Vivendo com propósitos
11. Maturidade
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MATURIDADE
SAÚDE
Durante um dos seminários Vivendo com propósitos, tentei apresentar
palavras que descrevessem o máximo possível a saúde para o corpo, a
mente, as emoções e a vontade. O grupo era participativo e não me deixou
avançar na argumentação, questionando desde o início minhas propostas.
Ao m, dei meia-volta e retomei o caminho original do qual jamais deveria
ter-me desviado.
Era uma noite de segunda-feira, e estávamos num grupo de pouco mais
de trinta pessoas. Cheguei con ante, tentando mostrar que a saúde do corpo
é a mobilidade; da mente é a lucidez; dos sentimentos é a sensibilidade; e da
vontade é a temperança. Óbvio. Um corpo saudável é aquele que, capaz de
correr um quilômetro em 5 minutos, corre o quilômetro em 5 minutos. Não
se espera que um homem aos 85 anos de idade suba uma escada com a
mesma rapidez que um adolescente. O que se espera é que ele se mobilize,
na proporção de suas possibilidades, respeitando seus limites e
concretizando suas possibilidades. Não existe um padrão de saúde do corpo.
Cada fase da vida tem seu padrão. Cada biótipo, cada constituição física,
tem sua mobilidade, e essa mobilidade é que deve servir de medida para a
veri cação da saúde. Expliquei, mas não convenci.
Disse também que a mente saudável é aquela capaz de enxergar a
realidade como a realidade é: lucidez, luz na mente, claridade na mente que
torna visível a realidade. Quando uma pessoa distorce a realidade, é porque
não possui saúde mental. Quando uma pessoa não consegue enxergar a
realidade de modo a valorizar cada aspecto de acordo com seu legítimo signi cado, é porque está embotada na mente. Não consegue entender, não
consegue perceber, não consegue discernir. Vê, mas não enxerga. A saúde
mental está ligada à cognição, ao conhecimento da verdade e da realidade,
ou da verdade a respeito da realidade. Saúde mental é ver as coisas como as
coisas são.
A respeito das emoções, falei de sensibilidade. Alguns proporiam
serenidade ou paz. Mas considero essas palavras zen demais e, na verdade,
quase despersonalizantes, mais próprias para descrever lagos parados ou
gente morta. Os gregos falavam de apatia (gr. apatheia), a saber, a
capacidade de não se deixar alterar pelas circunstâncias. Algo como não se
abalar ao quebrar uma caneca ou perder um cão de estimação atropelado,
para que não se desequilibre com a morte prematura de um lho. De minha
parte, co com os que entre sentir dor e não sentir nada preferem sentir dor
– a “fossa” de um amor não correspondido é absolutamente preferível ao
coração que não é capaz de amar. Por essa razão, escolhi sensibilidade para
descrever a saúde emocional: chorar na hora da tristeza e sorrir no tempo da
alegria. Evidentemente, um riso ou um choro proporcionais aos fatos: há
gente que chora como se tivesse perdido um lho quando a caneca que
trouxe da Europa se quebra, e que chora a perda de um lho como se fosse a
perda de um cão. Chorar o choro certo, na hora certa e na medida certa. Rir
o riso certo, na hora certa e na medida certa. Eis minha primeira de nição
de saúde emocional.
Finalmente, pretendi que concordassem comigo quanto ao fato de que a
saúde, na dimensão volitiva, está na capacidade de autodomínio, domínio
próprio ou temperança. Conseguir dizer não para o que se pretende dizer
não, e dizer sim para o que se pretende dizer sim. Senhor de sua vontade é
aquele que consegue colocar cabresto em seus desejos, subordinando-os à
sua vontade. Os desejos estão associados aos instintos, enquanto a vontade
está associada às escolhas morais, às decisões baseadas em valores. Por
exemplo, posso, num momento de ira, desejar a morte de um agressor, mas devo dominar esse impulso instintivo, uma vez que minhas convicções e
crenças me impedem de matar.
Minha pretensão era convencer a todos de que crescer era seguir rumo à
mobilidade, lucidez, sensibilidade e temperança. Mas meu grupo não
permitiu. Terminei aquele encontro me desculpando, admitindo que eles
haviam vencido. E haviam vencido por uma razão simples: estavam
absolutamente convencidos de que corpo e espírito são realidades
indissociáveis e de que não existe saúde mental independentemente da
saúde física, a qual, por sua vez, afeta a saúde emocional, que também está
vinculada à saúde volitiva. Saúde é um conceito holístico: quem está com
dor de cabeça não consegue avaliar adequadamente as circunstâncias; quem
está deprimido está com dé cit físico – orgânico, bioquímico – e, portanto,
terá suas emoções abaladas e nem sequer terá vontade de sair da cama.
Alguém me explicou que “depressão é ausência de vitalidade” ou
incapacidade de ter um impulso na direção da vida. E, nesse caso, a
depressão é uma disfunção física, emocional, mental ou volitiva? Quem
sabe, de todas elas. Da mesma maneira, a saúde é uma realidade que alcança
integralmente o corpo, a mente, as emoções e a vontade.
O que é, então, crescer? Para responder a essa pergunta, precisamos de
três observações. A primeira é que saúde é a plena maturidade do corpo, da
mente, das emoções e da vontade. Em termos práticos, já que precisamos de
critérios de medida para constatar a saúde, essas dimensões da vida humana
nos servem de parâmetro. Para onde devemos olhar quando estivermos em
busca da constatação da saúde de uma pessoa? Olhar para o todo é a
resposta certa, mas o todo precisa ser dividido didaticamente, de modo que
opto pelas dimensões corpo, mente, emoções e vontade, por mais
intercambiáveis que sejam.
A segunda observação é a de que o crescimento rumo à plena maturidade
deve considerar a natural degeneração física, consequência inevitável do
envelhecimento. Qualquer padrão de medida da saúde deve levar em conta que a ordem natural da vida é aquela mesma: o que é vivo nasce, cresce,
reproduz-se e morre. Nesse caso, precisamos abrir brechas para enquadrar
como saudáveis algumas pessoas que, mesmo em face da degeneração e da
disfunção física, têm suas dimensões psíquicas equilibradas ou
resguardadas.
A terceira e mais importante observação a respeito do crescimento
pessoal é que esse processo diz muito mais respeito ao tipo de gente que
vamos nos tornando à medida que envelhecemos, de modo que a
maturidade humana harmoniza o ser humano em proporções inversas: o
natural é que, quanto mais degenerada a dimensão material, mais
amadurecida e plena a dimensão imaterial. Na linguagem bíblica, “embora
exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo
renovados dia após dia”.1 Essa é a razão por que, de vez em quando, ouvimos
comentários do tipo “ele já tem idade, mas possui uma vitalidade invejável”,
“ela está bem doentinha, mas continua lúcida como sempre” ou “papai está
cansado, mas é o mesmo homem, admirável”. (Tratemos os males da
senilidade como exceções.) O tipo de gente que nos tornamos à medida que
envelhecemos: essa é a grande questão embutida no propósito de crescer.
MATURIDADE
Übermensch. Essa foi a palavra usada por Friedrich Nietzsche para se referir
ao super-homem ou, se você preferir –, o mais correto – ao sobre-humano.
Na verdade, é melhor chamá-lo mesmo de “sobre-humano”, porque ele não
tem nada a ver com o personagem dos quadrinhos de Siegel e Shuster.
Nietzsche não falava de um homem musculoso, com extraordinárias
aptidões, capaz de parar locomotivas e de sustentar aviões nos ares. O sobre-
humano de Nietzsche é uma personalidade forte, movida pela ânsia de
poder, pelo desejo de controlar tudo e de impor-se sobre todos. O sobre-
humano é uma mistura de deuses do panteão grego, de conquistadores, de
imperadores romanos e de espécies fortes da seleção natural darwiniana.
Imagino que, se a Serpente falasse alemão, a proposta que apresentaria
para Jesus no célebre evento da tentação no deserto seria resumida em uma
única palavra: Übermensch. Henri Nouwen traduziu essa ideia em três
grandes tentações: ser capaz (“ordena que estas pedras se transformem em
pães”), ser poderoso (“tudo isso te darei”) e ser espetacular (“atira-te para
baixo para que os anjos te recolham nos braços”). Übermensch: autonomia
absoluta, autocon ança, autossu ciência e seus derivados – prepotência,
orgulho, vaidade, egocentrismo, egoísmo. A cultura chamada pós-moderna,
individualista, é assim mesmo: Deus por todos, cada um por si, e o Diabo
que carregue o último. Almoce seu vizinho antes que ele coma você na janta.
Expressões como humildade, abnegação, altruísmo e solidariedade fazem
parte de um universo tão antinatural ao ser humano que são chamadas de
virtudes. Essa foi a crítica de Nietzsche ao cristianismo: a veneração do fraco
e oprimido, o culto ao anti-herói.
Para a maioria de nossos contemporâneos, crescer é bastar a si mesmo,
não precisar de ninguém, ser independente. De acordo com a Serpente, não
basta ser humano, nem mesmo super-homem. É preciso ser sobre-humano.
Na cartilha da Serpente, o ser humano, em sua plena maturidade, no ápice
de seu desenvolvimento, não precisa de Deus, pois é deus de si mesmo. Na
verdade, é um deus.
Essa conversa atravessa a história: desde Adão e Eva (“sereis como
Deus”), passando pela boca dos poetas que diziam “não há Deus/Deus não”,2
inspirando os lósofos que pretendiam “o homem como medida de todas as
coisas” (Protágoras), confrontando Jesus de Nazaré no Deserto, fazendo a
cabeça dos estoicos que defenderam a oikeiosis (ter consciência de si mesmo,
amar a si mesmo, estar ligado a si mesmo), oferecendo a base do iluminismo
e da “idade da razão” (“penso, logo existo”, segundo Descartes), até nossos
dias, sustentando a sociedade contemporânea terapeutizada, que não busca
outra coisa senão o conforto e o bem-estar individual (evitar a dor e buscar
o prazer, segundo Sigmund Freud).
AMOR
O tipo de existência ao qual estamos destinados, em que a dimensão
material se degenera e a dimensão imaterial amadurece, coloca-nos diante
do paradoxo da vida: à medida que o tempo futuro vai cando cada vez
menos, o tempo presente vai cando cada vez mais. À proporção que as
forças para empreender e conquistar vão cando pelo caminho, mais
focados vamos nos tornando em ser e desfrutar. Cada vez menos importa o
que temos ou acumulamos, e cada vez mais importa o tipo de gente que nos
tornamos. E que tipo de gente devemos nos tornar? Qual é a maior das
virtudes humanas?
A resposta da tradição judaico-cristã é simples e inequívoca: o amor, pois
Deus é amor. A partir dessa experiência com o amor de Deus ou Deus-
Amor está baseada toda a espiritualidade judaico-cristã. A essência “das
espiritualidades” judaica e cristã está baseada nos dois grandes e maiores
mandamentos; amar a Deus e ao próximo. Pela primeira vez, uso
espiritualidades para me referir ao judaísmo e cristianismo, como se fossem
experiências distintas. Tenho minhas razões.
Certo homem, conhecedor da Lei de Moisés, perguntou a Jesus qual era o
principal de todos os mandamentos. Jesus, sabendo de quem se tratava,
respondeu citando a Lei de Moisés, mais precisamente o Shemá: “‘Escute,
povo de Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Ame o Senhor,
seu Deus, com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com
todas as forças.’ E o segundo mais importante é este: ‘Ame os outros como
você ama a você mesmo’”.3 Mas em seu discurso de despedida, por ocasião
da última ceia, dias antes de sua morte, Jesus deixa claro a seus discípulos
que o amor seria a marca que os distinguiria para o resto da história e da
humanidade: “Se tiverem amor uns pelos outros, todos saberão que vocês
são meus seguidores”. Aparentemente, Jesus está repetindo o Shemá e
rati cando o segundo mandamento que ordena amar o próximo como a si mesmo. Mas há um detalhe. Jesus a rmou que estava lhes dando um novo
mandamento. E o novo mandamento era: “Amem uns aos outros. Assim
como eu os amei, amem uns aos outros”. O que existe de diferente entre a
declaração de Moisés ao povo de Israel e a de Jesus a seus discípulos? O
padrão do amor. Moisés mandou amar como a si mesmo; Jesus mandou
amar como ele amou.
Os apóstolos compreenderam essa transição e, por essa razão, a rmaram
que a única possibilidade de viver como Jesus ordenou que vivêssemos era a
partir de um relacionamento íntimo com o Cristo ressurreto, de modo que o
cristão esteja tão absolutamente identi cado com Cristo que a rme: “já não
sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” 4 – me vive, o que é possível
porque “o segredo que ele [Deus] escondeu de toda a humanidade durante
os séculos passados [inclusive de Moisés] [...] agora ele revelou ao seu povo
[...]. E o segredo é este: Cristo está em vocês”.5 Por esta razão, Paulo vai
a rmar que “o fruto do Espírito é: amor”,6 “pois Deus derramou o seu amor
no nosso coração”. 7
Em outras palavras, a experiência de amar é tão essencial ao cristianismo
porque somente é possível na relação entre o espírito do homem e o Espírito
de Deus: a transcendência. Quando o apóstolo fala do fruto do Espírito, está
a rmando que somente o Espírito de Deus pode produzir em nós essa
capacidade de amar. Para amar e ser amor, o ser humano precisa estar em
comunhão com Deus. Para vir a ser o que está destinado a ser – amor –, há a
necessidade de transcendência, a relação espírito-Espírito. Isso ca evidente
quando o apóstolo João declara que a evidência de conhecer a Deus é o
amor: “Quem ama é lho de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não o
conhece, pois Deus é amor. [...] Aquele que vive no amor vive unido com
Deus, e Deus vive unido com ele”. 8
FRUTO DO ESPÍRITO
A proposta da espiritualidade cristã implica o fato de que Deus uniu seu
Espírito ao nosso espírito, e agora somos participantes da natureza divina. 9
As virtudes cristãs são chamadas de “fruto do Espírito” justamente porque
são produzidas somente pelo Espírito de Deus. Isso une o propósito de
crescer ao propósito de transcender.
Esse é o retrato judaico-cristão da pessoa adulta, que cresceu à plena
maturidade: “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade,
delidade, mansidão e domínio próprio”.10 Existe uma boa discussão a
respeito desse fruto do Espírito. Seria apenas um fruto, a saber, o amor, que
se decompõe nas demais virtudes? Poderia alguém ter uma das virtudes
mais acentuada do que as outras? Quem experimenta o fruto vivencia todas
as suas dimensões ou pode experimentar uma virtude de cada vez,
acumulando uma à outra à medida de seu amadurecimento? Todas são
questões relevantes a respeito das quais os estudiosos se dividem. Mais uma
vez, portanto, opto pela obviedade, a rmando aquilo em que existe razoável
consenso.
O fruto do Espírito é um conjunto de virtudes que experimentamos na
proporção da qualidade, profundidade e intensidade do nosso
relacionamento com o Espírito de Deus. Não são necessariamente virtudes
que possuímos, mas muito mais virtudes que expressamos, numa espécie de
uir de Deus por meio de nós. Da mesma maneira como podemos deixar
minguar uma fogueira, podemos também extinguir a ação do Espírito de
Deus: “Não atrapalhem a ação do Espírito Santo”.ll Podemos também
entristecer o Espírito Santo de Deus,12 o que denota uma relação espírito-
Espírito pessoal e afetiva, diferente do controle da mente ou da criação de
estados alterados de consciência, isto é, a relação espírito-Espírito vai além
da harmonia interior.
Alguns estudiosos separam as virtudes cristãs em três dimensões de
relacionamentos: da pessoa com Deus (amor, alegria e paz), com o próximo (paciência, amabilidade e bondade) e consigo mesma ( delidade, mansidão
e domínio próprio).
Pre ro ver essas virtudes entrelaçadas em todas as relações. Como já
veri camos, não é possível amar a Deus e não amar o próximo, porque
“ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a
quem vê”. 13
A alegria é um contentamento com o que se tem e o que se é, e não existe
satisfação sem partilha, pois toda boa dádiva que recebemos de Deus há de
ser desfrutada na perspectiva do “pão nosso”.
A paz, em toda a tradição judaico-cristã, é vista como fruto da justiça, 14
de modo que o shalom de Deus não pode ser apenas individual e
interiormente – ninguém vive em paz sozinho ou tem paz apenas para si
mesmo.
A amabilidade é geralmente de nida como a capacidade de conviver com
pessoas difíceis, enquanto a paciência é a capacidade de suportar tempos
difíceis, e uma coisa está absolutamente ligada com a outra, pois pessoas
difíceis tornam nossos tempos difíceis, e ninguém vence tempos difíceis sem
o suporte da convivência, por mais difíceis que sejam as pessoas.
Fidelidade é a qualidade de quem é con ável, e, nesse caso, vale a
máxima de Sócrates: “Sê el a ti mesmo e não poderás ser falso com
ninguém”. Isso implica uma relação maior em que, obviamente, a lealdade a
si mesmo e ao outro é, antes de tudo, lealdade para com Deus.
A mansidão é a energia canalizada, o vigor direcionado, a ousadia
controlada, como num animal selvagem amansado: continua forte, ousado e
poderoso, mas suas potencialidades já não são expressas com violência e já
não causam destruição, o que evidentemente re ete no ambiente das
relações humanas. Diga-se, de passagem: não há ninguém que possa colocar
rédeas em mim exceto Deus.
Finalmente, a temperança ou o domínio próprio, que podemos entender
como autocontrole, é também uma virtude que afeta todas as nossas relações, pois de ne a maneira como dominamos nossas vontades e
instintos em relação a algo ou a alguém, inclusive a nós mesmos.
CRESCER
Crescer signi ca viver, nos limites do corpo, cada vez mais, a maior
densidade alcançável das possibilidades e potencialidades emocionais,
mentais e volitivas, a partir da transcendência: a conexão e interação com o
Espírito divino. Crescer é experimentar, gradativamente, as qualidades do
Deus que habita em nós. Crescer é render-se paulatinamente ao controle do
Espírito Santo de Deus para que a relação entre o nosso espírito e o Espírito
de Deus não seja mais de rebeldia e de oposição, ele puxando para um lado e
eu puxando para outro, mas sim de harmonia e de reconciliação. Isso explica
por que o apóstolo Paulo orientou-nos a “andar em Espírito”, isto é,
literalmente, a orbitar ao redor do Espírito de Deus para que nossos
instintos e natureza mais primitivos sejam controlados e não encontrem
lugar de expressão. As expressões desses instintos mais primitivos são
chamadas de “obras da carne”,15 porque são resultado daquilo que o ser
humano consegue produzir quando está separado do Espírito divino.
São obras da carne em oposição ao fruto do Espírito. A carne, nesse
sentido, é o que Charles Barclay de niu como:
aquilo que o homem fez de si mesmo, em contraste com o homem conforme Deus o fez. A carne é o homem de conformidade com aquilo que permitiu que viesse a ser, em contraste com o homem conforme Deus pretendeu que ele fosse. A carne representa os efeitos do pecado (rebeldia contra Deus) do homem sobre si mesmo e do pecado dos seus pais e de todos os homens que existiram antes dele. A carne é a natureza humana enquanto está separada de Jesus Cristo e seu
Espírito.16
A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL CRISTÃ
Certa vez, alguém me perguntou o que eu havia descoberto em minha
caminhada no discipulado de Jesus. De fato, aquele homem queria saber
como eu descreveria o ápice da experiência cristã e como aquilo me afetava
pessoalmente. Não era uma pergunta teológica ou losó ca, mas sim
existencial. Ele estava em busca da verdade-Verdade e, acreditando que eu a
havia encontrado, quis saber minha experiência. Não me lembro bem como
respondi na ocasião, mas a questão cou em meu coração durante muito
tempo, até que, uma noite, sonhei que estava fazendo uma palestra num
auditório cujas leiras de assentos se prolongavam ao in nito. O tema da
minha palestra era a resposta àquele homem inquiridor da essência da
espiritualidade. Lembro exatamente o que disse em sonho. E o que disse lá
(ou recebi lá), digo aqui.
O ápice da experiência espiritual cristã é o fruto do Espírito. O máximo
que um ser humano pode receber de Deus é o próprio Deus, na pessoa do
Espírito Santo, e isso resulta numa qualidade de ser somente possível na
interação e unidade entre o espírito humano e o Espírito divino. O produto
da experiência espiritual cristã é um tipo de gente, gente igual a Jesus de
Nazaré, o Cristo de Deus, de onde derivo minha con ssão de fé: Cristo é
meu destino. Tudo quanto vivo e experimento em minha peregrinação
espiritual visa fazer de mim um homem semelhante a Jesus, pois ele é o
primeiro dos meus muitos irmãos. Insisto que o nome do jogo é
transformação. Crescer é vir a ser. Ser como Cristo. Aquele que é parecido,
semelhante a Deus, deve viver em imitação a Deus. O caminho cristão à luz
da imago Dei é a imitatio Dei.
O ESPÍRITO E A CARNE
Assim Jesus orientou seus discípulos no momento de sua maior agonia antes
da cruz: “O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”, o que
deveria levar os discípulos à vigilância e à oração. 17 O ensino é claríssimo: a
única maneira de vencer a carne é na relação espírito-Espírito. A pergunta a que precisamos responder a partir de agora é como preservamos e
aprofundamos a relação espírito-Espírito para expressar o fruto do Espírito,
isto é, ser gente como Deus pretendeu, ser gente como Jesus de Nazaré, em
detrimento de evidenciar as obras da carne. Isso nos leva ao próximo
capítulo.