23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
16 - Não somos inteligentes o bastante para deixar que o mercado cuide das coisas
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Não somos inteligentes o bastante para deixar
que o mercado cuide das coisas
O que eles dizem
Devemos deixar os mercados sozinhos, porque, basicamente, os participantes
do mercado sabem o que estão fazendo — ou seja, eles são racionais. Como as
pessoas (e as empresas como ajuntamentos de pessoas que compartilham os
mesmos interesses) estão voltadas para o que é melhor para elas, e como são
elas que conhecem melhor as suas próprias circunstâncias, as tentativas de
pessoas de fora, especialmente do governo, de restringir a liberdade das suas
ações só pode produzir resultados inferiores. Qualquer governo que impeça os
agentes do mercado de fazer as coisas que consideram lucrativas ou de forçá-
los a fazer coisas que eles não querem fazer está sendo pretensioso, já que as
informações que ele possui são inferiores.
O que eles não dizem
As pessoas não sabem necessariamente o que estão fazendo, porque a nossa
capacidade de compreender até mesmo questões que dizem respeito
diretamente a nós é limitada — ou, como diz o jargão, temos uma
“racionalidade limitada”.[55] O mundo é muito complexo e a nossa capacidade
de lidar com ele é fortemente limitada. Por conseguinte, precisamos
deliberadamente restringir a nossa liberdade de escolha a fim de reduzir a
complexidade dos problemas que temos que enfrentar, e geralmente o
fazemos. Com frequência, as regulamentações do governo funcionam,
especialmente em áreas complexas como o moderno mercado financeiro, não
porque o governo tenha um conhecimento superior mas porque ele restringe
as escolhas e, portanto, a complexidade dos problemas em questão, reduzindo
assim a possibilidade de que as coisas deem errado.
Os mercados podem errar, mas...
Como foi expresso por Adam Smith na ideia da mão invisível, os economistas
que defendem o livre mercado argumentam que a beleza do livre mercado é
que as decisões das pessoas (e das empresas) isoladas se harmonizam sem que
ninguém conscientemente tente fazer isso. O que torna isso possível é que os
atores econômicos são racionais, no sentido de que conhecem melhor a sua
situação e as maneiras de melhorá-la. Admite-se que é possível que certas
pessoas sejam irracionais ou até mesmo uma pessoa geralmente racional se
comporte irracionalmente de vez em quando. No entanto, a longo prazo, o
mercado eliminará os comportamentos irracionais por meio da punição — por
exemplo, os investidores que investem “irracionalmente” em ativos
demasiadamente caros colherão um retorno baixo, o que os obrigará a ajustar
o seu comportamento ou a ser exterminados. Considerando-se isso,
argumentam os economistas defensores do livre mercado, deixar que as
pessoas decidam o que fazer é a melhor maneira de administrar a economia de
mercado.
É claro que poucas pessoas argumentariam que os mercados são perfeitos.
Até mesmo Milton Friedman admitiu que há casos em que os mercados erram.
A poluição é um exemplo clássico. As pessoas “produzem em excesso” a
poluição porque não estão pagando os custos de lidar com ela. Por
conseguinte, o que são níveis ótimos de poluição para as pessoas (ou empresas
individuais) resultam em um nível subótimo do ponto de vista social. No
entanto, os economistas que defendem o livre mercado se apressam em
ressaltar que os erros do mercado, embora teoricamente possíveis, na realidade
são raros. Além disso, argumentam eles, não raro a melhor solução para os
erros do mercado é a introdução de mais forças de mercado. Eles
argumentam, por exemplo, que a maneira de reduzir a poluição é criar um
mercado para ela — criando “direitos de emissão negociáveis”, que permitem
que as pessoas vendam e comprem os direitos de poluir de acordo com as suas
necessidades dentro de um máximo socialmente ótimo. Além disso,
acrescentam os economistas que defendem o livre mercado, os governos
também erram. Os governos podem carecer das informações necessárias para
corrigir os erros do mercado. Ou então podem ser administrados por políticos e burocratas que promovem os seus próprios interesses em vez de os
interesses nacionais. Tudo isso significa que, geralmente, os custos dos erros
do governo são maiores do que os custos dos erros do mercado que ele está
tentando (supostamente) corrigir. Por conseguinte, ressaltam os economistas
que defendem o livre mercado, a presença dos erros do mercado não justifica a
intervenção do governo.
O debate sobre a importância relativa dos erros do mercado e dos erros do
governo prossegue acalorado, e eu não vou conseguir concluí-lo aqui.
Entretanto, aqui, eu posso pelo menos assinalar que o problema do livre
mercado não acaba com o fato de que ações individualmente racionais podem
conduzir a um resultado irracional coletivo (ou seja, o erro do mercado). O
problema é que, para início de conversa, nós nem mesmo somos racionais. E
quando a suposição da racionalidade não se mantém, precisamos pensar no
papel do mercado e do governo de uma maneira muito diferente até mesmo
da estrutura do erro do mercado, a qual, afinal de contas, também pressupõe
que nós somos racionais. Vou explicar.
Se você é tão inteligente...
Em 1997, Robert Merton e Myron Scholes receberam o Prêmio Nobel de
economia pelo seu “novo método de determinar o valor de derivativos”. A
propósito, o prêmio não é um verdadeiro prêmio Nobel mas sim um prêmio
concedido pelo banco central da Suécia “em memória de Alfred Nobel”. Na
realidade, há vários anos, a família Nobel até mesmo ameaçou proibir que o
nome do seu ancestral fosse usado no prêmio, pois ele tem sido conferido
principalmente a economistas que defendem o livre mercado que não teriam
tido a aprovação de Alfred Nobel, mas essa é outra história.
Em 1998, um enorme fundo hedge chamado Long-Term Capital
Management (LTCM) estava à beira da falência, depois da crise financeira
russa. O fundo era tão grande que esperava-se que a sua falência arrastasse
todo mundo com ele. O sistema financeiro americano só conseguiu evitar o
colapso porque o Federal Reserve Board, o banco central americano, coagiu os
aproximadamente doze bancos credores a injetar dinheiro na empresa e tornar-se acionistas relutantes, obtendo o controle sobre 90% das ações. O
LTCM acabou deixando de operar em 2000.
Você acreditaria se eu lhe dissesse que Merton e Scholes faziam parte do
conselho diretor do LTCM, fundado em 1994 pelo famoso (hoje infame)
financista John Merriwether? Merton e Scholes não apenas estavam
emprestando o seu nome para a empresa em troca de um “cheque gordo”: eles
eram parceiros de trabalho e a empresa estava usando ativamente o modelo de
precificação de ativos deles.
Sem se deixar desanimar pela derrocada do LTCM, Scholes pôs-se em
campo para criar outro fundo hedge em 1999, o Platinum Grove Asset
Management (PGAM). Só podemos supor que os novos financiadores
achavam que o modelo Merton-Scholes certamente falhara em 1998 devido a
um acontecimento sui generis totalmente imprevisível — a crise russa. Afinal de
contas, ele ainda não era o melhor modelo de precificação de ativos disponível
na história da humanidade, aprovado pelo comitê Nobel?
Lamentavelmente, foi comprovado que aqueles que investiram no PGAM
estavam errados. Em novembro de 2008, o fundo praticamente abriu falência,
congelando temporariamente as retiradas dos investidores. O único consolo
que eles puderam ter foi provavelmente o fato de saber que não foram os
únicos a ser traídos pelo ganhador de um prêmio Nobel. O Grupo Trinsum,
do qual Merton, o ex-sócio de Schole, era o diretor científico, também foi à
falência em janeiro de 2009.
Há um ditado na Coreia que diz que até mesmo um macaco pode cair da
árvore. De fato, todos nós podemos cometer enganos, e um erro — mesmo
sendo gigantesco como a do LTCM — pode ser aceito como um engano. Mas
o mesmo engano duas vezes? Nesse caso, ficamos cientes de que o primeiro
engano não foi realmente engano. Merton e Scholes não sabiam o que estavam
fazendo.
Quando ganhadores do Prêmio Nobel de economia, especialmente aqueles
que receberam o prêmio pelo seu trabalho em precificação de ativos, não
conseguem interpretar o mercado financeiro, como podemos administrar o
mundo de acordo com um princípio econômico que pressupõe que as pessoas
sempre sabem o que estão fazendo e que, portanto, devem ser deixadas em
paz? Alan Greenspan, ex-chairman do Federal Reserve Board, teve que admitir em uma audiência do Congresso que fora um “erro pressupor que o
autointeresse das organizações, especificamente dos bancos, as tornavam as
entidades mais capazes de proteger os acionistas e o patrimônio nas
empresas”. O autointeresse só protegerá as pessoas se elas souberem o que
está acontecendo e como lidar com a situação.
Muitas histórias que estão surgindo da crise financeira de 2008 mostram
como as pessoas supostamente mais talentosas não entendiam realmente o que
estavam fazendo. Não estamos falando a respeito dos figurões de Hollywood,
como Steven Spielberg e John Malkovich, e nem no famoso arremessador de
beisebol Sandy Koufax, que colocaram o seu dinheiro nas mãos do fraudador
Bernie Madoff. Embora essas pessoas estejam entre as melhores do mundo no
que fazem, elas não entendem necessariamente de finanças. Estamos falando
de especialistas em administração de fundos, banqueiros de alto nível (entre
eles de alguns dos maiores bancos do mundo, como o britânico HSBC e o
espanhol Santander), e faculdades de classe internacional (a New York
University e o Bard College, que tinham acesso a alguns dos acadêmicos da
área de economia mais famosos do mundo) que também caíram no ardil de
Madoff.
O pior é que não se trata apenas de uma questão de ser enganado por
fraudadores como Madoff ou Alan Stanford. A incapacidade dos banqueiros e
de outros supostos especialistas da área de entender o que estava acontecendo
tem sido generalizada, mesmo quando se trata de assuntos financeiros
legítimos. Um deles aparentemente chocou Alistair Darling, então Ministro das
Finanças britânico, quando lhe disse o seguinte no verão de 2008: “A partir de
agora só vamos conceder empréstimos quando compreendermos os riscos
envolvidos.”[56] Outro exemplo, ainda mais impressionante, é que apenas seis
meses antes do colapso, o principal executivo financeiro da AIG, a companhia
de seguros americana resgatada pelo governo americano no outono de 2008,
Joe Cassano, supostamente teria dito que “é difícil para nós, sem parecer
petulantes, até mesmo descortinar um cenário dentro de qualquer esfera da
razão que nos mostre perdendo um único dólar em qualquer uma das
transações [swap de risco de incumprimento, ou CDS]. A maioria de vocês —
especialmente se forem contribuintes americanos que estão limpando a
bagunça do Sr. Cassano — poderá não achar essa suposta falta de petulância muito divertida, considerando-se que a AIG faliu por causa do seu fracasso no
seu portfólio de 441 bilhões de dólares de CDS, e não por causa da sua
principal atividade de seguros.
Uma vez que os ganhadores do Prêmio Nobel de economia financeira, os
grandes banqueiros, os ambiciosos administradores de fundos, as prestigiosas
faculdades e as mais talentosas celebridades demonstraram que não entendem
o que estão fazendo, como podemos aceitar teorias econômicas que só
funcionam por pressupor que as pessoas são completamente racionais? O
resultado é que simplesmente não somos talentosos o bastante para deixar o
mercado em paz.
Mas para onde vamos a partir daqui? É possível pensar em regulamentar o
mercado quando nem mesmo temos competência para deixá-lo em paz? A
resposta é sim. Na realidade, é mais do que isso. Com muita frequência,
precisamos de uma regulamentação exatamente porque não somos
suficientemente talentosos. Vou mostrar por quê.
O último Homem da Renascença
Herbert Simon, ganhador do Prêmio Nobel de economia em 1978, foi
possivelmente o último Homem da Renascença na terra. Ele começou como
cientista político e depois passou a estudar administração pública, escrevendo
o clássico livro na área, Administrative Behaviour. Apresentando ao longo do
caminho alguns trabalhos na área da física, ele passou então a estudar
comportamento organizacional, administração de empresas, economia,
psicologia cognitiva e inteligência artificial (IA). Se alguém já entendeu como
as pessoas pensam e se organizam, essa pessoa foi Simon.
Ele argumentava que a nossa racionalidade é “delimitada”. Ele não
acreditava que fôssemos inteiramente irracionais, embora ele próprio e muitos
outros economistas da escola behaviorista (bem como muitos psicólogos
cognitivos) tenham documentado de um modo convincente o quanto o nosso
comportamento é irracional.[57] De acordo com Simon, nós tentamos ser
racionais, mas a nossa capacidade de sê-lo está gravemente limitada. O mundo
é complexo demais, argumentava Simon, para que a nossa inteligência limitada
possa compreendê-lo plenamente. Isso significa que, com muita frequência, o principal problema que enfrentamos para tomar uma boa decisão não é a falta
de informações, mas sim a nossa capacidade limitada de processar essas
informações — um ponto que é belamente ilustrado pelo fato que o celebrado
advento da era da internet não parece ter melhorado a qualidade das nossas
decisões, a julgar pela confusão na qual nos encontramos hoje.
Em outras palavras, o mundo está repleto de incertezas. A incerteza a que
me refiro aqui não é apenas não saber exatamente o que vai acontecer no
futuro. Para certas coisas, podemos calcular razoavelmente a probabilidade de
cada contingência possível, embora não possamos prever o resultado exato; os
economistas chamam isso de “risco”. Na realidade, a nossa capacidade de
calcular o risco envolvido em muitos aspectos da vida humana — como a
probabilidade da morte, da doença, de incêndios, de danos, da quebra de safra
e assim por diante — é a própria base da indústria do seguro. No entanto, no
que diz respeito a muitos outros aspectos da vida, nem mesmo conhecemos
todas as possíveis contingências, sem falar nas suas respectivas probabilidades,
como foi enfatizado, entre outros, pelo perspicaz economista americano Frank
Knight e o grande economista britânico John Maynard Keynes no início do
século XX. Knight e Keynes argumentavam que o tipo de comportamento
racional que forma a base de grande parte da economia moderna é impossível
na presença desse tipo de incerteza.
A melhor explicação do conceito da incerteza — ou, em outras palavras,
da complexidade do mundo — foi apresentada, talvez surpreendentemente,
por Donald Rumsfeld, o Secretário da Defesa do primeiro mandato de George
W. Bush. Em um comunicado à imprensa relacionado com a situação no
Afeganistão em 2002, Rumsfeld opinou o seguinte: “Existem dados
conhecidos. Existem coisas que sabemos que sabemos. Existem incógnitas
conhecidas. Ou seja, existem coisas que agora sabemos que não sabemos. Mas
existem também incógnitas desconhecidas. Existem coisas que não sabemos
que não sabemos.” Não creio que aqueles na Plain English Campaign[58] que
concederam o prêmio Foot in Mouth[59] de 2003 a essa declaração
entendessem exatamente a importância dela para o nosso entendimento da
racionalidade humana.
Então o que fazer, uma vez que o mundo é tão complexo e a nossa
capacidade de entendê-lo tão limitada? A resposta de Simon foi que nós deliberadamente restringimos a nossa liberdade de escolha a fim de reduzir a
amplitude e a complexidade dos problemas com os quais temos que lidar.
Isso soa esotérico, mas se pensarmos bem, é exatamente o que fazemos o
tempo todo. Quase todos nós criamos rotinas na nossa vida para não ter que
tomar muitas decisões com excessiva frequência. A quantidade ideal de sono e
o cardápio ideal para o café da manhã diferem todos os dias, dependendo da
nossa condição física e das tarefas que temos diante de nós. No entanto, quase
todo mundo vai para cama sempre na mesma hora, acorda na mesma hora e
come coisas semelhantes no café da manhã, pelo menos nos dias de semana.
O exemplo predileto de Simon de como precisamos de algumas regras a
fim de lidar com a nossa racionalidade delimitada era o xadrez. Com apenas 32
peças e 64 casas (ou quadrados), o xadrez pode parecer uma coisa
relativamente simples, mas na realidade ele envolve uma enorme quantidade de
cálculos. Se você fosse um daqueles seres “hiper-racionais” (como Simon os
chama) que povoam os compêndios de economia convencionais, é claro que
você determinaria todas as possíveis jogadas e calcularia a probabilidade de
cada uma delas antes de fazer uma jogada. No entanto, ressalta Simon, como
existem cerca de 10120 (isso mesmo, são 120 zeros) possibilidades em um jogo
típico de xadrez, essa abordagem “racional” requer uma capacidade mental
que nenhum ser humano possui. Na realidade, ao estudar mestres de xadrez,
Simon percebeu que eles usam regras práticas (heurística) para se concentrar
em um pequeno número de jogadas possíveis, a fim de reduzir o número de
situações que precisam ser analisadas, embora as jogadas pudessem ter
produzido melhores resultados.
Se o xadrez é tão complicado, você pode imaginar o quanto as coisas são
complicadas na nossa economia, a qual envolve bilhões de pessoas e milhões
de produtos. Por conseguinte, da mesma maneira pela qual as pessoas criam
rotinas na vida do dia a dia ou nas partidas de xadrez, as empresas operam
com “rotinas produtivas”, que simplificam as suas opções e trajetórias de
busca. Elas criam certas estruturas de tomada de decisões, regras formais e
convenções que automaticamente restringem a amplitude de possibilidades
concebíveis que eles exploram, mesmo que as possibilidades assim excluídas
de imediato pudessem ter sido mais lucrativas. Mas mesmo assim, elas o
fazem, caso contrário poderiam submergir em um mar de informações e nunca tomar uma decisão. Analogamente, as sociedades criam regras informais
que deliberadamente restringem a liberdade de escolha das pessoas para que
elas não precisem fazer constantemente novas escolhas. Por conseguinte, elas
desenvolvem uma convenção para a ordem nas filas para que as pessoas não
tenham, por exemplo, que calcular e recalcular constantemente a sua posição
em um ponto de ônibus cheio a fim de garantir que entrarão no ônibus
seguinte.
O governo não precisa saber mais
Até aqui tudo bem, você poderá pensar, mas o que a teoria de Simon da
racionalidade delimitada realmente tem a dizer a respeito das regulamentações?
Os economistas que defendem o livre mercado se opõem à
regulamentação do governo alegando que este último não sabe mais do que
aqueles cujas ações são reguladas por ele. Por definição, o governo não pode
conhecer a situação da pessoa ou empresa envolvida tão bem quanto ela
própria. Considerando-se isso, argumentam eles, é impossível que os
representantes do governo possam melhorar as decisões tomadas pelos
agentes econômicos.
No entanto, a teoria de Simon demonstra que muitas regulamentações
funcionam não porque o governo necessariamente saiba mais do que quem é
regulamentado (embora às vezes isso possa acontecer), mas porque ele limita a
complexidade das atividades, o que possibilita que o regulamentado tome
decisões melhores. A crise financeira mundial de 2008 ilustra belamente este
ponto.
Nos dias que antecederam a crise, a nossa capacidade de tomar boas
decisões foi simplesmente esmagada porque foi permitido que as coisas
evoluíssem de uma maneira complexa demais por meio da inovação financeira.
Por conseguinte, foi criado um número tão grande de complexos instrumentos
financeiros, que nem mesmo os próprios especialistas da área conseguiam
compreendê-los inteiramente, a não ser que se especializassem neles — e às
vezes nem mesmo assim. Os principais tomadores de decisão das empresas de
financiamento certamente não entendiam muito a respeito dos negócios que
estavam realizando. Tampouco as autoridades reguladoras sabiam exatamente o que estava acontecendo. Como foi discutido anteriormente, estamos
presenciando agora uma enxurrada de confissões — algumas voluntárias,
outras forçadas — dos principais tomadores de decisões.
Para que possamos evitar crises financeiras semelhantes no futuro,
precisamos restringir severamente a liberdade de ação no mercado financeiro.
Os instrumentos financeiros precisam ser proibidos se não compreendermos
completamente o seu funcionamento bem como os seus efeitos tanto no resto
do setor financeiro quanto no restante de economia. Isso significará banir
muitos dos complexos derivativos financeiros cujo funcionamento e impacto
se revelaram além da compreensão até mesmo dos supostos especialistas.
Você poderá achar que estou sendo exagerado. Entretanto, é isso que
fazemos o tempo todo com relação a outros produtos, como as drogas
farmacêuticas, os carros, os produtos elétricos e muitos outros. Quando uma
companhia inventa uma nova droga, por exemplo, ela não pode ser vendida
imediatamente. Os efeitos de uma droga medicamentosa, e a reação do corpo
humano a ela, são complexos. Portanto, a droga precisa ser rigorosamente
testada para que possamos ter certeza de que os seus efeitos benéficos
claramente superam os efeitos colaterais e então permitir que ela seja vendida.
Não há nada excepcional com relação a propor que os produtos financeiros
sejam verificados antes que possam ser vendidos.
A não ser que deliberadamente restrinjamos as nossas escolhas criando
regras restritivas, simplificando desse modo o ambiente com o qual temos que
lidar, a nossa racionalidade delimitada não conseguirá lidar com a
complexidade do mundo. Não precisamos de regulamentações porque o
governo necessariamente sabe mais. Precisamos delas por reconhecer
humildemente a nossa limitada capacidade mental.
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