23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo

4 - A máquina de lavar roupa mudou mais o mundo do que a internet o fez

 

4

 

A máquina de lavar roupa mudou mais o mundo

 

do que a internet o fez

 

O que eles dizem

 

A recente revolução nas tecnologias de comunicação, representada pela

internet, mudou fundamentalmente a maneira como o mundo funciona. Ela

causou a “extinção da distância”. No “mundo sem fronteiras” assim criado,

antigas convenções a respeito de interesses econômicos nacionais e o papel

dos governos nacionais são inválidos. Essa revolução tecnológica define a

época em que vivemos. A não ser que os países (ou as empresas ou, por sinal,

as pessoas) mudem a uma velocidade correspondente, eles serão exterminados.

Nós — enquanto indivíduos, empresas ou nações — teremos que nos tornar

cada vez mais flexíveis, o que requer uma maior liberalização dos mercados.

 

O que eles não dizem

 

Ao nos darmos conta das mudanças, temos a tendência de encarar as mais

recentes como sendo as mais revolucionárias. Essa atitude não raro está em

desacordo com os fatos. O recente progresso nas tecnologias de

telecomunicações não é tão revolucionário quanto o que teve lugar no final do

século XIX — a telegrafia com fio — de uma maneira relativa. Além disso,

sob o aspecto das consequentes mudanças econômicas e sociais, a revolução

da internet (pelo menos ainda) não foi tão importante quanto a máquina de

lavar roupa e outros eletrodomésticos, os quais, ao reduzir enormemente a

quantidade de trabalho necessário para a execução das tarefas domésticas,

possibilitou que as mulheres ingressassem no mercado de trabalho e

praticamente extinguiu profissões como os serviços domésticos. Não devemos

“inverter o telescópio” quando contemplamos o passado subestimando o

velho e superestimando o novo, porque isso nos leva a tomar os mais diferentes tipos de decisões errôneas a respeito da política econômica nacional,

das políticas corporativas e das nossas próprias carreiras.

 

Todo mundo tem uma empregada na América Latina

 

De acordo com uma amiga americana, o livro-texto de espanhol que ela usou

na escola na década de 1970 tinha uma frase que dizia (em espanhol, é claro)

que “todo mundo na América Latina tem uma empregada”.

Pensando bem, isso é uma impossibilidade lógica. As empregadas também

têm empregadas na América Latina? Talvez exista algum tipo de esquema de

troca de empregadas no qual eu nunca ouvi falar, no qual as empregadas se

alternam sendo empregadas umas das outras, para que todas possam ter uma

empregada, mas não acho que isso seja verdade.

Naturalmente, é possível entender por que um autor americano pudesse

criar uma frase assim. Uma proporção bem maior de pessoas nos países

pobres do que nos ricos tem empregadas. Uma professora primária ou um

jovem gerente que trabalhe em uma pequena empresa em um país rico jamais

sonharia em ter uma empregada que dormisse no emprego, mas os seus

equivalentes nos países pobres provavelmente têm uma ou até mesmo duas

empregadas. É difícil obter os números, mas de acordo com dados da OIT

(Organização Internacional do Trabalho), calcula-se que de 7 a 8% das pessoas

que fazem parte da força de trabalho no Brasil e 9% das do Egito trabalhem

como empregados domésticos. Os percentuais correspondentes são de 0,7%

na Alemanha, 0,6% nos Estados Unidos, 0,3% na Inglaterra e no País de

Gales, 0,05% na Noruega, caindo para 0,005% na Suécia (os percentuais são

todos para a década de 1990, exceto os da Alemanha e Noruega que são para a

década de 2000).[9] Portanto, de uma maneira proporcional, o Brasil tem de 12

a 13 vezes mais empregados domésticos do que os Estados Unidos, e o Egito

tem 1.800 vezes mais do que a Suécia. É compreensível que muitos americanos

pensem que “todo mundo” tem uma empregada na América Latina e que um

sueco no Egito sinta que o país é quase que integralmente habitado por

empregados domésticos.

O interessante é que a parcela da força de trabalho que trabalhava como

empregados domésticos nos países ricos de hoje costumava ser semelhante à encontrada atualmente nos países em desenvolvimento. Nos Estados Unidos,

cerca de 8% das pessoas “lucrativamente empregadas” em 1870 eram

empregados domésticos. O coeficiente também se situava em torno de 8% na

Alemanha até a década de 1890, embora tenha começado a cair bem rápido

depois disso. Na Inglaterra e no País de Gales, onde a cultura do “criado”

sobreviveu mais tempo do que em outros países devido à força da classe dos

proprietários de terras, a proporção era ainda mais elevada: de 10 a 14% das

pessoas que faziam parte da força de trabalho trabalhavam em serviços

domésticos entre as décadas de 1850 e 1920 (com alguns altos e baixos). Na

realidade, se você ler os romances de Agatha Christie escritos até a década de

1930, perceberá que não é apenas o magnata da imprensa que é assassinado na

sua biblioteca trancada que tem empregados, mas também a solteirona de

classe média com dificuldades financeiras, embora ela possa ter apenas uma

empregada (que se envolve com um mecânico preguiçoso, que, ao que se

constata mais tarde, é filho bastardo do magnata da imprensa, e que também é

assassinada na página 111 por ser idiota o bastante para mencionar uma coisa

que nem mesmo deveria ter visto).

O principal motivo pelo qual o número de empregados domésticos é tão

menor (proporcionalmente, é claro) nos países ricos — embora obviamente

não seja o único, tendo-se em vista as diferenças culturais entre os países em

níveis semelhantes de renda, hoje e no passado — é o preço relativo mais

elevado do trabalho. Com o desenvolvimento econômico, as pessoas (ou

melhor, os serviços de mão de obra que elas oferecem) se tornam

relativamente mais caras do que as “coisas”. Como resultado, nos países ricos,

o serviço doméstico se tornou um artigo de luxo acessível apenas para os

ricos, ao passo que ele ainda é suficientemente barato para ser consumido até

mesmo por pessoas da baixa classe média nos países em desenvolvimento.

 

Entra em cena a máquina de lavar roupa

 

No entanto, independentemente dos movimentos nos preços relativos das

“pessoas” e das “coisas”, a queda na participação de pessoas que trabalham

como empregados domésticos não teria sido tão drástica como foi nos países

ricos ao longo do último século, não tivesse sido pelo suprimento de uma enorme quantidade de tecnologias domésticas, que representei pela máquina

de lavar. Por mais dispendioso (relativamente) que possa ser contratar pessoas

que possam lavar a roupa, limpar a casa, aquecer a casa, cozinhar e lavar a

louça, elas ainda teriam que ser contratadas, se essas coisas não pudessem ser

feitas por máquinas. Ou então você teria que passar horas executando você

mesmo essas tarefas.

As máquinas de lavar economizaram um tempo enorme. Não é fácil obter

os dados, mas uma pesquisa realizada em meados da década de 1940 pela US

Rural Electrification Authority relata que, com a introdução da máquina de

lavar roupa elétrica e do ferro elétrico, o tempo necessário para lavar 17 quilos

de roupa suja foi reduzido por um fator de quase 6 (de 4 horas para 41

minutos) e o tempo necessário para passar essa mesma roupa foi reduzido por

um fator de mais de 2,5 (de 4,5 horas para 1,75 hora).[10] A água encanada

significou que as mulheres não têm mais que passar horas indo buscar água

(tarefa na qual até duas horas por dia são gastas em alguns países em

desenvolvimento, de acordo com o Programa de Desenvolvimento das Nações

Unidas). O aspirador de pó possibilitou que limpemos melhor a nossa casa em

uma fração do tempo que era necessário antigamente, quando tínhamos que

fazer isso com uma vassoura e trapos. O fogão a gás e o elétrico, bem como o

aquecimento central, reduziu enormemente o tempo que era gasto para catar

lenha, acender o fogo, manter o fogo aceso, e depois fazer a limpeza para fins

de aquecimento e cozimento. Hoje, muitas pessoas nos países ricos têm até

mesmo uma lava-louças, cujo (futuro) inventor, um certo Sr. I. M. Rubinow,

funcionário do US Department of Agriculture, afirmou que seria “um

verdadeiro benfeitor da humanidade” no artigo que publicou no Journal of

Political Economy em 1906.

O surgimento dos eletrodomésticos, bem como da eletricidade, da água

encanada e do gás encanado, transformou completamente a maneira como as

mulheres, e por conseguinte os homens, vivem. Eles possibilitaram que um

número bem maior de mulheres ingressasse no mercado de trabalho. Nos

Estados Unidos, por exemplo, a proporção de mulheres brancas casadas que

se encontram no auge da idade produtiva (35 a 44 anos) que trabalham fora de

casa aumentou de um pequeno percentual no final da década de 1890 para

quase 80% nos dias de hoje.[11] Isso também modificou substancialmente a estrutura ocupacional feminina ao permitir que a sociedade sobrevivesse com

um número bem menor de pessoas trabalhando como empregados

domésticos, como vimos anteriormente; na década de 1870, por exemplo,

quase 50% das mulheres empregadas nos Estados Unidos trabalhavam como

“criadas e garçonetes” (do que podemos deduzir que quase todas eram criadas

e não garçonetes, considerando-se que comer fora ainda não era um grande

negócio).[12] A maior participação no mercado de trabalho decididamente

elevou o status da mulher em casa e na sociedade, reduzindo também, portanto,

a preferência pelos filhos homens e aumentando o investimento na instrução

das mulheres, o que aumenta ainda mais a participação feminina no mercado

de trabalho. Até mesmo as mulheres instruídas que acabam optando por ficar

em casa com os filhos têm um status mais elevado no lar, já que podem fazer

ameaças convincentes de que são capazes de sustentar a si mesmas caso

decidam abandonar os seus parceiros. Com as oportunidades de emprego

externas, os custos de oportunidade dos filhos aumentaram, levando as

famílias a ter menos filhos. Tudo isso modificou a dinâmica tradicional da

família. Em conjunto, elas constituem mudanças realmente poderosas.

É claro que não estou dizendo que essas mudanças aconteceram apenas —

ou até mesmo predominantemente — devido a mudanças nas tecnologias

domésticas. A “pílula” e outros anticoncepcionais exerceram um poderoso

impacto na educação feminina e na participação das mulheres no mercado de

trabalho, possibilitando que elas controlassem a época e a frequência dos seus

partos. E há também causas não tecnológicas. Mesmo com idênticas

tecnologias domésticas, os países podem ter índices de participação do

trabalho feminino no mercado bem diferentes, bem como diferentes estruturas

ocupacionais, dependendo de coisas como convenções sociais relacionadas

com a aceitabilidade de as mulheres de classe média trabalharem (as mulheres

pobres sempre trabalharam), de incentivos fiscais para o trabalho remunerado

e a criação dos filhos, e do preço das creches. Não obstante, contudo, continua

sendo verdade que, sem a máquina de lavar (e outras tecnologias domésticas

que economizam trabalho), a escala da mudança no papel da mulher na

sociedade e na dinâmica familiar não teria sido nem de longe tão radical.

 

A máquina de lavar roupa supera a internet Em comparação com as mudanças geradas pela máquina de lavar roupa (e

companhia), o impacto da internet, que muitos acreditam ter mudado

totalmente o mundo, não foi tão fundamental — pelo menos até agora. Sem

dúvida a internet transformou a maneira como as pessoas passam as suas

horas fora do trabalho — navegando na internet, batendo papo com os

amigos no Facebook, conversando com eles no Skype, jogando jogos

eletrônicos com alguém que pode estar sentado a oito mil quilômetros de

distância e não sei o que mais. Ela também aumentou enormemente a

eficiência com a qual podemos encontrar informações a respeito das nossas

apólices de seguro, férias, restaurantes e, cada vez mais, até mesmo o preço do

brócolis e do xampu.

No entanto, quando se trata de processos de produção, não está claro se o

impacto foi tão revolucionário. Sem sombra de dúvida, no caso de algumas

pessoas, a internet mudou profundamente a maneira como elas trabalham. Sei

disso por experiência própria. Graças à internet, pude escrever um livro inteiro

com a minha amiga e ocasional coautora, Professora Ilene Grabel, que leciona

em Denver, Colorado, com apenas um encontro frente a frente e um ou dois

telefonemas.[13] No entanto, no caso de muitas outras pessoas, a internet não

causou um impacto tão grande na produtividade. Estudos têm se esforçado

para descobrir o impacto positivo da internet na produtividade como um todo;

como disse Robert Solow, o economista ganhador do Prêmio Nobel: “a

evidência está em toda parte, exceto nos números.”

Você poderá achar que a minha comparação é injusta. Os eletrodomésticos

que menciono aqui tiveram pelo menos algumas décadas, às vezes um século,

para fazer a sua mágica, ao passo que a internet mal tem duas décadas de

idade. Isso é em parte verdade. Como o notável historiador da ciência, David

Edgerton, declarou no seu fascinante livro The Shock of the Old — Technology and

Global History Since 1900, a utilização máxima de uma tecnologia, e portanto o

seu impacto máximo, com frequência é alcançado décadas depois da invenção

dessa tecnologia. Mas mesmo no que diz respeito ao seu impacto imediato,

tenho dúvidas se a internet é realmente a tecnologia revolucionária que muitos

de nós acreditamos ser.

 

A internet perde para o telégrafo Pouco antes do início do serviço de telégrafo transatlântico em 1866, uma

mensagem levava cerca de três semanas para chegar do outro lado do Oceano

Atlântico — o tempo que os barcos a vela levavam para cruzar o oceano. Até

mesmo no caso do envio “expresso” em um navio a vapor (que só se tornou

corrente na década de 1890), era preciso considerar um prazo de duas semanas

(as travessias mais rápidas na época levavam de oito a nove dias).

Com o telégrafo, o tempo de transmissão de uma mensagem de, digamos,

300 palavras, foi reduzido para sete ou oito minutos. Podia até ser mais rápido.

O The New York Times noticiou em 4 de dezembro de 1861 que o Discurso do

Estado da União de Lincoln com 7.578 palavras foi transmitido de

Washington, DC para o resto do país em 92 minutos, dando uma média de 82

palavras por minuto, o que teria possibilitado que a mensagem de 300 palavras

fosse enviada em menos de quatro minutos. Mas isso foi um recorde, e a

média se aproximava mais de 40 palavras por minuto, o que fazia com que

uma mensagem de 300 palavras levasse 7,5 minutos para ser transmitida. De

qualquer modo, de duas semanas para 7,5 minutos equivale a uma redução de

2.500 vezes.

A internet reduziu o tempo de transmissão de uma mensagem de 300

palavras de dez segundos no aparelho de fax para, digamos, dois segundos,

mas isso é apenas uma redução por um fator de 5. A redução da velocidade

pela internet é maior quando se trata de mensagens mais longas — é possível

enviar em dez segundos (considerando o tempo do upload), digamos, um

documento com 30 mil palavras, o que teria levado mais de 16 minutos (ou mil

segundos) no aparelho de fax, o que nos dá uma aceleração sob o aspecto da

velocidade de transmissão de cem vezes. No entanto, isso não é nada em

comparação com a redução de 2.500 vezes no tempo alcançada pelo telégrafo.

A internet obviamente possui outras características revolucionárias. Ela nos

permite enviar fotografias a alta velocidade (algo que nem o telégrafo nem o

fax eram capazes de fazer, de modo que tínhamos que contar com o

transporte físico). Ela pode ser acessada em muitos lugares, e não apenas nas

agências dos correios. O mais importante é que podemos procurar as

informações específicas que desejamos em um vasto número de fontes. No

entanto, sob os aspectos da mera aceleração da velocidade, ela não é, nem de longe, tão revolucionária quanto a humilde telegrafia com fio (não estou nem

mesmo me referindo à telegrafia sem fio).

Superestimamos enormemente os vários impactos da internet porque ela

está nos afetando hoje. E não somos apenas nós que fazemos isso. Os seres

humanos têm a tendência de se deixar fascinar pelas tecnologias mais novas e

mais visíveis. Já em 1944, George Orwell criticou as pessoas que se deixavam

se entusiasmar exageradamente pela “extinção da distância” e o

“desaparecimento das fronteiras” graças ao avião e ao rádio.

 

Como entender melhor as mudanças

 

Que diferença faz se as pessoas acreditam erroneamente que a internet causou

um impacto mais importante do que a telegrafia ou a máquina de lavar roupa?

Qual a importância de as pessoas se deixarem impressionar mais pelas

mudanças mais recentes?

Não teria nenhuma importância se essa distorção de perspectiva fosse

apenas uma questão de pontos de vista pessoais. No entanto, essas

perspectivas distorcidas causam impactos genuínos, já que resultam na

utilização equivocada de recursos escassos.

O deslumbramento com a revolução da TIC (Tecnologia da Informação e

Comunicação), representada pela internet, fez com que alguns países ricos —

especialmente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha — concluíssem

erroneamente que produzir coisas é tão “antiquado” que eles deveriam tentar

viver de ideias. E como eu explico nas, essa crença na “sociedade pós-

industrial” levou esses países a negligenciar indevidamente o seu setor

industrial, com consequências adversas para as suas respectivas economias.

O que é ainda mais inquietante é que o fascínio das pessoas nos países

ricos pela internet levou a comunidade internacional a se preocupar com a

“divisão digital” entre os países ricos e pobres. Isso fez com que empresas,

fundações de caridade e pessoas físicas doassem dinheiro para os países em

desenvolvimento para que eles adquirissem equipamentos de computador e

serviços de internet. A questão, contudo, é se é isso de que os países em

desenvolvimento mais precisam. Talvez dar dinheiro para coisas menos

modernas, como cavar poços, ampliar as redes elétricas e fabricar máquinas de lavar roupa com um preço mais acessível tivessem melhorado mais a vida das

pessoas do que dar a cada criança um laptop ou montar centros de internet em

aldeias rurais. Não estou dizendo que essas coisas são necessariamente mais

importantes, mas muitos doadores se apressaram a entrar em programas

sofisticados sem avaliar os custos e benefícios a longo prazo de utilizações

alternativas do seu dinheiro.

Ainda em outro exemplo, a empolgação com a novidade levou pessoas a

acreditar que as recentes mudanças nas tecnologias das comunicações e do

transporte são de tal modo revolucionárias que hoje nós vivemos em um

“mundo sem fronteiras”, como diz o título do famoso livro, de autoria de

Kenichi Ohmae, o guru de negócios japonês.[14] Como resultado, mais ou

menos nos últimos vinte anos, muitas pessoas passaram a acreditar que seja

qual for a mudança que está tendo lugar hoje, ela é resultado de um

monumental progresso tecnológico, e ir contra ela será como tentar fazer o

relógio andar para trás. Por acreditar nesse mundo, muitos governos

extinguiram algumas das regulamentações extremamente necessárias sobre os

fluxos de capital e a mão de obra e as mercadorias transnacionais, com

resultados insatisfatórios. No entanto, como já demonstrei, as recentes

mudanças nessas tecnologias não são nem de longe tão revolucionárias quanto

as mudanças correspondentes de cem anos atrás. Na realidade, o mundo era

bem mais globalizado há um século do que foi entre as décadas de 1960 e 1980

apesar de ter tecnologias de comunicação e transporte muito inferiores, porque

nesse último período os governos, especialmente os governos poderosos,

acreditavam em regulamentações mais rígidas desses fluxos transnacionais. O

que determinou o grau da globalização (em outras palavras, da abertura

nacional) foi a política, e não a tecnologia. Não obstante, se deixarmos que a

nossa perspectiva seja distorcida pelo deslumbramento com a revolução

tecnológica mais recente, não conseguiremos enxergar esse ponto e

acabaremos implementando as políticas erradas.

Entender as tendências tecnológicas é muito importante para projetar

corretamente as políticas econômicas, tanto no nível nacional quanto no

internacional (bem como para tomar as decisões profissionais adequadas no

nível individual). Entretanto, o nosso fascínio pelo que é mais recente, e a

nossa depreciação do que já se tornou comum, pode fazer, e fez, com que seguíssemos os mais diferentes tipos de direções erradas. Apresentei esta

questão de uma maneira deliberadamente provocante, contrapondo a humilde

máquina de lavar roupa à internet, mas os meus exemplos devem ter lhe

mostrado que as maneiras pelas quais as forças tecnológicas moldaram os

acontecimentos econômicos e sociais sob a influência do capitalismo são

muito mais complexas do que geralmente se acredita.

 

OceanofPDF.com