Vivendo com propósitos
9. Conversação
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CONVERSAÇÃO
PONDO OS PÉS NO CHÃO
Orar é estar com Deus. Toda vez que você está consciente da presença de
Deus, você está orando. As pessoas mais comuns, através dos tempos, dizem
que a recomendação do apóstolo Paulo, “orar sem cessar”, é exequível.1
Dizia-se de São Francisco que ele “parecia menos um homem orando do que
a própria oração encarnada”. (Caso duvide, acredite, São Francisco era, sim,
um homem comum.)
O Irmão Lourenço, autor do clássico devocional A prática da presença de
Deus, conta que, ao chegar ao monastério, foi enviado a trabalhar na
cozinha; o que lhe causou grande decepção, pois imaginava que se dedicaria
o tempo todo à oração. Mas isso lhe rendeu o título de “senhor de todos os
caldeirões e panelas” e lhe serviu como porta de acesso a uma das mais
extraordinárias experiências de intimidade com Deus. Testemunhou sua
experiência dizendo que “a hora dos negócios não difere para mim da hora
de oração; e no barulho e alarido da minha cozinha, enquanto diversas
pessoas ao mesmo tempo pedem coisas diferentes, possuo a Deus em tão
grande tranquilidade como se estivesse de joelhos para o bendito
sacramento”. Ele de fato acreditava que “não existe um modo de vida no
mundo mais agradável e mais cheio de deleite do que a conversação
contínua com Deus”. Foi ele quem nos recomendou “fazer do coração uma
capela”. É bem verdade que o irmão Lourenço admite ter levado pelo menos
dez anos para aprender a orar sem cessar, mas isso só prova que é mesmo
possível.
Creio, como omas Kelly sugere, que é possível “ordenar a nossa vida
mental em mais de um nível ao mesmo tempo. Em um nível podemos estar
pensando, discutindo, vendo, calculando, satisfazendo todas as exigências de
afazeres externos. Mas, muito no fundo, por trás das cenas, num nível mais
profundo, podemos também estar em oração e adoração”. Confesso que
ainda não cheguei lá. Mas conheço pessoas cujo semblante demonstra tal
serenidade e alegria perenes que chego a descon ar que descobriram esse
segredo. Por enquanto, minhas orações ainda estão na categoria das
conversações. Cabem dentro de ocasiões especí cas que separo para “entrar
na presença de Deus”, estabelecer conexão, entrar num momento divino. De
vez em quando, sou surpreendido por Deus. Algo como ser tomado por um
senso de presença que não me deixa dúvidas de que de alguma maneira
“penetrei” em Deus ou, melhor dizendo, ele se deixou penetrar por mim.
Mas isso é raro, quase nunca depende de mim, e jamais consigo planejar que
aconteça. O que consigo planejar são meus períodos de oração.
ORAÇÕES SIMPLES
Pratico o que aprendi a chamar de “orações simples”. São assim chamadas
porque não observam qualquer padrão ou elaboração, não estão sujeitas a
quaisquer critérios, não sofrem censuras prévias, não são articuladas
cartesianamente, chegando a ser quase displicentes e quase sempre
passionais. Acontecem espontaneamente, a partir de percepções
instantâneas, em qualquer lugar, a respeito de qualquer coisa, a qualquer
hora.
Em minha experiência, essas orações simples duram pouquíssimo tempo,
quando no meio de minhas atividades diárias “me lembro” de que estou na
presença de Deus e me dirijo a ele com reverência e afeto. São “encontros” e
vislumbres constantes com o Abba, Pai. Nesses pequenos encontros –
pequenas conversas –, acredito estar “santi cando Deus em meu coração”,
isto é, dando a ele a primazia e o lugar de honra, trazendo sua presença para o centro das atenções e fazendo a sintonia na de sua face sempre voltada
para mim, mas desfocada, porque minhas lentes estão sujas ou, como disse
Jesus, meus olhos não estão iluminados.2
Durante muitos anos, selecionei os assuntos tratados em minhas orações.
Naquela época, eu vivia uma pseudomaturidade espiritual. O auge de minha
crise aconteceu quando recebi um convite para fazer palestras em um
congresso de liderança cristã na Flórida, Estados Unidos, e imaginei que
poderia aproveitar para levar meus lhos à Disneyworld, em Orlando.
Comecei a providenciar os passaportes e a encaminhar providências para os
vistos de viagem. Meu prazo era muito curto. Tinha apenas poucos dias para
providenciar tudo. Os caminhos eram dois: ou pagar um despachante, que
garantia êxito no processo, ou arriscar fazendo tudo sozinho na Polícia
Federal e no Consulado Americano. O dinheiro era pouco, e eu não queria
gastar aqueles dólares com o despachante. Mas, por outro lado, dada a
exiguidade do tempo, eu corria o risco de não conseguir os vistos para levar
a família toda na viagem. Evidentemente, imaginei pedir a Deus que
quebrasse meu galho, o que talvez você ache ser a coisa mais óbvia para um
cristão fazer: orar.
Mas não era tão óbvio para mim. Meu mundo estava cindido: minha vida
particular e interesses pessoais de um lado, e o Reino de Deus e os interesses
de Deus do outro. Eu pensava mais ou menos assim: “Se fosse uma viagem
humanitária para Angola, já teria pedido o visto a Deus, mas não tenho cara
de pedir a Deus que me dê vistos para visitar o Mickey Mouse”. Talvez,
premido pelas circunstâncias e pela necessidade, ou pelo desejo, comecei a
tentar um jeito de justi car meu pedido de um visto a Deus. Encontrei duas
respostas. A primeira desmascarou meu dualismo. Jesus ensinou que
devemos buscar o Reino de Deus e sua justiça e todas as outras coisas nos
seriam dadas por Deus, 3 e, nesse caso, não há outra coisa a buscar ou a
priorizar que não seja o Reino de Deus. Comecei a questionar por que
razões eu incluía uma viagem humanitária nos horizontes do Reino de Deus e por que deixava de fora uma viagem de férias com a família. Não encontrei
resposta satisfatória e compreendi, nalmente, que não existe qualquer
dimensão de nossa existência que possa ser tratada fora dos limites,
in uência e compatibilidade com os interesses do Reino de Deus. A
pergunta, portanto, não é “o que essa viagem para a Disney tem a ver com o
Reino de Deus?”, mas sim “como posso incluir essa viagem para a Disney na
agenda do Reino de Deus?”. Abre parêntese. Eu sei que alguns dos meus
leitores acharão isso impossível. Fecha parêntese.
Mas houve outra descoberta no caminho. Aprendi o termo “oração
simples” com Richard Foster, em seu livro Oração, o refúgio da alma. Ali
encontrei alguns esclarecimentos extraordinários. Teresa de Ávila me fez ver
que “não existe fase de oração tão sublime que não seja necessário voltar
sempre ao início”. John Dalrymple me convenceu de que “Jamais
superaremos esse tipo de oração, porque jamais superaremos as
necessidades que lhe deram origem”. C. S. Lewis me ajudou a orar sem
máscaras ao dizer que “devemos colocar diante de Deus o que está em nós e
não o que deveria estar em nós”. C. H. Spurgeon confrontou meu orgulho
dizendo que “quer gostemos; quer não, pedir é a regra do Reino”. Mas Foster
me desmontou com a declaração do óbvio, ao a rmar que “o único lugar em
que Deus pode nos abençoar é aquele em que nos encontramos, pois é nesse
lugar que estamos”.
Essas percepções me ajudaram a compreender a sabedoria de Paulo,
apóstolo, ensinando a orar: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo,
porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e
pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o
entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus”.4
Simples. Aliás, oração simples.
Não estou completamente curado. Não censuro quem o faz, mas tenho
absoluta di culdade em pedir a Deus que arrume uma vaga no
estacionamento do shopping ou que mantenha a bilheteria do teatro aberta até eu chegar. Continuo acreditando que muitas das orações que fazemos
não são simples, são infantis, egocêntricas e incompatíveis com o caráter de
Deus. Ainda concordo com Tiago, que disse que não recebemos muitas das
coisas que pedimos a Deus, porque pedimos mal, para gastar em nossos
próprios interesses, para esbanjar em prazeres egoístas – oramos a partir do
reino do eu, e não a partir do Reino de Deus. 5 Mas tudo bem, a gente só
aprende a con ar e a ter conversa de gente grande com o pai porque ele nos
deu pirulitos e nos deixou encher a pança de sorvete na infância. Criança
conversa na língua do doce, e Deus jamais despreza as criancinhas.
O saldo de minha experiência de oração simples é que não seleciono
mais assuntos, mas continuo selecionando pedidos. Já não escondo desejos,
não mascaro ansiedades, não co camu ando sentimentos e opiniões, mas
pre ro mais falar e ouvir do que me apressar em pedir. Aprendi que a
promessa que acompanha a oração simples não é a satisfação da necessidade
ou o atendimento do desejo, mas a paz de Deus que excede todo o
entendimento e que guarda nosso coração e mente, isto é, devolve-nos o
equilíbrio biopsicoespiritual, ajuda-nos a “realizar o sentido do momento” e
restaura nosso estado de espírito perturbado.
ORAÇÕES AUTOFOCALIZADAS
Nas “orações simples”, presto atenção em Deus e em minhas circunstâncias.
Nas “orações autofocalizadas”, presto atenção em Deus e em mim mesmo. As
orações autofocalizadas são mais demoradas e dizem respeito ao meu
mundo interior, quando tento perceber os desalinhamentos de minhas
emoções, estados mentais e procedimentos. Essas orações estão assentadas
basicamente em duas expressões bíblicas. Ou me pergunto como o salmista:
“Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão
perturbada dentro de mim?”,6 ou peço a Deus que me revele o que se passa
dentro de mim: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo te ofende, e
dirige-me pelo caminho eterno”.7
As orações autofocalizadas nascem de nossa experiência em um universo
em desequilíbrio, que nos ataca insistentemente e nos puxa para fora da
segurança e da paz de Deus. Por essa razão Paulo, apóstolo, diz que vivemos
entre dores e gemidos, compartilhando a agonia da criação – a desarmonia
cósmica que repercute em nossas portas e bate nas horas mais inesperadas.
Aprendi sobre a oração autofocalizada lendo este trecho das Escrituras
Sagradas:
Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada. A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os lhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos
lhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em
dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como
lhos, a redenção do nosso corpo. Pois nessa esperança fomos salvos. Mas,
esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo? Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente. Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus. Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a m de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justi cou; aos que justi cou, também glori cou.
Romanos 8.18-30, NVI
Ainda que sua gênese seja nosso sofrimento, as orações autofocalizadas
não visam alívio, mas sim a formação do caráter de Jesus Cristo em nós ou,
se você preferir, a restauração cada vez mais profunda da imagem de Deus
em nós. Lembro-me sempre de que não estou vivendo com o propósito de
não sofrer, mas sim com o propósito de transcender. O que me importa não
é quão confortável será minha vida, mas sim quanto serei capaz de viver de
acordo com a imagem de Deus em mim e quão profundamente poderei
chegar na relação espírito-Espírito.
A famosa expressão bíblica que a rma que “todas as coisas cooperam
para o bem daqueles que amam a Deus” carece de boa interpretação. A
maioria das pessoas acredita que essa é uma expressão paralela ao ditado
popular “quando Deus fecha uma porta, ele abre uma janela” ou algo como
“se não deu certo dessa vez, é porque algo melhor está por vir” ou “você não
está conseguindo ver agora, mas isso que aconteceu com você foi para o seu
bem”. Independentemente do fato de acreditarmos ou não nisso, e eu tenho
uma tendência a acreditar, não é isso o que o texto bíblico está ensinando.
Basta uma leitura do texto completo para chegarmos a outras conclusões.
O que o apóstolo Paulo está dizendo é que “todas as coisas cooperam para o
bem daqueles que amam a Deus e foram chamados segundo o seu
propósito”. Nesse caso, a primazia não está no conforto daquele que ama a
Deus, mas sim em que o propósito de Deus para aqueles que o amam seja
cumprido. E qual é o propósito? Basta ler o texto: “aqueles que de antemão
conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu
Filho, a m de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. Em outras
palavras, o que está em jogo não é a situação confortável ou desconfortável
da minha vida, mas sim o tipo de gente que estou me tornando à medida
que vou vivendo esta situação. O nome do jogo é transformação –
transformação à imago Dei – imago Cristo.
As possibilidades de tradução desse texto bíblico também são
interessantes. A frase “sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam” pode ser traduzida por “sabemos que em todas as
coisas Deus coopera com aqueles que o amam”. Pre ro a segunda hipótese,
pois muito embora acredite num Deus que interfere nas circunstâncias da
vida, minha relação com Deus está muito mais baseada em suas
intervenções em mim mesmo. Deus é muito mais um solucionador de
pessoas do que um solucionador de problemas. Deus sempre preferirá se
relacionar com aqueles que o amam em detrimento de manipular suas
circunstâncias. E não tenho dúvidas quanto ao fato de que, não raras vezes,
Deus nos deixa em situações de desconforto justamente para nos
aproximarmos dele e experimentarmos mais profundamente o seu amor.
Tudo isso faz muito sentido. Não estamos correndo atrás de graças que
quali quem nossas circunstâncias. Estamos em busca de signi cado.
Somente quando conseguirmos viver o sentido de cada momento,
conseguiremos emprestar sentido à vida como um todo. Para realizar o
sentido de cada momento, devemos viver em alinhamento com nossa
natureza mais essencial, a saber, a imagem de Deus revelada em Jesus, o
primeiro de nossos irmãos. Para viver alinhados com a imagem de Deus,
será necessário rendermos o ego ao Espírito de Deus, vencer o egoísmo que
busca sempre evitar a dor e desfrutar prazer, de modo que nada mais
coerente do que a a rmação de que “o Espírito intercede por nós”, ou, em
outras palavras, de que a legítima oração não se dirige do espírito humano
ao Espírito de Deus, para que o Espírito de Deus realize os desejos ou atenda
as necessidades do espírito humano. A legítima oração não é outra coisa
senão a completa submissão do espírito humano ao Espírito de Deus para
que o Espírito de Deus realize seus propósitos eternos em – através – por –
apesar do espírito humano.
Geralmente, essas orações autofocalizadas me conduzem a dois períodos
distintos: a súplica pelo “pão de cada dia” e o pedido pelo “perdão das
dívidas”. As perturbações de minha alma geralmente estão ligadas com
necessidades ou pseudonecessidades não satisfeitas – e por esse motivo peço “o pão”. Peço a Deus que me dê a completa satisfação nele mesmo – o pão da
vida. Aprendi que devemos trabalhar “não pela comida que perece, mas pela
que subsiste para a vida eterna”, 8 de modo que não importe a situação,
fartura ou escassez, estejamos satisfeitos em Deus. 9
Também oro para me livrar de posturas e comportamentos que ferem o
que já conheço do caráter, propósitos e intenções de Deus. Esses
comportamentos e posturas eu chamo de pecado, e a respeito deles peço que
Deus derrame seu perdão, de modo que me livre de tais padrões e da culpa
que me trazem. Essa é uma das maneiras, e a principal, como oro para que
Deus “me livre do mal”. Novamente, tenho certeza que somente na relação
espírito-Espírito poderei viver acima dos meus instintos e apetites primais,
pois é andando em Espírito que conseguimos vencer os desejos da carne. 10
O Salmo 139 também apresenta um caminho de oração autofocalizada. É
no silêncio da oração que minhas vozes inconscientes vêm para a luz da
minha consciência e posso harmonizar meu mundo interior desconhecido
com meu mundo conhecido. É no quarto fechado da oração que meu
mundo interior se releva e se realinha com o propósito de Deus. É na
rendição do meu espírito que experimento a plenitude do Espírito de Deus:
“Senhor, tu me sondas e me conheces. [...]; de longe penetras os meus
pensamentos. [...] conheces todos os meus caminhos. Ainda palavra me não
chegou à língua, e tu, ll Senhor , já a conheces toda”.
Na oração autofocalizada, consigo adquirir senso da presença de Deus,
pois não são poucas as vezes quando Deus me parece não apenas distante,
mas também e principalmente ausente. Mas esse Salmo 139 ainda me ensina
que, se subo aos céus, se desço ao mais profundo abismo, se subo em direção
ao solo ou se desço às profundezas do mar, até ali a mão de Deus me guiará
e me sustentará. É na intimidade da oração que resgato o senso de que Deus
me cerca por trás e por diante e de que sobre mim está a sua mão; em meio
as trevas, ando como em plena luz.
É também no silêncio da oração, no quarto fechado e na rendição ao
Espírito que coloco em linha minha história com meu momento: percebo
padrões de comportamento, sentimentos recorrentes, situações repetitivas e
destrutivas. É na oração autofocalizada que me recordo que Deus me
formou no ventre de minha mãe, que ali me conheceu, quando eu ainda era
apenas substância informe, e desde então colocou sua mão sobre minha
vida, registrando em seu livro todos os dias de minha vida, de modo que
nada do que sou hoje escapa aos processos do tempo, mas principalmente
nada escapa às mãos e controle de Deus.
ORAÇÕES DE INTERCESSÃO
Nas “orações simples”, presto atenção em Deus e em minhas circunstâncias.
Nas “orações autofocalizadas”, presto atenção em Deus e em mim mesmo.
Nas “orações de intercessão”, desvio o foco das minhas circunstâncias, de
meus pensamentos e desejos bem como de mim mesmo, para prestar
atenção em Deus e nas outras pessoas, isto é, Deus e meu próximo. Peço a
Deus que estenda sua mão sobre algumas pessoas com quem meu contato
pastoral está mais estreito, ou pessoas que me solicitaram que orasse por
elas. Tenho uma lista de pessoas que estão sempre em minhas orações,
nomes que nunca saem de lá, e outros que cam ali por algum tempo.
Nessas orações de intercessão, abro a agenda, o mapa-múndi ou o jornal do
dia na minha mente e peço que Deus traga Seu Reino e faça a sua vontade
na vida de pessoas em lugares e circunstâncias que não me afetam
diretamente. Agostinho disse que “a oração verdadeira nada mais é do que o
amor”. Novamente, o amor, a contingência de liberdade do reino do eu,
imprescindível para quem deseja ser intercessor.
Essas orações de intercessão trazem sempre resultados imediatos. Um
deles é que essa abstração, não poucas vezes, faz com que, na volta, eu
experimente meu pequeno mundo de maneira muito mais satisfatória, uma
vez comparado às necessidades tão mais con itivas que foram objeto de minhas súplicas a Deus. Mas também essas abstrações me libertam de uma
tendência egocêntrica, disciplinando meu coração a tornar-se cada vez mais
inclusivo e solidário.
As orações de intercessão também produzem outro fruto. Muitas vezes,
enquanto oro, percebo que eu mesmo posso ser instrumento de Deus para
tocar em outras pessoas ou alterar situações. Nesse caso, uma compulsão
para obedecer à voz divina cresce dentro da gente, e não há como nem por
que escapar.
Mas, em minha experiência pessoal, as orações de intercessão são as mais
difíceis. Vejo o intercessor como uma espécie de redentor. Às vezes, tenho a
sensação de que o fardo da pessoa por quem estou intercedendo passa para
as minhas costas e vejo-me chorando lágrimas que não são minhas. Após
um período em que concentrei meus pensamentos e sentimentos
canalizados em favor de alguém, chego a experimentar um cansaço de alma,
algo como se minhas energias espirituais tivessem sido sugadas. Essa
experiência é muito semelhante aos domingos mais intensos, quando ao m
do sermão da noite me sinto exaurido. Não se trata de um cansaço físico,
mas sim emocional ou espiritual.
A intercessão é, com certeza, uma das mais práticas e e cazes maneiras
de ajudar os outros a suportar suas cargas pesadas.12 Paulo, apóstolo, fala da
oração de intercessão como uma batalha. Insiste que os cristãos de Roma
lutem por ele em suas orações13 e elogia o compromisso de Epafrodito, um
cristão que lutava pelos colossenses por meio de suas orações a Deus. 14 O
texto, entretanto, que mais me esclareceu a esse respeito foi Efésios 6, no
qual o apóstolo Paulo ensina a combater os espíritos malignos, as forças
espirituais do mal, nas regiões celestes. Ele nos adverte que devemos estar
revestidos da armadura de Deus: a verdade (clareza na visão da realidade), a
couraça da justiça (consciência sem culpa), os calçados da paz
(relacionamentos íntegros), o escudo da fé (convicções fortalecidas), o capacete da salvação (correta relação com Deus) e a espada do Espírito (a
revelação de Deus).
Ao ler esse texto sagrado, perguntei-me como podemos lutar sem orar.
Não seria a oração a maneira como aperfeiçoamos nossas convicções
espirituais e nos preparamos para a guerra? Creio que não. A oração não é
uma preparação para a guerra, tampouco uma arma para a guerra. A oração
é a própria guerra. Isso é signi cativo. A maneira como lidamos com
espíritos maus é falando com Deus e nos rendendo ao Espírito de Deus,
trazendo a realidade sob con ito para dentro dos horizontes do Reino de
Deus. Assim nos ensinou Jesus quando intercedeu para que Pedro não se
perdesse ao ser atacado pelo espírito mal. Jesus não se dirigiu ao espírito
mal, antes rogou a Deus em favor de Pedro.15 Assim lutamos contra o mal:
intercedendo a Deus em favor dos que estão em con ito com as trevas ou
estão em trevas.
POR QUE ORAR
A transcendência é muito mais um relacionamento do que um momento. A
caminhada com Deus não é uma espécie de bem-me-quer-mal-me-quer
espiritual, do tipo com Deus-sem Deus, de acordo com nossas
conveniências. O Novo Testamento é claro ao mostrar que a experiência
matricial cristã – a conversão, o novo nascimento – é de nitiva e
determinante. Passar da morte para a vida, das trevas para a luz, da
alienação de Deus para a comunhão com Deus, da rebelião contra Deus
para a submissão a Deus indica um status existencial permanente. Para falar
o português claro: ou você quer andar com Deus ou quer andar sozinho. Por
esse motivo, o propósito de transcender implica uma opção, não apenas
algumas orações eventuais.
Devo fazer, entretanto, duas observações. A primeira é que acredito que
Deus ouve as orações de todas as pessoas, sem distinção. Toda vez que o
nome de Deus é invocado, ele atende – responde – reage: “O Senhor está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam com
sinceridade”.16 Quando Deus se manifesta, pode inclusive conceder o que foi
suplicado, independentemente de quem seja o suplicante. A Bíblia está cheia
de testemunhos de dádivas divinas para pessoas que não se importavam em
andar com ele. A multidão era bene ciada pela ministração amorosa e
compassiva de Jesus, mas nem todos os agraciados tornavam-se seus
seguidores. A maioria, aliás, preferia a benesse circunstancial a radicalidade
do discipulado. Jesus denunciou a turma que o seguia somente por causa do
pão (no caso, material, de trigo mesmo), 17 e observou que, de dez leprosos
curados, apenas um voltou para agradecer.18
O mais interessante dos exemplos bíblicos a respeito da disponibilidade
de Deus é a história de Cornélio. Era um homem temente a Deus e que fazia
orações e dava esmolas aos pobres, mas não possuía a revelação completa a
respeito desse Deus a quem buscava. Cornélio representa aqueles que
acreditam em um “ser espiritual superior” e reverenciam a Deus, mesmo
sem conhecê-lo ou sem relacionar-se com ele em termos pessoais. Talvez
Cornélio tivesse ouvido falar do Deus dos judeus e, mesmo sendo grego,
devotava-lhe especial afeição. Pedro é enviado por Deus para levar a
Cornélio a revelação a respeito de Jesus de Nazaré, o que signi ca que, até
então, Cornélio não poderia ser chamado pelos cristãos de “um dos nossos”.
A coisa mais impressionante é que, mesmo sem ser “um dos nossos”, Deus
ouvia suas orações e recebia para si as esmolas que ele destinava aos
pobres.19
Por essa razão insisto que quem deseja transcender, isto é, entrar na
relação espírito-Espírito, deve aprender a orar. Deus dá àqueles que o
procuram um meio de encontrá-lo. Na verdade, o fato de estarem
procurando e clamando por Deus talvez seja a maior das evidências de já
terem sido encontrados por ele. Apesar de ter sido ensinado que “Deus
somente ouve as orações dos crentes”, dedico muito esforço a ensinar as
pessoas a buscar a Deus em oração. Das duas, uma: ou receberão o que pedem e seguirão sua vida como se Deus não existisse, ou terão um
encontro com Deus e o que pedem se tornará absolutamente secundário.
Em ambos os casos, eu não tenho outra recomendação senão “busque a
Deus, o Pai, em nome de Jesus”.
A pergunta “por que orar?” tem respostas simples. Primeiro, porque
Deus responde àqueles que o invocam. Mas também porque o
relacionamento com Deus não é automático, independente de nossa
disposição de espírito e de nossas intenções de conexão. Na verdade, assim
como em todo e qualquer relacionamento entre pessoas, somente a
proximidade gera intimidade. Assim também a conexão com Deus carece de
conversação contínua, pois “a oração une a alma a Deus”.20