Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 3 de 28

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Vivendo com propósitos

Introdução

 

Por uma só coisa anseio: aprender o que se esconde atrás dos fenômenos; desvendar o mistério que me dá a vida e a morte; saber se uma presença invisível e imota se esconde além do uxo visível e incessante do mundo. Pergunto e torno a perguntar, golpeando o caos: quem nos planta nessa terra sem nos pedir licença? Quem nos arranca da terra sem nos pedir licença? Sou uma criatura fraca e efêmera, feita de barro e sonhos. Mas sinto em mim o turbilhonar de todas as forças do Universo.

Antes de ser despedaçado, quero ter um instante para abrir os olhos e ver. Minha vida não tem outro objetivo. Quero achar uma razão de viver, de suportar o terrível espetáculo diário da doença, da fealdade, da injustiça e da morte. Vim de um lugar obscuro, o Útero; vou para outro lugar obscuro, a Sepultura. Uma força me atira para fora do abismo negro; outra força me impele irresistivelmente para dentro dele.

Nikos Kazantizakis

 

Acordei, certa manhã, impregnado da sensação de que a saga humana

tem um andar de cima. E um andar de baixo. Qualquer pessoa que se sinta à

vontade neste mundo, tal como se apresenta agora, não o percebeu

adequadamente. Quem convive passivamente com as causas aparentemente

aleatórias, que distinguem felizes de infelizes, no mínimo ainda não teve

coragem de levantar a cortina para ver o que se passa do outro lado do

mundo visível.

O mundo de contrastes remete-nos inevitavelmente à percepção de que a

experiência existencial humana explica-se melhor pela metafísica. Quanto a

mim, o piso térreo nunca me atraiu. As manchetes dos jornais jamais me

satis zeram, no sentido de explicar por que exatamente aqueles 117 passageiros morreram no acidente de avião ou por que justamente aquela

mulher cou viúva tão cedo. Por que alguém se torna bom samaritano e

outro, monstro urbano? A sociologia, a psicologia, a antropologia e tantas

outras logias jamais explicaram por que foi justamente o fulano, e não eu,

quem nasceu na favela, tornou-se ajudante de tra cante e morreu

assassinado aos 17 anos numa briga de bar.

Sempre descon ei que, por trás da trama humana no mundo visível, há

fatores determinantes no mundo invisível. Já não me recordo quando foi que

adquiri a convicção de que os fatores determinantes das biogra as estão no

mundo espiritual, não no plano histórico. Por essas razões, a trivialidade da

vivência dos mortais sempre me entediou. “Crescer e multiplicar” não

resume satisfatoriamente a razão pela qual existo. Considero blasfemo

aquele que chama de vida apenas a sucessão de atividades inerentes à

sobrevivência: comer, beber, dormir, procriar, trabalhar e ter prazer

eventual.

Jamais passei um dia sem buscar discernir e estabelecer contato com as

forças e personalidades que interagem e que se digladiam nos planos

invisíveis, determinando a trama histórica que a maioria ingênua pensa

comandar. No meu mundo cabem (e são imprescindíveis para que esse

mundo faça sentido) Deus, o diabo, os anjos e demônios. E os humanos.

Todos os humanos. Sou obcecado por acessar esses lugares outros, essa

dimensão espiritual, para transitar entre o espírito e o Espírito, de modo a

poder cooperar com a causa em vez de navegar ao sabor dos efeitos.

Por conta disso, minhas noites adultas sempre foram maldormidas,

passadas entre os cantos lúgubres dos labirintos da re exão e as iluminadas

trilhas da oração, nas pistas deixadas pelos escritos sagrados. Passo

madrugadas em claro. Fico deprimido durante dias após notícias

catastró cas. Leio as Escrituras Sagradas com avidez para discernir a

opinião de Deus sobre meu mundo, de dentro e de fora. Suplico socorro aos

céus e busco luz para o entendimento na expectativa de ter o que dizer para as pessoas que amo. Peço a Deus que mostre sua cara para mim e por meio

de mim. Já não me basta crer e esperar. Anseio ver e interferir.

Minha biogra a possui páginas com histórias de violência e de

assassinatos; trá co de drogas e jogo do bicho; adultérios, estupros e abuso

sexual infantil; miséria e desespero suicida; família e favela; igreja e amigos

de rua; amizades, amores e orfandade. O barulho dos tiroteios pela

vizinhança, que me enchiam de pavor durante a noite, ainda faz eco em

alguns recantos de minhas memórias emocionais. Naquele tempo, eu era o

primeiro a me recolher para dormir. O movimento da casa e as luzes acesas

me traziam uma agradável sensação de segurança em razão de saber que

alguém estava acordado vigiando portas e janelas contra invasões

indesejadas e balas perdidas. Muitas vezes em que, por alguma razão, eu

cava por último, a responsabilidade de percorrer a casa para apagar as luzes

e veri car as trancas recaía como um fardo insuportável sobre meus ombros.

Cada barulho do quintal podia signi car perigo real e imediato. Aquelas

eram as noites mais longas. Ainda tenho o registro da manhã em que

acordei com policiais trocando tiros com tra cantes na porta de minha casa,

enquanto avisavam os moradores quanto à possibilidade de um bandido

qualquer estar escondido no armário ou na casa do cachorro. Algumas

vezes, passei para o outro lado da calçada, a caminho da escola, evitando o

constrangimento de ter de pular um cadáver coberto de jornal nas esquinas

próximas de casa. Não poucas vezes, ouvi de meninas que faltaram à aula,

porque foram estupradas na noite anterior. Vivi boa parte de minha

adolescência envolto em maresia, do mar e da maconha, que emoldurava as

maravilhosas tardes de bate-bola na areia da praia do José Menino, em

Santos.

A geometria dos corredores, salões e armários do orfanato que me

abrigou ainda me é peculiar. As cores mais vivas, entretanto, estão mesmo

sobre os degraus da escada da frente, onde eu me sentava como que

fotografando cada sorriso de criança chamada pelo nome com a chegada da mãe ao nal do dia. Todas as crianças partiam, e meus olhos cavam xos

no chão xadrez do hall até minha avó me encaminhar carinhosamente para

trás das imensas portas que nos protegeriam abrigados, somente os dois,

naquela imensidão. Sobre pessoas desorganizadas existencialmente tenho

boas lembranças. E dolorosas experiências.

Os rodopios das mulheres ao vento das pombagiras encontram lugar na

minha tela biográ ca. As correrias de setembro, em busca de doces

distribuídos no “Dia de Cosme e Damião”, outrora inocentes brincadeiras

explicadas pelo apetite juvenil por glicose esculpida, agora se revelam

expressões de devoção espiritual. As velas, despachos, garrafas de bebidas

fortes nas esquinas, os inúmeros amuletos e colares coloridos que meus

amigos exibiam e o barulho dos atabaques que marcavam o ritmo das noites

de sexta-feira encaixam-se como correntes da escravidão, que amarravam

gente com vida completamente embaraçada e marcada pela podridão moral.

Jamais me esqueci da noite em que camos, os primos, olhando, da sacada

do apartamento de frente para o mar, minha tia rodopiando na praia levada,

de um lado para outro, por espíritos que chamo de demônios.

O mundo cor-de-rosa não durou muito para mim. Desde os meus oito

anos de idade, convivo com as mais diversas histórias de mazelas pessoais e

familiares. Não me lembro de ter acreditado em Papai Noel. Cresci cedo. Os

miseráveis moradores da favela e as pobres crianças que meus lhos veem

apenas da janela do carro nos grandes cruzamentos da cidade de São Paulo

eram os meninos com quem eu jogava bola e trocava pontapés nas brigas de

rua. A favela cava ao lado.

Mas o cristianismo fala de outro lugar, de outro estado de ser, de outra

possibilidade de relação com Deus, o Criador amoroso que não desistiu de

sua criação. Minha biogra a também. Hoje entendo quando Deus me olha

nos olhos e sussurra repetidas vezes: “Com amor eterno eu te amei... com

benignidade te atraí” (Jr 31.3, ARA). Esse amor eterno é a única explicação

para que eu tenha sido preservado em meio a tantas idas e vindas.

Minha peregrinação teve início na eternidade. Foi sempre protegida pela

incansável luta de minha mãe que, viúva aos 22 anos de idade, colocou sob

suas asas duas crianças e correu incansavelmente atrás do pão de cada dia.

Ninguém me tira da cabeça que o Milton Nascimento escreveu a canção

para ela. Ela, que tem “um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta;

uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta”. Ela

que é “a dose mais forte e lenta, de uma gente que ri quando deve chorar, e

não vive, apenas aguenta”. Ela que tem “força, raça, gana, manha, graça e

sonho, e mistura a dor e a alegria”. Ela que traz “na pele essa marca, e possui

a estranha mania de ter fé na vida”. Minha mãe, que hoje se parece muito

com a outra Maria, pois o Filho de Deus também fez morada em seu

coração. Depois de minha mãe, minha história passou por um orfanato

evangélico e foi regada por dezenas de histórias bíblicas que minha avó me

contava. Histórias que ncaram raízes por causa das centenas de vezes em

que contemplei aquela mulher solitária, também viúva em sua juventude,

ajoelhada em oração. Ao lado, corriam alguns homens especiais, que me

amaram com todas as forças de sua alma e zeram o possível e o impossível

para suprir a minha carência de pai.

Aos onze anos, tive meu nome incluído no rol de membros de uma

comunidade cristã evangélica, quando minha peregrinação espiritual foi

molhada nas águas batismais de uma Igreja Batista ncada na entrada do

solo árido da favela mais violenta da cidade do Rio de Janeiro – Acari, em

maio de 1975.

Desde então, quando o cializei minha entrada nos horizontes do corpo

místico de Cristo, passei a ser acompanhado por uma nuvem do céu: anjos,

amigos, mentores, irmãos. Uma nuvem do céu que, depois de longa

caminhada e de muita poeira nos pés e na alma, fez-me assentar à mesa em

família, com minha mulher e meus lhos – a antessala do céu, o paraíso

numa Terra marcada pelo caos.

Assim observo minha trajetória. Essa é a leitura que faço de tantas

“coincidências” que me zeram ser quem sou. As perguntas que sempre

povoaram meus recônditos mais íntimos encontraram calmaria no

cristianismo. Especialmente na compreensão judaico-cristã, que a rma que

vivemos num parêntese da história. Um parêntese entre o paraíso e o céu.

Aprendi que viver é peregrinar. Uma peregrinação visível, cheia de

interações invisíveis. Viver é transitar entre um lugar e outro, um estado de

ser e outro, uma condição humana e outra, um mundo e outro. Fui criado

na estrada. Cresci na rua. Morei em muitas casas e frequentei muitas escolas.

Substituí amigos e me adaptei diversas vezes. Ou, quem sabe, não me

adaptei até hoje. Pois continuo peregrino. Não sinto que cheguei.

Talvez esse senso de transitoriedade que me foi inculcado na infância

explique minha disposição para experimentar e minha vontade de descobrir.

Minha biogra a é uma história de estar a caminho, e justamente assim, ou

por isso mesmo, enxergo a experiência espiritual como uma peregrinação.

Vejo a existência humana como uma peregrinação rumo às verdadeiras

dimensões da vida. Uma peregrinação em companhia de pares que nos são

acrescentados ao longo da trilha. Ninguém peregrina sozinho. Caminha,

inclusive, ao lado de companheiros invisíveis aos olhos humanos. Quanto

maior a capacidade de discernir e de escolher companhias, maior a

possibilidade de êxito do peregrino.

Também é verdade que ninguém peregrina apenas pelas estradas do aqui

e agora, mas também, e principalmente, pelas regiões do ali e além. Quanto

mais o peregrino for capaz de discernir e de interferir no outro mundo,

maior a possibilidade de êxito neste mundo.

A perspectiva da peregrinação solidária é a melhor leitura que consigo

fazer da experiência espiritual judaico-cristã. O cristão é um peregrino. O

cristão é um peregrino que caminha em comunhão. O cristianismo é a trilha

da intimidade com Deus e com o próximo. Cristianismo é conexão.

A partir de Adão, o primeiro ser humano, protótipo de todos nós, a

experiência de peregrinação é compartilhada com toda a humanidade. Essa

peregrinação não é o caminho da volta ao paraíso nem a elaboração

psíquico-emocional daqueles para quem a vida não transcorreu por vias

consideradas normais. Não se trata de fuga para o céu nem da busca de

equilíbrio interior-intimista. A peregrinação não é apenas psíquica e

emocional, mas também essencialmente espiritual. Não é necessária para

uns poucos traumatizados por experiências circunstanciais, mas sim uma

tarefa imprescindível a todo ser humano rumo ao máximo de suas

possibilidades corno ser criado à imagem e semelhança de Deus.

O ser humano é um peregrino, e a tradição de espiritualidade judaico-

cristão é o melhor mapa que encontrei. Viver é caminhar. A vida faz sentido

quando conseguimos extrair o sentido de cada momento, cada 1 kairós, cada

dia. O sentido da vida está em viver. Mas não um viver qualquer. Um viver

qualquer é mera existência, suceder de dias. Há um jeito de viver, e esse jeito

de viver está embutido em cada ser humano em duas dimensões. A primeira

é universal, a imago Dei, matriz divina da qual todos somos herdeiros. A

segunda é singular, pois cada ser humano é um original. A capacidade de

viver um momento de cada vez, expressando a imago Dei por meio de

minha singularidade, é o que chamo viver com propósito. Assim, espero

encontrar a felicidade ali e além, mas também aqui e agora.