23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
8 - O capital tem uma nacionalidade
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O capital tem uma nacionalidade
O que eles dizem
O verdadeiro herói da globalização foi a corporação transnacional. As
corporações transnacionais, como indica o seu nome, são corporações que
transcenderam as suas fronteiras originais. Elas podem ainda ter a matriz no
país onde foram fundadas, mas grande parte da sua produção e de instalações
de pesquisa está fora do seu país natal, e elas empregam pessoas, entre elas
muitos dos principais tomadores de decisão, no mundo inteiro. Nesta era do
capital desprovido de uma nação, as políticas nacionalistas com relação ao
capital estrangeiro são, na melhor das hipóteses, ineficazes, e na pior delas,
contraproducentes. Se o governo de um país discriminar as corporações
transnacionais, elas não investirão nesse país. A intenção pode ser ajudar a
economia nacional promovendo empresas nacionais, mas essas políticas na
realidade prejudicam a economia por impedir que as companhias mais
eficientes se estabeleçam no país.
O que eles não dizem
Apesar da crescente “transnacionalização” do capital, quase todas as empresas
transnacionais na realidade continuam a ser empresas nacionais com operações
internacionais, em vez de companhias genuinamente desprovidas de
nacionalidade. Elas realizam no seu país de origem a maior parte das suas
atividades básicas, como pesquisas avançadas e a definição de estratégias.
Quase todos os seus principais tomadores de decisões também são cidadãos
do país de origem da empresa. Quando precisam fechar fábricas ou reduzir
empregos, geralmente o último lugar onde fazem isso também é no país de
origem, por vários motivos políticos e, acima de tudo, econômicos. Isso
significa que o país de origem se apropria da maior parte dos benefícios de uma corporação transnacional. É claro que a nacionalidade não é a única coisa
que determina o comportamento das corporações, mas deixamos de
considerar a nacionalidade do capital ao nosso próprio risco.
Carlos Ghosn vive a globalização
Carlos Ghosn, filho de pais libaneses, nasceu em 1954 na cidade brasileira de
Porto Velho, Rondônia. Aos 6 anos de idade, mudou-se com a mãe para
Beirute, no Líbano. Depois de concluir lá o ensino médio, Ghosn foi para a
França e obteve o diploma de engenheiro em duas das instituições de maior
prestígio desse país, a École Polytechnique e a École des Mines de Paris.
Durante os dezoito anos em que trabalhou na fábrica francesa de pneus
Michelin, na qual ingressara em 1978, Ghosn adquiriu a reputação de ser um
gestor eficaz ao recuperar as operações não lucrativas da empresa na América
do Sul e ao administrar com sucesso a fusão da sua subsidiária nos Estados
Unidos com a Uniroyal Goodrich, o que duplicou o tamanho das operações da
empresa nos Estados Unidos.
Em 1996, Ghosn ingressou na Renault, empresa estatal francesa fabricante
de automóveis, e desempenhou nela um papel fundamental ao renovar a
empresa, o que confirmou a sua reputação de implacável redutor de custos e
lhe conquistou o apelido de “matador de custos”, embora a sua abordagem
efetiva fosse mais consensual do que o nome sugere. Quando a Renault
comprou a Nissan, a fabricante de automóveis japonesa deficitária, em 1999,
Ghosn foi enviado ao Japão para recuperar a Nissan. No início, ele enfrentou
uma intensa resistência devido à sua maneira não japonesa de administrar,
como a demissão de trabalhadores, mas em poucos anos ele recuperou
completamente a empresa. A partir de então, ele passou a ser de tal maneira
aceito pelos japoneses que se tornou até mesmo personagem de um mangá
(revista de história em quadrinhos), o equivalente japonês da beatificação pela
Igreja Católica. Em 2005, ele voltou a surpreender o mundo ao voltar para a
Renault como CEO e presidente, enquanto permanecia como um cochairman
da Nissan — façanha que alguns comparam a ser técnico de dois times de
futebol ao mesmo tempo.
A história da vida de Carlos Ghosn resume o drama que é a globalização.
As pessoas emigram em busca de uma vida melhor, às vezes literalmente para
o outro lado do mundo, como no caso da família de Ghosn. Alguns dos
imigrantes, como a mãe de Ghosn, voltam para casa. Este é um enorme
contraste com os dias em que, por exemplo, os imigrantes italianos nos
Estados Unidos se recusavam a ensinar italiano aos filhos, pois estavam
extremamente determinados a não voltar para a Itália e queriam que os filhos
fossem totalmente assimilados. Atualmente, muitos jovens inteligentes e
ambiciosos de países mais pobres vão estudar em países mais ricos, como fez
Ghosn. Hoje em dia, muitos administradores trabalham para uma empresa
estabelecida em um país estrangeiro, o que não raro significa viver e trabalhar
em outro país estrangeiro (ou em outros dois) porque a companhia é
transnacional. Ghosn, um brasileiro libanês cuja mãe imigrante voltou com ele
para o país de origem, trabalhou no Brasil, nos Estados Unidos e no Japão
para duas empresas francesas.
Neste mundo globalizado, diz o argumento, a nacionalidade do capital não
tem sentido. As corporações podem ter começado e ainda ter a sua sede em
um determinado país, mas elas escaparam das suas fronteiras nacionais. Elas
hoje têm as suas atividades onde o retorno é maior. Por exemplo, a Nestlé, a
gigante suíça do setor de alimentos, pode ter a sua sede na cidade suíça de
Vevey, mas menos de 5% da sua produção é fabricada na Suíça. Mesmo se
considerarmos o “lar” da Nestlé como sendo a Europa, e não a Suíça, a sua
base domiciliar será responsável apenas por 30% da sua receita. Não são
apenas as atividades de qualidade relativamente inferior como a produção que
as corporações transnacionais estão realizando fora do seu país de origem.
Hoje em dia, até mesmo atividades de ponta como a de P&D estão localizadas
fora do país de origem — progressivamente nos países em desenvolvimento,
como a China e a Índia. Até mesmo os principais executivos são buscados,
como Ghosn, em uma concentração internacional de talentos, e não em uma
fonte exclusivamente nacional.
A consequência é que as empresas não têm mais uma lealdade nacional.
Uma empresa fará o que tiver que fazer a fim de aumentar o seu lucro, mesmo
que isso signifique prejudicar o seu país natal fechando fábricas, reduzindo
drasticamente os empregos ou até mesmo contratando trabalhadores estrangeiros. Tendo isso em vista, argumentam muitas pessoas, é imprudente
colocar restrições à propriedade estrangeira das empresas, como alguns
governos costumavam fazer. Desde que a empresa gere riqueza e empregos
dentro das suas fronteiras, o país não deve se importar com o fato de ela ser de
propriedade dos seus cidadãos ou de estrangeiros. Quando todas as grandes
empresas estiverem prontas para se mudar para qualquer lugar em busca de
oportunidades de lucro, dificultar o investimento das empresas estrangeiras
significa que o seu país não irá se beneficiar das empresas estrangeiras que
identificaram boas perspectivas de investimento no seu país. Tudo isso faz
sentido, não faz?
Chrysler — americana, alemã, americana (novamente) e (se tornando) italiana
Em 1998, a Daimler-Benz, a empresa de automóveis alemã, e a Chrysler, a
fabricante de automóveis americana, se associaram. Na realidade, a Daimler-
Benz adquiriu o controle da Chrysler. Mas quando a fusão foi anunciada, ela
foi retratada como uma união de duas empresas em igualdade de condições. A
nova companhia, a Daimler-Chrysler, tinha até mesmo um igual número de
alemães e americanos no conselho administrativo. No entanto, isso só
aconteceu nos primeiros anos. Logo, os alemães excederam em muito o
número de americanos no conselho — geralmente de dez a doze para apenas
um ou dois americanos, dependendo do ano.
Infelizmente, a incorporação não foi um grande sucesso, e em 2007 a
Daimler-Benz vendeu a Chrysler para a Cerberus, um fundo privado de ações
americano. A Cerberus, por ser uma empresa americana, compôs o conselho
diretor da Chrysler principalmente com americanos (com alguma
representação da Daimler, que ainda tinha uma participação de 19,9%).
Ao que se revelou, a Cerberus não conseguiu recuperar a empresa e a
Chrysler foi à falência em 2009. Ela foi reestruturada com a ajuda financeira
do governo federal dos Estados Unidos e com um grande investimento de
capital da Fiat, a fabricante de automóveis italiana. Quando a Fiat se tornou a
principal acionista, ela nomeou Sergio Marchionne, o CEO da Fiat, também o
novo CEO da Chrysler e nomeou outro executivo da Fiat para fazer parte do
conselho diretor da Chrysler composto por nove membros. Tendo em vista que a Fiat só tem 20% de participação no momento mas tem a opção de
aumentá-la para 35% e, com o tempo, para 51%, é altamente provável que a
proporção de italianos no conselho aumente com o tempo, com o aumento da
participação do controle acionário da Fiat.
Desse modo, a Chrysler, uma das empresas americanas por excelência, veio
a ser, na última década, administrada por alemães, americanos (novamente) e
(cada vez mais) por italianos. Não existe algo como “capital sem
nacionalidade”. Quando o controle é tomado por uma empresa estrangeira, até
mesmo poderosas companhias (ex-)americanas acabam sendo geridas por
estrangeiros (entretanto, se pararmos para pensar, é exatamente isso o que
significa a aquisição do controle de uma empresa). Na maioria das empresas,
por mais transnacionais que as suas operações possam parecer, os principais
tomadores de decisão continuam a ser os cidadãos do país natal — ou seja, o
país onde reside o controle acionário — apesar do fato de que a gestão a longa
distância (quando a empresa compradora não envia executivos de alto nível
para a empresa adquirida) pode reduzir a eficiência da gestão, ao passo que
enviar altos executivos para o país estrangeiro é dispendioso, especialmente
quando as distâncias física e cultural entre os dois países são grandes. Carlos
Ghosn é em grande medida a exceção que comprova a regra.
Não é somente no que diz respeito à indicação dos principais tomadores
de decisão que as corporações têm uma “predisposição patriótica”. Essa
predisposição também é muito forte na área de pesquisa e desenvolvimento,
que situa-se no âmago do vigor competitivo das empresas nas indústrias mais
avançadas. A maior parte das atividades de P&D das corporações permanece
no país de origem. Quando são transferidas para o exterior, em geral o são
para outros países desenvolvidos, e mesmo assim com uma tendenciosidade
“regional” (com regiões aqui querendo se referir à América do Norte, à
Europa e ao Japão), que nesse sentido é em si uma região). Recentemente, um
crescente número de centros de P&D foi instalado em países em
desenvolvimento, como a China e a Índia, mas a P&D que eles conduzem
tendem a se situar nos níveis mais baixos de sofisticação.
Até mesmo sob o aspecto da produção, possivelmente a coisa mais fácil
que as empresas fazem e, por conseguinte, o candidato mais provável a ser
transferido para o exterior, a maioria das corporações transnacionais ainda está firmemente estabelecida no seu país natal. Existem exemplos ocasionais de
empresas, por exemplo a Nestlé, que fabrica no exterior a maior parte da sua
produção, mas elas são em grande medida a exceção. Entre as corporações
transnacionais estabelecidas nos Estados Unidos, menos de um terço da
produção das empresas industriais é produzido no exterior. No caso das
empresas japonesas, o percentual está bem abaixo de 10%. Na Europa, o
percentual subiu rápido recentemente, mas a maior parte da produção de
empresas europeias situa-se dentro da União Europeia, de modo que isso deve
ser interpretado mais como um processo de criação de empresas nacionais
para uma nova nação chamada Europa do que um processo de empresas
europeias se tornando verdadeiramente transnacionais.
Em resumo, poucas corporações são de fato transnacionais. A vasta
maioria delas ainda fabrica o grosso da sua produção no país de origem.
Especialmente no que diz respeito a atividades de qualidade superior como a
tomada de decisões estratégicas e a P&D de produtos avançados, elas
permanecem firmemente centradas no país natal. A conversa a respeito de um
mundo sem fronteiras é extremamente exagerada.[26]
Por que existe uma tendenciosidade para o país de origem?
Por que existe uma tendenciosidade para o país de origem neste mundo
globalizado? A visão do livre mercado é que a nacionalidade do capital não
importa, e não deveria importar, porque as empresas tendem a maximizar o
lucro a fim de sobreviver e, portanto, esse patriotismo é um luxo ao qual elas
não podem se permitir. Curiosamente, muitos marxistas concordariam com
isso. Eles também acreditam que o capital destrói de bom grado as fronteiras
nacionais pra obter maiores lucros e para a reprodução expandida de si
mesmo. A linguagem é radicalmente diferente, mas a mensagem é a mesma —
dinheiro é dinheiro, então por que uma empresa deveria fazer coisas menos
lucrativas porque são boas para o seu país natal?
Não obstante, existem bons motivos pelos quais as empresas agem com
tendenciosidade para o seu país natal. Para começar, como quase todos nós, os
altos executivos sentem que têm certas obrigações pessoais para com a
sociedade da qual procedem. Eles podem pensar nessas obrigações de muitas maneiras diferentes — patriotismo, espírito comunitário, noblesse oblige ou
querer “restituir alguma coisa à sociedade que fez deles o que são hoje” — e
senti-las em graus diferentes. Mas a questão é que eles sentem essas
obrigações. E na medida em que a maioria dos principais tomadores de
decisão na maioria das empresas é constituída por cidadãos do país de origem
delas, certamente as suas decisões conterão alguma tendenciosidade para o seu
país natal. Embora os economistas que defendem o livre mercado descartem
qualquer outro motivo a não ser o puro egoísmo, os motivos “morais” são
reais e muito mais importantes do que eles nos induzem a acreditar.
Além desses sentimentos pessoais dos executivos, as empresas geralmente
têm obrigações históricas para com o país no qual “cresceram”. As empresas,
em especial (embora não exclusivamente) nos primeiros estágios do seu
desenvolvimento), com frequência são respaldadas por dinheiro público, direta
e indiretamente. Muitas delas recebem subsídios diretos para tipos específicos
de atividades, como o investimento em equipamento ou o treinamento de
trabalhadores. Elas às vezes até mesmo são salvas pelo dinheiro público, como
a Toyota foi em 1949, a Volkswagen em 1974 e a GM em 2009. Ou então elas
podem receber subsídios indiretos na forma de proteção tarifária ou direitos
de monopólio regulamentares.
É claro que as empresas não raro deixam de mencionar, e até mesmo
efetivamente ocultam, essa história, mas existe um entendimento tácito entre
as partes relevantes de que as empresas têm algumas obrigações morais para
com o seu país natal por causa dessas dívidas históricas. É por isso que as
empresas nacionais são muito mais abertas a sofrer persuasão moral do
governo e do público do que as empresas estrangeiras, quando é esperado que
façam alguma coisa pelo país contra os seus interesses (pelo menos a curto
prazo), embora não possam ser legalmente obrigadas a fazê-lo. Por exemplo,
foi relatado em outubro de 2009 que o órgão financeiro fiscalizador da Coreia
do Sul estava achando impossível convencer os bancos estrangeiros a
emprestar mais dinheiro para empresas de pequeno e médio porte, embora
esses bancos, à semelhança dos bancos nacionais, já tivessem assinado um
MOU (memorando de entendimento) a respeito disso com o órgão, quando a
crise financeira global irrompeu no outono de 2008.
Embora as razões morais e históricas sejam importantes, o motivo mais
importante para a tendenciosidade para o país natal é, de longe, econômico —
o fato de que os recursos essenciais de uma empresa não podem ser facilmente
transportados através da fronteira.
Em geral, as empresas se tornam transnacionais e se instalam em países
estrangeiros porque possuem algumas competências tecnológicas e/ou
organizacionais que as empresas que atuam no país anfitrião não possuem.
Essas competências estão geralmente personificadas em pessoas (p. ex.,
gerentes, engenheiros, trabalhadores especializados), organizações (p. ex.,
regras internas da empresa, rotinas organizacionais, “memória institucional”) e
redes de empresas relacionadas (p. ex., fornecedores, financeiras, associações
industriais ou até mesmo redes de influências que transcendem os limites da
empresa), e nada disso pode ser facilmente transportado para outro país.
Quase todas as máquinas podem ser removidas facilmente para o exterior,
mas é muito mais dispendioso transferir trabalhadores especializados e
gerentes. É mais difícil transplantar rotinas organizacionais ou redes
empresariais para outro país. Quando as empresas de automóveis japonesas
começaram a estabelecer subsidiárias no Sudeste Asiático na década de 1980,
por exemplo, elas pediram aos seus subcontratantes que também
estabelecessem as suas próprias subsidiárias, pois elas precisavam de
subcontratantes confiáveis. Além disso, esses recursos intangíveis
personificados nas pessoas, organizações e redes com frequência precisam ter
o ambiente institucional adequado (o sistema jurídico, as regras informais, a
cultura empresarial) para poder funcionar bem. Por mais poderosa que uma
empresa possa ser, ela não pode transportar o seu ambiente institucional para
outro país.
Por todas essas razões, as atividades mais sofisticadas que requerem níveis
elevados de competência humana e organizacional, além de um ambiente
institucional propício, tendem a permanecer em casa. As tendenciosidades
patriotas não existem simplesmente por causa de apegos emocionais ou razões
históricas. A sua existência tem sólidas bases econômicas.
O “príncipe das trevas” muda de opinião Lord Peter Mandelson, o vice-primeiro ministro de facto do governo do Reino
Unido na ocasião em que escrevo estas linhas (início de 2010), tem uma certa
reputação devido à sua política maquiavélica. Neto do altamente respeitado
político do Partido Trabalhista Herbert Morrison, e produtor de televisão por
profissão, Mandelson foi o principal relações públicas por trás da ascensão do
chamado Novo Partido Trabalhista representado por Tony Blair. A sua famosa
capacidade de sentir e tirar partido de mudanças na atmosfera política e
organizar da maneira apropriada uma eficaz campanha da mídia, aliada à sua
brutalidade, conquistou-lhe o apelido de “príncipe das trevas”.
Depois de uma carreira influente, porém turbulenta, prejudicada por duas
renúncias causadas por escândalos de suspeita de corrupção, Mandelson
abandonou a política britânica e se mudou para Bruxelas para se tornar
Comissário Europeu do Comércio em 2004. Projetando-se a partir da imagem
de um político favorável aos negócios, adquirida durante o breve período em
que foi o Secretário de Estado do Comércio e Indústria do Reino Unido em
1998, Mandelson consolidou a firme reputação de um dos principais
defensores mundiais do livre comércio e investimento.
Assim, quando Mandelson, que fizera uma reaparição inesperada na
política britânica e se tornara Secretário de Estado para Negócios no início de
2009, declarou em uma entrevista para o Wall Street Journal em setembro de
2009 que, devido à atitude tolerante da Grã-Bretanha com relação à
participação estrangeira, “o setor industrial da Grã-Bretanha poderia ser
prejudicado”, embora ele tenha acrescentado que isso ocorreria “ao longo de
um extenso período, certamente não da noite para o dia”.
Teria sido isso uma típica excentricidade de Mandelson, cujo instinto estava
lhe dizendo que estava na hora explorar a questão nacionalista? Ou ele
finalmente começou a entender algo que ele e outros estrategistas políticos
britânicos deveriam ter percebido há muito tempo, ou seja, que o excesso de
participação estrangeira na economia nacional pode ser nocivo?
Alguém poderá argumentar que o fato de as empresas terem uma
tendenciosidade para o país natal não significa necessariamente que os países
devam impor restrições ao investimento estrangeiro. É bem verdade que,
considerando-se a tendenciosidade patriótica, o investimento da parte de uma
empresa estrangeira talvez não seja a mais desejável das atividades, mas um investimento é um investimento e ainda assim aumentará a produção e gerará
empregos. Se forem impostas restrições ao que os investidores estrangeiros
podem fazer — por exemplo, dizendo a eles que não podem investir em
determinadas indústrias “estratégicas”, proibindo-os de ter uma participação
majoritária ou exigindo que transfiram tecnologias — eles simplesmente irão
investir em outro lugar e o país perderá os empregos e a riqueza que esses
investidores teriam criado. Especialmente no caso dos países em
desenvolvimento, que não têm muitas empresas nacionais capazes de fazer
investimentos semelhantes, muitas pessoas acham que rejeitar o investimento
estrangeiro por ser estrangeiro é francamente irracional. Mesmo que recebam
apenas atividades de baixa qualidade como a operação de montagem, esses
países ficarão em melhor situação com o investimento estrangeiro do que sem
ele.
Esse tipo de raciocínio isolado está correto, mas existem mais questões que
precisam ser consideradas antes de concluirmos que não deve haver restrições
ao investimento estrangeiro (neste caso, colocamos de lado o investimento de
portfólio, que é o investimento em ações da empresa para a obtenção de
ganhos financeiros sem um envolvimento na gestão direta, e nos
concentramos no investimento estrangeiro direto, que é geralmente definido
como a aquisição de mais de 10% das ações de uma empresa com a intenção
de ter um envolvimento na gestão).
Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que grande parte do
investimento estrangeiro é formado pelo que é conhecido como “investimento
brownfield”, ou seja, a aquisição de empresas existentes por uma empresa
estrangeira, em vez de um “investimento greenfield”, que envolve o
estabelecimento de novas instalações de produção por uma empresa
estrangeira. A partir da década de 1990, os investimentos brownfield têm sido
responsáveis por mais da metade dos investimentos estrangeiros diretos no
mundo (FDI — Foreign Direct Investment), chegando a alcançar 80% em
2001, no auge do boom das fusões e aquisições internacionais (M&A). Isso
significa que a maioria dos FDI envolve a tomada do controle de empresas
existentes em vez da criação de uma nova produção e empregos. Sem dúvida,
os novos donos poderão introduzir melhores recursos administrativos e
tecnológicos, e recuperar uma empresa que esteja com problemas — como vimos no caso da Nissan durante a gestão de Carlos Ghosn — mas é muito
comum que essa aquisição seja feita com a ideia de utilizar os recursos já
existentes na empresa adquirida e não de criar novos recursos. Além disso, o
que é ainda mais importante, depois que a empresa nacional é adquirida por
uma estrangeira, a tendenciosidade patriótica desta última fixará a longo prazo
um teto com relação a quanto a empresa adquirida irá progredir na hierarquia
interna da empresa que adquiriu o controle.
Mesmo no caso dos investimentos greenfield, a tendenciosidade para o país
de origem é um fator a ser considerado. De fato os investimentos greenfield
criam um potencial produtivo, de modo que, por definição, são melhores que a
alternativa, ou seja, nenhum investimento. No entanto, a questão que os
elaboradores de políticas precisam considerar antes de aceitar esses
investimentos é como eles irão afetar a trajetória futura da sua economia
nacional. Diferentes atividades têm potenciais distintos para a inovação
tecnológica e o crescimento da produtividade, de modo que o que você faz
hoje influenciará o que você estará fazendo no futuro e o que irá obter. Um
ditado popular entre os especialistas da política industrial americana na década
de 1980 era que “não podemos fingir que não importa se produzimos batata
frita, lascas de madeira ou microchips”.[27] E é mais provável que uma
empresa estrangeira produza batata frita ou lascas de madeira do que
microchips no outro país.
Desse modo, especialmente no caso dos países em desenvolvimento, cujas
empresas nacionais ainda estão pouco desenvolvidas, pode ser melhor
restringir os FDI, pelo menos em algumas indústrias, e tentar fortalecer
empresas nacionais para que se tornem alternativas aceitáveis para as
companhias estrangeiras. Isso fará com que o país perca alguns investimentos
a curto prazo, mas poderá possibilitar que ele tenha atividades mais avançadas
dentro das suas fronteiras a longo prazo. Ou, o que é ainda melhor, o país em
desenvolvimento pode permitir o investimento estrangeiro em condições que
ajudem o país a modernizar mais rápido os recursos das empresas nacionais —
exigindo, por exemplo, empreendimentos conjuntos (o que promoverá a
transferência de técnicas administrativas), exigindo uma transferência de
tecnologia mais ativa ou determinando o treinamento dos trabalhadores.
No entanto, dizer que é provável que o capital estrangeiro seja menos
favorável ao seu país do que o capital nacional não é o mesmo que dizer que
devemos sempre preferir o capital nacional ao capital estrangeiro. Isso
acontece porque a nacionalidade não é a única coisa que determina o
comportamento do capital. A intenção e o potencial do capital em questão
também são importantes.
Suponhamos que você esteja pensando em vender uma empresa de
automóveis nacional que esteja em dificuldades. De preferência, você tem
interesse em que o novo dono esteja disposto e tenha a capacidade de
modernizar a empresa a longo prazo. É mais provável que o comprador em
perspectiva tenha os recursos tecnológicos para fazer isso se ele for um
fabricante de automóveis já estabelecido, nacional ou estrangeiro, e não se
tratar de capital financeiro, como um fundo privado de ações.
Em anos recentes, os fundos de ações privados têm desempenhado um
papel cada vez mais importante nas aquisições corporativas. Embora não
tenham nenhuma experiência interna de indústrias específicas, eles podem,
teoricamente, adquirir uma empresa pensando em ficar com ela por um longo
prazo e contratar especialistas da indústria como gerentes e pedir a eles que
modernizem os recursos. Entretanto, na prática, esses fundos geralmente não
têm nenhuma intenção de modernizar a empresa adquirida a longo prazo. Eles
compram empresas com a ideia de vendê-las de três a cinco anos depois de
reestruturá-las e torná-las lucrativas. Essa reestruturação, considerando-se o
horizonte cronológico, em geral envolve cortar custos (especialmente
demitindo trabalhadores e abstendo-se de fazer investimentos a longo prazo),
em vez de aumentar os recursos. Essa reestruturação provavelmente
prejudicará as perspectivas a longo prazo da empresa por enfraquecer a sua
capacidade de gerar um crescimento produtivo. Nos piores casos, os fundos de
ações privados podem adquirir empresas com a intenção explícita de fazer o
despojamento do ativo fixo, vendendo os ativos valiosos da empresa sem
pensar no seu futuro a longo prazo. O que a hoje notória Phoenix Venture
Holdings fez com a fabricante de automóveis britânica Rover, que eles haviam
comprado da BMW, é um exemplo clássico disso (os chamados “Phoenix
Four” se tornaram particularmente notórios por pagar enormes salários a si
mesmos e exorbitantes honorários de consultoria aos seus amigos).
É claro que isso tampouco quer dizer que as empresas que já estão atuando
na indústria sempre terão a intenção de modernizar a companhia adquirida.
Quando a GM comprou uma série de empresas de automóveis estrangeiras
menores — como a Saab sueca e a Daewoo coreana — na década que
antecedeu a sua falência em 2009, a intenção dela era viver à custa das
tecnologias acumuladas por essas empresas, em vez de modernizá-las. Além
disso, recentemente, a distinção entre capital industrial e capital financeiro se
tornou indefinida, com empresas industriais como a GM e a GE tendo mais
lucros na área financeira do que na industrial, de modo que o fato de a
empresa que faz a aquisição operar em uma indústria particular não garante
que ela vá se comprometer a longo prazo com essa indústria.
Assim, se uma empresa estrangeira que opera na mesma indústria estiver
comprando a sua companhia nacional com um sério comprometimento a
longo prazo, vendê-la para essa empresa poderá ser melhor do que vendê-la
para o fundo privado de ações do seu país. Entretanto, com outras coisas
sendo iguais, a probabilidade é que a empresa nacional vá agir de uma maneira
mais favorável para a economia nacional.
Portanto, apesar da retórica da globalização, a nacionalidade da empresa
continua a ser uma chave para a decisão de onde estarão localizadas as suas
atividades de qualidade superior, como as de P&D e definição de estratégias. A
nacionalidade não é o único determinante do comportamento da empresa, de
modo que precisamos levar em conta outros fatores, como se o investidor tem
um histórico na indústria em questão e se o seu comprometimento a longo
prazo com a empresa adquirida é realmente forte. Embora uma rejeição cega
do capital estrangeiro seja errada, seria muito ingênuo projetar políticas
econômicas com base no mito que o capital não tem mais raízes nacionais.
Afinal de contas, constata-se que as restrições posteriores de Lord Mandelson
têm uma substancial base na realidade.
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