Vivendo com propósitos
13. Amor
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AMOR
DIABOS
Quando meus lhos perguntaram: “Pai, quem criou o Diabo?”, eu respondi
que tinha sido Lúcifer. E assim acredito até hoje. Deus criou Lúcifer, e
Lúcifer criou o Diabo. Deus criou um Anjo de Luz, e o Anjo de Luz, no
exercício de sua liberdade moral, rebelou-se contra seu Criador e tornou-se
Diabo.
Já sei. Você deve estar se perguntando se eu acredito mesmo na existência
do Diabo. Acredito sim. E foi C. S. Lewis quem mais me ajudou a
equacionar minha inteligência e vontade de não acreditar em Diabo com
essa gura medievalizada, isto é, própria da Idade das Trevas. Concordo
com Lewis. Acredito na existência do Diabo pelo menos pelas seguintes
razões: porque explica um bom número de fatos; está de acordo com o claro
senso das Escrituras Sagradas, com a tradição da cristandade e com as
crenças da maioria dos homens de quase todas as épocas; e não entra em
con ito com nada do que qualquer das ciências demonstra ser verdadeiro. 1
Mas o mais importante a respeito de crer ou não crer na existência do
Diabo é saber o que se entende por Diabo.
Ora, se pelo Diabo signi ca-se uma potência oposta a Deus e, como Deus, existente por si mesma desde toda a eternidade, a resposta é certamente “não”. Não existe ser incriado, exceto Deus. Deus não tem opostos. Nenhum ser poderia atingir a “perfeita maldade” oposta à perfeita bondade divina, visto que, tiradas todas as espécies de coisas boas (inteligência, vontade, memória e a própria existência), nada restaria nele. O certo seria perguntar se creio nos diabos. Pois creio. Ou antes, creio nos anjos e creio que alguns deles, abusando do dom do
livre-arbítrio, tornaram-se inimigos de Deus. A estes podemos chamar diabos. Pela natureza não diferem dos anjos bons, mas sua natureza é depravada. Diabo é
o oposto de Anjo apenas como Homem bom é oposto de Homem mau.2
Lewis também desmascara o que chama de “fantasia absurda”, a saber, a
ideia de que “os diabos estão engajados na desinteressada perseguição de
algo que se chama o Mal”. Na verdade:
os anjos maus, como os maus homens, são totalmente práticos. Seus motivos são dois. O primeiro é o medo ao castigo. O segundo é uma espécie de fome. Finjo que os diabos, num sentido espiritual, podem comer um ao outro – e a nós. Até na vida humana tem-se visto a paixão de dominar, quase de digerir o próximo; de tornar toda sua vida intelectual e emocional apenas uma extensão da nossa, fazê-lo odiar nossos ódios, ressentir nossas queixas e dar largas ao nosso próprio egoísmo por meio dele, tanto quanto por meio de nós mesmos. Na Terra esse desejo é frequentemente chamado “amor”. No inferno njo que o reconhecem como fome. Lá a fome é mais voraz e uma satisfação mais plena é possível. Lá eu sugiro que o espírito mais forte – não havendo talvez corpo para impedir a ação – pode real e irrevogavelmente sorver o mais fraco e incorporá-lo a si, empanturrando permanentemente o próprio ser da ultrajada individualidade do mais fraco. É por essa razão (imagino) que os diabos desejam as almas humanas e as almas uns dos outros. Eis por que Satã deseja todos os seus seguidores, todos os lhos de Eva e todas as hostes do céu. Sonha com o dia em que terá todos
dentro de si e tudo o que disser “Eu” só poderá fazer por meio dele.3
É assim que creio em diabos, nessa ciranda do que Lewis chama de
“canibalismo espiritual”.
ENDIABRADOS
Linda Blair. Caso nunca tenha ouvido falar, trata-se da atriz que interpretou
o papel de Regan MacNeil em O Exorcista, o primeiro e único lme de
terror indicado para o Oscar na história de Hollywood. Aquelas cenas dantescas reproduzem-se no imaginário popular para identi car pessoas
consideradas “endiabradas”.
Alguns podem alegar que o fenômeno é mais bem explicado como
automatismo, que se manifesta por meio da ação mecânica ou involuntária,
e é uma característica de algumas formas de esquizofrenia ou, quem sabe,
como desordem obsessiva e compulsiva, ou ainda como síndrome de Gilles de
La Tourette, uma desordem na personalidade, na qual as vítimas gritam
descontroladamente, soltam grunhidos, debatem-se e usam linguagem suja
ou indecente. Mas o fato é que a maioria das pessoas que depara com cenas
minimamente semelhantes (e infelizmente não são poucas) vai dizer que o
fulano “está com o diabo no corpo”.
O que acontece nos palcos dos programas evangélicos de televisão e nas
noites de sexta-feira num sem-número de terreiros de cultos afro é
consensualmente compreendido como ato de “receber uma entidade
mediante transe mediúnico” (verbete “incorporar”, no Aurélio), o que
signi ca que outro espírito está se manifestando por meio de um corpo que
não lhe pertence. Isso já me impressionou bastante. Desde minhas
experiências na infância, observando os movimentos dos espíritos que
minhas tias chamavam de Pombagiras, Exus e Cosme e Damião. Para falar a
verdade, já tive pânico dessas experiências e só deixei de evitá-las como “o
diabo foge da cruz” quando me associei à própria Cruz.
Hoje, esses fenômenos já não me impressionam tanto, porque adquiri
outra perspectiva do que seja “estar com o diabo no corpo” ou “ser
endiabrado”. Não me interessa tanto essa relação de incorporação de
espíritos em corpos alheios, embora me solidarize com os que cuidam de
pessoas assim a igidas, porque percebi algo muito mais sutil e danoso nesta
disputa espiritual. Tratar os diabos como entidades que incorporam passou
a ser secundário em relação às possibilidades de personalidades que vão se
tornando diabos independentemente de qualquer experiência de
incorporação. Estou mais preocupado com os diabos enquanto arquétipos do que com eles enquanto entidades. Quando a questão é a disputa entre
espíritos fortes e fracos para ver quem controla quem, o Espírito do Cristo é
insuperável. Nisso descanso e nessa dimensão não temo qualquer espírito. O
que temo mesmo é meu espírito.
Temo meu espírito porque acredito que, assim como qualquer outra
criatura no Universo, posso me demonizar (cruz credo!), isto é, posso
exercitar minha vontade contra o amor de Deus, posso me tornar um
canibal espiritual desejando viver apenas na dimensão do prazer egoico,
tentando sorver tudo o que encontro à minha frente para engolir e chamar
de “eu” e “meu”.
HUMANIZADO
Deus é três. Esse é um mistério difícil de entender: como um só Deus ao
mesmo tempo é três. Chegamos à Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus
Espírito Santo. Ricardo Barbosa apresenta Deus dizendo que ele é
essencialmente relacional. Esta é a diferença entre o monoteísmo trinitário cristão e os outros monoteísmos unitários, como o judaísmo e o islamismo. Nestes, encontramos a solidão do Uno, de um Deus que não tem nenhum outro igual com o qual possa se relacionar. O cristianismo é a única religião monoteísta que crê num único e indivisível Deus que se manifesta como uma Trindade de Pessoas. O Deus cristão e bíblico não existe solitariamente, ele é sempre a
comunhão das três pessoas divinas. 4
Leonardo Boff segue a mesma trilha, mas inclui também o ser humano
na unidade da Trindade:
As pessoas eternas coexistem umas dentro das outras. Um dinamismo de vida e de amor as une de tal forma que se constituem a si mesmas numa união integradora, plena e completa [...] Essa unidade se constitui pela abertura essencial de uma pessoa à outra, mais ainda pela interpenetração de uma na
outra de tal forma que são sempre uma com a outra. Esta unidade está aberta para fora, pois insere nas pessoas amadas também as perdidas que buscam
perdão e o universo em sua totalidade.5
O resumo dessa relação indissociável entre as pessoas da Trindade e as
pessoas humanas, como eu e você, está explícito nas palavras afetivas com
que Jesus ora ao Pai que está nos céus:
Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a m de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos.
João 17.20-22, ARA
A plena realização humana não pode prescindir desse triângulo formado
pelo eu, o divino e o próximo, numa integração de absoluta abnegação de
cada um em favor dos outros. Assim como Deus é uma unidade plural,
também o ser humano será mais humano à proporção de sua capacidade
desenvolvida de tornar-se uno com o próximo. Em outras palavras, você
precisa de gente para ser gente. Na verdade, quanto mais entregue a outras
gentes, mais gente você será. A vida não fará sentido, ou, melhor dizendo,
você não experimentará a plenitude da existência que se pode chamar
humana a menos que se entregue em altruísmo e abnegação, construindo
vínculos profundos de amor, de afeto e de amizade.
A existência depende da capacidade de transcender ao próprio eu.
Por esse motivo compreendo o fato antropológico primordial que o ser humano deva sempre estar endereçado, deva sempre apontar para qualquer coisa ou qualquer um diverso dele próprio, ou seja, para um sentido a realizar ou para outro ser humano a encontrar, para uma causa à qual consagrar-se ou para uma pessoa a quem amar. Somente na medida em que consegue viver esta
autotranscendência da existência humana, alguém é autenticamente homem e autenticamente si próprio. Assim o homem se realiza, não se preocupando com o realizar-se, mas esquecendo a si mesmo e dando-se, descuidando de si e
concentrando seus pensamentos para além de si.6
Essa é uma consequência de você ter sido criado à imagem de Deus. Um
Deus que é três não poderia criar uma expressão de si mesmo que não fosse
destinada a viver uma unidade plural.
AMOR
O sentido da vida encontra lugar numa parceria de amor entre Deus e os
homens. Bernardo de Clairvaux, monge cisterciense que viveu entre 1090-
1153, ensinou que existe uma evolução no exercício de amar: “Como a
natureza é frágil demais e fraca demais, a necessidade manda-a pôr-se
primeiro a serviço de si mesma. É o amor carnal; o homem começa por
amar a si mesmo pelo simples amor a si”. Em seguida, “é preciso se elevar ao
segundo grau do amor, que é o amor a Deus por amor a si mesmo, e, depois,
ao terceiro grau, que é amar a Deus por amor a Deus, até chegar ao quarto e
último grau, só se amar por Deus”.
Na verdade, essa evolução vai do amor a si mesmo, passando pelo amor
ao próximo e chegando ao amor a Deus. A pergunta a respeito da ordem
desses amores daria uma boa discussão.
Como desenvolver o amor próprio sem o amor de Deus? Como receber o
amor de Deus senão acolhendo o amor do próximo que nos é oferecido?
Como amar o próximo sem o amor próprio? Levadas às últimas
consequências, essas perguntas nos deixariam num círculo vicioso – ou
virtuoso, já que se trata de amor. O entrelaçamento de amor entre o eu, o
divino e o próximo é um sistema indissolúvel que nos livra de nos
tornarmos diabos e nos faz mais humanos. O paradoxo é que, para nos
tornarmos mais humanos, precisamos abandonar nosso egoísmo em entrega abnegada ao próximo, de onde se depreende que amar é diminuir-se, é
limitar-se, morrer para si mesmo. Nenhum relacionamento sobrevive sem a
autoimposição de limites, pois enquanto o eu for mais importante do que o
relacionamento de amor, o relacionamento será utilizado para a satisfação
do eu, portanto não será um relacionamento de amor.
Comte-Sponville7 acredita que o amor divino (se é que Deus existe, diz
ele) é um ato de diminuição, uma fraqueza, uma renúncia. Absorve o
pensamento de Simone Weil que diz que:
a criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de renúncia. Deus e todas as criaturas é menos do que Deus sozinho. Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser. Esvaziou-se já nesse ato de sua divindade. É por essa razão que João diz que o Cordeiro foi degolado já na constituição do mundo. Deus permitiu que existissem coisas diferentes Dele e valendo in nitamente menos que Ele. Pelo ato criador negou a si mesmo, como Cristo nos prescreveu nos negarmos a nós mesmos. Deus negou-se em nosso favor para nos dar a possibilidade de nos negar por Ele. As religiões que conceberam essa renúncia, essa distância voluntária, esse apagamento voluntário de Deus, sua ausência aparente e sua presença secreta aqui embaixo, essas religiões são a verdadeira religião, a tradução em diferentes línguas da grande Revelação. As religiões que representam a divindade como comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo são falsas. Mesmo que monoteístas, são idólatras.
Em outras palavras, um Deus que não se esvazia é um Diabo.
Deus não age como tirano e não força seu poder para cima de suas
criaturas sob pena de esmagá-las, tirando-lhes todo o espaço de liberdade de
que precisam para existir. Deus não invade. Não usurpa. Não manipula.
Deus falou por esses dias nas telas de Hollywood por meio de Jim Carrey
e Morgan Freeman. O Todo-poderoso é a história de um homem que reclama
de Deus o tempo todo, acreditando que seus infortúnios são provocados,
quer pela atividade quer pela omissão do Todo-poderoso. No ápice de sua
angústia, Bruce decide jogar na cara de Deus todos os impropérios que muitos de nós gostaríamos de falar, mas não temos coragem. A surpresa é
que Deus aceita o desa o da forma mais surpreendente: deixa Bruce “ser
Deus” por uma semana. Ao delegar todos os seus poderes, Deus estabelece
duas regras: não diga a ninguém que você é Deus e não inter ra no livre-
arbítrio. Depois de muita confusão, chega-se ao coração do lme. Bruce
pergunta para Deus: “Como posso fazer com que as pessoas me amem sem
interferir em seu livre-arbítrio?”, ao que Deus reage dizendo que está
procurando essa resposta há séculos.
O resumo da ópera é que amor é abnegação. Amar é dar permissão para
ser ignorado. Amar é estar disposto a morrer, pelo menos ser como um
morto – um ausente, não existente – para aquele que se ama. Indo mais
longe, amar é abrir mão de tudo, inclusive de si mesmo. O Diabo quer
expandir-se e engolir tudo para tudo chamar de “eu”. Deus quer esvaziar-se.
Nós estamos entre estes dois arquétipos: existir em favor do outro, numa
parceria de amor ou existir em função do eu, numa guerra tirânica entre
egos.
“Espere um pouco”, você diria. “Agora você colocou Deus e o Diabo no
mesmo patamar.”
Nada disso. Deus continua sendo Todo-poderoso. Deus continua sendo o
padrão ao qual todo o Universo, especialmente você, deve se conformar, sob
pena de cair num niilismo sem saída, num caos ainda mais grotesco do que
o que já nos encontramos. Lembre-se de que estamos em busca de sentido e
signi cado para a existência humana. Pois então não se esqueça de que
fomos criados à imago Dei, feitos para viver em uma unidade plural, em
uma fraternidade solidária, abnegada e altruísta. Não fomos feitos para
engolir egos de maneira a tornar nosso ego o maior de todos. Fomos feitos
para conviver e, para isso, precisamos dar espaço para o outro. Na verdade,
devemos admitir que somente encontraremos nossa identidade mais
profunda e nossa realização mais plena quanto mais espaço dermos para que outros existam conosco e quanto mais estivermos dispostos a existir com
outros.
SOFRER
Os gregos não buscavam o amor. Buscavam a paz. Mais precisamente, a
serenidade, um espírito inabalável, resultado de duas características que
deveriam ser desenvolvidas no ser humano: autárkeia e apátheia. 8
Autárkeia era a perfeita independência. A perfeita autossu ciência em
relação a qualquer objeto ou qualquer pessoa. Era uma atitude própria
daqueles que acreditavam que encontrariam sua plena realização e sua
felicidade em si mesmos, isto é, que não podiam depender de nada fora de si
mesmos para que se tornassem realizados e felizes.
A apátheia era a incapacidade de ser abalado. Daí vem a nossa palavra
apatia, que o Aurélio de ne como “estado de insensibilidade;
impassibilidade, indiferença. No cepticismo e no estoicismo, estado em que
a alma se torna insensível à dor e a qualquer sofrimento”. O estoico Epicteto,
contemporâneo do apóstolo Paulo, ensinava que “o homem pode
desenvolver afeição, desde que nunca, em tempo algum, dependa de outra
pessoa para a sua felicidade e alegria [...]. A loso a é o treinamento para a
indiferença. Os homens nunca devem xar o coração em nenhum objeto ou
pessoa, porque nada e ninguém deve ser necessidade para um homem. O
homem deve ensinar-se a não se importar com nada”. Dizia que o homem
“primeiro deve começar a não se importar com coisas simples, uma xícara,
por exemplo, que pode se quebrar, depois, um miserável cachorro, um mero
cavalo, um pedaço de terra, mais adiante, e facilmente chegará a não se
importar com o seu próprio corpo e com o que acontece consigo mesmo,
então nalmente poderá perder os seus lhos e esposa e não se importar”.
Epicteto acreditava que “o amor é uma escravidão” e, nesse sentido, a
loso a é o treinamento para a indiferença. O amor é uma escravidão.
Exatamente durante os dias de Epicteto, os cristãos começaram a espelhar a mensagem que ensina a amar. William Barclay comenta que enquanto a
loso a pagã dizia: “Ensina-te a não te importar”, Cristo diz: “Ensina-te a te
importar, apaixonada e intensamente com os outros”. A loso a pagã dizia:
“Não deves, em circunstância alguma, car pessoal e emocionalmente
envolvido na situação humana”. Cristo diz: “Deves entrar na situação
humana de tal maneira que vejas, penses e sintas com os olhos, a mente e o
coração da outra pessoa, do teu próximo, com quem te identi cas”.
Enquanto os gregos acreditavam que a maturidade está na indiferença, na
capacidade de não ser abalado, de não ser afetado, de não ser demovido de
sua estabilidade, o cristianismo vem dizendo que a maturidade da existência
humana está justamente na capacidade de importar-se, de deixar-se abalar,
de deixar-se demover, de ter o coração revolto dentro de si, as entranhas
remexidas a ponto de Jesus dizer: “Nisto conhecerão todos que sois meus
discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”.9 A maior característica de vocês
será esta: olharão para os outros e se importarão com eles; não estarão
centrados em si mesmos, olhando para dentro, acostumados e acomodados
numa felicidade interior, pelo contrário, jamais conseguirão ser plenamente
felizes convivendo com a dor alheia, porque a dor alheia há de impactar o
seu coração. Serão escravos do sofrimento dos outros. Isso é amar.
Talvez, numa expressão simples, mais constrangedor é o pranto de Jesus
no sepultamento de Lázaro do que seu caminhar sobre as águas, porque o
caminhar sobre as águas, o multiplicar de pães, demonstra poder e
autoridade, mas o pranto de Jesus, no sepultamento de Lázaro, demonstra
que ali está um Deus que se importa, e que se importa comigo e com você. A
atenção de Jesus ao cego que grita: “Filho de Davi, tem compaixão de mim”
demonstra que ali caminha um Deus que se importa, e que se importa
comigo e com você.
O “Deus cristão” não é o “deus grego”. Não é o deus estável, inabalável, o
Deus que não é mexido por nada, pelo contrário, é um Deus que chora, um
Deus que se importa. Os evangelhos a rmam que Jesus foi movido de íntima e profunda compaixão, o que signi ca que suas entranhas foram
remexidas. 10 Quando Jesus passava sobre os mendigos nas calçadas e seu
coração batia mais acelerado, ele sentia alguma coisa na boca do estômago
ou o que nós costumamos chamar de nó na garganta. Jesus via uma
prostituta sendo arrastada pela rua e lacrimejava. Jesus via crianças e
abaixava-se para pegá-las no colo e lhes contar histórias. Jesus passava por
pessoas empoleiradas para que pudessem vê-lo e cruzava com elas o olhar.
Nessas horas, seus olhos se enchiam d’água, e ele dizia: “Hei, você, vamos
conversar em particular.”
Pudesse eu de nir em uma expressão o que é amar, diria que amar é
importar-se. O que é amar? Amar é importar-se. Nós achamos que amar é
passar por uma pessoa que sofre e sentar ao lado dela, colocar o braço em
volta de seu ombro, chorar com ela e suprir sua eventual necessidade. Mas
amar também é entrar no templo cheio de comerciantes da fé e dar pontapés
em todas as mesas, como fez Jesus. É dizer: “Eu amo, eu tenho entranhas
que se remexem, sou vulnerável.”
Amar é se importar a tal ponto de nos tornarmos escravos do zelo pelas
realidades que amamos. A maturidade não é a estabilidade que deixa de ser
vulnerável. Na verdade, quanto mais vulneráveis nos tornamos, mais
maduros e completos camos.
FRATERNIZADO
Naquela noite fria de São Paulo, o culto foi transferido da Capela para o
auditório do Colégio Batista, maior, com capacidade de acolher mais
pessoas que certamente chegariam para a conferência da Faculdade
Teológica Batista de São Paulo. Era meu primeiro ano no seminário e levei
para aquele auditório todo o entusiasmo de um menino de 17 anos.
Estariam no palco os homens que eu gostaria de me tornar ao crescer. Com
sua simplicidade, vestindo uma calça xadrez e uma bata branca lisa, o
diretor, dr. Werner Kaschel, abriu a celebração lendo um trecho dos Salmos, tradução na Linguagem de Hoje, e, em seguida, apresentou o orador da
noite: dr. Olavo Feijó, cuja gura era tão bem-humorada e cativante quanto
a do seu an trião. Eram amigos de longos anos. A apresentação foi afetiva e
com elogios discretos, próprios dos nobres. Tomei nas mãos lápis e papel e
me preparei para anotar cada palavra daquela preleção.
Passaram-se mais de vinte anos e descobri que não precisava ter anotado
nada. Naquela noite fria de São Paulo, o dr. Olavo Feijó nos ensinou apenas
uma frase que, desde então, cou indelevelmente incrustada em meu
coração como a mais exata de nição conceitual que conheço para o verbo
amar: “Amar é dar o melhor do que tem e o melhor do que é em benefício
da pessoa amada”.
Quem ama se importa. Quem ama doa. E nunca deu quem deu do seu
sem dar de si. Quem ama se importa. Quem ama se doa. Dar e dar-se, as
expressões do verbo amar. Quem ama renuncia. Renuncia a si mesmo, pois
“do mesmo modo como Deus, na criação, renuncia a ser tudo, devemos
renunciar a ser alguma coisa”. 11