Vivendo com propósitos
7. Conversão
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CONVERSÃO
ESPIRITUALIDADE
A palavra espiritualidade pode suscitar muitas imagens: um mosteiro, com
homens recolhidos e afastados da realidade, auto agelando-se em
penitências; pessoas sentadas em roda, na posição de lótus, buscando fazer
uma ponte entre seu eu mais profundo e as energias do Universo; o
auditório repleto de evangélicos diante de um pastor que faz promessas para
a solução imediata de quaisquer problemas em troca de ofertas nanceiras; a
romaria de éis que cruzam uma pequena vila, à luz de velas, seguindo um
santo de devoção ao som de cantilenas tristes; ou até mesmo a mesa daquele
seu colega de trabalho, cheia de cristais, gnomos, tas e amuletos que visam
atrair bons uidos e afastar maus-olhados.
Todas essas, na verdade, são expressões de espiritualidade, cada uma
delas empacotada segundo o critério de uma tradição religiosa. Cada
civilização tem seu jeito de sistematizar a experiência espiritual estruturando
as coisas em termos de dogmas, de rituais e de padrões morais. Isso é o que
chamamos de religião. Mas nosso assunto não é religião. É espiritualidade.
O espiritual é uma realidade pessoal, não física, que não se pode perceber
com os cinco sentidos: “o espiritual não tem propriedades físicas como
forma, tamanho, peso, cor, sabor, odor e textura”.1 O espírito é “poder
pessoal incorpóreo”,2 3 e podemos entender que “Deus é Espírito”, como
ensinou Jesus, assim como o ser humano, criado à imagem e semelhança de
Deus.
A peregrinação espiritual é a caminhada em que o Espírito de Deus foi
unido ao espírito do homem. Nesse caso, precisamos deixar para trás os hinduísmos e budismos, que desconsideram a característica pessoal do
espírito e convocam as pessoas para o autodesenvolvimento a m de
realizarem a integração e harmonização com o todo – o Dharma e o
Nirvana. C. S. Lewis comenta que essas propostas poderiam ser
caracterizadas como espiritualidades de absorção: “depois desta vida, ou de
várias vidas, as almas humanas seriam absorvidas em Deus”4 (ou deus, digo
eu, pois se referem ao todo, ao tudo impessoal). Essa absorção é comparada
com uma gota de água que cai no mar, o que signi ca o m da gota. Nesse
caso, ser absorvido signi ca deixar de existir. Nessa versão de
espiritualidade, não existe personalidade, individualidade, pessoalidade.
Para abordar as possibilidades da relação espírito-Espírito, poderíamos
também transitar pelos ambientes do islamismo e do judaísmo, que têm o
mesmo tronco com rami cações diferentes, a saber, a revelação de Deus a
Abraão e a saga de seus descendentes Ismael e Isaque, respectivamente,
como se pode ler no capítulo 15 do Gênesis, na Bíblia Sagrada.
Nosso caminho, entretanto, é o cristianismo. Apesar de, ou mesmo em
razão de, sua base judaica (o Cristo cristão é o Messias prometido aos judeus),
o cristianismo é Cristo. Não o Cristo interior de cada ser humano. Não o
Cristo como estado – estágio nal da evolução humana, o chamado “eu
crístico”, numa espécie de “budismo ou de hinduísmo cristão”. O
cristianismo não propõe que os seres humanos tornem-se cristos da mesma
maneira que o budismo propõe que se tornem budas ou que o hinduísmo
propõe que se tornem krishnas. No cristianismo, Cristo não é um status
universal do espírito humano plenamente iluminado. Cristo é sim uma
pessoa distinta de todas as criaturas de Deus, sendo ele mesmo o próprio
Deus – Um com o Único. E a espiritualidade cristã propõe o revestir-se de
Cristo na perspectiva do relacionamento de unidade com ele, em que as
partes não se descaracterizam em sua individualidade. O cristianismo fala
de unidade, em vez de absorção; intimidade, em vez de aniquilamento;
relacionamento, em vez de incorporação; rendição, em vez de fusão.
A espiritualidade cristã é, portanto, o encontro espírito-Espírito, em que
este Espírito, com “E” maiúsculo, é Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito
Santo, o mistério da Santíssima Trindade. Transcender é ter acesso, fazer
contato, estabelecer conexão, encontrar-se, deixar-se encontrar, ser
encontrado pelo Espírito. Transcender é imergir em Deus. Transcender é
estabelecer um relacionamento consciente com o Espírito por meio de – na
pessoa de – Jesus Cristo. A espiritualidade cristã implica cuidar do espírito e
relacionar-se com o Espírito a partir do encontro pessoal com Jesus Cristo.
MATRICIAL
Justiça seja feita. Qualquer tradição de espiritualidade decente vai tratar das
relações entre o ego e o eu, o eu humano e o Eu divino, e das relações entre
eles. Talvez com linguagens diferentes, ou até chegando a ter posturas bem
próximas, todos os mestres de espiritualidade, inclusive não cristãos,
a rmam categoricamente a impossibilidade da realização plena do ser
humano enquanto permanecer preso aos interesses egocêntricos, ou a
estados egoicos, em detrimento do eu verdadeiro, mais profundo, mais
essencial, que se pleni ca na abnegação, no altruísmo absoluto e na entrega
voluntária de si mesmo em favor do bem comum e maior. Podemos dizer
que a experiência espiritual matricial diz respeito ao que fazer com o
impulso egocêntrico de que é vítima-algoz toda pessoa humana.
“A partir do momento em que existe em nós um ‘eu’ autônomo, existe
sempre a possibilidade de preferirmos esse ‘eu’ a tudo o mais, de querermos
ser o centro, na verdade, de querermos ser Deus”, disse C. S. Lewis. “Esse foi
o pecado de Satanás, e esse foi o pecado que ele ensinou à raça humana”.5
Esse é o real sentido da narrativa de Gênesis, chamada na teologia cristã de
“queda”, signi cando que o ser humano “caiu da presença de Deus” e “caiu
de sua condição de perfeição”. O diálogo entre Adão, Eva e a Serpente
processa-se ao redor de uma insinuação mentirosa, mas quase irresistível, a respeito do benefício de comer do fruto proibido: “no dia em que dele
comerdes... como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal”. 6
Harold Kushner diz que a história do jardim do Éden não trata do
“paraíso perdido”, mas do “paraíso desenvolvido”, e também não trata do
“pecado original”, mas do “nascimento da consciência”, não aborda a “queda
do Homem”, mas o “surgimento da Humanidade”, e narra o salto por meio
do qual a raça humana descobriu o que existe para além da existência
animal – aquele que antes era dirigido por instintos passa a ser dirigido por
senso moral.7 A palavra de Deus: “no dia em que dela comeres [da árvore do
conhecimento do bem e do mal] certamente morrerás”,8 não teria sido o
estabelecimento de uma condenação, mas sim apenas uma advertência, uma
declaração da consequência natural do ato de conhecer o bem e o mal.
Essa interpretação parece lógica e conveniente, mas não é coerente com o
todo da Escritura Sagrada. Em primeiro lugar, porque a narrativa do Gênesis
não autoriza a a rmação de que, antes de comer o fruto, o ser humano não
possuía consciência nem senso moral, pois, se assim fosse, não poderia ser
julgado por Deus em razão de seu ato. Isto é, como poderia Deus atribuir
responsabilidade moral a um ser que não possuía senso moral,
discernimento de certo e errado, en m, consciência?
Também devemos levar em consideração que toda a estruturação da
relação entre Deus e a raça humana, especialmente no Novo Testamento,
está baseada na realidade de que o evento paradigmático de Adão e Eva
resultou em alienação de Deus. Isso signi ca que o complexo “alma vivente”
(pó da terra + fôlego da vida) passou a funcionar em detrimento de sua
fonte original. O cristianismo propõe que o espírito do homem pode viver
tanto em harmonia quanto em rebeldia em relação ao Espírito de Deus.
Quando o espírito do homem está em harmonia com o Espírito de Deus,
dizemos que tal pessoa está “vivendo no espírito-Espírito”; quando está em
rebeldia, dizemos que tal pessoa está “vivendo na carne”. 9
O conceito cristão de pecado está absolutamente ligado a essa
compreensão: estar em pecado é estar em rebeldia contra Deus, em busca da
possibilidade de viver independentemente de Deus, como se ele não
existisse. Aqueles que “vivem na carne” estão alheios à vida do Espírito de
Deus e dependem da energia vital comum a todo ser humano, isto é,
dependem de Bios, e não de Zoe, que é própria de Deus, chamada de vida
eterna. Por essa razão, o evangelho diz que as pessoas que estão afastadas de
Deus “estão espiritualmente mortas”.
O homem não somente vive, mas também ama e raciocina; a vida biológica atinge nele o nível mais elevado que conhecemos. Mas o que o homem não possui, na sua condição natural, é a vida espiritual: essa espécie de vida mais elevada, diversa da nossa, que existe em Deus. Usamos a mesma palavra vida para ambas [...] mas na realidade a diferença que há entre a vida biológica e a vida espiritual é tão grande que pre ro usar nomes distintos para referir-me a elas. À vida biológica, que recebemos da natureza, e que corno tudo o mais que há na natureza tende a esgotar-se e decair, de forma que só pode manter-se se receber subsídios permanentes dessa mesma natureza sob a forma de ar, água, alimento etc., a essa vida daremos o nome de Bios. Já a vida espiritual, que está em Deus desde toda a eternidade, e que criou todo o Universo natural, dar-lhe-emos o nome de Zoe. Bios apresenta, sem dúvida, uma semelhança vaga e simbólica com Zoe, mas apenas o tipo de semelhança que existe entre uma fotogra a e o lugar fotografado, ou entre uma estátua e um homem. Um homem que passasse da condição de ter vida Bios para a de ter Zoe teria sofrido uma transformação tão grande como uma estátua que passasse da condição de pedra esculpida para a condição de ser humano real. E este é o tema central do cristianismo. O nosso mundo é um imenso ateliê de um grande escultor. Nós somos as estátuas, e entre nós corre o rumor de que, um dia, alguns de nós vamos
receber vida. 10
Fico impressionado com a coerência do evangelho. Jesus diz que quem
quer participar do Reino de Deus deve “nascer de novo”. O primeiro
nascimento é “da carne”, e resulta em vida-Bios. O segundo é o do Espírito-
espírito, que nos dá acesso à vida-Zoe. A maneira como nascemos do espírito é por meio de um relacionamento com Jesus, o primeiro dos
humanos a ter em si mesmo a vida eterna. Por essa razão, Jesus disse que ele
veio para que tenhamos vida, e vida completa, integral, e essa é a vida-Zoe.
A questão ao redor do conhecimento do bem e do mal não é meramente
uma discussão a respeito de ter ou não ter consciência, de ser dotado ou não
de senso moral, de ser ou não ser obediente, de comer ou não comer um
fruto. Sou de opinião que acreditar que os critérios de Deus para seu
relacionamento com a raça humana estejam baseados em obediência e
desobediência é um absurdo não cristão. O con ito entre Deus e a raça
humana não é uma questão moral, mas sim relacional; não é uma questão
de obediência ou de desobediência, mas de dependência e independência. O
ato de desobediência, simbolizado em comer do fruto proibido, é um ato de
rebelião, uma pretensa declaração de independência e de autonomia
absoluta da criatura para com o Criador. Ser rebelde é muito mais do que ser
desobediente.
Vale a pena lembrar que pneuma, palavra grega que identi ca tanto o
espírito humano quanto o divino, pode também ser traduzida como “sopro,
vento”. A metáfora é perfeita. O ser humano que se harmoniza com Deus,
alinha seu espírito ao Espírito de Deus, passa a viver impulsionado por uma
força-energia que extrapola suas condições inerentes. Isto é, quem está em
rebeldia contra Deus vive apenas da força biológica, enquanto aquele que
está em harmonia e sujeição a Deus vive da relação espírito-Espírito, força
da vida-Zoe, vida eterna. Isso explica as a rmações de Paulo, apóstolo,
quando de ne a vida espiritual como “Cristo vive em mim” (ou, como
pre ro em outra tradução, “Cristo me vive”); 11 12 “Cristo [vive] em vocês”; “o
Espírito Santo que habita em vocês”. 13
A expressão “Cristo em vocês” não é simplesmente uma metáfora, mas
um fato. O Cristo ressurreto habita, por meio do seu Espírito, naquele que
crê. A melhor compreensão do Gênesis não pode gravitar ao redor de ações
morais nem de “pecado original”. Paulo, apóstolo, interpreta o Gênesis a
partir do binômio vida-morte,14 e por essa razão se diz que Jesus veio trazer
“vida completa”, e não apenas destruiu a morte, mas “trouxe à luz a vida e a
imortalidade”. 15
PECADO
A de nição mais comum para pecado é “infringir normas divinas”. Millard
Erickson, em sua teologia sistemática, de ne pecado como “qualquer falta
de conformidade, ativa ou passiva, com a lei moral de Deus. Isso pode ser
uma questão de ato, de pensamento ou de disposição”. A ênfase recai sobre
conformidade com a lei, e isso pressupõe uma autoridade legisladora. Nesse
caso, estamos em sérias di culdades, pois essa de nição de pecado já não
faz o menor sentido para a maioria de nossos vizinhos e, para falar a
verdade, nem para nós, que sabemos que nem tudo o que é legal é moral, e
que nem tudo o que é moral é legal. Quem pretende convencer alguém de
que pecado é desobedecer às leis de Deus sai perdendo de três a zero. Esse
papo de normas, leis e regras está descartado – um a zero. A ideia de um
Deus autoritário, aliás, de qualquer noção de autoridade, também já era –
dois a zero. E mesmo que seja verdadeiro que pecado é infringir leis divinas,
as pessoas perguntam: “E daí, que diferença isso faz?” – três a zero.
Isso nos coloca no contexto do relativismo ético. Nem mesmo práticas
como matar, mentir e roubar podem ser consideradas unânimes na
de nição de pecado. Isto é, todo mundo concorda que é pecado matar, mas
quase todo mundo também concorda que matar o sujeito que estuprou
aquela menininha linda do quinto andar não é pecado. Todo mundo
concorda que mentir é pecado. Mas quase todo mundo também concorda
que mentir para preservar o emprego não é pecado. Todo mundo concorda
que roubar é pecado. Mas quase todo mundo também concorda que roubar
do governo não é pecado. Em outras palavras, para que algo seja
identi cado como pecado é preciso que seja incluído na categoria do
hediondo. Somente o que extrapola, o que agride até mesmo as consciências mais degeneradas pode ser considerado pecado. E, mesmo assim, há
controvérsias.
A nal, o que é pecado? Como de nir pecado para a sociedade
contemporânea? Poderíamos teologizar, observando os três estágios,
seguindo a ordem mais correta que evolui (ou decai) de (1) pecado original
– rebelião – para (2) natureza humana corrompida, isto é, a inclinação
interior para o mal, que resulta em (3) práticas pecaminosas. A teologia
bíblica concorda que existe a dimensão de pecado restrita a atos e práticas: o
que fazemos ou o que deixamos de fazer, em razão das leis que expressam e
revelam o caráter de Deus. Há uma lógica nos imperativos morais bíblicos:
fomos criados à imago Dei e, nesse caso, nossa plena humanidade deve
desenvolver-se em conformidade com o Deus que expressamos e de quem
derivamos. Em outras palavras, se Deus é amor, não podemos ser ódio, e
por esse motivo não podemos matar – banir pessoas de nossa existência.
Não podemos mentir, porque Deus é a verdade, e somente se relaciona com
o que é verdadeiro. Nosso vínculo com Deus, de modo que sejamos inteiros,
completos, saudáveis e equilibrados, depende de funcionarmos em
conformidade com seu caráter e com sua natureza. Nesse caso, as regras e
leis divinas são muito mais uma espécie de “manual do proprietário” do que
imposições de uma divindade melindrosa. Quando a tradição de
espiritualidade judaico-cristã fala de “fazer e deixar de fazer”, está falando de
“pecados”, no plural.
Mas a tradição de espiritualidade judaico-cristã apresenta o pecado
também em outra dimensão. Pecado é um estado de rebelião contra Deus,
uma recusa de submissão, uma pretensão de autonomia (ser lei para si
mesmo) em relação a Deus. Nesse caso, pecado é um status diante de Deus.
Pecado, então, é também uma posição que ocupamos em relação a Deus, o
que de ne a maneira como nos relacionamos com ele. A Bíblia diz que
todos os que estão em rebelião contra Deus são lhos da desobediência,
sobre quem se manifesta a ira de Deus. 16 Agora já não estamos falando em “fazer e deixar de fazer”, mas em uma atitude em relação a Deus, pecado, no
singular.
Finalmente, pecado é um estado de ser. Aqueles que estão em rebelião, na
posição de lhos da desobediência, estão “na carne”, alheios à vida de Deus,
vivendo com seus próprios recursos e impossibilitados de agradar a Deus,
pois o ser humano distante de Deus pode até ter o desejo de fazer o bem,
mas é escravizado pelo mal, pois está sob a ação dos espíritos que operam
sobre os lhos da desobediência. 17 Já não se trata de uma atitude em relação
a Deus, nem mesmo de “fazer ou deixar de fazer”. Agora, pecado é uma
inclinação, uma disposição interior, uma tendência para o mal. Nesse caso, o
ser humano é tão culpado por pecar quanto o tuberculoso é culpado por
tossir. O problema já não é a tosse, mas a tuberculose.
Precisamos traduzir isso para nossos vizinhos. Jesus fez isso com uma
história: a parábola do 18 Filho Pródigo. Ele contou a respeito do menino rico
que pediu a herança em vida, “se mandou” da casa do pai (reivindicou sua
autonomia), “torrou a grana” como se não houvesse amanhã (desperdiçou a
si mesmo e seus recursos) e acabou sozinho e pobre (decaiu de seu status),
restando-lhe apenas duas alternativas: viver com os porcos (bestializado) ou
voltar para a casa do pai (arrependido, após cair em si e cair de si). Eis
algumas ilustrações de pecado. Pecado é uma opção pela autossu ciência
que gera em nós uma ilusão de potência e faz-nos desperdiçar recursos
como se fossem inesgotáveis, fazendo-nos descer a ladeira até a
desumanização. Pecado anestesia. Pecado ilude. Pecado drena. Pecado
bestializa. Pecado desumaniza.
O melhor caminho para compreender o pecado é tratá-lo em termos
existenciais: que tipo de gente você pensa que é? Que tipo de gente você está
se tornando? Que tipo de gente você gostaria de ser? Que tipo de gente você
sabe que é? Quando chegamos a esse ponto da conversa, ela tem dois
caminhos possíveis. O autoengano, e, nesse caso, não adianta conversar, pois
quem não quer ouvir ou não está pronto para ouvir não receberá nem conceitos, nem histórias. Ou a autoconsciência, possível para qualquer
pessoa honesta que tem espelho em casa. A autoconsciência é a porta da
conversão.
METANOIA
A essência da mensagem de Jesus Cristo é: “O Reino de Deus está próximo.
Arrependam-se e creiam nas boas novas!”.19 Quando Jesus diz que o Reino
de Deus está próximo, não está querendo dizer que vai chegar daqui a
pouco, como quem fala de uma proximidade em termos de tempo. O que ele
está dizendo é que o Reino de Deus está acessível: “Basta levantar a mão e
você vai esbarrar no Reino de Deus”. Em outras palavras, Jesus estava
prometendo acesso a uma realidade vivencial. Reino é o ambiente em que a
vontade de seu soberano é exercida sem restrições e resistências. Jesus está
dizendo que o ser humano pode fazer parte do Reino de Deus, isto é, o
ambiente em que as coisas funcionam do jeito de Deus ou, se você preferir,
em que a realidade humana está harmonizada com a realidade divina, sendo
as duas uma somente. Isso explica a convocação do evangelho ao
arrependimento.
Arrependimento vem da palavra grega metanoia, geralmente traduzida
como “mudança de mente”, mas que, de fato, signi ca algo mais profundo,
como, por exemplo, expansão da consciência, capacidade de enxergar as
coisas de outro prisma ou mesmo de enxergar as coisas de perspectiva mais
completa. Metanoia é a experiência que nos possibilita dizer: “Mudei, já não
penso mais assim, já não consigo ver as coisas desse jeito”, e,
consequentemente, rede ne nossos valores e prioridades. Metanoia faz-nos
mudar de atitude e de comportamento. Por essa razão, metanoia é
arrependimento, mudança de rota, meia volta. Quem se arrepende,
abandona uma direção e toma outro rumo. Diferente do remorso, que é
apenas uma tristeza em relação ao caminho que está sendo trilhado, o arrependimento implica transformação – mudança nas atitudes e na
disposição da vontade.
Nesse caso, cabe perguntar de que o ser humano precisa arrepender-se,
senão de sua rebelião em relação a Deus e a seu Reino. O ser humano deve
arrepender-se de tentar viver às expensas de seus recursos próprios, em
pretensa independência da fonte da vida-Zoe: “Se alguém quiser
acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois
quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por
minha causa, a encontrará”,20 disse Jesus. Por causa disso, os apóstolos
compreenderam que viver no Reino de Deus era viver em sujeição a Jesus:
“Porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos
morreram. E ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam
mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”.21
ESPÍRITO SANTO
O primeiro kerigma legitimamente cristão foi proclamado pelo apóstolo
Pedro, no dia de Pentecostes.22 Sua mensagem foi ao mesmo tempo simples
e, no mínimo, constrangedora. Fez quatro a rmações a respeito de Jesus de
Nazaré.
1. Jesus de Nazaré viveu de um jeito que nenhum outro ser humano viveu: homem aprovado por Deus, que viveu sem pecado, sem rebeldia, livre da rebelião.
2. Jesus de Nazaré morreu de um jeito que nenhum outro ser humano morreu: entregue segundo o determinado desígnio e presciência de Deus. 3. Jesus de Nazaré venceu a morte como nenhum outro ser humano venceu: Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, pois era impossível que fosse retido por ela.
4. Jesus de Nazaré detém uma autoridade que nenhum outro ser humano detém: Deus o fez Senhor e Cristo.
Compreendidas no contexto da Lei de Moisés e de tudo quanto os
profetas falaram, Pedro identi ca Jesus de Nazaré com o Messias prometido,
cuja gura indicava autoridade absoluta sobre todos os reinos humanos. 23
Mas, antes de prometer um Messias para os judeus, Deus prometera um
redentor para a raça humana: aquele que esmagaria a cabeça da Serpente
que havia seduzido o ser humano a declarar independência do Criador. 24
A relação entre Jesus de Nazaré e Adão é absolutamente clara no Novo
Testamento. Howard Mumma acerta ao dizer que:
Adão, em hebraico, signi ca homem. Portanto, o que você tem aqui [no Gênesis] não é a história do que aconteceu a um homem, mas a dramatização de como as coisas são com todos nós. Adão é um espelho da natureza humana. Olhando no espelho de Adão, vemos que o homem é uma mistura de bem e mal. O homem tem uma aptidão para o verdadeiro, o belo e o bom. Como tal, ele difere de qualquer outra criatura sobre a Terra. Essa aptidão é a imagem de Deus. O mundo em que vivemos é o jardim pelo qual andamos. Pecado é tirar Deus do lugar central de nossas vidas e colocar o nosso eu no centro. Não somos capazes de entrar no mundo sem trazer junto um querer que tenta tomar o lugar de Deus.
Recusamos dar o lugar de Deus a Deus; exigimos esse lugar para nós mesmos.25
Quando andamos em alinhamento com Deus, na relação espírito-
Espírito, o mundo é um jardim, um paraíso de delícias onde as
possibilidades da felicidade e da plena realização humana estão latentes em
potência. Quando recusamos submeter o ego a Deus e aspiramos viver
como se fôssemos nossos próprios deuses, perdemos o paraíso, somos
arremessados numa condição existencial em que não há qualquer
possibilidade de plenitude, pois a felicidade a que se destinou a raça humana
é a felicidade somente possível em Deus. A expulsão do paraíso, conforme
descrita no Gênesis, não é outra coisa senão ser lançado para fora da
presença de Deus, perder a conexão com Deus, perder o uxo de
retroalimentação da divina energia espiritual vital, vida-Zoe, perder a
relação espírito humano-Espírito de Deus.
Por essa razão, Jesus é apresentado no evangelho como Senhor e Cristo.
Em suas mãos, fruto de sua vida, morte e ressurreição, está toda a
autoridade que há nos céus e na terra. 26 Em suas mãos está o poder de trazer
de volta o ser humano ao paraíso que perdeu. Somente Jesus pode esmagar a
cabeça da Serpente que se pronuncia insistentemente dentro de cada ser
humano, cada Adão, e devolver ao ser humano a possibilidade de viver em
rendição a Deus, de acordo com sua aptidão matricial – a imago Dei. Por
essa razão, a convocação do evangelho de Jesus ao ser humano é para o
arrependimento, que possibilita o perdão para os pecados e o acesso ao dom
do Espírito Santo: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em
nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do
Espírito Santo”. 27
O evangelho nos mostra que, livres do peso da culpa pelo pecado, temos
paz com Deus, isto é, já não vivemos mais em rebelião contra sua autoridade
e estamos isentos de condenação. 28 Mas não apenas isso. Em paz com Deus,
somos novamente incluídos no ambiente do Espírito Santo, recebemos de
volta a possibilidade de entrar na relação espírito-Espírito, e por essa razão
se diz que o Espírito Santo de Deus habita em nós,29 e que não estamos mais
“na carne”, mas no espírito-Espírito, isto é, não mais limitados ao que é
próprio do humano, a vida-Bios, mas imersos em toda a potência de Deus, a
vida-Zoe.
Receber o dom do Espírito Santo pode ser traduzido de diferentes
maneiras: voltar a interagir com Deus, ser recebido de volta ao paraíso, ser
reconciliado com Deus, imergir ou ser imerso na esfera de atuação
in uência do Espírito Santo ou como você quiser se referir à relação entre
Deus e o ser humano, rompida na rebelião e restaurada com o
arrependimento da pessoa.
CONCLUSÃO
A experiência matricial cristã é chamada “novo nascimento”. 30 Nas palavras
de Jesus, “nascer da água e do Espírito”. Russell Shedd esclarece que “Jesus
está dizendo que o homem natural não herdará a vida sobrenatural sem a
conversão vinda pelo arrependimento e pelo Espírito”. 31 Transcender é
nascer de novo. Nascer pela segunda vez. A raça humana compartilha com
Adão o nascimento biológico: “o que nasce da carne é carne” 32, e
compartilha com Jesus de Nazaré o nascimento espiritual: “o que nasce do
Espírito é espírito”33.
Transcender é relacionar-se com o Espírito Santo de Deus por meio da
consagração do ego a Jesus Cristo. A consagração do ego é o que o
evangelho chama de conversão. A conversão é a experiência de
arrependimento – metanoia – pela rebelião contra Deus. O fruto da
conversão é a interação do espírito humano com o Espírito de Deus. No
momento da conversão, Deus une seu Espírito ao espírito humano. Em
termos de metáfora, o ser humano passa a captar o sinal da energia divina e
a ser alimentado por ela, justamente porque já não está longe do divino, em
rebeldia, mas relacionando-se com ele em sujeição e rendição amorosa. Essa
é a dimensão mais elementar do que chamamos de transcender –
transcendência.