Vivendo com propósitos
8. Conexão
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CONEXÃO
DESAFIO
Caso você tenha esquecido, estamos diante do desa o de dar signi cado e
sentido à vida. Isso somente será possível quando conseguirmos fazer duas
coisas: viver no presente, dando sentido e explorando a plenitude de
signi cado de cada momento, e respondendo a cada momento à luz de
nossa natureza mais essencial, a saber, a imago Dei. O sentido da vida não se
esclarece no m dos dias, na véspera do último suspiro, quando, num
lampejo mágico, exclamaremos: Ah, sim, agora entendi! Viver com sentido e
signi cado não depende também das circunstâncias e da realidade externas
ao ser, daí a a rmação de que mais importante do que quaisquer
circunstâncias é a maneira como reagimos a elas. Isso explica por que a
felicidade é muito mais “um como se vai” do que um “lugar aonde se chega”
– ou em que se está.
Em síntese, administrar o estado de espírito, momento após momento,
para viver plenamente aqui e agora é, ao mesmo tempo, o ônus e o privilégio
do direito e dádiva da vida. Quando eu emagrecer ou depois que nosso lho
nascer, assim que eu terminar o mestrado, quando as crianças estiverem um
pouquinho maiores ou tão logo a gente termine de pagar o apartamento
correspondem a um tempo que não existe, realidade hipotética, futuro
eventual, passível inclusive de jamais se realizar. Enquanto você está acima
do peso, aquela pessoa mais magra que você deseja ser não existe. Durante o
tempo em que você está pressionado entre prazos de entrega de monogra as
e premido por relatórios atrasados, aquela pessoa disponível e serena, capaz
de dar atenção ao cônjuge, não existe. A pergunta, portanto, é como desfrutar todo o prazer da vida a dois em meio a papéis, contas vencidas e
telefonemas de chefes estressados, ou como entregar meu corpo fora de
forma sem perder uma gota do prazer possível na cama do amor? Fora isso,
você estará vivendo no mundo do “se – então”. Esse mundo não existe e,
portanto, você não o está vivendo.
Todas as realidades – circunstâncias insatisfatórias – têm uma capacidade
enorme de acumular lixo psíquico em nosso coração e em nossa mente.
Pensamentos e sentimentos tóxicos estragam o dia, os relacionamentos, os
empreendimentos, en m, a vida. Mas a infelicidade circunstancial está longe
de ser o pior dos infortúnios. Ser abandonada pelo marido, perder um lho
num acidente de automóvel, ser demitido de surpresa, ser preterido
injustamente para aquela vaga perseguida durante meses, receber a notícia
que o resultado do exame foi positivo ou negativo, acumular dívidas, car
sozinho no sábado e não ter com quem repartir a noite de aniversário são
situações comuns – digo com pesar – e, estranhamente, estão longe de ser as
maiores tragédias que alguém possa experimentar. A maior de todas as
infelicidades não é circunstancial. A maior infelicidade é existencial: a
escravidão volitiva, o cativeiro emocional e o labirinto mental. A
incapacidade e a falta de motivação para agir e a sensação de que não faz
mais sentido realizar qualquer coisa são forças – ou antiforças – quase
invencíveis. O tédio, a desmotivação, a falta de esperança, a resignação
estoica, a descrença e a ausência de respostas e de nexos são primos
distantes do cinismo niilista, que trata a vida com descaso e que deixa o
mundo cinzento.
Lembro-me muito bem daquele domingo quando fui interpelado por
uma jovem que havia pouco passara a puberdade: “Pastor, o que é a vida
senão uma sucessão de fatos sem sentido?”.
Imaginei que sua questão era noogênica, não resultava de repetidos
desencantos, até porque conhecia muito pouco da vida. Ali estava uma
pessoa que, talvez precocemente, deparara com as perguntas matriciais da existência humana. Mas também me lembro da pergunta que um diretor da
multinacional em que eu fazia uma palestra endereçou-me diante de mais de
duzentos de seus gerentes e supervisores: “Pastor, o senhor está dizendo que
nunca ca estressado?”. Naquele momento, eu sabia que estava diante de um
homem em busca de resposta para manter seu mundo interior em ordem
em meio ao caos que tentava administrar no dia a dia. Aquela não foi uma
pergunta existencial, como da jovem, mas sim circunstancial, de gente
grande que não conseguiu amarrar todas as pontas dos papéis que
desempenha na vida.
Vindos de lugares absolutamente diferentes, ali estavam duas pessoas que
passariam a conviver com a tentação de pegar atalhos para dar colorido aos
seus dias. Minha tarefa era a mesma: ensiná-las a encontrar sua identidade
mais profunda e acessar a realidade plena no eterno agora.
DEMASIADAMENTE HUMANO
O homem é mais do que uma máquina biopsíquica. Você é muito mais do
que um organismo com vontades, sentimentos e inteligência. Este muito
mais é chamado de espírito, a dimensão do ser que transcende o tempo e o
espaço. O apóstolo São Paulo chamava esse muito mais de “homem
interior”:
Por tudo isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas.
2Coríntios 4.16-18, ARA
O “homem exterior” está sujeito aos desgastes naturais do tempo: adoece,
envelhece, enfraquece, ca senil. Ele é instintivo e reage às circunstâncias, tentando sobreviver: tem fome, e come, tem sono, e dorme, tem apetites e
desejos, e atira-se alucinado em busca de satisfação imediata. Mas o
“homem interior” é que transcende. Está destinado e equipado para ir além
dos limites biopsíquicos. Quando Jesus disse que “o espírito está pronto, mas
a carne é fraca”1, estava se referindo a essas duas dimensões: o homem
interior (espírito) e o exterior (carne). Jesus disse também que “o reino de
Deus está dentro de Vós”,2 isto é, não é experimentado na dimensão
biopsíquica, mas na dimensão espiritual, pois “carne e sangue não podem
herdar o Reino de Deus”. 3
Se houve um homem que transitou naturalmente pela dimensão
espiritual, e que dedicou sua vida a fazer com que as pessoas encontrassem o
mesmo caminho, esse homem foi Jesus – o homem completo. Na verdade,
Deus encarnado: 100% Deus; 100% homem. Mistério divino.
Para um observador do estilo de vida de Jesus, conforme descrito nos
Evangelhos, duas coisas chamam especial atenção. Em primeiro lugar, o fato
de que ele jamais esteve contido nos limites da matéria em relação ao
universo natural ou biopsíquico da realidade humana. Jesus curou doenças e
enfermidades das mais diversas, andou sobre as águas, multiplicou pães e
peixes, fez cessar tempestade, exerceu domínio sobre espíritos opressores,
conduziu bastante gente pelas trilhas da transformação pessoal e até mesmo
ressuscitou mortos.
O trânsito de Jesus no meio das multidões era admirável. Conseguia
andar no meio da massa sem perder de vista o indivíduo. Jesus não apenas
montava e desmontava “legos mentais” – padrões de pensamento,
paradigmas de raciocínios – em si mesmo, mas também e principalmente
conduzia as pessoas nesse processo extraordinário de transformação
pessoal. Sabia perfeitamente chegar ao âmago daqueles que dele se
aproximavam. Foi assim com Zaqueu, homem de pequena estatura,
rejeitado socialmente, desonesto e culpado de traição do povo judeu, tendo
sido cooptado por Roma para cobrar impostos de sua própria gente. Zaqueu é um homem abalado em sua autoestima, que tenta se superar enriquecendo
e acaba consumido pela ganância, vendendo a alma pelo poder econômico
para vencer seu senso de rejeição. O evangelista Lucas registra o dia em que
Zaqueu subiu em uma árvore e se expôs publicamente ao ridículo na
tentativa desesperada de ver Jesus passar. Jesus percebeu a cena, parou o
cortejo, ordenou que Zaqueu descesse da árvore e convidou-se para jantar
na casa dele. A multidão cou confusa pelo fato de que Jesus escolhera “a
casa errada” para car hospedado: a casa de um pecador.4
O constrangimento de Zaqueu foi tão grande que se comprometeu a dar
aos pobres metade dos seus bens e a restituir quatro vezes mais a todas as
pessoas que por ele haviam sido lesadas. Para um homem cujo alicerce
existencial era o dinheiro, a disposição de abrir mão da riqueza acumulada é
a maior evidência de que um “lego mental” foi substituído, isto é, houve
mudança de mente – arrependimento.
João, no capítulo 4 de seu Evangelho, conta a história de uma mulher de
Samaria. À beira do poço, tirando água, é interpelada por Jesus: “Dá-me de
beber.” “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher
samaritana?”, indagou a mulher, sabedora da inimizade radical entre judeus
e samaritanos. “Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-
me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água vida”, respondeu Jesus
enigmaticamente.
A mulher ca confusa e Jesus lhe explica que não está falando da água do
poço, mas do Espírito Santo, uma fonte de água viva que jorra do interior.5
Jesus referia-se à conexão espiritual, e a mulher pensava na realidade
imediata, pois diz: “Dá-me dessa água para que eu não precise mais vir
buscá-la”. É nítido que essa mulher ainda não desceu nem subiu às
dimensões do espírito. Jesus está diante de uma mulher com apetites
interiores que imagina poder satisfazê-los por meio de romances. Está presa
aos limites de suas emoções feridas e de seus instintos, carentes de afeição
genuína. Não consegue abstrair-se do universo biopsíquico. Jesus falava da água da vida e ela falava da água de poço. Jesus falava de sede espiritual,
enquanto ela corria atrás de satisfação emocional. Mais uma vez, Jesus
facilita conexão espiritual e joga alguém que vivia na superfície do “homem
exterior” para as regiões abissais do “homem interior”, que pode adorar a
Deus em espírito.
Tantas outras histórias poderiam ser contadas a respeito de Jesus. João,
evangelista, diz que “fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais”, 6
tantos que se todos eles fossem relatados, “creio eu que nem no mundo
inteiro caberiam os livros que seriam escritos”,7 o que é uma hipérbole,
lógico, que se presta ao papel de exaltar ao máximo possível um homem que
atuou apenas trinta anos e teve uma vida pública de apenas três.
Os discípulos observaram atentamente esse divino taumaturgo, capaz de
transitar com a mesma naturalidade entre o universo material, mental e
espiritual. Ali estava diante deles um homem que era, como diria John
Wimber, naturalmente sobrenatural. Um homem capaz de transitar
serenamente por meio do labirinto das ideias, das contrariedades dos
sentimentos e dos apelos das vontades. Um peregrino que não considerava o
mundo espiritual como um lugar distante, posterior (céu depois da morte)
ou anterior (paraíso antes do pecado) à existência humana pé no chão. Mas
os discípulos conseguiram observar um pouco mais. Enxergaram que Jesus
gostava de car sozinho. Expressões como “foi Jesus levado pelo Espírito ao
deserto”, “retirou-se dali... para um lugar deserto, à parte”, “despedidas as
multidões, subiu ao monte, a m de orar sozinho”, “caindo a tarde, lá estava
ele, só”, “tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto
e ali orava”, “de uma feita, estava Jesus orando em certo lugar” zeram com
que os discípulos pedissem a ele: “ 8 Senhor , ensina-nos a orar”.
MOMENTOS DIVINOS
Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se eu subir aos céus, lá estás; se eu zer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do
mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá. Mesmo que eu diga que as trevas me encobrirão, e que a luz se tornará noite ao meu redor, verei que nem as trevas são escuras para ti. A noite brilhará como o dia, pois para ti as trevas são luz.
Salmos 139.7-12, NVI
Reconheçam que o Senhor é o nosso Deus. Ele nos fez e somos dele: somos o seu povo, e rebanho do seu pastoreio. Entrem por suas portas com ações de graças, e em seus átrios, com louvor; deem-lhe graças e bendigam o seu nome.
Salmos 100.3,4, NVI
Esses dois trechos da poesia hebraica são aparentemente contraditórios.
O primeiro diz que não existe a menor possibilidade de alguém estar longe
da presença de Deus. O segundo convoca-nos a entrar na presença de Deus
por meio da gratidão e do louvor. Um deles diz que Deus está em todo lugar,
e outro a rma que entre mim e Deus existe um portão e um pátio.
A aparente contradição poderia ser explicada pela linguagem poética e,
portanto, metafórica. Mas esse paradoxo pode servir para expressar aspectos
diferentes de estar na presença de Deus. Uma coisa é estar na presença de
Deus, outra é estar consciente da presença de Deus. Uma é estar na presença
de Deus, outra é estar interagindo conscientemente com Deus, sofrendo a
ação de Deus.
Deus presente é diferente de Deus agindo. Deus agindo é diferente de
Deus agindo em mim, ou por meio de mim, e ainda mesmo em meu favor.
Isso até parece óbvio. Considerando que Deus é uma Pessoa e não uma
energia, uma luz ou um poder imaterial, é razoável imaginar que podemos
estar em sua presença e, ainda assim, longe de sua interferência, alheios à
sua voz, a seu toque e manifestações. Muitas vezes, passamos por pessoas
sem perceber sua presença, somos tocados sem sentir, chamados sem ouvir,
de tão absortos ou concentrados em outra direção.
Essa experiência foi narrada na Bíblia em diferentes momentos. Jacó, o
patriarca, fugia de seu irmão Esaú e escondia-se no deserto. Certa noite,
sonhou com uma escada ligando a terra e o céu, com anjos subindo e
descendo. Ao acordar, expressou espanto: “Na verdade, o Senhor está neste
lugar, e eu não o sabia [...] Quão temível é este lugar! É a Casa de Deus, a
porta dos Céus”. 9
Elias, o profeta, em crise depressiva, refugiava-se numa caverna e, após
uma noite, ouviu a voz de Deus: “Que fazes aqui, Elias?”10
Que extraordinário detalhe! Deus não pergunta: Que jazes aí, escondido?,
mas sim: Que jazes aqui, em minha presença? De igual modo, os discípulos,
na estrada para Emaús, caminham lado a lado com o Jesus ressurreto sem
contudo notar a presença do Cristo Vivo. 11
Tantas vezes Deus está ao nosso lado, mas nós não estamos em sua
presença. Não estamos conscientes nem atentos à sua presença. Por esse
motivo, o poeta hebreu convoca-nos a entrar na presença de Deus.
Essa é uma questão muito antiga na tradição judaico-cristã. A mulher da
cidade de Samaria, que estava à beira do “poço de água viva”, conversou com
Jesus a respeito de onde encontrar Deus. Jesus esclarece dizendo que entrar
na presença de Deus não é uma questão de onde, mas de como:
“Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.”
Jesus declarou: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não
adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”.
João 4.20-24, NVI
O Deus que não é encontrado em todo e qualquer lugar não é encontrado
em um lugar especí co, pois Deus encontra-se não em um lugar, mas em
um estado de ser daquele que o busca, independentemente do lugar
geográ co onde se encontre.
Há momentos quando concentramos nossa atenção em Deus e
conscientemente interagimos com ele. Gosto de pensar nesses momentos
como momentos divinos: ocasiões quando a presença de Deus é ativa e
percebida por nós. A nal, Deus presente é diferente de Deus agindo. E Deus
agindo é diferente de Deus agindo perceptivelmente. Quando o poeta
bíblico nos convida a “entrar na presença de Deus com louvores e ações de
graça”, na verdade está nos convidando a focalizar nossa atenção em Deus e
entrar em um momento divino. A melhor maneira de “entrar na presença de
Deus” é a oração. Para transcender, nesse sentido, você precisa aprender a
orar.
UM JEITO DE ORAR
Transcender é ir além do tempo e do espaço. Quem vai além do tempo
escapa do desgaste. Quem vai além do espaço escapa dos limites. Além do
tempo está a vitalidade e a fonte que a tudo alimenta. Além do espaço está a
matriz de toda a realidade e a plenitude de todas as coisas. Além do tempo é
o eterno agora: a integração de passado, presente e futuro. Além do espaço é
o eterno lugar: a integração dos ambientes, o encurtamento e, a aniquilação
das distâncias. Além do tempo está a harmonia entre o já e o ainda não.
Além do espaço está a harmonia entre aqui e lá.
O versículo inicial do Livro de Números diz que Deus falou a Moisés, “no
deserto do Sinai, na tenda da congregação” (ARA) – ou “Tenda do
Encontro” (NVI) – no primeiro dia do segundo mês do segundo ano de sua
saída do Egito. Aparentemente, o texto caminha em direções invertidas nas
dimensões espaço e tempo. Em se tratando do espaço, o texto progride do
genérico para o especí co – do deserto para a tenda da congregação, enquanto na dimensão do tempo faz justamente o oposto, do menos
abrangente para o mais abrangente – dia, mês e ano. Mas a interpretação
rabínica 12 diz que o texto segue a mesma lógica, indo sempre do menor para
o maior, pois não é o deserto maior que a Tenda, mas sim a Tenda maior que
o deserto. Assim como os anos contêm meses, e os meses contêm dias, não é
o deserto que contém a Tenda, mas sim a Tenda é que contém o deserto: em
outras palavras, no lugar de Encontro com o Divino cabe todo o restante,
quer seja no tempo quer no espaço. Tudo está lá-aqui, no “outro lugar”, que é
aqui mesmo em “outro tempo”, que é exatamente agora. Isso é o que signi ca
transcender, fazer conexão, entrar na presença de Deus.
Quem deseja experimentar a profundidade da vida de Deus não precisa
deixar tudo de lado para olhar apenas para Deus. Ao contrário, não pode
deixar nenhum aspecto da realidade circundante fora da interação com
Deus. Deve olhar não para Deus, mas para todas as coisas a partir da
imersão em Deus. Para nos encontrarmos com Deus – transcender – no
burburinho do dia, no barulho do trânsito, com gritos das vozes velozes que
nos solicitam de todos os lados, não precisamos abandonar o deserto e
correr para a Tenda da Congregação, uma vez que, na verdade, ao entrarmos
na Tenda da Congregação, o deserto terá entrado conosco, pois a Tenda da
Congregação contém o deserto.
A PORTAS FECHADAS
No momento em que você acorda todas as manhãs, todos os seus desejos e esperanças para o dia correm para você como animais selvagens. E a primeira tarefa de cada manhã consiste em enxotá-los todos de volta; e ouvir aquela outra voz, observar aquele outro ponto de vista, deixando que aquela outra vida, maior,
mais poderosa e mais calma venha uindo para dentro.13
Essas palavras de C. S. Lewis resumem o que estou chamando de
transcender: cultivar a permanente consciência da presença de Deus, ser,
viver e existir – conscientemente – em Deus. O apóstolo Paulo chamou isso
de “orar sem cessar”, traduzido por Henri Nouwen como “transformar
pensamento em oração”. Nesse caso, o que os judeus peregrinos pelo deserto
chamavam de Tenda da Congregação ou do Encontro, Jesus chamou de
“quarto com portas fechadas”.
Sempre encarei a oração como fuga da realidade e alienação. Acho que
fui ensinado assim. De vez em quando, ouço pessoas dizendo: “Lamento,
mas tudo o que posso fazer por você é apenas orar”. Parece que a oração é
pouco e que o ambiente da oração é restrito e restritivo. Parece mesmo que a
recomendação de Jesus leva-nos a um beco que reduz o horizonte: do
mundo para o quarto, do contato com o mundo para a porta fechada, da
visão para os olhos fechados, da postura pronta para a ação para os joelhos,
num caminho que aparentemente nos coloca num universo cada vez menor
de realidade. Mas o que não podemos esquecer é que não é o mundo que
contém o quarto de oração, é o quarto de oração que contém o mundo. A
realidade, em sua maior densidade, não está no resvalar rarefeito que temos
com a vida em meio às nossas múltiplas e super ciais relações. O contato
com a real realidade ocorre na experiência de conexão com Deus, a fonte e
sustentação de tudo quanto existe, o meio que perpassa todos os processos,
o m último de todas as coisas, “pois dele, por ele e para ele são todas as
coisas”.14
Creio que isso explica por que, quando foi solicitado a ensinar seus
discípulos a orar, Jesus não lhes deu apenas uma oração, mas um caminho.
Não ensinou apenas o que deveriam dizer ao orar, mas também e
principalmente como deveriam orar:
E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de car orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a m de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você
orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará. E quando orarem, não quem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não sejam iguais a eles, porque o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.
Mateus 6.5-8, NVI
Orar implica um relacionamento pessoal. Quando Jesus ensinou seus
discípulos a orar, estabeleceu um fundamento sólido, sem o qual a oração
não passa de verbosidade frívola e de desabafo. Jesus mostrou que orar é
estar em comunhão com Deus, o Pai, o Pai que está além de nós. Jesus diz
que, em oração, “seremos vistos pelo Pai”.
Orar é estar sob as vistas de Deus, e cada vez que você estiver consciente
que está sob as vistas de Deus, estará orando. O lugar secreto é o lugar onde
Deus não apenas pode nos ver, mas também pode estar conosco. Quando
você se recolhe para orar, não está falando com você mesmo, fazendo um
desabafo emocional ou elaborando pensamentos e sentimentos no divã de
um deus suposto. As orações colocam-nos diante de um interlocutor real e
interessado em nós. Quando você está em oração, está se dirigindo a outra
pessoa além de você mesmo: está em comunhão com o Pai. Abba é o nome
cristão para Deus. Quem ora chama Deus de Pai, e somente quem chama
Deus de Pai consegue orar.
Jesus de Nazaré foi a primeira pessoa que se dirigiu a Deus chamando-o
de Pai, Abba. Na verdade, Jesus podia dirigir-se a Deus dessa maneira
porque era o unigênito lho de Deus. Jesus era o único gerado de Deus,
diferentemente de todos os seres humanos, criados por Deus. Por essa razão,
o encontro com Deus é mediado por Jesus. Somente ele, Jesus, podia dizer:
“Eu e o Pai somos um”.15 Abba é a palavra aramaica usada para descrever o
balbuciar de uma criança que está aprendendo a falar, e melhor seria
traduzida por “paizinho” ou “papai”. O que Jesus pretendia era estabelecer
não apenas uma dimensão pessoal em nosso relacionamento com Deus, como também enquadrar esse relacionamento numa moldura de extrema
afetividade e dependência, como deve ser todo relacionamento entre pai e
lho.
Quem ora sem crer em Deus não ora, elabora. Quem ora sem crer que
Deus existe em termos pessoais e está à disposição para um relacionamento
próximo, amoroso e consciente, na verdade, fala “de si para si mesmo”.16 Ou
fala de si para o “Todo” ou para “Tudo”, que equivale a nada. Orar é penetrar
no coração de Deus a convite do próprio Deus, o Abba que a todos convoca
para que se assumam e se percebam como lhos amados. Esse é o grande
segredo da oração.
Orar implica, também, um momento especí co de consciência. Jesus
disse que a oração não é um ato mecânico, não se destina a gerar um “estado
alterado de consciência”. Jesus advertiu que, ao orar, não devemos usar de
vãs repetições, isto é, não devemos transformar a oração num mantra
autônomo em relação ao todo do nosso ser e viver.
Toda vez que nos recolhemos para fazer uma releitura do mundo e do
nosso universo interior, colocamo-nos diante da oportunidade de refazer
estruturas psíquicas e recebermos de Deus novos patamares existenciais. A
recomendação de Jesus sobre “não car repetindo a mesma coisa” pode ser
interpretada de diferentes maneiras. Gosto de pensar que está de acordo
com aquela expressão popular: “virar o disco” (própria da época dos long-
plays de duas faces), algo do tipo “coloque para tocar o outro lado”, que quer
dizer “abandone esse discurso”. A oportunidade da oração é um convite a
abandonar velhas formas de pensar, desmontar paradigmas mentais que
geram a ições para receber de Deus novas imagens e realidade de paz e de
esperança. A oração é uma porta de acesso a novos processos, percepções,
atitudes mentais e emocionais possíveis na comunhão com o Abba, Pai.
Orar, portanto, implica silêncio. Jesus também ensina que a oração
acontece numa dimensão profunda de introspecção: “vá para seu quarto e
feche a porta”. Quem permanece na dimensão do homem exterior, não consegue orar. Quem ca na superfície verbal e pública, não consegue orar.
A oração acontece no quarto silencioso do homem interior e não na
automação da repetição verbal, nem mesmo no vazio da mente.
A oração de Jesus, apesar de ser cheia de conteúdo inteligente, arremessa-
nos a uma dimensão de comunhão com Deus que transcende a razão e as
palavras: “Seu Pai, que vê em secreto”. A oração é geralmente identi cada
com a expressão verbal. A maioria das pessoas entende que “orar é falar com
Deus”. De fato, orar é “falar com Deus” e não apenas “falar para Deus”. Falar
com Deus implica, também, ouvir Deus. E ouvir Deus implica silêncio. O
silêncio na presença de Deus, sob a voz de Deus, leva-nos a patamares mais
profundos de intimidade em que as palavras tornam-se desnecessárias e
inoportunas.
Alguém já disse que “as palavras servem apenas para aplacar a
efusividade do que é dito no silêncio”. Quanto mais intenso o encontro,
menos necessárias as palavras. Nessas horas, as palavras nos dão a sensação
de que quebrarão um momento mágico. Isso me faz lembrar de um diálogo
de alguém com Madre Teresa de Calcutá: “O que a senhora diz para Deus
em suas orações?”. “Nada, eu só escuto.” “E o que Deus diz para a senhora
em suas orações?” “Nada, ele só escuta.”
Essa é a verdadeira e mais profunda dimensão de oração: uma
experiência de presença e de comunhão espiritual que transcende a análise e
a verbosidade. Por essa razão, Jesus diz que a oração é muito mais o que o
Pai vê em secreto, do que o que o Pai ouve.
Nossa cultura cartesiana e dogmática quer explicação para tudo, até
porque explicar e compreender é meio caminho para controlar. Mas Deus
não pode ser explicado nem entendido em plenitude. Pode apenas ser
percebido afetivamente, e, por essa razão, a oração é muito mais um espaço
de amizade com Deus do que um momento de “despachar” com a
autoridade universal.
Orar é penetrar em Deus, não para falar coisas para ele, mas para
simplesmente experimentá-lo, em silêncio e afetivamente. Eugene Peterson
ensina que a linguagem humana tem pelo menos três dimensões: descritiva,
diretiva e afetiva. 17 Primeiro, aprendemos a dar nomes às coisas. Depois,
aprendemos a dar ordens à realidade. Somente com a maturidade
aprendemos a expressar afeto e amor, a buscar o contato para celebrar a
amizade e o amor. O contato afetivo transcende as palavras. Tal encontro é
mais próximo da experiência de contemplar uma obra de arte, o que implica
elevação e êxtase, do que a experiência de tentar explicar a você as diferentes
dimensões da linguagem. Orar é penetrar o indizível.
Todas as tradições espirituais possuem instrumentos facilitadores da
meditação, esse estado alterado de consciência ou estágio profundo de
introspecção. Os iogues possuem seus mantras; os espiritualistas, suas
mandalas; os judeus, suas cabalas; os cristãos, suas orações. Isso explica as
razões por que Jesus ensinou uma oração especí ca – O Pai Nosso –, que
não deveria ser transformada em palavras mágicas constantemente
repetidas, mas sim oferecer o fundamento para o assentamento da
consciência. A mais popular oração meditativa dos cristãos é “Senhor Jesus,
Filho do Deus vivo, tem piedade de mim”, reduzida na forma Kyrie eleison,
que os místicos ensinam a repetir silenciosamente ao longo do dia até se
tornar tão espontânea e instintiva quanto a respiração.
A meditação é um estado de consciência. Em minha experiência pessoal,
é como colocar um segundo nível de consciência para funcionar. Algo muito
parecido com o que acontece quando, no meio da conversa, esquecemos o
nome de uma pessoa e seguimos no papo dizendo “daqui a pouco eu
lembro”. Parece que enquanto a conversa prossegue na mente 1, a mente 2
começa a vasculhar seus arquivos, até que o nome do sujeito é achado e,
então, a mente 2 envia a informação para a mente 1, e você interrompe a
conversa e diz “ah, lembrei”. Isso acontece quando você está trabalhando no seu computador e, de vez em quando, uma janela abre “sozinha” colocando
algo novo à sua frente.
Na oração silenciosa, meditativa, contemplativa, como queira chamar,
esse fenômeno acontece vezes sem conta. Enquanto a nossa consciência
nível 1 está focada em uma coisa apenas – a respiração ou uma oração curta:
Kyrie eleison –, o Espírito Santo suscita em nossa consciência nível 2 um
sentimento, um pensamento, uma disposição nova de vontade.
A oração, portanto, implica fé e consequências. Jesus ensina que a oração
abre caminhos para a intervenção de Deus: “Seu Pai, que vê em secreto, o
recompensará”. Não tenha dúvida: a oração leva você para além das
possibilidades de seus pensamentos, sentimentos e vontade e coloca você
diante das in nitas possibilidades do mundo espiritual.
A oração alinha nosso coração e mente com a vontade perfeita de Deus e
coloca os trilhos pelos quais ganhamos acesso aos recursos maravilhosos
dos céus. Também por essa razão, orar não é tanto falar com Deus, mas sim
“estar com Deus”, de modo a receber o que ele deseja nos dar. Jesus disse
que, em seu nome, poderíamos pedir ao Pai o que precisássemos, e ele nos
atenderia.18 Evidentemente, há um sentido profundo no signi cado de “orar
em nome de Jesus”, mas isso não invalida o fato de que orar é acessar
recursos que transcendem as potencialidades e capacidades humanas.
ORE COMO SE DEUS ESTIVESSE LÁ
A Bíblia fala de um homem, Cornélio, que jamais ouvira falar de Jesus, mas
que era “piedoso e temente a Deus [...] e que fazia muitas esmolas ao povo e,
de contínuo, orava a Deus”.19 Até que Deus vai ao encontro daquele homem.
Cornélio tem uma visão espiritual quando um anjo lhe diz que sua oração
havia sido ouvida e que as esmolas que dera foram lembradas na presença de
Deus.
Quando as a ições forem demasiadamente intensas, as palavras fugirem,
os sentimentos parecerem confusos, os pensamentos se multiplicarem sem parar, o corpo estiver exaurido, entre no seu quarto, feche sua porta e que
diante do Abba, que vê em secreto. Jamais despreze as oportunidades de um
momento de joelhos em silêncio. Jamais descreia das recompensas que
podem se derramar sobre você enquanto está num momento de conexão
com o Divino.
ALGO MAIS
Viver com o propósito de transcender implica viver a partir do
relacionamento pessoal e profundo com Deus. Implica acreditar que os
recursos e potencialidades disponíveis, quer sejam para o homem interior –
os sentimentos, os pensamentos e a vontade –, quer para o homem exterior
– as necessidades circunstanciais –, são sempre muito mais abrangentes do
que aparentam ser.
A união íntima com Deus – experiência de transcendência – extrapola
nossos conceitos de realidade, e é difícil expressar isso em palavras. Embora
Jesus tenha dito ser um com o Pai e nos convidado para essa relação,
di cilmente conseguimos acreditar que o abismo que nos separa de Deus
não existe. Sob a in uência da loso a naturalista, somos tentados a crer
que Deus fez as coisas e, depois, passou a observar o andamento do drama
universal, interferindo de vez em quando para fazer o que chamamos de
milagre.
Todos os místicos e mestres da espiritualidade dizem que, em momentos
de profundo amor e elevação, podemos experimentar uma espécie de
contato com uma realidade maior, à qual muita gente não sabe dar nome ou
usa coisas do tipo “Cristo interior” e “consciência cósmica”. Creio que esse
algo maior é Alguém. E creio que, não poucas vezes, esse Alguém “dá o ar da
graça”, convidando-nos a um relacionamento de amor.
Jane Goodall, em seu livro Uma janela para a vida: 30 anos com os
chimpanzés da Tanzânia, conta que, certa vez,
os chimpanzés subiram em uma árvore baixa para comer brotos de folhas. Fui para um lugar de onde podia, quieta, observá-los fazendo a última refeição do dia. A cena tinha uma beleza de tirar o fôlego. Ao fulgor suave do sol, as folhas estavam brilhantes, de um verde-claro e luminoso; o tronco e os ramos ensopados pareciam de ébano; a pelagem preta dos chimpanzés era matizada por lampejos de castanho-acobreado. E por trás desse tableau refulgente estendia-se o pano de fundo dramático do céu Índigo escuro, onde o relâmpago ainda tremeluzia e faiscava e o trovão distante ribombava.
Existem muitas janelas através das quais podemos observar o mundo, em
busca de algum signi cado. Existem as que foram abertas pela ciência, com as vidraças polidas por uma sucessão de mentes brilhantes, penetrantes. Através delas podemos ver cada vez mais longe, cada vez mais claro, em áreas que estavam acima do conhecimento humano. Olhando por uma destas janelas, no decorrer dos anos, aprendi muito sobre o comportamento dos chimpanzés e seu lugar na natureza das coisas. E isto, por sua vez, nos ajudou a compreender um pouco melhor alguns aspectos do comportamento humano, nosso próprio lugar na natureza.
Mas existem outras janelas; janelas que foram descerradas pelas lógicas dos
lósofos; janelas através das quais os místicos buscam sua visão da verdade;
janelas nas quais os líderes das grandes religiões se debruçaram em sua busca de um propósito não apenas na beleza maravilhosa do mundo, mas também em sua escuridão e em sua feiura. A maioria de nós, quando medita sobre o mistério de nossa existência, perscruta o mundo através de apenas uma dessas janelas. E até mesmo essa única costuma car embaçada pelo hálito de nossa humanidade
nita. Com as costas da mão desembaçamos um pedacinho e por ali olhamos.
Não surpreende que quemos confusos com a fração ín ma do todo que conseguimos ver. A nal, é como tentar compreender o panorama do deserto ou do oceano por meio de um canudo de papel.
E eu, plácida à luz do sol, tão integrada com a oresta banhada de chuva e
com as criaturas que nela viviam, por um breve momento pude espiar por uma outra janela e com uma outra visão. É uma experiência que acontece, espontânea, com algumas das pessoas que passam muito tempo sozinhas na natureza. O ar estava impregnado de uma sinfonia emplumada, a prece dos pássaros. Ouvi frequências novas em sua música e também no canto dos insetos, notas tão altas e doces que quei atônita. Fui tomada por uma consciência intensa da forma e da cor de cada folha isolada, dos padrões variados dos veios, tornando cada uma delas uma peça única. Os perfumes eram nítidos, facilmente identi cáveis – frutas maduras demais, fermentando; terra encharcada; as cascas das árvores, frias e úmidas; o cheiro abafado de pelo de chimpanzé e, é claro, meu próprio
cheiro também. E as emanações aromáticas de folhas tenras esmagadas eram quase opressivas. Senti a presença de um pequeno antílope e depois o vi, pastando tranquilo de frente contra o vento, os chifres espiralados obscurecidos pela chuva. E me senti preenchida até o âmago por aquela paz que ultrapassa
todo entendimento.20
Em momentos assim, de transcendência, a única coisa que existe é a
sensação de plenitude que resulta da consciência de estar imerso em Deus.
A respeito disso, a experiência de Jacó é paradigmática.21 Seu susto ao
acordar após sonhar com a escada que unia Terra e céu, com anjos subindo e
descendo, é constatar que “Deus estava aqui e eu não o penetrava”.
“Penetrar” é a tradução escolhida por André Chouraqui22 para o verbo
hebraico iadá, que pode signi car saber e conhecer, mas também penetrar,
como quando a Bíblia diz que “Adão conheceu Eva”, isto é, penetrou Eva, isto
é, ganhou acesso a dimensões profundas. Assim, compreendo que
transcender, além de implicar um relacionamento permanente com Deus,
implica momentos especí cos em que podemos e devemos acessar, estar em,
penetrar, mergulhar e/ou ser invadido pelo Divino que está além do tempo e
espaço.