Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 6 de 28

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Vivendo com propósitos

3. Significado

3

SIGNIFICADO

 

OUTRO CAMINHO

Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães Rosa. Viver é um grande desa o

e, para ser bem franco, apesar de desprezar absolutamente o caminho

escolhido pela “geração autoajuda”, compartilho com ela a ambição pela

felicidade. Também pretendo chegar ao m de meus dias, olhar-me no

espelho e, ao encontrar os olhos de Deus no mais profundo de minha

consciência, ter a certeza de que não desperdicei o maravilhoso presente

chamado vida. Também quero ser um sucesso. Também pretendo cruzar a

linha da realização pessoal. Também almejo deixar no solo da história as

pegadas da minha passagem para que alguns possam tomá-las como

referência em sua própria peregrinação. E, para ser mais franco ainda,

pre ro andar de BMW a andar de ônibus. Não sou bobo. Nem hipócrita.

Faço coro com Sir Winston Churchill: “não sou um homem exigente; eu me

contento com o melhor”.

Mas, ao me comparar com a geração autoajuda, vejo que meu caminho é

outro. E meu destino também. Meus heróis são de outro naipe. Acho

interessantes e motivadoras algumas das palavras de Dale Carnegie, Norman

Vincent Peale, Joseph Murphy, Leo Buscaglia, Napoleon Hill, Zig Ziglar,

Deepak Chopra, Lair Ribeiro, José Silva, Lauro Trevisan e Roberto

Shinyashiki, até porque, em sua maioria, são ótimos compiladores da

sabedoria universal. Ou, como Stephen Covey l admitiu, boa parte da

literatura de autoajuda é “bom-senso organizado”.

Contudo, pre ro entrar na selva da aventura de viver pelas trilhas que

conduzem às raízes da experiência humana. Somente pessoas que permaneceram na superfície da re exão, ou que jamais pararam para

pensar, admitem que sucesso e felicidade são resultado de dinheiro, sexo e

poder, e que essas coisas se conseguem pela correta disposição mental e

e ciente manuseio de técnicas de in uência pessoal (aliás, não sei por que

dediquei tanto tempo criticando essa tal de autoajuda...).

 

OUTROS HERÓIS

Há caminhos de sucesso e de felicidade que todos os mortais comuns, como

nós, chegando ao m da vida, se orgulhariam de ter trilhado. Seria razoável

que comparássemos as aspirações sociais contemporâneas com o legado de

homens como Albert Schweitzer, Mohandas Gandhi, Martin Luther King Jr.

e Nelson Mandela. Bom seria se conseguíssemos acompanhar e discernir a

profundidade das re exões existenciais de George Hegel, Martin Heidegger,

Albert Camus, Friedrich Nietzsche, Emmanuel Kant, Soren Kierkegaard e

Jean Paul Sartre. Talvez encontrássemos algumas placas sinalizadoras para o

bem viver deixadas por aqueles que tentaram fazer o mapa da alma, como

Sigmund Freud, Alfred Adler, Carl Jung e Viktor Frankl. Melhor proveito

teríamos se buscássemos o porquê das coisas e as razões por trás do

universo como buscaram Tales, Sócrates, Platão, Aristóteles, René Descartes

e seus tantos pares menos célebres. Poderíamos avançar bastante seguindo

as trilhas da loso a oriental, desenvolvendo suas disciplinas e aprendendo

com as inesgotáveis histórias de conversas enigmáticas entre mestres e

discípulos. E, sem sombra de dúvidas, colheríamos maravilhosos frutos do

pomar das tradições da espiritualidade judaico-cristã, desde o Antigo e

Novo Testamentos, iniciando com a sabedoria rabínica, aprendendo com os

Pais da Igreja e ouvindo corretamente os Reformadores. Mas deveríamos

parar reverentemente diante do incomparável e inevitável Jesus de Nazaré.

 

TRANSCENDÊNCIA

Com raríssimas exceções, os grandes pensadores da história da humanidade

concordaram que o bicho homem é essencialmente um ser transcendente,

que não pode encontrar sua realização neste mundo da imanência e que,

portanto, como disse Fyodor Dostoyevsky, carrega no coração “um vazio do

tamanho de Deus” e que vive repetindo a oração de Agostinho, chamado

Santo: “Ó Deus, inquieto bate meu coração enquanto não descansar em ti”.

Nós, humanos, somos essencialmente “seres de protestação, de ações de

protestos”, como de niu o Frei Leonardo Boff. 2 “Desbordamos todos os

esquemas, nada nos encaixa. Não há sistema que possa enquadrar o ser

humano. E não há sistema que não tenha brechas por onde o ser humano

não possa entrar. Estamos sempre nos projetando para fora (existência).

Possuímos essa dimensão de abertura, de romper barreiras, de superar

interditos, de ir para além de todos os limites. É isso que chamamos de

transcendência. Essa é a estrutura de base do ser humano”, conclui.

Trazemos na bagagem a memória do paraíso e a esperança do céu. Por

essa razão, caminhamos famintos, inquietos, insatisfeitos, e precisamos

encontrar respostas essenciais que justi quem o correr dos dias, durante

setenta, oitenta anos, neste universo e neste globo chamado Terra. As

respostas que procuramos devem ser su cientes para nos fazer capazes de

levantar da cama na segunda-feira, a m de encarar a vida e de nos livrar da

sensação de que estamos apenas matando o tempo enquanto a morte não

vem.

Lembro-me de que, durante anos, passei em frente ao cemitério do

Araçá, em São Paulo, onde alguém deixara pichada sua angústia: “Olhe ao

redor. Estranho, né?”. Na certa, aquele gra teiro não se referia à quietude do

lado de dentro do muro, mas sim à turbulência e à agitação do lado de fora.

Queria respostas para as perguntas que todo mundo faz: A nal, por que essa

correria toda?, Por que razão estamos vivos?, O que é que dá sentido a isso

tudo?, pois naquele momento o mundo lhe parecia muito estranho. De fato,

a sabedoria popular diz que, para o marujo que não sabe para onde vai, todo vento é contra. Friedrich Nietzsche foi mais feliz ao a rmar que “somente

quem sabe o porquê da vida é capaz de suportar-lhe o como”.

Isso explica por que Viktor Frankl, 3 psicanalista precursor da logoterapia,

ou terapia do sentido, disse que “a principal preocupação da pessoa humana

não consiste em obter prazer ou evitar a dor, mas antes em ver sentido para

sua vida”. Após anos e anos de aconselhamento psicológico e processos

terapêuticos Carl Jung 4 chegou à mesma conclusão: “O problema de cerca

de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como

neurose, mas resulta da falta de sentido de suas vidas vazias. Isto pode ser

de nido como a neurose geral de nossa época”. Por essa razão, “a

perseguição da felicidade é o objetivo errado. Você não passa a ser uma

pessoa feliz perseguindo a felicidade. Você se torna feliz vivendo uma vida

com signi cado”, vaticinou Harold Kushner.5

 

SOBREVIVÊNCIA, SUCESSO E SIGNIFICADO Todas as pessoas são dirigidas por alguma coisa, isto é, todas as pessoas são

guiadas, controladas, direcionadas por alguma força que determina o roteiro

de sua vida. Alguns são dirigidos pela culpa, outros pelo medo ou pelo

ressentimento e desejo de vingança. Há pessoas dirigidas pelo passado, que

dizem: “Sempre foi assim, por que agora vai ser diferente?”. Outros são

dirigidos pelos sonhos de terceiros, como, por exemplo, dos pais, dos lhos

ou mesmo daqueles por quem nutrem louca paixão. Não são poucos os que

vivem em razão do trabalho e dele derivam sua identidade – perdendo seu

cartão de apresentação pro ssional perdem a si mesmos.

Um dos maiores desa os que devemos encarar é a descoberta ou opção a

respeito das forças que determinam nossos caminhos e destinos. Em outras

palavras, devemos decidir em razão de que estamos vivendo.

Você pode viver em um de três níveis. O primeiro nível podemos chamar

de sobrevivência, isto é, a pessoa não vive, apenas existe, e cada dia vencido é

uma grande batalha ganha. Para tais pessoas, a expressão “pão de cada dia” é literal. Não se referem aos recursos da vida como diversos, mas como

escassos.

O segundo nível podemos chamar de sucesso. De acordo com a cultura e

o meio social em que vivemos, buscamos conforto, prestígio, realização

pro ssional e relacionamentos satisfatórios. Nessa perspectiva, você sabe

que é um sucesso quando pode escolher onde passar as férias, e, se este é o

seu caso, a maioria das pessoas do mundo gostaria de ter seus problemas.

Você é uma pessoa bem-sucedida.

Recente estatística divulgada na internet mostrou que, se fosse possível

reduzir a população do mundo inteiro a uma vila de 100 pessoas, mantendo

a proporção do povo existente no mundo na virada para o terceiro milênio,

tal vila seria composta com a seguinte con guração:

 

57 asiáticos, 21 europeus, 14 norte-americanos (Norte, Centro e Sul) e

8 africanos

52 seriam mulheres e 48 seriam homens

70 não-brancos e 30 brancos

6 pessoas possuiriam 59% da riqueza do mundo

80 viveriam em casas inabitáveis

50 sofreriam de desnutrição

1 teria computador e 1, apenas 1, teria formação universitária

 

Nesses termos, e falando francamente, você se considera uma pessoa

vivendo no nível da sobrevivência ou já pode se considerar um sucesso?

Leve em conta que, se você acordou hoje mais saudável que doente, tem

mais sorte que aproximadamente um milhão de pessoas que não verão a

próxima semana. Se nunca experimentou o perigo de uma batalha, a solidão

de uma prisão, a agonia da tortura, a dor da fome, tem mais sorte do que 500

milhões de habitantes do mundo. Se você tem comida na geladeira, roupa

no armário, um teto sobre a cabeça e um lugar aquecido para dormir, considere-se mais rico que 75% das pessoas do mundo. Se tiver dinheiro no

banco, na carteira ou um trocado em algum lugar, considere-se entre os 8%

das pessoas com melhor qualidade de vida do mundo. En m, considere-se

uma pessoa bem-sucedida.

A questão é que você não consegue responder por que essa sensação de

“está faltando alguma coisa”. O que isso ensina? A velha ladainha de que o

sucesso, por si só, não satisfaz. Você precisa de algo mais. Precisa chegar ao

terceiro nível de vida. Além da sobrevivência e do sucesso, você precisa de

signi cado.

Abraham Maslow, psicólogo norte-americano, abordou esse tema em sua

Escala das Necessidades do Homem. Sua pirâmide hierarquizava as

necessidades em cinco níveis. Em primeiro lugar, as necessidades

siológicas, como, por exemplo, alimento, roupa, moradia, sexo, sono,

prazer, alívio da dor, conforto. Depois vinham as necessidades de segurança,

em que o foco estava na busca por proteção, controle, prevenção, garantias,

em resposta ao anseio mundial por estabilidade e ordem. Em seguida, com a

vida confortável e sentindo-se seguro a respeito da continuidade de suas

circunstâncias favoráveis, o ser humano passaria a dedicar-se a suprir suas

necessidades sociais de afeição, aceitação, pertença, convivência, amizade e

amor. O degrau seguinte seria das necessidades do ego e de autoestima, em

que estariam em jogo questões como autoaceitação, autocon ança, prestígio,

admiração por terceiros, aprovação social e reconhecimento. Finalmente,

viriam as necessidades de autorrealização, a saber, o desenvolvimento do

potencial criativo, o empreendimento signi cativo, a concretização dos

talentos e de potencialidades para realizar algo de valor.

Essa percepção segue mais ou menos a ordem do Qoelet, o Eclesiastes,

em seu testemunho de peregrinação em busca do sentido da vida. Salomão

percorreu as trilhas do prazer, do trabalho, da estética e da beleza, do poder

e da luxúria para chegar à conclusão de que tudo na vida era “vaidade de

vaidades”, no hebraico hebel hebelim, que “denota o que é visível ou

identi cável, mas imaterial, transitório e inútil”.6 Mas é exatamente Salomão

quem promove a “destruição ruidosa de ídolos, das respostas fáceis às

questões sobre o sentido da vida, incluindo as respostas religiosas”. 7 O

segredo do sentido da vida está na experiência do cotidiano à luz da

eternidade, pois a a rmação mais contundente do Eclesiastes é que Deus

“pôs no coração do homem o anseio pela eternidade”8 ou, em outras

palavras, a vida é aqui, com as coisas daqui, e ninguém pode realizar o

sentido da vida excluindo este mundo e esta dimensão da existência, mas

não é aqui seu ponto nal e não são as coisas daqui as últimas. Na verdade,

são as penúltimas.

Maslow tinha certa razão. Mas esqueceu que “o coração do homem tem

um vazio do tamanho de Deus”, como disse Fyodor Dostoyevsky. É fato que

precisamos sobreviver e ter sucesso, mas é mais verdadeiro ainda que

ansiamos por signi cado e respostas que nos conduzam à eternidade, a

eternidade que cabe dentro do nosso coração.

No seminário, meu amigo de quarto ensinou-me isso quando

discutíamos Morte e vida Severina, de João Cabral de Mello Neto: “As

pessoas não têm medo de morrer; elas, na verdade, têm medo de morrer

sem saber por que viveram”, disseme no escuro da madrugada da cama de

cima do beliche que dividíamos.

 

O PARADIGMA JUDAICO-CRISTÃO

Essa história de busca de sentido é mais velha do que andar para trás.

Teilhard de Chardin, lósofo e matemático francês, propôs que “não somos

seres humanos passando por uma experiência espiritual, somos seres

espirituais passando por uma experiência humana”. Ainda que questionável

em seu sentido mais abrangente (trataremos da antropologia cristã no

capítulo 11), o que Chardin está dizendo é que qualquer projeto de vida que

se esgote no aqui e agora está fadado ao fracasso, e qualquer conquista que não sobreviva ao túmulo é incapaz de trazer a experiência de plenitude e

encher de signi cado os dias.

A história de Adão e Eva é paradigmática. A Serpente revela toda a sua

astúcia não apenas ao usar um discurso sedutor e uma linguagem

enganosamente persuasiva, mas principalmente ao penetrar a essência

abissal do ser humano a m de manipular conceitos e anseios e de propor

caminhos difusos para a realização da transcendência. Esqueça, por

enquanto, o literalismo da narrativa do Gênesis, não se ocupe em tomar

posição sobre se as personagens Adão, Eva e a Serpente existiram mesmo, se

esse tal paraíso é um lugar geográ co ou se essa história é uma parábola,

pois sendo fato ou gura, a história quer dizer a mesma coisa. Considere a

possibilidade de ser apenas uma narrativa elucidativa da relação entre

Criador e suas criaturas.

Primeiro, vamos olhar com cuidado a própria narrativa. Assim, o livro do

Gênesis relata a conversa entre Adão, Eva e a Serpente:

 

Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: “Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam nenhum fruto das árvores do jardim’?” Respondeu a mulher à serpente: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim, mas Deus disse: ‘Não comam o fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’”. Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão! Deus sabe que no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal”.

Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente

aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também. Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de gueira para cobrir-se.

Gênesis 3.1-7, NVI

Como lhe disse, essa narrativa é uma das bases da tradição judaico-cristã.

Observe, então, o que disse o evangelista João, praticamente mil e

quinhentos anos após o Livro do Gênesis:

 

Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens – não provém do Pai, mas do mundo.

1 João 2.15,16, NVI

 

Calma, ainda não acabou. Agora, veja como o Gênesis se repete na

história humana, desta vez não mais com Adão, mas com Jesus de Nazaré,

na célebre tentação no deserto da Judeia.

 

Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. O tentador aproximou-se dele e disse: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’”.

Então, o Diabo o levou à cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo

e lhe disse: “Se és o Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’”.

Depois, o Diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos

do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: “Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares”. Jesus lhe disse: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”.

Então o Diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram.

Mateus 4.1-11, NVI

 

Lembre-se de que entre o escritor do Livro do Gênesis, muito

provavelmente Moisés, e Mateus, o evangelista que narra a tentação de Jesus,

há um intervalo de quase mil e quinhentos anos. Mateus e João, por sua vez, apesar de contemporâneos, inclusive de Jesus de Nazaré, escrevem seus

textos num intervalo aproximado de 50 anos. Mas o impressionante é que os

conceitos são os mesmos, a matriz existencial é a mesma, a leitura que fazem

do ser humano e sua luta com as forças transcendentes é a mesma. Apenas

os resultados são absolutamente diferentes.

Vamos imaginar esse paradigma distendido no tempo, desde Adão e Eva,

passando por Jesus e chegando até nós. Existem três tríades que se repetem

nesses processos. Eva imagina que a árvore é “boa para se comer”, 9 e isso se

refere à tentação na dimensão da necessidade física, o que para Jesus foi a

fome depois de 40 dias de jejum, o que o levou a ser tentado a “transformar

pedras em pães”, e para nós, hoje, é o que o evangelista chamou de “cobiça

da carne”.

Em segundo lugar, Eva cou fascinada porque o fruto do conhecimento

do bem e do mal era “agradável aos olhos”. 10 Da mesma maneira, Jesus foi

levado ao alto monte onde o Diabo “mostrou-lhe todos os reinos do mundo

e as suas grandezas”, ll 12 o que para nós equivale à “cobiça dos olhos”. Talvez

daí venha o ditado “o que os olhos não veem, o coração não sente”, do qual

se deduz que o desejo é atiçado pela visão ou pelo conhecimento.

Finalmente, em terceiro lugar, Eva é tentada quando a Serpente lhe diz

que ela vai se tornar igual a Deus, apelando ao que o evangelista João

chamou de “ostentação dos bens”, e em Jesus foi representado na tentação de

mostrar sua identidade messiânica saltando do pináculo do templo, para

que os anjos viessem em seu socorro de maneira espetacular.

Observo claramente as combinações. Fruto bom de comer, pedras em

pães e cobiça da carne. Depois, árvore bonita, visão dos reinos e de suas

riquezas e cobiça dos olhos. Finalmente, a pretensão de ser igual a Deus, de

mostrar o poder dos anjos, de ostentar os bens. A primeira tríade fala de

necessidades e de sobrevivência. A segunda, de conquistas e desejos. A

terceira, de poder e orgulho. A primeira apela aos instintos do corpo; a

segunda, aos desejos da alma; e a terceira, aos anseios mais profundos do espírito. Ter o que preciso, ter o que desejo, até ter tudo. Sobrevivência,

sucesso e signi cado. O básico, o supér uo e o transcendente.

O corpo pede pão. O espírito pede transcendência, sentido, signi cado. A

alma (na unidade corpo e espírito) ca no meio das duas dimensões e busca,

no acúmulo de coisas e de fatos, o preenchimento de seu vazio. Porque

somos corpo, precisamos satisfazer necessidades como a fome, o sono, a

sede e o sexo. Porque somos espírito, precisamos satisfazer anseios sublimes,

como sentido, signi cado, plenitude. Mas, porque somos corpo e espírito

em unidade, corremos atrás da satisfação de algo mais do que efêmero e

menos do que eterno.

Quando olho para essas narrativas, vejo o retrato de cada ser humano em

suas lutas mais íntimas. Na verdade, em Adão e Eva, e em Jesus de Nazaré,

vejo a própria raça humana. Mas vejo dois tipos de pessoas diferentes: as que

foram derrotadas frente aos desa os do viver, sucumbiram aos apelos dos

sentidos e permaneceram ncadas no chão da sobrevivência, ou, quando

muito, do sucesso. E as que foram além de seus limites, enxergaram o

invisível, lançaram uma âncora na essência última do Universo, o Deus

Criador, que Jesus de Nazaré nos ensinou chamar de Pai, e transcenderam:

encontraram o caminho da liberdade do mundo material e descobriram que

a vida não se esgota no pão de cada dia, por mais abundante que seja, nem

na satisfação das necessidades, apetites, instintos e desejos.

Não tenho dúvidas de que a matriz para o sentido da vida vai além,

muito além das conquistas terrenas, da prosperidade material, da vazão aos

instintos e apetites físicos, da realização e experimentação do prazer sensual.

Mas também não acredito que a vida possa fazer sentido ou ser colorida

com signi cado sem que essas dimensões estejam satisfeitas. “Com um

homem faminto, você não pode falar de Deus, exceto em termos de pão”, foi

o que disse Gandhi. Por essa razão, proponho que o sentido da vida está

absolutamente relacionado com a capacidade que desenvolvemos de equacionar as demandas do corpo, suas necessidades e seus desejos, mas

também, e principalmente, do espírito e de sua essência.

 

INSUFICIENTE

Também por essas razões não me satisfaço com as propostas mais usuais

para a realização pessoal. A maioria dos manuais que se propõem a apontar

caminhos para uma vida signi cativa trabalha em termos de administração

do tempo e de objetivos e metas de curto, médio e longo prazos de nidas

para cada uma das áreas essenciais da vida. Estão baseadas em três

perguntas: “Aonde você quer chegar?”, “O que pretende fazer para chegar

lá?”, “Como vai encaixar isso tudo que você quer fazer na agenda?”.

As propostas de gerenciamento de rotina e agendas, com base em planos

de metas e objetivos futuros, mantêm nossos pés ncados nas dimensões da

sobrevivência e do sucesso e dizem pouco a respeito das questões mais

fundamentais, da transcendência e da fome por sentido e signi cado.

Evidentemente, os manuais para planejamento futuro e administração do

tempo têm o seu valor. Versa o dito que “quem falha em planejar está

planejando falhar”. Uma vida bem administrada pode nos levar a situações

de maior conforto e de menos con itos em todas as dimensões. Mas não é

por meio da gestão que chegaremos a satisfazer nossa fome de sentido e de

signi cado.

Posso lhe garantir que esse pacote mix planejamento-versus-tempo é

insu ciente para a maioria absoluta das pessoas que conheço e com quem

convivo. Nem as pessoas nem a vida são organizadas dessa maneira. Essa

coisa de pegar lápis e papel para planejar a vida incluindo “quanto tempo

vou dedicar ao meu lho nesta manhã”, “quantas vezes vou jantar com

minha esposa neste mês” ou “quanto dinheiro vou despender com o lazer da

família neste trimestre” não dá muito resultado, primeiro porque nem todo

mundo é capaz de viver dessa maneira, mas também, e principalmente,

porque a vida está sempre pregando peças na maioria dos que pretendem fazê-lo. Como disse Woody Allen, “se você quer fazer Deus rir, conte a ele

seus planos”.

Outra razão por que o pacote mix planejamento-versus-tempo é

insu ciente é que ele visa apenas a ponta do iceberg chamado viver. Cada

pessoa é um universo, e quando mergulhamos no mundo interior em busca

de recursos para colocar o plano em ação, entramos num labirinto. Quando

conseguimos emergir, via de regra trazemos mais perguntas do que

respostas. Em minha atividade pastoral, estou cansado de ouvir pessoas

confessando “Eu não consigo”, “Eu gostaria muito, mas me sinto incapaz”,

“Eu comecei a fazer ginástica três vezes este ano e atualmente estou parada”,

“Eu não sei se ainda amo minha esposa” e outras tantas questões cujas

respostas estão no submundo do coração, no qual o caderninho de

planejamento nem sonha poder penetrar.

Há também a questão dos valores, que brotam da cosmovisão e da

experiência religiosa conforme ltrados na vivência de cada pessoa.

Algumas pessoas acreditam que vale a pena sacri car o lazer em família

para conseguir pagar a prestação da casa própria, enquanto outras preferem

vender seu apartamento para enviar os lhos para estudar no exterior.

Como se diz no popular, cada um, cada um, e, nesse caso, quando a gente

faz uma lista de áreas da vida e estabelece metas para cada uma delas, o risco

de xar metas de nidas pela média e pelas pressões sociais e culturais é

muito grande. O resultado é que há muita gente que subiu a escada do

sucesso e descobriu que ela estava escorada na parede errada, como

denunciou Stephen Covey.13

A resposta que nos faz sair do labirinto da vida medíocre não vem apenas

da pergunta “O que quero alcançar na vida?”, mas também da pergunta “Por

que estou correndo atrás dessas coisas?”. Em outras palavras, não vivemos

movidos por metas, objetivos e alvos, mas sim por propósitos. A

sobrevivência é o mínimo com que nos contentamos, o sucesso não nos

satisfaz, pois queremos mesmo é o sentido da vida.

Depois de todos esses anos caminhando ao lado de pessoas em seus

momentos de crises mais profundas, não me lembro de encontrar alguma

delas que estivesse em dúvida quanto ao certo e errado ou que sinceramente

não soubesse o que fazer. Muito embora boa parte das pessoas que me

procuram em busca de aconselhamento pastoral esteja necessitada de

receber luz para seus processos de pensamento, a maioria esmagadora vem

em busca de uma de três coisas: o milagre imponderável; a complacência e a

absolvição que lhes permitam transgredir sem carregar a consciência

culpada para o resto da vida; ou o segredo para acessar forças que lhes

possibilitem agir de acordo com suas convicções e valores. Minhas conversas

pastorais, sejam elas nos encontros formais de aconselhamento, nas mesas

de restaurantes, nos encontros informais rotineiros, quase sempre se iniciam

com questões teológicas e losó cas. As pessoas aproximam-se com

perguntas que aparentemente dizem respeito a coisas que não entendem.

Quem ouve sem muita atenção imagina que a conversa é entre duas mentes.

Mas o que aprendi, nestes anos, foi discernir o que está por trás das palavras,

quais são as dores, as angústias, as frustrações, os anseios mais profundos.

Agora me exercito em outro tipo de conversa. Uma conversa entre dois

corações.

 

CONCLUSÃO

George Bernard Shaw disse que a verdadeira alegria de viver consiste em

“utilizar a existência para um propósito que se reconhece como grandioso;

esgotar totalmente a existência antes de ser lançado aos vermes; ser uma

força na natureza e não um egoísta exaltado, pequena massa de doenças e

injúrias queixando-se porque o mundo não vai se sacri car para fazê-lo

feliz”.

Qualquer pessoa que esteja em busca de transcendência e de signi cado

precisará ir além da autoajuda e encontrar ajuda do alto. Jamais cará

satisfeita com sugestões para a administração do tempo, pois anseia por transformação pessoal. Não conseguirá dar um passo na direção de planejar

e perseguir metas, porque suas questões não tratam de prosperidade, de

fama e de poder, mas sim de desenvolvimento espiritual.

Se você se encaixa nesse per l e se esse é o seu momento na vida, então

pode jogar para o lado as frases de efeito e clichês emocionais, pendurar os

amuletos e parar com as mandingas. Chegou sua vez de arregaçar as mangas

para um projeto existencial e um processo contínuo de viver a aventura de

realizar o sentido de cada momento e de desenvolver ao máximo as

possibilidades semeadas por Deus em você.