Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 4 de 28

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Vivendo com propósitos

1. Felicidade

1

FELICIDADE

 

Cometi o pior dos pecados

que um homem possa cometer:

Não fui feliz.

Que os glaciares do esquecimento

me arrastem e percam, desapiedados.

Meus pais me engendraram

para o jogo arriscado e formoso da vida,

Para a terra, a água, o ar, o fogo.

Eu os defraudei. Não fui feliz.

Cumprida não foi sua jovem vontade.

Minha mente se aplicou

às simétricas por as da arte,

que entretece o nada.

Me legaram valor, não fui valente.

Não me abandona, sempre está ao meu lado

a sombra de haver sido um infeliz.

Jorge Luiz Borges

 

O PARADIGMA DA FELICIDADE

Pesquisas recentes1 mostram que as pessoas possuem um ponto de

estabilização da felicidade, um nível de alegria ao qual se retoma, não

importa se o indivíduo tenha ganhado na loteria ou perdido a capacidade de

utilizar seus membros. As experiências que muitos acreditam conduzir à

felicidade não passam de picos de prazer, que logo se dissipam e devolvem a

pessoa a seu status padrão de contentamento. A neurociência está

descobrindo que, quando as pessoas falam em felicidade, na verdade estão descrevendo estados de espírito, momentos em que se sentem bem em

comparação a outros em que experimentam algum tipo de desconforto.

Parece correto, portanto, a rmar que as pessoas derivam seu conceito de

felicidade de duas matrizes fundamentais: a intensidade e quantidade de

experiências de pico de alegria e a média do estado de espírito no intervalo

entre os picos eufóricos. Quando a vida de uma pessoa é cheia de boas

notícias e seu estado de espírito mais comum é satisfatório, ela diz que é

feliz. Regra geral, todos nós vivemos em ciclos de estados de espírito, e da

dinâmica desses ciclos derivamos nosso “nível de felicidade”.

 

TRÊS EQUÍVOCOS A RESPEITO DA FELICIDADE Há gente que pensa que a felicidade tem fórmula, que não pode acontecer

sem determinados pré-requisitos cumpridos. Mas a verdade é que certas

coisas que muita gente acha que tornam a vida melhor – tais como dinheiro,

beleza ou projeção social – não parecem ter importância como fator

determinante da felicidade. Estudos realizados mostraram que as pessoas

cam felizes logo após um aumento de salário, mas que não há relação entre

salário e felicidade de nitiva. Não importa quão animado seja o dia da

formatura, a educação não faz a vida mais feliz. Da mesma forma, avanços

na vida social não têm efeitos profundos sobre a felicidade, pois a felicidade

não está relacionada às circunstâncias imediatas da vida. Oscar Wilde tinha

certa razão quando a rmou que “neste mundo só há duas tragédias – uma é

não conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. De fato, nunca estamos

satisfeitos, pois tão logo conquistamos um desejo, somos invadidos pela

sensação de “não era bem isso o que eu queria”.

Outro equívoco muito comum a respeito da felicidade é a expectativa de

viver num estado de espírito de alegria perene. O sentir-se bem não é

permanente, nem poderia ser, pois o resultado seria uma complacência

prazerosa. “A natureza utiliza a dor e o prazer como um bastão para nos

guiar”, diz o psicólogo David Lykken.2 Há quem diga, e com certa dose de razão, que a insatisfação é a mãe do progresso, pois a engenhosidade

humana é resultado da busca constante de mais conforto e de menos

sofrimento. Por essa razão, um povo feliz pode se tornar um povo inerte,

acomodado em um prazer que anestesia e que paralisa.

Um terceiro equívoco a respeito de felicidade é a crença no destino

aleatório, como se algumas pessoas tivessem nascido para ser felizes e outras

não. Na verdade, a felicidade não chega por acaso, desrespeitando a

autonomia da pessoa que a experimenta. Isso signi ca que não estamos ao

sabor das alterações de humor, como se elas não dependessem da maneira

como vivemos. Somos responsáveis pela qualidade da vida que temos. Let it

be nunca foi uma loso a de vida e caz.

 

O ESTADO DE ESPÍRITO PERTURBADO O grande desa o que enfrentamos na correria do dia a dia diz respeito à

capacidade de administrarmos os estados de espírito com que atravessamos

nossa rotina diária e desfrutamos as experiências simples que compõem a

teia do que chamamos vida. Aprendi que a vida não consiste em poucos

grandes momentos, mas sim em milhares de pequenos momentos, aos quais

emprestamos signi cado. Casamos uma vez e devemos viver casados para

sempre. Graduamo-nos academicamente algumas vezes, mas devemos

exercer nossas competências todo dia, numa rotina que chamamos trabalho.

Olhamos o vidro do berçário umas poucas vezes em busca dos nossos

recém-nascidos, mas devemos contemplar suas faces cheias de expectativas

todas as manhãs e jamais deixar que se deitem sem o nosso afago (e quando

eles saem do ninho, que falta sentimos!). En m, é mesmo verdade que a

felicidade não depende tanto, por exemplo, de dias como o do casamento, o

da formatura e o da festa na maternidade, mas sim do romance que se

aprofunda, do trabalho que se realiza e da vida em família num ambiente de

afeto e de possibilidades.

É justamente nessa teia de atividades rotineiras que somos desa ados a

experimentar a felicidade. No contexto desses milhares de pequenos

momentos é que somos desa ados a cultivar um estado de espírito

satisfatório, próprio de quem aprende a saborear o amor aos pedaços.

Muitas pessoas, entretanto, se tivessem de descrever seu estado de

espírito mais comum, poderiam substituir a palavra felicidade por outras

como preocupação, ansiedade e angústia. São palavras quase sinônimas, que

identi cam um estado de espírito perturbado e insatisfeito. Sofrem com isso

os que estão conscientes desse estado ou que, de vez em quando, surpresos,

deparam com ele.

 

OS INIMIGOS DA FELICIDADE

Esse estado de espírito perturbado tem diversas causas. Uma delas é o

excesso de responsabilidades e de solicitações, que nos conduz ao excesso de

ocupação. Apesar de estarmos tão atarefados, carregamos a constante

sensação de que ainda não cumprimos todas as nossas obrigações ou de que

não as cumprimos com o padrão de qualidade que gostaríamos. Os

diferentes papéis que desempenhamos na vida, como por exemplo, cônjuges,

pais, lhos, pro ssionais, amigos, cidadãos, cobrem-nos de obrigações

intransferíveis e lotam nossas agendas. Por essas razões, acabamos

assumindo mais compromissos do que somos capazes de cumprir

adequadamente, e o resultado é que oneramos uma ou outra parte de nossa

saúde, senão todas elas.

Não apenas estamos cheios de responsabilidades, de solicitações e de

ocupações, como também convivemos com um excesso de suposições.

Possuímos uma mente repleta de “se”. Essa multidão de “se” é responsável

por nossas preocupações: se o exame der positivo, se eu for cortado este

mês, se eu não alcançar minhas metas de vendas, se o ônibus atrasar, se ele

não me quiser mais, se o dinheiro não for su ciente, se o proprietário não

aceitar negociar, se, se...

Estranhamente, estar sobrecarregado tornou-se símbolo de status, e a

ausência de preocupação, uma situação perigosa que sugere falta de

realismo, negligência ou irresponsabilidade. Por alguma razão (e, por vezes,

infelizmente acertada), acreditamos que restaurante bom é aquele que tem

la de espera, médico competente é aquele que tem horário disponível para

consultas apenas no próximo mês, pro ssional excelente é aquele

superatarefado.

Além das responsabilidades, ocupações, solicitações e suposições,

multiplicam-se sobre nós as possibilidades. Vivemos sob a sugestão de que

não podemos deixar de assistir àquele lme, de ler aquele livro, de visitar

aquela cidade, de almoçar naquele restaurante ou de conhecer aquela

pessoa. Estamos na era da informação, e a cada semana, ou mesmo a cada

dia, um novo livro em nossa área de atividade é publicado, uma nova

competência pro ssional é lançada como moda e uma nova tranqueira

tecnológica é despejada no mercado. Além disso, dezenas de e-mails com

recados do tipo “essa você não pode deixar de ler” lotam nossas máquinas

diariamente.

 

A VIDA E SEUS LIMÕES

A vida nem sempre nos trata como desejamos. O mundo é injusto. As

tragédias e calamidades não escolhem a quem tentar destruir. De quando

em vez, nada mais coerente do que estar com o estado de espírito

perturbado. Uma das mais intrigantes passagens da vida de Jesus aconteceu

às portas do túmulo de Lázaro, seu amigo, e é narrada no Evangelho de João,

capítulo 11. Na verdade, a notícia de que Lázaro estava gravemente enfermo

chegara quatro dias antes, com as palavras: “Aquele a quem tu amas está à

morte”. Jesus não se abalou com a notícia nem alterou seus planos imediatos,

pois tinha propósitos muito mais elevados do que a simples cura física de

um amigo. Ao chegar à casa de Lázaro, recebe a notícia de que ele estava

morto havia quatro dias. Nesse momento, chora. Mas por que chora? Aliás, parece mesmo contraditório que Jesus, sabendo que ressuscitaria Lázaro dali

a poucos minutos, se entregasse às lágrimas e se deixasse invadir por

sentimentos, para a maioria de nós, indesejados.

Mas acredito em outra possível leitura do evento. O fato de que Lázaro

voltaria à vida em poucos minutos não anulava a realidade de que, naquele

exato momento, estava morto. Diante de um amigo morto e rodeado de

pessoas desesperadas, nada mais coerente do que sentir o espírito

perturbado, no mínimo, por solidariedade e empatia. Jesus vivia um

momento de cada vez. Aquele era um momento de morte, desespero e

desesperança. Jesus chorou com elas, chorou por elas e por ele mesmo,

quem sabe.

Nada mais natural do que o pranto no momento do luto, a angústia na

situação de fome, o medo no meio da guerra, en m, a cara contorcida no

momento em que a vida mostra-se amarga. Isso signi ca que nem todas as

pessoas que vivem com um estado de espírito perturbado são responsáveis

pelas causas que geraram a perturbação. Os profetas da autoajuda dizem que

a causa do sofrimento não é o mundo, e sim nossa atitude diante dele. Mas

nem sempre o estado de espírito perturbado começa do lado de dentro do

coração. Não raras vezes, resulta de circunstâncias adversas, variáveis fora

do controle de mortais como nós. O mundo não obedece à justiça

retributiva: coisas boas para pessoas boas, coisas ruins para pessoas ruins.

Até porque ninguém é totalmente mal. E ninguém é totalmente bom. Assim

também o mundo e a vida. A história, que tem como protagonistas pessoas

em quem o bem e o mal se misturam e se confundem, não poderia ser tão

exata. Por essa razão, de vez em quando acontecem coisas ruins para pessoas

boas, coisas boas para pessoas ruins, e ninguém se surpreende mais quando

acontecem coisas ruins para todo mundo.

Portanto, o melhor que temos a fazer é repetir a conduta do poeta bíblico.

Ao menor sinal de perturbação, devemos perguntar: “Por que você está

assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim?”. Não serão poucas as ocasiões em que caremos surpresos quando a

alma nos oferecer suas razões. Nessas horas, sentar e chorar é um ótimo

remédio. A nal, quando a dor é real e as causas podem ser claramente

identi cadas, a lágrima é a menor distância do sorriso.

 

CADA UM, CADA UM

Mas além dos excessos e das circunstâncias da vida, nosso estado de espírito

perturbado é in uenciado também por nossas características pessoais, isto é,

o conjunto de ltros herdados ou aprendidos por meio dos quais

interagimos com o mundo. Praticamente todas as nossas posturas na vida

podem ser explicadas pelo mix personalidade-cultura-ambiente social.

Poucas são as pessoas que conseguem estourar essa bolha e caminhar em

direção à transformação pessoal e à contracultura, impondo sua identidade

própria e assumindo suas preferências independentemente da última moda.

Por exemplo, pessoas que cresceram num ambiente de cobranças e de

exigências exageradas acabam desenvolvendo um general dentro de sua

consciência e sofrem de um perfeccionismo doentio, enquanto outras são

mais complacentes, displicentes e até mesmo irresponsáveis. É evidente que

cada uma reage ao atraso em uma reunião importante ou à demora na

entrega de uma encomenda de maneira diferente. Há pessoas que se

incomodam com outras pessoas, enquanto outras se incomodam com

coisas. Podemos encontrar gente que ca insuportável quando não dorme o

su ciente, e outros que se transformam quando estão com fome. O fato é

que, se há dez pessoas vivendo a mesma situação, provavelmente haverá dez

reações diferentes.

O grau de maturidade pessoal também afeta radicalmente o estado de

espírito. Os motivos considerados su cientes para experimentar alegria e

dissabor variam de pessoa para pessoa, e isso está relacionado com os

valores e até mesmo com o caráter. Uma criança chora quando cai seu

sorvete, atitude que não se espera de um adulto. Por outro lado, é comum ouvir crianças perguntando: “Por que a mamãe está chorando?”,

demonstrando, assim, sua incapacidade de discernir a dor para todos

evidente. Há pessoas que não conseguem dormir porque atrasaram o

pagamento do aluguel, enquanto outras não perdem o sono mesmo devendo

meses de cartão de crédito. O estado de espírito perturbado pode ser

explicado pela escala de valores de uma pessoa e pela maneira como se vê

responsável diante do direito de viver.

Mas, além de todas essas limitações herdadas e ou desenvolvidas, talvez o

maior fator de distinção na maneira como as pessoas reagem à vida é a fé. A

fé percebe uma Presença, a presença de Deus. A fé invoca uma Presença, a

presença de Deus. A fé sabe que, por trás do cenário visível, das estatísticas e

das probabilidades, existe Alguém interagindo na situação: Deus. Os

recursos humanos resultantes da fé são ainda um mistério para a ciência.

Quem é capaz de exercitar a fé vê mais longe, voa mais alto, chega mais

adiante.

 

INIMIGO ÍNTIMO

As discussões a respeito de ser o homem essencialmente bom, ou

essencialmente mau, como já observamos, são extensas e não nos interessam

aqui, pelo menos por enquanto. Mas a experiência diz que,

independentemente do que o homem é em essência, ele é naturalmente

egoísta, egocêntrico, voltado para si mesmo e para seu próprio bem-estar e

conforto. Essa característica do homem, em que predomina o ego e faz com

que ele desenvolva uma espécie de teomania, é aquilo que os teólogos

chamam pecado essencial ou original. Algo como um status do ser que

pretende bastar-se. Em outras palavras, a criatura deu as costas para o

Criador e pretendeu construir seu próprio mundo, com suas próprias leis, e

administrá-lo com suas próprias capacidades.

A Bíblia fala de três tipos de pessoas: natural, carnal e espiritual. 3 A

primeira, natural, é simplesmente dominada pelos instintos da biossobrevivência, mais parecida com um bicho do que com gente. A

segunda, carnal, vai um pouco mais longe e adquire consciência, mas dela se

utiliza apenas para tentar exercer domínio em benefício próprio. A terceira,

espiritual, transcendeu seu próprio universo de interesses e de necessidades

e tornou-se altruísta, solidária, capaz de partilhar e de empreender na

comunhão.

Em termos simples, o ser humano está em constante luta entre essas

dimensões de sua constituição. Em linguagem bíblica, diz-se que o espírito

luta contra a carne, e todo aquele que deseja experimentar a vida plena deve

negar seu próprio ego. Esse con ito é ilustrado em extremo na experiência

de Paulo, o apóstolo, quando grita desesperado: “Miserável homem que eu

sou! [...] Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que

odeio. [...] Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo

realizá-lo”.4 O que ele está dizendo é que existe dentro dele um inimigo

íntimo, um ego que o impede de expressar sua verdadeira identidade. Por

essa razão, a Bíblia diz que o homem é pecador, isto é, vive sob o domínio

“da carne” e do ego, fazendo a vontade de seus desejos e pensamentos

autônomos em relação ao Criador, matriz e fonte de vida.5

Não tenho dúvida de que boa parte, senão a totalidade, da infelicidade

humana explica-se por essa tendência de viver de maneira egoísta. Num

mundo tão diverso, ninguém consegue ser feliz se tudo o que valoriza é seu

conforto e bem-estar pessoal. Por mais distintas que sejam, todas as

tradições de espiritualidade têm um ponto comum: concordam que as

pessoas mais estabilizadas na vida, e por que não dizer, felizes, são aquelas

que cultivam o espírito abnegado, solidário, altruísta. Esse é mais um, senão

o, paradoxo da vida: o caminho da autorrealização é a negação do ego.

 

PODE SER PIOR

Esse estado de espírito perturbado torna-se muito pior quando temperado

pela culpa religiosa, especialmente para algumas pessoas sinceras e esclarecidas em sua experiência espiritual que não encontram explicação

para o descompasso entre a fé e sua condição existencial. Como

pouquíssima gente tem coragem de a rmar que Deus não funciona, a

maioria acaba descon ando da qualidade de sua fé ou de sua dinâmica de

vida. A convicção de que Deus resolveria todos os problemas, somada à

experiência da perturbação interior, leva ao desespero quem está perdendo a

guerra mesmo em parceria com um Aliado onipotente. Isto é, quem

acreditou que Deus seria a solução para uma vida plena, mas que, mesmo

sendo íntegro em suas obrigações, ainda assim vive um estado de espírito

perturbado, chegou ao limite e pergunta-se: “o que vem depois de Deus?” ou

“o que posso tentar se já tentei até mesmo Deus?”.

Creio que não são poucos os que estão sinceramente errados em sua

peregrinação espiritual. Caso seja possível, e assim creio, existe muita gente

relacionando-se com o Deus certo, mas da maneira errada. Estão iludidos

por falsas convicções a respeito de como experimentar a bondade de Deus.

Creem, de fato, que Deus é capaz de oferecer descanso para as nossas almas,

de encher-nos de paz que excede todo entendimento, de alegria plena e de

vida abundante (ou completa), mas desconhecem os processos da

peregrinação espiritual e podem enquadrar-se em alguns dos principais

equívocos a respeito da dinâmica da espiritualidade cristã.

São capazes, por exemplo, de acreditar que as dádivas de Deus

independem de suas próprias atitudes. Imaginam que os favores de Deus

vêm automaticamente pelo simples fato de que creem em Deus. Por

exemplo, acreditam que podem continuar vivendo de maneira egoísta,

orgulhosos de sua humildade e cheios de empá a contra aqueles que, pelo

menos em sua opinião, são menos iluminados. Talvez não tenham ouvido

que Deus opõe-se aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes, e que se

alegra em atender os que pedem com fé, sem vacilar.

Por outro lado, há os que imaginam que as dádivas de Deus são respostas

apenas às atitudes interiores abstratas e que desconsideram a necessidade dos exercícios espirituais, da busca disciplinada, do esmurrar o corpo para

não ser desquali cado, da oração perseverante, do estudo incansável das

Escrituras Sagradas para que a Lei seja alimento de meditação diuturna.

Há os que pensam que todos os favores de Deus são experimentados em

termos de nitivos, isto é, aquele que recebeu uma graça ca com ela para

sempre. Perguntam-se, atônitos: “Mas não entreguei minha vida a Deus?

Então, por que não tenho alegria?”. Talvez, careçam ouvir o apóstolo Paulo

ensinando que a alegria é fruto do Espírito Santo e que apenas aqueles que

se deixam continuamente encher pelo Espírito a experimentam. Ou, quem

sabe, devem atentar melhor para a declaração de que o caráter de Cristo é

formado em nós processualmente, com glória cada vez maior, custando

inclusive dores de parto aos que trabalham em nosso favor, de modo que

somos sempre encorajados a desenvolver nossa salvação com temor e

tremor, algo como abrir a caixa de recursos que Deus colocou em nossas

mãos e aprender a usar as ferramentas, uma de cada vez.

Existem também os que esperam uma experiência espiritual instantânea,

que os conduza de nitivamente a um status permanente de plena satisfação

e realização. São pessoas que creem que, se oraram hoje e Deus lhes

apaziguou o coração a respeito da enfermidade do pai hospitalizado, não

precisarão orar amanhã, pois já receberam a paz que excede todo o

entendimento. Na manhã seguinte, ao se perceberem novamente

perturbados, questionam onde está seu erro. Estaria Deus falhando em

cumprir sua promessa, ou a fé com que buscaram a Deus era fraca? Ou, pior,

Deus os estaria punindo por um pecado ou outro que desconheciam (ou,

pior ainda, que conheciam)? Falta-lhes o esclarecimento de que a

experiência espiritual cristã é dinâmica. Jesus não prometeu um copo de

água que mataria de nitivamente a sede. O que Jesus prometeu foi que, do

interior de quem crê, brotará uma fonte a jorrar para a vida eterna, e isso

sugere que a essa fonte devemos recorrer sempre, e novamente, e de novo, para que, toda vez, quando nosso espírito se perturbar ou for perturbado,

encontremos descanso e provisão.

 

CONTENTAMENTO

É quase impossível encontrar uma de nição completa e de nitiva para a

felicidade, mas é fato que, qualquer que seja sua de nição, estará associada

aos estados de espírito com os quais atravessamos a vida. Podemos,

inclusive, alongar a discussão a respeito da distinção entre ser feliz, estar

feliz e sentir-se feliz, e sobre como a felicidade é diferente da alegria, que,

por sua vez, é diferente da euforia. Mas isso é complicar demais a coisa. O

fato é que, se você é feliz, então se sente feliz, e se você está feliz, também se

sente feliz, e esse sentimento de felicidade é, necessariamente, um estado de

espírito, que pode ser duradouro, razoavelmente comum ou eventual.

Nesse caso, pre ro simpli car um pouco mais e trocar a palavra

“felicidade” por “contentamento”, que de no como a capacidade de estar

satisfeito (de adaptar-se) em qualquer situação. Esse tipo de contentamento

não se explica pelas circunstâncias favoráveis e ou confortáveis, mas sim

pela capacidade de exercer domínio sobre o estado de espírito de tal

maneira que os fatores externos que o abalam sejam em número cada vez

menor.

Contentamento é uma satisfação de dentro para fora. Vicente de

Carvalho traduziu muito bem essa experiência do contentamento quando

disse que a felicidade, essa árvore frondosa e cheia de frutos, existe sim, mas

existe no lugar em que a plantamos, e o problema é que quase nunca a

plantamos no lugar onde estamos. A expressão mais comum para os

infelizes é que serão felizes “assim que...”. Assim que arrumarem um

emprego novo; um romance novo; um carro novo; uma casa nova; um chefe

novo; e tanto mais, cada vez mais.

Esse estilo de vida “assim que...” coloca a felicidade no futuro e perpetua

o descontentamento, que impede a alegria de desfrutar o presente, as pessoas que temos em volta, as circunstâncias reais e imediatas que nos

oferecem possibilidades de realização. A palavra contentamento deriva do

latim contentu (“contido”) e sugere a ideia de conteúdo. Nesse caso, contente

é aquele que tem conteúdo em si mesmo ou que é capaz de usufruir o

conteúdo da realidade na qual está inserido. Em outras palavras, em

qualquer lugar, em qualquer companhia, em qualquer circunstância existe

possibilidade de contentamento, mas somente para aqueles que sabem

explorar sua riqueza interior, ou as potencialidades do momento, ou ambas.

Um momento de contentamento é aquele em que tudo parece certo: não

há necessidade de mudar o que você está fazendo, nem a pessoa com quem

você está, nem o lugar onde você se encontra. É comum ouvir-se que a

felicidade é estar numa ilha paradisíaca em companhia da mulher, ou do

homem, de minha vida. Mas suspeito que seja uma a rmação extremamente

absurda. Isso seria ótimo por alguns dias, mas logo se tornaria entediante,

monótono, vazio. Há outras dimensões da vida a experimentar além da

paixão alucinante, outras potencialidades do ser a realizar além da

capacidade do amor romântico. Ruth Rocha tem um livro “infantil”

chamado Uma estória meio ao contrário, que inicia com o beijo do príncipe

na princesa, e a frase: “E foram felizes para sempre”. Na outra página, a

história segue com a expressão: “E era muito chato”. De fato, a ideia de

paraíso sem labor e só lazer, mano, é insuportável. Um Deus criativo jamais

criaria um ser estéril, muito menos chamaria de paraíso um lugar povoado

de parasitas.

Trago ainda na lembrança minha experiência de participar da Maratona

de Nova York em companhia de meu amigo Ricardo. Agora mesmo,

enquanto escrevo, consigo me lembrar de um trecho da 5th Avenue, em

Manhattan, onde as dores nas pernas pareciam insuportáveis. Naquele

momento, entretanto, apesar da dor e do desconforto, eu estava (era) feliz.

Não havia outro lugar, outra atividade ou outra pessoa a meu lado que eu

desejasse mais naquela hora.

Mas se você perguntar se eu desejaria perpetuar aquele momento, eu

evidentemente diria que “não”, pois alguns minutos mais adiante, encontrei

o abraço apertado e amoroso da minha esposa, Silvia, e aquele foi o melhor

lugar do mundo. E, depois, o abraço dos meus amigos Paulo e Eloíse. E,

depois, a alegria de um jantar maravilhoso na casa do Israel e da Andréa;

jantar, aliás, interrompido pelo inesquecível telefonema de meus lhos,

Fernanda e Vitor, curiosos e animados, com os braços os mais compridos do

planeta, que atravessaram milhas e milhas para me dar um abraço gostoso.

E, depois, na volta ao Brasil, e o reencontro com os companheiros que me

encorajaram nas madrugadas frias do Parque do Ibirapuera, enquanto me

preparava para a Maratona. E, depois... depois, outros tantos momentos.

Como disse Gilberto Gil, “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Não

sei, nem quero saber, qual era o lugar e o momento aos quais o poeta se

referia, pois creio que a vida é cheia de “lugares” e de “agoras”. E a felicidade

implica a possibilidade de, esteja onde estiver, com quem estiver, não

importa o que esteja fazendo, dizer: o melhor lugar do mundo é aqui e

agora. Como disse Viktor Frankl, psicanalista vienense: A realidade sempre

se apresenta na forma de uma particular situação concreta e, uma vez que

cada situação de vida é irrepetível, segue-se que o sentido de uma dada

situação é único. Os signi cados dos momentos que são únicos são objetos

da descoberta pessoal. Eles devem ser procurados e encontrados por cada

um. Desde que a situação é sempre única, com um sentido que é também

necessariamente único, segue-se que a possibilidade de fazer qualquer coisa

em relação à situação é também única, porque é transitória. Ela possui uma

qualidade, um kairós, isto é, se não aproveitarmos a oportunidade de

dinamizar o sentido intrínseco e como que mergulhado na situação, o

sentido passará e irá embora para sempre.6

 

Por essa razão, a felicidade é muito mais um jeito de ir do que um lugar

onde se chega. O ditado chinês ensina que “os caminhos existem para jornadas e não para destinos”. Exatamente por esse motivo Jesus de Nazaré

recomendou a seus discípulos que não se inquietassem quanto ao dia de

amanhã, nem se ocupassem com o que beber, o que comer, com que se

vestir, pois o Deus que cuida dos passarinhos e das ores cuida também de

seus lhos. Quem não é capaz de “presenti car” a vida nunca será feliz, pois

a felicidade estará sempre um pouquinho à frente, assim que...

 

EM SÍNTESE

Esse conceito de felicidade como contentamento, estar satisfeito e/ou

adaptado em qualquer circunstância, além de ser coerente com a

informação de que “as pessoas possuem um ponto de estabilização da

felicidade, um nível de alegria ao qual se retorna, não importa se o indivíduo

tenha ganhado na loteria ou perdido a capacidade de utilizar seus membros”,

também nos ensina que o grande desa o que enfrentamos consiste em viver

de modo consciente, atentos às potencialidades e ameaças de cada momento

da vida, de modo a nos tornarmos senhores dos nossos estados de espírito.

Mas, infelizmente, devo concordar com Henry David oreau quando

diz que “a grande maioria dos homens vive uma vida de silencioso

desespero”. Por baixo do pano escuro da noite, quando as luzes se apagam e

restam apenas os labirintos da mente como trilha para o encontro com o

descanso, muita gente repousa infeliz. Sua sorte, ou infortúnio, é que

durante o dia quase ninguém percebe; disfarçam bem ou convivem com

gente igualmente ocupada em disfarçar, que não consegue perceber quão

ruins os atores são no palco da vida.

Algumas pessoas retrucariam: “Eu não sou tão infeliz como você está

sugerindo”.

Acredito. Na verdade, conheço muitas pessoas assim. Mas não invejo

suas vidas. E descon o de que nem mesmo elas se orgulham da vida que

têm, pois se a infelicidade não as descreve, também não é tão fácil encontrar

uma palavra que o faça. Têm vidas amorfas, vazias, e obedecem à mesmice da navegação de um marujo, que não sabe para onde vai, que teme chegar a

algum lugar indesejável e que cruza os dedos fazendo ga para que o acaso

lhes reserve boa ventura. Vidas sonolentas, que se arrastam em meio a

rotinas enfadonhas. Gente que vive à espera da sexta-feira e que se arrepia

quando a luz do quarto se apaga no domingo à noite, sem que nada

interessante tenha acontecido no m de semana. Não têm uma cama onde

repousar, deitam-se noite após noite numa cova de lençóis, sepultando um

projeto de vida fracassado e, ainda que inconscientemente, rolam de um

lado para o outro imaginando alguma novidade inesperada que, como num

passe de mágica, derrame adrenalina no dia seguinte. A infelicidade, para a

maioria das pessoas, não é um sofrimento constante, com lágrimas

derramadas de hora em hora, mas sim o seu oposto, justamente a ausência

de lágrimas: não se emocionam, não se entristecem, não se desesperam, não

se importam, não choram mais. E acham isso normal, sinal de maturidade,

estabilidade emocional, de autocontrole. Eu chamo isso de apatia,

dessensibilização, incapacidade de ser afetado pela vida.

Talvez por essa razão Borges seja tão celebrado. Viveu sua angústia sem

dissimulação. Sua con ssão “não fui feliz” ecoa até hoje no mundo da

literatura, que ainda tenta equacionar a genialidade com o fracasso

existencial. O maior escritor argentino de todos os tempos e um dos grandes

do século 20, professor de literatura inglesa e norte-americana na

Universidade de Buenos Aires e de poesia em Harvard, colecionou, ao longo

da vida, os mais célebres prêmios da literatura mundial. Celebrado como

gênio, deixou pisadas palmilhadas por centenas de novos escritores, que

sonhavam repetir suas histórias fantásticas, e abriu portas para Umberto Eco

e Gabriel García Márquez, para citar apenas dois. Mas fracassou na vida. Ao

completar 80 anos, em agosto de 1979, a rmou que estava cansado de viver.

Conviveu com a cegueira durante 30 anos. Morreu cético, em profunda

solidão, pois sempre preferiu as personagens às pessoas. O poema Instantes,

erroneamente atribuído a ele, bem poderia servir como seu epitá o.

Se eu pudesse viver novamente minha vida,

 

na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido,

na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais,

contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a mais lugares aonde nunca fui tomaria mais sorvete e comeria menos lentilha,

teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata

e produtivamente cada minuto da sua vida;

claro que tive apenas momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver,

trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feito a vida,

só de momentos, não percam o agora.

Eu era um desses que nunca ia à parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um paraquedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,

começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o m do outono.

Daria mais voltas na minha rua,

contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

 

Borges entendeu, talvez tarde demais, que a vida é cheia de pequenos

momentos que podem ser celebrados quando vividos com inteireza, amor e

simplicidade, sem a necessidade de que se eternizem porque grandiosos,

mas grandiosos porque vividos como eternos.

Também por essa razão não me dou por vencido. Sei que existe uma

dimensão de vida acima da mediocridade acomodada. Saio para uma maravilhosa aventura e convido você a vestir-se de coragem e me

acompanhar na busca de respostas a algumas perguntas absolutamente

relevantes para quem deseja uma vida plena: como experimentar um modo

de viver satisfatório em meio ao turbilhão de responsabilidades, solicitações,

ocupações, suposições e possibilidades? Aliás, é possível encaixar esse

universo em sete dias de 24 horas? Como nos livrar do estresse, do enfado,

do ressentimento, da vontade de sumir, do senso de vazio e de inutilidade e

da culpa? Existe um jeito de ganhar o mundo sem perder a alma? É possível

viver num estado de espírito que chamamos felicidade? A nal, existe mesmo

essa tal felicidade? E, se existe, como se de ne? E, se é possível de ni-la,

como experimentá-la?