23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
13 - Tornar as pessoas ricas mais ricas não faz com que todo mundo fique rico
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Tornar as pessoas ricas mais ricas não faz com
que todo mundo fique rico
O que eles dizem
Temos que criar a riqueza antes que possamos compartilhá-la. Quer isso nos
agrade ou não, são os ricos que vão investir e criar empregos. Os ricos são
imprescindíveis tanto para reconhecer as oportunidades de mercado quanto
para explorá-las. Em muitos países, a política da inveja e as estratégias
populistas do passado colocaram restrições na criação da riqueza aplicando
elevados tributos aos ricos. Isso precisa ter um fim. Esta afirmação pode
parecer cruel, mas as pessoas pobres só podem ficar mais ricas com o tempo
se tornarmos os ricos ainda mais ricos. Quando damos aos ricos uma fatia
maior da torta, as fatias dos outros podem se tornar menores a curto prazo,
mas os pobres receberão fatias maiores em termos absolutos a longo prazo,
porque a torta ficará maior.
O que eles não dizem
A ideia que acaba de ser apresentada, conhecida como “economia trickle-down”,
tropeça no seu primeiro obstáculo. Apesar da dicotomia usual de “política pró-
ricos que estimula o crescimento” e “política pró-pobres que reduz o
crescimento”, as políticas pró-ricos têm deixado de acelerar o crescimento nas
últimas três décadas. Portanto, o primeiro passo deste argumento — ou seja, a
ideia de que dar um pedaço maior da torta para os ricos tornará a torta maior
— não se sustenta. A segunda parte do argumento — a opinião que uma
maior riqueza criada no topo com o tempo gotejará e cairá sobre os pobres —
tampouco funciona. O efeito trickle-down acontece, mas em geral o seu impacto
é muito pequeno se o deixarmos entregue ao mercado.
O fantasma de Stalin — ou será de Preobrazhensky?
Com a devastação causada pela Primeira Guerra Mundial, a economia soviética
estava em grandes apuros em 1919. Percebendo que o novo regime não tinha a
menor chance de sobreviver sem restabelecer a produção de alimentos, Lenin
lançou a Nova Política Econômica (NEP), permitindo transações de mercado
na agricultura e deixando que os camponeses ficassem com os lucros dessas
transações.
O partido bolchevista estava dividido. Na esquerda do partido,
argumentando que a NEP nada mais era do que uma regressão ao capitalismo,
estava Leon Trotsky. Ele tinha o apoio do brilhante economista autodidata
Yevgeni Preobrazhensky. Este último argumentava que para que a economia
soviética se desenvolvesse, ela precisava aumentar o investimento nas
indústrias. No entanto, argumentava Preobrazhensky, era muito difícil
aumentar esse investimento porque praticamente todo o superávit da
economia gerada (ou seja, o excedente do que era absolutamente necessário
para a sobrevivência física da população) era controlado pelos agricultores, já
que a economia era predominantemente agrícola. Por conseguinte, raciocinou
ele, a propriedade privada e o mercado deveriam ser abolidos na zona rural,
para que todo o superávit capaz de ser investido pudesse ser extraído dela pelo
governo por meio da contenção do preço dos produtos agrícolas. Esse
superávit seria então transferido para o setor industrial, onde a autoridade
planejadora poderia tomar medidas para que todo ele fosse investido. A curto
prazo, isso refrearia os padrões de vida, especialmente dos camponeses, mas a
longo prazo deixaria todo mundo em melhor situação, porque maximizaria os
investimentos e, portanto, o crescimento potencial da economia.
Os membros da direita do partido, como Josef Stalin e Nikolai Bukharin,
anteriormente amigo de Preobrazhensky e seu rival intelectual, preconizavam
o realismo. Eles argumentavam que, mesmo que não fosse muito “comunista”
permitir a propriedade privada da terra e dos animais de fazenda na zona rural,
eles não poderiam se dar ao luxo de indispor a classe camponesa, tendo em
conta a sua predominância. De acordo com Bukharin, a única escolha que
tinham era “avançar para o socialismo com um estorvo camponês”. Ao longo
da maior parte da década de 1920, a direita manteve uma posição vantajosa. Preobrazhensky foi cada vez mais marginalizado e finalmente enviado para o
exílio em 1927.
No entanto, em 1928, tudo mudou. Ao se tornar o único ditador, Stalin
roubou as ideias dos seus rivais e implementou a estratégia defendida por
Preobrazhensky. Ele confiscou terras dos kulaks, os fazendeiros ricos, e
colocou toda a zona rural sob o controle do Estado por meio da coletivização
da agricultura. As terras confiscadas aos kulaks foram transformadas em
fazendas estatais (sovkhoz), enquanto os pequenos fazendeiros foram obrigados
a ingressar em cooperativas ou fazendas coletivas (kolkhoz), com uma
participação acionária nominal.
Stalin não seguiu exatamente as recomendações de Preobrazhensky. Na
realidade ele foi brando na zona rural e não espremeu os camponeses ao
máximo. Em vez disso, impôs salários mais baixos que o de subsistência aos
operários industriais, o que por sua vez obrigou as mulheres urbanas a
ingressar na força de trabalho industrial para assegurar a sobrevivência da
família.
A estratégia de Stalin teve custos enormes. Milhões de pessoas resistiram,
ou foram acusadas de resistir, à coletivização agrícola, e acabaram em campos
de trabalhos forçados. Um colapso na produção agrícola se seguiu à expressiva
redução do número de animais de tração, em parte por eles terem sidos
mortos pelos próprios donos que previam um confisco e em parte devido à
escassez de grãos para alimentá-los graças às remessas forçadas de grãos para
as cidades. Esse colapso agrícola resultou na grave crise de inanição de 1932-
1933 na qual milhões de pessoas pereceram.
A ironia de tudo isso é que, se Stalin não tivesse adotado a estratégia de
Preobrazhensky, a União Soviética não teria sido capaz de construir a sua base
industrial a uma enorme velocidade, o que possibilitou que ela conseguisse
repelir a invasão nazista na Frente Oriental na Segunda Guerra Mundial. Se os
nazistas não tivessem sido derrotados na Frente Oriental, a Europa Ocidental
não teria sido capaz de derrotar os nazistas. Portanto, ironicamente, os
europeus ocidentais devem a liberdade de que gozam hoje a um economista
soviético de extrema esquerda chamado Preobrazhensky.
Por que estou tagarelando sem parar a respeito de um esquecido
economista marxista russo que viveu há quase um século? Porque existe uma extraordinária semelhança entre a estratégia de Stalin (ou melhor, de
Preobrazhensky) e as políticas pró-ricos de hoje defendidas pelos economistas
do livre mercado.
Capitalistas versus trabalhadores
A partir do século XVIII, a ordem feudal, pela qual as pessoas nasciam em
certas “posições” e ali permaneciam pelo resto da vida, passou a ser atacada
pelos liberais em toda a Europa. Eles argumentavam que as pessoas deveriam
ser recompensadas de acordo com as suas realizações e não com a sua origem.
É claro que se tratava de liberais da safra do século XIX, de modo que
tinham opiniões que os liberais de hoje considerariam censuráveis (com menos
intensidade pelos liberais americanos, que na Europa seriam chamados de “a
esquerda do centro”, e não de liberais). Acima de tudo, eles eram contra a
democracia. Acreditavam que dar votos aos homens pobres — as mulheres
nem mesmo eram consideradas, já que se acreditava que a faculdade mental
delas era incompleta — destruiria o capitalismo. Por que isso?
Os liberais do século XIX acreditavam que a abstinência era a chave para a
acumulação da riqueza e, portanto, do desenvolvimento econômico. Depois de
adquirir os frutos do seu trabalho, as pessoas precisavam se abster da
gratificação instantânea e investir o dinheiro, para que pudessem acumular
riqueza. Nessa visão de mundo, os pobres eram pobres porque não tinham o
caráter necessário para praticar essa abstinência. Por conseguinte, se os pobres
obtivessem o direito de voto, eles iriam querer maximizar o seu consumo na
ocasião, em vez do investimento, impondo tributos aos ricos e gastando-os.
Isso poderia deixar os pobres em melhor situação a curto prazo, mas os
deixaria em pior situação a longo prazo por reduzir os investimentos e,
portanto, o crescimento.
Na sua política antipobres, os liberais tinham o apoio intelectual dos
economistas clássicos, sendo David Ricardo, o economista britânico do século
XIX, o mais brilhante de todos eles. Ao contrário dos economistas liberais de
hoje, os economistas clássicos não viam a economia capitalista como sendo
formada por pessoas. Eles acreditavam que as pessoas pertenciam a diferentes
classes — capitalistas, trabalhadores e proprietários de terras — e se comportavam de uma maneira diferente de acordo com a sua classe. A mais
importante diferença de comportamento interclasse era considerada como
sendo o fato que os capitalistas investiam (praticamente) toda a sua renda ao
passo que as outras classes — a classe trabalhadora e a classe dos proprietários
de terra — a consumiam. Com relação à classe dos proprietários de terra, as
opiniões estavam divididas. Alguns, como Ricardo, a encaravam como uma
classe consumidora que obstruía a acumulação do capital, ao passo que outros,
como Thomas Malthus, achavam que esse consumo ajudava a classe capitalista
ao oferecer uma demanda adicional para os seus produtos. No entanto, com
relação aos trabalhadores havia um consenso. Eles gastavam toda a sua renda,
de modo que se os trabalhadores obtivessem uma parcela maior da renda
nacional, o investimento e, portanto, o crescimento econômico cairiam.
É aqui que os ardentes defensores do livre mercado como Ricardo juntam
forças com os comunistas da extrema esquerda como Preobrazhensky. Apesar
das suas aparentes diferenças, ambos acreditavam que o superávit que pode ser
investido deveria se concentrar nas mãos do investidor, da classe capitalista no
caso do primeiro e da autoridade planejadora no caso do segundo, a fim de
maximizar o crescimento econômico a longo prazo. Isso é, em última análise,
o que as pessoas têm hoje em mente quando dizem que “é preciso primeiro
criar a riqueza para depois poder redistribuí-la”.
A ascensão e queda das políticas pró-ricos
Entre o final do século XIX e o início do século XX, os piores receios dos
liberais se concretizaram, e quase todos os países da Europa e as chamadas
“ramificações ocidentais” (os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e a Nova
Zelândia) estenderam o sufrágio aos pobres (naturalmente, apenas para os
homens). No entanto, a temida tributação excessiva dos ricos e a resultante
destruição do capitalismo não aconteceu. Nas décadas que se seguiram à
introdução do sufrágio universal masculino, a tributação sobre os ricos e os
gastos sociais não aumentaram muito. Desse modo, afinal de contas, os pobres
não eram tão impacientes.
Além disso, quando a temida tributação excessiva dos ricos realmente
começou, ela não destruiu o capitalismo, na realidade, ela o tornou ainda mais forte. Depois da Segunda Guerra Mundial, houve um rápido crescimento na
tributação progressiva e nos gastos com o bem-estar social na maioria dos
países capitalistas ricos. Apesar disso (ou, mais exatamente, em parte por causa
disso), o período entre 1950 e 1973 presenciou as mais elevadas taxas de
crescimento já vistas nesses países, e ficou conhecido como a “Era de Ouro do
Capitalismo”. Antes da Era de Ouro, a renda per capita das economias
capitalistas ricas costumava ter um crescimento de 1 a 1,5% ao ano. Durante a
Era de Ouro, ela cresceu de 2 a 3% nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, 4-
5% na Europa Ocidental e 8% no Japão. Depois disso, esses países nunca mais
conseguiram crescer mais do que isso.
Quando o crescimento se desacelerou nas economias capitalistas ricas a
partir dos anos 1970, contudo, os defensores do livre mercado tiraram a poeira
da sua retórica do século XIX e conseguiram convencer outras pessoas de que
a redução na parcela da renda destinada à classe investidora era o motivo da
desaceleração.
A partir da década de 1980, em muitos desses países (embora não em
todos), governos que adotam a redistribuição ascendente da renda têm estado
no poder a maior parte do tempo. Até mesmo em alguns supostos partidos de
esquerda, como o Novo Partido Trabalhista da Grã-Bretanha liderado por
Tony Blair e o Partido Democrata Americano na presidência de Bill Clinton,
defenderam abertamente essa estratégia — com o ponto alto tendo tido lugar
quando Bill Clinton introduziu a sua reforma do bem-estar social em 1996,
declarando que queria “acabar com o bem-estar social da maneira como o
conhecemos”.
Ao que se constatou, reduzir o estado do bem-estar social se revelou mais
difícil do que se imaginara inicialmente. No entanto, o seu crescimento tem
sido moderado, apesar da pressão estrutural para o aumento dos gastos com o
bem-estar social devido ao envelhecimento da população, o que aumenta a
necessidade de pensões, auxílio-invalidez, cuidados com a saúde e outros
gastos voltados para os idosos.
O mais importante é que, na maioria dos países, muitas políticas acabaram
redistribuindo a renda dos pobres para os ricos. Houve redução tributária para
os ricos — os impostos das faixas superiores de renda foram reduzidos. A
desregulamentação financeira criou enormes oportunidades para ganhos especulativos bem como para contracheques astronômicos para os alto-
executivos e financistas. A desregulamentação em outras áreas também
possibilitou que as empresas tivessem lucros maiores, em grande parte porque
elas tiveram mais liberdade para explorar os seus poderes de monopólio, poluir
mais livremente o meio ambiente e demitir mais rapidamente os trabalhadores.
A crescente liberalização do comércio e o aumento do investimento
estrangeiro — ou pelo menos a ameaça de que isso acontecesse — também
pressionou os salários para baixo.
Como resultado, a desigualdade da renda aumentou na maioria dos países
ricos. De acordo com o Relatório sobre o Mundo do Trabalho da OIT (Organização
Internacional do Trabalho) de 2008, das vinte economias avançadas para as
quais havia informações disponíveis, a desigualdade da renda cresceu em
dezesseis países entre 1990 e 2000, e dos quatro restantes, apenas a Suíça
experimentou uma queda significativa.[43] Durante esse período, a
desigualdade da renda nos Estados Unidos, que já era, de longe, a mais elevada
do grupo dos países ricos, subiu para um nível comparável ao de alguns países
da América Latina como o Uruguai e a Venezuela. O aumento relativo da
desigualdade de renda também foi elevado em países como a Finlândia, a
Suécia e a Bélgica, mas esses eram países que anteriormente tinham níveis
muito baixos de desigualdade — talvez baixos demais no caso da Finlândia,
que tinha uma distribuição de renda mais uniforme do que muitos dos antigos
países socialistas.
De acordo com o Economic Policy Institute (EPI), o órgão de pesquisa de
centro-esquerda em Washington, DC, entre 1979 e 2006 (o último ano para o
qual existem dados disponíveis), as pessoas cujos rendimentos estão incluídos
na faixa de 1% mais elevada dos Estados Unidos mais do que duplicaram a sua
parcela da renda nacional, indo de 10% para 22,9%. Aquelas cujos
rendimentos estão na faixa superior de 0,1% tiveram um desempenho ainda
melhor, aumentando a sua participação em mais de três vezes, de 3,5% em
1979 para 11,6% em 2006.[44] Isso aconteceu principalmente por causa do
aumento astronômico nos salários dos executivos no país, cuja falta de
justificativa está se tornando cada vez mais óbvia nas consequências da crise
financeira de 2008.
A desigualdade da renda subiu nesse mesmo período em 41 do total de 65
países (países em desenvolvimento e países anteriormente socialistas) incluídos
na pesquisa da OIT anteriormente mencionada. Embora a proporção de
países que tenham experimentado uma crescente desigualdade entre eles tenha
sido menor do que nos países ricos, muitos desses países já tinham uma
desigualdade muito elevada, de modo que o impacto do aumento da
desigualdade foi ainda pior do que nos países ricos.
A água que não goteja
Toda essa redistribuição ascendente da renda poderia ter sido justificada, se
tivesse provocado um crescimento acelerado. No entanto, o fato é que o
crescimento econômico na realidade desacelerou desde o início da reforma
neoliberal pró-ricos na década de 1980. De acordo com dados do Banco
Mundial, a economia mundial costumava crescer mais de 3% em termos per
capita durante os anos 1960 e 1970, ao passo que a partir dos anos 1980 ela
passou a crescer a uma taxa de 1,4% ao ano (1980-2009).
Em resumo, desde os anos 1980, demos aos ricos uma fatia maior da nossa
torta por acreditar que eles criariam mais riqueza, tornando a torta maior do
que seria possível de outra maneira a longo prazo. Os ricos sem dúvida
receberam o pedaço maior da torta, mas eles na realidade reduziram o ritmo no
qual a torta está crescendo.
O problema é que concentrar a renda nas mãos do suposto investidor, seja
ele a classe capitalista ou a autoridade planejadora central de Stalin, não
conduz a um maior crescimento se o investidor deixar de investir mais.
Quando Stalin concentrou a renda na Gosplan, a autoridade planejadora, havia
pelo menos a garantia de que a renda concentrada seria transformada em
investimento (embora a produtividade do investimento possa ter sido
desfavoravelmente afetada por fatores como a dificuldade de planejamento e
problemas de incentivo ao trabalho —. As economias capitalistas não têm um
mecanismo desse tipo. Na realidade, apesar da crescente desigualdade desde a
década de 1980, o investimento como um coeficiente da produção nacional
caiu em todas as economias do G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino
Unido, Itália, França e Canadá) e na maioria dos países em desenvolvimento.
Até mesmo quando a redistribuição ascendente da renda cria mais riqueza
do que seria possível de outra maneira (o que, repito, não aconteceu), não
existe nenhuma garantia de que os pobres irão se beneficiar dessas rendas
adicionais. A maior prosperidade no topo poderia com o tempo gotejar (trickle-
down) e beneficiar os pobres, mas essa não é uma conclusão predeterminada.
É claro que o trickle-down não é uma ideia completamente idiota. Não
podemos avaliar o impacto da redistribuição da renda apenas em função dos
seus efeitos imediatos, por mais positivos ou negativos que estes possam
parecer. Quando as pessoas ricas têm mais dinheiro, elas podem usá-lo para
aumentar o investimento e o crescimento, em cujo caso o efeito a longo prazo
da redistribuição da renda poderá ser o crescimento no tamanho absoluto,
embora não necessariamente na parcela relativa, da renda que todo mundo
recebe.
No entanto, o problema é que o trickle-down em geral não acontece com
muita frequência se for deixado a cargo do mercado. Por exemplo, uma vez
mais, de acordo com o EPI, os 10% superiores da população americana se
apossaram de 91% do crescimento da renda entre 1989 e 2006, enquanto o
1% superior se apropriou de 59%. Em contrapartida, em países com um forte
estado do bem-estar social é muito mais fácil distribuir os benefícios do
crescimento adicional que acompanham a redistribuição ascendente da renda
(se ela acontecer) por meio de impostos e transferências. Aliás, antes dos
impostos e transferências, a distribuição da renda é na realidade mais desigual
na Bélgica e na Alemanha do que nos Estados Unidos, enquanto na Suécia e
na Holanda ela é mais ou menos a mesma que nos Estados Unidos.[45] Em
outras palavras, precisamos da bomba elétrica do estado do bem-estar social
para fazer com que a água que está em cima goteje para baixo (trickle-down) em
uma quantidade significativa.
Finalmente e igualmente importante, existem muitas razões para acreditar
que a redistribuição descendente da renda pode favorecer o crescimento, se for
feita da maneira certa na hora certa. Por exemplo, em um período de retração
econômica como o de hoje, a melhor maneira de impulsionar a economia é
redistribuir a riqueza para baixo, já que as pessoas pobres tendem a gastar uma
proporção maior da sua renda. O efeito impulsionador da economia do bilhão
de dólares adicional dado aos lares de baixa renda por meio de gastos maiores com o bem-estar social será maior do que se a mesma quantia for dada aos
ricos por meio da redução de impostos. Além disso, se os salários não
estiverem emperrados nos níveis de subsistência ou abaixo deles, a renda
adicional poderá estimular o investimento dos trabalhadores na educação e na
saúde, o que poderá elevar a sua produtividade e, portanto, aumentar o
crescimento econômico. Além disso, uma maior igualdade de renda poderá
promover a paz social ao reduzir as greves industriais e a criminalidade, o que
poderá, por sua vez, incentivar o investimento, já que reduz o perigo de
distúrbios no processo de produção e, portanto, no processo de geração da
riqueza. Muitos acadêmicos acreditam que esse mecanismo estava em ação
durante a Era de Ouro do Capitalismo, quando a desigualdade da baixa renda
coexistia com um rápido crescimento.
Vemos, portanto, que não há razão para pressupor que a redistribuição
ascendente da renda irá acelerar o investimento e o crescimento. Isso não
aconteceu de um modo geral. Mesmo quando há mais crescimento, o trickle-
down que ocorre por intermédio do mecanismo de mercado é muito limitado,
como vimos na comparação entre os Estados Unidos e outros países ricos que
têm um bom estado do bem-estar social.
O simples fato de tornarmos os ricos mais ricos não faz com que todo
mundo fique mais rico. Para que dar mais para os ricos beneficie o resto da
sociedade, os ricos terão que ser obrigados a fazer um investimento mais elevado
e assim promover um maior crescimento por meio de políticas econômicas (p.
ex., incentivos fiscais para as pessoas e corporações ricas, condicionados aos
investimentos), e depois compartilhar os frutos desse crescimento por meio de
um mecanismo como o estado do bem-estar social.
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