Vivendo com propósitos
4. Caminho para a felicidade
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CAMINHO PARA A FELICIDADE
DILEMAS
Escrevo estas linhas na quarta-feira, 25 de setembro de 2002. Amanhã é
aniversário da morte de Sigmund Freud. Na manhã de 26 de setembro de
1939, o corpo de Freud foi cremado em Golders Green, região Noroeste de
Londres. Stefan Zweig, um dos oradores da cerimônia fúnebre, disse que
“em qualquer lugar onde se busque avançar na compreensão do labirinto do
coração humano, a luz do entendimento intelectual de Sigmund Freud
brilhará sobre o caminho”. Não tenho dúvidas quanto à veracidade das
palavras de Zweig. De fato, não é possível falar a respeito da interioridade
humana sem citar Freud.
Apesar de seu ateísmo confesso, a obra de Freud, entretanto, não foi
desenvolvida tendo o homem como protagonista. Em sua autobiogra a, ele
escreve: “Minha inicial familiaridade com a história da Bíblia, teve,
reconheci muito tarde, um efeito duradouro sobre todo o meu interesse”.
Durante toda a sua vida, Freud tratou a existência de Deus como a mais
importante questão a ser resolvida. Seu último livro foi Moisés e o
monoteísmo, que escreveu depois de completar 80 anos. Parece que o
homem que conseguiu encontrar as mais essenciais respostas para as
perguntas que habitam o submundo do coração humano, chegou ao m da
vida com uma pergunta mal respondida. E Deus estava bem no centro da
questão.
Woody Allen disse que “não haverá nenhuma solução importante para os
problemas da humanidade enquanto não alcançarmos alguma compreensão
de quem somos, qual o propósito da criação, o que acontece depois da morte. Enquanto essas questões não forem resolvidas, estaremos em maus
lençóis”. De fato, a maioria das pessoas está mesmo em maus lençóis, pois
pouca gente já conseguiu respostas satisfatórias para as perguntas universais:
de onde vim, para onde vou e o que devo fazer no intervalo?
Carl Jung parecia ter razão ao diagnosticar que a neurose geral de nossa
época é a falta de sentido das vidas vazias. Em resposta a essa demanda do
mercado, os conselheiros espirituais e losó cos – atualmente chamados de
personal coaches – estão em alta. Por ,essa razão as prateleiras estão cheias de
títulos do tipo sete hábitos das pessoas muito e cazes, oito fundamentos para
a vida feliz, sete obstáculos para a felicidade, vinte e uma leis do sucesso e
outros tantos. Poderíamos seguir com os exemplos, que se multiplicam a
cada dia. Abre parêntese. Li muitos desses livros e aprendi muita coisa. Sou
grato e devo prestar homenagens a todos eles. Fecha parêntese. Mas minha
pergunta, ao receber tais sugestões, sempre foi a mesma: de onde eles tiram
esses números de proposições? Isto é, por que 7 hábitos e não 12 ou 21? Por
que 5 propósitos e não apenas 3? Por que 21 leis irrefutáveis e não apenas 13
ou 7? Por que 8 fundamentos e não 10? Nunca obtive resposta.
PONTO DE PARTIDA
A premissa já foi estabelecida: ninguém é feliz porque encontrou a
felicidade; as pessoas são felizes porque encontraram signi cado para sua
existência. A felicidade não é um objetivo a ser perseguido, mas a
consequência de uma vida com sentido. A pergunta que está no ar, portanto,
não é “como posso ser feliz?”, mas sim “o que dá sentido à minha vida?”,
“como posso desenvolver uma vida com signi cado?”. Para responder a estas
questões precisamos mais do que “bom senso organizado” ou conclusões
por amostragem do tipo “o que as pessoas felizes têm em comum”.
Precisamos de nir um caminho coerente do começo ao m. Vivendo com
propósitos vai além da compilação de máximas e de princípios da sabedoria
universal. Vivendo com propósitos apresenta uma resposta cristã para o sentido da vida – oferece os fundamentos do cristianismo para o
desenvolvimento de uma vida com signi cado. Nesse sentido, Vivendo com
propósitos apresenta um caminho para a felicidade.
Abre mais um parêntese. Caso você esteja incomodado com essa
conversa de felicidade pra lá e felicidade pra cá, saiba que o cristianismo não
questiona a legitimidade do anseio de felicidade; questiona, sim, os
caminhos pelos quais o ser humano pretende chegar lá. Fecha parêntese.
A tarefa que temos pela frente é discernir como a tradição de
espiritualidade judaico-cristã responde à pergunta a respeito do sentido e
signi cado da vida. Creio que, qualquer que seja a resposta, devemos partir
dos fundamentos elementares desta questão, a saber: teologia, antropologia
e teleologia. O Novo Dicionário Aurélio pode nos ajudar.
Teologia [do gr. theología, “ciência dos deuses”] é o estudo das questões referentes ao conhecimento da divindade, de seus atributos e relações com o mundo e com os homens, e à verdade religiosa.
Antropologia [de antrop(o)- + -logia] é o estudo ou re exão acerca do ser humano, do que lhe é especí co; designação comum a diferentes ciências ou disciplinas cujas nalidades são descrever o ser humano e analisá-lo. Teleologia [do gr. tele(o)- + -logia] é o estudo da nalidade; doutrina que considera o mundo como um sistema de relações entre meios e ns; teologismo [cf., nesta acepç., nalismo.]; estudo dos ns humanos.
DO INÍCIO, POR UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIOS A discussão a respeito de Deus pode ser resumida em quatro grandes
categorias: ateísmo, deísmo, teísmo e agnosticismo. Para os ateus, Deus está
fora de questão. Estranhamente, entretanto, o ateu Bertrand Russell disse
que “enquanto você não admite Deus, a questão a respeito do propósito da
vida ca sem sentido”. Os deístas, por sua vez, acreditam em Deus, ou
melhor, em um deus, um deus impessoal, a totalidade do universo, a causa
de todas as coisas, em que deus e matéria se confundem e não há relação de
causa e efeito entre os dois; esse é um deus acima do bem e do mal, um deus que não é persona. Os teístas acreditam que existe, sim, um Deus, e este
universo foi criado por ele. Esse Deus criador é uma pessoa. Finalmente, há
os que se recusam a entrar na discussão, pois consideram que a hipótese
Deus não pode ser demonstrada: ninguém pode provar que Deus existe, e
ninguém pode provar que Deus não existe. De modo simples, essa é a tese
dos agnósticos.
O Novo Dicionário Aurélio pode nos ajudar mais uma vez.
ateísmo [De ateu + -ismo.] S. m. 1. Doutrina dos ateus. 2. Falta de crença em Deus. 3. Filos. Atitude ou doutrina que dispensa a ideia ou a intuição da divindade, quer do ângulo teórico (não recorrendo à divindade para se justi car ou fundamentar), quer do ângulo prático (negando que a existência divina tenha qualquer in uência na conduta humana). [Cf., nesta acepç., teísmo, panteísmo e acosmismo.]
deísmo [De de(i)- + -ismo.].S. m. Filos. 1. Sistema ou atitude dos que, rejeitando toda espécie de revelação divina e, portanto, a autoridade de qualquer Igreja, aceitam, todavia, a existência de um Deus, destituído de atributos morais e intelectuais, e que poderá ou não haver in uído na criação do Universo. [Cf. teísmo.]
teísmo [De te(o)- + -ismo.] S. m. Filos. 1. Doutrina que admite a existência de um deus pessoal, causa do mundo. [Cf. ateísmo, deísmo e panteísmo.] agnosticismo [Do ingl. agnosticism.] S. m. Filos. 1. Segundo omas Henry
Huxley (1825-1895), naturalista inglês, posição metodológica que só admite os conhecimentos adquiridos pela razão e evita qualquer conclusão não demonstrada. 2. Atitude que considera inúteis as discussões sobre questões metafísicas, já que estas tratam de realidades incognoscíveis. 3. P. ext. Doutrina, ou atitude, que admite uma ordem de realidade que é incognoscível. [Cf. dogmatismo (1).]
O DEUS JUDAICO-CRISTÃO
Enquanto me preparava para ser examinado pelo concílio de pastores que,
na minha tradição Batista, me credenciaria para o exercício da atividade
pastoral, fui aconselhado por um dos meus professores no seminário: “Meu
lho, mostre suas credenciais na primeira pergunta. Geralmente os examinadores iniciam solicitando do candidato uma de nição de Deus.
Responda que Deus não pode ser de nido, pois de nir é delimitar,
estabelecer limites, e isso contraria, na essência, toda e qualquer
compreensão a respeito de Deus. Se você zer isso, vai sair na frente e
determinar o tom do restante do exame”. Encarei aquela banca examinadora
cheio da con ança e da prepotência que caracterizam a juventude
inexperiente. Minha primeira resposta estava na ponta da língua, e eu mal
podia esperar para retrucar a meu algoz. Do alto de sua sabedoria,
entretanto, meu examinador mandou a primeira pergunta: “Sabemos que
Deus não pode ser de nido. Mas pode ser percebido. Como você percebe
Deus?”. Sou grato ao pastor Edson Borges de Aquinno, meu examinador,
que naquela primeira pergunta me convidou à humildade, mostrando
repetidas vezes, durante aquelas inesquecíveis quatro horas de precisas
perguntas, que o labor teológico se faz com a alma e o coração, e não com a
mente e os manuais de teologia e loso a. Desde então, tenho tentado
“perceber Deus”.
Claro, creio nas múltiplas expressões da revelação de Deus aos homens.
A cosmologia, a antropologia, a história, a Bíblia Sagrada e Jesus de Nazaré,
sua palavra nal. Creio na iluminação do Espírito Santo. Creio também
naquilo que Don Richardson chamou de Fator Melquisedeque, a saber, os
sinais de Deus em todas as culturas e tradições de espiritualidade. Mas creio
que todos os sinais devem ser decodi cados na interioridade da experiência
de cada pessoa, de modo que Deus seja uma realidade experimentada e
vivenciada, não apenas um objeto de estudo.
O melhor que consegui até agora foi perceber Deus como o fundamento
pessoal de toda a realidade existente. Essas duas dimensões são, para mim, o
mínimo irredutível da percepção de Deus: Fundamento e Pessoal –
Fundamento Pessoal.
DEUS NO MUNDO
Quando eu morrer, verei o avesso do mundo.
O outro lado, além do pássaro, da montanha, do poente. O signi cado verdadeiro, pronto para ser decodi cado. O que nunca fez sentido, fará sentido,
O que era incompreensível, será compreendido.
– Mas, e se o mundo não tiver avesso?
Se o sabiá na palmeira não for um signo,
Mas apenas um sabiá na palmeira? Se a
Sequência de noites e dias não zer sentido
E nessa Terra não houver nada, apenas terra?
– Mesmo se assim for, restará uma palavra
Despertada por lábios agonizantes,
Mensageira incansável que corre e corta
Campos interestelares, corta galáxias que giram,
E clama, reclama, grita.
Gosto desse poema do polonês Czeslaw Milosz, Nobel de Literatura,
porque expressa a impressão popular de que, após a morte, o mundo
nalmente fará sentido. Mas o que me chamou mesmo a atenção foi a
con ssão de seu desespero ao considerar a hipótese de que o mundo não
tenha qualquer outro sentido senão o que está diante de nossos olhos aqui e
agora: e se o sabiá na palmeira for apenas um sabiá na palmeira? E se não
houver nada por trás da sequência de dias e noites? Imagino que alguns
religiosos sacariam, do coldre, a Bíblia e despejariam sobre o poeta uma
avassaladora saraivada de conceitos mostrando que é isso mesmo. No céu, o
mundo fará sentido, e, depois, tentarão confortar o poeta convidando-o a
acreditar que Jesus poderá levá-lo para lá, o céu. Mas não posso ser contado
entre eles.
ALÉM DA IMANÊNCIA E A TRANSCENDÊNCIA Na teologia cristã, transcendência e imanência são dois atributos de Deus. A
transcendência trata do Deus Totalmente Outro, como se referem os
teólogos, aquele que “habita em luz inacessível”.1 A transcendência é a a rmação de que Deus, “embora presente e perpassando tudo, não pode ser
retido nas malhas de nenhuma presença concreta”. 2 A transcendência diz
que Deus está no mundo, mas também fora dele. Ou, como diz Huxley,
“somente o transcendente, o completamente outro, pode ser imanente sem
ser modi cado pelo vir a ser daquilo que ele habita”.3 Em outras palavras,
Deus está no mundo, mas não é o mundo. Deus abrange o todo, mas é mais
do que o todo. Deus está aqui e além. Por uma razão simples, Deus é, e não
pode ser contido pelo que está.
A imanência, por sua vez, fala que “Deus está presente e ativo dentro de
sua criação”, 4 como fundamento de toda a realidade. Este conceito é bem
desenvolvido nas tradições orientais. Por exemplo, a fórmula sânscrita tat
tvam asi: “Tu és isto” advoga que Deus é o Eu eterno imanente, o Princípio,
absoluto de toda a existência. O Bhagavad-Gita, texto sagrado do hinduísmo
panteísta, fala de Deus como Aquilo por que todo este mundo é penetrado. O
Upanixade (texto losó co anexado ao Veda, fundamento sagrado do
bramanismo e do hinduísmo), conta a seguinte história.
– Svetaketu, meu lho, tu, que estás tão ancho do teu saber e és tão dado
a críticas, solicitaste, porventura, ao teu mestre que te ensinasse o
conhecimento mercê do qual ouvimos o inaudível, percebemos o que não
pode ser percebido e conhecemos o que não pode ser conhecido?
– Que conhecimento é esse, senhor? – indagou Svetaketu. Replicou o pai:
– Assim como conhecendo um bloco de argila se conhece tudo o que é
feito de argila, residindo a diferença apenas no nome, mas sendo verdade
que tudo é argila, assim, meu lho, é esse conhecimento, de modo que, se o
possuirmos, conheceremos tudo.
– Os meus veneráveis mestres ignoram, sem dúvida, esse conhecimento;
pois, se o possuíssem, ter-mo-iam comunicado. Portanto, senhor, dê-mo.
– Assim seja – conveio o pai, e ordenou: – Traze-me um fruto da árvore
nyagrodha.
– Aqui está um, senhor.
– Quebra-o.
– Está quebrado, senhor.
– O que vês aí?
– Algumas sementes, senhor, excessivamente miúdas.
– Quebra uma delas.
– Está quebrada, senhor.
– O que vês aí?
– Absolutamente nada.
Disse o pai:
– Meu lho, nessa essência sutil que não percebes aí, nessa mesma
essência se encontra o ser da imensa árvore nyagrodha. Nisto, que é a
essência sutil, tudo o que existe tem o seu eu. Isto é o Verdadeiro, isto é o Eu,
e Tu, Svetaketu, és Isto.
– Rogo-lhe, senhor, fale-me mais sobre isso.
– Assim seja – tornou o pai, e disse: – Coloca este sal na água e vem ter
comigo amanhã cedo.
Fez o lho o que lhe fora prescrito. Na manhã seguinte, ordenou o pai:
– Traze-me o sal que puseste na água.
O lho procurou o sal, mas não o encontrou, pois o sal, naturalmente, se
dissolvera.
Disse o pai:
– Prova um pouco da água da superfície do vaso. Como está ela?
– Salgada.
– Prova um pouco da água do meio. Como está ela?
– Salgada.
– Prova um pouco da água do fundo. Como está ela?
– Salgada.
Ordenou o pai:
– Deita fora a água e em seguida vem ter comigo outra vez.
Assim fez o lho; mas o sal não se perdera, pois o sal existe para sempre.
Disse então o pai:
– Da mesma forma, aqui, nesse corpo que é teu, meu lho, não percebes
o Verdadeiro; mas ele, na verdade, está aí. Nisto que é a essência sutil, tudo o
que existe tem o seu eu. Isto é o Verdadeiro, isto é o Eu, e tu, Svetaketu, és
Isto.
Talvez você esteja se mexendo na poltrona e começando a descon ar que
estou advogando o panteísmo. Mas de fato, o panteísmo não fala da
presença de Deus em tudo e todas as coisas. O panteísmo, na verdade, fala
que Deus é exatamente a soma deste tudo e de todas as coisas – Deus é tudo
e Tudo é Deus. O panteísmo, além de roubar de Deus seu mais essencial
atributo, a saber, a pessoalidade, esgota-se na imanência. O cristianismo,
entretanto, não é panteísta. O cristianismo pode chegar perto do
panenteísta5 – ver tudo em Deus – mas jamais do panteísmo – chamar Deus
de tudo.
Tudo está em Deus: “nele vivemos, nos movemos e existimos”, 6 disse
Paulo, apóstolo, em Atos 17, citando um poeta grego em seu discurso em
Atenas, con rmando que “dele, por ele e para ele são todas as coisas”.7
Teilhard de Chardin falava do le milieu divin: nós estamos dentro de Deus,
pois “nunca saímos de Deus, nem vamos a Deus, porque estamos sempre
dentro de Deus. A tarefa da fé (ou efeito da revelação) é descobrir esse Deus
presente em todas as coisas, mas oculto sob mil sinais. O universo é o
grande sacramento”. 8
Faço questão de deixar claro o fato de que a linha que separa o panteísmo
do teísmo é muito tênue. O teísmo sugere que Deus criou o universo e o
entregou às leis naturais, de modo que o mundo funciona tal qual um
relógio, cujo criador deu corda e depois o abandonou à sua própria sorte.
Essa compreensão mecanicista da atividade divina roubou de Deus sua
transcendência, sua capacidade de existir além do seu universo criado, sua possibilidade de interferir na história dos homens com feitos milagrosos –
amorosos. É na carona do “panteísmo spinoziano do século 17 e do teísmo
dos lósofos iluministas do século 189 que surge o ateísmo dos séculos 19,
20 e 21.
Por essas razões, nunca é demais a rmar a imanência e a transcendência
de Deus. Mas a transcendência e a imanência não são su cientes para
elucidar a experiência de Deus, pois, via de regra, são tratadas como
categorias dissociadas, às vezes opostas, e não raramente antagônicas. Esse é
o dilema de Czeslaw Milosz. Ele está entre a imanência e a transcendência.
Ou o sabiá é somente um sabiá (imanência), ou saberemos o que, de fato, é
um sabiá quando enxergarmos o avesso do mundo (transcendência). Mas há
uma terceira via.
Deus não é apenas transcendente e imanente. É também transparente,
ensina Leonardo Boff:
Transparência signi ca a presença da transcendência dentro da imanência. Em outras palavras, signi ca a presença de Deus dentro do mundo e do mundo dentro de Deus. Conforme se expressou Paulo, apóstolo, em Efésios 4.6: “Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de tudo (transcendência), por tudo
(transparência) e em tudo (imanência)”10
Nesse triângulo transcendência-imanência-transparência, o mundo não é
negado, pois Aquele que é transcendente está nele, dando-lhe sentido, e
também não é absolutizado como realidade última, pois Aquele que é
imanente está nele, e ninguém encontrará sentido no mundo antes de
encontrar-se com o transcendente que nele também está.
Philip Yancey, jornalista, é um dos mais premiados escritores cristãos da
atualidade. Em seu livro O Deus (in)visível, você vai encontrar as seguintes
a rmações: “buscar o Espírito é como procurar os óculos estando com eles
[...] o Espírito é com mais precisão aquilo pelo qual percebemos, não aquilo
que percebemos: é quem abre nossos olhos para destacar as realidades espirituais subjacentes”. O que ele está dizendo é que a maioria de nós encara
a vida como uma laranja e pensa que Deus é um dos gomos. Funciona mais
ou menos da seguinte maneira: assim como interagimos com o trabalho, o
lazer, o dinheiro, as pessoas, o corpo, a igreja, e por aí vai, também
interagimos com Deus – Deus é uma das nossas interações. Mas essa é uma
concepção errada da realidade. O correto é compreender que Deus está por
trás de cada uma das nossas interações. Deus está presente em cada uma das
realidades com as quais convivemos, e, inclusive em nós mesmos, estamos
imersos em Deus. Todas as nossas interações são mediadas por Deus. A
única relação imediata que temos é com Deus (imediato, do lat. immediatu,
que não tem nada de permeio), todas as outras são mediatas (mediato, do
lat. mediatu, que está em relação com uma coisa por intermédio de uma
terceira; indireto). Isso signi ca que um sabiá somente fará sentido quando
entre nós e ele Deus estiver presente; a sequência de dias e noites fará
sentido apenas quando Deus tomar parte no dia e na noite. O mundo
somente faz sentido quando mediado por Deus, quando entre nós e o
mundo, Deus estiver no permeio. O encontro com Deus deve ocorrer “não
ao lado, dentro ou acima do mundo, mas justamente com o mundo, no
mundo e por meio do mundo. Deus somente é real e signi cativo para o ser
humano se emergir das profundezas de sua própria experiência no mundo
com os outros”. 11
O grande problema da maioria dos religiosos é que desejam o
relacionamento direto com Deus, sem incluir as realidades criadas por Deus
como ambiente da experiência vivencial. Querem se aproximar de Deus sem
os sabiás, os lhos, o trabalho, o dinheiro e tudo o mais, como se pudessem
abrir uma gaveta, colocar Deus lá dentro e deixar toda a realidade do lado
de fora. Estão no avesso dos materialistas: querem se relacionar com os
sabiás, os lhos, o trabalho, o dinheiro, e tudo o mais, deixando Deus de
lado. Ambos estão em situação difícil. Para os primeiros, Deus não faz
sentido. Para os outros, o mundo é que não faz.
Essa é a grande descoberta e o grande susto do patriarca, Jacó, após sua
experiência espiritual: “O 12 Senhor está neste lugar, e eu não o sabia”. A
partir disso deveríamos necessariamente perguntar: onde mais Deus esteve
sem que eu o soubesse?, onde mais Deus está sem que eu o saiba?, e,
principalmente, por que não fui capaz de perceber Deus estando ele aqui?
As respostas seriam simples: Deus esteve e está em todo lugar, e eu não fui
capaz de percebê-lo simplesmente porque não estava a procurá-lo aqui, mas
acolá, ou simplesmente porque jamais imaginei que ele pudesse estar aqui,
no sabiá, na palmeira e em mim.
Aquele que deseja experimentar Deus deve se aproximar dele levando
consigo os sabiás, as palmeiras e a terra. E quem deseja experimentar a
plenitude dos sabiás, das palmeiras e da terra deve se aproximar deles a
partir de sua experiência de Deus. Assim, reconciliamos Deus com sua
criação, e a criação com seu Deus. Ao lado do poema de Czeslaw Milosz
podemos colocar um trecho de outro poeta, Gilberto Gil:
Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus.
FUNDAMENTO PESSOAL
Dallas Willard, em seu imprescindível livro A conspiração divina, disse que
vivemos num “mundo imbuído de Deus (imbuído, particípio de imbuir, que
se imbuiu; mergulhado, embebido; penetrado, impregnado), onde cada
elemento está dentro da alçada do conhecimento e do controle direto de Deus. O que Deus deseja para nós é que vivamos nele. Ele coloca no meio de
nós o caminho que leva até ele. Isso mostra como Deus realmente é bem no
seu âmago – na verdade mostra como é realmente a realidade. Na sua
natureza e no seu signi cado mais profundos, o nosso universo é uma
comunidade de amor ilimitado e absolutamente capaz”. Eis aí a distinção
entre o cristianismo e as tradições orientais, como o budismo, o hinduísmo
e o taoísmo. O cristianismo a rma que a essência última do Universo é mais
do que força, energia e luz. O cristianismo a rma que a essência última do
Universo é uma pessoa. Ou melhor, a Pessoa. O Eu, o Verdadeiro, o real, é a
Pessoa. O fundamento de todas as coisas é Deus. E Deus é Pessoa.
Há, hoje, uma concordância ampla, que no lado da física chega quase à unanimidade, de que a corrente do conhecimento se dirige para uma realidade não mecânica. O universo começa a se assemelhar mais a um grande pensamento do que a uma grande máquina. A mente não aparece mais apenas como uma intrusa acidental no reino material; estamos começando a suspeitar que seria
melhor saudá-la como criadora e governadora do plano material.13
Essa compreensão de Sir James Jeans, expressa em 1932, isto é, na
primeira metade do século passado, corrobora a intenção do Gênesis ao
narrar a criação do Universo. O texto bíblico não se propõe a explicar como,
mas sim em fazer a rmações a respeito da essência do processo, a saber, o
fato de que tudo quanto existe é fruto de uma inteligência criativa e
amorosa.
Escrevo este trecho tendo acabado de chegar de minha corrida matinal
no Parque do Ibirapuera, geralmente em companhia do Ricardo Gondim.
Enquanto comemos o chão passo a passo, às segundas-feiras, geralmente
contamos um ao outro os sermões do domingo anterior. Hoje, falamos sobre
o relato bíblico da criação. Ricardo iniciou uma série expositiva do Livro do
Gênesis e conversamos bastante a respeito dos diversos sentidos possíveis
dos “sete dias”. Alguns teólogos interpretam o texto literalmente, defendendo dias de 24 horas. Outros, creem que os dias podem ser de 24
horas, mas não necessariamente sucessivos, havendo entre eles intervalos de
milhões de anos. Há os que acreditam num abismo de tempo entre os
versículos 1 e 2 do primeiro capítulo do Gênesis e, também, os que preferem
traduzir “dia” por era, período, ciclo, bloco de tempo não mensurável. A
interpretação mais interessante é a que propõe que os sete dias são os dias da
revelação de Deus a Moisés, o que signi ca que Deus criou o Universo num
período inde nido e revelou o processo em sete dias. Independentemente
da opção que façamos, concordo com o que meu amigo me ensinou a saber
que o relato bíblico se presta a dizer três coisas. A primeira, é que, antes de
existir qualquer coisa, existia alguém. Antes do Universo, o Criador era. A
segunda, é que, antes de existir qualquer coisa, havia design-desígnio. Todas
as coisas têm seu propósito, no Universo nada é aleatório. A máquina-
macro-micro-cósmica exibe uma ordem tal que levou Einstein a a rmar que
“Deus não joga dados com o Universo”. A terceira e última intenção do
relato bíblico é a rmar que o Universo não é autoexistente, e, portanto, não
é autossustentável. Na verdade, a segunda Lei da Termodinâmica diz que
todo organismo abandonado a si mesmo tende a se degenerar, e é por esse
motivo que a Bíblia diz que o Universo subsiste em Deus.
De fato, Deus é o fundamento de todas as coisas. Mas esse fundamento
divino é uma Pessoa com vontade, intenção e mente criativa. Mais do que
isso, esse fundamento divino de todas as coisas é uma Unidade de Pessoas,
TriUnidade, Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Deus é
Pessoa, e nunca se mostrou mais pessoal do que em Jesus de Nazaré.
Transcendência, imanência e transparência expressam perfeitamente a
Pessoa de Jesus. O Evangelho de João é o texto sagrado por excelência para
expressar a absoluta interação entre essas dimensões divina e humana na
pessoa de Jesus. Para cumprir seu propósito, o evangelista João se apressa
em sintetizar na pessoa de Jesus Cristo os três conceitos. Fala da
transcendência quando diz que “no princípio era o Lagos, e o Lagos estava com Deus, e o Lagos era Deus”. Fala também da imanência ao a rmar que “o
Lagos se fez carne e habitou entre nós”. E, nalmente, fala da transparência
quando conclui: “cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória
como do unigênito do Pai [...]. Ninguém jamais viu a Deus; o Deus
unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. 14
Jesus de Nazaré conhecia perfeitamente essas realidades. Suas declarações
durante o tempo de sua peregrinação terrena demonstram plena consciência
e autoconsciência. Ele conhecia sua gênese, pois a rmou que veio do céu, e
que não era deste mundo, da Terra, mas sim do Céu. 15 Conhecia sua
identidade, pois apresentou a si mesmo como o Messias – o Ungido;16 disse
que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus,17 estabeleceu um
paralelo entre sua honra e a honra do próprio Deus; 18 a rmou
categoricamente sua unidade essencial com Deus ao declarar “Eu e o pai
somos um”;19 e concluiu da maneira mais óbvia dizendo que quem desejasse
ver o Pai deveria olhar para ele.20
Como disse Charles Stanley, a grande notícia do cristianismo não é
apenas que Jesus é igual a Deus, mas sim que Deus é igual a Jesus. Aquele Eu
eterno, o Princípio absoluto de toda a existência, Aquilo por que todo este
mundo é penetrado, da fórmula sânscrita “Tu és isto”, descrito nos Vedas, no
Upanixade e no Bhagavad-Gita textos sagrados das tradições hinduístas –,
os gregos chamavam de Logos. E exatamente nesse contexto o evangelista
João introduz a pessoa de Jesus de Nazaré: o Logos que se fez carne.
Essa é a compreensão dos apóstolos, que assim se identi caram com o
Cristo. O Novo Testamento apresenta Jesus Cristo como: aquele em quem
foram criadas todas as coisas, pois sem ele nada do que foi feito se fez; a
imagem do Deus invisível; o primeiro e único-gerado de toda a criação;
aquele que enche todas as coisas, é tudo em todos; aquele em quem habita
toda a plenitude da divindade; aquele que é antes de todas as coisas e em
quem tudo subsiste; aquele em que habita corporalmente toda a plenitude da divindade; a exata expressão do Ser, em quem estão sustentadas todas as
coisas.
A bem da verdade, Huxley observa que “a doutrina segundo a qual Deus
pode encarnar em forma humana encontra-se na maioria das principais
exposições da loso a perene (a metafísica, que reconhece a realidade
divina) – no hinduísmo, no budismo maaiana, no cristianismo e no
maometismo dos su s, pelo qual o Profeta foi igualado ao Lagos eterno. Mas
a doutrina cristã da encarnação da Divindade em forma humana difere da
doutrina da Índia e do Extremo Oriente, uma vez que a rma que só pode
ter havido e só pode haver um Avatar” – no hinduísmo, Deus reencarnado;
no cristianismo, Deus encarnado. De fato, diz Huxley, “Krishna é uma
encarnação de Brama; Gautama Buda, do que os maaianistas chamam de
Dharmakaya, a Realidade sem nome e sem caráter em sua natureza nal, a
Mente, o fundamento espiritual de todo ser”.21 Nesses casos, porém, nem
Buda nem Krishna são pessoas, mas sim estágios espirituais de integração
com a realidade última, em que o eu particular funde-se com o “Eu sem
caráter e sem nome”. Apenas no cristianismo Deus é Persona. Pessoa que
fala, que sente e que tem vontade. Pessoa que se manifestou em carne, em
Jesus de Nazaré, e que nos convida a todos a integrar essa realidade última.
Mas com a ressalva que faz toda a diferença: “na sua natureza e no seu
signi cado mais profundos o nosso universo é uma comunidade de amor
ilimitado e absolutamente capaz”. 22
O MISTÉRIO CRISTO
Para apontar um caminho cristão para a felicidade, faço minhas, portanto,
as palavras de Leonardo Boff:
Aquele que experimentou Deus penetrou o reino da mística. A mística não assenta sobre o extraordinário, mas é a trans guração do ordinário. O místico é aquele que se faz sensível ao outro lado da realidade. É aquele que capta o mistério (de mistério vem a mística), que se revela e vela em cada ser e em cada
evento da história pessoal e coletiva. E o capta porque aprendeu a ser sensível ao invisível aos olhos, mas sensível ao coração atento. Por essa razão, o verdadeiro místico não tem segredos a contar ou con dências a fazer. Ele vê Deus em todas as coisas enquanto está sempre em busca de um Deus sempre maior do que Aquele que ele já encontrou. Porque Deus perpassa toda a realidade, pode por esse motivo ser percebido e experimentado nas mais diferentes situações da vida
e em cada detalhe da vida pessoal e do Universo.23
O sentido da vida consiste justamente em viver a partir desse encontro
com Deus, que nos reconcilia uns com os outros e também com “os sabiás e
as palmeiras”. O sentido da vida consiste em viver o eterno agora em
harmonia com esse Deus Transcendente-Imanente-Transparente, pois,
conforme disse o apóstolo Paulo, “dele, por ele e para ele são todas as coisas.
A ele seja a glória para sempre! Amém”.24 O sentido da vida consiste em
fazer todas as coisas, seja comer, seja beber, a partir da comunhão com Jesus
Cristo, 25 de dentro dessa “comunidade de amor ilimitado”. O sentido da vida
consiste em integrar os mundos do aqui e do além, do agora e do porvir, da
Terra e do céu, do tempo e da eternidade, num mundo só, onde Deus é tudo
em todos. 26 O sentido da vida, em síntese, consiste em viver em alinhamento
com Deus.
O Catecismo de Westminster, escrito ao longo de mais de cinco anos,
desde julho de 1643, por uma assembleia de teólogos reunidos na Abadia de
Westminster, em Londres, resumiu a proposta cristã para o sentido e
signi cado da vida ao a rmar que “a nalidade suprema da vida humana é
glori car a Deus e se alegrar nele por toda a eternidade”. John Piper traduziu
essa expressão para o que chamou de hedonismo cristão, da seguinte
maneira: “Deus é mais glori cado em nós quando estamos mais satisfeitos
nele”. 27 Isso é o que chamo de viver em perfeito alinhamento com Deus,
imerso em Deus e, portanto, imerso em tudo quanto Deus criou e chamou
de bom e muito bom.28
Essa vivência integrada em Deus, em harmonia com Deus, em comunhão
com Deus, é o convite do evangelho: sair da fragmentação, da desintegração
e da desarmonia para a unidade; sair das trevas para a luz; sair das
dimensões da vida biológica para a vida plena – nascer de novo, da água e
do espírito-Espírito; sair das trevas para a luz; deixar este mundo tenebroso
e passar a existir no Reino do Amado Filho de Deus. E o caminho é Jesus.
Apenas quando seus primeiros discípulos o identi caram como “o Filho
do Deus vivo”, Jesus começou a predizer sua morte.
Tendo ouvido a con ssão de Pedro, Jesus começa a anunciar sua
necessidade de ir para Jerusalém para ser morto e ressuscitar. E exatamente
nesse contexto lança seu convite solene: “Se alguém quer vir após mim, a si
mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”.29 Demorou para que eu
compreendesse que o convite de Jesus não se destinava apenas aos seus
discípulos imediatos, mas era na verdade um convite – ou uma convocação
– para toda a humanidade. Sua intenção não era apenas chamar um grupo
de poucos homens palestinos para que o seguissem até Jerusalém e
testemunhassem a “semana da paixão”. Sua convocação era e é para todo
aquele que atravessar a morte rumo à ressurreição. Seu chamamento ao
discipulado implica experimentar a ressurreição para participar da realidade
última – vida, “comunidade de amor ilimitado”, atravessando as limitações
nitas do presente estado de ser mortal – morte. E somente seguindo seus
passos chegaremos lá. Somente em comunhão com Jesus Cristo nos
tornaremos cristãos – pequenos Cristos, destino de todo ser humano.
Somente na imitação de Jesus há identi cação com o Pai de Cristo e a
participação no Espírito de Cristo. Somente quem nega a si mesmo e toma a
sua própria cruz ganha possibilidades de seguir a Jesus, isto é, de atravessar a
morte rumo à ressurreição.
O Concílio Ecumênico de Calcedônia (451 d.c.) a rma que “Jesus Cristo
é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem”. Jesus é, portanto, não apenas nosso
Deus, mas também nosso destino. E, nesse caso, em ninguém mais as dimensões da teologia, da antropologia e da teleologia se harmonizam tão
perfeitamente. Jesus nos revela Deus. Jesus Cristo também nos revela quem
é o Homem. A teologia cristã diz que “em Cristo sabemos como Deus é e
como o Homem deve ser”. Sabemos como Deus é, porque Jesus Cristo é
Deus-encarnado. E sabemos como o homem deve ser, porque Jesus Cristo é
Deus-encarnado. Jesus Cristo nos revela o propósito da vida humana: a
perfeita comunhão com Deus, a ponto de podermos a rmar: “Eu e o Pai
somos um”, 30 pois assim pretendeu Jesus ao orar ao Pai: “que todos sejam
um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em
nós”.31