23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo

21 - O governo poderoso torna as pessoas mais abertas à mudança

 

21

 

O governo poderoso torna as pessoas mais

 

abertas à mudança

 

O que eles dizem

 

O governo poderoso é mau para a economia. O estado do bem-estar social

emergiu devido ao desejo dos pobres de ter uma vida mais fácil fazendo com

que os ricos paguem pelos custos dos ajustes que são constantemente exigidos

pelas forças de mercado. Quando os ricos são tributados para pagar pelo

seguro-desemprego, os cuidados com a saúde e outras medidas voltadas para o

bem-estar social dos pobres, além de tornar os pobres preguiçosos e privar os

ricos de um incentivo para criar a riqueza, isso também torna a economia

menos dinâmica. Com a proteção do estado do bem-estar social, as pessoas

não sentem a necessidade de se ajustar a novas realidades do mercado,

retardando com isso as mudanças nas suas profissões e padrões de trabalho

que são necessários para os ajustes econômicos dinâmicos. Nem mesmo temos

que invocar o fracasso das economias comunistas. Basta contemplar a falta de

dinamismo na Europa com o seu intumescido estado do bem-estar social e

compará-lo com a vitalidade dos Estados Unidos.

 

O que eles não dizem

 

Um estado do bem-estar social bem planejado pode na realidade encorajar as

pessoas a correr riscos com o seu emprego e ser mais, e não menos, abertas às

mudanças. Essa é uma das razões pelas quais existe na Europa uma demanda

menor de proteção comercial do que nos Estados Unidos. Os europeus sabem

que, mesmo que as suas indústrias fechem devido à concorrência estrangeira,

eles serão capazes de proteger o seu padrão de vida (por meio dos benefícios

do auxílio-desemprego) e receber um treinamento para outra função (com

subsídios do governo), ao passo que os americanos sabem que a perda do emprego pode significar uma enorme queda no seu padrão de vida, podendo

até mesmo representar o fim da sua vida produtiva. É por esse motivo que os

países europeus com os maiores estados do bem-estar social, como a Suécia, a

Noruega e a Finlândia, conseguiram crescer mais rápido do que os Estados

Unidos (ou com a mesma rapidez), até mesmo durante a “Renascença

Americana” pós-1990.

 

A mais antiga profissão do mundo?

 

Representantes de diferentes profissões em um país cristão estavam debatendo

qual era a mais antiga das profissões.

O médico disse: “Pensem bem. Qual foi a primeira coisa que Deus fez

com os seres humanos? Uma cirurgia. Ele criou Eva com a costela de Adão. A

medicina é a profissão mais antiga.”

“Não, isso não é verdade”, retrucou o arquiteto. “A primeira coisa que ele

fez foi construir o mundo a partir do caos. É isso que os arquitetos fazem, eles

criam a ordem a partir do caos. A nossa profissão é a mais antiga.”

O político, que estava ouvindo com paciência, deu um sorriso maroto e

perguntou: “E quem criou o caos?”

A medicina pode ou não ser a profissão mais antiga do mundo, mas é uma

das mais populares em todo o planeta. No entanto, em nenhum país ela é mais

popular do que no meu país de origem, a Coreia do Sul.

Um levantamento realizado em 2003 revelou que quase quatro em cinco

dos “candidatos à universidade com pontuação mais elevada” (definidos com

aqueles que estão dentro dos 2% superiores da distribuição) na área de ciências

exatas queriam estudar medicina. Segundo informações extraoficiais, durante

os últimos anos, ficou mais difícil ingressar até mesmo no menos competitivo

dos 27 departamentos médicos do país (no nível da graduação) do que nos

melhores departamentos de engenharia do país. É impossível ser mais popular

do que isso.

O interessante é que, embora a medicina sempre tenha sido uma disciplina

popular na Coreia, essa enorme popularidade é recente. Trata-se basicamente

de um fenômeno do século XXI. O que mudou?

Uma possibilidade óbvia é que, seja por que motivo for (p. ex., uma

população que está envelhecendo), os ganhos relativos dos médicos

aumentaram, e os jovens estão meramente reagindo às mudanças nos

incentivos — o mercado deseja médicos mais capazes, de modo que um

número mais elevado de pessoas competentes está ingressando na profissão.

Entretanto, a renda relativa dos médicos na Coreia vem caindo, devido ao

contínuo aumento da oferta. E não se trata de o governo ter introduzido

alguma regulamentação que tenha tornado difícil para as pessoas obter

empregos como engenheiros ou cientistas (as óbvias escolhas alternativas para

os que querem ser médicos). Então, o que está realmente acontecendo?

O que está motivando tudo isso é a queda radical da segurança no

emprego ao longo mais ou menos dos últimos dez anos. Depois da crise

financeira de 1997 que acabou com os “anos milagrosos” do país, a Coreia

abandonou o seu sistema econômico paternalista e intervencionista e adotou o

liberalismo de mercado que enfatiza a máxima concorrência. A segurança no

emprego foi drasticamente reduzida em nome de uma maior flexibilidade do

mercado de trabalho. Milhões de trabalhadores foram obrigados a aceitar

empregos temporários. Ironicamente, mesmo antes da crise, o país tinha um

dos mercados de trabalho mais flexíveis do mundo rico, com um dos

coeficientes mais elevados de trabalhadores sem um contrato permanente de

mais ou menos 50%. A recente liberalização fez com que esse coeficiente

aumentasse ainda mais e atingisse aproximadamente 60%. Além disso, até

mesmo aqueles que têm contratos permanentes hoje sofrem com o aumento

da insegurança no emprego. Antes da crise de 1997, a maioria dos

trabalhadores com um contrato permanente podia esperar, de facto ou até

mesmo de jure, ter um emprego para a vida inteira (como muitos dos seus

equivalentes japoneses ainda têm). Mas isso acabou. Agora, os trabalhadores

mais velhos que estão na casa dos 40 e 50 anos, mesmo que tenham um

contrato permanente, são incentivados a abrir caminho para a geração mais

jovem na primeira oportunidade possível. As empresas não podem demiti-los

a seu bel-prazer, mas todos sabemos que existem maneiras de fazer com que

as pessoas saibam que são indesejadas, o que as obriga a ir embora

“voluntariamente”.

Considerando-se isso, os jovens coreanos estão, compreensivelmente,

evitando os riscos. Eles supõem que se se tornarem cientistas ou engenheiros,

a probabilidade de que fiquem sem emprego por volta dos 40 anos é elevada,

mesmo que ingressem em grandes companhias como a Samsung ou a

Hyundai. Essa é uma perspectiva horrível, já que o estado do bem-estar social

na Coreia é extremamente fraco; na verdade, o menor entre os países ricos

(medido pelos gastos sociais públicos como uma parcela do PIB).[76] O

estado do bem-estar social fraco não representava um grande problema

anteriormente porque muitas pessoas tinham um emprego vitalício. Com o

desaparecimento do emprego vitalício, ele se tornou letal. Se você perde o

emprego, o seu padrão de vida cai catastroficamente e, o que é mais

importante, você não tem realmente uma segunda chance. Portanto, os jovens

coreanos inteligentes raciocinam que com uma licença para exercer a medicina

eles poderão trabalhar até decidir se aposentar, que também é o conselho que

recebem dos pais. Se o pior acontecer, eles podem montar a sua própria

clínica, mesmo que não ganhem tanto dinheiro (bem, para um médico). É

compreensível que todos os jovens coreanos inteligentes queiram estudar

medicina (ou direito, outra profissão com uma licença, se estiverem na área de

ciências humanas).

Não me entendam mal. Eu venero os médicos. Devo a minha vida a eles;

submeti-me a algumas cirurgias que salvaram a minha vida e fiquei curado de

um sem-número de infecções graças aos antibióticos que eles me receitaram.

Mas mesmo assim, sei que é impossível que 80% dos jovens mais inteligentes

da Coreia na área de ciências exatas estejam talhados para ser médicos.

Assim, um dos mercados de trabalho mais livres do mundo rico, ou seja, o

mercado de trabalho coreano, está deixando acentuadamente de distribuir os

seus talentos da maneira mais eficiente. O motivo? O aumento da insegurança

no emprego.

 

O estado do bem-estar social é a lei de falência para os trabalhadores

 

A segurança no emprego é uma questão complicada. Os economistas que

defendem o livre mercado acreditam que qualquer regulamentação do

mercado de trabalho que dificulte as demissões torna a economia menos eficiente e dinâmica. Para começar, ela enfraquece o incentivo para que as

pessoas trabalhem arduamente. Além disso, desestimula a criação da riqueza

por tornar os empregadores mais relutantes em fazer novas contratações (com

medo de não poder demitir futuramente os funcionários, caso necessário).

As regulamentações do mercado de trabalho já são bastante ruins,

argumentam eles, mas o estado do bem-estar social tornou as coisas ainda

piores. Ao fornecer benefícios aos desempregados, seguro-saúde, instrução

gratuita e até mesmo um auxílio desemprego, o estado do bem-estar social

efetivamente concedeu a todos a garantia de ser contratado pelo governo —

como um “trabalhador desempregado”, se você preferir chamar assim — com

um salário mínimo. Por conseguinte, os trabalhadores não têm um incentivo

suficiente para trabalhar arduamente. Para piorar ainda mais as coisas, esses

estados do bem-estar social são financiados por meio de impostos pagos pelos

ricos, reduzindo assim os incentivos para que estes últimos trabalhem bastante,

criem empregos e gerem riqueza.

Considerando-se tudo isso, prossegue o raciocínio, um país com um estado

do bem-estar social mais forte será menos dinâmico; os seus trabalhadores

serão menos compelidos a trabalhar, enquanto os seus empresários serão

menos motivados a criar riqueza.

Esse argumento tem sido muito influente. Nos anos 1970, uma explicação

popular para o medíocre desempenho econômico da Grã-Bretanha na época

era que o seu estado do bem-estar social se tornara inchado e os seus

sindicatos excessivamente poderosos (o que também se deve, em parte, ao

estado do bem-estar social, à medida que este último abafa a ameaça do

desemprego). Nessa interpretação da história britânica, Margaret Thatcher

salvou a Grã-Bretanha colocando os sindicatos no seu devido lugar e

reduzindo o estado do bem-estar social, embora o que efetivamente aconteceu

seja mais complicado. A partir dos anos 1990, essa visão do estado do bem-

estar social ficou ainda mais popular com o desempenho de crescimento

(supostamente) superior dos Estados Unidos com relação ao de outros países

ricos com estados do bem-estar social mais fortes.[77] Quando os governos de

outros países tentam reduzir os seus gastos com o bem-estar social, eles

frequentemente citam a cura da chamada “Doença Britânica” praticada pela

Sra. Thatcher ou o dinamismo superior da economia americana.

Mas é realmente verdade que uma maior segurança no emprego e um

estado do bem-estar social mais poderoso reduzem a produtividade e o

dinamismo da economia?

Como no nosso exemplo coreano, a falta de segurança no emprego pode

levar os jovens a fazer escolhas conservadoras na sua carreira, preferindo

empregos seguros da área da medicina e do direito. Essa pode ser uma escolha

adequada para eles do ponto de vista individual, mas conduz a uma má

distribuição de talentos, reduzindo portanto a eficiência e o dinamismo

econômicos.

O estado do bem-estar social mais fraco dos Estados Unidos tem sido uma

das razões importantes pelas quais o protecionismo comercial é muito mais

forte lá do que na Europa, apesar de uma maior aceitação da intervenção do

governo nesta última. Na Europa (é claro que estou desconsiderando nos

detalhes as diferenças nacionais), se o setor no qual você trabalha declina e

você perde o emprego, sem dúvida você recebe um grande golpe, mas não é o

fim do mundo. Você continua a ter o seguro-saúde e poderá morar nas casas

de propriedade do governo (ou receber subsídios de moradia), enquanto

recebe o salário-desemprego (até 80% da sua última remuneração), um novo

treinamento subsidiado pelo governo e ainda conta com a ajuda do governo

para procurar um novo emprego. Em contraposição, se você é um trabalhador

americano, o melhor que você tem a fazer é se agarrar ao seu emprego atual,

se necessário por meio do protecionismo, porque perder o emprego significa

perder quase tudo. A cobertura do seguro-desemprego é irregular e dura

menos do que na Europa. O governo oferece pouca ajuda para o

retreinamento e a procura de emprego. O mais assustador é que perder o

emprego significa perder o seguro-saúde e provavelmente a sua casa, pois

existem poucas casas do governo ou subsídios públicos para o seu aluguel. Em

decorrência disso, a resistência dos trabalhadores a qualquer reestruturação

industrial que envolva a redução de empregos é muito maior nos Estados

Unidos do que na Europa. A maioria dos trabalhadores americanos é incapaz

de montar uma resistência organizada, mas aqueles que são — os

trabalhadores sindicalizados — compreensivelmente farão todo o possível

para preservar a atual distribuição de emprego.

Como demonstram os exemplos anteriores, uma insegurança maior pode

fazer com que as pessoas trabalhem mais, mas ao mesmo tempo faz com que

elas trabalhem mais nos empregos errados. Todos aqueles jovens coreanos que

poderiam ser brilhantes cientistas e engenheiros estão mourejando na

anatomia humana. Muitos dos trabalhadores americanos que poderiam —

depois de um retreinamento apropriado — estar trabalhando em indústrias

emergentes (p. ex., a bioengenharia) estão sombriamente se agarrando aos seus

empregos em indústrias que estão em declínio (p. ex., a automobilística),

apenas retardando o inevitável.

A essência de todos os exemplos anteriores é que, quando as pessoas

sabem que terão uma segunda (ou terceira ou até mesmo quarta) chance, elas

se mostram muito mais abertas a correr riscos quando se trata da escolha do

primeiro emprego (como no exemplo coreano) ou em largar os empregos

atuais (como na comparação entre os Estados Unidos e a Europa).

Você acha essa lógica estranha? Pois não deveria. Porque essa é exatamente

a lógica por trás da lei de falência, a qual a maioria das pessoas aceita como

“óbvia”.

Antes de meados do século XIX, nenhum país tinha uma lei de falência no

sentido moderno. O que na época era chamado de lei de falência não conferia

aos empresários falidos muita proteção contra os credores enquanto

reestruturavam o seu negócio — nos Estados Unidos, o “Capítulo II” hoje

oferece essa proteção durante seis meses. O mais importante é que a lei na

ocasião não lhes dava uma segunda chance, pois lhes era exigido que pagassem

todas as dívidas, por mais tempo que isso levasse, a não ser que os credores os

“dispensassem” da obrigação. Isso significava que, mesmo que o empresário

falido conseguisse de alguma maneira começar um novo negócio, ele tinha que

usar todo o seu novo lucro para pagar as antigas dívidas, o que tolhia o

crescimento do novo negócio. Tudo isso tornava extremamente arriscado

começar um empreendimento comercial.

Com o tempo, as pessoas se deram conta de que a falta da segunda chance

estava desencorajando enormemente os empresários de correr riscos.

Começando com a Grã-Bretanha em 1849, os países passaram a introduzir

modernas leis de falência com proteção do tribunal contra os credores durante

a reestruturação inicial e, o que é extremamente importante, conferindo aos tribunais o poder de impor reduções permanentes às dívidas, até mesmo

contrariando a vontade dos credores. Ao ser combinada com instituições

como a responsabilidade limitada, que foi introduzida mais ou menos na

mesma época, essa nova lei de falência reduziu o risco de qualquer

empreendimento comercial, incentivando portanto as pessoas a correr riscos,

o que tornou possível o capitalismo moderno.

Na medida em que oferece uma segunda oportunidade aos trabalhadores,

podemos dizer que o estado do bem-estar social é como uma lei de falência

para eles. Da mesma maneira como as leis de falência incentivam os

empresários a correr riscos, o estado do bem-estar social incentiva os

trabalhadores a ser mais abertos à mudança (e aos riscos resultantes) nas suas

atitudes. Por saber que haverá uma segunda oportunidade, as pessoas podem

ser mais audaciosas na escolha da sua carreira inicial e mais abertas à ideia de

mudar de profissão mais tarde na vida.

 

Os países com governos mais poderosos podem crescer mais rápido

 

E as evidências? Qual é o desempenho relativo de países que diferem quanto

ao tamanho dos seus estados do bem-estar social? Como mencionei

anteriormente, a sabedoria convencional diz que os países com estados do

bem-estar social mais fracos são mais dinâmicos. No entanto, as evidências

não respaldam esse ponto de vista.

Até a década de 1980, os Estados Unidos cresceram muito mais devagar

do que a Europa, apesar do fato de ter um estado do bem-estar social muito

mais fraco. Em 1980, por exemplo, os gastos sociais públicos como uma

parcela do PIB foram de apenas 13,3% nos Estados Unidos em comparação

com 19,9% para quinze países da União Europeia. Esse percentual chegou a

28,6% na Suécia, 24,1% na Holanda e 23% na Alemanha (Ocidental). Apesar

disso, entre 1950 e 1987, os Estados Unidos cresceram mais lentamente do

que qualquer país europeu. A renda per capita cresceu 3,8% na Alemanha, 2,7%

na Suécia, 2,5% na Holanda e 1,9% nos Estados Unidos durante esse período.

Obviamente, o tamanho do estado do bem-estar social é apenas um dos

fatores que determinam o desempenho econômico de um país, mas isso mostra que um estado do bem-estar social forte não é incompatível com o

crescimento elevado.

Mesmo depois de 1990, quando o desempenho de crescimento relativo dos

Estados Unidos melhorou, alguns países com estados do bem-estar social

fortes cresceram mais rápido. Por exemplo, entre 1990 e 2008, a renda per

capita dos Estados Unidos aumentou 1,8%. Esse percentual é basicamente o

mesmo do período anterior, mas tendo em vista o arrefecimento das

economias europeias, isso tornou os Estados Unidos uma das economias de

crescimento mais rápido no grupo “principal” da OCDE (isto é, excluindo os

países ainda não totalmente ricos, como a Coreia e a Turquia).

O interessante, contudo, é que as duas economias com crescimento mais

rápido no grupo principal da OCDE durante o período pós-1990 são a

Finlândia (2,6%) e a Noruega (2,5%), ambas com um estado do bem-estar

social forte. Em 2003, a parcela dos gastos sociais públicos no PIB foi de

22,5% na Finlândia e 25,1% na Noruega, comparados com a média de 20,7%

da OCDE e de 16,2% nos Estados Unidos. A Suécia, que tem literalmente o

maior estado do bem-estar social do mundo (31,3%, ou seja, duas vezes maior

que o dos Estados Unidos), registrou uma taxa de crescimento de 1,8% que

estava apenas levemente abaixo da taxa americana. Se contarmos apenas a

década de 2000 (2000-2008), as taxas de crescimento da Suécia (2,4%) e da

Finlândia (2,8%) foram bem superiores à dos Estados Unidos (1,8%). Se os

economistas que defendem o livre mercado estivessem certos a respeito dos

efeitos prejudiciais do estado do bem-estar social sobre a ética do trabalho e os

incentivos para a criação da riqueza, esse tipo de coisa não deveria acontecer.

É claro que ao dizer tudo isso não estou apregoando que o estado do bem-

estar social é necessariamente bom. À semelhança de todas as outras

instituições, ele tem aspectos positivos e negativos. Especialmente se ele for

baseado em programas direcionados (como nos Estados Unidos), em vez de

universais, ele pode estigmatizar os beneficiários da assistência social. O estado

do bem-estar social eleva os “rendimentos de reserva” das pessoas e evita que

elas aceitem empregos mal-remunerados com condições de trabalho precárias,

embora afirmar que isso seja uma coisa ruim é uma questão de opinião

(pessoalmente, acho que a existência de um grande número de “pessoas

pobres empregadas”, como acontece nos Estados Unidos, é um problema tão grande quanto o das taxas de desemprego de um modo geral mais elevadas

que vemos na Europa). No entanto, se o estado do bem-estar social for bem

planejado, com a visão de conceder aos trabalhadores uma segunda

oportunidade, como é o caso dos países escandinavos, ele pode estimular o

crescimento econômico fazendo com que as pessoas fiquem mais abertas às

mudanças e tornando assim mais fácil a reestruturação industrial.

Só podemos acelerar o nosso carro porque ele tem freios. Se os carros não

tivessem freios, nem mesmo os motoristas mais habilidosos ousariam dirigir a

mais de 30 a 50 quilômetros por hora por temer os acidentes fatais.

Analogamente, as pessoas conseguem aceitar com mais boa vontade o risco do

desemprego e a necessidade de uma readaptação ocasional das suas

habilidades quando sabem que essas experiências não irão destruir a sua vida.

É por esse motivo que um governo mais poderoso pode fazer com que as

pessoas fiquem mais abertas à mudança, tornando assim a economia mais

dinâmica.

 

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