Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 2 de 28

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Vivendo com propósitos

Apresentação

 

Comecei a escrever este livro em 1998, quando fui convidado a fazer

palestras na Mercedes-Benz. Falei a respeito de “estresse e espiritualidade”,

lendo a oração do Pai-nosso para um auditório atento e emocionado.

Depois, repeti a palestra para mais de 150 empresários, executivos e

pro ssionais liberais, num evento que aconteceu no Sheraton Mofarrej

Hotel, em São Paulo, organizado por um grupo de amigos muito especiais.

Aquelas experiências abriram as portas para caminhos que me levaram

para fora do mundo da religião institucionalizada, no qual desenvolvi minha

vocação pastoral nos últimos vinte anos. Na verdade, sempre desejei buscar

as “ovelhas que não eram desse aprisco”, o aprisco da religião. Durante todos

os anos em que atuei como pastor em uma comunidade cristã local

encontrei muitas pessoas apaixonadas por espiritualidade, mas que, ao

mesmo tempo, detestavam a religião, e, para falar a verdade, não cabiam e

não cabem dentro da subcultura cristã evangélica.

Sempre tive um “rebanho marginal”, desconhecido de minha

comunidade local, anônimo no auditório em que falo aos domingos, que se

encontra comigo no dia a dia da cidade de São Paulo e com quem converso

virtualmente desde os mais inóspitos recantos do Brasil e do mundo. Acabo

de receber um e-mail vindo do leste da Europa, de alguém com quem estou

conversando já há mais de dois meses, mas que nunca tive o prazer de

encontrar pessoalmente. Pessoas que não descartaram o sonho do

evangelho, da espiritualidade cristã, mas que foram feridas ou que se

frustraram nos bastidores da experiência religiosa. Pessoas que jamais

pisaram em um templo evangélico e que se espantam quando cam sabendo que sou pastor de uma Igreja Batista. Gente maravilhosa. Com fome de

Deus, de coração inquieto, caráter íntegro, engajamento solidário, mas com

uma angústia no peito que me causa dó e que me põe de joelhos para orar

por elas. Penso nelas a cada nova linha da Escritura Sagrada que me ilumina

o coração, a cada linha de um novo livro que traz inspiração a meu espírito.

Desde que aprofundei essa experiência fora dos portões da religião

organizada ao redor de credos, ritos e códigos morais, z maravilhosas

descobertas. Dentre elas, descobri que a fome da alma que encontro do lado

de fora, no meu “rebanho marginal”, povoa as noites maldormidas do meu

“rebanho o cial”. Como nunca, fazem sentido as palavras de Sêneca: “sou

humano, e nada do que é humano me é estranho”. Dentro e fora dos portões

da religiosidade, somos todos humanos. Pulsamos no mesmo compasso de

Santo Agostinho, que orava ao Deus que nos criou para si mesmo, e por essa

razão, inquieto, bate nosso coração até que nele descanse.

Escrevi este livro para resumir minhas respostas existenciais. Para

organizar minhas razões de abraçar e de viver à luz da tradição da

espiritualidade judaico-cristã. Escrevi para a rmar minha fé. Escrevi para

tornar ainda mais pública minha paixão por Jesus de Nazaré, meu desejo

por Deus, o Pai, e minha vulnerabilidade ao Espírito Santo.

Mas também escrevi para você. Venci o medo e resolvi dar minha

contribuição. Assumi a pretensão de compartilhar com você o que considero

o “Jeito certo de viver” e de como podemos experimentar a felicidade aqui e

agora, enquanto vivemos na esperança do “ali e além”. Dedico este livro a

você com as palavras de Nikos Kazantzakis: “Antes de morrer, forcejo por

fazer um sinal aos companheiros. Estender-lhes a mão e balbuciar uma

palavra íntegra. Dizer-lhes o que imagino seja essa marcha, para onde

estamos indo. E que é preciso acertarmos, todos juntos, o passo e o coração”.