23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
12 - Os governos são capazes de fazer boas escolhas
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Os governos são capazes de fazer boas escolhas
O que eles dizem
Os governos não têm as informações e o know-how necessários para tomar
decisões comerciais inteligentes e “escolher os vencedores” por meio da
política industrial. Na verdade, os tomadores de decisões dos governos estão
propensos a escolher alguns notáveis perdedores, considerando-se que eles são
mais motivados pelo poder do que pelo lucro e não têm que arcar com as
consequências financeiras das decisões que tomam. Especialmente quando o
governo tenta contrariar a lógica do mercado e promover indústrias que estão
além dos recursos e da capacidade do seu país, os resultados são desastrosos,
como é comprovado pelos projetos de “elefantes brancos”, abundantes nos
países em desenvolvimento.
O que eles não dizem
Os governos são capazes de fazer boas escolhas, às vezes escolhas
espetaculares. Se olharmos em volta com a mente aberta, veremos muitos
exemplos no mundo inteiro de governos que fizeram escolhas bem-sucedidas.
O argumento de que as decisões do governo que afetam as empresas
comerciais certamente serão inferiores às decisões tomadas pelas próprias
empresas é injustificável. Ter informações mais detalhadas não garante
melhores decisões; na realidade, pode ser mais difícil tomar a decisão certa
quando estamos envolvidos demais com a situação. Além disso, existem
maneiras pelas quais o governo pode obter melhores informações e melhorar a
qualidade das suas decisões. Além do mais, decisões que são boas para
empresas individuais podem não ser boas para a economia nacional como um
todo. Por conseguinte, o fato de o governo escolher vencedores contrariando
os sinais do mercado pode melhorar o desempenho econômico nacional, especialmente se isso for feito em estreita (porém não excessiva) colaboração
com o setor privado.
A pior proposta de negócio da história humana
Dizem que Eugene Black, o presidente que ocupou o cargo por mais tempo
na história do Banco Mundial (1949-1963), criticou os países em
desenvolvimento pelo fato de se fixarem em três totens — a rodovia, a usina
siderúrgica integrada e o monumento do chefe de estado.
O comentário do Sr. Black a respeito do monumento talvez tenha sido
injusto (muitos líderes políticos dos países em desenvolvimento na época não
eram propensos à autoexaltação), mas ele estava certo ao se preocupar com a
então difundida tendência de empreender projetos grandiosos, como rodovias
e usinas siderúrgicas, independentemente da sua viabilidade econômica. Na
época, inúmeros países em desenvolvimento construíram rodovias que
permaneceram vazias e siderúrgicas que só sobreviveram à custa de
gigantescos subsídios do governo e proteção tarifária. Expressões como
“elefante branco” ou “castelo no deserto” foram inventadas nesse período
para descrever esses projetos.
No entanto, de todos os castelos no deserto em potencial, o plano da
Coreia do Sul de construir uma usina siderúrgica integrada, concebido em
1965, foi um dos mais excêntricos.
Na época, a Coreia era um dos países mais pobres do mundo, e sobrevivia
baseada na exportação de recursos naturais (p. ex., peixe, minério de
tungstênio) ou de produtos fabricados com mão de obra intensiva (p. ex.,
perucas feitas com cabelo humano, roupas baratas). De acordo com a teoria
aceita do comércio internacional, conhecida como “teoria da vantagem
comparativa”, um país como a Coreia, com muita mão de obra e muito pouco
capital, não deveria estar produzindo produtos altamente dependentes de
capital, como o aço.[41]
O que era ainda pior, a Coreia nem mesmo produzia as matérias-primas
necessárias. A Suécia desenvolveu naturalmente uma indústria do ferro e do
aço porque ela tem uma grande quantidade de depósitos de minério de ferro.
A Coreia não produzia praticamente nenhum minério de ferro ou coque, os dois principais componentes da fabricação de aço moderna. Hoje em dia, eles
poderiam ter sido importados da China, mas essa era a época da Guerra Fria
quando não havia comércio entre a China e a Coreia do Sul, de modo que as
matérias-primas teriam que ser importadas de países como a Austrália, o
Canadá e os Estados Unidos — todos situados a oito ou dez mil quilômetros
de distância — o que aumentava significativamente o custo de produção.
É compreensível que o governo coreano estivesse tendo dificuldade em
convencer os possíveis doadores e financiadores das vantagens do seu plano,
embora propusesse subsidiar a usina siderúrgica de todas as maneiras possíveis
— infraestrutura gratuita (portos, rodovias, ferrovias), descontos tributários,
depreciação acelerada dos bens de capital (para que a carga tributária fosse
minimizada nos primeiros anos), tarifas de serviços públicos reduzidas e
milhares de outras coisas.
Embora as negociações com os doadores em potencial — como o Banco
Mundial e os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Alemanha
Ocidental, da França e da Itália — estivessem em andamento, o governo
coreano fez coisas que tornaram o projeto ainda menos atraente. Quando a
companhia que iria administrar a usina siderúrgica — a Pohang Iron and Steel
Company (POSCO) — foi criada em 1968, ela era uma empresa estatal (SOE -
State Owned Enterprise), apesar das difundidas preocupações com relação à
incapacidade das empresas estatais nos países em desenvolvimento. E para
completar, a empresa seria dirigida pelo Sr. Park Tae-Joon, ex-general do
exército com uma experiência mínima de alguns anos como dirigente de uma
empresa estatal de mineração de tungstênio. Até mesmo para uma ditadura
militar, isso estava indo longe demais. O país estava prestes a iniciar o maior
empreendimento empresarial da sua história, e o homem que ficaria no
comando nem mesmo era um empresário profissional!
Desse modo, os doadores em potencial estavam provavelmente diante da
pior proposta comercial da história humana — uma empresa estatal, dirigida
por um militar indicado politicamente, que iria fabricar um produto que todas
as teorias econômicas aceitas afirmavam não ser adequado ao país.
Naturalmente, o Banco Mundial recomendou aos outros possíveis doadores
que não apoiassem o projeto, e cada um deles se retirou oficialmente da
negociação em abril de 1969.
Sem se deixar abater, o governo coreano conseguiu convencer o governo
japonês a direcionar grande parte dos pagamentos da indenização que estava
fazendo devido ao seu governo colonial (1910-1945) para o projeto da usina
siderúrgica e fornecer as máquinas e a assistência técnica necessária para a
usina.
A empresa começou a produzir em 1973 e consolidou a sua presença com
extraordinária rapidez. Já em meados da década de 1980, ela era considerada
um dos fabricantes de aço de qualidade inferior mais eficazes em termos de
custo do mundo. Na década de 1990, era uma das principais siderúrgicas do
mundo. Foi privatizada em 2001, não pelo seu mau desempenho e sim por
razões políticas, e hoje é o quarto maior produtor de aço do mundo (em
quantidade de produção).
Portanto, temos um grande enigma nas mãos. Como uma das piores
propostas comerciais da história produziu um dos negócios mais bem-
sucedidos da história? Na realidade, o enigma é ainda maior, porque a POSCO
não é a única empresa coreana que foi criada por meio da iniciativa do
governo.
Ao longo dos anos 1960 e 1970, o governo coreano pressionou muitas
empresas do setor privado a formar indústrias que elas não teriam formado
espontaneamente. Isso foi feito frequentemente por meio de incentivos, como
subsídios ou proteção tarifária das importações (embora os incentivos também
fossem ameaças no sentido que seriam negados para os que tivessem um mau
desempenho). No entanto, mesmo quando todos esses incentivos não eram
suficientes para convencer os empresários envolvidos, grandes ameaças eram
feitas, como a suspensão de empréstimos dos bancos, que na época eram
completamente estatais, ou até mesmo um “bate-pato reservado” com a
polícia secreta.
Curiosamente, muitos dos empreendimentos promovidos dessa maneira
pelo governo se revelaram grandes exemplos de sucesso. Na década de 1960, o
Grupo LG, o gigante da eletrônica, foi proibido pelo governo de ingressar na
indústria têxtil que desejava e obrigado a entrar na indústria de cabos elétricos.
Ironicamente, a empresa de cabos tornou-se a base do seu negócio em
eletrônica, pelo qual a LG é hoje famosa (você saberia se tivesse desejado
comprar o último modelo do celular Chocolate). Na década de 1970, o governo coreano exerceu uma enorme pressão sobre o Sr. Chung Ju-Yung, o
lendário fundador do Grupo Hyundai, famoso pelo seu apetite por
empreendimentos arriscados, para que fundasse uma empresa de construção
naval. Dizem que até mesmo Chung hesitou inicialmente diante da ideia, mas
cedeu quando o General Park Chung-Jee, o então ditador do país e mentor do
milagre econômico da Coreia, ameaçou pessoalmente levar à falência o seu
grupo empresarial. Hoje, a empresa de construção naval Hyundai é uma das
maiores do mundo na sua especialidade.
Escolhendo perdedores?
Segundo a teoria econômica dominante do livre mercado, coisas como o
sucesso da POSCO, da LG e da Hyundai que acabo de descrever
simplesmente não deveriam acontecer. A teoria nos diz que o capitalismo
funciona melhor quando as pessoas têm liberdade para cuidar dos seus
negócios sem nenhuma interferência do governo. É argumentado que as
decisões do governo certamente serão inferiores às decisões tomadas por
aqueles que estão diretamente envolvidos com o assunto em questão. Isso
acontece porque o governo não está de posse da mesma quantidade de
informações a respeito do negócio em questão quanto à empresa que está
diretamente ligada a ele. Assim, por exemplo, se uma empresa prefere ingressar
na Indústria A e não na Indústria B, deve ser porque ela sabe que A seria mais
lucrativa que B, tendo em vista a sua capacidade e as condições do mercado.
Seria uma atitude extremamente arrogante da parte de uma autoridade do
governo, por mais competente que essa pessoa possa ser segundo um padrão
absoluto, dizer aos dirigentes da empresa que eles deveriam investir na
Indústria B, já que ela simplesmente não tem o tino comercial e a experiência
desses dirigentes. Em outras palavras, argumenta a teoria, o governo não é
capaz de fazer boas escolhas.
A situação na realidade é ainda mais extrema, afirmam os economistas que
defendem o livre mercado. Não apenas os tomadores de decisões do governo
são incapazes de fazer boas escolhas; eles estão propensos a escolher
perdedores. O mais importante é que os tomadores de decisões do governo —
os políticos e os burocratas — são impulsionados pelo desejo de maximizar o poder, e não os lucros. Por conseguinte, eles provavelmente aprovarão projetos
do tipo elefante branco que têm uma alta visibilidade e um simbolismo
político, independentemente da sua viabilidade econômica. Além disso, como
as autoridades do governo lidam com o “dinheiro de outras pessoas”, elas não
precisam realmente se preocupar com a exequibilidade econômica do projeto
que estão promovendo para mais detalhes sobre “o dinheiro de outras
pessoas”). Entre as metas erradas (prestígio em vez do lucro) e os incentivos
errados (não arcar pessoalmente com as consequências das decisões tomadas),
é quase certo que essas autoridades escolheriam perdedores, caso viessem a
interferir em assuntos de negócios. A teoria afirma que os negócios não devem
ser da competência do governo.
O exemplo mais conhecido de um governo escolher um perdedor por
causa de metas e incentivos errados é o projeto do Concorde, conjuntamente
financiado pelos governos britânico e francês na década de 1960. O Concorde
continua a ser literalmente um dos feitos mais impressionantes de engenharia
da história humana. Ainda me lembro de ter visto um dos slogans de
propaganda mais memoráveis que já encontrei, em um outdoor da British
Airways em Nova York; ele recomendava às pessoas que “chegassem antes de
você partir” voando pelo Corcorde (a travessia do Atlântico durava cerca de
três horas, enquanto a diferença de horário entre Nova York e Londres é de
cinco horas). No entanto, se levarmos em conta todo o dinheiro gasto no seu
desenvolvimento e os subsídios que os dois governos tiveram que conceder à
British Airways e à Air France até mesmo para comprar as aeronaves, o
Concorde foi um inequívoco fracasso comercial.
Um exemplo ainda mais deplorável de um governo escolher um perdedor
por estar separado da lógica do mercado é o caso da indústria aeronáutica da
Indonésia. A indústria teve início na década de 1970, quando o país era um
dos mais pobres do mundo. Essa decisão só foi tomada porque o Dr.
Bacharuddin Habibie, vice-líder do Presidente Mohammed Suharto durante
vinte anos (e presidente do país por apenas um ano, depois da queda deste
último), por acaso era engenheiro espacial e havia feito o seu treinamento e
trabalhado na Alemanha.
Mas se todas as teorias econômicas aceitas e as evidências de outros países
levam a crer que os governos estão propensos a escolher perdedores e não vencedores, como o governo coreano conseguiu fazer tantas escolhas
acertadas?
Uma explicação possível é que a Coreia é uma exceção. Qualquer que fosse
o motivo, as autoridades do governo coreano eram tão excepcionalmente
capazes, diria o argumento, que conseguiam escolher vencedores de uma
maneira que ninguém mais conseguia. No entanto, isso obrigatoriamente
implicaria que os coreanos são o povo mais inteligente da história. Na
condição de um bom coreano, eu não me importaria com uma explicação que
nos retrate em uma luz tão gloriosa, mas duvido que os não coreanos se
deixariam convencer por esse argumento (e eles estão certos —.
Na realidade, como analiso mais detalhadamente em outra parte do livro
(particularmente nas, a Coreia não é o único país no qual o governo fez
escolhas acertadas.[42] Outras economias milagrosas do Leste Asiático fizeram
o mesmo. A estratégia coreana de escolher vencedores, embora envolvendo
métodos mais agressivos, foi copiada daquela praticada pelo governo japonês.
E os governos de Taiwan e de Cingapura não tiveram um desempenho pior do
que o seu correspondente coreano, embora as ferramentas políticas utilizadas
tenham sido um tanto diferentes.
O mais importante é que não foram apenas os governos do Leste Asiático
que fizeram boas escolhas. Na segunda metade do século XX, o governo de
países como a França, a Finlândia, a Noruega e a Áustria moldaram e
conduziram o desenvolvimento industrial com grande sucesso por meio da
proteção, de subsídios e de investimentos de empresas estatais. Embora o
governo americano finja que não é verdade, ele escolheu quase todos os
vencedores industriais do país a partir da Segunda Guerra Mundial por meio
de um enorme apoio à pesquisa e desenvolvimento (P&D). As indústrias de
computador, de semicondutores, de aeronaves, da internet e de biotecnologia
foram desenvolvidas graças à P&D subsidiada pelo governo americano. Até
mesmo no século XIX e no início do século XX, quando as políticas
industriais do governo eram muito menos organizadas e eficazes do que no
final do século XX, praticamente todos os países ricos usavam tarifas,
subsídios, licenciamentos, regulamentações e outros tipos de políticas para
promover indústrias específicas em detrimento de outras, com graus
consideráveis de sucesso.
Se os governos são capazes de fazer boas escolhas com tanta regularidade,
às vezes com resultados espetaculares, você talvez tenha vontade de saber se
existe alguma coisa errada com relação à teoria econômica dominante que
afirma que isso não pode ser feito. De fato, eu gostaria de dizer que essa teoria
contém um grande número de coisas erradas.
Em primeiro lugar, a teoria pressupõe implicitamente que aqueles que
estão mais próximos da situação estarão de posse das melhores informações e,
portanto, tomarão as melhores decisões. Isso poderá parecer plausível mas, se
a proximidade com relação às situações garantisse melhores decisões,
nenhuma empresa jamais tomaria uma decisão errada. Às vezes, estar perto
demais da situação pode tornar mais difícil, em vez de mais fácil, examiná-la
objetivamente. É por esse motivo que existem inúmeras decisões de negócios
que os tomadores de decisões consideram uma obra genial e que outras
pessoas encaram com ceticismo, ou até mesmo com puro e simples desprezo.
Em 2000, por exemplo, a AOL, a empresa da internet, comprou o grupo Time
Warner. Apesar do profundo ceticismo de muitas pessoas de fora, Steve Case,
o então chairman da AOL, chamou a incorporação de uma “fusão histórica”
que iria transformar “o cenário da mídia e da internet”. Subsequentemente, a
fusão se revelou um fracasso retumbante, que levou Jerry Levin, o principal
dirigente da Time Warner na ocasião da fusão a admitir em janeiro de 2010
que ela tinha sido “o pior negócio do século”.
É claro que, ao dizer que não podemos necessariamente pressupor que a
decisão de um governo relacionada com uma empresa será pior do que uma
decisão tomada pela própria empresa, não estou negando a importância de ter
boas informações. No entanto, na medida em que essas informações são
necessárias para a sua política industrial, o governo pode tomar medidas para
garantir que terá acesso a essas informações. E de fato, os governos que têm
feito as escolhas mais acertadas tendem a ter canais mais eficazes de troca de
informações com o setor empresarial.
Uma maneira óbvia para um governo garantir o acesso a informações
vantajosas é criar uma empresa estatal e administrá-la ele mesmo. Países como
Cingapura, França, Áustria, Noruega e Finlândia recorreram intensamente a
essa solução. Em segundo lugar, o governo pode exigir legalmente que
empresas e indústrias que recebem apoio governamental informem regularmente alguns aspectos essenciais dos seus negócios. O governo coreano
fez isso meticulosamente nos anos 1970, quando estava fornecendo um forte
apoio financeiro para várias novas indústrias, como as de construção naval, de
eletrônica e as siderúrgicas. Outro método envolve recorrer a redes informais
entre autoridades do governo e as elites empresariais para que as autoridades
possam adquirir um bom conhecimento das situações empresariais, embora
contar exclusivamente com esse canal possa conduzir a uma “mentalidade de
clube” excessiva ou à corrupção pura e simples. A rede de política francesa,
construída em torno dos graduados da ENA (École Nationale
d’Administration), é o exemplo mais famoso disso, que mostra tanto os seus
aspectos positivos quanto negativos. Em um ponto intermediário entre os dois
extremos da exigência legal e as redes pessoais, os japoneses desenvolveram os
“conselhos deliberativos”, nos quais as autoridades do governo e os líderes
empresariais trocam regularmente informações por meio de canais formais, na
presença de observadores pertencentes a entidades externas como as do
mundo acadêmico ou da mídia.
Além disso, a teoria econômica dominante deixa de reconhecer que
poderia haver um conflito entre interesses comerciais e interesses nacionais.
Embora os empresários possam de um modo geral (porém não
necessariamente, como argumentei anteriormente) conhecer os seus assuntos
melhor do que as autoridades do governo e, portanto, ser capazes de tomar
decisões que atendam melhor aos interesses das suas empresas, não existe
nenhuma garantia de que as suas decisões serão boas para a economia
nacional. Assim, por exemplo, quando quiseram ingressar na indústria têxtil na
década de 1960, os dirigentes da LG estavam fazendo a coisa certa para a sua
empresa, mas ao obrigá-los a entrar na indústria de cabos elétricos, o que
possibilitou que a LG se tornasse uma empresa de eletrônica, o governo
coreano estava cuidando dos interesses nacionais da Coreia — e dos interesses
da LG a longo prazo — de uma maneira melhor. Em outras palavras, o fato de
o governo escolher vencedores pode prejudicar alguns interesses comerciais,
mas pode produzir um resultado melhor a partir do ponto de vista social.
Vencedores estão sendo escolhidos o tempo todo Até agora, relacionei muitos exemplos bem-sucedidos de governos que
fizeram escolhas acertadas e expliquei por que a teoria do livre mercado que
nega a possibilidade de que isso aconteça está repleta de buracos.
Ao fazer isso, não estou tentando deixá-lo cego para os casos de fracassos
do governo. Já mencionei a série de castelos no deserto construídos em muitos
países em desenvolvimento nas décadas de 1960 e 1970, inclusive a indústria
aeronáutica da Indonésia. No entanto, há mais coisas. Algumas tentativas do
governo de escolher vencedores fracassaram até mesmo em países que são
famosos pela sua competência nessa área, como o Japão, a França e a Coreia.
Já mencionei a malfadada incursão do governo francês no Concorde. Nos
anos 1960, o governo japonês tentou em vão promover a incorporação da
Honda, que ele considerava pequena e fraca demais, pela Nissan, porém mais
tarde foi constatado que a Honda era uma empresa muito mais bem-sucedida
do que a Nissan. O governo coreano tentou promover a indústria de fundição
do alumínio no final nos anos 1970, mas a indústria foi golpeada por um
enorme aumento nos preços da energia, a qual é responsável por uma
proporção particularmente elevada dos custos de produção do alumínio. E
esses são apenas os exemplos mais notórios.
No entanto, da mesma maneira como as histórias de sucesso não nos
permitem defender que os governos devem escolher os vencedores em todas
as circunstâncias, os fracassos, por mais numerosos que sejam, não invalidam
todas as tentativas dos governos de escolher vencedores.
Pensando bem, é natural que os governos errem ao fazer escolhas. Faz
parte da natureza das decisões empresariais que encerram riscos neste mundo
inconstante que elas frequentemente sejam inadequadas. Afinal de contas, as
empresas do setor privado tentam escolher vencedores o tempo todo,
apostando em tecnologias incertas e ingressando em atividades que outros
consideram impossíveis, e com frequência fracassam. Na realidade, exatamente
da mesma maneira pela qual nem mesmo os governos que têm o melhor
histórico de escolher vencedores conseguem fazer isso o tempo todo, nem
mesmo as empresas mais bem-sucedidas tomam as decisões certas o tempo
todo; pense no desastroso sistema Windows Vista da Microsoft (com o qual
infelizmente estou escrevendo este livro) e o embaraçoso fracasso da Nokia
com o aparelho de celular/console de video game N-Gage.
A questão não é se os governos são capazes de escolher vencedores, já que
eles obviamente são, mas como melhorar a sua “média de acertos”. E ao
contrário do que se acredita popularmente, a média de acertos dos governos
pode ser substancialmente aumentada, na presença de uma vontade política
adequada. Os países que são frequentemente associados ao sucesso na escolha
de vencedores demonstram esse ponto. O milagre taiwanês foi engendrado
pelo Partido Nacionalista do governo, que fora sinônimo de corrupção e
incompetência até ser forçado a se mudar para Taiwan depois de perder a
China continental para os comunistas em 1949. Na década de 1950, o governo
coreano era notoriamente incompetente em gestão econômica, a ponto de o
país ser descrito como um poço sem fundo pela USAID, a agência de ajuda
econômica do governo americano. No final do século XIX e início do século
XX, o governo francês era famoso pela sua relutância e incapacidade em
escolher vencedores, mas ele se tornou o campeão de escolhas acertadas na
Europa depois da Segunda Guerra Mundial.
A realidade é que vencedores estão sendo escolhidos o tempo todo tanto
pelo governo quanto pelo setor privado, mas as iniciativas conjuntas entre os
dois tendem a ser as mais bem-sucedidas. Em todos os tipos de escolhas de
vencedores — privadas, públicas, conjuntas — ocorrem sucessos e fracassos,
às vezes espetaculares. Se permanecermos cegos pela ideologia do livre
mercado que nos diz que somente as escolhas de vencedores feitas pelo setor
privado têm chance de ter êxito, acabaremos deixando de reconhecer um
enorme leque de possibilidades para o desenvolvimento econômico por meio
da liderança pública ou de iniciativas conjuntas entre o setor público e o
privado.
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