23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
5 - Pressuponha o pior com relação às pessoas e você receberá o pior
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Pressuponha o pior com relação às pessoas e
você receberá o pior
O que eles dizem
Adam Smith fez a famosa declaração: “Não é da benevolência do açougueiro,
do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas sim da
consideração deles pelo seus próprios interesses.” O mercado aproveita
belamente a energia das pessoas egoístas que só pensam em si mesmas (e, no
máximo, na sua família imediata) para produzir a harmonia social. O
comunismo fracassou porque negou esse instinto humano e dirigiu a
economia partindo do princípio de que todo mundo era altruísta, ou, pelo
menos, em grande medida altruísta. Temos que pressupor o pior com relação
às pessoas (ou seja, que elas só pensam em si mesmas), se quisermos construir
um sistema econômico durável.
O que eles não dizem
O interesse pessoal é uma característica extremamente poderosa em quase
todos os seres humanos. No entanto, não é o nosso único impulso. Com
frequência, não é nem mesmo a nossa principal motivação. Na realidade, se o
mundo estivesse repleto das pessoas egoístas que encontramos nos
compêndios de economia, ele ficaria paralisado porque passaríamos a maior
parte do tempo trapaceando, tentando capturar os trapaceiros e punindo os
que fossem apanhados. O mundo funciona como funciona somente porque as
pessoas não são os agentes totalmente egoístas que a economia do livre
mercado acredita que elas sejam. Precisamos projetar um sistema econômico
que, ao mesmo tempo que reconheça que as pessoas são frequentemente
egoístas, explore outros motivos humanos e extraia o que há de melhor nas pessoas. O mais provável é que se pressupusermos o pior com relação às
pessoas, obteremos o que há de pior nelas.
Como (não) gerir uma empresa
Em meados da década de 1990, participei de uma conferência no Japão sobre
o “milagre do crescimento do Leste Asiático”, organizada pelo Banco
Mundial. Um dos lados do debate era formado por pessoas como eu, que
argumentavam que a intervenção do governo havia desempenhado um papel
positivo na história do Leste Asiático ao se opor aos sinais do mercado,
protegendo e subsidiando indústrias como as do automóvel e da eletrônica. A
outra facção era composta pelos economistas que apoiavam o Banco Mundial,
que argumentavam que a intervenção do governo havia sido, na melhor das
hipóteses, algo de importância secundária e, na pior das hipóteses, havia feito
mais mal do que bem ao Leste Asiático. O mais importante, acrescentaram, é
que mesmo que fosse verdade que o milagre do Leste Asiático devesse alguma
coisa à intervenção do governo, isso não significa que as políticas utilizadas
pelos países do Leste Asiático possam ser recomendadas para outros países.
Foi ressaltado que as autoridades do governo que elaboram as políticas são
(como todos nós) agentes egoístas, mais interessados em expandir o seu poder
e prestígio pessoais do que em promover os interesses nacionais. Eles
argumentaram que a intervenção do governo funcionava no Leste Asiático
porque, por motivos históricos, eles tinham burocratas excepcionalmente
altruístas e capazes (o que não precisamos detalhar aqui). Até mesmo alguns
dos economistas que defendiam um papel ativo para o governo admitiram esse
ponto.
Ao ouvir esse debate, um cavalheiro japonês de aparência distinta que
estava na audiência levantou a mão. Apresentando-se como um dos altos
executivos da Kobe Steel, na época o quarto maior produtor de aço do Japão,
o cavalheiro repreendeu os economistas por interpretar erroneamente a
natureza da burocracia moderna, quer a do governo, quer a do setor privado.
O executivo da Kobe Steel disse (é claro que eu o estou parafraseando):
“Sinto muito dizer isto, mas vocês, economistas, não entendem como o
mundo funciona. Tenho um doutorado em metalurgia e trabalho na Kobe Steel há quase três décadas, de modo que tenho algum conhecimento da
fabricação do aço. No entanto, a minha empresa é hoje tão grande e complexa
que nem mesmo eu compreendo mais do que a metade das coisas que estão
acontecendo dentro dela. Quanto aos outros executivos — com formação em
contabilidade e marketing — eles realmente não tem muito conhecimento das
coisas. Apesar disso, a nossa diretoria aprova rotineiramente a maioria dos
projetos apresentados pelos nossos funcionários, porque acreditamos que eles
trabalham pelo bem da empresa. Se partíssemos do princípio que todo mundo
só pensa em promover os seus próprios interesses e questionássemos o tempo
todo os motivos dos nossos funcionários, a empresa pararia de funcionar, pois
passaríamos todo o nosso tempo analisando propostas que na realidade não
entendemos. É simplesmente impossível administrar uma grande organização
burocrática, seja ela a Kobe Steel ou o governo, se partirmos do princípio que
todo mundo só pensa em si mesmo.”
Esse é apenas um relato interessante, mas é um depoimento poderoso das
limitações da teoria econômica convencional, a qual pressupõe que o interesse
pessoal é a única motivação humana que conta. Vou desenvolver o meu
raciocínio.
Açougueiros e padeiros egoístas
A economia de livre mercado parte do princípio que todos os agentes
econômicos são egoístas, como foi resumido na avaliação de Adam Smith do
açougueiro, do cervejeiro e do padeiro. A beleza do sistema de mercado,
sustentam os defensores dessa economia, é que ele canaliza o que parece ser o
pior aspecto da natureza humana — o egoísmo, ou a ganância, se você preferir
— transformando essa tendência em uma coisa produtiva e socialmente
benéfica.
Tendo em vista a sua natureza egoísta, os donos de lojas tentarão cobrar de
você um preço alto demais, os trabalhadores tentarão ao máximo fugir à
responsabilidade no trabalho e os gestores profissionais tentarão maximizar o
seu salário e prestígio em vez dos lucros, já que estes vão para os acionistas e
não para eles. No entanto, a força do mercado colocará rígidos limites, ou até
mesmo eliminará por completo, esse tipo de comportamento: os donos de loja não o enganarão se tiverem um concorrente próximo; os trabalhadores não
ousarão fazer corpo mole se souberem que podem ser facilmente substituídos;
os gestores contratados não conseguirão enganar os acionistas se operarem em
um vigoroso mercado de ações, que garantirá que os gestores que gerarem
lucros mais baixos, diminuindo assim o preço das ações, correrão o risco de
perder o emprego já que o controle acionário da sua empresa será tomado por
outra. Para os economistas que defendem o livre mercado, as autoridades
públicas — os políticos e os burocratas do governo — apresentam um desafio
especial sob esse aspecto. A sua busca do interesse pessoal não pode ser
refreada em um grau significativo porque essas pessoas não estão sujeitas à
disciplina do mercado. De fato, os políticos enfrentam alguma concorrência
uns dos outros, mas as eleições têm lugar tão raramente que os seus efeitos
disciplinares são limitados. Por conseguinte, eles têm amplas oportunidades de
perseguir políticas que aumentem o seu poder e a sua riqueza, à custa da
prosperidade nacional. Quando se trata de burocratas de carreira, as
oportunidades de perseguir os interesses egoístas são ainda maiores. Mesmo
que os seus líderes políticos, os políticos, tentem obrigá-los a implementar
políticas que atendam a exigências eleitorais, eles sempre podem confundir e
manipular os políticos, como foi brilhantemente retratado na série cômica da
BBC Yes, Minister e na sua continuação, Yes, Prime Minister. Além disso, ao
contrário dos políticos, esses burocratas de carreira têm uma segurança no
emprego elevada, ou até mesmo vitalícia, de modo que podem aguardar o fim
do mandato dos seus líderes políticos simplesmente protelando as coisas. Esse
era o ponto crucial das preocupações que os economistas do Banco Mundial
estava expressando na conferência no Japão que mencionei no início deste
texto.
Por conseguinte, os economistas que defendem o livre mercado
recomendam que a parte da economia controlada pelos políticos e burocratas
deveria ser minimizada. A desregulamentação e a privatização, a partir desse
ponto de vista, além de ser economicamente eficazes também são
politicamente sensatas, já que minimizam a possibilidade de que as autoridades
públicas possam usar o estado como um instrumento para promover os seus
interesses pessoais, à custa do público em geral. Alguns — que pertencem à
chamada escola da “Nova Administração Pública” — vão ainda mais além e recomendam que a administração do próprio governo deveria ser exposta às
forças mais amplas do mercado: uma utilização mais agressiva de pagamento
relacionado com o desempenho e contratos de curto prazo para os burocratas;
uma terceirização mais frequente dos serviços do governo; um intercâmbio
mais ativo de pessoal entre o setor público e o privado.
Podemos não ser anjos, mas...
A hipótese do individualismo egoísta, que se situa na base da economia do
livre mercado, tem uma grande ressonância com as nossas experiências
pessoais. Todos já fomos enganados por negociantes inescrupulosos, seja o
fruteiro que colocou algumas ameixas podres no fundo da embalagem ou o
fabricante de iogurte que exagerou enormemente os benefícios dos seus
produtos para a saúde. Conhecemos um número excessivo de políticos
corruptos e burocratas preguiçosos para acreditar que todos os funcionários
públicos só pensam em servir ao público. Quase todos nós, eu inclusive, já
fugimos da responsabilidade no trabalho e alguns de nós ficamos
decepcionados com colegas mais jovens e assistentes que apresentam os mais
diferentes tipos de desculpas para não trabalhar com seriedade. Além disso,
segundo as notícias que lemos e ouvimos hoje em dia sobre gestores
profissionais, até mesmo os supostos defensores dos interesses dos acionistas
como Jack Welch da GE e Rick Wagoner da GM, não estavam realmente
empenhados em fazer o que era melhor para os acionistas.
Tudo isso é verdade. Entretanto, também temos muitas evidências — não
apenas relatos de casos isolados, mas sim evidências sistemáticas — que
demonstram que o interesse pessoal não é a única motivação que importa, até
mesmo na nossa vida econômica. O autointeresse é, sem dúvida,
extremamente importante, mas o nosso comportamento às vezes tem origem
em motivos até mesmo mais importantes do que o egoísmo, como, por
exemplo, a honestidade, a dignidade, o altruísmo, o amor, a compreensão, a
confiança, o senso do dever, a solidariedade, a lealdade, o espírito público, o
patriotismo e assim por diante.[15]
O nosso exemplo anterior da Kobe Steel mostra como empresas bem-
sucedidas são geridas com base na confiança e na lealdade, em vez de na desconfiança e no egoísmo. Se você acha que esse é um exemplo peculiar de
um país de “formigas operárias” que reprime a individualidade contra a
natureza humana, abra qualquer livro sobre liderança empresarial ou a
autobiografia de qualquer empresário publicada no Ocidente e veja o que eles
dizem. Eles dizem que você precisa desconfiar das pessoas e observá-las o
tempo todo para que não sejam indolentes e desonestas? Não, eles
provavelmente falam principalmente a respeito de como “estabelecer um
vínculo” com os funcionários, mudar a maneira como eles veem as coisas,
inspirá-los e promover o trabalho em equipe entre eles. Os bons
administradores sabem que as pessoas não são robôs egoístas com falta de
visão. Eles sabem que elas têm um lado “bom” e um lado “mau”, e que o
segredo da boa administração reside em intensificar o primeiro e atenuar o
último.
Outro bom exemplo que ilustra a complexidade da motivação humana é a
prática da “operação-padrão” ou “operação tartaruga”, na qual os
trabalhadores desaceleram a produção seguindo rigorosamente as regras que
regulamentam as suas tarefas. Você poderá se perguntar como os
trabalhadores podem prejudicar o empregador trabalhando de acordo com as
regras. No entanto, esse método de greve parcial — também conhecido como
“greve italiana” (e como “sciopero bianco”, ou “greve branca”, pelos próprios
italianos) — sabidamente reduz a produção de 30 a 50%. Isso acontece porque
nem tudo pode ser especificado no contrato de trabalho (as regras) e,
portanto, todos os processos de produção se apoiam expressivamente na boa
vontade dos trabalhadores de fazer coisas adicionais que não são exigidas em
contrato ou ter iniciativas e pegar atalhos a fim de agilizar as coisas, quando as
regras são excessivamente incômodas. As motivações por trás desse
comportamento altruísta dos trabalhadores variam, podendo ser amor pelo
emprego, orgulho da sua capacidade pessoal, dignidade, solidariedade para
com os colegas, confiança nos altos executivos ou lealdade para com a
empresa. Mas a conclusão final é que as empresas, e portanto a nossa
economia, ficariam paralisadas se as pessoas agissem de uma maneira
totalmente egoísta, como a economia de livre mercado pressupõe que elas
ajam.
Por não compreender a natureza complexa da motivação dos
trabalhadores, os capitalistas da antiga era de produção em massa achavam
que, ao privar completamente os trabalhadores da liberdade de ação com
relação à velocidade e à intensidade do seu trabalho, e portanto da capacidade
de “enrolar”, a correia transportadora maximizaria a produtividade deles. No
entanto, como esses capitalistas logo descobriram, ao se ver privados da sua
autonomia e dignidade, os trabalhadores reagiram tornando-se passivos,
descuidados e até mesmo pouco dispostos a cooperar. Desse modo,
começando pela Escola das Relações Humanas que surgiu na década de 1930,
que ressaltou a necessidade da boa comunicação com os trabalhadores, bem
como entre eles, emergiram muitas abordagens administrativas que enfatizam a
complexidade da motivação humana e sugerem maneiras de trazer à tona o
que há de melhor nos trabalhadores. O apogeu dessa abordagem é o chamado
“sistema japonês de produção” (às vezes conhecido como o “sistema Toyota
de produção”), que tira partido da boa vontade e da criatividade dos
trabalhadores, conferindo-lhes responsabilidades e confiando neles como
agentes morais. No sistema japonês, os trabalhadores detêm um considerável
grau de controle sobre a linha de produção. Eles também são incentivados a
fazer sugestões para o aprimoramento do processo de produção. Essa
abordagem possibilitou que as empresas japonesas alcançassem uma tal
eficiência e qualidade de produção que hoje muitas companhias não japonesas
as estão imitando. Por não pressupor o pior com relação aos seus
trabalhadores, as empresas japonesas extraíram o que há de melhor neles.
O comportamento moral é uma ilusão de ótica?
Assim, se você olhar à sua volta e pensar um pouco, perceberá que o mundo
parece repleto de comportamentos morais que contrariam as suposições dos
economistas que defendem o livre mercado. Quando são confrontados com
esses comportamentos, esses economistas frequentemente os descartam como
sendo “ilusões de ótica”. Se as pessoas dão a impressão de estar tendo um
comportamento moral, argumentam eles, é apenas porque os observadores
não enxergam as recompensas e sanções ocultas a que elas estão reagindo.
De acordo com essa linha de raciocínio, as pessoas permanecem sempre
egoístas. Se elas têm um comportamento moral, não é porque acreditem no
código moral em si mas porque esse tipo de comportamento maximiza as
recompensas e minimiza as punições para elas sob o aspecto pessoal. Por
exemplo, se negociantes se abstêm de trapacear mesmo na ausência de uma
coerção legal ou de concorrentes prontos para roubar o negócio deles, isso
não significa que eles acreditem na honestidade. Eles agem dessa maneira
porque sabem que a reputação de ser um negociante honesto atrai mais
clientes. Ou muitos turistas que têm um mau comportamento não fariam o
mesmo em casa, não porque de repente se tornem pessoas dignas quando
voltam para casa, mas porque deixam de ter o anonimato do turista e passam,
portanto, a ter medo de ser criticadas ou marginalizadas por pessoas que
conhecem e que são importantes para elas.
Essas afirmações encerram alguma verdade. Existem, de fato, recompensas
e sanções sutis que não são visíveis de imediato, e as pessoas reagem a elas.
Entretanto, essa linha de raciocínio não funciona no final.
O fato é que, mesmo quando não existem em ação mecanismos ocultos de
recompensa e sanção, muitos de nós nos comportamos honestamente. Por
que, por exemplo, as pessoas — ou pelo menos aquelas que conseguem correr
muito — não saem correndo sem pagar a corrida do táxi?[16] O motorista do
táxi não pode ir muito longe na sua perseguição, já que não pode abandonar o
táxi durante muito tempo. Se você mora em uma grande cidade, a chance de
você encontrar de novo o mesmo motorista é quase nula, de modo que nem
mesmo precisa ter medo de que o motorista possa retaliar de alguma maneira
no futuro. Considerando-se tudo isso, é realmente extraordinário que tão
poucas pessoas não fujam depois de uma corrida de táxi. Outro exemplo é que
em uma viagem de férias ao exterior, você pode ter encontrado um mecânico
ou um vendedor ambulante que não o tenha enganado, mesmo que não
houvesse nenhuma maneira de você recompensá-lo espalhando aos quatro
ventos que ele era honesto — o que é particularmente difícil quando você não
consegue nem mesmo soletrar o nome turco da oficina ou quando a mulher
cambojana que vende macarrão na rua, cujo nome você nem mesmo se
lembra, talvez nem mesmo fique no mesmo lugar todos os dias.
O mais importante é que, em um mundo habitado por pessoas egoístas, o
mecanismo invisível da recompensa/sanção não pode existir. O problema é que
recompensar e punir outras pessoas pelo seu comportamento só custa tempo e
energia para as pessoas que estão tomando essas medidas, ao passo que os
benefícios oriundos de melhores padrões de comportamento abarcam todo
mundo. Voltando aos nossos exemplos anteriores, se você, na condição de
motorista de táxi, quiser perseguir e espancar um passageiro que tenha fugido
sem pagar, você poderá correr o risco de ser multado por estacionamento
irregular ou até mesmo ter o seu táxi arrombado. Mas qual é a chance de você
ser beneficiado pela melhora do padrão de comportamento desse passageiro,
que você talvez nunca mais encontre? Você gastaria tempo e energia para
espalhar a notícia de que aquela oficina na Turquia é honesta e faz um bom
trabalho, mas por que você deveria fazer isso se provavelmente nunca mais irá
voltar àquela parte do mundo? Portanto, na condição de uma pessoa egoísta,
você espera que alguém seja tolo o bastante para gastar tempo e energia
aplicando a justiça privada a passageiros de táxi problemáticos ou a longínquas
oficinas mecânicas, em vez de pagar você mesmo os custos. Entretanto, se
todo mundo fosse egoísta como você, todo mundo agiria como você. Como
resultado, ninguém recompensaria e puniria outras pessoas devido ao bom ou
mau comportamento delas. Em outras palavras, os mecanismos invisíveis de
recompensas e sanções que os economistas que defendem o livre mercado
afirmam criar a ilusão de ótica da moralidade só podem existir porque não
somos os agentes amorais que esses economistas afirmam que somos.
A moralidade não é uma ilusão de ótica. Quando as pessoas agem de uma
maneira não egoísta — seja deixando de roubar os clientes, trabalhando
arduamente apesar de ninguém as estar observando ou recusando propinas
mesmo sendo um funcionário público mal remunerado — muitas delas, ou até
mesmo todas elas, o fazem porque genuinamente acreditam que é a coisa certa
a ser feita. Os mecanismos invisíveis de recompensas e sanções são
importantes, mas não podem explicar todos — ou, na minha opinião, nem
mesmo a maioria — dos comportamentos não egoístas, mesmo que seja
apenas pela simples razão de que eles não existiriam se fossem inteiramente
egoístas. Contrariando a afirmação da Sra. Thatcher de que “não existe algo
como a sociedade. Existem homens e mulheres individuais, e há famílias”, os seres humanos nunca existiram como agentes atomísticos egoístas, não
limitados por nenhuma sociedade. Nascemos em sociedades com
determinados códigos morais e somos socializados de maneira a “interiorizar”
esses códigos.
É claro que tudo o que acabo de expor não tem a intenção de negar que o
egoísmo é uma das mais importantes motivações humanas. No entanto, se
todo mundo realmente só pensasse em promover o seu próprio interesse, o
mundo já teria parado, porque haveria um excesso de trapaças nos negócios e
de inatividade na produção. O mais importante é que se projetarmos o nosso
sistema econômico com base nessa suposição, o resultado provavelmente será
uma eficiência menor, em vez de maior. Se fizéssemos isso, as pessoas
sentiriam que não são consideradas confiáveis como agentes morais e se
recusariam a agir de uma maneira moral, obrigando-nos a gastar uma enorme
quantidade de recursos para monitorar, julgar e punir as pessoas. Se
pressupusermos o pior com relação às pessoas, obteremos o que há de pior
nelas.
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