Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 8 de 28

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Vivendo com propósitos

5. Imago Dei

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I MAGO DEI

 

PINGOS NOS “IS”

A felicidade está necessariamente associada aos estados de espírito com os

quais atravessamos a vida. A melhor expressão para esse estado de felicidade

é “contentamento”, e com isso não quero dizer que você deve estar sempre

alegre, sorrindo, de bom humor. “Contentamento” vem do latim contentu,

que quer dizer “conteúdo”, e, nesse caso, contente é aquele que consegue

experimentar e concretizar o conteúdo de cada momento, aquele que está

satisfeito – sabe adaptar-se – em qualquer circunstância. Contentamento é

uma satisfação de dentro para fora.

“Os caminhos existem para jornadas e não para destinos”, dizem os

chineses. Ser feliz, portanto, não consiste em conquistar objetos que tragam,

em si, a satisfação. Isto é, ser feliz é muito mais do que viver de desejo em

desejo. Ser feliz é reagir a cada circunstância da maneira adequada: chorar

quando a situação for triste, rir quando a notícia for boa, rolar no chão

quando as crianças estiverem por cima, apertar o nó da gravata antes de

entrar em cena para assinar o contrato, en m, concretizar o conteúdo de

cada momento e emprestar signi cado para cada situação. Somente assim

conseguiremos ir adiante, deixando para trás situações consolidadas, vividas

em sua plena possibilidade. Somente assim chegaremos ao m da vida com

o quebra-cabeça montado. Algo como entender o lme na cena nal, uma

vez que entendemos o sentido de cada cena que o compôs. O lme da vida

terá um signi cado apenas quando os signi cados de suas partes forem

consolidados. Por essa razão, a felicidade é muito mais um jeito de ir do que

um lugar aonde se chega.

O que interessa, portanto, não é se você vai agendar um jantar por

semana com seu cônjuge, exercícios físicos quatro vezes por semana e visitas regulares aos seus clientes mais estratégicos. O que é importante não é se

você vai separar duas horas por semana para aperfeiçoar seu inglês ou se vai

levar sua mãe para almoçar domingo sim, domingo não. A questão é sua

atitude interior quando estiver fazendo cada uma dessas coisas. O que seu

lho, seu cônjuge, seus pais, clientes e amigos querem mesmo saber é se eles

ocupam lugar no seu coração ou se são apenas compromissos em sua

agenda. O problema não é separar tempo para exercícios físicos matinais ou

para aulas de inglês semanais, mas sim de onde você tira forças para se

levantar da cama ou para atravessar a cidade, num m de tarde chuvoso,

para perguntar How do you do, Mr. Miller? e dizer para o cara que estará ao

seu lado que the book is on the table.

 

DESIGN DIVINO

A grande charada não é o que você faz, mas sim como você faz o que faz. E a

resposta está no fato de que você foi desenhado por Deus para fazer as

coisas de um jeito especial. Falar que o ser humano foi desenhado por Deus

é uma forma de repetir a pedra angular da antropologia cristã: Deus criou o

homem à sua imagem e semelhança. O ser humano é uma criatura

semelhante ao seu Criador.

 

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Gênesis 1.26,27, NVI

 

Quando digo que você foi desenhado por Deus para fazer as coisas de um

jeito especial, quero dizer que há um jeito certo de viver, e esse jeito é de

acordo com a imago Dei. Isso quer dizer que, ou você funciona conforme seu design, ou vai se machucar. Ou você funciona conforme seu design, ou

não vai conseguir apropriar-se do sentido e signi cado de cada momento e,

consequentemente, da própria vida. Em outras palavras, se você quiser usar

chave de fenda para bater prego, duas coisas vão acontecer: o prego não vai

penetrar e a chave de fenda sairá dani cada. Por essa razão, a vida com

propósito é uma experiência passo a passo, um momento de cada vez, que

experimentamos a partir de nossa identidade mais profunda. E nossa

identidade mais profunda é a imago Dei.

Concluímos o capítulo anterior – Caminho para a felicidade – dizendo

que o sentido da vida depende de nossa capacidade de dar signi cado a cada

momento, o que, por sua vez, depende absolutamente da nossa experiência

de Deus, como fundamento pessoal de toda a realidade, e de que Jesus de

Nazaré é a mais exata expressão desse Deus Transcendente-Imanente-

Transparente, que nos convida a segui-lo, passando pela morte rumo à

ressurreição, a m de vivermos no Reino de Deus, em comunhão com a

comunidade de amor ilimitado. Isso é o que signi ca “glori car a Deus e

alegrar-se nele para toda a eternidade”, como propuseram os antigos. O

caminho para essa identi cação com Deus é a imitação de Jesus – o

discipulado de Cristo: ser e viver como Jesus.

Em síntese, o sentido da vida depende da compreensão e experiência das

seguintes variáveis:

 

a vida fará sentido em seu todo quando suas partes zerem sentido;

as partes da vida, a sucessão de agoras, farão sentido quando

soubermos realizar o sentido de cada momento;

seremos capazes de realizar o sentido de cada momento quando cada

momento de nossa vida for vivido em harmonia com Deus, o

fundamento pessoal de todas as coisas;

Jesus Cristo é o modelo de vivência integrada em Deus, e por esse

motivo a imitação de Cristo é o caminho para a harmonia com Deus.

Com essa linha de raciocínio, promovemos a correlação dos conceitos de

teologia, antropologia e teleologia. C. S. Lewis, um dos meus teólogos

prediletos, disse que “se é verdade que alguém – teologia – me fez –

antropologia – para seus próprios ns – teleologia –, então é evidente que

recaem sobre mim certos deveres que eu não teria se simplesmente fosse

dono do meu nariz”. 1 Isso é perfeitamente coerente com as premissas da

tradição judaico-cristã: “antes de existir qualquer coisa, existia alguém-

Alguém; antes de existir qualquer coisa, existia design-desígnio”. Em síntese,

as categorias teologia, antropologia e teleologia casam-se na a rmação de

que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, e o sentido de

sua vida está na possibilidade de viver de acordo com essa imago Dei. Todo

aquele que deseja experimentar uma vida com signi cado deve a rmar:

Deus me criou, e a minha vida somente fará sentido quando eu viver de

acordo com esse design divino segundo o qual fui criado. E é exatamente isso

o que se quer dizer com seguir-imitar a Jesus, ser e viver como Jesus.

 

IMAGO DEI

As linguagens teológica e losó ca carecem de trem de pouso. Henry David

oreau disse que “ser lósofo não é meramente ter pensamentos sutis, nem

mesmo fundar uma escola... é resolver alguns dos problemas da vida, não na

teoria, mas na prática”. O mesmo vale para ser teólogo ou pretender fazer

teologia: ou a re exão nos ajuda a viver melhor, ou é puro diletantismo.

Em que consiste, portanto, essa imago Dei? Como essa imagem de Deus

se manifesta no ser humano? De que maneira Deus se expressa por meio do

ser humano? Como esses conceitos de teologia-antropologia-teleologia

podem se tornar práticos? Como podemos colocar trem de pouso nesse

universo de ideias, a m de que elas nos sejam úteis para encarar a segunda-

feira? Responder a essas perguntas é imprescindível para o desenvolvimento da vida com signi cado, porque essas respostas trarão consigo as

implicações práticas da imagem de Deus para a vida humana.

O Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (1981a), ao

comentar o vocábulo adam, sugere uma série de interpretações possíveis

para a imagem de Deus, que podem ser assim resumidas:

 

alma ou espírito, que envolvem a invisibilidade e a imortalidade e,

também, a capacidade de relacionamento com Deus.

capacidades intelectuais e físicas, que englobam o intelecto e a vontade,

ou o livre-arbítrio e a razão.

integridade intelectual e moral, que abrangem o conhecimento e a

justiça.

corpo físico, que se refere ao órgão apropriado da alma por meio do

qual o homem exerce seu domínio.

domínio sobre a criação, isto é, o domínio do homem sobre o mundo

não humano.

 

Alguns teólogos resumem que o ser humano herdou de Deus a

espiritualidade da alma, a liberdade da vontade e a imortalidade do corpo. A

imagem de Deus é vista, também, como tudo quanto distingue o humano do

não humano. Essa distinção pode ser descrita a partir de três capacidades

humanas: relacional, racional e volitiva. O ser humano, portanto, é capaz de

amar e de ser amado, capaz de distinguir a si mesmo do restante da

realidade e de tomar decisões baseadas em certo e errado, bem e mal, isto é,

decisões morais.

Essas de nições e sugestões das manifestações e expressões da imagem

de Deus no homem giram ao redor dos mesmos paradigmas e confundem-

se com pressupostos losó cos. Uma das grandes discussões a respeito

envolve as posições de Santo Agostinho e Tomás de Aquino, que falam de

essência de Deus e de aparência de Deus (ícone). Muitos críticos aprofundam o debate para o con ito entre as visões platônica e aristotélica.

Na verdade, a matriz losó ca é sempre dedutiva e, muito embora

imprescindível, jamais pode tomar o lugar da matriz bíblica, que não é

dedutiva, é revelacional. Isto é, num simplismo arriscado, a loso a é a

tentativa humana de decodi car o universo e seus fenômenos, enquanto a

revelação é a iniciativa divina em revelar a si mesmo e seu universo criado.

Na verdade, a única razão por que a loso a discute a imagem de Deus no

homem é porque a Bíblia diz que assim foi feito: “Façamos o homem à nossa

imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26,27, ARA, NVI). Opto,

portanto, por buscar no próprio texto bíblico o fundamento para a

interpretação dessa imagem de Deus. O relato do Gênesis é insubstituível e

inigualável.

Fazer teologia, entretanto, é também trilhar caminhos de raciocínios

dedutivos. A nal, como bem diz John Stott, “crer é também pensar”.

Olhando para o texto bíblico, deduzimos que as expressões “imagem e

semelhança” implicam paralelos entre Deus e o homem. Nosso conceito de

Deus vai gerar o conceito de homem. A união das duas percepções coloca-

nos diante do desa o de discernir a aplicação prática do signi cado-

expressões-manifestações-dimensões da imago Dei.

 

AS ENTRELINHAS DO GÊNESIS

O que é dito a respeito de Deus no relato do Gênesis? Uma leitura atenta nos

levará a pelo menos quatro a rmações a respeito de Deus nas entrelinhas do

relato bíblico da criação. Primeiro, é dito que Deus é antes de todas as coisas,

de modo que Deus não é matéria, ou, na linguagem de Jesus, Deus é

Espírito.2 Quando no Gênesis se diz que “no princípio, criou Deus”, estamos

diante do marco zero do universo e concordando que, “antes de existir algo,

existia alguém”, e esse alguém é distinto do algo. Isso sem falar na proposta

exegética que sustenta que o verbo “criar”, usado na língua hebraica, denota “criar do nada”, criar sem que houvesse qualquer realidade anterior, exceto o

próprio criador.

Em segundo lugar, é dito que Deus é plural: “Façamos o homem à nossa

imagem, conforme a 3 nossa semelhança”. O Deus cristão é Três Pessoas em

um só Deus, é Tri-Uno, Deus Pai – Deus Filho – Deus Espírito Santo. Deus é

“uma comunidade e amor ilimitado”. Note que não estamos falando de três

manifestações da mesma pessoa, como, por exemplo, o José, que é marido

da Rosa, pai do João e lho do seu Pedro. O José é uma pessoa só em três

relações diferentes. Mas Deus não é assim. Conforme Atanásio, bispo de

Alexandria (século 4), em seu Credo: “a fé universal é esta, que adoremos

um único Deus em Trindade, e a Trindade em unidade. Não confundindo as

pessoas, nem dividindo a substância. Porque a pessoa do Pai é uma, a do

Filho é outra, e a do Espírito Santo, outra. Mas no Pai, no Filho e no Espírito

Santo há uma mesma divindade, igual em glória e coeterna majestade. O

que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo”.

Em terceiro lugar, é dito que Deus exerce livremente sua vontade criativa:

“Façamos”. Ele se propõe a fazer-criar e, pela sua palavra, os mundos são

feitos e passam a existir. Esse exercício da vontade divina é chamado livre,

porque não é determinado por nada, exceto por si mesmo. Não há uma

causa antes de Deus, pois, na a rmação de Tomás de Aquino, em sua

argumentação da teologia natural, Deus é a causa primeira de todas as

coisas. Mas, por trás desta vontade livremente exercida, existe

autoconsciência, intenção, inteligência, poder e autoridade. Por trás de uma

vontade livre de causalidade externa, não determinada exceto por si mesma,

existe uma pessoa. Deus é Pessoa.

Finalmente, é dito no Gênesis que, após ter criado o Universo, Deus

delegou ao homem o domínio sobre a criação. Na verdade, tal domínio era

intencionado desde antes da criação: “façamos o homem [...] tenha ele

domínio sobre”.4 O ser humano recebe autoridade delegada e passa a ser coparticipante da obra criativa de Deus, responsável por preservar a ordem

posterior ao caos.

A imagem de Deus no homem possui pelo menos quatro dimensões

fundamentais: espiritual, pessoal, relacional e criativa. Espiritual, porque

Deus é Espírito. Pessoal, porque Deus é Pessoa. Relacional, porque Deus é

Plural. Criativa, porque Deus delegou sua autoridade para que o homem

exerça domínio sobre o restante da criação.

 

A DIMENSÃO ESPIRITUAL DA IMAGO DEI O ser humano é a primeira e única criatura do Universo dotada de espírito

semelhante ao Espírito divino. Deus é Espírito, e, portanto, o ser criado à sua

imagem e semelhança deve ser também espírito. Para compreender essa

dimensão espiritual, precisamos ajustar nossa percepção do que é o espírito

e de onde ele se situa no espaço. A primeira vez que apresentei palestras a

respeito da vida com propósito a partir da imago Dei, fui abordado por um

budista, inconformado com minha de nição de um Deus pessoal, que queria

porque queria saber onde estava, então, esse Deus: “Se ele é uma pessoa,

deve estar em algum lugar”, a rmou inquiridor.

Dallas Willard comparou a presença de Deus no espaço com a presença

do ser humano em seu corpo:

 

Sou um ser espiritual que tem atualmente um corpo físico. Eu ocupo meu corpo e seus arredores pela consciência que tenho dele e pela minha capacidade de exercer a vontade de agir com ela e por meio dela. Eu ocupo o meu corpo e seu espaço circundante, mas não posso ser localizado nele ou em torno dele. Você não consegue me encontrar nem encontrar os meus pensamentos, sentimentos e características de personalidade em parte nenhuma do meu corpo. Se você quiser me encontrar, a última coisa que deve fazer é abrir o meu corpo para dar uma olhada. Viajar pelo espaço e não encontrar a Deus não signi ca que Deus não está lá, assim como viajar pelo meu corpo e não me encontrar não signi ca que eu não estou aqui. Podemos dizer que Deus se relaciona com o espaço do mesmo modo como nos relacionamos com o nosso corpo. Ele o ocupa e transborda, mas

não pode ser localizado nesse espaço. Cada ponto do espaço está acessível à consciência e à vontade divinas, e a sua presença manifesta pode ser concentrada em qualquer ponto que ele julgue adequado. Na encarnação ele concentrou sua

realidade de modo especial no corpo de Jesus.5

 

Numa comparação admirável, Ole Hallesby ressalta que:

 

O ar de que o nosso corpo precisa nos envolve por todos os lados. Do mesmo modo, o ar de que nossa alma precisa também envolve a todos nós em todos os momentos e por todos os lados. Deus está em torno de nós em Cristo, cercando-nos por todos os lados, com a sua graça multifacetada e plenamente su ciente. Só

o que precisamos fazer é abrir o nosso coração.6

 

A a rmação de que o ser humano compartilha com o Deus do Espírito-

espírito implica dizer que somente o ser humano pode vibrar na frequência

de Deus, e somente imerso nesse Deus o ser humano pode ser o que foi

destinado a ser. Pense, por exemplo, que no ambiente onde você está existem

ondas de UHF, VHF, AM, FM, ondas curtas, ondas médias, mas você não é

capaz de captar nenhuma delas. A menos que esteja com algum rádio ou

aparelho de televisão ligados, você (ainda) não é capaz de ouvir qualquer

música nem perceber qualquer imagem passando em ondas sobre a sua

cabeça. Isso quer dizer que você não está aparelhado (ou desenvolvido) para

captar tais frequências de energia. Em linguagem metafórica, o espírito

humano é o instrumento (perdoe-me não ter achado palavra melhor) por

meio do qual podemos “captar” Deus.

Não se esqueça de que Deus não está lá, em alguma outra dimensão, em

algum outro mundo, em algum ponto fora do Universo. Deus está aqui. Ele

é imanente. Não podemos mais viver com a ideia de que Deus é aquele

velhinho que ca sentado num trono celestial e, de vez em quando, visita o

mundo dos homens para fazer uma coisa ou outra. Aliás, suspeito que a

maioria das pessoas pensa isso mesmo. Acredita que Deus está em algum lugar e que, se pedir com fé, sem ter cometido pecado nenhum nos últimos

dois minutos, Deus vai se levantar do trono e lhe dar uma mãozinha.

Falar de Deus como realidade espiritual e a rmar a espiritualidade

humana é a rmar a perfeita possibilidade de relação, interação, contato,

apropriação, experiência entre Deus e o homem. Essa é a convicção dos

santos apóstolos: o Espírito Santo habita em nós; 7 somos templo santo para

morada de Deus por seu Espírito;8 9 10 Deus age em nós; “Cristo em VÓS”;

quem nasce da semente incorruptível é “casa espiritual”, um edifício com

“pedras que vivem”.11 E de onde os apóstolos tiraram essa ideia? Posso

assegurar que ouviram de Jesus: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos;

se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e

lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam

onde eu estiver”.12

Geralmente se interpreta a “casa do pai” como o céu e “estar onde Jesus

está” é uma experiência pós-morte. Mas isso é um grande equívoco. Jesus

deixou claro aos discípulos que, após sua morte e ressurreição, enviaria o seu

Espírito:

 

Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos. E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês. Não os deixarei órfãos; voltarei para vocês. Dentro de pouco tempo o mundo não me verá mais; vocês, porém, me verão. Porque eu vivo, vocês também viverão. Naquele dia compreenderão que estou em meu Pai, vocês em mim, e eu em vocês. Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele”. Disse então Judas (não o Iscariotes): “Senhor, mas por que te revelarás a nós e não ao mundo?” Respondeu Jesus: “Se alguém me ama, obedecerá à minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos morada nele”.

João 14.15-23, NVI

Sublinhe as expressões “outro Conselheiro para estar com vocês para

sempre”, “pois ele vive com vocês e estará em vocês”, “voltarei para vocês”,

“me revelarei a ele”, “se alguém me ama, obedecerá à minha palavra. Meu Pai

o amará, nós viremos a ele e faremos morada nele” e perceba como Jesus

está falando de uma experiência presente. De fato, Jesus está falando que, na

relação Espírito Santo-espírito humano, reside a comunhão com o Cristo

ressurreto.

Nenhuma outra criatura vibra na frequência de Deus, pois ninguém mais

além do ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus e herdou o

atributo do Espírito-espírito. Para ninguém mais o cristianismo a rma

“Cristo em vós”, senão para o ser humano, que se rende a essa relação. A

imago Dei é, portanto, essa dimensão espiritual, privilégio singular do ser

humano em relação a todos os outros seres e realidades criadas.

 

A DIMENSÃO PESSOAL DA IMAGO DEI Herdeiros de Platão e de sua teoria das ideias, quase todos os lósofos e

teólogos posteriores que abordaram o tema trataram a imagem de Deus

como própria da alma, não do corpo, e notadamente identi cada com a

mente-razão. Fílon de Alexandria chamou a mente de “princípio

hegemônico da alma”. Gregório de Nissa propôs que, assim como Deus tem

mente e verbo, também o ser humano possui a capacidade do

conhecimento, expressões daquela mente e verbo divinos. Agostinho de

Hipona diz que “o homem representa Deus em relação ao nobilíssimo ato

que é conhecer – de fato, representa Deus não apenas enquanto ente e

vivente, mas também enquanto inteligente”. Tomás de Aquino incluía o

conhecer e o querer como próprios da imagem de Deus no homem, mas

dava prioridade ao conhecimento em detrimento da vontade, a rmando que

a imagem reside, sobretudo, na dimensão cognitiva, pois a vontade origina-

se na memória e na inteligência.

Compreender a mente-razão como expressão da imagem de Deus é

inevitável. Mas não precisamos car restritos ao conceito que faz a razão

equivaler apenas ao conhecimento e à capacidade de raciocínio. Devemos

dar atenção às últimas conclusões das pesquisas no campo da neurociência.

Antonio Damásio escreveu O erro de Descartes, em que discute as bases do

cartesianismo na formação da antropologia ocidental e suas in uências na

neurociência. René Descartes (1596-1650), com sua famosa proposição

 

“Penso, logo existo”, quer dizer que:

 

Eu soube que era uma substância cuja essência integral é pensar, que não havia necessidade de um lugar para a existência dessa substância e que ela não depende de algo material; então, esse “eu”, quer dizer, a alma, por meio da qual sou o que sou, distingue-se completamente do corpo e é ainda mais fácil de conhecer do que esse último; e ainda que não houvesse corpo, a alma não deixaria de ser o que

é. 13

 

Damásio denuncia que exatamente aí está seu erro:

 

A separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, in nitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, de um lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível, de outro; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo. Especi camente: a separação das operações mais re nadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo

biológico, para o outro.14

 

Quando falamos em razão-mente-alma, devemos incluir necessariamente

os atributos intelectuais, emocionais e volitivos sem jamais separá-los do

corpo, a dimensão física e material do ser humano.

O ser humano possui também uma dimensão moral ou, se você preferir,

consciência moral: o senso de certo e errado presente em todo ser humano

de todas as culturas e de todos os tempos. Paulo, apóstolo, falou a respeito

desse senso de certo e errado como algo que Deus semeou na mente

humana:

 

A ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glori caram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se... (De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora os acusando, ora os defendendo.) Isso tudo se verá no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus Cristo, conforme o declara o meu evangelho.

Romanos 1.18-21; 2.14-16, NVI

 

“Além do Antigo e Novo Testamentos”, disse C. S. Lewis, “há duas outras

maneiras como Deus se torna evidente para o ser humano: a primeira, pelo

Universo que ele criou, a segunda, pela consciência moral que ele colocou

em nossas mentes”. 15 Lewis comenta que a consciência moral é a melhor

evidência, porque se trata de uma informação intrínseca: “você encontra

mais a respeito de Deus na Lei Moral do que no universo em geral, assim

como você enxerga melhor um homem ouvindo sua conversa do que

admirando a casa que ele construiu”.16

Finalmente, podemos falar da autoconsciência como um dos atributos

humanos. Dessa vez, precisamos da ajuda de Viktor Frankl, que disse que,

para ouvir a voz de sua consciência, o ser humano deve admitir que essa consciência é algo diferente do eu, mais do que o eu, extra-humano, além da

mera condição humana, isto é, transcendente:

 

Da mesma maneira como o umbigo humano, considerado por si mesmo, pareceria sem sentido, porque só pode ser compreendido a partir da pré-história, ou melhor, da história pré-natal do homem, como sendo um “resto” no homem que o transcende e o leva à sua procedência do organismo materno, no qual estava contido, exatamente desta mesma forma a consciência só pode ser entendida em seu sentido pleno quando a concebermos à luz de uma origem

transcendente.17

 

Esses atributos, consciência e autoconsciência, implicam o fato de que o

ser humano é capaz de se chamar de eu e de colocar-se em relação a outros

eus.

 

A DIMENSÃO CRIATIVA DA IMAGO DEI A maior unanimidade na interpretação da imagem de Deus ao longo da

história da teologia é a relação que se faz entre ela e a vocação humana de

dominar o Universo criado. Os estudiosos estão de acordo que a expressão

“imagem e semelhança de Deus” quer a rmar duas coisas: a posição

privilegiada que cabe ao ser humano em relação ao restante da criação e a

função de representar Deus no Universo. Clemente de Alexandria não

considerava que a semelhança entre Deus e o homem estivesse no ser, mas

sim no agir: o ser humano assemelha-se a Deus quando faz o bem e exerce

domínio sobre as coisas. Gregório de Nissa disse que a determinação, no

sentido de liberdade e de exercício de domínio sobre a criação, é uma

expressão da imagem de Deus.

O poeta bíblico expressa essa singularidade do ser humano em relação à

criação, singularidade esta que o faz detentor da vocação de dominá-la:

Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali

rmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o lho do

homem, para que com ele te preocupes? Tu o zeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. Tu o zeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste: todos os rebanhos e manadas, e até os animais selvagens, as aves do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre as veredas dos mares.

Salmos 8.3-8, NVI

 

O Deus da Bíblia é um Deus que trabalha desde a eternidade. O labor

divino é uma forma de Deus revelar-se singular:

 

Ó Soberano Senhor, tu começaste a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a tua mão poderosa! Que Deus existe no céu ou na terra que possa realizar as tuas obras e os teus feitos poderosos?

Deuteronômio 3.24, NVI

 

Meditarei em todas as tuas obras e considerarei todos os teus feitos. Teus caminhos, ó Deus, são santos. Que deus é tão grande como o nosso Deus? Tu és o Deus que realiza milagres; mostras o teu poder entre os povos.

Salmos 77.12-14, NVI

 

É por meio do seu trabalho que Deus compartilha sua alegria com os

seus: “Tu me alegras, Senhor, com os teus feitos; as obras das tuas mãos

levam-me a cantar de alegria. Como são grandes as tuas obras, Senhor,

como são profundos os teus propósitos!”.18 A atividade de Deus revela sua

sabedoria: “Quantas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com

sabedoria! A terra está cheia de seres que criaste”. 19 Enquanto age, Deus se

perpetua entre a raça humana: “Grande é o Senhor e digno de ser louvado;

sua grandeza não tem limites. Uma geração contará à outra a grandiosidade

dos teus feitos; eles anunciarão os teus atos poderosos. Proclamarão o

glorioso esplendor da tua majestade, e meditarei nas maravilhas que fazes. Anunciarão o poder dos teus feitos temíveis, e eu falarei das tuas grandes

obras. Comemorarão a tua imensa bondade e celebrarão a tua justiça. O

Senhor é misericordioso e compassivo, paciente e transbordante de amor.

O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas

criaturas. Rendam-te graças todas as tuas criaturas, Senhor, e os teus éis te

bendigam”.20 0 povo de Deus con a em Deus por saber que ele trabalha:

“Entregue o seu caminho ao 21 Senhor ; con e nele, e ele agirá”, pois “desde

os tempos antigos ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, e olho

nenhum viu outro Deus, além de ti, que trabalha para aqueles que nele

esperam”. 22

Essa visão do Deus laborioso inspirou Jesus em sua resposta àqueles que

questionavam suas atividades no sábado, o dia do descanso conforme a lei

judaica, de Moisés: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”.23

Muito mais do que uma defesa do ativismo, a resposta de Jesus revela uma

dimensão da imago Dei: a ação criativa, o ímpeto criador, o desejo de

interferir no mundo, de mudar a realidade, de transformar o Universo.

Mais surpreendente ainda é a sugestão feita por Jesus de que essa

dimensão de trabalho não con ita com o mandamento do descanso.

“Guardar o sábado”, santi cando-o, separando-o para Deus, é um dos Dez

Mandamentos da Lei de Moisés. Alguns intérpretes da Lei foram literalistas

e chegaram ao extremo de considerar um ato mínimo, como tirar a casca de

uma espiga de milho, uma quebra do mandamento.

Uma das maneiras de interpretar esse rigor para a guarda do quarto

mandamento é o belíssimo conceito rabínico de descanso. Descansar é “não

interferir na realidade”. Se sua casa está pegando fogo no sábado, não tente

salvar nada, pois você estaria trabalhando. Descanse. Diga ao Deus Eterno

que você não vai mudar o curso das circunstâncias e que, portanto, sua sorte

está completamente rendida às mãos dele, Deus. Descansar é recusar-se a

mudar o que o Deus Eterno determinou como sucessão natural dos fatos.

Nesse caso, existe apenas uma possibilidade de não considerar o trabalho de Jesus no sábado quebra do mandamento. De fato, ou a atividade de Jesus no

sábado contraria a vontade de Deus, ou, muito ao contrário, é justamente a

expressão da vontade de Deus.

Em síntese, o mandamento de guardar o sábado foi uma forma de

mostrar ao ser humano que somente Deus é capaz de gerir sua Criação.

Nesse caso, trabalho é igual a descanso quando o ser humano não tem a

pretensão de tomar nas mãos o controle do Universo, mas de se oferecer

como instrumento para que Deus mesmo administre o mundo, e essa

vocação de exercer domínio sobre a criação mediante a autoridade delegada

por Deus é, sem dúvida, uma expressão da imagem de Deus no ser humano.

 

A DIMENSÃO RELACIONAL DA IMAGO DEI “Sob o nome de Deus a fé cristã vê o Pai, o Filho e o Espírito Santo em

eterna correlação, interpenetração e amor; de tal sorte que são um só Deus

uno. A unidade signi ca a comunhão das Pessoas divinas. Por essa razão, no

princípio não está a solidão do Uno mas a comunhão das três divinas

Pessoas.” Com essas palavras de Leonardo Boff, 24 chegamos ao ponto mais

alto e talvez mais negligenciado da interpretação da imago Dei.

Ao comentar a natureza do Deus bíblico, Ricardo Barbosa a rma que ele

é

 

essencialmente relacional. Esta é a diferença entre o monoteísmo trinitário cristão e os outros monoteísmos unitários, como o judaísmo e o islamismo. Nestes, encontramos a solidão do Uno, de um Deus que não tem nenhum outro igual com o qual possa se relacionar. O cristianismo é a única religião monoteísta que crê num único e indivisível Deus que se manifesta como uma Trindade de Pessoas. O Deus cristão e bíblico não existe solitariamente, ele é sempre a

comunhão das três pessoas divinas. 25

 

Essa percepção chegou-me ao coração alguns anos atrás quando deparei

com Gênesis 2.18 em que Deus declara solenemente: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”

(NVI). A primeira vez em que prestei, de fato, atenção nessa declaração

bíblica formulei uma equação que, à primeira vista, soou esquisita: Deus

mais um homem é igual a um homem sozinho. Fiquei imaginando uma

eventual cena, caso Adão se aproximasse de Deus reclamando de sua

solidão: “Ok, Deus, passei o dia dando nome aos animais e percebi que

todos eles passaram em pares, macho e fêmea, e cada um saía de minha

presença em busca de um cantinho aconchegante, onde se aninhavam de

mansinho. Fiquei com uma tremenda inveja quando me dei conta de que,

para mim, não existia par e, então, sentime muito sozinho. Vim reclamar e,

muito respeitosamente, apresentar minhas críticas ao Universo que o

Senhor criou. Está incompleto, falta alguma coisa. Tudo o que o Senhor

fez não é su ciente. Ainda não está bom”.

Deus poderia responder, furioso, fazendo com que Adão compreendesse

que ele mesmo, Deus, era seu par: “Que absurdo, você é tão estúpido que

não consegue enxergar que o par do boi é a vaca, do cavalo é a égua, do

cachorro é a cadela e que Eu, o Senhor Todo-poderoso, Criador dos céus e

da Terra, sou o seu par? Você não consegue enxergar que nós formamos o

par perfeito? Você não consegue perceber que o único ser criado à minha

imagem e semelhança é você, e que eu z você desse jeito porque desejava

me relacionar em termos especialíssimos com uma pessoa além de mim

mesmo? Ora, Adão, tenha a santa paciência...”.

Absurdo mesmo é esse diálogo entre Criador e criatura. Contudo, mais

absurda é a a rmação de Deus a respeito da solidão do ser humano.

Acredito que, por trás dessa declaração, está a mais bela de todas as

con ssões de Deus e a mais elevada expressão de sua essência, o amor, que

se traduz em abnegação, altruísmo, doação e autodoação. Por trás dessa

declaração feita por Deus: “Não é bom que o homem esteja só”, consigo

enxergar o diálogo da comunhão da Trindade: “Nós não somos su cientes

para a felicidade humana. Nós não bastamos para que o homem seja plenamente realizado no Universo que criamos. Nossa insistência em

reivindicar a exclusividade da dedicação e afeição do homem vai acabar

condenando-o a uma infelicidade crônica e eterna. Precisamos tomar

alguma providência”.

A insu ciência de Deus e a consequente solidão do homem geram a

necessidade da criação da mulher.

 

Depois que formou da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus os trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Assim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens. Todavia, não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse. Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada”. Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma

só carne. O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha.26

 

A partir dessa narrativa, observamos que Adão enxergava Eva como

extensão de si mesmo, até porque estavam vocacionados a se tornarem “uma

só carne”.

De fato, Deus mais um homem é igual a um homem sozinho. E isso não é

bom, não é su ciente, não é bastante. Demorou para que eu entendesse a

a rmação de Deus. Tudo cou claro quando consegui enxergar Deus como

Pai, Filho e Espírito Santo, distinguindo as pessoas e crendo que me

relaciono com um Deus em três pessoas distintas, porém iguais. Aí está o

segredo. Deus é uma comunhão entre iguais. O ser criado à sua imagem e

semelhança deveria, necessariamente, ser completo apenas e tão somente

numa relação entre iguais. Isso explica por que Deus disse que o homem

estava só. O homem possuía alguém acima dele – Deus –, e também abaixo dele – o restante da criação –, mas não possuía ninguém ao lado dele, como

seu igual, e nessa dimensão estava sozinho.

Ariovaldo Ramos a rma que essa é a mais característica expressão da

imagem de Deus no ser humano. Considerando que todo o Universo está

impregnado de Deus, podemos a rmar que a imagem de Deus está em todo

o Universo. Por outro lado, considerando que a Bíblia a rma que Deus criou

o homem à sua imagem e semelhança, podemos depreender que existe uma

dimensão da imagem de Deus que apenas o homem consegue expressar, e

essa dimensão é a unidade na diversidade, a capacidade de pessoas distintas

tornarem-se uma só.

O argumento de Ariovaldo faz sentido. Até agora, falamos que Deus é

Espírito, e que, portanto, o ser humano também é um ser espiritual.

Dissemos que Deus é um ser pessoal, Espírito com atributos intelectuais,

afetivos e volitivos, e que, portanto, o ser humano também é uma pessoa.

Dissemos que Deus é criativo e ativo, e que exerce domínio sobre a sua

criação, e que, portanto, o ser humano também atua criativamente

transformando o mundo. Mas é fato que o ser humano não é o único ser

espiritual, pessoal e determinado, identi cado na Bíblia Sagrada: os anjos e

os demônios também o são. Resta concordar com Ariovaldo quanto ao fato

de que a única dimensão de Deus da qual apenas e tão somente o ser

humano é portador é a vocação de unidade-unicidade, a capacidade de

formar comunidade, de se tornar um, um entre seus iguais e um com Deus

Tri-Uno.

Essa unidade da humanidade explica o conceito cristão de salvação, pois

o propósito eterno de Deus é a geração de um novo homem, e esse homem

novo é coletivo, pois o objetivo dele (Cristo) era criar em si mesmo, de toda

a humanidade, um só homem novo,27 e por essa razão orou ao Pai pedindo:

 

Para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós [...] para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo

saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste. Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que me deste porque me amaste antes da criação do mundo.

João 17.21-24, NVI

 

Por essa razão, Paulo, apóstolo deixa claro que a experiência com o Cristo

é também uma experiência com o corpo de Cristo:

 

Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito. O corpo não é feito de um só membro, mas de muitos. Se o pé disser: “Porque não sou mão, não pertenço ao corpo”, nem por isso deixa de fazer parte do corpo. E se o ouvido disser: “Porque não sou olho, não pertenço ao corpo”, nem por isso deixa de fazer parte do corpo. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria a audição? Se todo o corpo fosse ouvido, onde estaria o olfato? De fato, Deus dispôs cada um dos membros no corpo, segundo a sua vontade. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Assim, há muitos membros, mas um só corpo.

O olho não pode dizer à mão: “Não preciso de você!”. Nem a cabeça pode

dizer aos pés: “Não preciso de vocês!” Ao contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são indispensáveis, e os membros que pensamos serem menos honrosos, tratamos com especial honra. E os membros que em nós são indecorosos são tratados com decoro especial, enquanto os que em nós são decorosos não precisam ser tratados de maneira especial. Mas Deus estruturou o corpo dando maior honra aos membros que dela tinham falta, a m de que não haja divisão no corpo, mas, sim, que todos os membros tenham igual cuidado uns pelos outros. Quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele. Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo”.

1 Coríntios 12.12-27, NVI

 

De modo que

Todos vocês são lhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo

 

nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus.28

 

Essa é a justi cativa da dimensão relacional da imago Dei. Deus é Uno,

mas é Três, distinto entre iguais. Assim também o ser humano é pleno

apenas na comunhão entre iguais, e tanto mais será um re exo da imagem

de Deus quanto mais desenvolver essa unidade com o próximo e com Deus.

 

CONCLUSÃO

Espero que não me tomem como alguém que foge do debate com a ciência,

mas não quero tomar partido na discussão entre evolucionismo e

criacionismo, exceto para a rmar perigosamente que não vejo

incompatibilidade entre o criacionismo e determinadas categorias do

evolucionismo. Isto é, não faço questão de a rmar (e, no fundo, considero

tolice) que o ser humano criado por Deus no Gênesis equivale ao espécime

contemporâneo que transita pela Avenida Paulista em São Paulo. Aprendi na

escola que a seleção dos humanoides, antes de dar a camisa dez ao Homo

sapiens sapiens, teve alguns outros artilheiros no campeonato da

peregrinação na história natural, como por exemplo o Homo habilis (2,5

milhões de anos), Homo erectus (1,8 milhão de anos), o Roma sapiens

arcaico (500 mil anos), até que nalmente o Homo sapiens sapiens chegou à

Europa há aproximadamente 40 mil anos. O fato é que a imagem de Deus (e

isso para mim é uma grande notícia) parece muito mais uma semente

plantada na espécie humana – e somente na espécie humana –, semente essa

que evolui e conduz o ser humano a degraus mais elevados de existência.

C. S. Lewis diz que:

O homem moderno talvez entenda melhor a ideia cristã da transformação se a relacionar com a da evolução – embora, é claro, haja alguns espíritos ilustrados que duvidem de sua existência –; e a todos nós ensinam que o homem evoluiu a partir de formas inferiores de vida. Em consequência, as pessoas às vezes se perguntam: E qual será a próxima etapa? Quando surgirá o ser que ultrapassará o homem? Ora bem, se você gosta de pensar nestes termos, o que o cristianismo nos diz é precisamente que esse “novo passo” já se deu e que realmente é inovador. Não é uma mudança de homens com cérebro para homens com mais cérebro ainda; é uma mudança que envereda para rumos completamente inesperados – a mudança da condição de criaturas de Deus para a condição de

lhos de Deus. E o primeiro exemplar da nova espécie já apareceu na Palestina,

há dois mil anos. Ele não é apenas um homem novo, um espécime dessa espécie, mas o homem novo. Ele é a origem, o centro e a vida de todos os homens novos. Veio por vontade própria ao Universo criado, trazendo consigo a Zoe, a nova vida – nova para nós, quero dizer, porque nele a Zoe sempre existiu. E transmite-a não por hereditariedade, mas pelo que chamei de bom contágio. Todos os que recebem essa vida fazem-no por um contato pessoal com ele. Os homens são novos por estarem em Cristo. Milênio após milênio, Deus foi dirigindo a natureza até ao ponto em que pudesse produzir criaturas capazes de transcendê-

la e de transformar-se em “deuses”, se assim o quisessem.29

 

Esse parágrafo de C. S. Lewis é um dos textos da literatura universal que

sustentam minha fé no cristianismo e no Cristo. Ele me coloca ao lado e

acima do mais avançado que a ciência já conseguiu chegar em tratar do ser

humano em sua origem, evolução e destino, bem como ao lado e acima de

todas as tradições de espiritualidade já discernidas no planeta. A a rmação

central do cristianismo está assim exposta: Deus me fez para que eu me

tornasse como Cristo. E tudo quanto devo me tornar como ser humano. Jesus

Cristo foi em sua peregrinação terrena. A imagem de Deus está explícita em

Jesus de Nazaré e em sua humanidade perfeita. Os santos apóstolos

disseram: “No princípio era o Verbo [Logos], e o Verbo estava com Deus. [...]

E o Verbo era Deus. O Verbo se fez carne e habitou entre nós [...] e vimos

sua glória, glória como a do unigênito [único gerado versus criado] do

Pai”; 30 Deus nos predestinou a ser “conformes a imagem de seu Filho, a m

de que ele seja o primogênito dentre muitos irmãos”; 31 Ele é antes de todas

as coisas, e nele tudo subsiste [...] é o princípio e o primogênito dentre os

mortos [...]. Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a

plenitude”. 32 Jesus de Nazaré, o Cristo, é, portanto, o padrão do que é

humano. Aquele que realmente deseja saber o que é a imagem de Deus no

ser humano, mais do que se perder em elucubrações teológicas e losó cas,

deve olhar para Jesus.

A dimensão pessoal da imago Dei é o conjunto de dotações e de

capacidades inerentes ao ser humano, e que o distingue do que não é

humano. E ninguém duvida de que Jesus de Nazaré, a quem mesmo os que

não consideram Deus chamam de “o mais iluminado de todos os espíritos

que pisou no planeta”, foi digno representante de todas as capacidades que

Deus pudesse ter compartilhado com o ser humano. A dimensão relacional

da imago Dei está explícita em Jesus de Nazaré, pois ninguém discute sua

capacidade de amar incondicionalmente, bem resumida na apresentação

que Pedro, apóstolo, faz dele em Atos 10.38 como aquele que andou fazendo

o bem. A dimensão criativa da imago Dei também é expressa por Jesus,

evidenciada pelo seu domínio sobre o restante do Universo criado. Jesus deu

provas su cientes de que o mundo lhe obedecia: ele acalmou tempestades,

curou enfermos, alterou os elementos (multiplicou pães e peixes,

transformou água em vinho), e até mesmo ressuscitou pessoas. Tudo fez

com exata consciência de si mesmo e de sua vocação. Entendia-se não

apenas como o Filho de Deus, mas também como o Filho do homem. Sabia

que viera ao mundo para “buscar e salvar o que estava perdido”,33 e não

“para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.34

Finalmente, a dimensão espiritual da imago Dei é a própria identidade de

Jesus. Sendo Deus encarnado e sabendo que Deus é Espírito, ninguém mais

expressou em termos absolutos a Pessoa de Deus quanto Jesus, que, por esse

motivo, foi chamado de “o Cristo”.

Essas são as razões por que o cristianismo é o caminho daqueles que

escolheram responder ao sentido da vida a partir da imago Dei conforme

expressa em Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus.