Vivendo com propósitos
17. Tesouros
17
TESOUROS
QUANTO?
Vinte e cinco mil dólares por ano. Essa foi a conclusão a que chegaram os
pesquisadores 1 que estão tentando valorar quanto custa a felicidade. Depois
de muitas entrevistas, concluíram que existe, de fato, uma correlação entre
felicidade e renda nanceira, isto é, quanto mais dinheiro, mais felicidade. O
dado surpreendente é que essa correlação diminui à medida que a renda
aumenta, e chega a ser nula quando a renda anual do indivíduo chega aos
tais 25 mil dólares. Há pessoas mais felizes entre os grupos mais ricos do que
entre os mais pobres, mas essa diferença deixa de existir nos grupos com
renda anual acima de US$ 25 mil. Isto é, quando dois sujeitos ganham mais
de 25 mil por ano cada um, o que ganha 100 mil será tão feliz quanto o que
ganha um milhão.
Os especialistas chegaram à conclusão de que o dinheiro só torna mais
felizes pessoas tão pobres que não conseguem ver atendidas suas
necessidades básicas: Eduardo Giannetti, que estuda há alguns anos o tema
sob a luz da loso a, defende que não há relação simples entre indicadores
objetivos e subjetivos de bem-estar. “O que se imaginava é que, na medida
em que os indicadores objetivos melhorassem, os subjetivos
acompanhariam, mas as pesquisas não mostram essa relação”. Isso signi ca
que, quando as pessoas superam a linha da pobreza e têm suas necessidades
atendidas, sua experiência da felicidade dependerá cada vez mais de seus
recursos interiores do que de seus bens materiais. Em outras palavras, se ser
infeliz é passar frio, quando você está agasalhado, não faz muita diferença se
tem 20 ou 100 casacos no armário.
A síntese é que o chavão “o dinheiro não traz a felicidade” pode ser
substituído por outro chavão: “o dinheiro traz conforto, mas não traz
felicidade”. Não faltarão indicadores sociais e estudiosos de todos os ramos
das humanas para corroborar o veredicto. Isso signi ca que o dinheiro foi
colocado em seu devido lugar, a saber, é necessário para a sobrevivência e
existência com mínimo de dignidade e realização de desejos, mas
insu ciente para atribuir sentido e signi cado à vida.
Abre parêntese. Evidentemente, a maioria dos mortais concorda com a
expressão popularizada pelo judeu bem-humorado que disse: “Fui pobre e
agora sou rico; ser rico é bem melhor”.
Mas também é certo que o dinheiro está longe de ser a melhor paga do
trabalho e o melhor tesouro que se pode acumular na vida. Cresce o número
de pessoas que preferem ganhar menos trabalhando num ambiente mais
sociável do que ganhar muito à custa de sua qualidade de vida ou a despeito
de suas habilidades e talentos. Muita gente prefere ganhar menos dinheiro
fazendo o que gosta num contexto de relacionamentos pessoais satisfatórios
do que ganhar mais dinheiro sacri cando a saúde física, emocional e até
mesmo espiritual. Fecha parêntese.
REINO DE DEUS
Uma das coisas que mais me impressionam em Deus é que houve um dia em
que Ele parou de criar e entrou em seu descanso, o shabat. A expressão
usada no Gênesis, “viu Deus que tudo era muito bom”, deve ser traduzida
por “viu Deus que era su ciente”. Isso é extraordinário. Um Deus com
possibilidades ilimitadas, em determinado momento, dá-se por satisfeito e
decide parar de criar. Enquanto o mundo está cheio de gente para quem
“tudo não é o bastante”, conforme o título do imperdível livro de Harold
Kushner, Deus é do tipo que diz: “isso não é tudo, mas já basta”.
Um grande mistério dessa narrativa do Gênesis é que, quando Deus para
de criar, ele não para de trabalhar. Jesus disse que seu Pai trabalha até hoje, e
ele, Jesus, trabalha também. 2 Deus parou de criar, mas não parou de
trabalhar. Deus parou de criar e entrou no shabat, isto é, entrou no descanso.
Entrar no shabat é começar a desfrutar da criação, e isso é uma espécie de
trabalho, um descanso ativo, diferente da passividade, omissão ou
comodidade. Na verdade, Deus parou de somar coisas à criação e passou a
desfrutar das coisas criadas. Quantas espécies de peixes existem?
Francamente, não sei e duvido que alguém saiba. Mas é fato que poderia
existir o dobro. Ou o triplo. Deus poderia continuar criando ad in nitum.
Somando, somando. Acumulando, acumulando. Mas não foi isso o que fez.
Em vez de fazer existir sempre mais, optou por colocar limites ao que
poderia vir a existir, para que pudesse desfrutar o que já existia.
Eis aí o segredo. Você tem de saber a hora de parar. Você tem de saber o
quanto basta. Você tem de se dar por satisfeito e interromper a correria na
direção de acumular. Você tem de aprender a desfrutar o que tem, em vez de
correr atrás de mais e mais. É mais importante desejar o que tem do que ter
o que deseja. Por esse motivo, Comte-Sponville adverte que “não basta ter
tudo para ser feliz, para sê-lo de fato. O que nos falta para ser feliz, quando
temos tudo para ser e não somos? Falta-nos a sabedoria”. 3
Os cínicos, seguidores dos lósofos socráticos Antístenes de Atenas (444-
356 a.C.) e Diógenes de Sínope (413-323 a.C.), pregavam a volta à vida em
estrita conformidade com a natureza e, por essa razão, opunham-se
radicalmente aos valores, aos usos e às regras sociais vigentes. Para os
cínicos, os prazeres eram divididos em dois grupos: os comuns a todos os
homens, chamados de naturais, e os buscados por meio das convenções
sociais e políticas, chamados de não naturais. Diógenes a rmava que a
maneira mais correta do homem de viver consiste em ter as necessidades
mais simples possíveis: “para o homem, basta-lhe a vida”.
Os estoicos, como o grego Zenão de Cício (340-264 a.C.) e os romanos
Epicteto (c.55-c.135 d.C.) e Marco Aurélio (121-180 d.C.), defendiam que o
ideal do sábio era a austeridade, que poderia ser caracterizada como certa impassibilidade em face da dor ou do infortúnio. Sêneca, por exemplo,
escreveu para Lucílio recomendando que se alegrasse “unicamente naquilo
que provém apenas do que é seu. O que quero dizer com apenas do que é
seu? Quero dizer você mesmo e a sua melhor parte”.
Parece que Paulo, apóstolo, tinha algo de cínico e estoico. Suas
declarações aos cristãos da cidade de Filipos ainda ecoam como desa o
urgente num mundo marcado pelo consumo. A rmou que aprendeu o
segredo de viver satisfeito em toda e qualquer situação e deixou claro que a
grande sabedoria do contentamento não está na capacidade de acumular,
mas sim na capacidade de adaptar-se às circunstâncias. Sábio é aquele que
vive bem tanto na fartura quanto na necessidade, bem alimentado ou com
fome, tendo muito ou passando necessidade, pois não vive baseado nas
coisas e circunstâncias, mas sim a partir de um relacionamento: “posso
todas as coisas naquele que me fortalece”, disse Paulo referindo-se à sua
intimidade com Deus.4 Na verdade, essa é a grande diferença entre o
cristianismo e as loso as gregas, como o cinismo e o estoicismo. Estas
focalizam os recursos próprios do ser humano, enquanto a fé cristã focaliza
a experiência de transcendência em termos de conexão com o sagrado e o
divino como fontes de satisfação, plenitude e contentamento. A plena
realização humana não resulta da viagem interior, mas da busca do Reino de
Deus e sua justiça, em que todas as coisas existem, são possíveis e acessíveis,
como nos ensinou Jesus de Nazaré. 5
A inserção no Reino de Deus redimensiona a relação com o dinheiro e as
riquezas e abre as portas para a plena liberdade, que transcende
necessidades e circunstâncias. Somente quando vivemos no Reino de Deus
estamos livres da ansiedade de ter, possuir e acumular. Em outras palavras,
quando entramos no Reino de Deus, entramos também no shabat, o
descanso ativo, no qual o que temos pode não ser tudo, mas sempre será o
su ciente.
COFRES
Jesus nos aconselha a não acumular tesouros na terra, onde a traça e a
ferrugem destroem e os ladrões roubam e furtam. Melhor é acumular
tesouros no céu. A maioria das pessoas faz uma distinção entre riquezas da
terra e riquezas do céu. Separam a realidade em duas, em que os bens
materiais (como casa, carros e joias) são considerados riquezas da terra, e os
bens imateriais (como caráter, liberdade e alegria) são chamados tesouros do
céu. Mas Jesus não fez a distinção entre tesouros da terra e tesouros do céu.
Jesus falou de tesouros na terra e tesouros no céu. Ele não fez distinção entre
riquezas, mas sim entre lugares onde essas riquezas estão armazenadas ou
guardadas: na terra ou no céu.
A realidade é uma. Lembrando sempre que somos pó da terra e fôlego da
vida, o pão e a alegria são partes indispensáveis da aventura de viver. A casa
e o acolhimento fraterno são faces complementares do abrigo. Abrir mão de
possuir para encontrar a alegria é uma experiência pessoal, própria para
aqueles cujos corações estão cativos da realidade material. As trilhas estoica,
cínica e franciscana não são, necessariamente, os únicos caminhos para a
bem-aventurança. O segredo não é deixar de ter, mas saber ter. A sabedoria
não consiste em abrir mão dos tesouros da terra, mas sim em colocar os
tesouros da terra no céu.
A maneira como lidamos com o dinheiro determina “quem é o dono de
quem”, como diz o poeta. Jesus mostrou dois caminhos possíveis: ser escravo
do dinheiro e ser súdito do Reino de Deus. Não dá para ser-fazer as duas
coisas. E uma coisa é certa: o dinheiro é um deus que reivindica lealdade
absoluta. É chamado de Mamom, um deus, o que surpreende muita gente,
pois desfaz a noção de que o dinheiro é neutro. Está enganado aquele que
pensa que o dinheiro não é bom nem mau e que mau é o amor ao dinheiro.
Na verdade, o dinheiro tem a capacidade de aprisionar o coração, “pois onde
estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração”. 6 Por essa razão Jesus
recomendou que o dinheiro fosse colocado no céu, pois somente lá não apenas ele estará seguro, como também nós estaremos seguros em relação a
ele.
John Wesley, fundador do Metodismo, disse que tão logo o dinheiro
chegava a seu bolso, ele dava um jeito de livrar-se dele, para que o dinheiro
não encontrasse o caminho de seu coração. Acho que “livrar-se do dinheiro”
é uma possível tradução para “ajuntar tesouros no céu”.
Acredito que existem quatro maneiras de nos livrarmos do dinheiro. A
primeira é por meio da restituição. Não se iluda. Se você tem nas mãos
dinheiro que jamais deveria ser chamado de seu, dinheiro que foi ganho de
maneira ilícita, então tem no bolso uma bomba de tempo, que cedo ou tarde
vai explodir, deixando sua vida em cacos. Essa foi a experiência de Zaqueu,
o homem que encontrou a felicidade quando imergiu no Reino de Deus e
descobriu que deveria devolver tudo quanto havia roubado e usurpado. 7
A segunda maneira de ajuntar tesouros no céu é por meio da doação.
Certa vez, um homem rico foi perguntar a Jesus como poderia herdar a vida
eterna.8 Depois de um breve diálogo tratando de obediência aos
mandamentos divinos – questões morais e comportamentais –, Jesus foi
direto ao ponto: “Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e
você terá um tesouro nos céus. Depois venha e siga-me”.
Por trás desse evento, existem duas sabedorias que contrariam o senso
comum. A primeira é a noção de que Jesus mandou trocar as riquezas da
terra pelas riquezas do céu. Mas já sabemos que Jesus não faz essa distinção.
Não se trata de abrir mão de ter aqui para ter depois da morte. Depois que o
homem rico foi embora, de volta para seu dinheiro, Jesus explicou a seus
discípulos que “ninguém que tenha deixado casa, mulher, irmãos, pai ou
lhos por causa do Reino de Deus deixará de receber, na presente era,
muitas vezes mais, e, na era futura, a vida eterna”. Isso não signi ca que o
ingresso no Reino de Deus implica abandono do lar e de todo e qualquer
tipo de posse. Não é que você dá as costas para o que possui e para as
pessoas que ama e ca de frente para Deus. O segredo consiste em colocar Deus entre você, suas posses e as pessoas que você ama. Isso signi ca que, a
partir do ingresso no Reino de Deus, suas relações com tudo e com todos
são mediadas por sua disponibilidade a Deus. Nada estará em suas mãos
como posse, mas sim como dádiva, primeiro a Deus e depois a quem
precisar. De fato, “é dando que se recebe”, pois uma vez que você dá a quem
precisa, por amor ao Reino de Deus, você recebe cem vezes mais, isto é, abre
mão do pouco que possui para ter acesso a tudo quanto Deus possui.
A segunda sabedoria desse conselho de Jesus, “vende tudo e dê o
dinheiro aos pobres, para receber cem vezes mais agora e no futuro a vida
eterna”, é que se imagina que a vida eterna é uma experiência apenas futura.
Acredito que a vida eterna começa agora. O paraíso começa aqui. O céu é,
também, um estado de espírito, um senso de plenitude. O paradoxo é que
somente o tesouro que não é retido egoisticamente satisfaz o coração
humano. Somente quem abre mão de possuir é agraciado com a sensação de
possuir tudo. Qualquer riqueza utilizada de modo egocêntrico será sempre
riqueza que se esvai pelos dedos, deixando a sensação de nunca ter existido,
imprimindo no coração a sensação de empobrecimento. Riqueza
despendida egoisticamente é riqueza consumida, que vai deixando a
sensação de perda. Riqueza partilhada é riqueza multiplicada.
A terceira maneira de nos livrar do dinheiro e de ajuntar tesouros no céu
é negociando. Negociar é colocar dinheiro em circulação. Colocar dinheiro
em circulação signi ca duas coisas: criar oportunidades para a multiplicação
de riquezas e correr o risco de perder dinheiro.
Essa é a sabedoria da famosa “parábola dos talentos” contada por Jesus.9
O Reino dos Céus é
como um homem que, ao sair de viagem, chamou seus servos e con ou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida partiu em viagem. O que havia recebido cinco talentos saiu imediatamente, aplicou-os, e ganhou mais cinco. Também o que tinha dois talentos ganhou mais dois. Mas o que tinha recebido
um talento saiu, cavou um buraco no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor. Depois de muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. O que tinha recebido cinco talentos trouxe os outros cinco e disse: “O senhor me con ou cinco talentos; veja, eu ganhei mais cinco”. O senhor respondeu: “Muito bem, servo bom e el! Você foi el no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!” Veio também o que tinha recebido dois talentos e disse: “O senhor me con ou dois talentos; veja, eu ganhei mais dois”, O senhor respondeu: “Muito bem, servo bom e el! Você foi el no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!” Por
m veio o que tinha recebido um talento e disse: “Eu sabia que o senhor é um
homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou. Por essa razão, tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence”. O senhor respondeu: “Servo mau e negligente! Você sabia que eu colho onde não plantei e junto onde não semeei? Então você devia ter con ado o meu dinheiro aos banqueiros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com juros. Tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez. Pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado. E lancem fora o servo inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”.
Viu como funciona? Você dizia que, se fosse rico, também se tornaria um
doador solidário e faria negócios com mais ousadia, e a sabedoria vem
ensinar que quem não faz com pouco não vai fazer com muito, ou o melhor,
somente quem faz com pouco poderá, um dia, ter muito. O trato correto
com os tesouros não depende da quantidade das riquezas, mas sim da
atitude do coração. Vale a máxima popular: “quem não arrisca, não petisca”.
Quem opta pela retenção dos tesouros achando ser esse o caminho de maior
segurança acaba sendo réu de juízo, acusado de interromper o uxo das
riquezas, num universo em que tudo deve estar em constante movimento,
sob pena de tornar-se obsoleto e de deteriorar-se até apodrecer e morrer.
Finalmente, acredito que administrar riquezas é outra maneira de nos
livrar do dinheiro e ajuntar tesouros no céu. A riqueza bem administrada
não se perde. Na verdade, se renova e se redimensiona.
Administrar bem signi ca três coisas. Primeiro, ser capaz de usar as
riquezas materiais em favor das riquezas imateriais. A sabedoria está na arte
de transformar valores efêmeros em valores perenes, bens perecíveis em
bens não perecíveis, coisas tangíveis em realidades intangíveis. Por exemplo,
transformar dinheiro em educação-conhecimento, terrenos em saúde,
carros em contentamento, ouro e joias em socorro solidário. Somente assim,
o que temos, muito ou pouco, manterá nosso coração cheio e satisfeito, sem
a sensação da falta, pois nos tornamos capazes de dar signi cado existencial
aos tesouros.
Além de saber usar as riquezas, administrar bem signi ca multiplicar as
riquezas, isto é, fazer todas as contas crescerem sem precisar sacar de uma
para depositar na outra. Com isso, evitamos criar antirriquezas, como, por
exemplo, faz aquele que saca da conta caráter para depositar na conta
corrente, ou da conta saúde para depositar na conta carreira, ou da conta
amizade para depositar na conta status. O Rabino Nilton Bonder “adverte
que o justo tem obrigação de criar o máximo de abundância que não gera
escassez”. 10
Um jeito de criar riqueza sem gerar escassez é pagar pelas coisas apenas o
preço da etiqueta. Um terreno que vale 30 mil reais não pode ser comprado
por 30 mil reais mais um ambiente familiar tenso e muitas noites
maldormidas. Um carro que vale 17 mil reais não pode ser comprado por 17
mil reais menos a educação adequada dos lhos. Uma blusa que vale 27 reais
não pode ser comprada por 27 reais menos a tarde de sábado com marido
ou namorado. Essa arte está ligada à capacidade de valoração ou à escala de
valores de cada um. Pessoas que confundem preço com valor não são boas
administradoras. Pessoas que não têm seus valores na ordem certa viverão
sempre criando antirriquezas e gerando escassez. Pessoas valem mais do que
coisas. Signi cado vale mais do que sucesso. Relacionamentos valem mais
do que dinheiro. Paz de consciência vale mais do que status. Sempre.
A melhor síntese da sabedoria que deve determinar nossa relação com as
riquezas e tesouros foi feita por Viv Grigg, em seu imperdível livro Servos
entre os pobres: “Ganhe muito, gaste pouco, não acumule nada, doe
generosamente e durma tranquilo”. Em outras palavras, quem precisa de
muito para viver e/ou quem usa o que tem apenas consigo mesmo, ainda
não aprendeu a viver. E não sabe lidar com riquezas.
SIMPLES
Atribui-se a Nizan Guanaes um texto brilhante, que teria sido, na verdade,
um discurso de paraninfo para uma das turmas da FAAP – Fundação
Armando Álvares Penteado –, em São Paulo. Ele recomenda aos alunos
recém-formados:
Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo o coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como consequência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha. Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. E tudo que ca pronto na vida foi construído antes, na alma. A propósito disso, lembro-me de uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pací co e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: “Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo”. E ela respondeu: “Eu também não, meu lho”.
Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo
contrário. Digo apenas que pensar e realizar têm trazido mais fortuna do que pensar em fortuna.
Meu segundo conselho: pense no seu país. Porque, principalmente hoje,
pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. A nal, é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos, e uma elite brega, sem cultura e sem re namento, não chega a viver como homens. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguaçu. Meu terceiro
conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de Laodiceia. É preferível o erro à omissão. O fracasso, ao tédio. O escândalo, ao vazio. Porque já vi grandes livros e lmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso. Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tendo consciência de que cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra. Não use Rider, não dê férias a seus pés. Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: eu não disse? Eu sabia! Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem de aguentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo o que ele faria, se zesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar. Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio, e constrói prodígios. O Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito que aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas japoneses que trabalham de sol a sol construíram, em menos de 50 anos, a 2a maior megapotência do planeta. Enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores impotências do trabalho. Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho o leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama sucesso.