23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
22 - Os mercados financeiros precisam se tornar menos, e não mais, eficientes
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Os mercados financeiros precisam se tornar
menos, e não mais, eficientes
O que eles dizem
O rápido desenvolvimento dos mercados financeiros possibilitou que
distribuíssemos e deslocássemos rapidamente os recursos. É por esse motivo
que os Estados Unidos, o Reino Unido, a Irlanda e algumas outras economias
capitalistas que liberalizaram e abriram os seus mercados financeiros se saíram
bem nas três últimas décadas. Os mercados financeiros liberais conferem à
economia a capacidade de responder rapidamente às oportunidades variáveis,
possibilitando assim que ela cresça mais rápido. É bem verdade que alguns dos
excessos do período mais recente conferiram uma má reputação à área
financeira, particularmente nos países anteriormente mencionados. No
entanto, não devemos nos apressar a reprimir os mercados financeiros
simplesmente por causa dessa única crise financeira do século XX que
ninguém poderia ter previsto, por maior que ela possa ter sido, já que a
eficiência do seu mercado financeiro é a chave da prosperidade de uma nação.
O que eles não dizem
O problema dos mercados financeiros atuais é que eles são eficientes demais.
Com as recentes “inovações” financeiras que produziram um número enorme
de novos instrumentos financeiros, o setor financeiro tornou-se mais eficiente
em gerar lucros para si mesmo a curto prazo. Entretanto, como foi visto na
crise global de 2008, esses novos ativos financeiros tornaram a economia
como um todo, bem como o próprio sistema financeiro, muito mais instável.
Além disso, considerando-se a liquidez dos seus ativos, os detentores dos
ativos financeiros reagem com uma rapidez excessiva à mudança, o que torna
difícil para as empresas do setor real manter o “capital paciente” de que elas precisam para se desenvolver a longo prazo. A defasagem da velocidade entre
o setor financeiro e o setor real precisa ser reduzida, o que significa que é
necessário tornar o mercado financeiro deliberadamente menos eficiente.
Três frases inúteis
Pessoas que visitavam a Islândia na década de 1990 relatavam que o guia
turístico oficial distribuído no aeroporto de Reykjavík tinha, como todos os
outros guias desse tipo, uma seção com “frases úteis”. No entanto, ao
contrário destes últimos, o guia islandês incluía uma seção de “frases inúteis”.
Aparentemente essa seção só continha três frases, que diziam, em inglês:
“Onde fica a estação de trem?”, “O dia está bonito hoje” e “Você tem alguma
coisa mais barata?”
O comentário sobre a estação de trem é, por incrível que pareça,
verdadeiro — a Islândia não tem estradas de ferro. Com relação ao tempo, o
guia talvez estivesse sendo duro demais. Não morei lá, mas segundo a opinião
geral, parece que a Islândia tem pelo menos alguns dias de sol por ano. Quanto
ao fato de tudo ser caríssimo, a inclusão da pergunta a esse respeito nessa
seção do guia era adequada e uma consequência do sucesso econômico do
país. Os serviços que envolvem mão de obra são caros nos países com uma
renda elevada (a não ser que eles tenham um constante suprimento de
imigrantes que aceitam receber baixos salários, como os Estados Unidos e a
Austrália), tornando tudo mais caro do que a taxa de câmbio oficial deveria
sugerir. Tendo sido uma das economias mais pobres da Europa, em 1995 a
Islândia progredira e se tornara a décima primeira economia mais rica do
mundo (depois de Luxemburgo, da Suíça, do Japão, da Noruega, da
Dinamarca, da Alemanha, dos Estados Unidos, da Áustria, de Cingapura e da
França).
Apesar de muito rica, a economia islandesa recebeu um poderoso impulso
no final da década de 1990, graças à decisão do governo da época de privatizar
e liberalizar o setor financeiro. Entre 1998 e 2003, o país privatizou bancos e
fundos de investimento estatais, ao mesmo tempo que eliminou até mesmo as
regulamentações mais básicas sobre as atividades dessas instituições, como a
exigência de reserva para os bancos. Depois disso, os bancos islandeses se expandiram a uma velocidade impressionante, buscando inclusive clientes no
exterior. Os seus serviços de internet banking fizeram um grande progresso na
Grã-Bretanha, na Holanda e na Alemanha. E os investidores islandeses tiraram
proveito das agressivas concessões de empréstimos dos seus bancos e
mergulharam em orgias de compras corporativas, especialmente na Grã-
Bretanha, o seu ex-adversário nas famosas “Guerras do Bacalhau” das décadas
de 1950 a 1970. Esses investidores, apelidados de “especuladores vikings”,
eram mais bem representados por Baugur, a empresa de investimento de
propriedade de Jón Jóhanneson, o jovem magnata dos negócios. Irrompendo
em cena somente no início da década de 2000, em 2007 a Baugur se tornara
uma influência importante na indústria do varejo britânica, com uma
importante participação nos negócios empregando cerca de 65 mil pessoas,
movimentando mais de 10 bilhões de libras em 3.800 lojas, entre elas a
Hamleys, a Debenhams, e a Oasis and Iceland (o nome sedutor da rede
britânica de alimentos congelados).
Durante algum tempo, a expansão financeira pareceu funcionar às mil
maravilhas para a Islândia. Tendo sido um dia um fim de mundo financeiro,
com a reputação de ser excessivamente regulador (a sua bolsa de valores só foi
criada em 1985), o país se transformou em um novo e vigoroso eixo no
sistema financeiro global. A partir do final da década de 1990, a Islândia
cresceu em um ritmo extraordinário, tornando-se o quinto país mais rico do
mundo em 2007 (depois da Noruega, de Luxemburgo, da Suíça e da
Dinamarca). O céu parecia ser o limite.
Lamentavelmente, depois da crise financeira global de 2008, a economia
islandesa entrou em colapso. Naquele verão, os seus três maiores bancos
foram à falência e o governo teve que assumir o controle deles. As coisas
ficaram tão ruins que, em outubro de 2009, o McDonald’s decidiu se retirar da
Islândia, relegando o país à condição indefinida da globalização. Na ocasião
em que redijo estas linhas (início de 2010), a estimativa do FMI foi que a
economia do país encolheu à taxa de 8,5% em 2009, o índice mais rápido de
contração entre os países ricos.
A natureza arriscada da tendência financeira da Islândia a partir do final
dos anos 1990 está cada vez mais vindo à luz. Os ativos bancários haviam
atingido o equivalente a 1.000% do PIB em 2007, o dobro do percentual do Reino Unido, país que tem um dos setores bancários mais desenvolvidos do
mundo. Além disso, a expansão financeira da Islândia fora alimentada por
empréstimos estrangeiros. Em 2007, a dívida externa líquida (as dívidas
externas menos as concessões de crédito ao exterior) subiram de 50% do PIB
em 1997 para quase 250% do PIB em 2007. Países sofreram um colapso com
uma exposição muito menor — as dívidas externas eram equivalentes a 25%
do PIB na Coreia e 35% do PIB na Indonésia às vésperas da crise financeira
asiática de 1997. Além disso, a natureza duvidosa das transações financeiras
por trás do milagre econômico islandês foi revelada; com muita frequência, os
principais tomadores de empréstimos dos bancos eram importantes acionistas
desses mesmos bancos.
Novo mecanismo de crescimento?
Por que estou gastando tanto tempo falando a respeito de uma pequena ilha
com pouco mais de 300 mil habitantes que não tem nem mesmo uma estação
de trem ou um McDonald’s, por mais dramática que possa ter sido a sua
ascensão e queda? Porque a Islândia é o exemplo perfeito do que está errado
com a visão financeira dominante de hoje.
Por mais extraordinária que a história da Islândia possa parecer, ela não
estava sozinha ao alimentar o crescimento com a privatização, a liberalização e
a abertura do setor financeiro ao longo das três últimas décadas. A Irlanda
tentou se tornar outro eixo financeiro usando a mesma estratégia, com os seus
ativos financeiros atingindo o equivalente a 900% do PIB em 2007. Assim
como a Islândia, a Irlanda também presenciou uma forte queda na crise
financeira global de 2008. Na ocasião em que escrevo estas linhas, a estimativa
do FMI era que a economia do país havia encolhido 7,5% em 2009. A Letônia,
outra que tinha a aspiração de ser um eixo financeiro, foi ainda mais
duramente atingida. Depois do colapso do seu boom baseado no sistema
financeiro, o FMI estimou que a economia da Letônia encolheu 16% em 2009.
Dubai, o eixo financeiro autodesignado do Oriente Médio, pareceu se
sustentar por um pouco mais de tempo do que os seus rivais europeus, mas
jogou a toalha em novembro de 2009, declarando uma moratória para o seu
principal conglomerado de propriedade estatal.
Antes da sua recente perda de popularidade, essas economias eram
elogiadas como exemplos de um novo modelo de negócios dirigido pelo
sistema financeiro para os países que desejam progredir na era da globalização.
Já em novembro de 2007, quando as nuvens de tempestade estavam
rapidamente se agrupando nos mercados financeiros internacionais, Richard
Portes, proeminente economista de formulação de políticas econômicas
britânico, e Fridrik Baldursson, professor islandês, declararam solenemente em
um relatório para a Câmara do Comércio da Islândia que “no geral, a
internacionalização do setor financeiro islandês é uma extraordinária história
de sucesso da qual os mercados devem tomar mais conhecimento”.[78] Para
algumas pessoas, nem mesmo os recentes colapsos da Islândia, da Irlanda e da
Letônia são uma razão suficiente para abandonar uma estratégia econômica
conduzida pelo sistema financeiro. Em setembro de 2009, a Turquia anunciou
que iria implementar uma série de políticas econômicas que a transformarão
em (mais um) eixo financeiro do Oriente Médio. Até mesmo o governo da
Coreia, uma tradicional potência industrial, está implementando políticas que
visam transformar o país no eixo financeiro do Nordeste Asiático, embora o
seu entusiasmo tenha diminuído consideravelmente após o colapso da Irlanda
e de Dubai, depois do que ela estava esperando modelar o país.
Mas o verdadeiro problema é que o que os países como a Islândia e a
Irlanda estavam implementando eram apenas formas extremas da estratégia
econômica seguida por muitos países — uma estratégia de crescimento
baseada na desregulamentação financeira, que foi adotada pela primeira vez
pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido no início da década de 1980. O
Reino Unido colocou o seu programa de desregulamentação financeira em
marcha acelerada no final dessa mesma década, com a chamada
desregulamentação “Big Bang” e desde então tem se orgulhado de uma
regulamentação “leve”. Os Estados Unidos fizeram a mesma coisa abolindo a
Lei Glass-Steagall de 1933 em 1999, derrubando com isso o muro entre os
bancos de investimento e os bancos comerciais, o qual havia definido o setor
financeiro americano desde a Grande Depressão. Muitos outros países
seguiram o exemplo.
O que estava incentivando um número cada vez maior de países a adotar
uma estratégia de crescimento baseada em um sistema financeiro desregulamentado era o fato de que nesse sistema é mais fácil ganhar dinheiro
em atividades financeiras do que por meio de outras atividades econômicas, ou
é o que parecia até a crise de 2008. Um estudo realizado por dois economistas
franceses, Gérard Duménil e Dominique Lévy — um dos poucos estudos que
avaliam separadamente a taxa de lucro do setor financeiro e a do setor não
financeiro — mostra que a primeira tem sido muito mais elevada do que a
segunda nos Estados Unidos e na França durante as duas ou três últimas
décadas.[79] De acordo com esse estudo, nos Estados Unidos a taxa de lucro
das instituições financeiras era mais baixa do que as das empresas não
financeiras entre meados da década de 1960 e o final da década de 1970. No
entanto, após a desregulamentação financeira do início da década de 1980, a
taxa de lucro das instituições financeiras tem apresentado uma tendência
ascendente que varia entre 4 e 12%. A partir da década de 1980, ela tem sido
sempre significativamente mais elevada do que a das empresas não financeiras,
que tem variado entre 2 e 5%. Na França, a taxa de lucro das corporações
financeiras foi negativa entre o início da década de 1970 e meados da década de
1980 (não existem dados disponíveis para a década de 1960). Entretanto, com
a desregulamentação financeira do final da década de 1980, ela começou a
subir e ultrapassou a das empresas não financeiras no início da década de 1990,
quando ambas giravam em torno de 5%, e subiu para mais de 10% em 2001.
Em contraposição, a taxa de lucro das empresas não financeiras francesas
declinou a partir do início da década de 1990, chegando a cerca de 3% em
2001.
Nos Estados Unidos, o setor financeiro tornou-se de tal modo atraente
que até mesmo empresas industriais se tornaram essencialmente empresas
financeiras. Jim Crotty, o ilustre economista americano, calculou que a razão
entre os ativos financeiros e os ativos não financeiros de propriedade de
corporações não financeiras nos Estados Unidos aumentou de 0,4 na década
de 1970 para quase 1 no início da década de 2.000.[80] Até mesmo empresas
como a GE, a GM e a Ford — que foram um dia os símbolos do talento
industrial americano — foram “financializadas” por meio da contínua
expansão das suas subsidiárias financeiras, o que foi complementado pelo
declínio das suas atividades industriais básicas. Já no início do século XXI, a
maior parte do lucro dessas empresas industriais era proveniente das suas atividades financeiras, e não do seu segmento industrial básico. Por exemplo,
em 2003, 45% do lucro da GE era gerado pela GE Capital. Em 2004, 80% dos
lucros da GM vinham da sua subsidiária financeira, a GMAC, enquanto a Ford
Finance foi responsável pela totalidade dos lucros da Ford entre 2001 e 2003.
[81]
Armas financeiras de destruição em massa?
O resultado de tudo isso foi um extraordinário crescimento no setor
financeiro no mundo inteiro, especialmente nos países ricos. O crescimento
não tinha lugar apenas em termos absolutos. O ponto mais importante é que o
setor financeiro cresceu muito mais rápido — não, muito, muito mais rápido
— do que a economia subjacente.
De acordo com um cálculo baseado em dados do FMI de autoria de
Gabriel Palma, meu colega em Cambridge e proeminente autoridade em crises
financeiras, a razão do estoque de ativos financeiros para a produção mundial
aumentou de 1,2 para 4,4 entre 1980 e 2007.[82] O tamanho relativo do setor
financeiro foi ainda maior em muitos países ricos. Segundo esse cálculo, a
razão dos ativos financeiros para o PIB no Reino Unido chegou a 700% em
2007. A França, que frequentemente se designa um contraponto para o
capitalismo financeiro anglo-americano, não ficou muito atrás do Reino Unido
nesse aspecto; a razão dos seus ativos financeiros para o PIB é apenas
levemente mais baixa do que a do Reino Unido. No estudo há pouco
mencionado, Crotty, usando informações do governo, calcula que a razão dos
ativos financeiros para o PIB nos Estados Unidos flutuou entre 400 e 500%
entre as décadas de 1950 e 1970, mas começou a subir rapidamente a partir do
início da década de 1980 com a desregulamentação financeira, rompendo a
marca dos 900% no início da década de 2000.
Isso significava que um número cada vez maior de títulos de créditos
estavam sendo criados para cada ativo real e atividade econômica subjacente. A
criação de derivativos financeiros no mercado imobiliário, que foi uma das
principais causas da crise de 2008, ilustra muito bem esse ponto.
Nos velhos tempos, quando alguém tomava dinheiro emprestado em um
banco e comprava uma casa, o banco que concedia o empréstimo costumava ser dono do produto financeiro resultante (a hipoteca) e ponto final. No
entanto, as inovações financeiras criaram títulos negociáveis lastreados em
empréstimos hipotecários (MBSs), que reúnem até vários milhares de
hipotecas. Por sua vez, esses MBSs, às vezes até 150 deles, eram amontoados
em um título de dívida que conta com garantias lastreadas em ativos (CDO).
Depois foram criados CDOs elevados ao quadrado usando outros CDOs
como garantia. E depois foram criados CDOs ao cubo por meio da
combinação de CDOs com CDOs ao quadrado. Até mesmo CDOs mais
poderosos foram criados. Os credit default swaps (CDSs), também chamados de
swaps de crédito, foram criados para nos proteger da inadimplência nos CDOs.
E existem muito outros derivativos financeiros que formam a salada que é o
sistema financeiro moderno.
A essa altura até mesmo eu estou ficando confuso (e, ao que se constata, o
mesmo estava acontecendo com as pessoas que estavam lidando com tudo
isso), mas a questão é que os mesmos ativos subjacentes (ou seja, as casas que
faziam parte das hipotecas originais) e as atividades econômicas (as atividades
que produziam renda para os detentores das hipotecas) estavam sendo
repetidamente usados para “derivar” novos ativos. No entanto, o fato de esses
ativos gerarem os retornos esperados depende, em última análise, do fato de
essas centenas de milhares de trabalhadores e pequenos empresários que
detêm as hipotecas originais atrasarem ou não os pagamentos da sua hipoteca.
O resultado foi uma estrutura cada vez mais alta de ativos financeiros
oscilando sobre a mesma base de ativos reais (é claro que essa própria base
estava crescendo, em parte alimentada por essa atividade, mas vamos nos
abstrair disso no momento, já que o que interessa aqui é o fato de que o
tamanho da superestrutura relacionada com a base estava crescendo). Se
aumentamos a altura de uma edificação existente sem ampliar a base,
aumentamos a chance de ela tombar. Na realidade, a situação é bem pior do
que isso. À medida que o grau da “derivação” — ou a distância com relação
aos ativos subjacentes — aumenta, fica cada vez mais difícil avaliar com
precisão o preço do ativo. Desse modo, não estamos apenas adicionando
andares a um prédio existente sem alargar a base; estamos, além disso, usando
materiais de uma qualidade cada vez mais incerta nos andares superiores. É
compreensível que Warren Buffet, o financista americano conhecido pela sua abordagem prática e realista ao investimento, tenha chamado os derivativos
financeiros de “armas financeiras de destruição em massa” — bem antes que a
crise de 2008 demonstrasse a capacidade destrutiva deles.
Cuidado com a defasagem
Todas as minhas críticas até agora a respeito do desenvolvimento exagerado
do setor financeiro nas duas ou três últimas décadas não têm a intenção de
afirmar que a totalidade do sistema financeiro é uma coisa ruim. Se tivéssemos
escutado Adam Smith, que era contra as empresas de responsabilidade
limitada (ver pp. 34-48) ou Thomas Jefferson, que considerava a atividade
bancária “mais perigosa do que um exército efetivo”, as nossas economias
ainda seriam formadas pelas “fábricas satânicas” da era vitoriana, mesmo que
não necessariamente as fábricas de alfinetes de Adam Smith.
No entanto, o fato de o desenvolvimento financeiro ter sido crucial para a
expansão do capitalismo não significa que todas as formas de desenvolvimento
financeiro sejam boas.
O que torna o capital financeiro necessário para o desenvolvimento
econômico, porém potencialmente contraproducente ou até mesmo
destrutivo, é o fato de ele ter muito mais liquidez do que o capital industrial.
Suponha que você seja dono de uma fábrica e, de repente, precise de dinheiro
para comprar matéria-prima ou máquinas para atender aos pedidos
inesperados. Suponha também que você já investiu tudo o que tem na
construção da fábrica e na compra das máquinas e insumos necessários para
atender aos pedidos iniciais. Você ficará agradecido pelo fato de existirem
bancos que estão dispostos a emprestar o dinheiro para você (usando a sua
fábrica como garantia) por saber que você será capaz de gerar uma renda
adicional com esses novos insumos. Ou então suponha que você deseja vender
a metade da fábrica (digamos que para iniciar outra linha de negócio), mas
ninguém deseje comprar metade de um prédio e metade de uma linha de
produção. Nesse caso, você ficará aliviado ao saber que pode emitir ações e
vender a metade das suas. Em outras palavras, o setor financeiro ajuda as
empresas a se expandir e se diversificar por meio da sua capacidade de transformar ativos ilíquidos como prédios e máquinas em ativos líquidos como
empréstimos e ações.
Entretanto, a própria liquidez dos ativos financeiros os torna
potencialmente negativos para o restante da economia. Construir uma fábrica
leva pelo menos meses, ou até mesmo anos, enquanto acumular o know-how
necessário para construir uma empresa de nível internacional leva décadas. Em
contrapartida, os ativos financeiros podem ser deslocados e reorganizados em
questão de minutos, ou até mesmo segundos. Essa enorme defasagem criou
imensos problemas, porque o capital financeiro é “impaciente” e busca ganhos
rápidos. A curto prazo, isso gera uma instabilidade econômica, já que o capital
líquido passeia imprevisivelmente pelo mundo e de maneiras “irracionais”,
como vimos recentemente. O mais importante é que, a longo prazo, isso
conduz a um fraco crescimento da produtividade, porque os investimentos a
longo prazo são reduzidos para satisfazer o capital impaciente. O resultado
tem sido que, apesar do enorme progresso no “aprofundamento financeiro”
(ou seja, o aumento na razão entre os ativos financeiros e o PIB), o
crescimento na realidade desacelerou nos anos mais recentes.
Portanto, exatamente porque o sistema financeiro é eficiente ao reagir às
variáveis oportunidades de lucro, ele pode se tornar prejudicial para o resto da
economia. E foi esse o motivo que levou James Tobin, ganhador do Prêmio
Nobel de economia em 1981, a falar sobre a necessidade de “jogar um pouco
de areia nas rodas dos nossos mercados financeiros internacionais
excessivamente eficientes”. Com esse objetivo em mente, Tobin propôs uma
taxa sobre as transações financeiras, deliberadamente destinada a desacelerar
os fluxos financeiros. A chamada Taxa Tobin, um tabu nos círculos cultos até
recentemente, foi recentemente defendida por Gordon Brown, o ex-primeiro-
ministro britânico. Mas a Taxa Tobin não é a única maneira pela qual podemos
reduzir a velocidade da defasagem entre o sistema financeiro e a economia
real. Entre outros métodos estão dificultar as tomadas de controle hostis
(reduzindo desse modo os ganhos do investimento especulativo em ações),
proibir a venda a descoberto (a prática de vender ações que ainda não
possuímos hoje), aumentar a margem de exigências (ou seja, a proporção do
dinheiro que precisa ser pago adiantado na compra de ações) ou colocar restrições nas movimentações de capital entre os países, especialmente no caso
dos países em desenvolvimento.
Não estou dizendo com tudo isso que a defasagem da velocidade entre o
sistema financeiro e a economia real deva ser reduzida a zero. Um sistema
financeiro perfeitamente sincronizado com a economia real seria inútil. A ideia
central do sistema financeiro é exatamente o fato de ele poder se movimentar
mais rápido do que a economia real. No entanto, se o setor financeiro se
mover rápido demais, ele pode sabotar a economia real. Nas atuais
circunstâncias, precisamos reprogramar o nosso sistema financeiro para que
ele possibilite que as empresas façam esses investimentos a longo prazo no
capital físico, nas aptidões humanas e nas organizações que são, em última
análise, a fonte do desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo que confira
a eles a liquidez necessária.
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