Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 19 de 28

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Vivendo com propósitos

16. Trabalho

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TRABALHO

 

DO CAOS PARA A ORDEM

A doutrina de Rabi Schimeon era: “Existe apenas o céu e nada mais”; porém,

o céu o contradisse: “Existe o céu e tudo o mais”; foi então que o rabi

entendeu que o mundo, deste lado do céu, é digno de ser trabalhado.1

Essa experiência do Rabi Schimeon deve se repetir tantas vezes quanto

existirem seres humanos. É uma experiência paradigmática que gira ao

redor de quatro variáveis: o paraíso, a Terra maldita, a saudade do paraíso e

o trabalho. Existe um lado de lá do céu, que abraça toda a realidade e que

está sobre tudo quanto existe, a matriz que controla e que de ne tudo o

mais. Apenas quem enxerga um paraíso consegue perceber sentido do lado

de cá do céu. Sim, porque existe um lado de cá do céu que insiste em

mostrar-se como única dimensão de realidade. Mas esse lado de cá do céu é

uma Terra amaldiçoada, em oposição ao paraíso, o lado de lá do céu. A

grande tentação enfrentada pelo ser humano é negar a existência ou valor da

Terra amaldiçoada e fugir de volta para o paraíso. Mas o Universo não é

nem céu nem Terra, isolados um do outro: O Universo é céu e Terra, um

sobre o outro: o céu acima e a Terra abaixo, o céu como matriz e a Terra

como palco, o céu como utopia e a Terra como arena. Um lado de lá e um

lado de cá do céu, porque em termos ideais, na utopia, todo o Universo é

céu, e haverá um tempo quando não teremos mais a Terra maldita.

Para melhor compreendermos esse con ito entre “o céu e nada mais” e “o

céu e tudo o mais”, precisamos voltar ao Gênesis, à narrativa judaico-cristã,

da origem de todas as coisas.

“A princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era vazia e sem forma.”

Esse primeiro versículo da Bíblia Hebraica apresenta o ato criador de Deus,

em que a matéria está subordinada ao Espírito ou, se preferir, o Espírito dá

origem à matéria. A Terra não poderia ser “vazia e sem forma”, pois a forma

é inerente à matéria. O que se diz, na verdade, é que a Terra era sem forma

organizada. A expressão hebraica Tohú Bohú, vazia e sem forma – o vazio e

o deserto –, melhor traduzida por desabitada e caótica. Em outras palavras,

criar é colocar ordem no caos. Criar é dar inteligência, signi cado e

propósito àquilo que é irracional, fútil e aleatório. Foi isso o que Deus fez. E

foi isso o que Deus ordenou que o ser humano zesse:

 

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do

mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra.” 2

 

A lógica dessa narrativa é simples: um ser criado à imagem e semelhança

de um Deus que cria céu e terra necessariamente possuiria, também,

capacidades e dotações de criatividade. O potencial criativo de Deus é um

fator inerente a toda pessoa humana, e justamente em resposta a esse

potencial é que toda a raça humana é movida pelo ímpeto de encher a terra

e de subjugá-la. Deus constituiu o ser humano seu parceiro na criação. Todo

ser humano tem dentro de si a vocação de cooperar com Deus para colocar

ordem no caos. Por essa razão, assim como o Rabi Schimeon descobriu,

cada um de nós deve descobrir que “o mundo do lado de cá do céu é digno

de ser trabalhado”.

 

DA ORDEM PARA O CAOS

Mas há algo fora do lugar nessa história. O ato criador de Deus não foi

su ciente para colocar ordem no caos? Uma vez que Deus criou, isto é, deu

ordem, signi cado e propósito ao Universo, por que se diz que o ser

humano deve cooperar com Deus para colocar ordem no caos? Em síntese,

de onde vem o caos?

Em primeiro lugar precisamos distinguir duas dimensões de caos. Existe

o caos do Universo enquanto realidade física, um caos inerente ao

funcionamento da matéria. Apesar das discussões das físicas clássica e

quântica, parece que os estudiosos preferem a rmar uma síntese a respeito

da ordem e caos no Universo. Em vez de a rmar que o Universo tende para

o caos ou que o Universo obedece a uma ordem, é preferível a rmar que há

uma ordem por trás do caos aparente e há um caos por trás de toda ordem

aparente. Para melhor compreensão dessa questão, você pode pesquisar a

teoria do caos, Werner Heisenberg e seu princípio da incerteza e as leis da

termodinâmica. Você vai car de boca aberta ao perceber a inteligência da

mecânica do cosmos.

Mas há outra dimensão do caos, e é essa a que mais nos interessa. Existe

um caos (no sentido de desordem, confusão, comportamento imprevisível)

no ambiente da existência humana: as relações do homem com Deus, com

os demais seres humanos, consigo mesmo e com a própria natureza. Parece

bem razoável que, quando Deus convidou o ser humano para cooperar com

ele na manutenção da ordem no caos, ele não estava se referindo ao

processo de gestão dos saltos quânticos dos elétrons, das órbitas das estrelas,

das distâncias entre os planetas ou das velocidades de rotação e translação

da Terra. Você é capaz de imaginar Moisés pensando consigo mesmo algo

do tipo: “Acho que vou afastar a Terra um pouquinho mais do Sol para ver

se consigo dar uma refrigerada neste deserto”? Na verdade, o domínio do ser

humano sobre o Universo criado não está relacionado aos processos

mecânicos ou de funcionamento da ordem natural. O que Deus delegou ao

homem foi a responsabilidade dos cinco relacionamentos essenciais: o homem com Deus, o homem consigo mesmo, o homem com os outros

homens, o homem com os ou outros seres espirituais criados, e o homem

com o mundo natural.

A mesma narrativa do Gênesis que descreve a maneira como Deus

conduziu o processo do caos para a ordem descreve também a maneira

como o ser humano conduziu o processo da ordem para o caos. O sábio rei

Salomão, no seu perturbador Eclesiastes, chega à seguinte conclusão:

Deus fez tudo direito, mas nós complicamos tudo.3 Essa é a melhor

síntese da história de Adão, Eva e a Serpente.

Há quem diga que comer do fruto proibido foi um ato de emancipação

(Ver capítulo 7 – Conversão). Harold Kushner, por exemplo, diz que o

acesso à árvore do conhecimento do bem e do mal não determinou “a queda

do homem, mas sim o surgimento da humanidade”.4 Isso pretende signi car

que, antes de conhecer o bem e o mal, o ser humano era como um animal

sem consciência, guiado pelos seus instintos, sem possibilidade de escolhas

morais, condicionado apenas e tão somente pela sua bagagem genética.

Kushner não fala em “pecado original”, mas em “nascimento da consciência”,

em que a narrativa do Gênesis seria “uma descrição mítica de como os

primeiros seres humanos deixaram o mundo animal e entraram no

complexo mundo da humanidade”.5

Howard Mumma, ao descrever suas conversas com Albert Camus, a rma

que “Adão é um espelho da raça humana” e, com isso, quer sugerir que

“olhando no espelho de Adão, vemos que o homem é uma mistura de bem e

mal” ou, como dizia Pascal, “o homem é a glória e a escória do Universo”.6

Concordo plenamente que Adão é representativo da raça humana e que,

lendo sua história, entendemos como esse con ito entre o bem e o mal veio

a se estabelecer dentro de cada ser humano. Mas não posso admitir que

Deus tenha criado a raça humana assim, como pretende Mumma, nem que

o ato de comer do fruto do conhecimento do bem e do mal tenha tido como resultado a maravilha da consciência, que distingue o humano do animal,

como pretende Kushner.

O ato de Adão comer da árvore do conhecimento do bem e do mal,

conforme narrado no capítulo 3 do Gênesis, deve ser lido à luz de quatro

variáveis: origem, essência, processo e resultado. Fica claro que a Serpente,

que se opõe ao Criador, é a origem do ato. Fica claro também que, em

essência, o ato é transgressão explícita de uma ordem explícita do Criador:

“E o Senhor Deus ordenou ao homem: ‘Coma livremente de qualquer

árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do

mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá’”.7 O

processo que resultou no ato inclui o questionamento ao caráter do Criador

(Ele está mentindo), distorção das palavras do Criador (É verdade que vocês

não podem comer de nenhuma árvore?) e negação da palavra do Criador

(Certamente vocês não morrerão).

Finalmente, o resultado do ato praticado em Adão e Eva foi mesmo a

morte. A morte da raça humana pode ser compreendida em cinco

dimensões. Em primeiro lugar, a morte espiritual, evidenciada na quebra do

vínculo de relação entre Criador e criatura – uma vez desligada da fonte e do

ambiente da existência e da vida, a criatura perde seu direito e sua condição

de continuar a existir, o que, em parte, explica a morte física, pois, além das

dores de parto e do determinismo do desejo na mulher, o ser humano foi

expulso do paraíso para que não comesse da árvore da vida e vivesse para

sempre. 8 Há, também, a morte existencial, com a experiência do medo, da

vergonha e da fuga. O ser humano passa a experimentar uma ruptura

interna que, mais tarde, será resumida nas palavras do apóstolo Paulo: “Pois

o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu

continuo fazendo [...] Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do

corpo sujeito a esta morte?”. 9 Depois, vem a morte na dimensão social, pois

aqueles que eram “uma só carne” experimentam a acusação mútua, a

hostilidade e o abandono, que vai explodir no primeiro assassinato em que

Caim, incapaz de controlar seu impulso para o mal, mata o irmão, Abel.10 A

última dimensão da morte é a morte cósmica, simbolizada na maldição à

terra, que passou a produzir “espinhos e cardos”. O ser humano, que era

parceiro de Deus no cuidado do Universo, passou a ser prisioneiro do

mundo que deveria dominar. 11

O que o Gênesis chama de “conhecimento do bem e do mal” não

expressa uma característica inerente ao ser humano, tampouco o

nascimento da consciência, uma espécie de “queda para o alto”. Primeiro

porque, se fosse algo inerente ou uma evolução moral, Deus não poderia,

não deveria e não teria amaldiçoado o ato nem expulsado o ser humano do

paraíso. Mas também, e principalmente, porque a consciência era não

apenas algo natural ao ser humano criado à imagem e semelhança de Deus,

como também um pré-requisito para que Deus explicitasse uma ordem com

limitação e sanção. Como poderia um ser não dotado de consciência ser

colocado debaixo de um imperativo moral e, mais ainda, ser julgado e

condenado caso não transgredisse tal imperativo?

 

REDENÇÃO

A tradição cristã interpreta o ato de comer da árvore do conhecimento do

bem e do mal não como o surgimento da consciência, mas com um ato de

rebeldia, um grito de independência da criatura para com o Criador. Ao

comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, a criatura não pretende

adquirir consciência do bem e do mal, mas sim tomar nas mãos a

prerrogativa de determinar o bem e o mal e, nesse sentido, “ser igual a

Deus”. O que está em questão é o questionamento a respeito de quem será o

padrão para o funcionamento do Universo e das relações que nele se

processam: Deus ou o homem? A resposta cristã é que a morte é a

consequência natural do fato de a criatura pretender viver como se Deus não

existisse.

Ao a rmar que “o homem se tornou como um de nós”,12 Deus não estava

concordando com a Serpente. A expressão “ser igual a Deus” não trata de

atributos e potências, mas sim de status, isto é, não descreve o que o homem

pretendia ser – poderoso tal qual a divindade, mas sim o que o homem

havia se tornado, um padrão de existência, autônomo e rebelde, em

oposição à divindade. A expulsão do paraíso não coloca o ser humano fora

de um ambiente geográ co, mas sim de uma condição existencial. Expulso

do paraíso, o homem não está longe de uma terra, mas sim alijado de um

relacionamento, o relacionamento com Deus, o Criador. Porque pretende

ocupar o lugar do Criador é que o ser humano ca impedido de ter acesso

ao paraíso. Talvez você esteja se perguntando: “que Criador melindroso é

esse que não é capaz de conviver com adversários?”. Mas a questão não é

essa. Quando dizemos que o sujeito está com frio porque está longe da

fogueira, isso não quer dizer que a fogueira é melindrosa e recusa-se a dar

seu calor.

Os paralelos cam claros e fecham o quebra-cabeças do dilema da raça

humana. O Reino de Deus equivale ao paraíso. A terra amaldiçoada equivale

ao lado de fora do paraíso. Para que a terra amaldiçoada seja transformada

em paraíso, a rebeldia da raça humana deve ser substituída pela rendição à

autoridade e soberania amorosa do Criador: “Venha o teu Reino; seja feita a

tua vontade, assim na terra como no céu”.13 A vocação de cada ser humano

continua sendo cooperar com Deus para colocar ordem no caos. O

resultado da reconciliação entre criatura e Criador é a unidade do Universo,

em que céu e terra não estão mais em oposição, e o paraíso abraçou e

redimiu toda a terra amaldiçoada, isto é, o Reino de Deus chegou em

plenitude. Assim, existirá “o céu e tudo o mais”, em vez de “o céu e nada

mais”. Por esse motivo é que o homem deve lutar contra sua ambição de fuga

para o paraíso. Deve acreditar que este lado do céu é digno de ser

trabalhado: plantar jardins na terra amaldiçoada. A dicotomia entre céu e

terra deve acabar. Negar a terra como se houvesse apenas o céu e nada mais é trair o propósito de Deus, que delegou a terra aos cuidados da raça

humana.

O Reino de Deus é o equivalente ao jardim, de onde o homem foi

expulso. O jardim é o mundo sob o comando de Deus. Toda vez que um

ambiente, uma relação, uma atividade é submetida a Deus, o caos começa a

entrar em ordem, isto é, o jardim dá seus sinais. Haverá um dia em que o

caos será transformado em jardim. Então, o Reino de Deus, que já foi

inaugurado, estará consumado. Enquanto o Reino de Deus não vem em

plenitude, nós trabalhamos para que ele seja sinalizado ao nosso redor.

Enquanto o mundo todo não é transformado em um grande e único jardim,

nós construímos alguns jardins no mundo.

Essa vocação de cooperar com Deus para colocar ordem no caos,

vocação de todo ser humano, é que sintetizo no propósito de construir.

Construir é exercer poder para dominar a terra. Construir é insurgir-se

contra a Serpente e contra todos os agentes da morte para promover a vida.

Construir é plantar jardins em meio ao caos.

 

EVANGELHO

Evangelho que dizer “boas novas, boas notícias”. O portador das boas

notícias é Jesus de Nazaré. As boas notícias são que “o Reino de Deus

chegou”. 14 E as notícias cam melhores ainda quando entendemos que

Jardim do Éden, paraíso, céu e Reino de Deus são expressões sinônimas.

Céu e paraíso são expressões que descrevem uma condição existencial

resultante de uma qualidade de relacionamento entre o ser humano e o

Deus Criador. O céu é o ambiente em que a vontade de Deus é feita em

perfeição, isto é, o ambiente em que o Universo funciona absolutamente

dentro dos padrões de nidos pela natureza-essência-caráter do Deus

Criador. E exatamente isso é que é o Reino de Deus. O evangelho de Jesus é

a a rmação de que o Reino de Deus está disponível, desde já, para todos

aqueles que abandonarem o reino do eu e abrirem mão de sua pretensão de ser, para si mesmos, o padrão de bem e de mal. Essa é a experiência que o

Novo Testamento chama de arrependimento. Esse foi o chamado de Jesus:

“Arrependei-vos e crede”. E por que devemos nos arrepender e crer? Simples:

“porque o Reino de Deus está próximo”, 15 isto é, o Reino de Deus está

acessível, disponível. Basta crer e viver à luz dessa verdade para que, a seu

redor, o caos comece a entrar em ordem, isto é, o jardim comece a dar seus

sinais.

Dallas Willard comparou essa experiência de arrependimento e fé ao

processo de chegada da eletricidade à zona rural, o que muda

completamente as relações das pessoas com os aspectos fundamentais da

vida: luz e escuridão, calor e frio, limpeza e sujeira, trabalho e lazer,

preparação e conservação de alimentos. Mas as pessoas precisam acreditar

na eletricidade, compreender seu funcionamento, tomar providências para

desfrutar dos benefícios dessa energia. Quando Jesus invadiu a história

anunciando o Reino de Deus, foi como se tivesse dito aos fazendeiros:

“Arrependei-vos, porque está próxima a eletricidade. Afastem-se de seus

lampiões e lanternas de querosene, das suas caixas de gelo e porões, das suas

tábuas de esfregar e dos seus batedores de tapete, das suas máquinas de

costuras movidas a mulheres e dos seus radinhos de pilha”. 16

O chamado ao arrependimento signi ca “mudem completamente seu

jeito de viver e de fazer as coisas, creiam que os recursos de Deus estão

disponíveis e que o mundo pode ser diferente”.

 

TRABALHO

Essa perspectiva de céu e terra, jardins e terra amaldiçoada, ressigni ca

nosso conceito e nossa atitude em relação ao trabalho. O trabalho deixa de

ser um castigo que acompanha a expulsão do paraíso. Na verdade, mesmo

no paraíso, o ser humano tinha trabalho. Deus o colocou no paraíso para

cuidar do jardim e cultivá-lo. É fato que, expulsos do paraíso e habitando

uma terra amaldiçoada que produz espinhos e cardos, as coisas cam mais difíceis. Mas também é fato que, quando abrimos mão da nossa pretensão de

controle e dedicamos as coisas para que sobre elas venha o Reino de Deus, e

a vontade de Deus seja feita fora do paraíso como é feita dentro do paraíso, o

caos começa a entrar em ordem.

Construir é cooperar com Deus para colocar ordem no caos. Construir é

plantar jardins no meio do caos. Esse caos pode ser seu mundo interior, seu

ambiente familiar, suas relações de trabalho e a sociedade onde você vive.

Não importa. O que importa é que você cumpra sua vocação de cooperar

com Deus.

A partir dessa experiência, tudo o que você faz é inserido na dimensão do

sagrado. Todo serviço passa a ser um ato de cooperação com Deus para a

redenção do Universo. Não importa se esse serviço é falar palavras de

encorajamento e de consolo para alguém em a ição, consertar um

automóvel, fazer um parto, dar uma aula de matemática, fechar o balanço da

empresa ou passar a manhã de sábado com os lhos no parque.

Todo trabalho realizado como devoção a Deus é também uma dádiva ao

próximo e um sinal do Reino de Deus. O bispo sul-africano Desmond Tutu

disse que “é por meio do trabalho que nos tornamos cooperadores de Deus”.

Talvez por esse motivo Jesus nos advertiu que o julgamento nal seria nos

termos da solidariedade e de promoção da justiça: tive sede, e você me deu

de beber; fome, e você me deu de comer; estive preso, e você me visitou; nu,

e você me vestiu; desabrigado, e você me deu terra para plantar; sem

horizontes, e você deu crédito; oprimido, e você foi meu advogado; era

analfabeto, e você me alfabetizou; quei doente, e você me operou; estava na

la, e você me atendeu com dignidade; com dor de dente, e você me fez

dormir; desempregado, e você me deu oportunidade; triste, e você me fez

rir; chorando sozinho, e você chorou comigo.

 

REVOLUÇÃO

“Estamos aqui para mostrar ao mundo que outro mundo é possível gritou

um homem no palco do Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre,

Brasil, em 2002, e foi aplaudido por mais de dez mil pessoas.”

Que pretensão maravilhosa daquele homem. Que pretensão maravilhosa

daquela multidão. Eles são nós. Somos mesmo viciados em utopia.

Acreditamos que o caos pode entrar em ordem, que o deserto pode orescer

e que este mundo, este lado de cá do céu, é digno de ser trabalhado. Somos

vocacionados para plantar jardins. Os jovens cristãos portugueses

escolheram plantar cravos. Usaram as aberturas das armas dos soldados

como buracos em que depositaram suas ores, sementes de futuro. Saíram

pelas ruas de Lisboa “caminhando e cantando” uma canção 17 que ainda hoje

alimenta minha utopia e rega meu exercício diário de plantar jardins.

 

Ó vinde, vós, os povos de todas as nações, erguei-vos e cantai com alegria. Fazei soar nos ares a nova melodia que Jesus Cristo traz libertação. É tempo de romper a vil escravidão que em vós exercem homens ou ideias. É tempo de dizer que só Deus pode ser o único Senhor da humanidade.

 

A verdade vos libertará, sereis em Cristo verdadeiramente livres. Vinde todos, sim, oh, vinde já, e celebrai com alegria a vossa libertação. E vós os oprimidos, e vós os explorados, e vós os que viveis em agonia, e vós os cegos, coxos, vós cativos, sós, sabei que em breve vem um novo dia. Um dia de justiça, um dia de verdade, um dia em que haverá na terra paz, e que será vencida a morte pela vida, e a escravidão, en m, acabará.