Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 18 de 28

Páginas do PDF

Vivendo com propósitos

15. Atitudes

15

ATITUDES

 

OS OUTROS

“O inferno são os outros”, disse Jean Paul Sartre. De fato, de vez em quando,

somos assolados pela ideia de que nossa vida seria bem menos complicada

se não estivesse tão povoada, e não restam dúvidas de que é sempre mais

fácil colocar a culpa nos outros. Mas também é verdade que nossa

peregrinação existencial é feita em caravana. Ninguém viaja sozinho. Não

podemos descartar as pessoas. Precisamos encontrar mecanismos que

possibilitem a longevidade de nossas convivências.

Ao comentar esse texto, meu amigo Ricardo Gondim disse que “o inferno

não é o outro, o inferno é a ausência do outro – especialmente do grande

Outro”. Subscrevo.

Vinicius de Moraes escreveu que

 

a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, ou se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo re exo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o re ete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto

da sua fria e desolada torre.1

Mas é bem verdade que não são muitos os que sabem conviver. Meus

poucos anos de prática pastoral foram su cientes para me ensinar a

diferença entre amar os relacionamentos e amar as pessoas com quem nos

relacionamos. Aqueles que amam os relacionamentos pulam de um para

outro toda vez que surge uma tensão que demandaria esforço para a solução.

Raciocinam em termos de custo-benefício. Calculam o preço que precisam

pagar para manter aquele relacionamento e geralmente optam por encerrar

a convivência e buscar outra pessoa com quem se relacionar. E comum entre

casais, entre sócios e até mesmo entre amigos.

Isso acontece porque nem todas as pessoas estão dispostas a rever

posturas, atitudes, comportamentos e convicções. São as que dizem: “Eu

nasci assim, quando você me conheceu eu era assim, e quando decidiu car

comigo sabia que eu era assim”. A resposta óbvia seria: “É verdade, eu sabia

que você era assim, mas não imaginei que você pensasse em si mesmo como

obra acabada”.

Quem ama relacionamentos não tem disposição para mudar, ceder,

deixar-se transformar, pois se satisfaz, ou pensa que se satisfaz, enquanto o

relacionamento é satisfatório. Quando o relacionamento começa a gerar

desconforto, então, dizem “não” ao relacionamento e trocam de par. Na

verdade, essas pessoas não amam apenas os relacionamentos, amam a si

mesmas. Tudo o que querem é sua satisfação, em seus termos. Enquanto o

outro, qualquer que seja ele, satisfaz, o relacionamento perdura. Quando o

relacionamento começa a exigir ajustes, e cada um é convidado a dar passos

para trás, o m ca cada vez mais próximo.

Os que amam as pessoas com quem se relacionam, entretanto, estão

dispostos a focalizar o relacionamento em detrimento de focar as

imperfeições de seus pares. As perguntas que fazem não são “onde você está

errado ou errada?” ou “o que você precisa mudar?”, mas sim “por que não

estamos conseguindo uma relação satisfatória?” e “o que podemos fazer para

continuarmos caminhando juntos?”.

Isso demonstra sabedoria e maturidade. O foco no relacionamento, em

detrimento do foco nas pessoas, revela a consciência que desmascara a

ilusão do parceiro perfeito. Quem vive trocando relacionamentos não

apenas está se recusando a mudar, mas provavelmente acredita que existe

sempre alguém mais adequado e capaz de lhe satisfazer. Evidentemente, há o

universo de a nidades que possibilita a convivência. Mas uma vez

identi cadas as a nidades, a discussão deve mudar para o tipo de

convivência que conseguem desenvolver, em detrimento do tipo de pessoas

que são. Até porque uma das razões para um relacionamento é a

mutualidade, que possibilita a mudança dos pares, cada um ajudado pelo

outro. Não existe par perfeito. Existe, sim, convivência equilibrada. Em

outras palavras, não existe isso de dizer “você não é a pessoa certa para

mim” ou “você não tem as qualidades que espero de um amigo”,

principalmente depois de dez anos de convivência. O correto seria dizer:

“infelizmente, não conseguimos desenvolver uma parceria satisfatória”. Mas,

depois dessa conclusão, os pares deveriam sentar e dizer um ao outro que,

por não amarem o relacionamento, nem a si mesmos no relacionamento,

mas por amar um ao outro, estão dispostos a fazer quaisquer sacrifícios

necessários para que não percam um ao outro. A discussão passa a ser a

dinâmica da convivência. Não estão em busca de um par melhor, mas sim

de um jeito melhor de ser um par. Não querem outro parceiro. Querem

outra parceria com o mesmo parceiro.

Acredito que toda parceria satisfatória se desenvolve a partir de três

capacidades de cada uma das partes: a capacidade de celebrar, de servir e de

perdoar.

 

CELEBRAR

Singularidade. Essa é a palavra-chave da identidade humana. Ou, como

brincamos lá em casa, “cada um, cada um”. Cada pessoa é um universo em si

mesma. Universo aberto, é verdade, mas ainda assim um universo. Cada um com sua história, suas peculiaridades, seus sonhos, suas idiossincrasias, isto

é, suas disposições de temperamento, maneira de ver, de sentir, de agir e de

reagir. Cada um com seu gosto pessoal, suas disposições naturais e suas

sensibilidades especí cas. Essa é a riqueza da humanidade. Agostinho

acreditava que Deus era capaz de “amar um como se fosse todos, e todos

como se fossem um”. Que mistério, pois, de fato, uma pessoa é tudo, e todas

juntas não valem mais do que uma só. Cada pessoa é uma riqueza plena.

“Cada ser humano é uma novidade”, e “todo ser humano é um original”. 2

Tomando isso como verdadeiro, a convivência que não sabe celebrar essa

individualidade está fadada ao fracasso. A exigência da mudança do outro

para que o relacionamento seja mantido ou se torne satisfatório é a própria

morte do relacionamento. É lógico. Caso eu exija que você mude para que

eu continue me relacionando com você, na verdade não quero me relacionar

com você, mas com outro você, idealizado em minha cabeça e mais

conveniente às minhas necessidades.

Fui procurado por uma mulher a ita diante da necessidade de decidir

entre casar ou romper o noivado, ela disse: “Pastor, meu noivo é muito

violento e às vezes chega inclusive a me agredir sicamente. Mas também é

carinhoso e sempre chora, se arrepende e me pede perdão quando me trata

mal ou me fere com o seu jeito de ser”.

A expectativa daquela moça era que eu lhe dissesse se ela deveria casar

ou não. Sua real intenção era saber se eu acreditava na possibilidade de

mudança do noivo e se poderia garantir que isso aconteceria. Minha

resposta foi evasiva. Não disse que acreditava nem que desacreditava (apesar

de sempre crer nas possibilidades), muito menos prometi qualquer garantia

de que o homem seria transformado. Mas emiti minha opinião dizendo que

ela somente deveria casar se estivesse disposta a viver com ele daquele jeito

para o resto da vida, pois a moça deveria casar com o homem que ele era e

não com o homem que ele poderia vir a ser. Caso o homem que ele era não

lhe fosse su ciente, certamente passaria a vida tentando transformá-lo, e assim correria o sério risco de se frustrar, além de rapidamente tornar-se

incapaz de celebrar e de desfrutar o homem que teria ao lado.

Karl Lachler, meu professor no Seminário de Teologia, me ensinou que o

ideal do casamento é que um mais um some um, mas que, em alguns

casamentos, um mais um somam três ou quatro. A Bíblia ensina que “o

homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só

carne”,3 em que um mais um somam um. Mas quando alguém se une a uma

mulher real e leva consigo, em sua imaginação, outra mulher ideal, um mais

um somam três, e se a mulher faz a mesma coisa, um mais um somam

quatro. Provavelmente, passarão a vida tentando mudar um ao outro, jamais

celebrando o que são, uma vez ocupados em tornar cada um o outro no que

gostariam que fossem.

Durante muitos anos, relacionei-me assim com meus lhos. Hoje vejo

com tristeza quanto tempo perdi. Minha perspectiva de ser pai implicava a

responsabilidade de formar para a vida, de preparar para o futuro, de

moldar o caráter, de desenvolver competências, de ensinar a lei, de instruir,

en m, de tudo quanto erroneamente está em nossa cabeça embutido no

verbo educar. Não fui capaz de celebrar plenamente sua infância nem de

curtir seus erros como experiências naturais ao crescimento. Quer um

exemplo simples? Quando seu lho pequeno derrama suco na mesa do

jantar, vocês explodem numa gargalhada ou iniciam uma ladainha do tipo

“preste mais atenção, você é muito desligado, desse jeito não vai dar coisa

boa na vida”? Simples, não é? E desconcertantemente óbvio.

O convite primeiro de Deus é para nos tornarmos seus lhos amados. A

declaração mais surpreendente de Deus a respeito de Jesus de Nazaré é:

“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. 4 O que surpreende não

é a declaração, mas sim o momento em que foi proferida, a saber, antes

mesmo de Jesus iniciar seu ministério terreno. Isso signi ca que o amor

declarado não estava baseado na performance nem na utilidade de Jesus para

o Pai. O amor de Deus é assim: celebra o que somos, independentemente do que fazemos ou do que deixamos de fazer. Mais ainda, o amor de Deus

celebra o que somos, independentemente do que devemos ser. Justamente

por ser capaz de celebrar sem cobrar, o amor dá espaço para o vir a ser.

Em um de nossos aniversários de casamento, levamos nossos lhos para

jantar e celebrar a data conosco. À mesa, sugeri um exercício do tipo “o que

celebro em você” e “o que gostaria de ver mudado em você”. Estávamos

caminhando para o nal, e o café já estava servido com chocolates sortidos.

Enquanto cada um de nós falava, meu lho, Vitor, pegou uma trufa e

começou a comer vagarosamente, lambuzando todos os dedos. Ao nal,

depois de lamber os dedos, pegou o guardanapo e limpou as mãos. Ao

chegar sua vez de dizer o que gostaria de ver mudado em mim disse que

gostaria que eu fosse menos exigente e menos estressado. Pedi detalhes e ele,

àquela altura, com a ajuda incisiva da irmã, Fernanda, explicou que eu cava

muito irritado com coisas pequenas e que isso atrapalhava bastante o bom

humor e a leveza da nossa convivência familiar. Não me dei por satisfeito e

pedi um exemplo, já quase me traindo. Foi o pior que deveria ter feito. Ele

olhou bem nos meus olhos e disse: “Por exemplo agora, pai, sei que você

detestou o que eu z com a trufa, mas eu z de propósito. Sei que você se

controlou muito para não me repreender e fazer um discurso a respeito de

boas maneiras à mesa. Mas convenhamos que comer uma trufa de chocolate

e lamber os dedos é uma delícia. Você poderia dizer que isso pode ser

eventualmente feito em casa, e não em público. Mas hoje é uma data muito

feliz para nossa família e estamos celebrando nossa alegria, e eu não quis me

privar desse prazer”.

Naquele dia, descobri que meu lho não era mais uma criança e tive mais

uma indicação de que eu ainda não era um homem.

Alguns anos depois, fui almoçar com um atleta muito famoso, capitão de

um dos maiores clubes de futebol do Brasil. Quando fui me servir, deixei

cair um pouco de molho de tomate na toalha. Ele olhou para mim com um

sorriso maroto e apontou a sujeira para o outro amigo que estava à mesa, como quem diz: “veja só, arrumamos um pastor meio atrapalhado para nos

aconselhar”. Perguntei a ele por que estava rindo, e ele simplesmente

respondeu que achava engraçado quando gente grande faz lambança à mesa.

Todos rimos gostosamente lembrando que não havia coisa mais deliciosa do

que comer manga lambuzando mãos e braços ou chocolate enquanto derrete

entre os dedos.

A razão de exigirmos que as pessoas sejam, ou que se tornem, aquilo que

queremos geralmente está associada à opinião dos outros a nosso respeito. O

que vão dizer do pai que deixa o lho se lambuzar de chocolate e lamber os

dedos? O que vão dizer de um marido que permite que a esposa o trate

desse ou daquele jeito? O que vão pensar de mim quando souberem que eu

não z nada em resposta àquela agressão? O que vão pensar daqueles

marmanjos rindo porque lambuzaram a mesa? Não poucas vezes, exigimos

demais das pessoas que amamos por causa das pessoas que não nos amam.

O Padre Antonio Vieira, em seu Sermão do Mandato, pregado em 1645,

ao comentar o amor de Cristo pelos discípulos, enfatizou que Jesus “amou os

seus que estavam no mundo”:

 

Notai o texto, e a última cláusula dele, que parece supér ua e ociosa. – Como amasse aos seus que havia no mundo. – Pois onde os havia de haver? Fora do mundo? Claro está que não. Logo, se bastava dizer como amasse os seus – por que acrescenta o Evangelista –, os seus que havia no mundo? Foi para que entendêssemos o conhecimento com que Cristo amava aos homens, mui diferente do com que os homens amam. Os homens amam muitas coisas que as não há no mundo: amam as coisas como as imaginam; e as coisas como as

imaginam, havê-las-á na imaginação, mas no mundo não as há.5

 

A qualidade do amor está em amar o que é, não o que deve ser ou o que

gostaríamos que fosse. O segredo por trás desse amor é que ele abre espaço

para que aqueles que amamos – ainda que não sejam o que podem ou apesar do que venham a ser – justamente porque os amamos como são e apesar do

que não são. Em síntese, quem ama não cobra. Celebra.

 

SERVIR

Aqueles que estavam no mundo eram os doze discípulos, que naquela

última celebração da Páscoa representavam toda a humanidade diante de

Jesus de Nazaré, o Cordeiro-Cristo que estava para ser entregue em oferta

pela expiação do pecado da raça. Em meio aos doze estava Pedro, que, em

seguida, por três vezes negaria conhecer a Jesus, e também Judas, que já

havia decidido trair seu Mestre vendendo-o aos romanos em troca de 30

moedas. Os demais estavam atônitos com as últimas palavras de Jesus e com

sua insistência de que deveria morrer em Jerusalém naquela Páscoa.

Confusos, irritadiços, críticos em relação aos pensamentos e intenções do

Mestre, incapazes de compreender o que se passava e às portas da deserção

coletiva, pois todos, exceto João, esconderam-se tão logo Jesus foi preso no

Getsêmani, e escondidos permaneceram, amedrontados e acovardados, até

ouvirem as mulheres anunciando a ressurreição na manhã de domingo.

O que podemos fazer para preservar relacionamentos nessas

circunstâncias? A única coisa que podemos fazer é o que Jesus fez: lavar os

pés das pessoas, assumir o lugar de servos e fazer o que ninguém gostaria de

fazer. Isso ou o m do relacionamento. A humilhação ou o abandono das

pessoas amadas. Servir ou virar as costas.

Pedro não queria que Jesus lavasse seus pés: “Nunca lavarás os meus pés”,

disse, julgando-se não merecedor de tal serviço, ao que recebeu como

resposta de Jesus a frase mais surpreendente que poderíamos ouvir: “Se eu

não os lavar, então você não terá parte comigo”. Nunca entendi esse trecho

de João 13 até que Ariovaldo Ramos me explicou. Jesus estava ensinando

que as únicas pessoas com quem podemos nos relacionar são aquelas a

quem lavamos os pés. Não acreditei e recusei-me a assimilar de imediato.

Até aquele momento, achava que as únicas pessoas com quem poderíamos nos relacionar eram as que estivessem dispostas a lavar os nossos pés. Mas

Jesus inverteu o paradigma. Em outras palavras, você só pode se relacionar

com as pessoas a quem está disposto a servir. A razão parece fazer sentido,

pois se não estamos dispostos à humilhação e ao serviço, não conseguiremos

suportar as pessoas em suas imperfeições e em momentos de crises

profundas.

A história tem demonstrado que isso é verdadeiro. Os relacionamentos

sempre nos levam a momentos em que precisamos pegar no colo as pessoas

a quem amamos. O sábio Salomão disse que melhor é serem dois, pois “Se

um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se”.6 Paulo, apóstolo, diz que

devemos levar “os fardos pesados uns dos outros”.7 A recomendação que

mais se encaixa nesse contexto de servir pessoas em seus momentos de crise

ou di culdades é a de suportar uns aos outros com amor.8 A expressão

“suportar” indica “ter paciência com alguém até que termine a provocação”, 9

o que se aplica claramente à ideia de que somente conseguiremos nos

relacionar com as pessoas a quem estivermos dispostos a lavar os pés –

servir.

Servir é nada fazer por ambição egoísta nem por vaidade, mas sim

humildemente, considerando os outros superiores a nós mesmos. Servir é

cuidar não somente dos nossos interesses, mas também dos interesses dos

outros.10 Bastam dois versículos bíblicos para que os inimigos dos

relacionamentos duradouros sejam desmascarados: ambição egoísta,

orgulho, egocentrismo. Ambição egoísta é a atitude daquele que faz tudo

motivado por interesses pessoais, segundas intenções, conveniências, o

famoso “que não dá ponto sem nó”. Orgulho é o exagerado conceito de si

próprio, natural daqueles que não se enxergam e que vivem achando

defeitos nos outros, ou que se enxergam, mas recusam-se a admitir suas

imperfeições e a dar passos em direção às necessárias reparações.

Egocêntrica é a atitude de quem precisa estar sempre no centro das atenções

para que se sinta à vontade. É o tipo de gente que refere tudo ao próprio eu e que não dá espaço para que ninguém exista ao seu redor, exceto aqueles que

estão dispostos a satisfazer seus gostos, a concordar com suas opiniões e a rir

de suas piadas.

Uma das mais sublimes expressões de serviço é a disponibilidade para

ouvir. Ouvir os discursos, os problemas, as histórias. Ouvir o que se diz com

todas as letras e o que se diz por meio de sinais sutis. Ouvir as palavras e a

linguagem do corpo. Ouvir com os ouvidos e com os olhos. Por outro lado,

creio que uma das mais claras evidências de soberba, de egocentrismo e de

egoísmo é a fala ininterrupta, o monólogo perene, que acaba se

transformando num solilóquio, pois quem fala apenas a respeito de si e/ou

fala sem ouvir acaba mesmo falando sozinho.

Ouvir implica responder. Ouvir implica agir. Provavelmente, o primeiro

ato de serviço num relacionamento é ouvir. Quem não ouve age de maneira

precipitada, errônea ou invasiva. Demorou muito para que eu aprendesse a

ouvir. E, por via das dúvidas, não poucas vezes pergunto explicitamente: “O

que você espera que eu faça?”, ou ainda: “Qual é sua expectativa após esta

nossa conversa?”.

Quando comecei a fazer isso, quei surpreso com a quantidade de vezes

em que recebi como resposta: “Nada, pastor, apenas queria que me ouvisse;

precisava desabafar, já estou me sentindo bem melhor”.

Outra expressão de serviço que aprecio é a ação emancipadora,

popularizada na recomendação de não apenas dar o peixe, mas também

ensinar a pescar. Conduzir pessoas à autonomia e à independência é ajudá-

las a acreditar em seu potencial e capacidade, a desenvolver sua autoestima,

a vencer desa os e medos, a desenterrar talentos, a resgatar sua dignidade.

Uma coisa é a ajuda eventual de que todos precisamos. Outra é a ajuda

permanente, que implica a relação de dependência. Nesses casos, devemos

estimular as pessoas a andar com as próprias pernas, facilitando seu acesso

aos recursos não explorados, quer interiores quer externos. O serviço que

não emancipa não é serviço, é exploração. Numa relação assim, o que pensa estar servindo precisa mais do outro do que quem está sendo servido. Mas

talvez nenhum dos dois tenha essa consciência.

Certa vez, fui procurado por uma senhora cujo lho era alcoólatra. Sua

dependência da bebida já havia causado muitos danos à família. Dinheiro

não era problema e, então, o rapaz foi encaminhado a uma excelente clínica

de apoio e de tratamento para dependentes químicos. Depois de poucos

meses, em uma visita, ao ver o rapaz tão saudável, o pai julgou que já era

hora de levar o lho para casa. Os médicos disseram que não. Tentaram

mostrar que era precipitado, que o processo de recuperação ainda estava

incipiente e que o rapaz precisaria se fortalecer um pouco mais para encarar

de novo os ambientes e amizades que o mantinham escravizado ao álcool.

Mas o pai foi irredutível e, contrariando o bom senso, levou o rapaz embora.

O resultado foi o pior possível.

Com essa experiência, constatei o que havia aprendido nos livros:

algumas pessoas precisam de relações adoecidas para sobreviver, precisam

de bodes expiatórios para suas mazelas, precisam de pessoas-problemas para

permanecer sempre na condição de vítima. Quem observa de fora imagina

um pai abnegado, uma esposa solícita, uma mãe capaz de sacri car-se ao

máximo pelos lhos. Mas a verdade é que se escondem atrás da desgraça e

infortúnio do outro e optam, consciente ou inconscientemente, por manter a

relação de dependência para que não precisem encarar seus próprios

fantasmas.

Finalmente, creio que a mais elevada expressão de serviço que mantém

um relacionamento é a disponibilidade ou a iniciativa de fazer o que se sabe

que deve ser feito. Nos relacionamentos pessoais mais imediatos, como o

conjugal, o familiar e o das amizades, essa é a dimensão mais difícil do

serviço, pois trata das tarefas cotidianas, corriqueiras e triviais. Coisas como

ajudar a tirar a mesa depois daquele jantar entre amigos, levantar para

atender o telefone, desviar-se do caminho para dar uma carona, buscar o

resultado do exame no laboratório ou mesmo passar a noite no hospital com o amigo recém-operado. Esses atos de serviço devem ocorrer sem que sejam

solicitados. Também não devemos perguntar se o outro deseja ajuda. A

resposta geralmente é “não, não precisa se incomodar”, ou “não, não quero

incomodar você, sei que você é atarefada”. Invariavelmente, as mesmas

pessoas que diriam não à oferta de ajuda jamais se esquecem dela quando,

espontaneamente, nós as doamos.

Talvez você seja tentado a desconsiderar a importância dessa dimensão

do serviço, até porque os exemplos são triviais. Mas imagine que os

pequenos atos têm o poder de de nir um padrão de relacionamento.

Imagine a mulher reclamando que o marido deixa as roupas sujas

espalhadas pelo chão. Na verdade, seu desabafo é contra o desrespeito de um

ato praticado durante muito tempo e que revela uma postura em relação ao

parceiro. Imagine mulheres que passam muito tempo ao telefone,

especialmente nos momentos em que poderiam estar à mesa com o marido.

Ao longo dos anos se estabelece uma dinâmica de convivência em que cada

um faz suas refeições sozinho. Quantas vezes você já ouviu amigos

reclamando um com o outro com picuinhas do tipo “se eu não te ligo, você

nem dá as caras”, ou “você nunca me convidou para ir à sua casa”? O que

parece um detalhe pequeno do relacionamento acaba tornando-se a

moldura que determina a satisfação ou a insatisfação da convivência. A nal,

os relacionamentos sobrevivem ou morrem porque “detalhes tão pequenos

de nós dois são coisas muito grandes para esquecer”.

Em síntese, quem deseja caminhar com a mesma pessoa, pela mesma

estrada, por longos anos, precisa saber que em alguns trechos deverá levar

seu par no colo, lavar seus pés, servir, sob pena de seguir viagem sozinho, ou

com uma pessoa desconhecida ao lado, numa relação de ilusão e

autoengano, cujo m é a solidão.

 

PERDOAR

“Não matarás” é um dos dez mandamentos que pre ro chamar de as dez

coisas mais difíceis que tentamos fazer na vida. A maioria das pessoas

associa essa restrição bíblica a atos como assassinato, aborto, eutanásia,

suicídio, crimes de guerra e pena de morte. Poucos a associam com exclusão

social e crimes ecológicos, por exemplo. Matar populações de fome por

meio de embargos econômicos e políticos, causar a extinção de uma espécie

animal nem passa pela cabeça da maioria dos que acreditam na Lei de

Moisés. Mas há outra dimensão desse grande desa o de Deus a cada um de

nós que passa longe das interpretações mais usuais. “Não matarás” pode

signi car “não negarás aos outros o direito de existir em tua vida”.

O dilema diante do qual nos encontramos é como podemos manter vivas

pessoas que gostaríamos que jamais tivessem nascido ou que estivessem

mortas. Howard Hendricks, famoso teólogo e conferencista norte-

americano, disse que, após tantos anos de casamento, jamais pensara em

divórcio. Em assassinato, várias vezes, mas em divórcio nunca.

Evidentemente, estava brincando. (Será?) Mas é fato que, de vez em quando,

somos tomados por um desejo de banir de nossa convivência ou de esquecer

em de nitivo a existência de algumas pessoas.

Ali MacGraw e Ryan O’Neal formam o par apaixonado de Love Story, o

famoso lme de Arthur Miller que popularizou a expressão fantasiosa:

“amar é não ter de pedir perdão”. Mas a verdade é que ninguém é capaz

desse amor perfeito. Amar é a capacidade de pedir e de outorgar perdão.

Outra possível tradução para “Não matarás”, ao lado de “não negarás aos

outros o direito de existir em tua vida”, pode ser “não negarás o perdão”, pois

todos nós, cedo ou tarde, somos agredidos em dimensões tão profundas que

o agressor contrai para conosco uma dívida impagável. Quando alguém

distraído no estacionamento do shopping amassa a lateral de seu carro, não é

caso de pedir perdão nem de perdoar. O mais lógico é o ressarcimento da

despesa para o conserto de seu carro. Mas quando alguém embriagado atropela uma criança num acidente fatal, não há como ressarcir tal prejuízo.

Vida não tem preço. E vida de lho custa mais caro ainda.

Perdoar é dar ao outro a oportunidade de continuar existindo em nossa

vida. Perdoar é colocar o outro diante da chance de avaliar sua maneira de

viver e de refazer seus caminhos existenciais. Perdoar é contribuir para que

o outro cresça, amadureça, corrija a si mesmo. O momento do perdão é

como um parêntese em que as bases de um relacionamento são rediscutidas

e os acordos que tornam possível a convivência são renegociados.

Alguém perguntaria se é necessário perdoar sempre. Aliás, o apóstolo

Pedro perguntou isso a Jesus: “Quantas vezes devemos perdoar?”, e recebeu

como resposta “setenta vezes sete”, que indica o número perfeito de perdão.

Mas, nesse mesmo contexto, Jesus contou uma parábola que revolucionou

tudo o que sempre me ensinaram a respeito do perdão: a parábola do

devedor implacável,11 na qual um homem que devia quase cento e setenta e

quatro toneladas de ouro foi perdoado, mas não perdoou um que lhe devia

apenas 30 gramas de ouro. O m da parábola mostra que o perdão da dívida

maior foi cancelado sob a alegação de que aquele que recebeu misericórdia

deveria ter sido misericordioso.

Essa parábola ensina pelo menos três coisas imprescindíveis à

experiência do perdão. Primeiro, que o credor está disposto a abrir mão da

prerrogativa de receber o pagamento da dívida. Isso diz muito a respeito do

coração do credor, livre da necessidade de reparação, até porque sabe que a

reparação é impossível. Por essa razão, faz a melhor opção. Entre car

escravo do mix ressentimento-mágoa-ódio-desejo de vingança (às vezes

justiça), escolhe a sublime experiência da outorga do perdão. Alguém já

disse que guardar ressentimentos equivale a ingerir veneno esperando que

aquele que nos ofendeu morra. Nesse sentido, perdoar é drenar o veneno de

nosso coração. Perdoar é romper os grilhões da prisão que nos mantêm

escravos de um passado inalterável.

Lembro-me daquele homem sentado à minha frente reclamando que a

esposa havia quebrado seu violão. Fiquei chocado. Perguntei quando isso

tinha acontecido. Ele me disse que fazia mais de dez anos. Dez anos! Ele

havia cado naquele quarto, sentado, absorto, com o violão na mão por dez

anos. Que diferença faz o perdão!

A parábola também ensina que o perdão visa a preservação da dignidade

de quem foi ofendido. Jesus começa a história dizendo que o credor chamou

todos os devedores para um acerto de contas. Sabe por que muitos

relacionamentos chegam ao m? Por falta de eventos sistemáticos de acerto

de contas. Uma mágoa hoje, um ressentimento amanhã, uma raiva depois de

amanhã, até que, depois de um tempo, existe uma parede quase

intransponível entre as partes.

Você me pisa hoje, e eu deixo. Você me pisa amanhã, e eu deixo. Então,

você me pisa todo dia, e aquilo se torna um padrão de nosso

relacionamento. Meu coração vai adoecendo, vou cando diminuído, e

minha dignidade escorre pelo ralo. Acertar contas sistematicamente

signi ca pontuar cada agressão. Quando você me pisar, tenho de procurá-lo

e falar o seguinte: “Gostaria que você soubesse que me senti agredido por

suas palavras, por seu comportamento, por sua atitude. Quero incluí-lo de

novo em minha vida, mas para isso preciso dizer que não vou tolerar esse

padrão de relacionamento”. Em seguida, você diz: “Por favor, me perdoe, eu

não z por mal”, eu respondo: “Claro que perdoo. Vim aqui para isso. Não

vim cobrar uma dívida, vim cuidar de nossa convivência. Mas não poderia

ter deixado de vir aqui, porque deixar de vir aqui seria ignorá-lo. Seria o

mesmo que matá-lo, tirar de você o direito de existir em minha vida. Deixar

de vir aqui seria abrir mão de minha dignidade e assumir que não há

problema nenhum você car me pisando desse jeito”. (Pelo amor de Deus,

não vá repetir essa ladainha toda vez que for acertar contas com as pessoas da

sua convivência! Isso é só para que você saiba o que está por trás de um

momento de acerto de contas.)

Outra coisa que aprendo com essa parábola de Jesus é que o perdão visa a

transformação do agressor. A ladainha do acerto de contas incluiu outra

frase mais ou menos assim: “Quero incluir você de novo em minha vida,

mas para isso preciso dar a você a chance de mudar de conduta, caso

contrário nossa convivência vai car insustentável”.

Ao cancelar o perdão ao homem que não teve misericórdia de seu

devedor, Jesus desfaz um mal-entendido a respeito do perdão. Para a

maioria das pessoas, o perdão é uma transação que libera da ofensa aquele

que ofendeu. Mas quando o perdão é unilateral, e aquele que ofendeu

desconsidera o fato de ter ofendido e agride de novo, e de novo, e de novo,

então a situação é diferente. A noção de que perdoar setenta vezes sete é

perdoar sempre tem duplo signi cado. Se perdoar setenta vezes sete

signi ca abrir mão da necessidade de reparação e de se recusar a car preso

à mágoa e ao desejo de vingança, então está correto. Mas se perdoar sempre

signi ca manter relacionamentos a qualquer preço, abrindo mão da

dignidade pessoal e mantendo a conduta imprópria do ofensor, então está

errado.

O perdão visa resguardar dignidades, transformar o agressor e restaurar

o relacionamento. Por essa razão, o perdão não pode ser outorgado

incondicionalmente. Nem mesmo Deus perdoa incondicionalmente. Deus

não perdoa todo mundo. A oração do Pai Nosso ensina que Deus nos

perdoa na medida do perdão que concedemos aos nossos ofensores. A razão

é óbvia: o perdão, em última instância, visa interromper o ciclo de agressão.

Um agressor não transformado agredirá novamente. Uma pessoa agredida

repetidas vezes será esmagada em sua dignidade. E um agressor contumaz e

uma pessoa sem dignidade não fazem um casal, um par de amigos, uma

fraternidade.

C. S. Lewis diz que “a noção de que Deus perdoa um homem, mesmo que

ele continue sendo o que é, está baseada na confusão entre perdoar e

desculpar. Desculpar o mal é simplesmente ignorá-lo, tratá-lo como se fosse uma coisa boa. Mas o perdão precisa ser aceito exatamente como é oferecido

para que seja completo: um homem que não admite culpa não pode aceitar

perdão”. Isso signi ca que, quando a experiência do perdão é frustrada, o

problema não está em quem oferece o perdão, mas sim em quem não admite

a culpa.

 

MÁXIMAS

Aceita sugestões? Então, levante-se agora e vá atrás das pessoas que você

ama. Se precisar perdoar, perdoe-as. Se precisar pedir perdão, peça. Se elas

estiverem precisando de ajuda, vá servi-las. Se está tudo bem entre vocês,

faça uma surpresa que demonstre seu amor e sua alegria em tê-las por perto.

Se elas não estiverem mais aqui, escreva-lhes uma carta, coloque numa

garrafa e jogue-a no mar...