Vivendo com propósitos
Introdução
Por uma só coisa anseio: aprender o que se esconde atrás dos fenômenos; desvendar o mistério que me dá a vida e a morte; saber se uma presença invisível e imota se esconde além do uxo visível e incessante do mundo. Pergunto e torno a perguntar, golpeando o caos: quem nos planta nessa terra sem nos pedir licença? Quem nos arranca da terra sem nos pedir licença? Sou uma criatura fraca e efêmera, feita de barro e sonhos. Mas sinto em mim o turbilhonar de todas as forças do Universo.
Antes de ser despedaçado, quero ter um instante para abrir os olhos e ver. Minha vida não tem outro objetivo. Quero achar uma razão de viver, de suportar o terrível espetáculo diário da doença, da fealdade, da injustiça e da morte. Vim de um lugar obscuro, o Útero; vou para outro lugar obscuro, a Sepultura. Uma força me atira para fora do abismo negro; outra força me impele irresistivelmente para dentro dele.
Nikos Kazantizakis
Acordei, certa manhã, impregnado da sensação de que a saga humana
tem um andar de cima. E um andar de baixo. Qualquer pessoa que se sinta à
vontade neste mundo, tal como se apresenta agora, não o percebeu
adequadamente. Quem convive passivamente com as causas aparentemente
aleatórias, que distinguem felizes de infelizes, no mínimo ainda não teve
coragem de levantar a cortina para ver o que se passa do outro lado do
mundo visível.
O mundo de contrastes remete-nos inevitavelmente à percepção de que a
experiência existencial humana explica-se melhor pela metafísica. Quanto a
mim, o piso térreo nunca me atraiu. As manchetes dos jornais jamais me
satis zeram, no sentido de explicar por que exatamente aqueles 117 passageiros morreram no acidente de avião ou por que justamente aquela
mulher cou viúva tão cedo. Por que alguém se torna bom samaritano e
outro, monstro urbano? A sociologia, a psicologia, a antropologia e tantas
outras logias jamais explicaram por que foi justamente o fulano, e não eu,
quem nasceu na favela, tornou-se ajudante de tra cante e morreu
assassinado aos 17 anos numa briga de bar.
Sempre descon ei que, por trás da trama humana no mundo visível, há
fatores determinantes no mundo invisível. Já não me recordo quando foi que
adquiri a convicção de que os fatores determinantes das biogra as estão no
mundo espiritual, não no plano histórico. Por essas razões, a trivialidade da
vivência dos mortais sempre me entediou. “Crescer e multiplicar” não
resume satisfatoriamente a razão pela qual existo. Considero blasfemo
aquele que chama de vida apenas a sucessão de atividades inerentes à
sobrevivência: comer, beber, dormir, procriar, trabalhar e ter prazer
eventual.
Jamais passei um dia sem buscar discernir e estabelecer contato com as
forças e personalidades que interagem e que se digladiam nos planos
invisíveis, determinando a trama histórica que a maioria ingênua pensa
comandar. No meu mundo cabem (e são imprescindíveis para que esse
mundo faça sentido) Deus, o diabo, os anjos e demônios. E os humanos.
Todos os humanos. Sou obcecado por acessar esses lugares outros, essa
dimensão espiritual, para transitar entre o espírito e o Espírito, de modo a
poder cooperar com a causa em vez de navegar ao sabor dos efeitos.
Por conta disso, minhas noites adultas sempre foram maldormidas,
passadas entre os cantos lúgubres dos labirintos da re exão e as iluminadas
trilhas da oração, nas pistas deixadas pelos escritos sagrados. Passo
madrugadas em claro. Fico deprimido durante dias após notícias
catastró cas. Leio as Escrituras Sagradas com avidez para discernir a
opinião de Deus sobre meu mundo, de dentro e de fora. Suplico socorro aos
céus e busco luz para o entendimento na expectativa de ter o que dizer para as pessoas que amo. Peço a Deus que mostre sua cara para mim e por meio
de mim. Já não me basta crer e esperar. Anseio ver e interferir.
Minha biogra a possui páginas com histórias de violência e de
assassinatos; trá co de drogas e jogo do bicho; adultérios, estupros e abuso
sexual infantil; miséria e desespero suicida; família e favela; igreja e amigos
de rua; amizades, amores e orfandade. O barulho dos tiroteios pela
vizinhança, que me enchiam de pavor durante a noite, ainda faz eco em
alguns recantos de minhas memórias emocionais. Naquele tempo, eu era o
primeiro a me recolher para dormir. O movimento da casa e as luzes acesas
me traziam uma agradável sensação de segurança em razão de saber que
alguém estava acordado vigiando portas e janelas contra invasões
indesejadas e balas perdidas. Muitas vezes em que, por alguma razão, eu
cava por último, a responsabilidade de percorrer a casa para apagar as luzes
e veri car as trancas recaía como um fardo insuportável sobre meus ombros.
Cada barulho do quintal podia signi car perigo real e imediato. Aquelas
eram as noites mais longas. Ainda tenho o registro da manhã em que
acordei com policiais trocando tiros com tra cantes na porta de minha casa,
enquanto avisavam os moradores quanto à possibilidade de um bandido
qualquer estar escondido no armário ou na casa do cachorro. Algumas
vezes, passei para o outro lado da calçada, a caminho da escola, evitando o
constrangimento de ter de pular um cadáver coberto de jornal nas esquinas
próximas de casa. Não poucas vezes, ouvi de meninas que faltaram à aula,
porque foram estupradas na noite anterior. Vivi boa parte de minha
adolescência envolto em maresia, do mar e da maconha, que emoldurava as
maravilhosas tardes de bate-bola na areia da praia do José Menino, em
Santos.
A geometria dos corredores, salões e armários do orfanato que me
abrigou ainda me é peculiar. As cores mais vivas, entretanto, estão mesmo
sobre os degraus da escada da frente, onde eu me sentava como que
fotografando cada sorriso de criança chamada pelo nome com a chegada da mãe ao nal do dia. Todas as crianças partiam, e meus olhos cavam xos
no chão xadrez do hall até minha avó me encaminhar carinhosamente para
trás das imensas portas que nos protegeriam abrigados, somente os dois,
naquela imensidão. Sobre pessoas desorganizadas existencialmente tenho
boas lembranças. E dolorosas experiências.
Os rodopios das mulheres ao vento das pombagiras encontram lugar na
minha tela biográ ca. As correrias de setembro, em busca de doces
distribuídos no “Dia de Cosme e Damião”, outrora inocentes brincadeiras
explicadas pelo apetite juvenil por glicose esculpida, agora se revelam
expressões de devoção espiritual. As velas, despachos, garrafas de bebidas
fortes nas esquinas, os inúmeros amuletos e colares coloridos que meus
amigos exibiam e o barulho dos atabaques que marcavam o ritmo das noites
de sexta-feira encaixam-se como correntes da escravidão, que amarravam
gente com vida completamente embaraçada e marcada pela podridão moral.
Jamais me esqueci da noite em que camos, os primos, olhando, da sacada
do apartamento de frente para o mar, minha tia rodopiando na praia levada,
de um lado para outro, por espíritos que chamo de demônios.
O mundo cor-de-rosa não durou muito para mim. Desde os meus oito
anos de idade, convivo com as mais diversas histórias de mazelas pessoais e
familiares. Não me lembro de ter acreditado em Papai Noel. Cresci cedo. Os
miseráveis moradores da favela e as pobres crianças que meus lhos veem
apenas da janela do carro nos grandes cruzamentos da cidade de São Paulo
eram os meninos com quem eu jogava bola e trocava pontapés nas brigas de
rua. A favela cava ao lado.
Mas o cristianismo fala de outro lugar, de outro estado de ser, de outra
possibilidade de relação com Deus, o Criador amoroso que não desistiu de
sua criação. Minha biogra a também. Hoje entendo quando Deus me olha
nos olhos e sussurra repetidas vezes: “Com amor eterno eu te amei... com
benignidade te atraí” (Jr 31.3, ARA). Esse amor eterno é a única explicação
para que eu tenha sido preservado em meio a tantas idas e vindas.
Minha peregrinação teve início na eternidade. Foi sempre protegida pela
incansável luta de minha mãe que, viúva aos 22 anos de idade, colocou sob
suas asas duas crianças e correu incansavelmente atrás do pão de cada dia.
Ninguém me tira da cabeça que o Milton Nascimento escreveu a canção
para ela. Ela, que tem “um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta;
uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta”. Ela
que é “a dose mais forte e lenta, de uma gente que ri quando deve chorar, e
não vive, apenas aguenta”. Ela que tem “força, raça, gana, manha, graça e
sonho, e mistura a dor e a alegria”. Ela que traz “na pele essa marca, e possui
a estranha mania de ter fé na vida”. Minha mãe, que hoje se parece muito
com a outra Maria, pois o Filho de Deus também fez morada em seu
coração. Depois de minha mãe, minha história passou por um orfanato
evangélico e foi regada por dezenas de histórias bíblicas que minha avó me
contava. Histórias que ncaram raízes por causa das centenas de vezes em
que contemplei aquela mulher solitária, também viúva em sua juventude,
ajoelhada em oração. Ao lado, corriam alguns homens especiais, que me
amaram com todas as forças de sua alma e zeram o possível e o impossível
para suprir a minha carência de pai.
Aos onze anos, tive meu nome incluído no rol de membros de uma
comunidade cristã evangélica, quando minha peregrinação espiritual foi
molhada nas águas batismais de uma Igreja Batista ncada na entrada do
solo árido da favela mais violenta da cidade do Rio de Janeiro – Acari, em
maio de 1975.
Desde então, quando o cializei minha entrada nos horizontes do corpo
místico de Cristo, passei a ser acompanhado por uma nuvem do céu: anjos,
amigos, mentores, irmãos. Uma nuvem do céu que, depois de longa
caminhada e de muita poeira nos pés e na alma, fez-me assentar à mesa em
família, com minha mulher e meus lhos – a antessala do céu, o paraíso
numa Terra marcada pelo caos.
Assim observo minha trajetória. Essa é a leitura que faço de tantas
“coincidências” que me zeram ser quem sou. As perguntas que sempre
povoaram meus recônditos mais íntimos encontraram calmaria no
cristianismo. Especialmente na compreensão judaico-cristã, que a rma que
vivemos num parêntese da história. Um parêntese entre o paraíso e o céu.
Aprendi que viver é peregrinar. Uma peregrinação visível, cheia de
interações invisíveis. Viver é transitar entre um lugar e outro, um estado de
ser e outro, uma condição humana e outra, um mundo e outro. Fui criado
na estrada. Cresci na rua. Morei em muitas casas e frequentei muitas escolas.
Substituí amigos e me adaptei diversas vezes. Ou, quem sabe, não me
adaptei até hoje. Pois continuo peregrino. Não sinto que cheguei.
Talvez esse senso de transitoriedade que me foi inculcado na infância
explique minha disposição para experimentar e minha vontade de descobrir.
Minha biogra a é uma história de estar a caminho, e justamente assim, ou
por isso mesmo, enxergo a experiência espiritual como uma peregrinação.
Vejo a existência humana como uma peregrinação rumo às verdadeiras
dimensões da vida. Uma peregrinação em companhia de pares que nos são
acrescentados ao longo da trilha. Ninguém peregrina sozinho. Caminha,
inclusive, ao lado de companheiros invisíveis aos olhos humanos. Quanto
maior a capacidade de discernir e de escolher companhias, maior a
possibilidade de êxito do peregrino.
Também é verdade que ninguém peregrina apenas pelas estradas do aqui
e agora, mas também, e principalmente, pelas regiões do ali e além. Quanto
mais o peregrino for capaz de discernir e de interferir no outro mundo,
maior a possibilidade de êxito neste mundo.
A perspectiva da peregrinação solidária é a melhor leitura que consigo
fazer da experiência espiritual judaico-cristã. O cristão é um peregrino. O
cristão é um peregrino que caminha em comunhão. O cristianismo é a trilha
da intimidade com Deus e com o próximo. Cristianismo é conexão.
A partir de Adão, o primeiro ser humano, protótipo de todos nós, a
experiência de peregrinação é compartilhada com toda a humanidade. Essa
peregrinação não é o caminho da volta ao paraíso nem a elaboração
psíquico-emocional daqueles para quem a vida não transcorreu por vias
consideradas normais. Não se trata de fuga para o céu nem da busca de
equilíbrio interior-intimista. A peregrinação não é apenas psíquica e
emocional, mas também essencialmente espiritual. Não é necessária para
uns poucos traumatizados por experiências circunstanciais, mas sim uma
tarefa imprescindível a todo ser humano rumo ao máximo de suas
possibilidades corno ser criado à imagem e semelhança de Deus.
O ser humano é um peregrino, e a tradição de espiritualidade judaico-
cristão é o melhor mapa que encontrei. Viver é caminhar. A vida faz sentido
quando conseguimos extrair o sentido de cada momento, cada 1 kairós, cada
dia. O sentido da vida está em viver. Mas não um viver qualquer. Um viver
qualquer é mera existência, suceder de dias. Há um jeito de viver, e esse jeito
de viver está embutido em cada ser humano em duas dimensões. A primeira
é universal, a imago Dei, matriz divina da qual todos somos herdeiros. A
segunda é singular, pois cada ser humano é um original. A capacidade de
viver um momento de cada vez, expressando a imago Dei por meio de
minha singularidade, é o que chamo viver com propósito. Assim, espero
encontrar a felicidade ali e além, mas também aqui e agora.