23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo

15 - As pessoas nos países pobres são mais empreendedoras do que as pessoas nos países ricos

 

15

 

As pessoas nos países pobres são mais

 

empreendedoras do que as pessoas nos países

 

ricos

 

O que eles dizem

 

O empreendedorismo encontra-se na essência do dinamismo econômico. A

não ser que haja pessoas empreendedoras que busquem novas oportunidades

lucrativas gerando novos produtos e atendendo a uma demanda não satisfeita,

a economia não poderá se desenvolver. Na realidade, uma das razões por trás

da ausência de dinamismo econômico em vários países, da França a todos os

estados no mundo em desenvolvimento, é a falta de empreendedorismo. A não

ser que todas as pessoas que ficam sem fazer nada nos países pobres mudem

de atitude e busquem ativamente oportunidades lucrativas, o país delas não vai

se desenvolver.

 

O que eles não dizem

 

As pessoas que vivem nos países pobres precisam ser empreendedoras mesmo

que apenas para sobreviver. Para cada pessoa ociosa em um país em

desenvolvimento, você tem duas ou três crianças engraxando sapatos e quatro

ou cinco pessoas vendendo mercadorias na rua. O que torna pobres os países

pobres não é a ausência de uma energia empreendedora no nível pessoal, e sim

a ausência de tecnologias produtivas e organizações sociais desenvolvidas,

especialmente empresas modernas. Os problemas cada vez mais evidentes do

microcrédito — empréstimos bem pequenos feitos às pessoas pobres nos

países em desenvolvimento com o objetivo declarado de ajudá-las a montar

um negócio — mostram as limitações do empreendedorismo individual.

Especialmente no último século, o empreendedorismo se tornou uma atividade coletiva, de modo que a pobreza da organização coletiva se tornou

um obstáculo ainda maior ao desenvolvimento econômico, e não a

mentalidade empreendedora deficiente das pessoas.

 

O problema dos franceses...

 

George W. Bush, o ex-presidente dos Estados Unidos, supostamente teria se

queixado de que o problema dos franceses é o fato de eles não terem uma

palavra para empreendedorismo no idioma deles. O francês dele talvez não

fosse satisfatório, mas o Sr. Bush estava expressando um preconceito

relativamente comum dos anglo-americanos contra os franceses, que

consideram a França como um país pouco dinâmico e retrógrado repleto de

trabalhadores preguiçosos, pretensiosos intelectuais de esquerda, burocratas

intrometidos e, finalmente e igualmente importante, garçons empolados.

Quer ou não a concepção do Sr. Bush a respeito da França esteja certa

(falarei mais sobre isso mais à frente, e, a perspectiva por trás dessa declaração

é amplamente aceita) precisamos de pessoas empreendedoras para ter uma

economia bem-sucedida. De acordo com esse ponto de vista, a pobreza dos

países em desenvolvimento também é atribuída à falta de empreendedorismo

existente nesses países. Olhe só para todos esses homens sentados, sem fazer

nada, tomando a sua décima primeira xícara de chá de hortelã do dia,

comentam as pessoas dos países ricos ao observar os países pobres; esses

países realmente precisam de pessoas mais ativas e dinâmicas a fim de sair da

situação de pobreza.

No entanto, qualquer pessoa que tenha vindo de um país pobre, ou tenha

vivido em um deles durante algum tempo, sabe que eles fervilham de pessoas

empreendedoras. Nas ruas dos países pobres, você encontra homens, mulheres

e crianças de todas as idades vendendo tudo o que é possível imaginar, além de

coisas que você nem mesmo sabia que poderiam ser compradas. Em muitos

países pobres, você pode comprar um lugar na fila para a seção de vistos da

embaixada americana (que é vendido para você por profissionais que

administram o serviço das filas), o serviço para que “tomem conta do seu

carro” (o que quer dizer “impedir que o seu carro seja danificado”) nos locais

de estacionamento, o direito de montar uma barraca de comida em uma esquina específica (talvez vendido pelo corrupto chefe de polícia da localidade)

ou até mesmo um ponto onde você possa mendigar (vendido pelos gangsteres

do local). Tudo isso é produto da engenhosidade e do empreendedorismo

humanos.

Em contrapartida, a maioria dos cidadãos dos países ricos não chegou nem

perto de se tornar empreendedores. Quase todos trabalham para uma empresa,

algumas das quais com dezenas de milhares de funcionários, em funções

altamente especializadas e executando tarefas extremamente específicas.

Embora alguns deles sonhem em montar um negócio e se “tornar o meu

próprio chefe”, ou pelo menos falem distraidamente sobre isso, poucos

colocam a ideia em prática por ela ser uma coisa difícil e arriscada. Em

decorrência disso, quase todas as pessoas nos países ricos passam a vida

profissional implementando a visão empreendedora de outra pessoa, e não a

delas.

A conclusão é que as pessoas são muito mais empreendedoras nos países

em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. De acordo com um

estudo da OCDE, na maioria dos países em desenvolvimento de 30 a 50% da

força de trabalho não agrícola trabalha por conta própria (o percentual tende a

ser ainda maior na agricultura). Em alguns dos países mais pobres, a proporção

de pessoas que trabalham como empresários individuais pode ser bem mais

elevada: 66,9% em Gana, 75,4% em Bangladesh e espantosos 88,7% em

Benin.[52] Em contrapartida, apenas 12,8% da força de trabalho não agrícola

nos países desenvolvidos trabalha por conta própria. Em alguns países, a

relação não atinge nem mesmo um em dez: 6,7% na Noruega, 7,5% nos

Estados Unidos e 8,6% na França (ao que se revelou, a queixa do Sr. Bush

sobre os franceses foi um caso clássico da pessoa que “tem teto de vidro e

atira pedra no teto do vizinho”). Desse modo, mesmo excluindo os

agricultores (o que tornaria a proporção ainda mais elevada), a chance de uma

pessoa típica em um país em desenvolvimento ser um empresário é mais do

que duas vezes maior do que a daquela que vive em um país desenvolvido

(30% versus 12,8%). A diferença é de 10 vezes, se compararmos Bangladesh

com os Estados Unidos (7,5% versus 75,4%). E no caso mais extremo, a chance

de alguém em Benin ser um empresário é treze vezes maior do que a chance equivalente de um norueguês fazer o mesmo (88,7% versus 6,7%), o que é uma

diferença colossal.

Além disso, mesmo as pessoas que têm um negócio próprio nos países

ricos não precisam ser tão empreendedoras quanto os seus equivalentes nos

países pobres. No caso dos empresários dos países pobres, as coisas dão

errado o tempo todo. Cortes de energia atrapalham a agenda da produção. A

alfândega não libera as peças sobressalentes necessárias para que uma máquina

seja consertada, o que já tinha sofrido um atraso devido à autorização para

comprar dólares americanos. Os insumos não são entregues na hora certa, e o

caminhão de entrega enguiçou de novo — uma vez mais — por causa de

buracos na estrada. E os insignificantes funcionários públicos locais

modificam, e até mesmo inventam, regras o tempo todo a fim de obter

propinas. Lidar com esses obstáculos exige um pensamento rápido e a

capacidade de improvisar. Um empresário americano típico não sobreviveria

uma semana na presença desses problemas, se tivesse que administrar uma

pequena empresa em Maputo ou Phnom Penh.

Portanto, estamos diante de um aparente enigma. Em comparação com os

países ricos, temos um número bem maior de pessoas nos países em

desenvolvimento (do ponto de vista proporcional) envolvidas em atividades

empreendedoras. Além disso, as suas habilidades empreendedoras são postas à

prova com muito mais frequência e rigor do que as dos seus equivalentes nos

países ricos. Como é possível então que esses países mais empreendedores

sejam os mais pobres?

 

Grandes expectativas — as microfinanças entram em cena

 

É claro que a energia empreendedora aparentemente ilimitada das pessoas

pobres nos países pobres não passou despercebida. Existe uma visão cada vez

mais influente de que a máquina do desenvolvimento para os países pobres

deveria ser o chamado “setor informal”, formado por pequenos negócios que

não estão registrados no governo.

O argumento é que as pessoas empreendedoras no setor informal têm

dificuldade não porque careçam da visão e das habilidades necessárias, mas

porque não conseguem obter o dinheiro para concretizar as suas visões. Os bancos regulares as discriminam, ao passo que os agiotas locais cobram taxas

de juros proibitivas. Se elas receberem um pequeno crédito (conhecido como

“microcrédito”) a uma taxa de juros razoável para que possam montar uma

barraca de comida, comprar um telefone celular para alugar para terceiros,

comprar algumas galinhas para vender os ovos, elas conseguirão deixar de ser

pobres. Com esses pequenos empreendimentos formando o grosso da

economia do país em desenvolvimento, o sucesso deles se traduziria em um

desenvolvimento econômico generalizado.

A invenção do microcrédito é comumente atribuída a Muhammad Yunus,

o professor de economia que tem sido a face pública da indústria do

microcrédito desde que ele fundou o pioneiro Grameen Bank em Bangladesh,

o seu país natal, em 1983, embora tivessem havido anteriormente tentativas

semelhantes. Apesar de conceder empréstimos a pessoas pobres,

especialmente a mulheres pobres, que eram tradicionalmente consideradas

casos de alto risco, o Grameen Bank ostentou um elevado coeficiente de

liquidação de dívidas (95% ou mais), demonstrando que os pobres são

altamente lucrativos. Já no início da década de 1990, foi constatado o sucesso

do Grameen Bank, e de alguns outros bancos semelhantes em países como a

Bolívia, e a ideia do microcrédito — ou, de uma maneira mais ampla, das

microfinanças, o que inclui a poupança e o seguro, e não apenas o crédito —

se espalhou rapidamente.

A receita parece perfeita. O microcrédito possibilita que os pobres saiam

da situação de pobreza por meio do seu próprio esforço, proporcionando-lhes

os meios financeiros para que realizem o seu potencial empreendedor. Durante

esse processo, eles adquirem independência e autorrespeito, já que não se

apoiam mais nos donativos do governo e dos organismos internacionais de

ajuda externa. As mulheres pobres são particularmente fortalecidas pelo

microcrédito, já que ele confere a elas a capacidade de ter uma renda própria e

portanto melhorar a sua posição de barganha vis-à-vis com os seus parceiros do

sexo masculino. Sem precisar financiar os pobres, o governo sofre menos

pressão no seu orçamento. Naturalmente, a riqueza criada nesse processo

torna mais rica a economia como um todo, e não apenas os empresários do

setor informal. Considerando-se tudo isso, é compreensível que o Professor

Yunus acredite que, com a ajuda das microfinanças, possamos criar “um mundo livre da pobreza [no qual o] único lugar em que veremos a pobreza

será no museu”.

Em meados da década de 2000, a popularidade das microfinanças alcançou

um nível de exaltação febril. As Nações Unidas chamaram o ano de 2005 de

Ano Internacional do Microcrédito, que recebeu a aprovação da realeza, como

a da Rainha Rania da Jordânia, e também de celebridades, como as atrizes

Natalie Portman e Aishwarya Rai. A ascendência das microfinanças atingiu o

auge em 2006, quando o Prêmio Nobel da Paz foi concedido em conjunto ao

Professor Yunus e ao seu Grameen Bank.

 

A grande ilusão

 

Lamentavelmente, a “badalação” em torno das microfinanças é, bem, apenas

isso — badalação. As críticas às microfinanças estão aumentando, até mesmo

da parte dos seus primeiros “sacerdotes”. Por exemplo, em um recente

trabalho em colaboração com David Roodman, Jonathan Morduch, antigo

defensor das microfinanças, confessa que “surpreendentemente, trinta anos

depois da criação do movimento das microfinanças, temos poucas evidências

concretas de que ela melhore a vida dos clientes de uma maneira mensurável”.

[53] Os problemas são numerosos demais para ser relacionados aqui; quem

estiver interessado pode ler o fascinante livro de Milford Bateman publicado

recentemente, Why Doesn’t Microfinance Work?[54] No entanto, os mais

relevantes para a nossa análise são os que se seguem.

A indústria das microfinanças sempre alardeou que as suas operações

permanecem lucrativas sem subsídios do governo ou contribuições de

doadores internacionais, exceto talvez na fase inicial de desenvolvimento.

Alguns usaram isso como uma evidência de que os pobres são tão capazes

quanto qualquer outra pessoa de atuar no mercado, desde que tenham essa

possibilidade. No entanto, acontece que, sem subsídios dos governos ou de

doadores internacionais, as instituições de microfinanças precisam cobrar, e

vêm cobrando, taxas quase iguais às dos agiotas. Foi revelado que o Grameen

Bank pôde cobrar inicialmente taxas de juros razoáveis apenas por causa dos

subsídios que estava recebendo do governo de Bangladesh e de doadores

internacionais (fato que foi abafado). Se não forem subsidiadas, as instituições de microfinanças precisam cobrar taxas de juros de, tipicamente, 40 a 50% ao

ano pelos seus empréstimos, com as taxas atingindo patamares de 80 a 100%

em países como o México. Quando, no final da década de 1990, o Grameen

Bank sofreu uma grande pressão para abrir mão dos subsídios, ele teve que se

relançar (em 2001) e começar a cobrar taxas de juros de 40 a 50%.

Com taxas de juros que chegam a 100%, poucos negócios podem lucrar o

bastante para pagar os empréstimos, de modo que quase todos os

empréstimos feitos pelas instituições de microfinanças (em alguns casos quase

90% deles) foram usados com a finalidade de consumption smoothing — pessoas

tomando empréstimos para pagar o casamento da filha ou compensar uma

queda temporária da renda devido à doença de um membro da família que

trabalha. Em outras palavras, a maior parte do microcrédito não é usada para

alimentar o empreendedorismo dos pobres, a suposta meta da prática, e sim

para financiar o consumo.

O mais importante é que nem mesmo a pequena parte do microcrédito

que é direcionada para atividades comerciais não está tirando as pessoas da

pobreza. A princípio, isso parece inexplicável. Os pobres que aceitam o

microcrédito sabem o que estão fazendo. Ao contrário dos seus equivalentes

nos países ricos, a maioria deles já administrou algum tipo de negócio. As suas

habilidades comerciais foram extremamente aprimoradas pelo desespero de

sobreviver e pelo desejo de deixar de ser pobres. Eles precisam gerar lucros

muito elevados porque têm que pagar a taxa de juros do mercado. O que então

está saindo errado? Por que todas essas pessoas — altamente motivadas,

possuidoras de relevantes habilidades e fortemente pressionadas pelo mercado

— estão fazendo um esforço tão grande nos seus empreendimentos

comerciais e produzindo resultados tão escassos?

Quando uma instituição de microfinanças começa a operar em uma

localidade, o primeiro grupo de clientes poderá presenciar um aumento na sua

renda, às vezes substancial. Por exemplo, em 1997, quando o Grameen Bank

se associou à Telenor, a companhia telefônica norueguesa, e concedeu

microempréstimos às mulheres para que comprassem um telefone celular e o

alugassem para as pessoas da sua aldeia, essas “damas do telefone” obtiveram

lucros consideráveis — de 750 a 1.200 dólares por ano em um país cuja renda

per capita média estava em torno de 300 dólares. No entanto, com o tempo, os negócios financiados pelo microcrédito ficaram apinhados e os lucros

começaram a cair. Voltando ao caso do telefone do Grameen; em 2005, as

damas do telefone eram tão numerosas que estimava-se que a renda delas

fosse de apenas 70 dólares por ano, embora a renda média anual tivesse subido

para mais de 450 dólares. Esse problema é conhecido como a “falácia da

composição” — o fato de algumas pessoas conseguirem ter sucesso com um

negócio particular não quer dizer que todo mundo consiga ser bem-sucedido.

É claro que esse problema não existiria se novas linhas de negócios

pudessem ser constantemente desenvolvidas — se uma linha de atividade se

torna não lucrativa, por exemplo, simplesmente abrimos outra. Se, por

exemplo, alugar telefones se torna menos lucrativo, você poderia manter o seu

nível de renda fabricando telefones celulares ou programando o software de

jogos para telefones celulares. Obviamente você deve ter percebido o absurdo

dessas sugestões; as damas do telefone de Bangladesh simplesmente não têm

os recursos para entrar no ramo de fabricação de telefones ou do design de

software. O problema é que existe apenas um leque limitado de atividades

(simples) às quais os pobres dos países em desenvolvimento podem se dedicar,

devido às suas habilidades limitadas, à pequena variedade de tecnologias

disponíveis e à reduzida quantidade de financiamento que eles podem

mobilizar por meio das microfinanças. Portanto, você, um pecuarista croata,

que comprou mais uma vaca leiteira por intermédio do microcrédito, continua

apenas a vender leite enquanto observa o preço do leite despencar no mercado

de leite local por causa dos trezentos outros pecuaristas como você que

também estão vendendo uma maior quantidade de leite, porque se tornar um

exportador de manteiga para a Alemanha ou de queijo para a Grã-Bretanha

simplesmente não é possível com a tecnologia, a capacidade organizacional e o

capital que você tem.

 

Não existem mais heróis

 

A nossa discussão até aqui mostra que o que torna pobres os países pobres

não é a falta de uma energia empreendedora individual, o que eles têm na

verdade em abundância. A questão é que o que realmente torna ricos os países ricos é a capacidade deles de canalizar a energia empreendedora individual para

o empreendedorismo coletivo.

Extremamente influenciada pelo folclore capitalista, com personagens

como Thomas Edison e Bill Gates, bem como pelo trabalho pioneiro de

Joseph Schumpeter, o professor austríaco de economia de Harvard, a nossa

visão do empreendedorismo é excessivamente afetada pela perspectiva

individualista; o empreendedorismo é o que fazem essas pessoas heroicas com

uma visão e determinação excepcionais. Por extensão, acreditamos que

qualquer pessoa, desde que se esforce bastante, pode ter êxito nos negócios.

No entanto, mesmo que um dia possa ter sido verdadeira, essa visão

individualista do empreendedorismo está se tornando cada vez mais obsoleta.

No decurso do desenvolvimento capitalista, o empreendedorismo tornou-se

um empreendimento cada vez mais coletivo.

Para começar, até mesmo indivíduos excepcionais como Edison e Gates só

alcançaram êxito porque estavam respaldados por várias instituições coletivas:

toda a infraestrutura científica que possibilitou que eles adquirissem o seu

conhecimento e que também fizessem experiências com ele; as leis

empresariais e outras leis comerciais que tornaram possível que eles

subsequentemente criassem empresas com grandes e complexas organizações;

o sistema educacional que forneceu cientistas, engenheiros, administradores e

trabalhadores altamente treinados que compunham a mão de obra dessas

companhias; o sistema financeiro que possibilitou que eles levantassem um

grande capital quando desejaram se expandir; as leis de patente e de direitos

autorais que protegeram as suas invenções; o mercado facilmente acessível

para os seus produtos e assim por diante.

Além disso, nos países ricos, os empreendimentos cooperam muito mais

entre si do que o fazem os seus equivalentes nos países pobres, mesmo quando

atuam em indústrias semelhantes. Por exemplo, os setores de laticínios em

países como a Dinamarca, a Holanda e a Alemanha se tornaram o que são

hoje apenas porque os seus pecuaristas se organizaram em cooperativas, com a

ajuda do Estado, e investiram em conjunto em recursos de processamento (p.

ex., máquinas de fazer creme) e no mercado internacional. Em contrapartida,

os setores de laticínios dos países dos Bálcãs não conseguiram se desenvolver

apesar de uma grande quantidade de microcrédito ter sido canalizada para eles, porque todos os seus pecuaristas leiteiros tentaram fazer tudo sozinhos. Em

outro exemplo, muitas pequenas firmas na Itália e na Alemanha investiram

conjuntamente em P&D, e também no marketing de exportação, coisas que

estão além dos seus recursos individuais, por meio de associações industriais

(auxiliadas por subsídios do governo), ao passo que as típicas firmas dos países

em desenvolvimento não investem nessas áreas porque elas não possuem esse

mecanismo coletivo.

Mesmo no nível da empresa, o empreendedorismo se tornou altamente

coletivo nos países ricos. Hoje, poucas companhias são dirigidas por

visionários carismáticos como Edison ou Gates, e sim por gestores

profissionais. Ao escrever em meados do século XX, Schumpeter já estava

consciente dessa tendência, embora não estivesse nem um pouco satisfeito

com relação a ela. Ele observou que a crescente escala das modernas

tecnologias estava tornando cada vez mais impossível que uma grande empresa

fosse fundada e administrada por um empresário visionário individual.

Schumpeter previu que a substituição dos empresários heroicos por aqueles

que ele chamava de “tipos executivos” sugaria o dinamismo do capitalismo,

provocando, com o tempo, o seu fim.

Schumpeter se revelou errado nesse aspecto. Ao longo do último século, o

empresário heroico se tornou cada vez mais uma raridade e o processo da

inovação de produtos, processos e marketing — os elementos-chave do

empreendedorismo de Schumpeter — assumiu uma natureza cada vez mais

“coletivista”. No entanto, apesar disso, a economia mundial cresceu muito

mais rápido a partir da Segunda Guerra Mundial, em comparação com o

período que antecedeu a ela. No caso do Japão, as empresas até mesmo

desenvolveram mecanismos institucionais para tirar partido da criatividade de

até mesmo dos mais humildes trabalhadores da linha de produção. Muitos

atribuem o sucesso das empresas japonesas, pelo menos em parte, a essa

característica.

Se o empreendedorismo eficaz um dia foi uma coisa puramente individual,

ele já deixou de sê-lo pelo menos durante o último século. A capacidade

coletiva de construir e administrar organizações e instituições eficazes é hoje

muito mais importante do que os impulsos ou até mesmo dos talentos dos

membros individuais de uma nação na determinação da sua prosperidade. A não ser que rejeitemos o mito dos empresários heroicos individuais e os

ajudemos a construir instituições e organizações de empreendedorismo

coletivo, nunca veremos os países pobres sair da pobreza de uma forma

sustentável.

 

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