Vivendo com propósitos
Apresentação
Comecei a escrever este livro em 1998, quando fui convidado a fazer
palestras na Mercedes-Benz. Falei a respeito de “estresse e espiritualidade”,
lendo a oração do Pai-nosso para um auditório atento e emocionado.
Depois, repeti a palestra para mais de 150 empresários, executivos e
pro ssionais liberais, num evento que aconteceu no Sheraton Mofarrej
Hotel, em São Paulo, organizado por um grupo de amigos muito especiais.
Aquelas experiências abriram as portas para caminhos que me levaram
para fora do mundo da religião institucionalizada, no qual desenvolvi minha
vocação pastoral nos últimos vinte anos. Na verdade, sempre desejei buscar
as “ovelhas que não eram desse aprisco”, o aprisco da religião. Durante todos
os anos em que atuei como pastor em uma comunidade cristã local
encontrei muitas pessoas apaixonadas por espiritualidade, mas que, ao
mesmo tempo, detestavam a religião, e, para falar a verdade, não cabiam e
não cabem dentro da subcultura cristã evangélica.
Sempre tive um “rebanho marginal”, desconhecido de minha
comunidade local, anônimo no auditório em que falo aos domingos, que se
encontra comigo no dia a dia da cidade de São Paulo e com quem converso
virtualmente desde os mais inóspitos recantos do Brasil e do mundo. Acabo
de receber um e-mail vindo do leste da Europa, de alguém com quem estou
conversando já há mais de dois meses, mas que nunca tive o prazer de
encontrar pessoalmente. Pessoas que não descartaram o sonho do
evangelho, da espiritualidade cristã, mas que foram feridas ou que se
frustraram nos bastidores da experiência religiosa. Pessoas que jamais
pisaram em um templo evangélico e que se espantam quando cam sabendo que sou pastor de uma Igreja Batista. Gente maravilhosa. Com fome de
Deus, de coração inquieto, caráter íntegro, engajamento solidário, mas com
uma angústia no peito que me causa dó e que me põe de joelhos para orar
por elas. Penso nelas a cada nova linha da Escritura Sagrada que me ilumina
o coração, a cada linha de um novo livro que traz inspiração a meu espírito.
Desde que aprofundei essa experiência fora dos portões da religião
organizada ao redor de credos, ritos e códigos morais, z maravilhosas
descobertas. Dentre elas, descobri que a fome da alma que encontro do lado
de fora, no meu “rebanho marginal”, povoa as noites maldormidas do meu
“rebanho o cial”. Como nunca, fazem sentido as palavras de Sêneca: “sou
humano, e nada do que é humano me é estranho”. Dentro e fora dos portões
da religiosidade, somos todos humanos. Pulsamos no mesmo compasso de
Santo Agostinho, que orava ao Deus que nos criou para si mesmo, e por essa
razão, inquieto, bate nosso coração até que nele descanse.
Escrevi este livro para resumir minhas respostas existenciais. Para
organizar minhas razões de abraçar e de viver à luz da tradição da
espiritualidade judaico-cristã. Escrevi para a rmar minha fé. Escrevi para
tornar ainda mais pública minha paixão por Jesus de Nazaré, meu desejo
por Deus, o Pai, e minha vulnerabilidade ao Espírito Santo.
Mas também escrevi para você. Venci o medo e resolvi dar minha
contribuição. Assumi a pretensão de compartilhar com você o que considero
o “Jeito certo de viver” e de como podemos experimentar a felicidade aqui e
agora, enquanto vivemos na esperança do “ali e além”. Dedico este livro a
você com as palavras de Nikos Kazantzakis: “Antes de morrer, forcejo por
fazer um sinal aos companheiros. Estender-lhes a mão e balbuciar uma
palavra íntegra. Dizer-lhes o que imagino seja essa marcha, para onde
estamos indo. E que é preciso acertarmos, todos juntos, o passo e o coração”.