da
mãe Joana”, onde todo mundo entra e sai a hora que quer, do jeito que quer,
para fazer e falar o que quer.
As fronteiras elásticas são aquelas dos moderados, que compartilham sua
intimidade e permitem acessos dentro de limites de nidos, de acordo com
as pessoas e ambientes.
Jesus foi bem rigoroso em estabelecer suas fronteiras de relacionamentos.
Com a mesma facilidade que transitava no meio das multidões, tinha seu
universo mais restrito de seguidores, com 70 homens apenas. 2 Além destes,
andava sempre com seus 12 discípulos (apóstolos), 3 e dentre eles preferia a
companhia de Pedro, Tiago e João.4 No círculo mais íntimo estava João, o
discípulo a quem mais amava.5 O que está explícito nesses horizontes de
relações é que Jesus não se dava a todos igualmente.
AMIGOS
Ágape é o amor divino. Eros é o amor dos amantes. Phileo é o amor dos
amigos. Ágape é o amor mais resistente. Eros é o amor mais intenso. Phileo
é o amor mais singelo. Ágape é o amor eterno. Eros é o amor efêmero.
Phileo é o amor perene. Ágape é o amor para o outro. Eros é o amor pelo
outro. Phileo é o amor com o outro.
Embora sublimes, todos os três, minha preferência está em phileo.
Primeiro porque é o elo que alimenta os outros amores. Sempre encarei a
relação com Deus como amizade. E não acredito em amantes que não sejam
amigos. Amantes que não são amigos são corpos unidos – tesão. Devotos a
Deus que não são amigos de Deus são mendicantes – interesse. Pre ro
phileo porque Ágape é uma questão de fé, e eros uma questão de sorte.
Experimentar o amor de Deus é algo de foro íntimo, pessoal, direção na qual
ninguém pode forçar ninguém. Viver um grande amor, car apaixonado e
“ser feliz para sempre” é algo que nem todo mundo consegue, e não acredito
que os que conseguem sejam melhores pessoas do que os que não
conseguem. Mas gosto mesmo de phileo porque é o amor de que, em tese,
poderíamos prescindir e, provavelmente por essa razão, o mais socializado
dos amores: quase todo mundo sabe o que é ter um amigo. Não somos tolos
de dar as costas ao amor de Deus, apenas não sabemos direito como
vivenciá-lo. Não somos tolos em dar as costas ao romance, apenas não
sabemos como cultivá-lo. Mas poderíamos dar as costas às amizades,
principalmente se acreditarmos estar sob o amor de Deus e abrigados num
romance. “A amizade é tão desnecessária quanto a loso a, a arte, o próprio Universo (pois Deus não precisava criar). Ela não tem valor de
sobrevivência; pelo contrário, é uma daquelas coisas que dá valor à
sobrevivência.”6
Creio na amizade como a mais elevada expressão de amor humano. C. S.
Lewis chamou a amizade de “prato principal no banquete da vida”. Disse
que, se tivesse de dar um conselho a um jovem a respeito de um bom lugar
para viver, diria: “Sacri que quase qualquer coisa para estar perto de seus
amigos”, pois considerava a amizade “a melhor das coisas deste mundo e a
mais importante felicidade da vida”. Ralph Waldo Emerson disse que
“felicidade é a casa que abriga o amigo”.
Amigos são aqueles com quem podemos viver sem máscaras, porque não
tememos ser rejeitados. Amigo é aquele que conhece você por dentro e,
mesmo assim, continua seu amigo. O relacionamento de vocês extrapolou a
fase dos possíveis desapontamentos e condições para a manutenção da
amizade. A Bíblia diz que “há amigo mais chegado que um irmão”. 7 A
amizade é o espaço privilegiado do crescimento pessoal, pois “Assim como o
ferro a a o ferro, o homem a a o seu companheiro”.8 E não esqueça, “ferro
com ferro” implica atrito, e todo atrito esquenta e faz faísca. Por tudo isso,
amigos que não se estranham, que não debatem pontos de vista divergentes,
que não se questionam mutuamente, na verdade, não são amigos. “Melhor é
a repreensão feita abertamente do que o amor oculto”,9 isto é, a amizade que
sobrevive às custas da omissão re ete um amor de pouco valor.
Minhas palavras seriam poucas e insu cientes em intensidade para
descrever o valor da amizade. Por essa razão escolhi como últimas, as
palavras de Henri Nouwen, um dos mais celebrados mentores espirituais
contemporâneos, para encorajar você na direção da amizade.
Um amigo de verdade não é alguém que pode resolver todos os seus problemas ou tem respostas para todas as perguntas. Também não é alguém que vai embora quando não há nenhuma solução ou resposta, mas ca com você, permanece el a você. Muitas vezes, quem nos dá maior conforto não é a pessoa que diz: “Faça
isso, diga aquilo, vá lá”; mas quem, mesmo se não há nenhum bom conselho para dar, a rma: “Não importa o que acontecer, eu sou seu amigo; você pode contar comigo”. Quanto mais velho você se torna, mais descobre que sua alegria e felicidade dependem de tais amizades. O grande segredo da vida é que o sofrimento frequentemente parece ser tão insuportável que pode se tornar, na compaixão, uma fonte de vida e esperança novas. A amizade é um dos maiores dons que um ser humano pode receber. É um vínculo que ultrapassa objetivos, interesses ou histórias em comum. É um vínculo mais forte do que aquele que a união sexual pode criar, mais profundo do que o que um destino partilhado pode solidi car, e ainda pode ser mais íntimo que os laços do matrimônio ou da comunidade. A amizade é estar com o outro na alegria e na tristeza, mesmo quando não podemos aumentar a alegria e diminuir a tristeza. É uma união de almas que confere nobreza e sinceridade ao amor, fazendo a vida brilhar
intensamente. Abençoados são aqueles que dão a vida pelos amigos. 10
COACHES
Na sua rede de relacionamentos você precisa de coaches. Mais um
anglicismo inserido em nosso vocabulário, mas ainda assim a palavra ideal
para descrever esta dimensão de relacionamento imprescindível para quem
deseja manter o foco em suas aspirações de viver com propósitos. A ideia
original por trás do conceito de coach é bem explicada por Max
Gehringer: 11 “Há 600 anos, numa pequena cidade da Hungria, chamada
Kocs, foi desenvolvida uma carruagem bem maior que as utilizadas na
época, pequenas e apertadas, para no máximo quatro pessoas. A novidade
húngara, que acomodava confortavelmente oito passageiros, recebeu o
nome de Koczi Szerér, ou “vagão de Kocs”. Rapidamente copiada em toda a
Europa, a koczi fez tanto sucesso que logo virou sinônimo de carruagem, de
qualquer tamanho. Franceses e espanhóis adaptaram a pronúncia para
“coche”, de onde derivou o inglês coach, que deu origem a uma série de
outras palavras, desde a americana stagecoach – as “diligências” dos lmes
de bangue-bangue – até a classe “turística” dos aviões, a coach class. Nas
universidades inglesas do século 15, frequentadas apenas pela na or da
nobreza britânica, os alunos iam para as aulas de coach, conduzidos por um cocheiro – o coacher –, e daí o nome virou gíria estudantil para zombar os
professores e depois, seriamente, para batizar técnicos esportivos. O coach,
portanto, ensina e conduz. O problema, sempre tem um, é que muitos
jovens talentosos estão convidando para conselheiros pessoas com as quais
nunca tiveram vínculo pessoal. A pessoa pode até aceitar, mas o efeito
prático seria o mesmo que um técnico de futebol conseguiria caso resolvesse
orientar sua equipe por e-mail. O coaching pressupõe o conhecimento
mútuo e a convivência constante, que leva ao entendimento claro, por parte
do coach, das habilidades e das necessidades de seu pupilo. Portanto, ter um
coach é melhor do que não ter um, mas ter um coach distante,
desinteressado e desinformado é a pior alternativa. O maior desa o para
quem procura um coach não é achar um, é encontrar o coach certo.
Gehringer inclui a intimidade pessoal na categoria do relacionamento
com o coach. De minha parte, considero que isso é opcional, pois na verdade
de no o coach como “parceiro de performance”. Coach é alguém que o ajuda
a alcançar uma meta desejada. Esta meta pode ser reduzir seu orçamento
mensal, emagrecer cinco quilos, conhecer a Europa, aprender uma nova
competência pro ssional, dominar outro idioma, ou até mesmo correr uma
maratona.
O coach é diferente do amigo, porque um coach deve ter competências e
conhecimentos especí cos que serão compartilhados. O coach você pode (e
deve) inclusive remunerar, mas o amigo, jamais. Seu relacionamento com o
coach pode ser temporário, até você alcançar sua meta. O coach você
encontra com hora marcada, desenvolve tarefas e presta contas.
Quando você se encontra com seu professor de inglês, ele não pergunta
como vai seu casamento. E se perguntar, você deve responder com evasivas,
pois o relacionamento de vocês não inclui esta dimensão. Não estão ali para
falar a respeito da intimidade familiar e conjugal, mas para estudar inglês. O
mesmo ocorre em meus treinos matinais. O coach que me ajuda a completar
uma maratona não precisa necessariamente ser a pessoa com quem vou discutir os problemas que tenho na educação dos meus lhos, até porque ele
não precisa saber me aconselhar neste assunto. O tema dos nossos encontros
deve girar ao redor de suplementação alimentar, diversidade dos treinos,
características dos tênis, exercícios de alongamento e em volta disso,
trivialidades e curiosidades impessoais, até que nos tornemos amigos, o que
pode, inclusive, não acontecer.
MENTORES
Max Gehringer nos ajuda outra vez. 12 “Mentor é um nome próprio. Em seu
poema épico Odisseia, provavelmente escrito no século 8 a.C., o poeta grego
Homero relata as peripécias do rei Odisseu (Ulisses, em latim) a partir do
momento em que ele deixa Tróia, sua cidade, para um périplo de batalhas e
aventuras que duraria dez anos. Para cuidar da administração de rotina do
palácio real durante sua longa ausência e prover o básico para sua família – a
esposa, Penélope, e o lho, Telêmaco –, Odisseu solicita os préstimos de um
amigo, Mentor. Este é um personagem menor da Odisseia. Odisseu não
atribuiu a ele nenhuma das funções que hoje de niriam um mentor. Apenas
solicitou ao amigo que mantivesse ‘tudo intacto’ até sua volta. Nada de mais,
mas Mentor não conseguiu dar conta da tarefa. Sua participação na Odisseia
só ganha relevância quando a deusa Palas Atena, ‘disfarçada’ de Mentor, guia
o jovem Telêmaco em sua busca pelo pai, Odisseu, que todos julgavam
morto. Mentor cou esquecido no rodapé da literatura até 1699, quando um
educador e escritor francês, François de la Mothe-Febelon, escreveu As
aventuras de Telêmaco, uma releitura da Odisseia. Na obra, Fenelon tira
Mentor da obscuridade e o eleva à condição de segundo pai, professor,
orientador e guia de Telêmaco. A obra fez tanto sucesso como material
educacional que, em 1750, a palavra ‘mentor’ já gurava nos dicionários
francês e inglês como sinônimo de ‘conselheiro sábio’, além de ‘protetor’ e
‘ nanciador’”.
Mais recentemente, o mundo corporativo adotou a palavra mentoring
para identi car o processo por meio do qual um jovem conta com os
conselhos e o apoio constante de uma pessoa já experiente, uma espécie de
personal trainer para a carreira pro ssional. Isso deturpou a ideia de alguém
que se dedicava à tarefa exclusiva e de longo prazo, zelando pela formação
integral de um pupilo. A conclusão de Gehringer é mais abrangente e de ne
mentoring como “um processo pelo qual se adquire conhecimento,
experiência e orientação para a carreira e para a vida”.
Nas tradições de espiritualidade, o mentor é um orientador existencial.
James Houston diz que “os mentores provavelmente surgiram com a própria
raça humana. Xamãs e feiticeiros, profetas e lósofos, líderes e mestres estão
presentes desde o início da história. Moisés e Josué, Confúcio e Mêncio,
Sócrates e Platão, Hilel e os fariseus, todos transmitiram suas visões de vida
de mestre para aluno, de mentor para discípulo. E assim os pensamentos de
grandes homens foram sendo passados de geração em geração”. Mas a
grande distinção dos mentores espirituais é que “sua e cácia como mestres
reside também no fato de que eles se colocam como modelos, pregando uma
forma de vida que pode ser imitada tanto em pensamento quanto em
ações”, 13 conclui Houston.
Em minha experiência pessoal, consigo distinguir meus amigos, meus
coaches e meus mentores, estes últimos em número bem reduzido. Meus
mentores são diferentes dos meus amigos, porque não os trato como iguais,
mas com a reverência própria da admiração. São diferentes dos meus
coaches, porque não estão preocupados com minhas metas, mas com meu
coração, meu caráter, minha alma, minha consciência, en m, minha vida e
meu “eu” mais profundo e verdadeiro.
Acredito que um mentor existe para ser acatado. O mentor é aquele cuja
opinião tem peso de ordem e, por essa razão, inclusive porque são sábios,
evitam dar opinião. O mentor é aquele que tem sobre você uma autoridade
que prescinde da intimidade. Você o acata e respeita pelo que ele é e pela vida que tem, independentemente de ser próximo de você. Na verdade,
alguns dos meus mentores estão distantes de minha convivência. Mas,
apesar disso, é neles que me referencio em termos de valores e de convicções
espirituais.
Durante muito tempo, fui acompanhado por um homem extraordinário
chamado Douglas Spurlock. Depois de uma longa caminhada a dois, que
durou alguns anos, ele voltou a viver nos Estados Unidos. Uma de nossas
últimas conversas aconteceu no percurso entre São Paulo e Serra Negra, a
caminho de um congresso para pastores e líderes cristãos. Naquele m de
tarde, com o carro no piloto automático, percorrendo uma estrada quase
vazia, perguntei se ele teria algo especial a me dizer antes de partir. Ele
naturalmente se virou para mim e disse: “Em vez de lhe dar um conselho ou
outro, vou pedir que você assuma um compromisso comigo”.
Imediatamente respondi que estaria disposto a assumir qualquer
compromisso com ele. Então, ele pediu que eu me comprometesse a tratar
minha esposa com amor e honra, e declarou sua parte nesse compromisso:
“Se um dia eu souber que você falhou, vou procurar você onde estiver, e
você vai ter de olhar bem dentro dos meus olhos”.
Não sei se ele viu alguma coisa em meu coração ou se projetou em mim
algo do seu próprio coração. Mas uma coisa eu sei. Aquela foi uma conversa
com um mentor espiritual. Ele não estava preocupado com meu futuro
pro ssional, nem com o desenvolvimento de meus talentos e capacidades.
Sua preocupação era com a dimensão da identidade profunda de um
homem: a parceria conjugal. Olhando para trás, pois já se passaram mais de
quinze anos desde que percorremos juntos aquela estrada, não tenho dúvida
de que o Douglas trouxe para a luz a coisa mais importante do meu coração.
Toda vez que passo naquele trecho da estrada, a saudade faz doer meu peito,
e quando minha esposa está comigo, aperto mais forte sua mão, sem
precisar dizer por quê.
PARCEIROS
Além dos grupos de convivência, dos amigos, coaches e mentores, você
precisa de parceiros. Parceiros são aqueles com quem produzimos riquezas,
somamos competências, trocamos experiências e cooperamos na direção de
um interesse comum.
Os relacionamentos com os parceiros devem ser baseados na igualdade (a
hierarquia deve ser apenas funcional: alguém tem de coordenar o processo),
na diversidade (quando dois sempre concordam, um deles não é necessário),
na complementaridade (as competências e as capacidades devem ser
distintas) e na mutualidade (uma mão lava a outra). Quem deseja construir
algo signi cativo para o bem comum, antes deve construir uma rede de
colaboradores, cooperadores. Ninguém possui todas as habilidades,
conhecimentos, experiência e capacidades necessárias ao bom êxito de
projetos relevantes. Por essa razão, nosso sucesso como empreendedores
será sempre limitado ou potencializado por aqueles com quem repartirmos
os processos do empreendimento.
O fato é que “uma andorinha só não faz verão”, e isso vale também para
seus empreendimentos. Durante meus anos de atividade pastoral, sempre
trabalhei em equipe. No início, a conversa era que eu precisava encontrar
pessoas que me completassem, mas logo cheguei à conclusão de que eu não
era incompleto, apenas limitado, como, aliás, todo ser humano, por mais
quali cado que seja. Uma equipe é como um carro que tenta andar com
apenas três rodas: a quarta não vem para completar as outras três, mas para
completar o carro. Assim também conosco. Nossos pares de equipe não nos
completam, mas completam o universo de competências necessárias para o
êxito de um projeto. Quanto mais focado em suas competências essenciais,
maior é a possibilidade de ser bem-sucedido em seus empreendimentos.
Mas, para isso, sempre precisará de um pool de competências, o que somente
será possível com um pool de pessoas. Nesse caso, quem deseja levar os
louros sozinho vai levar poucos louros, ou louro nenhum.
Lembro-me de uma noite em que fui dormir pensando nas limitações às
quais eu estava me submetendo aceitando sócios para minha empresa,
Galilea. O que dependia exclusivamente de minhas decisões passaria a ser
objeto de discussão, e a busca do consenso deveria tornar-se a regra
deliberativa. Isso signi caria a disposição em ser voto vencido, a opção por
abrir mão de posicionamentos e de preferências, o que implicava o
estreitamento de meus limites de liberdade. Naquela noite, tive um sonho.
Estava no auditório ouvindo uma palestra. O preletor dizia que há três tipos
de líderes: os visionários, os gestores e os burocratas. Os visionários
enxergam o futuro, são criativos e vivem de agrando processos relevantes
para causar diferenças em seu tempo e em seu contexto, mas di cilmente
são capazes de fazer acontecer sua visão. Os gestores são capazes de fazer
acontecer. São bons em planejamento, em mobilização de pessoas, em
coordenação de processos e em administração de rotinas. Já os burocratas
são centralizadores e se perdem em múltiplas atividades de pouco proveito.
São e cientes, pois fazem as coisas da maneira certa, mas não são e cazes,
pois não fazem a coisa certa. Conforme a máxima da administração, fazem
muito movimento com pouco deslocamento.
Lá pelas tantas, em meu sonho, o preletor disse que aqueles que não
estivessem dispostos a compartilhar sua visão e a assumir os custos de
trabalhar em equipe se tornariam burocratas improdutivos, com ótimas
ideias que jamais sairiam do papel. Acordei em paz. Naquele café da manhã,
apertei novamente as mãos de meu amigo Paulo Fabra Siqueira. Hoje, além
de nós dois, temos a parceria do Paschoal Fabra Neto e de um sem-número
de pares, que nos ajudam a “apresentar a tradição de espiritualidade judaico-
cristã como caminho para a plena realização humana”, que é a missão da
Galilea.
O cavaleiro solitário, versão Marlboro, é um espécime em extinção.
Morrerão de tanto fumar. E fumarão sob a desculpa de aliviar o estresse de
tentar carregar nas costas um peso que poderia ser compartilhado.
IGREJA
A palavra igreja está associada com templo. A palavra templo está associada
com religião. A palavra religião está associada com dogmas, regras morais e
rituais. E tudo isso junto leva você a ter medo ou a descartar o valor da
igreja. Mas “igreja” signi ca, literalmente, “ajuntamento”, mais precisamente
um ajuntamento ao redor de Jesus Cristo. Igreja é o que acontece quando
duas ou três pessoas estão reunidas em nome de Jesus, e Jesus, o Cristo
ressurreto, está no meio delas. 14 O ajuntamento que recebe o nome de
“igreja”, porque estabelece a conexão entre o divino e o humano, é o mais
poderoso encontro de pessoas que há no planeta.
Na tradição de espiritualidade judaico-cristã, a relação com Deus é
pessoal, a peregrinação espiritual é comunitária, e nada, absolutamente
nada, é individual. Igreja é o encontro de pessoas que têm em comum a fé
em Jesus Cristo. Naturalmente, pressupõe-se que tenham também os
mesmos critérios de valores e as mesmas aspirações existenciais. Isso faz da
igreja o ambiente prioritário em que é possível encontrar amigos e mentores.
De todos os grupos de convivência, como, por exemplo a família, a rede
de relações pro ssionais, os parceiros de empreendimentos e os associados
com interesses a ns, o grupo mais importante que é preciso identi car em
sua vida é a igreja, isto é, aqueles dois ou três (ou mais) que se reúnem com
você ao redor do Cristo ressurreto. Nada é mais poderoso neste planeta do
que a unidade entre homens e mulheres que partilham a mesma fé no
mesmo Deus-Cristo. Nenhum contexto de relacionamentos é tão rico e
frutífero quanto o ambiente das amizades e intimidades espirituais. Tenho
experimentado isso desde minha adolescência e posso a rmar que ali
encontrei pessoas que amaram e que amam de verdade, dispostas a repartir
comigo o melhor de tudo quanto possuem, inclusive, e principalmente, a si
mesmas. Foi na comunhão da fé que z minhas amizades mais sólidas e que encontrei parceiros para minha peregrinação espiritual. Espero ser para eles
o que são para mim.
CONCLUSÕES
É possível relacionar-se com uma pessoa apenas em uma dimensão. Isto é,
você pode relacionar-se com alguém que vai ajudá-lo a emagrecer, mas que
não será convidado para sua festa de aniversário. Esse é um dos seus
coaches. É também possível relacionar-se com mais de uma pessoa em cada
dimensão. Por exemplo, você pode reconhecer a autoridade de mais de uma
pessoa sobre a sua vida, isto é, você pode ter mais de um mentor. É possível
relacionar-se com pessoas em mais de uma dimensão. Nesse caso, de vez em
quando, um amigo pode ser acatado como mentor ou coach.
Isso signi ca que estamos falando de dimensões de relacionamentos, não
necessariamente de pessoas. Di cilmente você terá um amigo que será
apenas amigo, e nunca mentor, ou um coach com quem não possa cultivar
amizade.
Não tenho dúvidas. Sua vida será tão saudável quanto saudáveis forem as
pessoas com quem você se relaciona. Sua vida será tão saudável quanto
saudáveis forem seus relacionamentos com as pessoas com quem você se
relaciona.