Vivendo com propósitos

Ed René Kivitz · Capítulo 15 de 28

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Vivendo com propósitos

12. Método

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MÉTODO

 

ascese. [Do gr. áskesis, “exercício (espiritual)”.] S. f. Ét. 1. Exercício prático que leva à efetiva realização da virtude, à plenitude da vida moral: “A literatura e a vida religiosa tinham para ele [Charles Du Bos] o mesmo grau de elevação, de ascese, de êxtase no seio do Criador”. João Gaspar Simões, Crítica, I, p. 49.)

(Novo Dicionário Aurélio.)

 

Áskesis é a palavra que os gregos usavam para descrever a rotina de

treinamento do atleta olímpico. Os lósofos gregos incluíram a prática das

áskesis no processo de educação e desenvolvimento humano. Foi esse

conceito que o apóstolo Paulo usou para comparar o progresso espiritual,

a rmando que assim como um atleta que compete nos jogos submete-se a

um treinamento rigoroso a m de obter uma coroa que logo perece, uma

coroa de louros, também aquele que deseja atingir a plena maturidade deve

desenvolver uma disciplina radical para que alcance o prêmio; que dura para

sempre (1Cor 9.24-27).

Mas que prêmio é esse que dura para sempre? Qual é a coroa que recebe

aquele que alcança a plena maturidade? A resposta é simples: a própria

maturidade. Na verdade, o grande prêmio do atleta que completa uma

maratona não é a medalha que recebe ao nal, mas sim o fato de ter se

tornado um tipo de gente capaz de completar uma maratona. A medalha é

como um certi cado, uma espécie de atestado que diz para todo mundo que

aquele sujeito é um tipo de gente incomum. A rmar que alguém consegue

percorrer um percurso de pouco mais de 42 km implica a rmar que ali está,

com raras exceções, uma pessoa que possui virtudes como disciplina, determinação, perseverança e outros atributos necessários para chegar ao

nal de uma prova olímpica. O prêmio daquele que pratica a áskesis é

tornar-se um tipo de gente, e, no caso da peregrinação espiritual cristã,

gente semelhante a Jesus Cristo.

Essa semelhança a Jesus Cristo, entretanto, não está restrita ao caráter ou

ao comportamento, muito menos à aparência física, ao poder espiritual ou à

dotação intelectual. A mensagem mais elementar do evangelho deixa claro

que a salvação que recebemos de Deus é a vida eterna: “Porque Deus amou

ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que

nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. “Aquele que tem o Filho tem a

vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida.”1

Henri Nouwen testemunhou:

 

Durante a maior parte dos meus anos, falei de vida eterna como pós-vida, como vida depois da morte. Mas, à medida que vou cando mais velho, menos interesse tenho pelo pós-vida. Preocupar-me com o amanhã, com o próximo ano, com a próxima década, e também com a próxima vida, parece-me uma falsa preocupação. Cismar como tudo será para mim depois de morrer parece-me, em grande parte, uma distração. Se a minha meta é a vida eterna, então essa vida deve ser atingível já agora, onde eu estou, porque a vida eterna é a vida em e com Deus, e Deus está onde eu estou, aqui e agora. O grande mistério da vida espiritual – a vida em Deus – é que não temos de esperar por ela como algo que acontecerá depois. Jesus disse: “Estai em mim como eu estou em vós”. É este divino “estar em” que é a vida eterna. É a presença ativa de Deus no centro do meu viver – o movimento do Espírito de Deus dentro de nós – que nos dá a vida

eterna.2

 

A presença ativa do Espírito Santo em nós, ou de Cristo em nós, ou a

comunhão espiritual com Deus, é a própria experiência da vida eterna

prometida no evangelho e que constitui o prêmio que dura para sempre. Eis

a salvação: a vida divina uindo em nós, o que nos torna pessoas semelhantes a Jesus Cristo, a expressão máxima da plena maturidade

humana.

 

PARA QUE ÁSKESIS

Na peregrinação espiritual, somos transformados gradativamente no tipo de

gente que Deus quer. A expressão “fruto do Espírito” denota um processo de

crescimento natural. Na dimensão espiritual, vamos amadurecendo de

maneira muito semelhante ao desenvolvimento de uma semente, que

oresce para depois fruti car.

Áskesis são exercícios espirituais que visam nos tornar plenamente

conscientes da presença de Deus, de modo a experimentarmos a vida de

Deus a partir de nossa interação pessoal com ele. Por meio dos exercícios

espirituais, promovemos o alinhamento do corpo com o espírito e vice-

versa, para nos colocarmos por inteiro sob a ação do Espírito de Deus. O

apóstolo Paulo chamou isso de “ser fortalecido com poder, mediante o seu

Espírito no homem interior”.3 O objetivo não é nos colocar na presença de

Deus nem mesmo invocar a presença de Deus. Estamos sempre na presença

de Deus e Deus está sempre conosco, o que não signi ca que estamos

constantemente cônscios de sua presença, muito menos interagindo com ele.

O objetivo dos exercícios espirituais, portanto, é nos tornar conscientes do

Deus que está presente, a m de nos colocarmos sob sua ação. 4

Os exercícios espirituais não são, portanto, mágicos nem portadores de

poderes em si mesmos. São apenas meios de nos colocarmos na condição

em que a interação consciente com Deus é possível. São instrumentos de

cultivo do relacionamento com Deus. O poder está em Deus, e nós nos

apropriamos do poder de Deus por meio de um relacionamento de

intimidade com ele. Os exercícios espirituais nos ajudam a “abandonar a

dependência total do meramente humano ou natural e passar a depender

também da realidade última, que é Deus e seu Reino”. 5

POR QUE ÁSKESIS

A palavra ascese é derivada do verbo grego askein, que signi ca “praticar”,

“exercitar”, “esforçar-se”, “trabalhar” e “lutar”. Considerando que Deus está

interessado em desenvolver um relacionamento pessoal com cada um de

seus lhos, por que os exercícios espirituais implicam tanto esforço, tanta

disciplina, tanta perseverança e determinação? A razão pela qual praticamos

exercícios espirituais é que a intimidade com Deus não é uma experiência

extracorpórea, de modo que precisemos cultivar o controle físico, mental e

emocional mediante hábitos nada fáceis de desenvolver. 6

A Bíblia diz que o pecado habita em nós ou, mais precisamente, em nosso

corpo. 7 Isso signi ca que nosso corpo possui alguns so wares instalados que

nos impelem a agir de maneira automática, quase sem pensar, como, por

exemplo, quando dirigimos, escovamos os dentes ou discamos o telefone

para casa. Esses hábitos arraigados em nossa carne também dizem respeito

às coisas erradas que o corpo sabe fazer. A dependência química, por

exemplo, resulta de um clamor do corpo, misturado ao clamor da alma, ou,

melhor dizendo, à maneira como o corpo aprendeu a atender os apelos da

alma. “Os hábitos corporais são a forma primordial de existência do mal

humano na vida prática”,8 e, por essa razão, o objetivo dos exercícios

espirituais é romper o poder do vício de praticar a maldade que o corpo

aprendeu enquanto viveu longe e alheio à vida de Deus.

A grande agonia do cristão é conviver com a luta entre o corpo e o

espírito, 9 10 pois enquanto o corpo não for redimido, isto é, enquanto o que é

corruptível não se revestir de imortalidade, 11 haverá uma luta constante para

que se consiga fazer o bem desejado em detrimento do mal abominado:

 

Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio. E, se faço o que não desejo, admito que a Lei é boa. Neste caso, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer,

esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?

Romanos 7.15-24, NVI

 

Muitas pessoas tentam desenvolver seu relacionamento com Deus

baseando-se apenas nas atitudes interiores, como, por exemplo, humildade,

fé, pureza de coração e outras. Essas pessoas esquecem que o ser humano é

um todo indivisível: corpo e espírito não atuam separados. A grande

distinção entre o cristianismo e qualquer outra perspectiva religiosa é a

encarnação: a possibilidade e o fato de que Deus e o homem (o que implica

fôlego da vida e pó da terra) podem interagir em termos absolutos.

Os apóstolos sempre zeram questão de registrar que Jesus Cristo

possuía um corpo físico exatamente igual ao nosso. João escreveu de acordo

com a cultura grega de seu tempo e a rmou que “no princípio era o Logos, e

o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus [...]. E o Logos se fez carne e

habitou entre nós”.12 Deus se fez carne, pois Jesus, sendo Deus, não cou

agarrado a seu status, “mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo,

tornando-se semelhante aos homens”, 13 pois Deus mesmo preparou um

corpo para Jesus.14

Na verdade, o corpo é o ponto focal da existência humana. Em termos

simples e óbvios, não há possibilidade de experiência humana com Deus

sem levar em consideração o corpo. Qualquer relacionamento que o homem

possa ter com Deus é mediado pelo corpo. Em palavras simples: não há

mente sem cérebro, consciência sem neurônio.

Embora muitas pessoas pensem que a religião trata das coisas do espírito,

arrisco dizer que o cristianismo é uma religião centrada no corpo. A

encarnação, a cruci cação e a ressurreição são eventos do corpo. A maior celebração cristã é o ato contínuo de relembrar a entrega que Jesus Cristo fez

de si mesmo em favor de toda a raça humana: “seu corpo partido” e “seu

sangue derramado”.15

A vida espiritual é uma vida no corpo, por uma razão simples: a vida

humana é uma vida no corpo. Excluir o corpo de nossa vida é excluir nossa

vida dessa dimensão de existência, e é justamente nela que recebemos a vida

eterna – o uir da vida divina em nós –, de modo que a vida que recebemos

de Deus está relacionada com nosso corpo. Nem mesmo a vida depois da

morte é extracorpórea, pois cremos na ressurreição do corpo,16 “para que a

sua vida [de Jesus] também se manifeste em nosso corpo mortal”.17 A vida

espiritual não é uma vida superior, separada do corpo, nem que corre em

paralelo à nossa existência corpórea. A encarnação de Deus em Jesus é a

a rmação da relação entre o mundo material e espiritual numa mesma

dimensão de existência.

Em resumo, podemos a rmar que o m último dos exercícios espirituais

é nossa conformação à imagem de Jesus Cristo.18 O objetivo prático dos

exercícios espirituais é nos tornar plenamente conscientes da presença de

Deus, o que implica muito mais um relacionamento dinâmico com Deus do

que atividades religiosas. 19 A razão por que praticamos exercícios espirituais

é que a intimidade com Deus não é uma experiência extracorpórea, de

modo que precisamos cultivar o controle físico, mental e emocional

mediante hábitos que desenvolvemos com esforço e disciplina, perseverança

e determinação.20

 

DIALÉTICA

Esse processo de desenvolvimento dos hábitos facilitadores da interação

consciente entre o Espírito de Deus e o nosso espírito acontece de maneira

dialética, em que realidades aparentemente opostas se completam. Por

exemplo, os exercícios espirituais devem ser desenvolvidos tanto de forma

espontânea quanto estruturada. Assim como os relacionamentos humanos acontecem na dinâmica de momentos formais e informais, também o

relacionamento com Deus se processa por meio de momentos fortuitos e

especialmente planejados para essa nalidade. Mais ou menos da mesma

maneira como quando estamos conversando no carro numa longa viagem.

Enquanto a conversa trata das curiosidades do dia a dia, a música de fundo

não atrapalha, mas tão logo a conversa se aprofunda, alguém toma a

iniciativa de desligar o rádio. Existe uma dimensão de conversação possível

na rotina diária; também existe outra dimensão para a qual são necessárias

providências especí cas, a m de que os ruídos não atrapalhem a

comunicação.

Ascetismo e carisma são como dois remos de um barco: a iniciativa do

Espírito Santo e a disciplina humana confundem-se e entrelaçam-se. Tanto

Deus opera em nós o querer e o efetuar quanto nós desenvolvemos nossa

salvação.21 Quem ca apenas com o remo da ação do Espírito, isto é, dos

imputs imprevisíveis que Deus coloca em nosso coração, torna-se místico e

espera mágicas; quem ca apenas com o remo da disciplina, cai no

formalismo e no legalismo, que resulta numa experiência mecânica e vazia.

A privacidade e a participação coletiva são outros dois aspectos dessa

relação dialética entre o espírito humano e o Espírito de Deus. A intimidade

do lugar secreto, o quarto atrás da porta fechada, é tão importante quanto a

celebração pública, a festa, o intercâmbio da mutualidade, a conversa na

praça, a roda de amigos e a participação à mesa da comunhão. 22

Aprendemos a andar com Deus andando com pessoas que andam com

Deus. Certamente você já ouviu alguma mulher reclamando para o marido

que eles nunca saem sozinhos, que precisam sempre estar rodeados de

amigos, enquanto o marido retruca que eles necessitam de companhia para

arejar a relação, para jogar um pouco de oxigênio na convivência. Também é

comum as pessoas reclamarem que precisam car sozinhas, que necessitam

de espaço, de folga para fazer o que gostam, sem ter de dar atenção a quem

está do lado. Todo mundo tem razão. A saúde emocional e psíquica depende dessa dinâmica entre espaço individual e coletivo. Todo relacionamento

carece de intimidade e de privacidade bem como de intercâmbio de ideias e

de afeto.

Teoria e prática são outros dois polos da síntese dos exercícios espirituais.

Tão importante quanto conhecer a Deus experiencialmente, 23 é saber coisas

a respeito de Deus. Jesus disse que as pessoas percorrem trilhas erradas

porque negligenciam a verdade revelada a respeito de Deus nas Escrituras

Sagradas. 24 25 Precisamos saber para crer, e precisamos crer para entender. A

dicotomia entre conhecimento e experiência sabota a peregrinação

espiritual.

O êxito da experiência com Deus está, também, na ponte entre o êxtase

repentino com frutos imediatos e o processo paulatino com frutos que se

consolidam aos poucos. Em se tratando de viver um grande amor com

Deus, não precisamos escolher entre “chover o ano inteiro chuva na ou cair

lá de cima um elevador”, como disse o poeta. Podemos viver as duas coisas: a

rotina persistente e o susto arrebatador. Somos transformados em glória

cada vez maior, no dia a dia de nossa caminhada com Deus,26 tanto quanto

em momentos especiais que nos conduzem a novos patamares de

intimidade com Deus.27

Uma coisa é certa: qualquer um que pretender estabelecer regras rígidas

para a prática dos exercícios espirituais vai se frustrar, até porque

relacionamentos transcendem a observação das regras e também

sobrevivem às falhas às quais todos estamos sujeitos.

 

PRÁTICAS MILENARES

A nal de contas, quais são esses tais exercícios espirituais? Evidentemente,

não estamos falando de polichinelo e de abdominais. Ou estamos?

Veremos... Os mestres da espiritualidade, aqueles que buscaram a realização

de seu máximo potencial mediante um relacionamento pessoal com Deus,

nos deixaram um legado. Suas práticas espirituais caram marcadas como pegadas na areia. Minhas pesquisas me levaram a classi car os exercícios

espirituais – áskesis – em quatro grupos: físicos, devocionais, interpessoais e

de abstinência. 28

Os exercícios físicos, como, por exemplo, as caminhadas (no meu caso, as

corridas diárias), são imprescindíveis para a saúde plena. A conhecida

máxima “mente sã em corpo são” (atribuída aos gregos, mas que, na

realidade, foi defendida pelo escritor satírico romano Juvenal, 128 d.C.) está

ancorada na sabedoria da espiritualidade do Oriente, que ensina que o

corpo e a mente são um só. Quem cuida do corpo cuida de tudo, e quem

cuida de tudo não pode deixar de cuidar do corpo.

Os jejuns também estão incluídos nas disciplinas espirituais que classi co

como físicas. A abstinência do alimento nos ensina que “Não só de pão

viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”29 e a

desfrutar de uma comida que o mundo não conhece, a saber, a vontade de

Deus.30 A abstinência do alimento nos treina a renunciar prazeres legítimos

para nos tornarmos como pretendeu omas à Kempis, ao dizer que “quem

melhor sabe sofrer, maior paz terá. Esse é vencedor de si mesmo e senhor do

mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu”. 31 Mais do que o jejum, devemos

cultivar uma dieta equilibrada, como, por exemplo, o profeta Daniel que não

quis as iguarias do rei e escolheu água e vegetais para sua alimentação. 32

Além de cuidar do corpo mediante dieta e exercícios, devemos dar

atenção especial ao descanso. “O sono é sagrado e alimenta de horizontes o

tempo acordado de viver”, disse o poeta Beto Guedes.

 

O sono é, sem dúvida, o momento mais importante de restauro de toda a máquina humana. Dormindo, permitimos que o organismo entregue a chave administrativa, o controle gerencial do corpo para o sistema autônomo, que fará o que tem de ser feito, restituindo as energias e repondo o que foi gasto em mais um dia de árduo trabalho bioquímico.

Didaticamente, funciona mais ou menos assim: ao primeiro sinal de início do

seu sono, os menininhos que vivem dentro do seu organismo e que são responsáveis pela arrumação e limpeza já começam a cochichar. Um diz: “Ei!

Será que ele já dormiu mesmo? Tá tudo tão quieto!”. E o outro responde: “Vamos esperar mais uns dois ou três minutinhos para ter certeza”.

A partir daí essa moçada bonita se reúne num grande galpão repleto de

potinhos de todos os tamanhos e formas e das mais variadas e coloridas substâncias químicas e começa o preparo de cada diferente poçãozinha de que seu organismo necessita para ser restaurado. E isso leva horas... Mas é uma festa! O papo corre solto, e eles trabalham com alegria e satisfação. Se tiverem tempo su ciente, nenhuma célula de seu organismo cará sem a devida reparação das perdas que ocorreram durante o dia. Depois disso, cada responsável pega seu carrinho de mão, ajeita os diversos e diferentes potinhos coloridos pelas substâncias confeccionadas e sai via corrente sanguínea até o seu destino, seja o cérebro, seja o intestino, seja o dedão do pé. Todos igualmente têm a responsabilidade de promover a faxina adequada e de entregar as devidas substâncias em seus respectivos endereços. Ficam muito tristes quando você acorda antes de eles terminarem o trabalho, porque às vezes passaram horas na formulação da química necessária para restaurar seus rins, por exemplo, ‘e acabaram não tendo tempo su ciente para a entrega. Para eles, é muito difícil

saber que trabalharam tanto à toa’... 33

 

As disciplinas espirituais que chamo de devocionais incluem, por

exemplo, a leitura e o estudo. A transformação pessoal é fruto da

transformação da mente, 34 por meio da constante substituição da mentira

pela verdade: “conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”.35 “Por

contraste com as espiritualidades mais espetaculares, nossa via é pedestre,

ou seja, literalmente, colocar um pé diante do outro, ao seguirmos Jesus.

Para sabermos quem é Jesus, para onde ele vai, e como andarmos nos seus

passos, pegamos um livro, o livro supremo, e o lemos: as Sagradas

Escrituras”.36 A base cristã para o conhecimento da verdade, o objeto

prioritário do estudo do cristão é a Bíblia. Mas não apenas a Bíblia. Todas as

ciências paralelas à teologia devem ser valorizadas, e todo o acervo do

discernimento humano deve ser acessado, pois tudo o que está na Bíblia é

verdade, mas nem tudo o que é verdade está na Bíblia.

Além do esforço analítico, podemos desenvolver a capacidade de

introspecção supraconsciente. Capra observou:

O conhecimento absoluto é uma experiência da realidade inteiramente não intelectual, uma experiência nascida de um estado de consciência não usual que pode ser denominado de “meditação” ou estado místico. A existência desse estado não tem sido testemunhada apenas por numerosos místicos orientais e

 

ocidentais, mas aparece igualmente na pesquisa psicológica. 37

 

O processo cientí co possui três estágios de introspecção. O primeiro é a

concentração para a coleta de evidências. O segundo é a contemplação para

a análise, que deve resultar na compreensão dos fenômenos observados de

modo a possibilitar uma formulação teórica. Acontece, porém, que essas

formulações teóricas não resultam, necessariamente, da análise dos dados,

mas surgem “espontaneamente”, quando o pesquisador está no banho ou

passeando à beira-mar. O processo cientí co não é completo sem essas

percepções repentinas que procedem não de um estado de consciência

analítico, mas sim da totalidade do ser, que conversa consigo mesmo e com

o mundo à sua volta numa dimensão supraconsciente. Podemos fazer um

paralelo com a meditação: meditar é penetrar esse espaço que transcende a

análise e a contemplação, em que podemos ouvir a voz de Deus falando por

meio dos pensamentos que são nossos, mas que não tiveram origem em nós.

A oração é outra disciplina devocional. Orar é estar com Deus. Às vezes,

em diálogo profundo e consciente. Não raras vezes, além das palavras. (Ver

capítulo 9 – Conversação.)

Mergulhar o pensamento em Deus nos leva à adoração. O encontro com

Deus é indissociável da experiência do louvor: “Mudaste o meu pranto em

dança, a minha veste de lamento em veste de alegria, para que o meu

coração cante louvores a ti e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te darei

graças para sempre”.38 Todo aquele que anda com Deus atravessou as portas

do louvor e das ações de graças, pois Deus está apenas e tão somente do

outro lado do abandono do eu como objeto de veneração.39

O afastamento das rotinas cotidianas é uma forma de “construir catedrais

no tempo”. Mudar de ambiente ajuda a mudar o estado de humor, a renovar

sensações, a resgatar emoções, a desintoxicar a alma. Longe do barulho, das

atividades estressantes, das solicitações urgentes do e-mail, do celular e do

insistente telefone, podemos aquietar o coração e, aos poucos, dar lugar para

a Voz. O espaço físico afeta radicalmente a dinâmica de nosso mundo

interior. Os Padres do Deserto compreenderam que deveriam afastar-se da

sociedade de sua época como um náufrago que nada para longe do navio

que afunda, evitando ser tragado com ele. Quem deseja o encontro com

Deus e consigo mesmo deve aprender a distanciar-se das luzes da cidade. Os

retiros fazem parte desse conjunto de exercícios espirituais devocionais.

Adquiri o hábito de escrever orações, relatos breves dos fatos do dia a dia,

impressões e percepções do coração. De quando em vez, releio as notas

passadas e me alegro ao perceber orações respondidas, problemas que

imaginava insolúveis resolvidos, textos inspirativos que me sustentaram e

construíram, além de ser recordado do amor de Deus que me acompanha na

jornada. A maturidade não pode prescindir da história e da memória.

Somos o que somos pelo que vivemos. Um diário pode ser um valioso

instrumento de registro da peregrinação espiritual. Muitos mestres

espirituais deixaram sua trajetória como legado para as gerações futuras por

meio da autobiogra a que escreveram em seus diários.

Há, também, os exercícios espirituais que considero interpessoais. Por

exemplo, o encontro sistemático com um pequeno grupo de pessoas com

interesses comuns, igualmente desejosas de aprofundar sua experiência

espiritual. Geralmente nesses grupos desenvolvemos as amizades espirituais

e construímos alianças de mutualidade nas quais podemos abrir o coração e

receber feedback amoroso para nosso crescimento. Além dos grupos e dos

amigos, podemos buscar mentores por meio de quem receberemos direção

espiritual. É na dinâmica das amizades em sujeição a homens e mulheres

mais experientes na vida que somos desa ados à prestação de contas, à con ssão e ao serviço, recursos que nos obrigam a deixar a zona de conforto

que construímos nas sombras convenientes de nossos hábitos destrutivos e

egocêntricos.

Os exercícios espirituais de abstinência também implicam grande esforço

e disciplina. A castidade, por exemplo, que nos obriga a controlar uma das

forças mais poderosas que determinam nosso caráter e destino, a saber, a

sexualidade. Castidade é a capacidade de viver sem sexo, às vezes

contingencial, como em ocasiões de enfermidade ou viagens do parceiro, às

vezes propositadamente, como a recomendou o apóstolo Paulo, “por mútuo

consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração”.40 A

castidade, isto é, a abstinência sexual, ajuda-nos a evitar que a grati cação

sexual seja o centro de nossa parceria conjugal, o que nos estimula a buscar

patamares mais profundos de convivência que nos aproximam ainda mais,

repercutindo positivamente na parceria sexual. Os casais deveriam quali car

seus relacionamentos antes de se entregarem ao sexo. A roupa do corpo deve

ser tirada depois das máscaras, sob pena de levarmos personagens para

cama, o que acaba sendo fatal, como bem disse Lulu Santos.

O estilo de vida simples e a frugalidade nos desa am à abstinência das

coisas. Num mundo de desigualdades sociais tão cruéis, devemos dizer não

ao desperdício e levantar uma bandeira contra a extravagância. Desfrutar do

bom e do belo e viver confortavelmente sem cair no luxo despropositado é

uma arte que poucos dominam. A sabedoria espiritual sabe que o

consumismo frívolo corrompe a alma e nos faz cada vez mais escravos dos

sentidos e da sensualidade, além de nos manter estacionados em termos de

amadurecimento pessoal, pois, como disse Hans Burki: “Mais da mesma

coisa nos deixa no mesmo lugar”. Mais rico é quem precisa de pouco do que

aquele que tem muito, pois “a vida de um homem não consiste na

quantidade dos seus bens.”41

A solitude é outro exercício espiritual de abstinência. Desta vez, nos

abstemos do contato com as pessoas para carmos sozinhos, ou em solitude como preferem os mestres espirituais. Estar em solitude é diferente de estar

solitário. O solitário deseja companhia, mas não encontra, enquanto aquele

que está em solitude pratica o isolamento voluntário. Lembro-me da história

do homem que procurou um terapeuta e recebeu a tarefa de separar uma

hora da sua semana para car em solitude. Na consulta seguinte voltou

entusiasmado contando da maravilhosa experiência de ler e ouvir música

sem ninguém por perto, ao que o terapeuta respondeu que ele deveria ter

cado sozinho, e não em contato com Fernando Pessoa ou Vivaldi. “Mas eu

não me aguento, doutor”, disse o pobre desolado. Não raras vezes, a

valorização da companhia de outras pessoas é uma forma de disfarçar a fuga

de si mesmo.

Henri Nouwen diz que “o silêncio é uma forma de tornar a solitude uma

realidade”,42 e isso é o que há de mais assustador nele. A sensação de que não

existe ninguém, exceto Deus, em quem podemos encontrar a base para

continuar existindo e a constatação de que nossos recursos interiores são

insu cientes para sustentar essa relação chamam-nos constantemente para

fora de nós mesmos. Isso me faz lembrar do dia em que constatei que Deus e

eu, num quarto, era muito pouca gente. Minha vida começou a mudar ali.

 

EU FALSO E EU VERDADEIRO

Os mestres da espiritualidade devotam especial atenção aos processos de

transformação e de desenvolvimento pessoal. Desde tempos remotos, é

sabido que o primeiro fruto dos exercícios espirituais é o autoconhecimento.

Buda ensinou que “os carpinteiros dão forma à madeira, os echeiros dão

forma às echas, e os sábios dão forma a si mesmos”. O oráculo de Delphos

tornou célebre a recomendação “conhece-te a ti mesmo”, que levou o lósofo

grego Sócrates a a rmar que “a vida examinada é a única que vale a pena ser

vivida”. Salomão, o sábio e poderosíssimo rei hebreu, admitiu, após suas

muitas batalhas vitoriosas, que maior é aquele que conquista a si mesmo do

aquele que domina uma cidade.43

São João da Cruz estimulou seus seguidores dizendo que o

“conhecimento de si mesmo é o primeiro passo que deve dar a alma que

busca o conhecimento de Deus”. A razão para essa recomendação da

espiritualidade cristã é simples: Deus é o único que nos vê como realmente

somos, em nossa intimidade mais profunda e, portanto, conhece-nos de

verdade. Uma vez sabedor de nossa real identidade, recusa-se a relacionar-se

com o nosso “falso eu”, ainda que nosso “falso eu” pareça a nós mesmos o

“eu verdadeiro”. Por essa razão, a primeira coisa que Deus faz quando o

buscamos é nos desmascarar, mostrar para nós quem de fato somos, de

modo que podemos vir a ser o que devemos ser.

Jesus contou uma parábola a esse respeito. Disse que dois homens foram

ao templo orar. O primeiro, religioso dedicado, agradeceu a Deus o fato de

ser quem era, julgando-se digno de aprovação. O segundo, movido por uma

profunda consciência de que ainda não era o que deveria ser, clamou pela

misericórdia de Deus. O veredicto de Jesus foi que o primeiro falou de si

para si mesmo, mas o segundo falou com Deus e recebeu sua recompensa.44

A Bíblia Hebraica conta uma história semelhante. Ao chegar o tempo em

que Jacó decidiu encontrar-se com Deus, cou sozinho no Vale de Jaboque.

No ápice de seu con ito espiritual, ouviu Deus perguntar: “qual é o seu

nome?”, que na cultura judaica é o mesmo que perguntar: “quem é você?” ou

“como você se de ne?”. Por essa razão é que Deus se recusa a declarar seu

nome para Moisés e responde apenas dizendo “Eu SOU”. 45 O sentido é

óbvio: Deus não se de ne para o homem, o homem é quem se de ne para

Deus, ou melhor, é de nido quando se encontra com Deus.

 

SEGREDOS

Mas o que tudo isso tem a ver com os exercícios espirituais? Simples: os

exercícios espirituais são o principal recurso para desenvolvermos a

habilidade sem a qual jamais experimentaremos a conexão com o divino, que resulta em transformação, desenvolvimento e crescimento pessoal, a

saber, a capacidade de prestar atenção.

São as disciplinas espirituais que nos ensinam a prestar atenção em nós

mesmos, nos sinais e mensagens que Deus nos envia por meio das pessoas e

das circunstâncias. Depois que descobri essas coisas, escolhi três sinais que

me indicam um tempo especial de transformação e de crescimento pessoal.

O primeiro sinal é a desestabilização de meu coração. Presto muita atenção

às minhas variações de humor e tento discernir sempre as razões por que

estou triste, com raiva, com medo, eufórico ou com aquela sensação de

“alguma coisa que não sei o que é está fora do lugar dentro de mim”. Quando

esses padrões de humor começam a repetir-se, percebo que é hora de uma

visita mais profunda ao “lugar onde o Pai me vê em secreto” 46 para

encontrar novos caminhos e vivências que me conduzam a um patamar de

maior maturidade.

Outro sinal que procuro observar é o conteúdo das minhas orações.

Gosto da prática bíblica de orar três vezes: Paulo, apóstolo, orou três vezes

para que Deus o livrasse do que chamava de “espinho na carne”, e Jesus orou

três vezes no Getsêmani, em sua agonia antes da cruz. 47 Orar três vezes

ensina que devemos orar até que o peso que nos leva à oração seja retirado

de nosso coração. Não se trata de um número cabalístico nem de uma

simpatia de preces. Em minha experiência pessoal, as orações repetitivas

denunciam questões mais profundas do que aquelas que eu imaginava ao

iniciar minhas súplicas. Por trás das orações repetitivas, e, portanto, não

atendidas por Deus, devem existir perguntas do tipo: “por que isso é tão

importante para mim?”, “por que estou insistindo tanto nisso?”, “como será

minha vida caso esta oração não seja atendida?” e “quanto estou dependente

desta resposta?”

Gosto da sabedoria de Viktor Frankl ao ensinar que, quando a

circunstância é boa, devemos desfrutá-la; quando a circunstância não é

favorável, devemos transformá-la; e quando a circunstância não pode ser transformada, devemos transformar a nós mesmos. Por trás de minhas

orações repetitivas sempre me pergunto se não estou sendo exigido a mudar,

a crescer, a amadurecer, a aprender a viver fora da zona de conforto, a

ampliar a zona de conforto de modo que o universo de realidades que me

roubam a paz seja cada vez menor.

Finalmente, presto atenção nas pessoas e nos feedbacks que me dão a meu

respeito, particularmente aqueles que me machucam profundamente.

Aprendi a ouvir e a levar a sério o que as pessoas dizem a meu respeito. Toda

vez que me sinto agredido, questionado, criticado, rejeitado, reprovado, e

meus sentimentos cam feridos, dou boas-vindas a um momento de

crescimento e de transformação. Toda vez que um elogio ou apreciação me

tira os pés do chão, ou quando sinto o ego in ar, recebo a situação como

oportunidade de reparos no coração. Houve um tempo que as palavras

duras contra mim me faziam dedicar tempo analisando o agressor, tentando

desmerecer sua opinião, diminuí-lo para me convencer de que o certo era

eu. Mas descobri que as palavras duras que me abatem revelam mais a meu

respeito do que a respeito de quem as pronunciou. Na verdade, descobri que

muitas palavras que nos machucam sequer foram pronunciadas com essa

intenção, mas por alguma razão zeram um caminho dentro de nós e nos

feriram. Essa “alguma razão” precisa ser identi cada para que as palavras

que consideramos duras sejam as pedras que nos levarão mais alto na escada

da plena realização.

 

(IN)FELICIDADES

A infelicidade é que Sir Winston Churchill ainda tem razão: “o domínio do

homem desenvolveu-se em todas as esferas, exceto sobre si mesmo”. A

felicidade é que já sabemos que privilegiar a viagem para fora em

detrimento da viagem para dentro, percorrer a trilha da conquista da cidade

negligenciando a conquista de si mesmo é uma loucura. Assim, Jesus

ensinou, é inútil ganhar o mundo inteiro e perder a alma.48 Os exercícios

espirituais, áskesis, são o caminho para a maturidade.