Vivendo com propósitos
1. Felicidade
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FELICIDADE
Cometi o pior dos pecados
que um homem possa cometer:
Não fui feliz.
Que os glaciares do esquecimento
me arrastem e percam, desapiedados.
Meus pais me engendraram
para o jogo arriscado e formoso da vida,
Para a terra, a água, o ar, o fogo.
Eu os defraudei. Não fui feliz.
Cumprida não foi sua jovem vontade.
Minha mente se aplicou
às simétricas por as da arte,
que entretece o nada.
Me legaram valor, não fui valente.
Não me abandona, sempre está ao meu lado
a sombra de haver sido um infeliz.
Jorge Luiz Borges
O PARADIGMA DA FELICIDADE
Pesquisas recentes1 mostram que as pessoas possuem um ponto de
estabilização da felicidade, um nível de alegria ao qual se retoma, não
importa se o indivíduo tenha ganhado na loteria ou perdido a capacidade de
utilizar seus membros. As experiências que muitos acreditam conduzir à
felicidade não passam de picos de prazer, que logo se dissipam e devolvem a
pessoa a seu status padrão de contentamento. A neurociência está
descobrindo que, quando as pessoas falam em felicidade, na verdade estão descrevendo estados de espírito, momentos em que se sentem bem em
comparação a outros em que experimentam algum tipo de desconforto.
Parece correto, portanto, a rmar que as pessoas derivam seu conceito de
felicidade de duas matrizes fundamentais: a intensidade e quantidade de
experiências de pico de alegria e a média do estado de espírito no intervalo
entre os picos eufóricos. Quando a vida de uma pessoa é cheia de boas
notícias e seu estado de espírito mais comum é satisfatório, ela diz que é
feliz. Regra geral, todos nós vivemos em ciclos de estados de espírito, e da
dinâmica desses ciclos derivamos nosso “nível de felicidade”.
TRÊS EQUÍVOCOS A RESPEITO DA FELICIDADE Há gente que pensa que a felicidade tem fórmula, que não pode acontecer
sem determinados pré-requisitos cumpridos. Mas a verdade é que certas
coisas que muita gente acha que tornam a vida melhor – tais como dinheiro,
beleza ou projeção social – não parecem ter importância como fator
determinante da felicidade. Estudos realizados mostraram que as pessoas
cam felizes logo após um aumento de salário, mas que não há relação entre
salário e felicidade de nitiva. Não importa quão animado seja o dia da
formatura, a educação não faz a vida mais feliz. Da mesma forma, avanços
na vida social não têm efeitos profundos sobre a felicidade, pois a felicidade
não está relacionada às circunstâncias imediatas da vida. Oscar Wilde tinha
certa razão quando a rmou que “neste mundo só há duas tragédias – uma é
não conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. De fato, nunca estamos
satisfeitos, pois tão logo conquistamos um desejo, somos invadidos pela
sensação de “não era bem isso o que eu queria”.
Outro equívoco muito comum a respeito da felicidade é a expectativa de
viver num estado de espírito de alegria perene. O sentir-se bem não é
permanente, nem poderia ser, pois o resultado seria uma complacência
prazerosa. “A natureza utiliza a dor e o prazer como um bastão para nos
guiar”, diz o psicólogo David Lykken.2 Há quem diga, e com certa dose de razão, que a insatisfação é a mãe do progresso, pois a engenhosidade
humana é resultado da busca constante de mais conforto e de menos
sofrimento. Por essa razão, um povo feliz pode se tornar um povo inerte,
acomodado em um prazer que anestesia e que paralisa.
Um terceiro equívoco a respeito de felicidade é a crença no destino
aleatório, como se algumas pessoas tivessem nascido para ser felizes e outras
não. Na verdade, a felicidade não chega por acaso, desrespeitando a
autonomia da pessoa que a experimenta. Isso signi ca que não estamos ao
sabor das alterações de humor, como se elas não dependessem da maneira
como vivemos. Somos responsáveis pela qualidade da vida que temos. Let it
be nunca foi uma loso a de vida e caz.
O ESTADO DE ESPÍRITO PERTURBADO O grande desa o que enfrentamos na correria do dia a dia diz respeito à
capacidade de administrarmos os estados de espírito com que atravessamos
nossa rotina diária e desfrutamos as experiências simples que compõem a
teia do que chamamos vida. Aprendi que a vida não consiste em poucos
grandes momentos, mas sim em milhares de pequenos momentos, aos quais
emprestamos signi cado. Casamos uma vez e devemos viver casados para
sempre. Graduamo-nos academicamente algumas vezes, mas devemos
exercer nossas competências todo dia, numa rotina que chamamos trabalho.
Olhamos o vidro do berçário umas poucas vezes em busca dos nossos
recém-nascidos, mas devemos contemplar suas faces cheias de expectativas
todas as manhãs e jamais deixar que se deitem sem o nosso afago (e quando
eles saem do ninho, que falta sentimos!). En m, é mesmo verdade que a
felicidade não depende tanto, por exemplo, de dias como o do casamento, o
da formatura e o da festa na maternidade, mas sim do romance que se
aprofunda, do trabalho que se realiza e da vida em família num ambiente de
afeto e de possibilidades.
É justamente nessa teia de atividades rotineiras que somos desa ados a
experimentar a felicidade. No contexto desses milhares de pequenos
momentos é que somos desa ados a cultivar um estado de espírito
satisfatório, próprio de quem aprende a saborear o amor aos pedaços.
Muitas pessoas, entretanto, se tivessem de descrever seu estado de
espírito mais comum, poderiam substituir a palavra felicidade por outras
como preocupação, ansiedade e angústia. São palavras quase sinônimas, que
identi cam um estado de espírito perturbado e insatisfeito. Sofrem com isso
os que estão conscientes desse estado ou que, de vez em quando, surpresos,
deparam com ele.
OS INIMIGOS DA FELICIDADE
Esse estado de espírito perturbado tem diversas causas. Uma delas é o
excesso de responsabilidades e de solicitações, que nos conduz ao excesso de
ocupação. Apesar de estarmos tão atarefados, carregamos a constante
sensação de que ainda não cumprimos todas as nossas obrigações ou de que
não as cumprimos com o padrão de qualidade que gostaríamos. Os
diferentes papéis que desempenhamos na vida, como por exemplo, cônjuges,
pais, lhos, pro ssionais, amigos, cidadãos, cobrem-nos de obrigações
intransferíveis e lotam nossas agendas. Por essas razões, acabamos
assumindo mais compromissos do que somos capazes de cumprir
adequadamente, e o resultado é que oneramos uma ou outra parte de nossa
saúde, senão todas elas.
Não apenas estamos cheios de responsabilidades, de solicitações e de
ocupações, como também convivemos com um excesso de suposições.
Possuímos uma mente repleta de “se”. Essa multidão de “se” é responsável
por nossas preocupações: se o exame der positivo, se eu for cortado este
mês, se eu não alcançar minhas metas de vendas, se o ônibus atrasar, se ele
não me quiser mais, se o dinheiro não for su ciente, se o proprietário não
aceitar negociar, se, se...
Estranhamente, estar sobrecarregado tornou-se símbolo de status, e a
ausência de preocupação, uma situação perigosa que sugere falta de
realismo, negligência ou irresponsabilidade. Por alguma razão (e, por vezes,
infelizmente acertada), acreditamos que restaurante bom é aquele que tem
la de espera, médico competente é aquele que tem horário disponível para
consultas apenas no próximo mês, pro ssional excelente é aquele
superatarefado.
Além das responsabilidades, ocupações, solicitações e suposições,
multiplicam-se sobre nós as possibilidades. Vivemos sob a sugestão de que
não podemos deixar de assistir àquele lme, de ler aquele livro, de visitar
aquela cidade, de almoçar naquele restaurante ou de conhecer aquela
pessoa. Estamos na era da informação, e a cada semana, ou mesmo a cada
dia, um novo livro em nossa área de atividade é publicado, uma nova
competência pro ssional é lançada como moda e uma nova tranqueira
tecnológica é despejada no mercado. Além disso, dezenas de e-mails com
recados do tipo “essa você não pode deixar de ler” lotam nossas máquinas
diariamente.
A VIDA E SEUS LIMÕES
A vida nem sempre nos trata como desejamos. O mundo é injusto. As
tragédias e calamidades não escolhem a quem tentar destruir. De quando
em vez, nada mais coerente do que estar com o estado de espírito
perturbado. Uma das mais intrigantes passagens da vida de Jesus aconteceu
às portas do túmulo de Lázaro, seu amigo, e é narrada no Evangelho de João,
capítulo 11. Na verdade, a notícia de que Lázaro estava gravemente enfermo
chegara quatro dias antes, com as palavras: “Aquele a quem tu amas está à
morte”. Jesus não se abalou com a notícia nem alterou seus planos imediatos,
pois tinha propósitos muito mais elevados do que a simples cura física de
um amigo. Ao chegar à casa de Lázaro, recebe a notícia de que ele estava
morto havia quatro dias. Nesse momento, chora. Mas por que chora? Aliás, parece mesmo contraditório que Jesus, sabendo que ressuscitaria Lázaro dali
a poucos minutos, se entregasse às lágrimas e se deixasse invadir por
sentimentos, para a maioria de nós, indesejados.
Mas acredito em outra possível leitura do evento. O fato de que Lázaro
voltaria à vida em poucos minutos não anulava a realidade de que, naquele
exato momento, estava morto. Diante de um amigo morto e rodeado de
pessoas desesperadas, nada mais coerente do que sentir o espírito
perturbado, no mínimo, por solidariedade e empatia. Jesus vivia um
momento de cada vez. Aquele era um momento de morte, desespero e
desesperança. Jesus chorou com elas, chorou por elas e por ele mesmo,
quem sabe.
Nada mais natural do que o pranto no momento do luto, a angústia na
situação de fome, o medo no meio da guerra, en m, a cara contorcida no
momento em que a vida mostra-se amarga. Isso signi ca que nem todas as
pessoas que vivem com um estado de espírito perturbado são responsáveis
pelas causas que geraram a perturbação. Os profetas da autoajuda dizem que
a causa do sofrimento não é o mundo, e sim nossa atitude diante dele. Mas
nem sempre o estado de espírito perturbado começa do lado de dentro do
coração. Não raras vezes, resulta de circunstâncias adversas, variáveis fora
do controle de mortais como nós. O mundo não obedece à justiça
retributiva: coisas boas para pessoas boas, coisas ruins para pessoas ruins.
Até porque ninguém é totalmente mal. E ninguém é totalmente bom. Assim
também o mundo e a vida. A história, que tem como protagonistas pessoas
em quem o bem e o mal se misturam e se confundem, não poderia ser tão
exata. Por essa razão, de vez em quando acontecem coisas ruins para pessoas
boas, coisas boas para pessoas ruins, e ninguém se surpreende mais quando
acontecem coisas ruins para todo mundo.
Portanto, o melhor que temos a fazer é repetir a conduta do poeta bíblico.
Ao menor sinal de perturbação, devemos perguntar: “Por que você está
assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim?”. Não serão poucas as ocasiões em que caremos surpresos quando a
alma nos oferecer suas razões. Nessas horas, sentar e chorar é um ótimo
remédio. A nal, quando a dor é real e as causas podem ser claramente
identi cadas, a lágrima é a menor distância do sorriso.
CADA UM, CADA UM
Mas além dos excessos e das circunstâncias da vida, nosso estado de espírito
perturbado é in uenciado também por nossas características pessoais, isto é,
o conjunto de ltros herdados ou aprendidos por meio dos quais
interagimos com o mundo. Praticamente todas as nossas posturas na vida
podem ser explicadas pelo mix personalidade-cultura-ambiente social.
Poucas são as pessoas que conseguem estourar essa bolha e caminhar em
direção à transformação pessoal e à contracultura, impondo sua identidade
própria e assumindo suas preferências independentemente da última moda.
Por exemplo, pessoas que cresceram num ambiente de cobranças e de
exigências exageradas acabam desenvolvendo um general dentro de sua
consciência e sofrem de um perfeccionismo doentio, enquanto outras são
mais complacentes, displicentes e até mesmo irresponsáveis. É evidente que
cada uma reage ao atraso em uma reunião importante ou à demora na
entrega de uma encomenda de maneira diferente. Há pessoas que se
incomodam com outras pessoas, enquanto outras se incomodam com
coisas. Podemos encontrar gente que ca insuportável quando não dorme o
su ciente, e outros que se transformam quando estão com fome. O fato é
que, se há dez pessoas vivendo a mesma situação, provavelmente haverá dez
reações diferentes.
O grau de maturidade pessoal também afeta radicalmente o estado de
espírito. Os motivos considerados su cientes para experimentar alegria e
dissabor variam de pessoa para pessoa, e isso está relacionado com os
valores e até mesmo com o caráter. Uma criança chora quando cai seu
sorvete, atitude que não se espera de um adulto. Por outro lado, é comum ouvir crianças perguntando: “Por que a mamãe está chorando?”,
demonstrando, assim, sua incapacidade de discernir a dor para todos
evidente. Há pessoas que não conseguem dormir porque atrasaram o
pagamento do aluguel, enquanto outras não perdem o sono mesmo devendo
meses de cartão de crédito. O estado de espírito perturbado pode ser
explicado pela escala de valores de uma pessoa e pela maneira como se vê
responsável diante do direito de viver.
Mas, além de todas essas limitações herdadas e ou desenvolvidas, talvez o
maior fator de distinção na maneira como as pessoas reagem à vida é a fé. A
fé percebe uma Presença, a presença de Deus. A fé invoca uma Presença, a
presença de Deus. A fé sabe que, por trás do cenário visível, das estatísticas e
das probabilidades, existe Alguém interagindo na situação: Deus. Os
recursos humanos resultantes da fé são ainda um mistério para a ciência.
Quem é capaz de exercitar a fé vê mais longe, voa mais alto, chega mais
adiante.
INIMIGO ÍNTIMO
As discussões a respeito de ser o homem essencialmente bom, ou
essencialmente mau, como já observamos, são extensas e não nos interessam
aqui, pelo menos por enquanto. Mas a experiência diz que,
independentemente do que o homem é em essência, ele é naturalmente
egoísta, egocêntrico, voltado para si mesmo e para seu próprio bem-estar e
conforto. Essa característica do homem, em que predomina o ego e faz com
que ele desenvolva uma espécie de teomania, é aquilo que os teólogos
chamam pecado essencial ou original. Algo como um status do ser que
pretende bastar-se. Em outras palavras, a criatura deu as costas para o
Criador e pretendeu construir seu próprio mundo, com suas próprias leis, e
administrá-lo com suas próprias capacidades.
A Bíblia fala de três tipos de pessoas: natural, carnal e espiritual. 3 A
primeira, natural, é simplesmente dominada pelos instintos da biossobrevivência, mais parecida com um bicho do que com gente. A
segunda, carnal, vai um pouco mais longe e adquire consciência, mas dela se
utiliza apenas para tentar exercer domínio em benefício próprio. A terceira,
espiritual, transcendeu seu próprio universo de interesses e de necessidades
e tornou-se altruísta, solidária, capaz de partilhar e de empreender na
comunhão.
Em termos simples, o ser humano está em constante luta entre essas
dimensões de sua constituição. Em linguagem bíblica, diz-se que o espírito
luta contra a carne, e todo aquele que deseja experimentar a vida plena deve
negar seu próprio ego. Esse con ito é ilustrado em extremo na experiência
de Paulo, o apóstolo, quando grita desesperado: “Miserável homem que eu
sou! [...] Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que
odeio. [...] Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo
realizá-lo”.4 O que ele está dizendo é que existe dentro dele um inimigo
íntimo, um ego que o impede de expressar sua verdadeira identidade. Por
essa razão, a Bíblia diz que o homem é pecador, isto é, vive sob o domínio
“da carne” e do ego, fazendo a vontade de seus desejos e pensamentos
autônomos em relação ao Criador, matriz e fonte de vida.5
Não tenho dúvida de que boa parte, senão a totalidade, da infelicidade
humana explica-se por essa tendência de viver de maneira egoísta. Num
mundo tão diverso, ninguém consegue ser feliz se tudo o que valoriza é seu
conforto e bem-estar pessoal. Por mais distintas que sejam, todas as
tradições de espiritualidade têm um ponto comum: concordam que as
pessoas mais estabilizadas na vida, e por que não dizer, felizes, são aquelas
que cultivam o espírito abnegado, solidário, altruísta. Esse é mais um, senão
o, paradoxo da vida: o caminho da autorrealização é a negação do ego.
PODE SER PIOR
Esse estado de espírito perturbado torna-se muito pior quando temperado
pela culpa religiosa, especialmente para algumas pessoas sinceras e esclarecidas em sua experiência espiritual que não encontram explicação
para o descompasso entre a fé e sua condição existencial. Como
pouquíssima gente tem coragem de a rmar que Deus não funciona, a
maioria acaba descon ando da qualidade de sua fé ou de sua dinâmica de
vida. A convicção de que Deus resolveria todos os problemas, somada à
experiência da perturbação interior, leva ao desespero quem está perdendo a
guerra mesmo em parceria com um Aliado onipotente. Isto é, quem
acreditou que Deus seria a solução para uma vida plena, mas que, mesmo
sendo íntegro em suas obrigações, ainda assim vive um estado de espírito
perturbado, chegou ao limite e pergunta-se: “o que vem depois de Deus?” ou
“o que posso tentar se já tentei até mesmo Deus?”.
Creio que não são poucos os que estão sinceramente errados em sua
peregrinação espiritual. Caso seja possível, e assim creio, existe muita gente
relacionando-se com o Deus certo, mas da maneira errada. Estão iludidos
por falsas convicções a respeito de como experimentar a bondade de Deus.
Creem, de fato, que Deus é capaz de oferecer descanso para as nossas almas,
de encher-nos de paz que excede todo entendimento, de alegria plena e de
vida abundante (ou completa), mas desconhecem os processos da
peregrinação espiritual e podem enquadrar-se em alguns dos principais
equívocos a respeito da dinâmica da espiritualidade cristã.
São capazes, por exemplo, de acreditar que as dádivas de Deus
independem de suas próprias atitudes. Imaginam que os favores de Deus
vêm automaticamente pelo simples fato de que creem em Deus. Por
exemplo, acreditam que podem continuar vivendo de maneira egoísta,
orgulhosos de sua humildade e cheios de empá a contra aqueles que, pelo
menos em sua opinião, são menos iluminados. Talvez não tenham ouvido
que Deus opõe-se aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes, e que se
alegra em atender os que pedem com fé, sem vacilar.
Por outro lado, há os que imaginam que as dádivas de Deus são respostas
apenas às atitudes interiores abstratas e que desconsideram a necessidade dos exercícios espirituais, da busca disciplinada, do esmurrar o corpo para
não ser desquali cado, da oração perseverante, do estudo incansável das
Escrituras Sagradas para que a Lei seja alimento de meditação diuturna.
Há os que pensam que todos os favores de Deus são experimentados em
termos de nitivos, isto é, aquele que recebeu uma graça ca com ela para
sempre. Perguntam-se, atônitos: “Mas não entreguei minha vida a Deus?
Então, por que não tenho alegria?”. Talvez, careçam ouvir o apóstolo Paulo
ensinando que a alegria é fruto do Espírito Santo e que apenas aqueles que
se deixam continuamente encher pelo Espírito a experimentam. Ou, quem
sabe, devem atentar melhor para a declaração de que o caráter de Cristo é
formado em nós processualmente, com glória cada vez maior, custando
inclusive dores de parto aos que trabalham em nosso favor, de modo que
somos sempre encorajados a desenvolver nossa salvação com temor e
tremor, algo como abrir a caixa de recursos que Deus colocou em nossas
mãos e aprender a usar as ferramentas, uma de cada vez.
Existem também os que esperam uma experiência espiritual instantânea,
que os conduza de nitivamente a um status permanente de plena satisfação
e realização. São pessoas que creem que, se oraram hoje e Deus lhes
apaziguou o coração a respeito da enfermidade do pai hospitalizado, não
precisarão orar amanhã, pois já receberam a paz que excede todo o
entendimento. Na manhã seguinte, ao se perceberem novamente
perturbados, questionam onde está seu erro. Estaria Deus falhando em
cumprir sua promessa, ou a fé com que buscaram a Deus era fraca? Ou, pior,
Deus os estaria punindo por um pecado ou outro que desconheciam (ou,
pior ainda, que conheciam)? Falta-lhes o esclarecimento de que a
experiência espiritual cristã é dinâmica. Jesus não prometeu um copo de
água que mataria de nitivamente a sede. O que Jesus prometeu foi que, do
interior de quem crê, brotará uma fonte a jorrar para a vida eterna, e isso
sugere que a essa fonte devemos recorrer sempre, e novamente, e de novo, para que, toda vez, quando nosso espírito se perturbar ou for perturbado,
encontremos descanso e provisão.
CONTENTAMENTO
É quase impossível encontrar uma de nição completa e de nitiva para a
felicidade, mas é fato que, qualquer que seja sua de nição, estará associada
aos estados de espírito com os quais atravessamos a vida. Podemos,
inclusive, alongar a discussão a respeito da distinção entre ser feliz, estar
feliz e sentir-se feliz, e sobre como a felicidade é diferente da alegria, que,
por sua vez, é diferente da euforia. Mas isso é complicar demais a coisa. O
fato é que, se você é feliz, então se sente feliz, e se você está feliz, também se
sente feliz, e esse sentimento de felicidade é, necessariamente, um estado de
espírito, que pode ser duradouro, razoavelmente comum ou eventual.
Nesse caso, pre ro simpli car um pouco mais e trocar a palavra
“felicidade” por “contentamento”, que de no como a capacidade de estar
satisfeito (de adaptar-se) em qualquer situação. Esse tipo de contentamento
não se explica pelas circunstâncias favoráveis e ou confortáveis, mas sim
pela capacidade de exercer domínio sobre o estado de espírito de tal
maneira que os fatores externos que o abalam sejam em número cada vez
menor.
Contentamento é uma satisfação de dentro para fora. Vicente de
Carvalho traduziu muito bem essa experiência do contentamento quando
disse que a felicidade, essa árvore frondosa e cheia de frutos, existe sim, mas
existe no lugar em que a plantamos, e o problema é que quase nunca a
plantamos no lugar onde estamos. A expressão mais comum para os
infelizes é que serão felizes “assim que...”. Assim que arrumarem um
emprego novo; um romance novo; um carro novo; uma casa nova; um chefe
novo; e tanto mais, cada vez mais.
Esse estilo de vida “assim que...” coloca a felicidade no futuro e perpetua
o descontentamento, que impede a alegria de desfrutar o presente, as pessoas que temos em volta, as circunstâncias reais e imediatas que nos
oferecem possibilidades de realização. A palavra contentamento deriva do
latim contentu (“contido”) e sugere a ideia de conteúdo. Nesse caso, contente
é aquele que tem conteúdo em si mesmo ou que é capaz de usufruir o
conteúdo da realidade na qual está inserido. Em outras palavras, em
qualquer lugar, em qualquer companhia, em qualquer circunstância existe
possibilidade de contentamento, mas somente para aqueles que sabem
explorar sua riqueza interior, ou as potencialidades do momento, ou ambas.
Um momento de contentamento é aquele em que tudo parece certo: não
há necessidade de mudar o que você está fazendo, nem a pessoa com quem
você está, nem o lugar onde você se encontra. É comum ouvir-se que a
felicidade é estar numa ilha paradisíaca em companhia da mulher, ou do
homem, de minha vida. Mas suspeito que seja uma a rmação extremamente
absurda. Isso seria ótimo por alguns dias, mas logo se tornaria entediante,
monótono, vazio. Há outras dimensões da vida a experimentar além da
paixão alucinante, outras potencialidades do ser a realizar além da
capacidade do amor romântico. Ruth Rocha tem um livro “infantil”
chamado Uma estória meio ao contrário, que inicia com o beijo do príncipe
na princesa, e a frase: “E foram felizes para sempre”. Na outra página, a
história segue com a expressão: “E era muito chato”. De fato, a ideia de
paraíso sem labor e só lazer, mano, é insuportável. Um Deus criativo jamais
criaria um ser estéril, muito menos chamaria de paraíso um lugar povoado
de parasitas.
Trago ainda na lembrança minha experiência de participar da Maratona
de Nova York em companhia de meu amigo Ricardo. Agora mesmo,
enquanto escrevo, consigo me lembrar de um trecho da 5th Avenue, em
Manhattan, onde as dores nas pernas pareciam insuportáveis. Naquele
momento, entretanto, apesar da dor e do desconforto, eu estava (era) feliz.
Não havia outro lugar, outra atividade ou outra pessoa a meu lado que eu
desejasse mais naquela hora.
Mas se você perguntar se eu desejaria perpetuar aquele momento, eu
evidentemente diria que “não”, pois alguns minutos mais adiante, encontrei
o abraço apertado e amoroso da minha esposa, Silvia, e aquele foi o melhor
lugar do mundo. E, depois, o abraço dos meus amigos Paulo e Eloíse. E,
depois, a alegria de um jantar maravilhoso na casa do Israel e da Andréa;
jantar, aliás, interrompido pelo inesquecível telefonema de meus lhos,
Fernanda e Vitor, curiosos e animados, com os braços os mais compridos do
planeta, que atravessaram milhas e milhas para me dar um abraço gostoso.
E, depois, na volta ao Brasil, e o reencontro com os companheiros que me
encorajaram nas madrugadas frias do Parque do Ibirapuera, enquanto me
preparava para a Maratona. E, depois... depois, outros tantos momentos.
Como disse Gilberto Gil, “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Não
sei, nem quero saber, qual era o lugar e o momento aos quais o poeta se
referia, pois creio que a vida é cheia de “lugares” e de “agoras”. E a felicidade
implica a possibilidade de, esteja onde estiver, com quem estiver, não
importa o que esteja fazendo, dizer: o melhor lugar do mundo é aqui e
agora. Como disse Viktor Frankl, psicanalista vienense: A realidade sempre
se apresenta na forma de uma particular situação concreta e, uma vez que
cada situação de vida é irrepetível, segue-se que o sentido de uma dada
situação é único. Os signi cados dos momentos que são únicos são objetos
da descoberta pessoal. Eles devem ser procurados e encontrados por cada
um. Desde que a situação é sempre única, com um sentido que é também
necessariamente único, segue-se que a possibilidade de fazer qualquer coisa
em relação à situação é também única, porque é transitória. Ela possui uma
qualidade, um kairós, isto é, se não aproveitarmos a oportunidade de
dinamizar o sentido intrínseco e como que mergulhado na situação, o
sentido passará e irá embora para sempre.6
Por essa razão, a felicidade é muito mais um jeito de ir do que um lugar
onde se chega. O ditado chinês ensina que “os caminhos existem para jornadas e não para destinos”. Exatamente por esse motivo Jesus de Nazaré
recomendou a seus discípulos que não se inquietassem quanto ao dia de
amanhã, nem se ocupassem com o que beber, o que comer, com que se
vestir, pois o Deus que cuida dos passarinhos e das ores cuida também de
seus lhos. Quem não é capaz de “presenti car” a vida nunca será feliz, pois
a felicidade estará sempre um pouquinho à frente, assim que...
EM SÍNTESE
Esse conceito de felicidade como contentamento, estar satisfeito e/ou
adaptado em qualquer circunstância, além de ser coerente com a
informação de que “as pessoas possuem um ponto de estabilização da
felicidade, um nível de alegria ao qual se retorna, não importa se o indivíduo
tenha ganhado na loteria ou perdido a capacidade de utilizar seus membros”,
também nos ensina que o grande desa o que enfrentamos consiste em viver
de modo consciente, atentos às potencialidades e ameaças de cada momento
da vida, de modo a nos tornarmos senhores dos nossos estados de espírito.
Mas, infelizmente, devo concordar com Henry David oreau quando
diz que “a grande maioria dos homens vive uma vida de silencioso
desespero”. Por baixo do pano escuro da noite, quando as luzes se apagam e
restam apenas os labirintos da mente como trilha para o encontro com o
descanso, muita gente repousa infeliz. Sua sorte, ou infortúnio, é que
durante o dia quase ninguém percebe; disfarçam bem ou convivem com
gente igualmente ocupada em disfarçar, que não consegue perceber quão
ruins os atores são no palco da vida.
Algumas pessoas retrucariam: “Eu não sou tão infeliz como você está
sugerindo”.
Acredito. Na verdade, conheço muitas pessoas assim. Mas não invejo
suas vidas. E descon o de que nem mesmo elas se orgulham da vida que
têm, pois se a infelicidade não as descreve, também não é tão fácil encontrar
uma palavra que o faça. Têm vidas amorfas, vazias, e obedecem à mesmice da navegação de um marujo, que não sabe para onde vai, que teme chegar a
algum lugar indesejável e que cruza os dedos fazendo ga para que o acaso
lhes reserve boa ventura. Vidas sonolentas, que se arrastam em meio a
rotinas enfadonhas. Gente que vive à espera da sexta-feira e que se arrepia
quando a luz do quarto se apaga no domingo à noite, sem que nada
interessante tenha acontecido no m de semana. Não têm uma cama onde
repousar, deitam-se noite após noite numa cova de lençóis, sepultando um
projeto de vida fracassado e, ainda que inconscientemente, rolam de um
lado para o outro imaginando alguma novidade inesperada que, como num
passe de mágica, derrame adrenalina no dia seguinte. A infelicidade, para a
maioria das pessoas, não é um sofrimento constante, com lágrimas
derramadas de hora em hora, mas sim o seu oposto, justamente a ausência
de lágrimas: não se emocionam, não se entristecem, não se desesperam, não
se importam, não choram mais. E acham isso normal, sinal de maturidade,
estabilidade emocional, de autocontrole. Eu chamo isso de apatia,
dessensibilização, incapacidade de ser afetado pela vida.
Talvez por essa razão Borges seja tão celebrado. Viveu sua angústia sem
dissimulação. Sua con ssão “não fui feliz” ecoa até hoje no mundo da
literatura, que ainda tenta equacionar a genialidade com o fracasso
existencial. O maior escritor argentino de todos os tempos e um dos grandes
do século 20, professor de literatura inglesa e norte-americana na
Universidade de Buenos Aires e de poesia em Harvard, colecionou, ao longo
da vida, os mais célebres prêmios da literatura mundial. Celebrado como
gênio, deixou pisadas palmilhadas por centenas de novos escritores, que
sonhavam repetir suas histórias fantásticas, e abriu portas para Umberto Eco
e Gabriel García Márquez, para citar apenas dois. Mas fracassou na vida. Ao
completar 80 anos, em agosto de 1979, a rmou que estava cansado de viver.
Conviveu com a cegueira durante 30 anos. Morreu cético, em profunda
solidão, pois sempre preferiu as personagens às pessoas. O poema Instantes,
erroneamente atribuído a ele, bem poderia servir como seu epitá o.
Se eu pudesse viver novamente minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a mais lugares aonde nunca fui tomaria mais sorvete e comeria menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e produtivamente cada minuto da sua vida;
claro que tive apenas momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida,
só de momentos, não percam o agora.
Eu era um desses que nunca ia à parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um paraquedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o m do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.
Borges entendeu, talvez tarde demais, que a vida é cheia de pequenos
momentos que podem ser celebrados quando vividos com inteireza, amor e
simplicidade, sem a necessidade de que se eternizem porque grandiosos,
mas grandiosos porque vividos como eternos.
Também por essa razão não me dou por vencido. Sei que existe uma
dimensão de vida acima da mediocridade acomodada. Saio para uma maravilhosa aventura e convido você a vestir-se de coragem e me
acompanhar na busca de respostas a algumas perguntas absolutamente
relevantes para quem deseja uma vida plena: como experimentar um modo
de viver satisfatório em meio ao turbilhão de responsabilidades, solicitações,
ocupações, suposições e possibilidades? Aliás, é possível encaixar esse
universo em sete dias de 24 horas? Como nos livrar do estresse, do enfado,
do ressentimento, da vontade de sumir, do senso de vazio e de inutilidade e
da culpa? Existe um jeito de ganhar o mundo sem perder a alma? É possível
viver num estado de espírito que chamamos felicidade? A nal, existe mesmo
essa tal felicidade? E, se existe, como se de ne? E, se é possível de ni-la,
como experimentá-la?