Vivendo com propósitos
2. Alternativas
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ALTERNATIVAS
NÃO DESISTA
Este é um texto destinado a pessoas que têm a mente voltada para o sucesso.
Pessoas como você, que estão na expectativa de trazer para a Terra suas mais
caras aspirações, transformando-as em realidades emocionantes. Poder
mandar seus lhos para a universidade que eles escolherem. Mudar-se para
aquela casa espaçosa e ajardinada de seus sonhos. Levar a família em férias
regulares para aqueles lugares fascinantes de que sempre ouviu falar. E, ainda,
conseguir a paz de espírito que acompanha a realização das coisas que você
deseja muito realizar na vida.
Quero fazer-lhe uma pergunta: por que você comprou este livro? Não será,
por acaso, porque o preocupa não ter tudo o que deseja? Você quer saber a
forma de conseguir sucesso nanceiro e social, bem como nas relações
familiares, e também busca uma maneira de encontrar plena satisfação em
todos os aspectos da vida.
Se eu traçasse uma linha e lhe dissesse que, se você a atravessasse com um
só passo, sua vida mudaria para melhor, será que não daria esse passo? É claro
que sim. Se você soubesse que dar o passo garantiria paz interior, prosperidade
e bem-estar, não hesitaria um segundo. Pois você terá a oportunidade de dar
esse passo para entrar numa vida de felicidade e de sucesso – à medida que
continuar lendo este livro. Atravessar a linha realmente funciona. Dar o passo
para o outro lado levou-me de nitivamente a uma vida de felicidade e de
sucesso. Já dividi minha experiência com amigos íntimos e parceiros
comerciais e com outras pessoas que eu nem conhecia bem. Já vi pessoas
miseráveis transformadas em pessoas de sucesso. Indivíduos endividados transformando-se em sucessos nanceiros. Pessoas doentes, fracas de mente e
de corpo transformando-se em cidadãos saudáveis e produtivos. Antes de
atravessar essa linha, um jovem estava desempregado e sofrendo de úlcera,
atormentado por inúmeras dívidas, mas hoje é o campeão de vendas de sua
empresa. Outro jovem estava infeliz e perdia terreno em seu emprego, mas
depois que atravessou a linha tornou-se um dos homens de negócio de maior
destaque em sua cidade. Certo homem havia falido em cada empreendimento
tentado, até que pisou do outro lado da linha e adotou os princípios abordados
neste livro e alcançou sucesso nos negócios e nas nanças. Apresentarei aqui o
segredo que se acha no centro desses ensinos. Se você deixar que este livro sirva
como luz para guiá-lo a uma vida de felicidade e de sucesso pelo caminho que
ele aponta, então meus esforços não foram em vão. Os milagres que já vi
certamente vão acontecer para aqueles que seguirem os ensinos deste livro.
Você acabou de ler três parágrafos extraídos de livros dignos,
representantes do maior fenômeno editorial deste m de século: a literatura
de autoajuda. O primeiro parágrafo é uma citação de Robert O’Reilly em seu
livro 1 O poder do pensamento dinâmico , o segundo é a introdução do livro
Passaporte para o sucesso 2 , e o terceiro, e mais longo (aquele de dar um passo
para o outro lado da linha), pasme, é extraído do livro 3 Sucesso , publicado
por uma editora cristã evangélica.
Vivendo num estado de espírito quase que permanentemente
perturbado, com a sensação de que a vida está escapando entre os dedos e,
ainda que contrariadas, admitindo avarias físicas e psicoemocionais, as
pessoas acessam as rotas para gerenciamento e compensação da vida
estressante, que, aliás, não são poucas. As mais comuns, entretanto, podem
ser resumidas em pelo menos cinco categorias.
Para combater o estado de espírito perturbado de maneira coerente com
a crença que a felicidade chegará “assim que”, a sociedade contemporânea
desenvolveu, pelo menos, cinco caminhos: a autoajuda, a busca da qualidade de vida, a entrega aos prazeres, a pseudotranscendência e a dedicação às
causas nobres.
AUTOAJUDA
A primeira e mais badalada de todas as tentativas de solução para o
encontro com a felicidade neste início de terceiro milênio é, sem dúvida, o
movimento chamado de autoajuda, que sugere técnicas de controle mental e
artifícios para conquistar objetos do desejo. Há muitas maneiras de de nir o
que é autoajuda, mas a que mais me agrada saiu da pena de Max Gehringer: 4
“autoajuda é tudo aquilo que tem o poder de transformar em fácil tudo
aquilo que é extremamente difícil para a maioria absoluta dos mortais”. De
fato, aquela conversa de que você precisa apenas dar um simples passo para
mudar sua vida de uma vez, para sempre, e, do outro lado da linha,
encontrar sucesso e felicidade é uma ofensa aos mortais.
Mas, mesmo assim, os profetas da autoajuda e suas loucas profecias
multiplicam-se assustadoramente. Quando Gehringer fez suas contas, era
possível acessar mais de 1.485.000 sites de self-help na internet, cada um
apresentando, em média, 20 dicas infalíveis de sucesso. Eram apenas e tão
somente cerca de 30 milhões de receitas instantâneas para a felicidade!
(Hoje, enquanto escrevo, em julho de 2003, recebi indicação de 5.670.000
sites para a mesma busca.) Isso bastaria para nos deixar em pânico, mas
Gehringer conclui com uma boa notícia. Ele recomendou que a melhor
maneira de encontrar a fórmula adequada a nosso jeitão de ser é ler todos os
livros de autoajuda. Depois, alivia-nos com a informação de que “todos os
livros de autoajuda” são apenas dois: Como fazer amigos e in uenciar
pessoas 5 , traduzido para mais de 50 idiomas e mais de 10 milhões de
exemplares vendidos, e 6 O poder do pensamento positivo , que já vendeu mais
de 7 milhões.
Com mensagens simples e ilusórias do tipo “você tem em seu interior
todos os recursos de que precisa para alcançar o sucesso” e “mude seu modo de pensar e você mudará o mundo”, o que está por trás é a sugestão de que a
vida plena é apenas uma questão de disposição pessoal resumida na
proposta atribuída ao imperador romano Marco Aurélio: “a vida de um
homem é o que os seus pensamentos fazem dela”.
Além disso, podemos facilmente perceber que, apesar de sua ênfase na
“engenharia da alma”, na autorrealização, no desenvolvimento da
personalidade e dos poderes mentais, no acesso e liberação de recursos
interiores, o objetivo da literatura de autoajuda é a solução de problemas, o
progresso social e o bem-estar pessoal, leia-se “conforto”. Os autores visam a
oferecer manuais e textos práticos, além de narrativas em primeira pessoa,
nas quais o sujeito relata a descoberta de suas forças mais íntimas e a
maneira como as empregou para alcançar sucesso, onde sucesso é igual a
“poder mandar seus lhos para a universidade que eles escolherem, mudar-
se para aquela casa espaçosa e ajardinada de seus sonhos, levar a família em
férias regulares para aqueles lugares fascinantes de que sempre ouviu falar”.
QUALIDADE DE VIDA
Existe o “evangelho da qualidade de vida”, que prega a necessidade da
reeducação alimentar, das medicinas alternativas, dos exercícios físicos
sistemáticos, do descanso e do lazer e do bom ambiente onde morar.
Multiplicam-se os condomínios de luxo nas periferias dos grandes centros
urbanos, as academias de ginástica e as rodas de papo a respeito de dietas e
de fórmulas para milhares de mulheres que se julgam acima do peso e que se
martirizam porque, apesar de todos os esforços, não conseguem emagrecer.
Surge a chamada geração saúde e a galera da malhação, além dos
“cinquentões sarados”, ainda hoje sgados pela Lolita que Nobokov retratou
em 1962.
Evidentemente, todas essas atividades e propostas são absolutamente
saudáveis, desde que integradas numa rotina consciente e numa dinâmica de
complementaridade. O que se vê, entretanto, é uma avalanche de engajamentos motivados pela culpa e pelo desespero, que têm “muita
iniciativa e pouca acabativa”. Os quartos e salas da classe média estão
repletos de aparelhos de ginástica empoeirados (comprados no “zero-onze-
quatorze-zero-meia”) e pares de tênis novos abandonados depois da terceira
caminhada matinal.
LET IT BE
Não são poucos os que se entregam ao que chamo de prazeres ilícitos e
abusivos, utilizando-os como mecanismos de compensação para a sensação
de vazio e de culpa existenciais. Essa é a turma que o Lobão descreveu em
seu verso: “vida boa, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você
me leve”. Gente cheirando pó, enchendo a cara e se perdendo em noitadas,
de cama em cama, também integra o elenco dos falidos administradores de
estados de espírito perturbado. Existe ainda a turma do comprimido e da
fartura, aqueles que se empanturram de quinquilharias disponíveis nos
shoppings da vida, nas mesas lautas dos restaurantes e nas geladeiras abertas
na madrugada, além dos “prozacs” e de outros coquetéis.
Esse “vamos deixar como está que é para ver como ca” estende-se,
também, para os relacionamentos, que acabam se deteriorando em relações
de dependência e de manipulação, em que os pares doentes e perpetuados
disputam um joguinho idiota: “Eu culpo você e você diz que a culpa é
minha”. “Você diz que eu não presto, mas também não me abandona.” “Não
vai ter próxima vez, porque eu não aguento mais esta vida dupla.” “Já cansei
de tentar as coisas, você faz o que quiser da vida.”
São milhares os casais que se retroalimentam em seus ciclos de litígios
agudos e ou insatisfações crônicas. Para alguns, a tragédia do amor é “chover
o ano inteiro chuva na” e, para outros, é “cair lá de cima um elevador”.
PSEUDOTRANSCENDÊNCIA
Por essas e outras, os templos e terreiros estão lotados, os gurus exotéricos e
esotéricos estão em alta, e o misticismo varre as ruas com propostas
inacreditáveis. As crendices e superstições que tecem a cultura do
primitivismo religioso quase nos fazem acreditar que estamos de volta à
idade das trevas. Desenvolve-se uma espiritualidade tribal, em que Deus
torna-se um ídolo de esquina que deve ser acessado para uma negociação,
na qual os benefícios da divindade nada têm a ver com a seriedade do
suplicante, pois pouquíssima gente tem forças para trilhar o caminho da
transformação de dentro para fora. A experiência espiritual moderna, ou
pós-moderna, como preferem alguns, é na verdade, medieval. Primeiro,
porque vê Deus como um meio e não como um m em si mesmo. Deus
passou a estar a serviço do el, responsável por realizar seus desejos, sob
pena de ser abandonado e considerado um Deus ausente, distante, omisso e
lento demais para suprir as demandas dos desa os da vida.
Em segundo lugar, a espiritualidade contemporânea reserva muitos
lugares para crédulos que acreditam no conforto produzido por uma fé
mágica. É ta do Bon m e do despacho, dízimos e correntes de fé,
benzimentos e passes, jejuns e vigílias, novenas e procissões para tudo que é
lado.
Sem dúvida, essa é uma experiência espiritual movida pelos paradigmas
da autoajuda. Primeiro, porque está centrada no indivíduo e seu
desconforto, e tudo quanto espera lograr do contato com a divindade,
qualquer que seja ela, é a melhora da situação em termos de “solução de
problemas, de progresso social e bem-estar pessoal”.
Mas, também, essa espiritualidade pós-moderna made in movimento de
autoajuda é cheia de truques e de artifícios para a conquista dos objetivos
propostos. Assim como existem livros ensinando a fazer amigos e
in uenciar pessoas, existem outros tantos que ensinam “a oração que move a
mão de Deus”. Da mesma maneira como os neurolinguistas ensinam a
“programação mental”, os líderes espirituais ensinam a “programação dos deuses”, mostrando que é impossível que os deuses não se comovam em
favor de uma pessoa que acende uma vela, sobe uma escada de joelho,
participa da corrente da fé, oferece donativos na creche do bairro, serve
champanhe e cachaça nas esquinas escuras. Sem dúvida, aparentemente,
uma espiritualidade de manipulação dos espíritos, mas certamente uma
experiência de escravidão aos ritos, aos métodos e, principalmente, aos
espíritos que por trás dessas coisas se escondem. Infelizmente, na tentativa
de agarrar a vida pelo colarinho e de fazê-la vomitar prosperidade e
conforto, vale tudo, ou quase tudo.
Essas experiências espirituais contemporâneas podem ser chamadas de
pseudotranscendência. Apresso-me a dizer que nada é mais legítimo do que
a busca de Deus, transcender no sentido religioso do termo. Mas o perigo
está na pseudotranscendência, que Leonardo Boff compara com a
experiência das drogas. Ele diz que “o problema da droga não é a viagem, é a
volta da viagem, quando então não se suporta mais o cotidiano”.7
De fato, existe muita gente querendo transcender, fazer contato com o
sagrado, para que seus mundos sejam mudados: um novo emprego, uma
cura, um conforto a mais. Outros desejam alívio, precisando de doses cada
vez mais fortes de êxtases, e acabam alienando-se da realidade, cando
anestesiados para a experiência de viver, isolados no mundo da fantasia
produzida pela experiência de arrebatamento. Nesse sentido, o critério para
saber se uma experiência de transcendência é boa é a veri cação do efeito
que traz sobre o indivíduo: ela potencializa o ser humano ou o diminui? Em
que medida essa experiência capacita o ser humano e o quali ca a enfrentar
o cotidiano? A pseudotranscendência escraviza. A transcendência quali ca
para a vida.
Uma experiência espiritual que funciona como válvula de escape,
manipulação mágica da realidade e desculpa para a transferência de
responsabilidades não pode ser considerada caminho para a felicidade, mas
apenas rota de fuga e de alienação, que resulta em escravidão.
CAUSAS NOBRES
Ao lado dos alienados, existem aqueles que optam pelo que chamo de
compensações nobres e que se dedicam a causas de lantropia e de
solidariedade, de militância política e de engajamento social. Não tenho
dúvidas quanto às possibilidades da existência responsável, do impulso para
fazer o bem e dos dividendos existenciais de uma vida útil. Cresce no
mundo a consciência da necessidade da mobilização da sociedade civil em
direção à busca de soluções para os con itos sociais. Poucas coisas revelam a
maturidade de uma civilização como sua capacidade de promover o espírito
solidário. Poucas coisas revelam a maturidade pessoal como o
desprendimento e a abnegação.
Mas não podemos confundir as pessoas com os papéis que
desempenham no mundo, por meio dos quais se tornam relevantes na
sociedade e contribuem para o bem da humanidade. Há muita gente útil e
infeliz. Pessoas admiráveis exceto para si mesmas, as quais, à noite, colocam
a cabeça no travesseiro e têm coragem de admitir que os benefícios que
promovem na sociedade não alcançam o cônjuge ferido na mesma cama,
nem o lho massacrado no quarto ao lado, e muito menos aplaca a fome de
um signi cado eterno.
A essa altura você pode pensar que pintei um quadro escuro demais e
que exagerei na dose para valorizar o caminho que tenho a propor. Mas
ainda não terminei, pois acredito que esse cenário pode car ainda pior.
A VACA ESTÁ INDO PARA O BREJO
Os efeitos desses fenômenos sobre a cultura ocidental são desastrosos.
Poucos descreveram melhor esta geração do que Francisco Rüdiger,8
quando disse que a geração autoajuda substituiu:
o engajamento na busca de justiça social pela busca de sucesso pessoal
individualista;
a preocupação em formar pessoas de caráter pela preocupação de
formar pessoas de sucesso;
o compromisso com o cumprimento do dever pelo compromisso com a
satisfação da vontade;
a concepção cristã de que o mal é endógeno pela crença de que o mal é
apenas uma reação mental inadequada às circunstâncias.
O mundo é dos espertos, e bom é levar vantagem em tudo, certo? Errado.
O mundo é de todo mundo, e quem teve mais oportunidades do que os
outros deve viver de maneira solidária e distribuir riquezas, para que a
dignidade humana seja resgatada na dinâmica da cooperação que constrói
uma sociedade em que ninguém ca em desvantagem.
“Eu tenho um sonho”, disse Martin Luther King Jr. A geração self-help
continua tendo sonhos, mas muito distintos daqueles conspirados na
inesquecível marcha sobre Washington, que reuniu mais de um milhão de
pessoas que protestavam em busca de justiça. Aqueles pretendiam que
chegasse o dia quando “o sol se levantaria sobre homens que seriam julgados
pela grandeza de seu caráter”. Estes pretendem julgar as pessoas pela
grandeza de seu saldo bancário e pelas curvas de seus corpos malhados.
Já virou lenda o tempo em que os negócios eram feitos na base do o do
bigode, em que a honra valia mais que o lucro e fazer o que é certo era mais
compensador do que ter prazer. “Tenho direito a ser feliz” torna-se uma
frase duvidosa quando as pessoas, com isso, querem dizer que desejam ser
felizes custe o que custar, e agora mesmo, nem um minuto a mais, e que o
caminho para isso é estender a mão e tomar posse dos objetos de seus
desejos, aliás, na maioria das vezes, questionáveis.
A maldade intrínseca ao ser humano foi deixada na lata do lixo da
cultura religiosa. Tudo, agora, é uma questão de pensar corretamente, de mudar condicionamentos mentais, de domesticar impulsos destrutivos, de
construir hábitos saudáveis. O sucesso é um torrão de açúcar para milhares
de humanos bestializados pelo behaviorismo, que mascara as tensões da
alma e esconde a infelicidade ontológica que toda gente carrega no peito até
descansar em Deus. Milton Nascimento parece um profeta quando canta
que “longe se vai sonhando demais, mas onde se chega assim, vou descobrir
o que me faz sentir eu caçador de mim”. Mas parece que o conforto pode
anestesiar, especialmente aqueles que têm medo de um mergulho para
dentro de si mesmos e que preferem paliativos, como técnicas de controle
mental, mecanismos de autossugestão, programação neurolinguística e
comportamentos arti ciais para in uência pessoal.
CONVITE
Vivendo com propósitos é um caminho alternativo. Convido você a me
acompanhar nesta trilha de descobertas que privilegia o desenvolvimento
espiritual e a transformação pessoal, visando um estilo de vida que se
identi ca mais com uma jornada do que com um destino.