Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 14 de 28

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Vivendo com propósitos

11. Maturidade

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MATURIDADE

 

SAÚDE

Durante um dos seminários Vivendo com propósitos, tentei apresentar

palavras que descrevessem o máximo possível a saúde para o corpo, a

mente, as emoções e a vontade. O grupo era participativo e não me deixou

avançar na argumentação, questionando desde o início minhas propostas.

Ao m, dei meia-volta e retomei o caminho original do qual jamais deveria

ter-me desviado.

Era uma noite de segunda-feira, e estávamos num grupo de pouco mais

de trinta pessoas. Cheguei con ante, tentando mostrar que a saúde do corpo

é a mobilidade; da mente é a lucidez; dos sentimentos é a sensibilidade; e da

vontade é a temperança. Óbvio. Um corpo saudável é aquele que, capaz de

correr um quilômetro em 5 minutos, corre o quilômetro em 5 minutos. Não

se espera que um homem aos 85 anos de idade suba uma escada com a

mesma rapidez que um adolescente. O que se espera é que ele se mobilize,

na proporção de suas possibilidades, respeitando seus limites e

concretizando suas possibilidades. Não existe um padrão de saúde do corpo.

Cada fase da vida tem seu padrão. Cada biótipo, cada constituição física,

tem sua mobilidade, e essa mobilidade é que deve servir de medida para a

veri cação da saúde. Expliquei, mas não convenci.

Disse também que a mente saudável é aquela capaz de enxergar a

realidade como a realidade é: lucidez, luz na mente, claridade na mente que

torna visível a realidade. Quando uma pessoa distorce a realidade, é porque

não possui saúde mental. Quando uma pessoa não consegue enxergar a

realidade de modo a valorizar cada aspecto de acordo com seu legítimo signi cado, é porque está embotada na mente. Não consegue entender, não

consegue perceber, não consegue discernir. Vê, mas não enxerga. A saúde

mental está ligada à cognição, ao conhecimento da verdade e da realidade,

ou da verdade a respeito da realidade. Saúde mental é ver as coisas como as

coisas são.

A respeito das emoções, falei de sensibilidade. Alguns proporiam

serenidade ou paz. Mas considero essas palavras zen demais e, na verdade,

quase despersonalizantes, mais próprias para descrever lagos parados ou

gente morta. Os gregos falavam de apatia (gr. apatheia), a saber, a

capacidade de não se deixar alterar pelas circunstâncias. Algo como não se

abalar ao quebrar uma caneca ou perder um cão de estimação atropelado,

para que não se desequilibre com a morte prematura de um lho. De minha

parte, co com os que entre sentir dor e não sentir nada preferem sentir dor

– a “fossa” de um amor não correspondido é absolutamente preferível ao

coração que não é capaz de amar. Por essa razão, escolhi sensibilidade para

descrever a saúde emocional: chorar na hora da tristeza e sorrir no tempo da

alegria. Evidentemente, um riso ou um choro proporcionais aos fatos: há

gente que chora como se tivesse perdido um lho quando a caneca que

trouxe da Europa se quebra, e que chora a perda de um lho como se fosse a

perda de um cão. Chorar o choro certo, na hora certa e na medida certa. Rir

o riso certo, na hora certa e na medida certa. Eis minha primeira de nição

de saúde emocional.

Finalmente, pretendi que concordassem comigo quanto ao fato de que a

saúde, na dimensão volitiva, está na capacidade de autodomínio, domínio

próprio ou temperança. Conseguir dizer não para o que se pretende dizer

não, e dizer sim para o que se pretende dizer sim. Senhor de sua vontade é

aquele que consegue colocar cabresto em seus desejos, subordinando-os à

sua vontade. Os desejos estão associados aos instintos, enquanto a vontade

está associada às escolhas morais, às decisões baseadas em valores. Por

exemplo, posso, num momento de ira, desejar a morte de um agressor, mas devo dominar esse impulso instintivo, uma vez que minhas convicções e

crenças me impedem de matar.

Minha pretensão era convencer a todos de que crescer era seguir rumo à

mobilidade, lucidez, sensibilidade e temperança. Mas meu grupo não

permitiu. Terminei aquele encontro me desculpando, admitindo que eles

haviam vencido. E haviam vencido por uma razão simples: estavam

absolutamente convencidos de que corpo e espírito são realidades

indissociáveis e de que não existe saúde mental independentemente da

saúde física, a qual, por sua vez, afeta a saúde emocional, que também está

vinculada à saúde volitiva. Saúde é um conceito holístico: quem está com

dor de cabeça não consegue avaliar adequadamente as circunstâncias; quem

está deprimido está com dé cit físico – orgânico, bioquímico – e, portanto,

terá suas emoções abaladas e nem sequer terá vontade de sair da cama.

Alguém me explicou que “depressão é ausência de vitalidade” ou

incapacidade de ter um impulso na direção da vida. E, nesse caso, a

depressão é uma disfunção física, emocional, mental ou volitiva? Quem

sabe, de todas elas. Da mesma maneira, a saúde é uma realidade que alcança

integralmente o corpo, a mente, as emoções e a vontade.

O que é, então, crescer? Para responder a essa pergunta, precisamos de

três observações. A primeira é que saúde é a plena maturidade do corpo, da

mente, das emoções e da vontade. Em termos práticos, já que precisamos de

critérios de medida para constatar a saúde, essas dimensões da vida humana

nos servem de parâmetro. Para onde devemos olhar quando estivermos em

busca da constatação da saúde de uma pessoa? Olhar para o todo é a

resposta certa, mas o todo precisa ser dividido didaticamente, de modo que

opto pelas dimensões corpo, mente, emoções e vontade, por mais

intercambiáveis que sejam.

A segunda observação é a de que o crescimento rumo à plena maturidade

deve considerar a natural degeneração física, consequência inevitável do

envelhecimento. Qualquer padrão de medida da saúde deve levar em conta que a ordem natural da vida é aquela mesma: o que é vivo nasce, cresce,

reproduz-se e morre. Nesse caso, precisamos abrir brechas para enquadrar

como saudáveis algumas pessoas que, mesmo em face da degeneração e da

disfunção física, têm suas dimensões psíquicas equilibradas ou

resguardadas.

A terceira e mais importante observação a respeito do crescimento

pessoal é que esse processo diz muito mais respeito ao tipo de gente que

vamos nos tornando à medida que envelhecemos, de modo que a

maturidade humana harmoniza o ser humano em proporções inversas: o

natural é que, quanto mais degenerada a dimensão material, mais

amadurecida e plena a dimensão imaterial. Na linguagem bíblica, “embora

exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo

renovados dia após dia”.1 Essa é a razão por que, de vez em quando, ouvimos

comentários do tipo “ele já tem idade, mas possui uma vitalidade invejável”,

“ela está bem doentinha, mas continua lúcida como sempre” ou “papai está

cansado, mas é o mesmo homem, admirável”. (Tratemos os males da

senilidade como exceções.) O tipo de gente que nos tornamos à medida que

envelhecemos: essa é a grande questão embutida no propósito de crescer.

 

MATURIDADE

Übermensch. Essa foi a palavra usada por Friedrich Nietzsche para se referir

ao super-homem ou, se você preferir –, o mais correto – ao sobre-humano.

Na verdade, é melhor chamá-lo mesmo de “sobre-humano”, porque ele não

tem nada a ver com o personagem dos quadrinhos de Siegel e Shuster.

Nietzsche não falava de um homem musculoso, com extraordinárias

aptidões, capaz de parar locomotivas e de sustentar aviões nos ares. O sobre-

humano de Nietzsche é uma personalidade forte, movida pela ânsia de

poder, pelo desejo de controlar tudo e de impor-se sobre todos. O sobre-

humano é uma mistura de deuses do panteão grego, de conquistadores, de

imperadores romanos e de espécies fortes da seleção natural darwiniana.

Imagino que, se a Serpente falasse alemão, a proposta que apresentaria

para Jesus no célebre evento da tentação no deserto seria resumida em uma

única palavra: Übermensch. Henri Nouwen traduziu essa ideia em três

grandes tentações: ser capaz (“ordena que estas pedras se transformem em

pães”), ser poderoso (“tudo isso te darei”) e ser espetacular (“atira-te para

baixo para que os anjos te recolham nos braços”). Übermensch: autonomia

absoluta, autocon ança, autossu ciência e seus derivados – prepotência,

orgulho, vaidade, egocentrismo, egoísmo. A cultura chamada pós-moderna,

individualista, é assim mesmo: Deus por todos, cada um por si, e o Diabo

que carregue o último. Almoce seu vizinho antes que ele coma você na janta.

Expressões como humildade, abnegação, altruísmo e solidariedade fazem

parte de um universo tão antinatural ao ser humano que são chamadas de

virtudes. Essa foi a crítica de Nietzsche ao cristianismo: a veneração do fraco

e oprimido, o culto ao anti-herói.

Para a maioria de nossos contemporâneos, crescer é bastar a si mesmo,

não precisar de ninguém, ser independente. De acordo com a Serpente, não

basta ser humano, nem mesmo super-homem. É preciso ser sobre-humano.

Na cartilha da Serpente, o ser humano, em sua plena maturidade, no ápice

de seu desenvolvimento, não precisa de Deus, pois é deus de si mesmo. Na

verdade, é um deus.

Essa conversa atravessa a história: desde Adão e Eva (“sereis como

Deus”), passando pela boca dos poetas que diziam “não há Deus/Deus não”,2

inspirando os lósofos que pretendiam “o homem como medida de todas as

coisas” (Protágoras), confrontando Jesus de Nazaré no Deserto, fazendo a

cabeça dos estoicos que defenderam a oikeiosis (ter consciência de si mesmo,

amar a si mesmo, estar ligado a si mesmo), oferecendo a base do iluminismo

e da “idade da razão” (“penso, logo existo”, segundo Descartes), até nossos

dias, sustentando a sociedade contemporânea terapeutizada, que não busca

outra coisa senão o conforto e o bem-estar individual (evitar a dor e buscar

o prazer, segundo Sigmund Freud).

AMOR

 

O tipo de existência ao qual estamos destinados, em que a dimensão

material se degenera e a dimensão imaterial amadurece, coloca-nos diante

do paradoxo da vida: à medida que o tempo futuro vai cando cada vez

menos, o tempo presente vai cando cada vez mais. À proporção que as

forças para empreender e conquistar vão cando pelo caminho, mais

focados vamos nos tornando em ser e desfrutar. Cada vez menos importa o

que temos ou acumulamos, e cada vez mais importa o tipo de gente que nos

tornamos. E que tipo de gente devemos nos tornar? Qual é a maior das

virtudes humanas?

A resposta da tradição judaico-cristã é simples e inequívoca: o amor, pois

Deus é amor. A partir dessa experiência com o amor de Deus ou Deus-

Amor está baseada toda a espiritualidade judaico-cristã. A essência “das

espiritualidades” judaica e cristã está baseada nos dois grandes e maiores

mandamentos; amar a Deus e ao próximo. Pela primeira vez, uso

espiritualidades para me referir ao judaísmo e cristianismo, como se fossem

experiências distintas. Tenho minhas razões.

Certo homem, conhecedor da Lei de Moisés, perguntou a Jesus qual era o

principal de todos os mandamentos. Jesus, sabendo de quem se tratava,

respondeu citando a Lei de Moisés, mais precisamente o Shemá: “‘Escute,

povo de Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Ame o Senhor,

seu Deus, com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com

todas as forças.’ E o segundo mais importante é este: ‘Ame os outros como

você ama a você mesmo’”.3 Mas em seu discurso de despedida, por ocasião

da última ceia, dias antes de sua morte, Jesus deixa claro a seus discípulos

que o amor seria a marca que os distinguiria para o resto da história e da

humanidade: “Se tiverem amor uns pelos outros, todos saberão que vocês

são meus seguidores”. Aparentemente, Jesus está repetindo o Shemá e

rati cando o segundo mandamento que ordena amar o próximo como a si mesmo. Mas há um detalhe. Jesus a rmou que estava lhes dando um novo

mandamento. E o novo mandamento era: “Amem uns aos outros. Assim

como eu os amei, amem uns aos outros”. O que existe de diferente entre a

declaração de Moisés ao povo de Israel e a de Jesus a seus discípulos? O

padrão do amor. Moisés mandou amar como a si mesmo; Jesus mandou

amar como ele amou.

Os apóstolos compreenderam essa transição e, por essa razão, a rmaram

que a única possibilidade de viver como Jesus ordenou que vivêssemos era a

partir de um relacionamento íntimo com o Cristo ressurreto, de modo que o

cristão esteja tão absolutamente identi cado com Cristo que a rme: “já não

sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” 4 – me vive, o que é possível

porque “o segredo que ele [Deus] escondeu de toda a humanidade durante

os séculos passados [inclusive de Moisés] [...] agora ele revelou ao seu povo

[...]. E o segredo é este: Cristo está em vocês”.5 Por esta razão, Paulo vai

a rmar que “o fruto do Espírito é: amor”,6 “pois Deus derramou o seu amor

no nosso coração”. 7

Em outras palavras, a experiência de amar é tão essencial ao cristianismo

porque somente é possível na relação entre o espírito do homem e o Espírito

de Deus: a transcendência. Quando o apóstolo fala do fruto do Espírito, está

a rmando que somente o Espírito de Deus pode produzir em nós essa

capacidade de amar. Para amar e ser amor, o ser humano precisa estar em

comunhão com Deus. Para vir a ser o que está destinado a ser – amor –, há a

necessidade de transcendência, a relação espírito-Espírito. Isso ca evidente

quando o apóstolo João declara que a evidência de conhecer a Deus é o

amor: “Quem ama é lho de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não o

conhece, pois Deus é amor. [...] Aquele que vive no amor vive unido com

Deus, e Deus vive unido com ele”. 8

 

FRUTO DO ESPÍRITO

A proposta da espiritualidade cristã implica o fato de que Deus uniu seu

Espírito ao nosso espírito, e agora somos participantes da natureza divina. 9

As virtudes cristãs são chamadas de “fruto do Espírito” justamente porque

são produzidas somente pelo Espírito de Deus. Isso une o propósito de

crescer ao propósito de transcender.

Esse é o retrato judaico-cristão da pessoa adulta, que cresceu à plena

maturidade: “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade,

delidade, mansidão e domínio próprio”.10 Existe uma boa discussão a

respeito desse fruto do Espírito. Seria apenas um fruto, a saber, o amor, que

se decompõe nas demais virtudes? Poderia alguém ter uma das virtudes

mais acentuada do que as outras? Quem experimenta o fruto vivencia todas

as suas dimensões ou pode experimentar uma virtude de cada vez,

acumulando uma à outra à medida de seu amadurecimento? Todas são

questões relevantes a respeito das quais os estudiosos se dividem. Mais uma

vez, portanto, opto pela obviedade, a rmando aquilo em que existe razoável

consenso.

O fruto do Espírito é um conjunto de virtudes que experimentamos na

proporção da qualidade, profundidade e intensidade do nosso

relacionamento com o Espírito de Deus. Não são necessariamente virtudes

que possuímos, mas muito mais virtudes que expressamos, numa espécie de

uir de Deus por meio de nós. Da mesma maneira como podemos deixar

minguar uma fogueira, podemos também extinguir a ação do Espírito de

Deus: “Não atrapalhem a ação do Espírito Santo”.ll Podemos também

entristecer o Espírito Santo de Deus,12 o que denota uma relação espírito-

Espírito pessoal e afetiva, diferente do controle da mente ou da criação de

estados alterados de consciência, isto é, a relação espírito-Espírito vai além

da harmonia interior.

Alguns estudiosos separam as virtudes cristãs em três dimensões de

relacionamentos: da pessoa com Deus (amor, alegria e paz), com o próximo (paciência, amabilidade e bondade) e consigo mesma ( delidade, mansidão

e domínio próprio).

Pre ro ver essas virtudes entrelaçadas em todas as relações. Como já

veri camos, não é possível amar a Deus e não amar o próximo, porque

“ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a

quem vê”. 13

A alegria é um contentamento com o que se tem e o que se é, e não existe

satisfação sem partilha, pois toda boa dádiva que recebemos de Deus há de

ser desfrutada na perspectiva do “pão nosso”.

A paz, em toda a tradição judaico-cristã, é vista como fruto da justiça, 14

de modo que o shalom de Deus não pode ser apenas individual e

interiormente – ninguém vive em paz sozinho ou tem paz apenas para si

mesmo.

A amabilidade é geralmente de nida como a capacidade de conviver com

pessoas difíceis, enquanto a paciência é a capacidade de suportar tempos

difíceis, e uma coisa está absolutamente ligada com a outra, pois pessoas

difíceis tornam nossos tempos difíceis, e ninguém vence tempos difíceis sem

o suporte da convivência, por mais difíceis que sejam as pessoas.

Fidelidade é a qualidade de quem é con ável, e, nesse caso, vale a

máxima de Sócrates: “Sê el a ti mesmo e não poderás ser falso com

ninguém”. Isso implica uma relação maior em que, obviamente, a lealdade a

si mesmo e ao outro é, antes de tudo, lealdade para com Deus.

A mansidão é a energia canalizada, o vigor direcionado, a ousadia

controlada, como num animal selvagem amansado: continua forte, ousado e

poderoso, mas suas potencialidades já não são expressas com violência e já

não causam destruição, o que evidentemente re ete no ambiente das

relações humanas. Diga-se, de passagem: não há ninguém que possa colocar

rédeas em mim exceto Deus.

Finalmente, a temperança ou o domínio próprio, que podemos entender

como autocontrole, é também uma virtude que afeta todas as nossas relações, pois de ne a maneira como dominamos nossas vontades e

instintos em relação a algo ou a alguém, inclusive a nós mesmos.

 

CRESCER

Crescer signi ca viver, nos limites do corpo, cada vez mais, a maior

densidade alcançável das possibilidades e potencialidades emocionais,

mentais e volitivas, a partir da transcendência: a conexão e interação com o

Espírito divino. Crescer é experimentar, gradativamente, as qualidades do

Deus que habita em nós. Crescer é render-se paulatinamente ao controle do

Espírito Santo de Deus para que a relação entre o nosso espírito e o Espírito

de Deus não seja mais de rebeldia e de oposição, ele puxando para um lado e

eu puxando para outro, mas sim de harmonia e de reconciliação. Isso explica

por que o apóstolo Paulo orientou-nos a “andar em Espírito”, isto é,

literalmente, a orbitar ao redor do Espírito de Deus para que nossos

instintos e natureza mais primitivos sejam controlados e não encontrem

lugar de expressão. As expressões desses instintos mais primitivos são

chamadas de “obras da carne”,15 porque são resultado daquilo que o ser

humano consegue produzir quando está separado do Espírito divino.

São obras da carne em oposição ao fruto do Espírito. A carne, nesse

sentido, é o que Charles Barclay de niu como:

 

aquilo que o homem fez de si mesmo, em contraste com o homem conforme Deus o fez. A carne é o homem de conformidade com aquilo que permitiu que viesse a ser, em contraste com o homem conforme Deus pretendeu que ele fosse. A carne representa os efeitos do pecado (rebeldia contra Deus) do homem sobre si mesmo e do pecado dos seus pais e de todos os homens que existiram antes dele. A carne é a natureza humana enquanto está separada de Jesus Cristo e seu

Espírito.16

 

A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL CRISTÃ

Certa vez, alguém me perguntou o que eu havia descoberto em minha

caminhada no discipulado de Jesus. De fato, aquele homem queria saber

como eu descreveria o ápice da experiência cristã e como aquilo me afetava

pessoalmente. Não era uma pergunta teológica ou losó ca, mas sim

existencial. Ele estava em busca da verdade-Verdade e, acreditando que eu a

havia encontrado, quis saber minha experiência. Não me lembro bem como

respondi na ocasião, mas a questão cou em meu coração durante muito

tempo, até que, uma noite, sonhei que estava fazendo uma palestra num

auditório cujas leiras de assentos se prolongavam ao in nito. O tema da

minha palestra era a resposta àquele homem inquiridor da essência da

espiritualidade. Lembro exatamente o que disse em sonho. E o que disse lá

(ou recebi lá), digo aqui.

O ápice da experiência espiritual cristã é o fruto do Espírito. O máximo

que um ser humano pode receber de Deus é o próprio Deus, na pessoa do

Espírito Santo, e isso resulta numa qualidade de ser somente possível na

interação e unidade entre o espírito humano e o Espírito divino. O produto

da experiência espiritual cristã é um tipo de gente, gente igual a Jesus de

Nazaré, o Cristo de Deus, de onde derivo minha con ssão de fé: Cristo é

meu destino. Tudo quanto vivo e experimento em minha peregrinação

espiritual visa fazer de mim um homem semelhante a Jesus, pois ele é o

primeiro dos meus muitos irmãos. Insisto que o nome do jogo é

transformação. Crescer é vir a ser. Ser como Cristo. Aquele que é parecido,

semelhante a Deus, deve viver em imitação a Deus. O caminho cristão à luz

da imago Dei é a imitatio Dei.

 

O ESPÍRITO E A CARNE

Assim Jesus orientou seus discípulos no momento de sua maior agonia antes

da cruz: “O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”, o que

deveria levar os discípulos à vigilância e à oração. 17 O ensino é claríssimo: a

única maneira de vencer a carne é na relação espírito-Espírito. A pergunta a que precisamos responder a partir de agora é como preservamos e

aprofundamos a relação espírito-Espírito para expressar o fruto do Espírito,

isto é, ser gente como Deus pretendeu, ser gente como Jesus de Nazaré, em

detrimento de evidenciar as obras da carne. Isso nos leva ao próximo

capítulo.