23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo

17 - Mais instrução por si só não tornará um país mais rico

 

17

 

Mais instrução por si só não tornará um país

 

mais rico

 

O que eles dizem

 

Uma força de trabalho instruída é absolutamente necessária para o

desenvolvimento econômico. A melhor prova disso é o contraste entre o

sucesso econômico dos países do Leste Asiático, com o seu famoso

desempenho na área da instrução superior, e a estagnação econômica dos

países da África subsaariana, que têm um dos registros educacionais mais

baixos do mundo. Além disso, com o aumento da chamada “economia do

conhecimento”, na qual o conhecimento se tornou a principal fonte de

riqueza, a instrução, especialmente a instrução superior, tornou-se a chave para

a prosperidade.

 

O que eles não dizem

 

Existem pouquíssimas evidências que demonstrem que um povo mais

instruído acarrete uma maior prosperidade nacional. Grande parte do

conhecimento adquirido na escola na realidade não é relevante para o aumento

da produtividade, embora isso possibilite que as pessoas tenham uma vida

mais gratificante e independente. Além disso, a concepção de que o

surgimento da economia do conhecimento tenha aumentado decisivamente a

importância da instrução é enganosa. Para começar, a ideia da economia do

conhecimento em si é problemática, já que o conhecimento sempre foi a

principal fonte de riqueza. Além disso, com a crescente desindustrialização e

mecanização, as exigências de conhecimento talvez tenham até mesmo

diminuído na maioria das ocupações nos países ricos. Mesmo quando se trata

da instrução superior, que se presume seja mais importante na economia do

conhecimento, não existe um relacionamento simples entre ela e o crescimento econômico. O que realmente importa na determinação da prosperidade

nacional não é o nível de instrução das pessoas e sim a capacidade da nação de

organizar pessoas em empreendimentos com uma elevada produtividade.

 

Educação, educação, educação

 

“Educação, educação, educação” — foi como o ex-Primeiro-Ministro

britânico Tony Blair resumiu quais seriam as suas três principais políticas de

governo durante a campanha das eleições de 1997, a qual levou o seu “Novo”

Partido Trabalhista ao poder depois de quase duas décadas afastado.

O subsequente sucesso ou não da política educacional do Novo Partido

Trabalhista pode ser questionado, mas o que é indiscutível é que o comentário

captou com perfeição a excepcional capacidade do Sr. Blair de dizer a coisa

certa no momento certo (ou seja, antes de ele perder a cabeça por causa do

Iraque). Muitos políticos antes do Sr. Blair tinham falado a respeito da

escolaridade e a defendido com insistência, mas ele estava falando em uma

ocasião na qual, depois de presenciar o surgimento da economia do

conhecimento a partir da década de 1980, o mundo inteiro estava ficando

convencido de que a instrução era a chave para a prosperidade econômica. Se

a instrução fora importante para o sucesso econômico nos dias das indústrias

das chaminés, um número cada vez maior de pessoas estava ficando

convencido de que ela seria tudo na era da informação, quando a principal

fonte de riqueza são os cérebros, não os músculos.

O argumento parece óbvio. A maioria das pessoas instruídas parecem mais

produtivas, como é evidenciado pelos salários mais elevados que recebem.

Portanto, é uma questão de lógica matemática que uma economia com um

maior número de pessoas instruídas será mais produtiva. O fato de os países

mais pobres terem um menor suprimento de pessoas instruídas — ou “capital

humano” no jargão de alguns economistas — também prova o argumento. A

duração típica da vida escolar gira em torno de nove anos nos países da

OCDE, ao passo que não chega a três nos países da África subsaariana.

Também bastante conhecido é o desempenho escolar excepcionalmente

elevado das economias “milagrosas” do Leste Asiático, como o Japão, a Coreia

do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura. O desempenho escolar desses países se manifesta não de um modo quantitativo, mas também nas elevadas taxas de

alfabetização ou de matrícula em vários níveis de instrução. A qualidade da

instrução também é muito alta. Esses países estão classificados nos primeiros

lugares nos testes estandardizados como o Trends in International

Mathematics and Science Study (TIMSS) ou Tendências no Estudo

Internacional de Matemática e Ciências, para alunos da quarta e da oitava

séries, e o Program for International Student Assessment (PISA) ou Programa

Internacional de Avaliação de Estudantes, que avalia a capacidade de jovens

com 15 anos de idade de aplicar o conhecimento de matemática a problemas

do mundo real. É preciso dizer mais?

 

Não precisamos de instrução

 

Por mais que a importância da instrução no aumento da produtividade de uma

economia possa parecer dispensar explicações, existem na verdade muitos

indícios que questionam essa sabedoria convencional.

Vamos examinar primeiro o caso das economias milagrosas do Leste

Asiático, em cujo desenvolvimento a instrução supostamente desempenhou

um papel fundamental. Na década de 1960, Taiwan tinha uma taxa de

alfabetização de apenas 54%, enquanto a das Filipinas era de 72%. Apesar do

seu nível educacional inferior, Taiwan a partir de então alcançou um dos

melhores desempenhos econômicos da história humana, enquanto o

desempenho das Filipinas tem sido bastante precário. Em 1960, a renda per

capita anual das Filipinas era quase o dobro da de Taiwan (200 dólares versus

122 dólares), mas hoje a renda per capita de Taiwan está em torno de dez vezes

a das Filipinas (18 mil dólares versus 1.800 dólares). Nesse mesmo ano, a Coreia

tinha uma taxa de alfabetização de 71% — comparável com a das Filipinas

mas ainda assim abaixo dos 91% da Argentina. Apesar da taxa de alfabetização

significativamente inferior, a Coreia cresceu a partir de então muito mais

rápido do que a Argentina. A renda per capita anual da Coreia era pouco mais

de um quinto da da Argentina em 1960 (82 dólares versus 378 dólares). Hoje,

ela é três vezes mais elevada (cerca de 21 mil dólares versus aproximadamente 7

mil dólares).

Obviamente, existem muito mais coisas além da instrução que determinam

o desempenho de crescimento econômico de um país. No entanto, esses

exemplos debilitam o mito habitual de que a instrução foi a chave para o

milagre do Leste Asiático. As economias do Leste Asiático não tinham um

desempenho escolar excepcionalmente elevado no início dos seus milagres

econômicos, ao passo que países como as Filipinas e a Argentina se saíram

mediocremente apesar de ter uma população significativamente mais instruída.

Na outra extremidade do espectro, a experiência da África subsaariana

também mostra que investir mais em instrução não garante um melhor

desempenho econômico. Entre 1980 e 2004, as taxas de alfabetização dos

países africanos subsaarianos aumentaram substancialmente, de 40 para 61%.

[60] Apesar desses aumentos, a renda per capita da região na realidade apresentou

uma redução de 0,3% ao ano nesse período. Se a instrução é tão importante para

o desenvolvimento econômico, como acredita a maioria, uma coisa assim não

deveria acontecer.

A aparente ausência de efeitos positivos da instrução sobre o crescimento

não é encontrada apenas nos casos extremos que escolhi, com o Leste Asiático

de um lado e a África subsaariana do outro. Trata-se de um fenômeno mais

geral. Em um artigo de 2004 amplamente citado: “Where has all the education

gone?”,[61] Lant Pritchett, um economista de Harvard que trabalhou para o

Banco Mundial durante um longo tempo, analisou as informações de dezenas

de países ricos e em desenvolvimento ao longo do período entre 1960 e 1987 e

realizou uma extensa análise de estudos semelhantes, a fim de definir se a

instrução influencia positivamente o crescimento.[62] A sua conclusão é que

existem muito poucas evidências de que mais instrução conduza a um maior

crescimento econômico.

 

Não sei muito a respeito de história, não conheço muito biologia

 

Por que existem tão poucas evidências que respaldem o que parece ser uma

proposição tão óbvia, ou seja, que um povo mais instruído deve tornar o país

mais rico? Simplificando, é porque a instrução não é um elemento tão

importante no aumento da produtividade de uma economia.

Para começar, nem toda instrução ao menos se propõe aumentar a

produtividade. Muitas disciplinas não causam nenhum impacto, nem mesmo

indiretamente, na produtividade da maioria dos trabalhadores: literatura,

história, filosofia e música, por exemplo. A partir de um ponto de vista

rigorosamente econômico, o ensino dessas matérias é uma perda de tempo.

Nós as ensinamos aos nossos filhos por acreditar que com o tempo elas

enriquecerão a vida deles e também os tornarão bons cidadãos. Embora essa

justificativa para o dispêndio educacional esteja cada vez mais sendo atacada

em uma época na qual se espera que tudo justifique a sua existência a partir da

perspectiva da sua contribuição para o crescimento da produtividade, ela

continua a ser uma razão muito importante — na minha opinião, a mais

importante — para investir na instrução.

Além disso, nem mesmo disciplinas como a matemática ou ciências, que

são supostamente importantes para o aumento da produtividade, são

relevantes para a maioria dos trabalhadores — os banqueiros de investimento

não precisam de biologia e nem os figurinistas de matemática para ser

competentes no que fazem. Até mesmo para as ocupações nas quais essas

matérias são relevantes, grande parte do que aprendemos na escola ou até

mesmo na universidade com frequência não é diretamente relevante para o

trabalho prático. Por exemplo, o elo entre a física que um operário da linha de

produção de uma fábrica de automóveis aprendeu na escola e a sua

produtividade é bastante tênue. A importância do aprendizado e do

treinamento no trabalho em muitas profissões é uma prova da relevância

limitada da educação escolar para a produtividade dos trabalhadores. Desse

modo, até mesmo as partes da instrução supostamente voltadas para a

produtividade não são tão relevantes para o aumento da produtividade quanto

imaginamos.

Análises estatísticas realizadas em vários países não conseguiram encontrar

nenhuma relação entre a pontuação em matemática dos alunos do país com o

desempenho econômico dele.[63] Mas vou apresentar exemplos mais

concretos. No segmento de matemática do TIMSS de 2007, estudantes

americanos da quarta série ficaram atrás não apenas das crianças dos países do

Leste Asiático, famosas pelo seu talento matemático, mas também dos seus

equivalentes em países como o Cazaquistão, a Letônia, a Rússia e a Lituânia.

[64] As crianças em todas as outras economias europeias ricas incluídas no

teste, com exceção da Inglaterra e da Holanda, obtiveram uma pontuação mais

baixa do que a das crianças americanas.[65] Os alunos da oitava série da

Noruega, o país mais rico do mundo (do ponto de vista da renda per capita

calculada à taxa de câmbio do mercado) —, ficaram atrás dos seus equivalentes

não apenas em todos os outros países ricos mas também em países muito mais

pobres, entre eles a Lituânia, a República Tcheca, a Eslovênia, a Armênia e a

Sérvia (é interessante observar que todos são países anteriormente socialistas).

[66] Os alunos da oitava série de Israel, país famoso pelo seu zelo educacional

e excepcional desempenho na área de pesquisas avançadas, ficou atrás da

Noruega e também da Bulgária. Histórias semelhantes foram observadas nos

testes de ciências.

 

E a economia do conhecimento?

 

Mesmo que o impacto da instrução no crescimento tenha sido pequeno até

agora, você talvez esteja se perguntando se o recente surgimento da economia

do conhecimento talvez não tenha mudado tudo isso. Pode ser argumentado

que, com as ideias se tornando a principal fonte de riqueza, a instrução a partir

de agora se tornará muito mais importante na determinação da prosperidade

de um país.

Contrariando essa hipótese, devo, em primeiro lugar, salientar que a

economia do conhecimento não é nenhuma novidade. Sempre vivemos em

uma economia assim, no sentido de que sempre foi o domínio do país sobre o

conhecimento (ou a falta dele) que o tornou rico (ou pobre). A China foi o

país mais rico do mundo durante o primeiro milênio porque ela possuía um

conhecimento técnico que os outros não tinham, com o papel, os tipos

móveis, a pólvora e a bússola sendo os exemplos mais famosos, mas de modo

algum os únicos. A Grã-Bretanha tornou-se o poder hegemônico do mundo

no século XIX somente porque passou a liderar o mundo na área das

inovações tecnológicas. Quando a Alemanha ficou tão pobre quanto o Peru e

o México logo depois da Segunda Guerra Mundial, não passou pela cabeça de

ninguém sugerir que ela fosse reclassificada como um país em

desenvolvimento, porque as pessoas sabiam que ela ainda tinha o domínio do conhecimento tecnológico, organizacional e institucional que a tornara uma

das maiores potências industriais antes da guerra. Nesse sentido, a importância

(ou não) da instrução não mudou no período mais recente.

É claro que o acervo de conhecimento que a humanidade controla hoje

coletivamente é muito maior do que no passado, mas isso não quer dizer que

todo mundo, ou mesmo a maioria das pessoas, tenha que ser mais instruída do

que no passado. Na verdade, a quantidade de conhecimento relacionado com a

produção que um trabalhador típico precisa ter diminuiu no caso de muitas

ocupações, especialmente nos países ricos. Isso pode soar absurdo, mas vou

explicar.

Para começar, tendo em vista o contínuo aumento da produtividade da

fabricação, uma maioria da força de trabalho nos países ricos agora trabalha

em ocupações do setor de serviços com baixas qualificações, repondo

mercadorias nas prateleiras dos supermercados, fritando hambúrgueres em

restaurantes fast-food e fazendo faxina em escritórios. À medida que a

proporção de pessoas nessas profissões for aumentando, poderemos lidar com

uma força de trabalho cada vez menos instruída, se só estivermos interessados

nos efeitos da instrução sobre a produtividade.

Além disso, com o desenvolvimento econômico, uma proporção maior do

conhecimento é incorporada às máquinas. Isso significa que a produtividade

na economia como um todo aumenta apesar de os trabalhadores entenderem

individualmente menos o que estão fazendo do que os seus equivalentes no

passado. O exemplo mais impressionante é o fato de que a maioria dos

balconistas nos países ricos nem mesmo precisa saber somar — habilidade de

que outrora os seus equivalentes decididamente precisavam — já que as

máquinas de leitura do código de barras fazem isso para eles hoje em dia.

Outro exemplo é que os ferreiros nos países pobres provavelmente sabem

mais a respeito da natureza dos metais no que diz respeito à fabricação de

ferramentas do que a maioria dos funcionários da Bosch ou da Black &

Decker. Um terceiro exemplo é o fato de que as pessoas que trabalham nas

pequenas lojas de eletrônica espalhadas pelas ruas dos países pobres

conseguem consertar muito mais coisas do que os funcionários individuais da

Samsung ou da Sony.

Grande parte disso se deve ao simples fato que a mecanização é a maneira

mais importante de aumentar a produtividade. No entanto, uma influente

escola de pensamento marxista argumenta que os capitalistas deliberadamente

“reduzem a qualificação” dos seus funcionários usando as tecnologias de

produção mais mecanizadas possíveis, mesmo que não sejam as mais

econômicas, a fim de tornar os trabalhadores mais facilmente substituíveis e,

portanto, mais fáceis de controlar.[67] Independentemente da causa exata do

processo de mecanização, a consequência é que as economias mais

desenvolvidas tecnologicamente podem na realidade precisar de um número

menor de pessoas instruídas.

 

O paradoxo suíço

 

No entanto, é possível argumentar que, embora o desenvolvimento econômico

possa não exigir que o trabalhador típico seja mais instruído, ele precisa de

pessoas com um grau de instrução mais elevado nos cargos mais elevados.

Afinal de contas, como ressaltei anteriormente, a capacidade de gerar um

conhecimento mais produtivo do que outros é o que torna um país mais rico

do que os outros. Portanto, alguém pode argumentar, é a qualidade das

universidades, e não a das escolas primárias, que determina a prosperidade de

uma nação.

No entanto, mesmo nesta era supostamente voltada para o conhecimento,

o relacionamento entre a instrução superior e a prosperidade não é direto.

Tomemos o exemplo impressionante da Suíça. Ela está entre os poucos países

mais ricos e mais industrializados do mundo, mas tem, surpreendentemente, a

menor taxa — na realidade, a menor taxa por uma grande diferença — de

matrículas universitárias dos países ricos; ainda no final de 1996, a taxa de

matrícula universitária na Suíça continuava a ser menos da metade da média da

OCDE (16% versus 34%).[68] A partir de então, a Suíça aumentou

consideravelmente essa taxa, elevando-a para 47% em 2007, segundo dados da

UNESCO. Entretanto, a taxa suíça ainda permanece a mais baixa entre os

países ricos do mundo e está muito abaixo da que encontramos na maioria dos

países intensamente voltados para o ensino universitário, como a Finlândia

(94%), os Estados Unidos (82%) e a Dinamarca (80%). Curiosamente, a taxa suíça também é muito inferior à de muitas economias consideravelmente mais

pobres, como a Coreia (96%), a Grécia (91%), a Lituânia (76%) e a Argentina

(68%).

Como é possível que a Suíça tenha permanecido no topo da produtividade

internacional apesar de proporcionar aos seus cidadãos uma instrução de nível

superior muito menor não apenas do que a dos seus principais concorrentes

como também do que a de muitas economias consideravelmente mais pobres?

Uma possível explicação é que a qualidade do ensino universitário é

diferente em cada país. Portanto, se as universidades coreanas ou lituanas não

são tão boas quanto as universidades suíças, pode ser possível que a Suíça seja

mais rica que a Coreia ou a Lituânia, mesmo que uma proporção muito menor

de suíços do que coreanos ou lituanos tenha instrução universitária. No

entanto, esse argumento perde grande parte da sua força quando comparamos

a Suíça com a Finlândia ou os Estados Unidos. Não podemos, em sã

consciência, sugerir que as universidades suíças sejam tão melhores do que as

finlandesas ou as americanas a ponto de a Suíça poder se sair bem com uma

taxa de matrícula universitária 50% menor.

A principal explicação para o “paradoxo suíço” deve ser encontrada, uma

vez mais, no baixo componente da produtividade na instrução. Entretanto, no

caso da instrução superior, o componente da não produtividade não consiste

tanto em ensinar às pessoas disciplinas que irão ajudá-las com coisas como a

realização pessoal, a boa cidadania e a identidade nacional, como no caso da

instrução primária e secundária. Ele consiste no que os economistas chamam

de função de “classificação”.

É claro que a instrução superior transmite um certo conhecimento

relacionado com a produtividade aos alunos, mas outra função importante dela

é definir a posição de cada pessoa na hierarquia da empregabilidade.[69] Em

muitas atividades profissionais, o que conta é a inteligência genérica, a

autodisciplina e a capacidade de a pessoa se organizar, e não o conhecimento

especializado, grande parte do qual ela pode, e na realidade precisa, assimilar

no emprego. Desse modo, mesmo que o que você aprende na universidade ao

se especializar em história ou química possa não ser relevante para o seu

trabalho como um possível gerente de uma companhia de seguros ou como

um funcionário público do Departamento de Transportes, o fato de você ter um diploma universitário informa aos seus possíveis empregadores que você

provavelmente é mais inteligente, tem mais autodisciplina e é mais organizado

do que aqueles que não têm esse diploma. Ao contratar você como uma

pessoa com grau universitário, o seu empregador o estará contratando por

causa dessas qualidades genéricas, e não pelo seu conhecimento especializado,

o qual não raro é irrelevante para o trabalho que você irá executar.

No entanto, com a crescente ênfase na instrução superior que vem tendo

lugar ultimamente, uma dinâmica nada saudável se estabeleceu com relação a

ela em muitos países de renda elevada e média-alta que podem se dar ao luxo

de expandir as universidades (a Suíça não ficou imune a isso, como o

demonstraram os percentuais que apresentei anteriormente). Uma vez que a

proporção de pessoas que frequentam a universidade ultrapassa um limite

crítico, elas passam a ter que frequentar a universidade para conseguir um

emprego digno. Quando, digamos, 50% da população tem nível universitário,

se você não for para a universidade estará implicitamente declarando que se

encontra na metade inferior da distribuição de habilidades, o que não é a

melhor maneira de começar a procurar um emprego. Portanto, as pessoas vão

para a universidade sabendo perfeitamente que vão “perder tempo” estudando

coisas que nunca precisarão no trabalho. Com todo mundo querendo ir para a

universidade, aumenta a demanda pela instrução superior, o que conduz então

à oferta de mais vagas universitárias, o que aumenta ainda mais a incidência de

matrículas universitárias, o que por sua vez eleva ainda mais a pressão para o

ingresso nas universidades. Com o tempo, isso conduz a um processo de

inflação de graus. Agora que “todo mundo” tem grau universitário, você

precisa fazer um mestrado, ou até mesmo um doutorado, para poder se

destacar, mesmo que o conteúdo de produtividade desses cursos mais

avançados possa ser mínimo para o seu futuro emprego.

Considerando-se que a Suíça foi capaz de manter, até meados da década de

1990, uma das taxas de produtividade nacional mais elevadas do mundo com

uma taxa de matrícula universitária entre 10 e 15%, poderíamos afirmar que

percentuais de matrícula muito mais altos do que isso são na realidade

desnecessários. Mesmo que aceitemos que as exigências de qualificação

aumentaram de tal maneira com o surgimento da economia do conhecimento

que o percentual de matrícula de pelo menos 40% que a Suíça tem hoje seja o mínimo necessário (o que eu seriamente duvido), isso ainda significa que pelo

menos metade da instrução universitária em países como os Estados Unidos, a

Coreia e a Finlândia é “desperdiçada” no jogo da classificação essencialmente

de soma zero. O sistema da instrução superior nesses países tornou-se

semelhante a um teatro no qual algumas pessoas decidiram ficar em pé para

ver melhor, levando as outras que estavam atrás a fazer o mesmo. Quando um

número suficiente de pessoas fica em pé, todo mundo precisa ficar em pé, o

que significa que ninguém está enxergando melhor, ao passo que todo mundo

ficou submetido a um desconforto maior.

 

Instrução versus empreendimento

 

Se não apenas a instrução básica como também a superior não é muito

importante na determinação da prosperidade de uma nação, precisamos

seriamente repensar o papel da escola na nossa economia.

No caso dos países ricos, a sua obsessão pela instrução superior precisa ser

restringida. Essa obsessão conduziu a uma perniciosa inflação de grau e ao

consequente investimento excessivo em grande escala na área da instrução

superior em muitos países. Não sou contra o fato de que os países tenham

uma incidência de matrícula universitária muito elevada — ou até mesmo de

100% — por outras razões, mas eles não devem se iludir achando que isso terá

um efeito significativo na produtividade.

No caso dos países em desenvolvimento, uma mudança de perspectiva

ainda mais radical se faz necessária. Embora eles devam expandir a

escolaridade para preparar os seus jovens para uma vida mais significativa,

quando se trata da questão do aumento da produtividade, esses países

precisam olhar além da instrução das pessoas e se dedicar mais a construir as

instituições e organizações certas para o aumento da produtividade.

O que realmente distingue os países ricos dos mais pobres é bem menos o

quanto os seus cidadãos são individualmente instruídos e bem mais a maneira

como os seus cidadãos estão bem organizados em entidades coletivas com

uma elevada produtividade — sejam as empresas gigantes como a Boeing ou a

Volkswagen, ou as empresas menores de nível internacional da Suíça e da

Itália. O desenvolvimento dessas empresas precisa ser amparado por uma gama de instituições que estimulem o investimento e os riscos — um regime

de comércio que proteja as empresas nas “indústrias que estão na infância”,

um sistema financeiro que forneça um “capital paciente” necessário para

investimentos a longo prazo que aumentem a produtividade, instituições que

deem uma segunda chance tanto para os capitalistas (uma boa lei de falência) e

para os trabalhadores (um bom estado do bem-estar social), subsídios públicos

e uma regulamentação relacionada com a P&D e o treinamento, e assim por

diante.

A instrução é valiosa, mas o seu principal valor não reside em aumentar a

produtividade e sim na sua capacidade de nos ajudar a desenvolver o nosso

potencial e viver uma vida mais gratificante e independente. Se expandirmos a

instrução por acreditar que isso tornará a nossa economia mais rica, ficaremos

seriamente desapontados, porque o vínculo entre a instrução e a produtividade

nacional é bastante tênue e complicado. O nosso excessivo entusiasmo pela

instrução deve ser restringido e, especialmente nos países em desenvolvimento,

uma atenção muito maior precisa ser prestada à questão de estabelecer e

aprimorar os empreendimentos produtivos e as instituições que os amparam.

 

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