Vivendo com propósitos
16. Trabalho
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TRABALHO
DO CAOS PARA A ORDEM
A doutrina de Rabi Schimeon era: “Existe apenas o céu e nada mais”; porém,
o céu o contradisse: “Existe o céu e tudo o mais”; foi então que o rabi
entendeu que o mundo, deste lado do céu, é digno de ser trabalhado.1
Essa experiência do Rabi Schimeon deve se repetir tantas vezes quanto
existirem seres humanos. É uma experiência paradigmática que gira ao
redor de quatro variáveis: o paraíso, a Terra maldita, a saudade do paraíso e
o trabalho. Existe um lado de lá do céu, que abraça toda a realidade e que
está sobre tudo quanto existe, a matriz que controla e que de ne tudo o
mais. Apenas quem enxerga um paraíso consegue perceber sentido do lado
de cá do céu. Sim, porque existe um lado de cá do céu que insiste em
mostrar-se como única dimensão de realidade. Mas esse lado de cá do céu é
uma Terra amaldiçoada, em oposição ao paraíso, o lado de lá do céu. A
grande tentação enfrentada pelo ser humano é negar a existência ou valor da
Terra amaldiçoada e fugir de volta para o paraíso. Mas o Universo não é
nem céu nem Terra, isolados um do outro: O Universo é céu e Terra, um
sobre o outro: o céu acima e a Terra abaixo, o céu como matriz e a Terra
como palco, o céu como utopia e a Terra como arena. Um lado de lá e um
lado de cá do céu, porque em termos ideais, na utopia, todo o Universo é
céu, e haverá um tempo quando não teremos mais a Terra maldita.
Para melhor compreendermos esse con ito entre “o céu e nada mais” e “o
céu e tudo o mais”, precisamos voltar ao Gênesis, à narrativa judaico-cristã,
da origem de todas as coisas.
“A princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era vazia e sem forma.”
Esse primeiro versículo da Bíblia Hebraica apresenta o ato criador de Deus,
em que a matéria está subordinada ao Espírito ou, se preferir, o Espírito dá
origem à matéria. A Terra não poderia ser “vazia e sem forma”, pois a forma
é inerente à matéria. O que se diz, na verdade, é que a Terra era sem forma
organizada. A expressão hebraica Tohú Bohú, vazia e sem forma – o vazio e
o deserto –, melhor traduzida por desabitada e caótica. Em outras palavras,
criar é colocar ordem no caos. Criar é dar inteligência, signi cado e
propósito àquilo que é irracional, fútil e aleatório. Foi isso o que Deus fez. E
foi isso o que Deus ordenou que o ser humano zesse:
Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do
mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra.” 2
A lógica dessa narrativa é simples: um ser criado à imagem e semelhança
de um Deus que cria céu e terra necessariamente possuiria, também,
capacidades e dotações de criatividade. O potencial criativo de Deus é um
fator inerente a toda pessoa humana, e justamente em resposta a esse
potencial é que toda a raça humana é movida pelo ímpeto de encher a terra
e de subjugá-la. Deus constituiu o ser humano seu parceiro na criação. Todo
ser humano tem dentro de si a vocação de cooperar com Deus para colocar
ordem no caos. Por essa razão, assim como o Rabi Schimeon descobriu,
cada um de nós deve descobrir que “o mundo do lado de cá do céu é digno
de ser trabalhado”.
DA ORDEM PARA O CAOS
Mas há algo fora do lugar nessa história. O ato criador de Deus não foi
su ciente para colocar ordem no caos? Uma vez que Deus criou, isto é, deu
ordem, signi cado e propósito ao Universo, por que se diz que o ser
humano deve cooperar com Deus para colocar ordem no caos? Em síntese,
de onde vem o caos?
Em primeiro lugar precisamos distinguir duas dimensões de caos. Existe
o caos do Universo enquanto realidade física, um caos inerente ao
funcionamento da matéria. Apesar das discussões das físicas clássica e
quântica, parece que os estudiosos preferem a rmar uma síntese a respeito
da ordem e caos no Universo. Em vez de a rmar que o Universo tende para
o caos ou que o Universo obedece a uma ordem, é preferível a rmar que há
uma ordem por trás do caos aparente e há um caos por trás de toda ordem
aparente. Para melhor compreensão dessa questão, você pode pesquisar a
teoria do caos, Werner Heisenberg e seu princípio da incerteza e as leis da
termodinâmica. Você vai car de boca aberta ao perceber a inteligência da
mecânica do cosmos.
Mas há outra dimensão do caos, e é essa a que mais nos interessa. Existe
um caos (no sentido de desordem, confusão, comportamento imprevisível)
no ambiente da existência humana: as relações do homem com Deus, com
os demais seres humanos, consigo mesmo e com a própria natureza. Parece
bem razoável que, quando Deus convidou o ser humano para cooperar com
ele na manutenção da ordem no caos, ele não estava se referindo ao
processo de gestão dos saltos quânticos dos elétrons, das órbitas das estrelas,
das distâncias entre os planetas ou das velocidades de rotação e translação
da Terra. Você é capaz de imaginar Moisés pensando consigo mesmo algo
do tipo: “Acho que vou afastar a Terra um pouquinho mais do Sol para ver
se consigo dar uma refrigerada neste deserto”? Na verdade, o domínio do ser
humano sobre o Universo criado não está relacionado aos processos
mecânicos ou de funcionamento da ordem natural. O que Deus delegou ao
homem foi a responsabilidade dos cinco relacionamentos essenciais: o homem com Deus, o homem consigo mesmo, o homem com os outros
homens, o homem com os ou outros seres espirituais criados, e o homem
com o mundo natural.
A mesma narrativa do Gênesis que descreve a maneira como Deus
conduziu o processo do caos para a ordem descreve também a maneira
como o ser humano conduziu o processo da ordem para o caos. O sábio rei
Salomão, no seu perturbador Eclesiastes, chega à seguinte conclusão:
Deus fez tudo direito, mas nós complicamos tudo.3 Essa é a melhor
síntese da história de Adão, Eva e a Serpente.
Há quem diga que comer do fruto proibido foi um ato de emancipação
(Ver capítulo 7 – Conversão). Harold Kushner, por exemplo, diz que o
acesso à árvore do conhecimento do bem e do mal não determinou “a queda
do homem, mas sim o surgimento da humanidade”.4 Isso pretende signi car
que, antes de conhecer o bem e o mal, o ser humano era como um animal
sem consciência, guiado pelos seus instintos, sem possibilidade de escolhas
morais, condicionado apenas e tão somente pela sua bagagem genética.
Kushner não fala em “pecado original”, mas em “nascimento da consciência”,
em que a narrativa do Gênesis seria “uma descrição mítica de como os
primeiros seres humanos deixaram o mundo animal e entraram no
complexo mundo da humanidade”.5
Howard Mumma, ao descrever suas conversas com Albert Camus, a rma
que “Adão é um espelho da raça humana” e, com isso, quer sugerir que
“olhando no espelho de Adão, vemos que o homem é uma mistura de bem e
mal” ou, como dizia Pascal, “o homem é a glória e a escória do Universo”.6
Concordo plenamente que Adão é representativo da raça humana e que,
lendo sua história, entendemos como esse con ito entre o bem e o mal veio
a se estabelecer dentro de cada ser humano. Mas não posso admitir que
Deus tenha criado a raça humana assim, como pretende Mumma, nem que
o ato de comer do fruto do conhecimento do bem e do mal tenha tido como resultado a maravilha da consciência, que distingue o humano do animal,
como pretende Kushner.
O ato de Adão comer da árvore do conhecimento do bem e do mal,
conforme narrado no capítulo 3 do Gênesis, deve ser lido à luz de quatro
variáveis: origem, essência, processo e resultado. Fica claro que a Serpente,
que se opõe ao Criador, é a origem do ato. Fica claro também que, em
essência, o ato é transgressão explícita de uma ordem explícita do Criador:
“E o Senhor Deus ordenou ao homem: ‘Coma livremente de qualquer
árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do
mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá’”.7 O
processo que resultou no ato inclui o questionamento ao caráter do Criador
(Ele está mentindo), distorção das palavras do Criador (É verdade que vocês
não podem comer de nenhuma árvore?) e negação da palavra do Criador
(Certamente vocês não morrerão).
Finalmente, o resultado do ato praticado em Adão e Eva foi mesmo a
morte. A morte da raça humana pode ser compreendida em cinco
dimensões. Em primeiro lugar, a morte espiritual, evidenciada na quebra do
vínculo de relação entre Criador e criatura – uma vez desligada da fonte e do
ambiente da existência e da vida, a criatura perde seu direito e sua condição
de continuar a existir, o que, em parte, explica a morte física, pois, além das
dores de parto e do determinismo do desejo na mulher, o ser humano foi
expulso do paraíso para que não comesse da árvore da vida e vivesse para
sempre. 8 Há, também, a morte existencial, com a experiência do medo, da
vergonha e da fuga. O ser humano passa a experimentar uma ruptura
interna que, mais tarde, será resumida nas palavras do apóstolo Paulo: “Pois
o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu
continuo fazendo [...] Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do
corpo sujeito a esta morte?”. 9 Depois, vem a morte na dimensão social, pois
aqueles que eram “uma só carne” experimentam a acusação mútua, a
hostilidade e o abandono, que vai explodir no primeiro assassinato em que
Caim, incapaz de controlar seu impulso para o mal, mata o irmão, Abel.10 A
última dimensão da morte é a morte cósmica, simbolizada na maldição à
terra, que passou a produzir “espinhos e cardos”. O ser humano, que era
parceiro de Deus no cuidado do Universo, passou a ser prisioneiro do
mundo que deveria dominar. 11
O que o Gênesis chama de “conhecimento do bem e do mal” não
expressa uma característica inerente ao ser humano, tampouco o
nascimento da consciência, uma espécie de “queda para o alto”. Primeiro
porque, se fosse algo inerente ou uma evolução moral, Deus não poderia,
não deveria e não teria amaldiçoado o ato nem expulsado o ser humano do
paraíso. Mas também, e principalmente, porque a consciência era não
apenas algo natural ao ser humano criado à imagem e semelhança de Deus,
como também um pré-requisito para que Deus explicitasse uma ordem com
limitação e sanção. Como poderia um ser não dotado de consciência ser
colocado debaixo de um imperativo moral e, mais ainda, ser julgado e
condenado caso não transgredisse tal imperativo?
REDENÇÃO
A tradição cristã interpreta o ato de comer da árvore do conhecimento do
bem e do mal não como o surgimento da consciência, mas com um ato de
rebeldia, um grito de independência da criatura para com o Criador. Ao
comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, a criatura não pretende
adquirir consciência do bem e do mal, mas sim tomar nas mãos a
prerrogativa de determinar o bem e o mal e, nesse sentido, “ser igual a
Deus”. O que está em questão é o questionamento a respeito de quem será o
padrão para o funcionamento do Universo e das relações que nele se
processam: Deus ou o homem? A resposta cristã é que a morte é a
consequência natural do fato de a criatura pretender viver como se Deus não
existisse.
Ao a rmar que “o homem se tornou como um de nós”,12 Deus não estava
concordando com a Serpente. A expressão “ser igual a Deus” não trata de
atributos e potências, mas sim de status, isto é, não descreve o que o homem
pretendia ser – poderoso tal qual a divindade, mas sim o que o homem
havia se tornado, um padrão de existência, autônomo e rebelde, em
oposição à divindade. A expulsão do paraíso não coloca o ser humano fora
de um ambiente geográ co, mas sim de uma condição existencial. Expulso
do paraíso, o homem não está longe de uma terra, mas sim alijado de um
relacionamento, o relacionamento com Deus, o Criador. Porque pretende
ocupar o lugar do Criador é que o ser humano ca impedido de ter acesso
ao paraíso. Talvez você esteja se perguntando: “que Criador melindroso é
esse que não é capaz de conviver com adversários?”. Mas a questão não é
essa. Quando dizemos que o sujeito está com frio porque está longe da
fogueira, isso não quer dizer que a fogueira é melindrosa e recusa-se a dar
seu calor.
Os paralelos cam claros e fecham o quebra-cabeças do dilema da raça
humana. O Reino de Deus equivale ao paraíso. A terra amaldiçoada equivale
ao lado de fora do paraíso. Para que a terra amaldiçoada seja transformada
em paraíso, a rebeldia da raça humana deve ser substituída pela rendição à
autoridade e soberania amorosa do Criador: “Venha o teu Reino; seja feita a
tua vontade, assim na terra como no céu”.13 A vocação de cada ser humano
continua sendo cooperar com Deus para colocar ordem no caos. O
resultado da reconciliação entre criatura e Criador é a unidade do Universo,
em que céu e terra não estão mais em oposição, e o paraíso abraçou e
redimiu toda a terra amaldiçoada, isto é, o Reino de Deus chegou em
plenitude. Assim, existirá “o céu e tudo o mais”, em vez de “o céu e nada
mais”. Por esse motivo é que o homem deve lutar contra sua ambição de fuga
para o paraíso. Deve acreditar que este lado do céu é digno de ser
trabalhado: plantar jardins na terra amaldiçoada. A dicotomia entre céu e
terra deve acabar. Negar a terra como se houvesse apenas o céu e nada mais é trair o propósito de Deus, que delegou a terra aos cuidados da raça
humana.
O Reino de Deus é o equivalente ao jardim, de onde o homem foi
expulso. O jardim é o mundo sob o comando de Deus. Toda vez que um
ambiente, uma relação, uma atividade é submetida a Deus, o caos começa a
entrar em ordem, isto é, o jardim dá seus sinais. Haverá um dia em que o
caos será transformado em jardim. Então, o Reino de Deus, que já foi
inaugurado, estará consumado. Enquanto o Reino de Deus não vem em
plenitude, nós trabalhamos para que ele seja sinalizado ao nosso redor.
Enquanto o mundo todo não é transformado em um grande e único jardim,
nós construímos alguns jardins no mundo.
Essa vocação de cooperar com Deus para colocar ordem no caos,
vocação de todo ser humano, é que sintetizo no propósito de construir.
Construir é exercer poder para dominar a terra. Construir é insurgir-se
contra a Serpente e contra todos os agentes da morte para promover a vida.
Construir é plantar jardins em meio ao caos.
EVANGELHO
Evangelho que dizer “boas novas, boas notícias”. O portador das boas
notícias é Jesus de Nazaré. As boas notícias são que “o Reino de Deus
chegou”. 14 E as notícias cam melhores ainda quando entendemos que
Jardim do Éden, paraíso, céu e Reino de Deus são expressões sinônimas.
Céu e paraíso são expressões que descrevem uma condição existencial
resultante de uma qualidade de relacionamento entre o ser humano e o
Deus Criador. O céu é o ambiente em que a vontade de Deus é feita em
perfeição, isto é, o ambiente em que o Universo funciona absolutamente
dentro dos padrões de nidos pela natureza-essência-caráter do Deus
Criador. E exatamente isso é que é o Reino de Deus. O evangelho de Jesus é
a a rmação de que o Reino de Deus está disponível, desde já, para todos
aqueles que abandonarem o reino do eu e abrirem mão de sua pretensão de ser, para si mesmos, o padrão de bem e de mal. Essa é a experiência que o
Novo Testamento chama de arrependimento. Esse foi o chamado de Jesus:
“Arrependei-vos e crede”. E por que devemos nos arrepender e crer? Simples:
“porque o Reino de Deus está próximo”, 15 isto é, o Reino de Deus está
acessível, disponível. Basta crer e viver à luz dessa verdade para que, a seu
redor, o caos comece a entrar em ordem, isto é, o jardim comece a dar seus
sinais.
Dallas Willard comparou essa experiência de arrependimento e fé ao
processo de chegada da eletricidade à zona rural, o que muda
completamente as relações das pessoas com os aspectos fundamentais da
vida: luz e escuridão, calor e frio, limpeza e sujeira, trabalho e lazer,
preparação e conservação de alimentos. Mas as pessoas precisam acreditar
na eletricidade, compreender seu funcionamento, tomar providências para
desfrutar dos benefícios dessa energia. Quando Jesus invadiu a história
anunciando o Reino de Deus, foi como se tivesse dito aos fazendeiros:
“Arrependei-vos, porque está próxima a eletricidade. Afastem-se de seus
lampiões e lanternas de querosene, das suas caixas de gelo e porões, das suas
tábuas de esfregar e dos seus batedores de tapete, das suas máquinas de
costuras movidas a mulheres e dos seus radinhos de pilha”. 16
O chamado ao arrependimento signi ca “mudem completamente seu
jeito de viver e de fazer as coisas, creiam que os recursos de Deus estão
disponíveis e que o mundo pode ser diferente”.
TRABALHO
Essa perspectiva de céu e terra, jardins e terra amaldiçoada, ressigni ca
nosso conceito e nossa atitude em relação ao trabalho. O trabalho deixa de
ser um castigo que acompanha a expulsão do paraíso. Na verdade, mesmo
no paraíso, o ser humano tinha trabalho. Deus o colocou no paraíso para
cuidar do jardim e cultivá-lo. É fato que, expulsos do paraíso e habitando
uma terra amaldiçoada que produz espinhos e cardos, as coisas cam mais difíceis. Mas também é fato que, quando abrimos mão da nossa pretensão de
controle e dedicamos as coisas para que sobre elas venha o Reino de Deus, e
a vontade de Deus seja feita fora do paraíso como é feita dentro do paraíso, o
caos começa a entrar em ordem.
Construir é cooperar com Deus para colocar ordem no caos. Construir é
plantar jardins no meio do caos. Esse caos pode ser seu mundo interior, seu
ambiente familiar, suas relações de trabalho e a sociedade onde você vive.
Não importa. O que importa é que você cumpra sua vocação de cooperar
com Deus.
A partir dessa experiência, tudo o que você faz é inserido na dimensão do
sagrado. Todo serviço passa a ser um ato de cooperação com Deus para a
redenção do Universo. Não importa se esse serviço é falar palavras de
encorajamento e de consolo para alguém em a ição, consertar um
automóvel, fazer um parto, dar uma aula de matemática, fechar o balanço da
empresa ou passar a manhã de sábado com os lhos no parque.
Todo trabalho realizado como devoção a Deus é também uma dádiva ao
próximo e um sinal do Reino de Deus. O bispo sul-africano Desmond Tutu
disse que “é por meio do trabalho que nos tornamos cooperadores de Deus”.
Talvez por esse motivo Jesus nos advertiu que o julgamento nal seria nos
termos da solidariedade e de promoção da justiça: tive sede, e você me deu
de beber; fome, e você me deu de comer; estive preso, e você me visitou; nu,
e você me vestiu; desabrigado, e você me deu terra para plantar; sem
horizontes, e você deu crédito; oprimido, e você foi meu advogado; era
analfabeto, e você me alfabetizou; quei doente, e você me operou; estava na
la, e você me atendeu com dignidade; com dor de dente, e você me fez
dormir; desempregado, e você me deu oportunidade; triste, e você me fez
rir; chorando sozinho, e você chorou comigo.
REVOLUÇÃO
“Estamos aqui para mostrar ao mundo que outro mundo é possível gritou
um homem no palco do Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre,
Brasil, em 2002, e foi aplaudido por mais de dez mil pessoas.”
Que pretensão maravilhosa daquele homem. Que pretensão maravilhosa
daquela multidão. Eles são nós. Somos mesmo viciados em utopia.
Acreditamos que o caos pode entrar em ordem, que o deserto pode orescer
e que este mundo, este lado de cá do céu, é digno de ser trabalhado. Somos
vocacionados para plantar jardins. Os jovens cristãos portugueses
escolheram plantar cravos. Usaram as aberturas das armas dos soldados
como buracos em que depositaram suas ores, sementes de futuro. Saíram
pelas ruas de Lisboa “caminhando e cantando” uma canção 17 que ainda hoje
alimenta minha utopia e rega meu exercício diário de plantar jardins.
Ó vinde, vós, os povos de todas as nações, erguei-vos e cantai com alegria. Fazei soar nos ares a nova melodia que Jesus Cristo traz libertação. É tempo de romper a vil escravidão que em vós exercem homens ou ideias. É tempo de dizer que só Deus pode ser o único Senhor da humanidade.
A verdade vos libertará, sereis em Cristo verdadeiramente livres. Vinde todos, sim, oh, vinde já, e celebrai com alegria a vossa libertação. E vós os oprimidos, e vós os explorados, e vós os que viveis em agonia, e vós os cegos, coxos, vós cativos, sós, sabei que em breve vem um novo dia. Um dia de justiça, um dia de verdade, um dia em que haverá na terra paz, e que será vencida a morte pela vida, e a escravidão, en m, acabará.