23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo

3 - O salário da maioria das pessoas nos países ricos é maior do que deveria ser

 

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O salário da maioria das pessoas nos países ricos

 

é maior do que deveria ser

 

O que eles dizem

 

Em uma economia de mercado, as pessoas são remuneradas de acordo com a

sua produtividade. As pessoas de coração mole podem ter dificuldade em

aceitar que um sueco ganha cinquenta vezes mais do que um indiano para

fazer o mesmo serviço, mas isso é um reflexo da produtividade relativa de cada

um. As tentativas de reduzir artificialmente essas diferenças — por exemplo,

por meio da introdução de uma lei do salário mínimo na Índia — resultou na

remuneração ineficiente do talento e do esforço individuais. Somente um

mercado onde a mão de obra é livre pode remunerar as pessoas de uma

maneira eficiente e justa.

 

O que eles não dizem

 

A defasagem salarial entre os países ricos e pobres não existe principalmente

por causa de diferenças na produtividade individual e sim devido ao controle

da imigração. Se a imigração fosse livre, a maioria dos trabalhadores nos países

ricos poderia ser, e efetivamente seria, substituída por trabalhadores dos países

pobres. Em outras palavras, os salários são determinados politicamente. O

outro lado da moeda é que os países pobres não são pobres por causa das

pessoas pobres, muitas das quais são capazes de superar competitivamente os

seus equivalentes nos países ricos, mas sim por causa das pessoas ricas, cuja

maioria não pode fazer o mesmo. No entanto, isso não significa que os ricos

nos países ricos possam parabenizar a si mesmos pela sua genialidade

individual. Essa elevada produtividade só é possível por causa das instituições

historicamente herdadas nas quais eles se apoiam. Para que possamos construir uma sociedade verdadeiramente justa, precisamos rejeitar o mito de

que todos somos pagos de acordo com o nosso valor individual.

 

Dirigir sempre em linha reta... ou desviar-se da vaca (e do riquixá também)

 

Um motorista de ônibus em Nova Délhi recebe 18 rupias por hora. O seu

equivalente em Estocolmo recebe cerca de 130 coroas, o que, no verão de

2009, equivalia mais ou menos a 870 rupias. Em outras palavras, o motorista

sueco tem uma remuneração quase cinquenta vezes superior à do seu

equivalente indiano.

A economia do livre mercado nos diz que se uma coisa é mais dispendiosa

do que outro produto semelhante, a primeira deve ser melhor. Em outras

palavras, nos livres mercados, os produtos (entre eles os serviços de mão de

obra) recebem o que merecem. Portanto, se um motorista sueco — vamos

chamá-lo de Sven — recebe um salário cinquenta vezes maior do que um

motorista indiano — vamos chamá-lo de Ram — deve ser porque Sven é um

motorista de ônibus cinquenta vezes mais produtivo do que Ram.

A curto prazo, admitirão alguns (embora não todos) economistas que

defendem o livre mercado, as pessoas podem pagar um preço excessivamente

elevado por um produto devido a uma moda ou mania passageira. Por

exemplo, as pessoas pagaram preços absurdos pelos “ativos tóxicos” no

recente boom financeiro (que se transformou na maior recessão desde a Grande

Depressão) porque foram apanhados em um delírio especulativo. No entanto,

argumentariam esses economistas, esse tipo de coisa não pode durar muito, já

que, mais cedo ou mais tarde, as pessoas acabam descobrindo o verdadeiro

valor das coisas. Do mesmo modo, mesmo que um trabalhador

insuficientemente qualificado consiga um emprego bem remunerado por meio

do logro (p. ex., falsificando um diploma) ou blefando em uma entrevista, ele

será rapidamente demitido e substituído, porque logo ficará óbvio que a sua

produtividade não justifica o seu salário. Portanto, prossegue o raciocínio, se

Sven está recebendo uma remuneração cinquenta vezes mais elevada do que a

de Ram, ele precisa estar produzindo cinquenta vezes mais do que Ram.

Mas é isso que realmente está acontecendo? Para começar, é possível que

uma pessoa dirija cinquenta vezes melhor do que outra? Mesmo que, de algum modo, conseguirmos descobrir uma maneira de medir quantitativamente a

qualidade da direção, esse tipo de discrepância na produtividade da direção é

possível? Talvez seja, se compararmos pilotos de corrida profissionais como

Michael Schumacher ou Lewis Hamilton com um determinado rapaz de 18

anos que tenha acabado de passar no exame de motorista. Entretanto,

simplesmente não consigo imaginar como um motorista de ônibus comum

possa dirigir cinquenta vezes melhor do que outro.

Além disso, na verdade, Ram provavelmente seria um motorista muito

mais habilidoso do que Sven. É claro que este último pode ser um bom

motorista de acordo com os padrões suecos, mas por acaso ele já precisou se

desviar de uma vaca alguma vez na vida, algo que Ram tem que fazer

regularmente? Na maior parte do tempo, a única coisa que é requerida de Sven

é a capacidade de dirigir em linha reta (tudo bem, excetuando-se algumas

manobras evasivas para escapar dos motoristas embriagados nas noites de

sábado), enquanto Ram precisa transpor com dificuldade praticamente cada

minuto do percurso, passando por carros de boi, riquixás e bicicletas cobertas

por pilhas de engradados de três metros de altura. Assim, de acordo com a

lógica do livre mercado, Ram deveria ganhar mais do que Sven, e não ao

contrário.

Como resposta, um economista que defenda o livre mercado poderia

argumentar que Sven é mais bem remunerado porque tem mais “capital

humano”, ou seja, habilidades e conhecimento acumulados por meio da

instrução e do treinamento. Na realidade, é praticamente certo que Sven

concluiu o ensino médio, tendo doze anos de escolaridade no seu currículo,

enquanto Ram provavelmente mal sabe ler e escrever, tendo completado

apenas cinco anos de estudos na sua aldeia no Rajastão.

No entanto, apenas uma pequena parte do capital humano adicional que

Sven adquiriu nos seus sete anos suplementares de escolaridade seria relevante

para dirigir um ônibus. Ele não precisa de nenhum conhecimento sobre

cromossomos humanos ou sobre a guerra que a Suécia travou com a Rússia

em 1809 para dirigir bem o seu ônibus. Por conseguinte, o capital humano

adicional de Sven não é capaz de explicar o motivo pelo qual ele recebe um

salário cinquenta vezes superior ao de Ram.

Falando sem rodeios, a principal razão pela qual Sven ganha cinquenta

vezes mais do que Ram é o protecionismo; os trabalhadores suecos são

protegidos da concorrência dos trabalhadores da Índia e de outros países

pobres por meio do controle da imigração. Pensando bem, não existe nenhum

motivo pelo qual todos os motoristas de ônibus suecos ou, por sinal, a maior

parte da força de trabalho sueca (e a de qualquer outro país rico), não

poderiam ser substituídos por alguns indianos, chineses ou ganenses. A

maioria desses estrangeiros ficaria feliz se ganhasse uma fração dos salários

pagos aos trabalhadores suecos, enquanto todos seriam capazes de executar o

trabalho da mesma maneira, ou até mesmo com mais competência. E não

estamos falando apenas de trabalhadores não especializados como faxineiros e

garis. Um número enorme de engenheiros, bancários e programadores de

computador está esperando em Xangai, Nairóbi e Quito, todos capazes de

facilmente substituir os seus equivalentes em Estocolmo, Linköping e Malmö.

No entanto, esses trabalhadores não podem entrar no mercado de trabalho

sueco porque não podem migrar livremente para a Suécia devido ao controle

da imigração. Como resultado, os trabalhadores suecos podem receber

cinquenta vezes a remuneração dos trabalhadores indianos, apesar do fato de

que muitos não apresentam uma taxa de produtividade mais elevada do que a

dos trabalhadores indianos.

 

O elefante na sala

 

A nossa história sobre os motoristas de ônibus revela a existência do

proverbial elefante na sala. Ela demonstra que o padrão de vida da grande

maioria das pessoas nos países ricos depende decisivamente da existência de

um controle extremamente rigoroso dos mercados de trabalho — o controle

da imigração. Apesar disso, este último é invisível para muitos e

deliberadamente desconsiderado por outros, quando falam sobre as virtudes

do livre mercado.

Já argumentei que o livre mercado na realidade não existe, mas o exemplo

do controle da imigração revela a extensão da regulamentação do mercado que

temos em economias supostamente de livre mercado que deixamos de

perceber.

Enquanto se queixam da legislação do salário mínimo, da regulamentação

das horas de trabalho e de várias barreiras “artificiais” ao ingresso no mercado

de trabalho impostas pelos sindicatos, poucos economistas chegam a

mencionar o controle da imigração como uma das desagradáveis

regulamentações que obstruem o funcionamento do mercado da mão de obra

livre. Praticamente nenhum deles defende a extinção do controle da imigração.

No entanto, para serem coerentes, eles deveriam também defender a livre

imigração. O fato de que poucos deles fazem isso uma vez mais demonstra o

meu ponto de vista que expus nas pp. 21-33, ou seja, que o limite do mercado

é politicamente determinado e que os economistas que defendem o livre

mercado são tão “políticos” quanto aqueles que desejam regulamentar os

mercados.

É claro que ao criticar a contradição dos economistas que defendem o livre

mercado com relação ao controle da imigração, não estou defendendo que o

controle da imigração deveria ser extinto; não preciso fazer isso porque (como

você já deve ter percebido a esta altura) não sou um economista que defende o

livre mercado.

Os países têm o direito de decidir o número de imigrantes que aceitam e

em que partes do mercado de trabalho eles poderão atuar. Todas as sociedades

têm uma capacidade limitada de absorver imigrantes, os quais, com frequência,

possuem uma herança cultural diferente, e seria errado exigir que um país

ultrapassasse esse limite. Uma entrada excessivamente rápida de imigrantes não

apenas provocaria um aumento repentino na concorrência pelos empregos

como também dilataria as infraestruturas físicas e sociais, como a moradia e o

sistema de saúde, criando uma tensão com a população residente. Igualmente

importante, se bem que não tão facilmente identificável, é a questão na

identidade nacional. Existe o mito — um mito necessário, mas mesmo assim

um mito — de que as nações possuem uma identidade nacional imutável que

não pode, e não deve, ser modificada. Não obstante, se um número excessivo

de imigrantes entrar no país ao mesmo tempo, a sociedade receptora terá

problemas para criar uma nova identidade nacional, sem a qual ela poderá ter

dificuldade para manter a coesão social. Isso significa que a velocidade e a

proporção da imigração precisam ser controladas.

Isso não quer dizer que as atuais políticas de imigração dos países ricos não

possam ser melhoradas. Embora a capacidade de qualquer sociedade de

absorver imigrantes seja limitada, não é como se a população total fosse fixa.

As sociedades podem decidir ser mais, ou menos, abertas a imigrantes

adotando atitudes e políticas sociais diferentes com relação à imigração. Além

disso, no que diz respeito à composição dos imigrantes, quase todos os países

ricos estão aceitando um número excessivo de pessoas “erradas” do ponto de

vista dos países em desenvolvimento. Alguns países praticamente vendem os

seus passaportes por meio de esquemas nos quais aqueles que levam consigo

mais do que uma certa quantidade de “investimentos” são aceitos mais ou

menos de imediato. Esse esquema só faz contribuir para a escassez de capital

de que se ressentem a maioria dos países em desenvolvimento. Os países ricos

também contribuem para a evasão de intelectualidade dos países em

desenvolvimento ao aceitar com mais boa vontade as pessoas mais

qualificadas. Estas são exatamente as pessoas que poderiam ter contribuído

mais para o desenvolvimento dos seus países de origem do que os imigrantes

não especializados, se tivessem permanecido no seu país natal.

 

Os países pobres são pobres por causa dos seus pobres?

 

A nossa história sobre os motoristas de ônibus não apenas desmascara o mito

de que todo mundo recebe uma remuneração justa, de acordo com o seu valor

em um livre mercado, como também nos oferece um vislumbre importante

com relação à causa da pobreza nos países em desenvolvimento.

Muitas pessoas acham que os países pobres são pobres por causa dos seus

pobres. Na realidade, as pessoas ricas nos países pobres tipicamente atribuem a

pobreza do seu país à ignorância, à preguiça e à passividade dos pobres. Se ao

menos os seus compatriotas trabalhassem como os japoneses, acompanhassem

o ritmo dos alemães e fossem inventivos como os americanos — muitas dessas

pessoas lhe diriam, se você estivesse disposto a ouvi-las — o seu país seria

rico.

Do ponto de vista aritmético, é verdade que são os pobres que puxam para

baixo a receita global média do país. No entanto, os ricos dos países pobres

praticamente não se dão conta de que o seu país é pobre não por causa dos pobres, mas por causa deles próprios. Voltando ao exemplo do motorista de

ônibus, a principal razão pela qual Sven ganha cinquenta vezes mais do que

Ram é o fato de que ele compartilha o seu mercado de trabalho com outras

pessoas que são cinquenta vezes mais produtivas do que os seus equivalentes

indianos.

Mesmo que o salário médio na Suécia seja cerca de cinquenta vezes mais

elevado do que o salário médio na Índia, os suecos de um modo geral

certamente não são cinquenta vezes mais produtivos do que os seus

equivalentes indianos. Muitos deles, inclusive Sven, são provavelmente menos

qualificados, mas existem alguns suecos — os executivos de alto nível,

cientistas e engenheiros de empresas líderes no mundo como a Ericsson, a

Saab e a SKF — que são centenas de vezes mais produtivos do que os seus

equivalentes indianos, de modo que a produtividade nacional média acaba se

situando em torno de cinquenta vezes a da Índia.

Em outras palavras, os pobres dos países pobres em geral conseguem ficar

à altura dos seus equivalentes nos países ricos. São os ricos dos países pobres

que não conseguem fazer isso. É a sua baixa produtividade relativa que faz

com que os seus países sejam pobres, de modo que o seu diatribe costumeiro

de que os seus países são pobres por causa dos pobres é totalmente

inapropriado. Em vez de culpar os seus pobres por arrastar o país para baixo,

os ricos dos países pobres deveriam perguntar a si mesmos por que eles não

conseguem puxar para cima o resto do seu país como fazem os ricos dos

países ricos.

Finalmente, uma palavra de advertência para os ricos dos países ricos, para

que não fiquem presunçosos ao escutar que é a sua produtividade elevada,

aliada ao controle da imigração, que faz com que os pobres dos seus países

sejam bem pagos.

Até mesmo em setores nos quais as pessoas dos países ricos são

genuinamente mais produtivas do que os seus equivalentes nos países pobres,

essa produtividade se deve, em grande parte, ao sistema, e não aos indivíduos

em si. Não é simplesmente, e nem mesmo principalmente, pelo fato de serem

mais inteligentes e mais instruídas que algumas pessoas nos países ricos são

centenas de vezes mais produtivas do que os seus equivalentes nos países

pobres. Elas conseguem isso porque vivem em economias que têm melhores tecnologias, empresas mais organizadas, melhores instituições e uma

infraestrutura de melhor qualidade — coisas que são, em grande parte,

produto de ações coletivas praticadas ao longo de gerações. Warren Buffet, o

famoso financista, expressou belamente este argumento, ao declarar o seguinte

em uma entrevista na televisão em 1995: “Creio pessoalmente que a sociedade

seja responsável por um percentual significativo do que eu ganhei. Se me

colocarem no meio de Bangladesh, do Peru ou de outro lugar semelhante,

vocês descobrirão quanto este talento irá produzir no tipo errado de solo.

Daqui a trinta anos ainda estarei tendo dificuldades. Atuo em um sistema de

mercado que recompensa muito bem o que eu faço, na verdade

desproporcionalmente bem.”

Portanto, estamos na verdade de volta onde começamos. A remuneração

de uma pessoa não é completamente um reflexo do seu valor. A maioria das

pessoas, tanto nos países pobres quanto nos ricos, só ganha o que ganha

devido ao controle da imigração. Até mesmo os cidadãos dos países ricos que

não podem ser facilmente substituídos por imigrantes, podendo-se dizer,

portanto, que eles realmente recebem o que valem (embora possam não

receber — ver pp. 206-217), são tão altamente produtivos apenas por causa do

sistema socioeconômico no qual atuam. Não é somente devido à sua

genialidade individual que eles são extremamente produtivos.

A afirmação amplamente aceita de que somente se não interferirmos nos

mercados as pessoas serão remuneradas corretamente e, portanto, de uma

maneira justa, é um mito. Somente quando nos desfizermos desse mito e

compreendermos tanto a natureza política do mercado quanto a natureza

coletiva da produtividade individual seremos capazes de construir uma

sociedade mais justa na qual legados históricos e ações coletivas, e não apenas

o talento e o esforço individual, sejam adequadamente levados em conta na

decisão de como remunerar as pessoas.

 

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